História eclesiástica das gentes dos anglos. Livro I

 

 

Índice
Prefácio
Ao gloriosíssimo Rei Ceolvulp, Beda, servo e sacerdote de Cristo.

Livro I
I. Da situação da Bretanha e Irlanda e dos seus antigos habitantes.

II. Caio Júlio César, o primeiro romano que veio até a Bretanha.

III. Cláudio, o segundo dos romanos que vieram até a Bretanha, tornou as Ilhas Órcadas sujeitas ao Império Romano; e Vespasiano, enviado por ele, colocou a Ilha de Wight sob seu domínio.

IV. Lúcio, rei da Bretanha, escreve ao papa Eleutério, desejando se tornar cristão.

V. Como o imperador Severo dividiu e separou aquela parte da Bretanha de todo o resto com uma fortificação.

VI. O reino de Diocleciano, e como ele perseguiu os cristãos.

VII. A paixão de Santo Albano e seus companheiros, que naquele tempo derramaram seu sangue por Nosso Senhor [305 d.C.].

VIII. As perseguições cessam, e a igreja na Bretanha goza de paz até o tempo da heresia ariana [307­337 d.C.].

IX. Como durante o reinado de Graciano, Maximus, tendo se tornado imperador na Bretanha, retornou à Gália com um poderoso exército [A.D. 383.].

X. Como, no reino de Arcádio, Pelágio, um bretão, desafiou insolentemente a Graça de Deus.

XI. Como, durante o reinado de Honório, Graciano e Constantino tornaram-se tiranos na Bretanha. A seguir, ocorre o assassinato do primeiro na Bretanha e do segundo na Gália.

XII. Os bretões, tendo sido arrasados pelos escotos e pictos, buscam o socorro dos romanos que, vindo uma segunda vez, constróem uma muralha em torno da ilha. Mas sendo novamente invadidos pelos inimigos já mencionados, os bretões são levados a uma situação ainda mais angustiante que antes.

XIII. No reino de Teodósio, o Jovem, Paládio foi enviado aos escotos que acreditavam em Cristo; os bretões, implorando a assistência de Aécio, o cônsul, não conseguiram obtê-la [446 d.C.].

XIV. Os bretões, compelidos pela fome, expulsam os bárbaros de seus territórios; logo houve abundância de milho, prazer, peste e a subversão da nação [426­447 d.C.].

XV. Os anglos, tendo sido convidados para vir à Bretanha, a princípio obrigaram o inimigo a se afastar; entretanto, não muito depois, unindo-se em aliança a eles, mostraram suas armas aos seus confederados [450­456 d.C.].

XVI. Os bretões obtiveram sua primeira vitória sobre os anglos, sob o comando de Ambrósio, um romano.

XVII. Como Germânico, o bispo, chegando de barco à Bretanha com Lupus, primeiramente acalmou a tempestade do mar, e depois aquela dos pelagianos, por força divina [429 d.C.].

XVIII. O mesmo homem santo deu visão à filha cega de um tribuno, e então veio até Santo Albano, lá recebendo algumas de suas relíquias e deixando outras dos abençoados apóstolos e outros mártires.

XIX. Como o mesmo homem santo, estando detido lá por uma indisposição, através de suas preces apagou um incêndio que havia se iniciado entre as casas, e foi ele mesmo curado de uma doença por uma visão [429 d.C.].

XX. Como os mesmos bispos pediram a assistência dos Céus aos bretões em uma batalha, e então retornaram para casa [429 d.C.].

XXI. Tendo a heresia pelagiana revivido, Germano, retornando à Bretanha com Severo, inicialmente curou um jovem aleijado, e então, havendo condenado ou convertido os hereges, restauraram a saúde espiritual ao povo de Deus [447 d.C.].

XXII. Os bretões, estando livres por um tempo das invasões estrangeiras, se desgastaram através das guerras civis, e então se dedicaram a crimes ainda mais hediondos.

XXIII. Como o papa Gregório enviou Agostinho com outros monges para pregar à nação inglesa, e encorajou-os, através de uma carta de exortação, a não cessar o seu trabalho [596 d.C.].

XXIV. Como ele escreveu ao Bispo de Arles para entretê-los [596 d.C.].

XXV. Agostinho, chegando à Bretanha, primeiro pregou na Ilha de Thanet ao Rei Etelberto, e tendo obtido licença, entrou no reino de Kent, de modo a pregar lá [597 d.C.].

XXVI. Santo Agostinho seguiu a doutrina e modos de vida da igreja primitiva, e estabeleceu sua sede episcopal na cidade real [A.D. 597].

XXVII. Santo Agostinho, tendo sido feito bispo, envia mensagem ao papa Gregório para deixá-lo ciente do que fora feito, e recebe sua resposta a respeito das dúvidas que havia proposto a ele [597 d.C.].

XXVIII. O papa Gregório escreve ao bispo de Arles para que dê assistência a Agostinho no trabalho de Deus [601 d.C.].

XXIX. O mesmo papa envia a Agostinho o pálio, uma epístola e diversos ministros da Palavra [601 d.C.].

XXX. Uma cópia da carta que papa Gregório enviou ao abade Mélito, que então ia à Bretanha [601 d.C.].

XXXI. O papa Gregório, por carta, exorta Agostinho a não se glorificar de seus milagres [601 d.C.].

XXXII. O papa Gregório envia cartas e presentes ao rei Etelberto.

XXXIII. Agostinho recupera a igreja de nosso Salvador, e constrói o mosteiro de São Pedro Apóstolo; Pedro é o primeiro abade do mesmo [602 d.C.].

XXXIV. Etelfrid, rei dos nortumbrianos, tendo derrocado as gentes dos escotos, os expulsa dos territórios dos anglos [603 d.C.]

