Poema VIII

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Iluminura das Cantigas de Santa Maria (Ms. escurialense).

I.
Farei uma cançãozinha nova
antes que vente, gele ou chova.1
Minha senhora me tenta e me prova,
para saber de qual guisa é o amor.
E eu, por mais pleitos que me movam,
não me desatarei de seus nós.

II.
Antes, eu me submeto e me entrego a ela,
pode me inscrever em sua lista,
e que não me tenhas por ébrio,
se a minha boa senhora amo,
pois não posso viver sem ela,
tão faminto estou de seu amor.

III.
Ela é mais branca que o marfim,
por isso, a outra não adoro.
Se em breve não receber seu auxílio,
que minha boa senhora me ame,
morrerei, pela cabeça de São Gregório,2
caso ela não me beije no quarto ou sob a relva.

IV.
Qual proveito tereis, nobre senhora,
se de vosso amor me distanciar?
Parece que desejais tornar-se monja!
Saibais que a amo tanto,
que temo que a dor me fira,
caso não façais direito o erro que vos clamo.

V.
Qual proveito tereis se eu me enclaustro
e não me tiverdes como vosso?
Todo o gozo do mundo é nosso,
Senhora, se nos amarmos.
A meu amigo Daurostro
direi e ordenarei que cante, não relinche.3

VI.
Por isso, temo e estremeço,
porque te amo com um tão bom amor,
que penso nunca ter nascido igual
na grande linhagem de Adão.4

Notas

  • 1. Tradução feita a partir da edição Guillermo IX. Duque de Aquitania y Jaufré Rudel. Canciones completas (edicion bilingue preparada por Luis Alberto de Cuenca y Miguel Angel Elvira). Madrid: Editora Nacional, 1978, p. 62-65.
  • 2. Impossível saber com exatidão qual São Gregório Guilherme se refere!
  • 3. A forma de cantar o amor é fundamental: sem harmonia não há poesia!
  • 4. Parece claro que o poema se dirige a uma dama que não cedeu aos encantos do poeta. Guilherme está todo o tempo a louvar sua submissão, a demonstrar paciência pela espera e ao mesmo tempo decisão de saber que quer somente ela para si, pois seu amor é o maior que já existiu, desde Adão.