Poema X

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Detalhe de uma iluminura das Cantigas de Santa Maria (Códice E).

I.
Com a doçura do novo tempo,
o bosque se cobre de folhas, e os pássaros
cantam, cada um em seu latim,
conforme o verso do novo canto,
quando está bem que cada um se torne
aquilo que mais deseja.1

II.
Do lugar que me parece bom e belo,
não vejo chegar nem carta, nem mensageiro.
Por isso, meu coração não dorme, nem ri,
nem me atrevo a seguir adiante
até que esteja certo do fim,
se ele será assim como eu desejo.

III.
Com nosso amor ocorre o mesmo
que o galho branco do espinheiro
que está queimando sobre a árvore
de noite, com a chuva congelada,
até que, no dia seguinte, o Sol se ponha
pelas folhas verdes e a relva.

IV.
Ainda me lembro de uma manhã
em que nós pusemos fim à nossa guerra.
Ela me deu um dom tão grande
que se deu a mim como amante, e também seu anel.
Que Deus me deixe viver ainda,
para que eu ponha minhas mãos sob seu mantel!2

V.
Que eu não me preocupe com estranhos latidos
que me separem de meu Bom Vizinho.
Pois sei como as palavras vem e vão,
e, como diz um breve sermão,
"Que outros se gabem de seus amores,
que nós temos o pão e a faca."3

Notas

  • 1. Tradução feita a partir da edição Guillermo IX. Duque de Aquitania y Jaufré Rudel. Canciones completas (edicion bilingue preparada por Luis Alberto de Cuenca y Miguel Angel Elvira). Madrid: Editora Nacional, 1978, p. 70-73. O poema inicia com o clássico tema do locus amoenus, lugar comum na poesia medieval.
  • 2. Nesse momento - em que termina a guerra entre os amantes - o poema distende sua tensão e revela a satisfação do poeta, por ganhá-la como amante e também a seu anel, passagem que pode ser entendida tanto literalmente quanto metaforicamente (isto é, que os amantes chegaram às vias de fato, já que, a seguir, o poeta faz uma referência aos comentários maldosos dos invejosos).
  • 3. "Que nós temos o pão e a faca", isto é, temos tudo o que é necessário para gozar.