Prefácio
Ao gloriosíssimo rei Ceovulp, Beda, servo e sacerdote de Cristo

Com toda a presteza enviei a História Eclesiástica das Gentes dos Anglos que publiquei recentemente a seu pedido, rei, com toda a presteza para que o senhor a lesse e desse sua aprovação. Agora eu a envio novamente para ser transcrita e examinada mais completamente e com toda a ponderação. Eu não posso deixar de louvar a sinceridade e o zelo com os quais o senhor não apenas deu ouvidos às palavras da Sagrada Escritura mas também laboriosamente cuidou de se familiarizar com as ações e os ditos de antigos homens de renome, especialmente de sua própria gente.

Pois se a história relata boas coisas de bons homens, o ouvinte atento é animado a imitar aquilo que é bom; ou se menciona atos maus de pessoas malvadas, ainda assim o ouvinte religioso e piedoso, rechaçando aquilo que é doloroso e perverso, fica ainda mais fortemente animado a fazer aquelas coisas que sabe serem boas e dignas de Deus. História que o senhor, também sendo profundamente sensato, está desejoso que deva ser tornada completamente familiar para o senhor e para aqueles sobre os quais a Divina Providência quis que o senhor governasse, devido ao seu grande cuidado com o bem estar geral destes.

Mas com o intuito de remover toda a ocasião de dúvida da veracidade daquilo que escrevi, tanto para o senhor quanto para outros leitores ou ouvintes desta história, tomarei o cuidado de brevemente citar de quais autores, em grande parte, eu construí a mesma. Minha principal autoridade e auxílio neste pequeno trabalho foi o douto e reverendo abade Albino, homem instruído em toda a sorte de conhecimento, educado na Igreja de Canterbury por aqueles veneráveis e cultos homens, arcebispo Teodoro, de abençoada memória, e o abade Adriano, e que transmitiu para mim através de Notelmo, o piedoso sacerdote da Igreja de Londres, seja por escrito ou através da narração feita por este mesmo Notelmo, tudo que pensou ser digno de memória que havia sido feito na província de Kent ou nas áreas adjacentes pelos discípulos do abençoado papa Gregório, da forma que ele havia aprendido, seja nos documentos escritos, seja através das tradições de seus ancestrais.

O mesmo Notelmo, indo à Roma posteriormente, e tendo pesquisado nos arquivos da sagrada Igreja Romana com a permissão do atual papa Gregório, encontrou lá algumas epístolas do abençoado papa Gregório e de outros papas, e retornando para casa, através do conselho do já citado muito reverendo padre Albino, trouxe-as para mim para serem inseridas na minha história.

Desta forma, do início deste volume até o tempo no qual a nação inglesa recebeu a fé de Cristo, temos colecionado os escritos de nossos predecessores e destes recolhemos grande parte do material de nossa história. Mas daquele tempo até o presente, o que se passou na Igreja de Canterbury, feito pelos discípulos de São Gregório ou seus sucessores, e sob quais reis estes eventos se sucederam, foi transmitido para nós por Notelmo, fruto da labuta do já mencionado abade Albino. Eles também me informaram parcialmente sob quais bispos e reis as províncias dos saxões do Oriente e do Ocidente, e também dos anglos do Oriente, bem como os nortumbrianos, receberam a fé de Cristo.

Resumindo, eu estava fortemente animado a assumir este trabalho devido às persuasões deste mesmo Albino. De forma similar, Daniel, o muitíssimo reverendo bispo dos saxões do Ocidente que ainda vive, me comunicou por escrito algumas coisas relacionadas à história eclesiástica daquela província, e daquela próxima a ela, a dos saxões do Sul, como também da ilha de Wight. Mas agora, através do piedoso ministério de Cedd e Ceadda, a província dos mercianos foi trazida para a fé de Cristo, fé que eles não conheciam antes, e aquela dos saxões do Oriente foi recuperada da mesma forma, após havê-la expulsado; e o modo como aqueles padres viveram e morreram foi-nos ensinado pelos irmãos do mosteiro, construído por eles e chamado de Lastingham.

Foi-nos elucidado quais transações eclesiásticas ocorreram na província dos anglos do Oriente em parte através dos escritos e tradição de nossos ancestrais e em parte através do muito reverendo abade Ésio. Soubemos o que foi feito em prol da divulgação da fé e qual foi a sucessão sacerdotal na província de Lindsey através das cartas do muito reverendo prelado Cunebert ou pelo relato oral de outras pessoas de bom crédito. Eu não recebi de nenhum autor em particular o que foi feito na Igreja por toda a província dos nortumbrianos, do tempo em que eles receberam a fé de Cristo até o momento presente, somente através do testemunho fiel de inúmeras testemunhas, que poderiam saber ou lembrar de algo, além do que já era de meu próprio conhecimento. Aqui deve ser observado tudo que escrevi concernente ao nosso mais santo padre, bispo Cutberto, seja neste volume ou em meu tratado sobre sua vida e feitos, eu parcialmente tirei e fielmente copiei do que encontrei escrito sobre ele pelos irmãos da igreja de Lindisfarne.

Ao mesmo tempo tive o cuidado de acrescentar coisas que eu mesmo tinha conhecimento pelo testemunho fiel daqueles que o conheceram. Eu humildemente peço ao leitor que se ele achar nisto que escrevemos qualquer coisa que não tenha sido contada de acordo com a verdade, que não impute a mesma a mim que, como requer a regra da História, tenho trabalhado sinceramente para colocar por escrito tudo aquilo que pude colher de relato comum, para a instrução da posteridade.

Mais ainda: eu imploro a todos os homens que ouvirão ou lerão esta história de nossa nação, que pelas minhas muitas enfermidades tanto de corpo quanto de espírito, ofereçam freqüentes súplicas ao Trono da Graça. E eu peço ainda que, em recompensa por este trabalho que tenho registrado, das diversas regiões e cidades cujos eventos eram mais dignos de nota e mais gratos aos ouvidos de seus habitantes, eu possa como prêmio ter o benefício de suas piedosas preces.

