Poema VI

Trad.: Ricardo da Costa e Lorenzzo Cassaro.1

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Codex Manesse (c. 1305-1315), UB Heidelberg, Cod. Pal. germ. 848, fol. 13r: Otto IV de Brandenburg.

I.
Quero que saibam
se um verso tem bela cor.
É que o trouxe de minha casa,
e neste ofício porto uma flor.
É verdade!
Posso trair do verso o autor
quando o compor.

II.
Conheço bem a sensatez e a loucura,
conheço a desonra e a honra,
tenho coragem e pavor.
Mas se me propuseres um jogo de amor,
não serei tão idiota
de não escolher o melhor
dentre os maldosos.

III.
Conheço bem quem me louva,
e sei quem mal me quer.
Conheço bem quem me sorri,
e quem ri de mim.
Conheço-os suficientemente.
Por isso quero consigam o que desejam
e seu prazer.

IV.
Bem tenha aquele que me nutriu
que tão digno ofício me ensinou,
e que nunca com ninguém falhou.2
Sei jogar sobre as almofadas
todos os jogos.
Também sei mais que todos os vizinhos
que pode ver.

V.
Deus seja louvado, e São Juliano!
Tanto aprendi o doce jogo
que tenho a melhor mão de todas.3
Ademais, o homem que me pede conselho
não o nego,
De mim ninguém retorna
desaconselhado.

VI.
Meu nome é “Mestre Certeiro”.
Minha amiga nunca me terá uma noite4
sem que me deseje no dia seguinte,
Sou envaidecido por conhecer bem este ofício.
Fui tão bem ensinado
que sei ganhar bem meu pão
em qualquer mercado.5

VII.
Mas não me ouviríeis gabar-me tanto
se me vísseis há pouco em grande apuro.
Jogava um jogo grosseiro
que a princípio me estava favorável6
até me encontrar encurralado.7
Quando olhei, de nada adiantou meu ofício:
tudo havia cambiado.

VIII.
Ela me incitou:
“Senhor, vossos dados são pequenos,
eu vos convido a dobrar a aposta!”8
Respondi: “Ainda que me desse Montpellier
não desistiria”.
Levantei um pouco seu tabuleiro
com meus braços.

IX.
Após levantar o tabuleiro
joguei os dados.
Dois foram quadrados, nulos,
o terceiro, envenenado.9

X.
Golpeei forte o tabuleiro
e o jogo foi bem jogado.

 

Notas

  • 1. Base da tradução: GUILLERMO DE AQUITANIA. Poesía completa (ed. de Luis Alberto de Cuenca). Renacimiento, 2007.
  • 2. Como se verá adiante, Guilherme diz que nunca falhou sexualmente, até ter acontecido como ele nos conta nesse poema.
  • 3. Nesta passagem, Guilherme gaba-se de ser um excelente amante.
  • 4. Recordemos que, na tradição poética do amor cortês, o termo amiga significa amante.
  • 5. Nesta passagem, Guilherme gaba-se uma vez mais de ser um bom amante, para, a seguir, confessar ter falhado uma vez!
  • 6. Guilherme parece sugerir ter ficado impotente durante o ato sexual com a dama!
  • 7. No original, entaulatz. Pode também ser outra metáfora sexual: acostumar o garanhão a certo número de éguas para formar a manada.
  • 8. Metaforicamente, “Senhor, vosso desempenho sexual é insuficiente! Convido-vos a repetir a dose!”.
  • 9. Ou seja, somente na terceira tentativa o conde conseguiu terminar o ato sexual!