Mártires, santos e místicos, pilares da Civilização de Cristo
In: SILVA, Padre Alan Rodrigues S da. Uma mulher além do tempo.
Santa Hildegarda de Bingen. Petrópolis: Casa de Santa Hildegarda,2025
(ISBN 978-65-84322-00-4), pp. 09-15.
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A Igreja Católica Apostólica Romana criou a Civilização Ocidental – e a preservou.1 A duras, a duríssimas penas. Com sangue, suor e lágrimas.2 Homens e mulheres, inflamados pelo chamado de Cristo ao amor do ardor apologético3, saíram, mundo afora, muitas vezes tão somente com simples e rústica túnica no corpo, para anunciar a boa-nova aos pobres4, entre selvagens, no caso do continente europeu, bárbaros e infiéis.5 Levaram Educação e Cultura. E Fé. Educaram e civilizaram, poliram e moldaram mentes e corações para receberem a Paixão de Cristo.
Pródiga em angariar entusiasmos, indistintamente acolheu a todos em seu seio com amor. E um dos maravilhosos – e impressionantes – frutos desse seio fertilizante foi a perplexidade dos santos visionários. Sete séculos antes do nascimento de Santa Hildegarda (c. 1098-1179) já Santo Agostinho (354-430) havia dividido as visões cristãs em corpórea, imaginativa e intelectual.6 É possível que as visões que Santa Hildegarda nos deixou abranjam essas três categorias agostinianas, tamanha a potência visionária de suas imagens alegóricas mentais7, científicas e místicas, poéticas, descritivas e apocalípticas.8
A força de sua obra ultrapassa quaisquer estereótipos sobre a Idade Média ou as maledicências sobre a “inferioridade” das mulheres no período – a mais comum é a que elas foram “silenciadas”.9 De minha parte, quando estudante conheci Hildegarda através de Régine Pernoud (1909-1998)10 e Will Durant (1885-1981).11 Mais tarde, a própria Pernoud ampliou meus conhecimentos sobre a abadessa12, além de Azucena Adelina Fraboschi (1942-2014)13 e, depois, a onda historiográfica feminista capitaneada por Christiane Klapish-Zuber (1936-2024)14 e, mais recentemente, Victoria Cirlot (1955-) e Blanca Garí (1956-).15 São muitas as Hildegardas nascidas de tantas e tão variadas vertentes interpretativas.
Mas nada como a própria personagem para matizarmos as interpretações historiográficas e confrontarmos com nossas próprias percepções. Encontrei em espanhol extratos de sua vasta obra em uma coletânea16 e, especialmente, o Livro das Obras Divinas (1163-1173).17
Assim, munido por essas décadas de estudo introdutório, já algo experiente no ambiente monástico em que Sant Hildegarda viveu e escreveu suas obras, foi com grande satisfação que recebi o convite do Padre Alan Rodrigues Sousa da Silva para prefaciar seu singelo – e católico! – opúsculo que pretende ser uma introdução à vida e obra de Santa Hildegarda.
Para isso, nosso autor dividiu sua obra nas seguintes partes: uma brevíssima contextualização histórica e biográfica (com uma tabela cronológica para situar temporalmente o leitor) (caps. 1 e 2), um panorama da obra hildegardiana tomando como base ancilar (de auctoritas, como determina a tradição) um discurso proferido pelo papa Bento XVI (1927-2022) em outubro de 2012 (cap. 3), e apresentações comentadas de suas obras: 1. Scivias – Scito vias Domini (Conhece os caminhos do Senhor, c. 1141-1151)18, 2. Liber Vitae Meritorum (Livro dos Méritos da Vida, c. 1158-1163)19, 3. Liber Divinorum Operum (Livro das Obras Divinas, c. 1163-1174)20, 4. Physica (Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum – Livro das sutilezas das diversas naturezas das criaturas, c. 1150-1158)21, e 5. Causae et curae (Causas e Curas, c. 1150-1160).22
A seguir, Pe. Alan dos Santos aborda a Antropologia e a Teologia da Música de Santa Hildegarda, dois pilares fundamentais para a compreensão de seu fenômeno extático. Para isso, colocou a Música no protagonismo interpretativo, algo muito católico (não foi a Igreja, através de Gregório Magno, que trouxe a Música para o palco das artes?). Nós temos aqui uma visão panorâmica da explosão monástica, católica e devota que foi a vida e obra dessa surpreendente monja que, já em sua época, deixou atônitos seus irmãos de fé.
A maior virtude do livro Uma mulher além do tempo é a generosa abertura que nosso autor oferece à santa: que o leitor a conheça substancialmente sobretudo por passagens das obras que ela escreveu, não pelo que afirmam dela. Trata-se da melhor opção metodológica: primeiro conhecer o autor e só depois ler o que dizem sobre o autor. Dessa forma, o leitor pode avaliar de modo razoavelmente seguro (isto é, se as traduções tiverem sido bem-feitas) as interpretações a posteriori feitas pelos especialistas.
Vivemos em uma época verdadeiramente trágica. A Idade Média é aqui e agora, não há mil anos. Trágica tanto para a teologicamente fissurada Igreja quanto para o frágil e hesitante Ocidente, já que uma está imbricada na outra, como deixei claro em meu primeiro parágrafo. Por isso, reler Hildegarda pari passu a uma interpretação católica, ainda que sintética, é um consolo. Nosso autor é de um otimismo ímpar – afinal, não poderia ser de outra forma, dada a sua profissão de fé (de minha parte, católico, pecador confesso, não me dou a esse luxo existencial). Seja como for, a perplexidade e o amor devocional que o Padre Alan nos oferece em seu texto sobre a monja fazem-no concluir que Hildegarda é necessária.