Livro I
I - Da situação da Bretanha, da Irlanda e de seus antigos habitantes

A Bretanha, uma ilha no oceano, em outros tempos chamada de Albion, está situada entre o norte e o ocidente, avistando, apesar fazê-lo de uma considerável distância, as costas da Germânia, Gália e Espanha, que formam a maior parte da Europa. Se estende por 800 milhas de comprimento em direção norte, e por 200 milhas de largura, exceto onde diversos promontórios aumentam sua largura, e pelos quais sua extensão se torna de 3675 milhas. Ao sul, pela praia mais próxima da Gália belga, a primeira localidade na Bretanha que se abre às vistas é a cidade de Porto Rutubi, nome corrompido pelos ingleses para Reptacestir. A distância de lá, através do mar, até Gessoriacum, a mais próxima praia dos morini, é de cinqüenta milhas, ou como alguns escritores dizem, 450 furlongs. Na parte de trás da ilha, onde ela se abre para o oceano infinito, temos as ilhas chamadas Órcadas.

A Bretanha possui excelentes grãos e árvores e está bem adaptada para a alimentação do gado e das bestas de carga. Ela também produz vinho em alguns lugares e possui muitos pássaros de diversos tipos, do mar e da terra; também pode se destacar pelos rios abundantes de peixes e por suas muitas nascentes. Tem a maior abundância de salmão e enguias; focas, golfinhos e baleias são muitas vezes pescadas, além de toda a sorte de mariscos, como mexilhões, nas quais muitas vezes se encontram excelentes pérolas de todas as cores, vermelhas, roxas, violetas e verdes, mas principalmente brancas. Há também grande abundância de mariscos-da-pedra, dos quais é feita uma tintura escarlate, uma cor muito bela, que nunca esmaece com o calor do sol ou com a água da chuva, mas quanto mais antigo a tintura, mais bela se torna a cor.

A ilha possui tanto sal quanto nascentes de águas quentes, e destas fluem rios que abastecem os banhos, próprios para todas as idades e sexos, e organizados de acordo. Pois a água, como diz São Basil, recebe a qualidade do calor quando passa por certos metais, e se torna não apenas quente, mas fervente. A Bretanha também possui muitos veios de metal precioso, como o cobre, o ferro, o chumbo e a prata, tem abundância de excelente azeviche, que é preto brilhante e faiscante diante o fogo, e quando aquecido espanta as serpentes; ao ser aquecido através de fricção, segura firmemente aquilo que é aplicado a ele, como o âmbar. A ilha foi anteriormente embelezada com vinte e oito nobres cidades, além de inumeráveis castelos, que foram todos fortemente cercados com muralhas, torres, portões e trancas.

Por estar situada quase que abaixo do Pólo Norte, as noites são claras no verão, tanto que, à meia-noite, os que as contemplam muitas vezes ficam em dúvida se o lusco-fusco do entardecer continua ou se é aquele do amanhecer que chega; pois o sol, à noite, retorna para debaixo da terra, pelo caminho das regiões do norte que não ficam a grandes distâncias dele. Por esta razão, os dias são de longa duração durante o verão, e, em oposição, as noites o são no inverno, pois o sol nesta época se refugia nas regiões do sul, e, portanto, as noites têm a duração de 18 horas. Desta forma, as noites são extraordinariamente curtas no verão, e os dias no inverno, de apenas seis horas equinociais. Enquanto isso, na Armênia, Macedônia, Itália e outros países da mesma latitude, o dia ou noite mais longos se estendem apenas por quinze horas, e os mais curtos por nove.

Esta ilha no presente, seguindo o número de livros nos quais a Lei Divina foi escrita, contém cinco nações, os anglos, os bretões, os escotos, os pictos e os latinos, cada um em seu dialeto peculiar cultivando o estudo sublime da Verdade Divina. O idioma latino se tornou, devido ao estudo das Escrituras, comum a todos os povos.

Esta ilha inicialmente não possuía outros habitantes além dos bretões, de quem deriva seu nome, e estes, adentrando a Bretanha vindos da Armórica, como já foi relatado, tomaram posse das áreas situadas ao sul da mesma. Tendo iniciado pelo sul, eles se tornaram mestres da maior parte da ilha, quando então a nação dos pictos, da Cítia, como se relatou, tomou o caminho do mar em alguns poucos grandes barcos, levados pelos ventos para além das praias da Bretanha. Chegaram então à costa norte da Irlanda, onde, encontrando a nação dos escotos, imploraram permissão para se estabelecer junto destes, sem conseguir sucesso em seu pedido. A Irlanda é a maior ilha próxima à Bretanha, e fica a leste dela; mas, na medida que é menos extensa que a Bretanha para o norte, por outro lado, se estende muito mais ao sul, em oposição à parte norte da Espanha, apesar de um mar espaçoso se colocar entre elas.

Os pictos, como foi dito, chegando a esta ilha por mar, desejavam ter uma parte dela doada a eles para que lá pudessem se estabelecer. Os escotos responderam que a ilha não poderia conter a ambos, mas disseram eles: “Podemos oferecer bom conselho sobre o que fazer. Sabemos que existe um outra ilha, não distante da nossa, na direção do oriente, que muitas vezes vislumbramos na distância, quando os dias estão claros. Se vocês forem até lá, conseguirão se estabelecer; ou, se sofrerem oposição, terão a nossa ajuda.”

Desta forma, navegando até a Bretanha, os pictos começaram a habitar a parte norte da mesma, pois os bretões tinham a posse da parte sul. Ora, os pictos não tinham esposas. Assim as pediram aos escotos, que não consentiriam cedê-las em quaisquer outros termos, a não ser que, quando surgisse alguma dificuldade, eles deveriam escolher um rei da linhagem das mulheres ao invés da dos homens. Este costume, como é bem sabido, tem sido observado entre os pictos até o dia de hoje.

No prosseguimento do tempo, além dos bretões e pictos, a Bretanha recebeu uma terceira nação, os escotos: Migrando da Irlanda sob o seu líder, Reuda, seja por meios justos, seja por força de armas, asseguraram para si aqueles povoados entre os pictos que ainda hoje possuem. Do nome do seu comandante, eles são até hoje chamados de Dalreudins, pois em sua língua, Dal significa “uma parte”.

