Poema VIII

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Iluminura das Cantigas de Santa Maria (Ms. escurialense).

VIII. Farai chansoneta nueva

Guilherme da Aquitânia1

I.

Farai chansoneta nueva2

Farei uma cançãozinha nova3

1

 

ans que vent ni gel ni plueva.

antes que vente, gele ou chova.

 

 

Ma dona m’assai’e·m prueva

Minha senhora me tenta e me prova,

 

 

quossi del qual guiza l’am;

para saber de qual guisa é o amor.

 

 

e ja per plag que m’en mueva,

E eu, por mais pleitos que me movam,

5

 

no·m solvera de son liam;

não me desatarei de seus nós.

 

 

II.

qu’ans mi rent a lieys e·m liure,

Antes, eu me submeto e me entrego tanto,

 

 

qu’en sa carta·m pot escriure;

que ela pode me inscrever em sua lista.

 

 

e no m’en tengatz per yure

e que não me tenham por ébrio,

 

 

s’ieu ma bona dompna am,

se a minha boa senhora amo,

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quar senes lieys non puesc viure,

pois não posso viver sem ela,

 

 

tan ai pres de s’amor gran fam.

tão faminto estou de seu amor.

 

 

III.

Que plus etz blanca qu’evori,

Ela é mais branca que o marfim,

 

 

per qu’ieu autra non azori.

por isso, a outra não adoro.

 

 

Si·m breu no·n ai ajutori,

Se em breve não receber seu auxílio,

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cum ma bona dompna m’am,

o amor de minha boa senhora,

 

 

morrai, pel cap sanh Gregori,

morrerei, pela cabeça de São Gregório,4

 

 

si no·m bayz’en cambr’o sotz ram.

caso ela não me beije no quarto ou sob a relva.

 

 

IV.

Qual pro y auretz, dompna conja,

Qual proveito tereis, nobre senhora,

 

 

si vostr’amors mi deslonja?

se de vosso amor me distanciar?

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Par que·usvulhatz metre monja.

Parece que desejais tornar-se monja!

 

 

E sapchatz, quar tan vos am,

Saibais que a amo tanto,

 

 

tem que la dolors me ponja,

que temo que a dor me fira,

 

 

si no·m faitz dreg dels tortz qu’ie’us clam. 

caso não façais direito o erro que vos clamo.

 

 

V.

Qual pro y auretz s’ieu m’enclostre

Qual proveito tereis se eu me enclaustro

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e no·m retenetz per vostre?

e vós não me tiverdes como vosso?

 

 

Totz lo joys del mon es nostre,

Todo o gozo do mundo é nosso,

 

 

dompna, s’amduy nos amam.

senhora, se nos amarmos.

 

 

Lay al mieu amic Daurostre

A meu amigo Daurostro

 

 

dic e man que chan e [no] bram.

direi e ordenarei que cante, não relinche.5

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VI.

Per aquesta fri e tremble,

Por isso, temo e estremeço,

 

 

quar de tan bon’amor l’am;

porque te amo com um amor tão bom,

 

 

qu’anc no cug qu’en nasques semble

que penso nunca ter nascido igual

 

 

en semblan del gran linh N’Adam.

na grande linhagem de Adão.6

 

 

 

Notas

  • 1. “O conde de Peitieu foi um dos homens mais corteses do mundo e um dos maiores sedutores de damas, bom cavaleiro em armas e generoso na corte. Soube trovar e cantar bem. Andou muito tempo pelo mundo a enganar as mulheres. Teve um filho que tomou como esposa a duquesa da Normandia, da que teve uma filha que foi esposa do rei Henrique da Inglaterra, mãe do jovem rei, de Ricardo e do conde Jaufré de Bretanha.” – DE RIQUER, Martín. Vidas y amores de los trovadores y sus damas. Barcelona: Quaderns Crema, 2004, p. 33.
  • 2. Internet, Corpus des Troubadours.
  • 3. Tradução feita a partir da edição Guillermo IX. Duque de Aquitania y Jaufré Rudel. Canciones completas (edicion bilingue preparada por Luis Alberto de Cuenca y Miguel Angel Elvira). Madrid: Editora Nacional, 1978, p. 62-65.
  • 4. Impossível saber com exatidão qual São Gregório Guilherme se refere!
  • 5. Daurosto é, nesse caso, o jogral de Guilherme. Ademais, a forma de cantar o amor é fundamental: sem harmonia não há poesia!
  • 6. Parece claro que o poema se dirige a uma dama que não cedeu aos encantos do poeta. Guilherme está todo o tempo a louvar sua submissão, a demonstrar paciência pela espera e ao mesmo tempo decisão de saber que quer somente ela para si, pois seu amor é o maior que já existiu, desde Adão.