A Irlanda, em tamanho, pela qualidade e serenidade de seu clima, em muito ultrapassa a Bretanha, pois quase nunca a neve se acumula por mais de três dias; nenhum homem faz feno durante o verão para a provisão do inverno, ou constrói estábulos para suas bestas de carga. Não se encontram répteis naquele lugar, e nenhuma serpente pode viver lá. Apesar de muitas vezes transportadas até lá da Bretanha, assim que o navio se aproxima da praia e o odor do ar chega até elas, elas morrem. Ao contrário, quase tudo na ilha é bom contra veneno. Em suma, soubemos que quando pessoas eram mordidas por serpentes, raspas de folhas trazidas da Irlanda eram colocadas em água e dadas para beber a estas pessoas.

Imediatamente expulsavam o veneno que se espalhava, acalmando o inchaço. A ilha é plena de leite e mel e não há falta de vinhas, peixe ou pássaros, sendo incrível para gamos e cabras. Em propriedade é o país dos escotos que, migrando de lá, como já foi dito, adicionaram uma terceira nação à Bretanha, junto com os bretões e os pictos.

Existe um grande golfo de mar que anteriormente dividia a nação dos pictos da dos bretões. Tal golfo, vindo do ocidente, invade profundamente a terra onde até os dias de hoje fica Aicluith, forte cidade dos bretões. Os escotos se estabeleceram lá chegando pelo lado norte desta baía.

II - Caio Júlio César, o primeiro romano que veio até a Bretanha

A Bretanha jamais havia sido visitada pelos romanos, sendo totalmente desconhecida por eles antes do tempo de Caio Júlio César, que, no ano 693 após a construção de Roma, sexagésimo ano antes da incarnação de Nosso Senhor, era cônsul, juntamente com Lucius Bibulus, e após esse tempo, enquanto fazia guerra contra germanos e gauleses, que eram separados apenas pelo rio Reno, entrou na província dos morini, onde se encontra a mais próxima e curta passagem para a Bretanha. Ali, tendo providenciado cerca de oitenta navios de carga e navios com remos, navegou até a Bretanha, onde, sendo primeiramente tratado com dureza em batalha e encontrando uma violenta tempestade, perdeu uma parte considerável de sua frota, um não menor número de soldados e quase todos os seus cavalos.

Retornando à Gália, ele colocou suas legiões em abrigos de inverno e deu ordens para a construção de seiscentos barcos dos dois tipos. Com estes, ele novamente fez a passagem para a Bretanha no início da primavera, mas, enquanto marchava com um grande exército ao encontro do inimigo, os navios, estando ancorados, foram jogados uns contra os outros ou jogados em direção da areia e naufragados por uma tempestade. Quarenta deles sucumbiram e o resto foi, com muita dificuldade, consertado.

No primeiro ataque, a cavalaria de César foi derrotada pelos bretões. Labienus, o tribuno, foi morto. Num segundo encontro, com grande dano para seus homens, ele fez com que os bretões batessem em retirada. De lá prosseguiu para o rio Tâmisa, onde uma imensa quantidade dos inimigos se posicionara na margem mais distante do rio, sob o comando de  Cassibelaun, e fizeram paliçada na margem e em quase todo o passo debaixo d’água com estacas pontiagudas. Restos dessas estacas podem ser vistos até o dia de hoje, tendo aparentemente a grossura da coxa de um homem.

Recobertas com chumbo, elas permanecem fixas e imóveis no fundo do rio. Esta barragem foi evitada pelos romanos, e como os bárbaros foram incapazes de enfrentar o choque com as legiões, esconderam-se na floresta, de onde atormentavam dolorosamente os romanos com repetidos ataques. Entrementes, a forte cidade de Trinovantum, com seu comandante Androgeus, se rendeu a César, dando a ele quarenta reféns. Muitas outras cidades, seguindo seu exemplo, fizeram tratados com os romanos.

Com a assistência dessas cidades, e com muita dificuldade, César finalmente tomou a cidade de Cassibelaun, situada entre dois pântanos, fortificada pelas florestas adjacentes e plenamente fornecida de tudo o que era necessário. Depois disso, César retornou à Gália, mas mal havia colocado suas legiões em abrigos de inverno quando foi repentinamente assediado e perturbado com guerras e tumultos levantados contra ele por todos os lados.

III - Cláudio, o segundo dos romanos que vieram até a Bretanha, tornou as ilhas Órcadas sujeitas ao Império Romano. Vespasiano, enviado por ele, colocou a ilha de Wight sob seu domínio

No ano de Roma de 798, Cláudio, quarto imperador desde Augusto, tinha o desejo de provar-se como um benéfico príncipe para a República, e energicamente se inclinou para a guerra e a conquista, organizando uma expedição para a Bretanha, que parecia estar excitada a ponto de uma rebelião pela recusa dos romanos de entregar certos desertores. Ele foi o único, antes ou depois de Júlio César, que havia ousado colocar os pés na ilha. Entretanto, dentro de poucos dias, sem nenhuma luta ou derramamento de sangue, a maior parte da ilha rendeu-se em suas mãos. Ele também adicionou ao império romano as ilhas Órcadas, que estão no oceano além da Bretanha. Então, retornando a Roma no sexto mês após sua partida, ele deu a seu filho o título de Britânico. Ele concluiu essa guerra no quarto ano de seu império, que é o quadragésimo sexto da Encarnação de Nosso Senhor. Nesse ano ocorreu uma severíssima escassez de comida na Síria, que nos Atos dos Apóstolos é relatada como tendo sido prevista pelo profeta Agabus.

Vespasiano, imperador após Nero, tendo sido enviado pelo mesmo Cláudio até a Bretanha, anexou ao domínio romano a Ilha de Wight, que é próxima à Bretanha ao sul e tem aproximadamente trinta milhas de comprimento do oriente ao ocidente, doze de norte a sul, estando a seis milhas de distância da costa sul da Bretanha na sua extremidade oriente, e apenas três milhas na extremidade ocidente. Nero, sucedendo Cláudio no Império, não tentou coisa alguma em assuntos marciais. Portanto, entre outros inúmeros detrimentos trazidos ao estado romano, ele quase perdeu a Bretanha, pois sob seu governo duas muito nobres cidades foram tomadas e destruídas.

IV - Lucius, rei da Bretanha, escreve ao papa Eleutério, desejando se tornar cristão

No ano 156 da encarnação de Nosso Senhor, Marco Antônio Vero, décimo quarto desde Augusto, tornou-se imperador junto com seu irmão, Aurélio Cômodo. No tempo destes, Eleutério, um homem santo, presidia a igreja romana e Lucius, rei dos bretões, enviou uma carta a ele, pedindo que pudesse se tornar um cristão por seu comando. Ele logo obteve seu piedoso pedido, e os bretões mantiveram sua fé, que haviam recebido incorrupta e na sua totalidade, em paz e tranqüilidade, até a época do imperador Diocleciano.

V - Como o imperador Severo dividiu e separou aquela parte da Bretanha de todo o resto com uma fortificação

No ano da Graça de 189, Severo, um africano, nascido em Leptis, província de Trípoli, recebeu o púrpura imperial. Ele foi o décimo sexto desde Augusto, e reinou dezessete anos. Sendo naturalmente rígido e tendo se engajado em muitas guerras, ele governou o estado com vigor, mas com bastante discórdia. Tendo saído vitorioso das terríveis guerras civis que ocorreram em seu tempo, ele foi chamado à Bretanha pela revolta de quase todas as tribos confederadas.

Após muitas e perigosas batalhas, ele achou por bem dividir aquela parte da ilha que ele havia recuperado dos outros povos não conquistados, não com uma muralha, como imaginam alguns, mas com uma fortificação. Pois uma muralha é feita de pedras, mas uma fortificação, com a qual os campos são fortificados para repelir os assaltos dos inimigos, é feita de tijolos de leiva, cortados da terra, e levantados acima do chão por toda a volta como uma parede, tendo à sua frente um fosso de onde os tijolos de leiva foram retirados com fortes varas de madeira tendo sido fixadas no seu topo.

Dessa forma, Severo construiu um grande fosso e uma poderosa fortificação, engrandecida com diversas torres, do mar ao mar. Logo depois caiu doente e morreu em York, deixando dois filhos, Bassiano e Geta. Geta morreu, julgado inimigo público, mas Bassiano obteve o império, tendo tomado o nome de Antonino.

VI - O reino de Diocleciano e como ele perseguiu os cristãos

No Ano da Encarnação de Nosso Senhor de 286, Diocleciano, trigésimo terceiro desde  Augusto e escolhido imperador pelo exército, reinou vinte anos, e tornou Maximiano, chamado de Herculius, seu colega no império. Em seu tempo, certo Carausius, de muito baixa origem, mas um soldado habilidoso e capaz, tendo sido indicado para guardar os litorais, naquele tempo infestados pelos francos e saxões, agiu mais para o prejuízo que para a vantagem do estado. Pelo fato de não ter devolvido aos seus donos a pilhagem recuperada dos ladrões, mantendo-a toda para si, suspeitou-se que fora por negligência intencional que deixara o inimigo infestar as fronteiras. Sabendo, portanto, que uma ordem havia sido enviada por Maximiano para que fosse executado, ele tomou para si os mantos imperiais e a posse da Bretanha, e depois de ter com galhardia mantido sua posse pelo espaço de sete anos, foi finalmente executado através da traição de um associado seu, Alectus. O usurpador, tendo desta forma tomado a ilha de Carausius, manteve a posse dela por três anos, e foi então exterminado por Asclepiodotus, capitão da guarda pretoriana, que feito isso, ao fim de dez anos, restaurou a Bretanha ao Império Romano.

Entrementes, Diocleciano no Oriente e Maximiano Herculius no Ocidente ordenaram que as igrejas fossem destruídas e que os cristãos fossem assassinados. Esta perseguição era a décima desde o reinado de Nero, e foi mais duradoura e sangrenta que todas as que a precederam, pois deu-se ininterruptamente por um período de dez anos, com a queima de igrejas, a marginalização de pessoas inocentes e o abate dos mártires. Após certo tempo, ela alcançou também a Bretanha, e muitas pessoas, com a constância dos mártires, morreram por professar sua fé.

VII - A paixão de Santo Albano e seus companheiros, que naquele tempo derramaram seu sangue por Nosso Senhor [305 d. C.]

Naquele tempo sofreu santo Albano, de quem o padre Fortunato, em seu “Louvor às Virgens”, onde menciona os abençoados mártires que chegaram ao Senhor de todas as partes do mundo, diz: “Na ilha da Bretanha nasceu o santificado Albano. Este Albano, sendo ainda pagão, no tempo em que as crueldades de príncipes malvados assolavam os cristãos, ofereceu hospitalidade em sua casa a um certo homem do clero, que fugia de seus perseguidores. Ele observou que este homem estava em estado de prece contínua, em vigília noite e dia. Então, repentinamente, a Graça Divina brilhou sobre ele, que pôs-se a imitar o exemplo de fé e pia atitude que havia sido posta à sua frente.

Assim, sendo gradualmente instruído pelas salutares admoestações deste padre, ele lançou longe a escuridão da idolatria e tornou-se cristão, com toda a sinceridade de seu coração. Estando o já mencionado padre hospedado por alguns dias com ele, chegou aos ouvidos do malvado príncipe que este santo confessor de Cristo, cuja hora do martírio ainda não havia chegado, estava escondido na casa de Albano. E foi então que ele enviou alguns soldados para fazer uma severa busca. Quando chegaram à casa do mártir, santo Albano imediatamente se apresentou aos soldados, ao invés do seu convidado e mestre, no hábito ou comprido casaco que aquele usava, e foi levado amarrado perante o juiz.

Aconteceu que este juiz, na hora em que Albano foi trazido à sua frente, estava em pé em frente ao altar, oferecendo sacrifício aos demônios. Quando viu Albano, enraivecendo-se muito pelo fato de que ele havia daquela forma, de vontade própria, colocado a si mesmo nas mãos dos soldados e incorrido em tamanho perigo no lugar do seu convidado, ele comandou que este fosse arrastado até as imagens dos demônios, diante das quais ele estava, dizendo, “Por teres escolhido esconder uma pessoa rebelde e sacrílega ao invés de entregá-lo aos soldados, para que seu desprezo pelos deuses encontrasse o castigo merecido por tal blasfêmia, tu sofrerás toda a punição reservada a ele se não abandonares a crença da tua religião.”

Mas santo Albano, tendo-se voluntariamente declarado um cristão aos perseguidores da fé, não estava sequer amedrontado pelas ameaças do príncipe, pelo contrário, vestindo a armadura da guerra espiritual, publicamente declarou que não obedeceria aquela ordem. Então disse o juiz, “De que família ou raça tu és?” Respondeu Albano: “- No que isto concerne a ti, de onde fui gerado? Se você deseja saber a verdade de minha religião, que seja dado a conhecer a você que eu sou agora um cristão, e preso pelas obrigações cristãs.” “­ Eu pergunto o seu nome,” disse o juiz, “diga-o imediatamente.” Ele replicou: “- Eu sou chamado de Albano por meus pais, e venero e adoro o verdadeiro Deus vivo, que criou todas as coisas.” Então o juiz, inflamado por sua ira, disse: “- Se você deseja usufruir da felicidade da vida eterna, não hesite em oferecer sacrifício aos grandes deuses.” Albano retrucou: “- De nada adiantam estes sacrifícios que você oferece aos demônios; eles não podem atender os pedidos e desejos daqueles que enviam as suas súplicas. Pelo contrário, aquele que oferecer sacrifício a estas imagens receberá as infinitas dores do inferno como recompensa.”

Ao ouvir estas palavras, e irado ao extremo, o juiz ordenou que este santo confessor de Deus fosse chicoteado pelos algozes, acreditando que pelas tiras do chicote poderia abalar a constância daquele coração, sobre o qual palavras não prevaleceram. Este, sendo muito cruelmente torturado, suportou a tortura pacientemente, ou mesmo alegremente, por Nosso Senhor. Quando o juiz percebeu que ele não seria conquistado por torturas ou afastado do exercício da religião cristã, ordenou que fosse morto. Sendo levado até sua execução, ele chegou a um rio, que corria entre a muralha da cidade e a arena onde seria executado com uma correnteza bastante forte.

Neste lugar ele viu uma multidão de pessoas de ambos os sexos e de diversas idades e condições sociais, que indubitavelmente estavam ali congregadas por instinto divino para assistir o abençoado confessor e mártir, e tinham de tal forma tomado a ponte sobre o rio que ele não podia passar para o outro lado naquela noite. Em suma, quase todos tinham saído, de forma que o juiz permaneceu na cidade sem acompanhantes. Santo Albano, portanto, tomado por um ardente e devoto desejo de chegar rapidamente ao martírio, aproximou-se do riacho, e ao levantar seus olhos para o céu, o canal imediatamente secou, e ele percebeu que a água havia partido e feito um caminho para que ele passasse. Entre os outros, o executor que devia causar sua morte observou isto e, movido por inspiração divina, correu ao encontro dele no seu local de execução e, lançando longe a espada que já carregava desembainhada, caiu a seus pés, rogando sofrer com o mártir que ele havia recebido ordem de executar, ou, se possível, no lugar deste.

Enquanto este, de perseguidor se tornava companheiro de fé, e os outros algozes hesitavam tomar a espada que estava caída no chão, o reverendo confessor, acompanhado pela multidão, subiu uma colina, a aproximadamente 500 passos do lugar e adornada, ou melhor, vestida com todos os tipos de flores, tendo seus lados nem perpendiculares, nem em forma de penhasco, mas possuidores de uma suave inclinação que terminava em uma muito bela planície, merecedora pela sua bela aparência de ser o cenário dos sofrimentos de um mártir. No topo desta colina, santo Albano orou para que Deus lhe desse água, e imediatamente uma fonte viva brotou diante de seus pés, com seu curso confinado, para que todos os homens percebessem que o rio também havia secado em consequência da presença do mártir. Nem era provável que o mártir, que não havia deixado que permanecesse água no rio, quisesse alguma no topo da colina, a não ser que achasse tal coisa apropriada à ocasião.

O rio, tendo executado seu sagrado serviço, retornou ao seu curso natural, deixando um testemunho de sua obediência. Neste lugar, portanto, a cabeça do tão corajoso mártir foi cortada, e ali ele recebeu a coroa da vida, que Deus prometeu àqueles que O amam. Mas aquele que deu o golpe maldoso não foi permitido regozijar a morte do falecido, pois seus olhos caíram ao chão junto com a cabeça do abençoado mártir.

Naquele mesmo instante o soldado que através da admoestação divina recusou dar o golpe mortal no santo confessor foi decapitado. Está claro que apesar de não ter sido regenerado pelo batismo ele foi limpo belo banho em seu próprio sangue, e tornou-se merecedor de entrar no reino dos céus. Então o juiz, assombrado com a nova de tantos milagres do céu, ordenou que cessasse imediatamente a perseguição, começando a honrar a morte dos santos, através da qual ele antes achara que estes pudessem ser afastados da fé cristã. O abençoado Albano sofreu a morte no vigésimo segundo dia de junho, próximo à cidade de Verulano, hoje chamada pelas gentes dos anglos de Verlamacestir, ou Varlingacestir, onde depois, quando foram restaurados os tempos de paz cristã, uma igreja de maravilhoso artesanato e apropriada ao seu martírio foi erigida. Neste lugar não cessa até hoje a cura de pessoas doentes, e a freqüente sucessão de maravilhas.

Ao mesmo tempo sofreram Aarão e Júlio, cidadãos de Chester, e muitos outros de ambos os sexos em diversas localidades, que, após terem suportado tormentos vários, e terem seus membros arrancados de uma maneira nunca antes vista, entregaram suas almas para o alto, para gozar na cidade celeste a recompensa dos sofrimentos pelos quais tinham passado.

VIII - As perseguições cessam e a Igreja na Bretanha goza de paz até o tempo da heresia ariana [307­337 d. C.]

Quando cessou a tempestade de perseguições, os fiéis cristãos que durante o tempo do perigo haviam se escondido em florestas, desertos e cavernas secretas, apareceram em público, reconstruíram as igrejas que haviam sido lançadas ao chão, fundaram, erigiram e terminaram os templos dos santos mártires. Desta forma, demonstraram suas insígnias de vitória em todos os lugares. Eles ainda organizaram festivais e celebraram seus ritos sagrados com corações e bocas limpas. Esta paz teve continuidade nas igrejas da Bretanha até o tempo da fúria ariana, a qual tendo corrompido todo o resto do mundo com o veneno de suas flechas, infectou também esta ilha, apesar de estar tão removida do compasso do mundo. Quando a peste foi desta forma trazida do outro lado do mar, abriram-se as comportas, e toda a sorte de veneno e heresia imediatamente correu para a ilha, e ali foram recebidos por seus habitantes, sempre amigos de algo novo, e nunca se agarrando firmemente a coisa alguma.

Neste tempo, Constâncio, que, enquanto Diocleciano era vivo governou a Gália e a Espanha, um homem de extraordinária mansidão e cortesia, morreu na Bretanha. Este homem deixou um filho de nome Constantino, nascido de sua concubina Helena, como imperador dos galeses. Eutrópio escreve que Constantino, tendo se tornado imperador na Bretanha, sucedeu seu pai no trono. No seu tempo a heresia ariana se iniciou, e apesar de ter sido detectada e condenada no Concílio de Nicéia, ainda assim infectou não somente todas as igrejas do continente, mas mesmo aquelas das ilhas, com doutrinas pestilentas e fatais.

IX - Como durante o reinado de Graciano, Maximus, tendo se tornado imperador na Bretanha, retornou à Gália com um poderoso exército [383 d. C.]

No ano 377 da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, Graciano, quadragésimo desde Augusto, teve o controle do império após a morte de Valente, apesar de ter reinado desde muito antes com seu tio Valente e seu irmão Valentiniano. Considerando o estado do Império, constantemente atormentado e quase à ruína, ele procurou por alguém com habilidades que pudessem remediar os males existentes. Sua escolha caiu em Teodósio, um espanhol. A este ele revestiu com o púrpura dos mantos reais em Sirmium, e o fez imperador da Trácia e das províncias do Oriente. Neste tempo, Maximus, um homem de valor e probidade e merecedor das honras de Augusto se não tivesse através da usurpação e da tirania quebrado o juramento de fidelidade que havia feito, foi declarado imperador pelo exército e passou para a Gália.

De lá, através de traição, matou o Imperador Graciano, que estava consternado por esta repentina invasão e tentava escapar para a Itália. Seu irmão, Valentiniano, expulso da Itália, fugiu para o Oriente, onde foi recebido por Teodósio com afeição paterna, logo restaurando o Império. Maximus o tirano, sitiado em Aquiléia, foi neste lugar preso e executado.

X - Como, no reino de Arcádio, Pelágio, um bretão, desafiou insolentemente a Graça de Deus

No ano do Senhor de 394, Arcádio, filho de Teodósio, quadragésimo terceiro desde Augusto, assumindo o Império com seu irmão Honório, teve o controle deste por treze anos. Em seu tempo, Pelágio, um bretão, espalhou por todos os cantos a infecção de sua pérfida doutrina contra a assistência da Graça Divina, sendo auxiliado nisto pelo seu comparsa Juliano, da Campânia, cuja ira havia sido despertada pela perda de seu episcopado, do qual ele havia sido privado por santo Agostinho. Os outros patriarcas ortodoxos, tendo citado muitos milhares de autoridades católicas contra eles, ainda assim não corrigiram sua loucura, ao contrário, sua insensatez foi assaz aumentada pela contradição, e eles se recusaram abraçar a verdade, fato que Próspero, o Retórico, expressou belamente neste verso heróico:

“Um escriba vil, cheio de infernal veneno mesquinho,
Ousou escrever contra o grande Agostinho;
Serpente presunçosa! Vindo de qual ninho noturno
Ousas arrastar-te pela terra e observar um ser humano?
Tu fostes alimentado pelas planícies bretãs cercadas de mar,
Ou então, em teu seio, o enxofre Vesuviano está a reinar.”

XI - Como, durante o reinado de Honório, Graciano e Constantino tornaram-se tiranos na Bretanha. A seguir, ocorre o assassinato do primeiro na Bretanha e do segundo na Gália

No ano de 407, Honório, filho mais jovem de Teodósio e quadragésimo quarto imperador desde Augusto, dois anos antes da invasão de Roma por Alarico, rei dos Godos – quando as nações dos Alanos, Suevos, Vândalos, e muitas outras com essas arrasaram toda a Gália, atravessando o Reno – fez com que Graciano Municipal fosse marcado como um tirano e morto. Em seu lugar foi escolhido Constantino como imperador, um dos soldados mais cruéis, apenas pelo seu nome e sem nenhum valor que o recomendasse. Assim que tomou para si o comando, atravessou a fronteira da França. Ali, sendo muitas vezes incomodado por bárbaros com seus tratados falsos, causou muito dano ao Império. Então, o conde Constâncio, pelo comando de Honório, marchou através da Gália com um exército, cercou Constantino e o matou na cidade de Arles. Seu filho Constante, que criou César com um monge, foi também executado por Gerôncio, seu próprio conde, em Vienne.

Roma foi tomada pelos Godos no ano de 1164, desde sua fundação. Então os romanos cessaram de reinar na Bretanha, quase 470 anos após Caio Júlio César ter desembarcado na ilha. Eles residiam dentro da fortificação que, como mencionamos, Severo construiu, dividindo a ilha na sua parte sul, como dão testemunho até hoje as cidades, templos, pontes e estradas pavimentadas construídas lá; mas eles tinham o direito de domínio em todas as partes da Bretanha, e também sobre as ilhas além dela.

XII - Os bretões, tendo sido arrasados pelos escotos e pictos, buscam o socorro dos romanos que, vindo uma segunda vez, constróem uma muralha em torno da ilha. Mas sendo novamente invadidos pelos inimigos já mencionados, os bretões são levados a uma situação ainda mais angustiante que antes

Desde aquele tempo, a parte sul da Bretanha, destituída de soldados armados, de armazéns de material de guerra e de toda a sua juventude, que tinha sido levada dali pela dureza dos tiranos para nunca mais retornar, foi totalmente exposta à rapina, sendo totalmente ignorante a respeito do uso de armas. Dessa forma, eles sofreram muitos anos sob duas nações estrangeiras bastante selvagens, os escotos do ocidente e os pictos do norte. Chamamos estas nações de estrangeiras não por estarem situadas fora da Bretanha, mas porque eram distantes daquela parte da ilha possuída pelos bretões; dois braços de mar ficavam entre elas, um dos quais penetra profundamente por dentro da Bretanha, do oceano oriental, e o outro do ocidental, apesar de não chegarem a tocar um ao outro. O braço oriental tem no meio dele a cidade de Giudi. O oriental tem nele, ou melhor, no seu lado direito, a cidade de Alcluith, que em sua língua significa “Rocha Cluith”, pois fica próxima ao rio deste nome.

Devido ao levante destas nações, os bretões enviaram mensageiros a Roma com cartas escritas de forma lamentosa, implorando por socorro e prometendo submissão perpétua, desde que o inimigo iminente fosse afastado. Uma legião armada foi enviada imediatamente e, chegando na ilha e atacando o inimigo, matou uma multidão destes, expulsou o restante dos territórios de seus aliados, e os tendo salvo de seus cruéis opressores, os aconselharam a construir uma muralha entre os dois mares, atravessando a ilha, para que esta os protegesse e mantivesse o inimigo à distância. Dessa forma, eles retornaram para suas casas em grande triunfo. Os habitantes da ilha, ao levantarem a muralha – não de pedra, como tinham sido aconselhados, pois possuíam artesão capaz de tal tarefa, mas de barro – tornaram-na inútil.

Entretanto, eles a estenderam por muitas milhas entre as duas baías ou braços de mar, os quais já mencionamos, a fim de que, onde a defesa por água não existisse, eles pudessem usar a fortificação para defender suas fronteiras dos levantes inimigos.

Deste trabalho que foi erigido, ou seja, de uma fortificação de largura e altura extraordinárias, existem traços evidentes que podem ser vistos até hoje. Ela inicia a aproximadamente duas milhas de distância do mosteiro de Abercurnig, no ocidente, em um lugar chamado no idioma picto de Peanfahel, mas no idioma dos anglos de Penneltun, e corre na direção oeste, terminando próxima à cidade de Alcluith.

Mas os antigos inimigos, quando perceberam que os soldados romanos haviam partido, voltaram imediatamente por mar, invadiram as fronteiras, pisotearam e percorreram todos os lugares como homens moendo milho maduro, dominando quem se opunha a eles. Então, mensageiros foram novamente enviados a Roma, implorando ajuda, para que sua desesperada nação não fosse completamente extirpada, e para que o nome de uma província romana, por tanto tempo valorizada por eles, fosse derrubado pelas crueldades de estrangeiros bárbaros e se tornasse completamente desprezível.

Conseqüentemente, uma legião foi novamente enviada, e chegando inesperadamente no outono, causou grande devastação ao inimigo, fazendo com que todos aqueles que pudessem escapar fugissem para além-mar; onde antes carregavam prazerosamente seus espólios sem oposição alguma. Então os romanos disseram aos bretões que no futuro eles não poderiam levar a cabo tão custosas expedições por sua causa. Aconselharam-nos, ao invés disto, a manejar suas armas como homens, e a tomar para si a responsabilidade de enfrentar seus inimigos, que não eram poderosos demais para eles, a não ser que fossem detidos pela covardia.

Assim, pensando que poderiam ser de alguma ajuda a seus aliados, que estavam sendo forçados a abandonar, eles construíram uma forte muralha de pedra de costa a costa, em uma linha reta entre as cidades que tinham sido construídas ali por medo do inimigo, não muito distante da trincheira de Severo. Esta muralha famosa, que ainda pode ser vista, foi construída com esforços públicos e privados, e os bretões também deram sua ajuda. Tem oito pés de largura, doze pés de altura, em uma linha reta de leste a oeste, como as pessoas ainda podem ver.

Tendo terminado esta muralha, deram ao desencantado povo um bom conselho como exemplo, fornecendo-lhes armas. Além disso, construíram torres na costa sul, com uma distância apropriada uma da outra, onde estavam seus navios, porque ali também ocorreram levantes bárbaros, e então se despediram de seus amigos, para nunca mais retornar.

Após sua partida, escotos e pictos, compreendendo que os romanos haviam declarado que não voltariam mais, voltaram rapidamente, e, tornando-se mais confiantes que antes, ocuparam toda a parte norte mais distante da ilha, até a muralha. Então, uma trêmula guarda foi posta na muralha, onde eles sofriam dia e noite, cobertos de medo. No outro lado, os inimigos os atacavam com ganchos, através dos quais os covardes defensores eram derrubados da muralha e lançados ao chão.

Finalmente, o bretões, abandonando sua muralha e suas cidades, fugiram e se dispersaram. O inimigo os perseguiu, e a matança foi maior que em qualquer ocasião anterior, pois os miseráveis nativos foram despedaçados por seus inimigos como ovelhas são despedaçadas por feras. Desta forma, sendo expulsos de suas casas e destituídos de suas posses, eles escaparam da morte por inanição, roubando e pilhando uns aos outros, adicionando seus problemas domésticos às calamidades causadas pelos estrangeiros até que todo o território ficou destituído de comida, com exceção daquela que podia ser caçada.