Que você, leitor, desfrute de uma santa da Santa Igreja, que nada permite, mas tudo perdoa – enquanto o mundo tudo permite, e nada perdoa. O simples fato de continuar a ser lida em pleno século XXI prova que ela é um fenômeno em todos os sentidos, para todas as áreas das Humanidades, e só possível em um ambiente católico, que proporciona frutos maduros, sensíveis e firmes, devotos e verdadeiros, obedientes e corajosos.
Termino com as palavras da monja, que recompensará na Eternidade o labor do Pe. Alan, como se vê na última frase da última obra visionária de Santa Hildegarda, o Livro das Obras Divinas (c. 1163-1174):
Ego autem de uiuente luce, que me uisiones istas docuit, uocem sic dicentem audiui: Istos qui simplicem hominem ui siones meas scribentem adiuuabant et consolabantur, participes mercedis laborum illius faciam. Et ego paupercula in eadem uisione docta dicebam: Domine mi, omnibus qui me in istis uisionibus, quas ab infantia mea infixisti, magno timore laborantem consolando adiuuabant, mercedem eterne claritatis in celesti Ierusalem dones, ita quod per te sine fine in te gaudeant.23
Ouvi uma voz da Luz Viva que me ensinou essas visões, dizendo assim: “Farei com que aqueles que ajudaram e consolaram a este simples humano que escreve minhas visões a recompensa de seu trabalho”. E eu, paupérrima, instruída nesta mesma visão, dizia: “Senhor meu, a todos os que me ajudaram, consolando-me quando sofria grandes temores nestas visões que imprimiste em mim desde a infância, a recompensa da claridade eterna na Jerusalém Celeste, para que, por meio de Ti, se regozijem infinitamente em Ti”.
Amen.
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Fontes citadas
BEATAE HILDEGARDI. Causae et curae (ed.: Moulinier, Laurence). Berlin: Akademie Verlag, 2003.
HILDEGARDA DE BINGEN. Libro de las obras divinas (trad.: María Isabel Flisfisch, María Eugenia Góngora y María José Ortúzar). Barcelona: Herder Editorial, 2009.
HILDEGARDA DE BINGEN. Scivias (Scito vias Domini): conhece os caminhos do Senhor (trad.: Paulo Ferreira Valério). São Paulo: Paulus, 2015.
HILDEGARD VON BINGEN. Liber divinorum operum (eds.: DEROLEZ, A.; DRONKE, P.). Turnholt: Brepols, Corpus Christianorum, Continuatio Mediaevalis, 1996, vol. 92.
HILDEGARDIS BINGENSIS. Liber vitae meritorum (eds.: Carlevaris, A.). Belgium: Brepols, Corpus Christianorum, Continuatio Mediaevalis, 1995, vol. 90.
HILDEGARDIS BINGENSIS. Scivias (ed.: FÜHRKÖTTER, A.; CARLEVARIS, A). Belgium: Brepols, Corpus Christianorum, Continuatio Mediaevalis, 2003, vols. 43-43A.
SANTA HILDEGARDA DE BINGEN. Physica: Livro de medicina simples. Sobre as propriedades naturais das coisas criadas (trad.: Juliana Maria da Silva). Campinas: Editora Ecclesiae, 2024.
SANTA HILDEGARDA DE BINGEN. Liber Vitae Meritorum. O Livro dos Méritos da Vida. Campinas: Calvariae Editorial, 2024.
SANTA HILDEGARDA DE BINGEN. Livro de Medicina Composta — Causae et Curae. Campinas: Calvariae Editorial, 2024.
SANTO AGOSTINHO. Comentário ao Gênesis (trad. Agustinho Belmonte). São Paulo: Paulus, 2005.
Bibliografia citada
Notas
- 1. CAHILL, Thomas. Como os irlandeses salvaram a civilização. A heroica contribuição da Irlanda entre a queda de Roma e o surgimento da Europa Medieval. São Paulo: Editora Objetiva, 1999.
- 2. No original, “I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat” (“Nada tenho a oferecer senão sangue, labuta, lágrimas e suor”), frase de Winston Churchill (1874-1965) em um discurso proferido na Câmara dos Comuns do Parlamento do Reino Unido em 13 de maio de 1940 no auge da pressão nazista sobre o Reino Unido durante a II Guerra Mundial (1939-1945) – aliás, uma paráfrase de um discurso de Giuseppe Garibaldi (1807-1882) em Roma (1849).
- 3. “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.”, Mc 16, 15.
- 4. “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os contritos de coração, A proclamar liberdade aos cativos, e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor.” Lc 4, 18-19.
- 5. Sempre recordo do martírio de São Bonifácio (c.672-754) em terras germânicas. Ver COSTA, Ricardo da; DANTAS, Bárbara. “A felicidade no amor aos livros. Da Grécia a Santo Isidoro de Sevilha e a São Bonifácio”. In: CORTIJO OCAÑA, Antonio (dir. & ed.). eHumanista. Volume 59. Journal of Iberian Studies. University of California Santa Barbara (EUA), 2024, pp. 228-229.
- 6. “Estas são as três classes de visões [...] Denominemos corporal à primeira, porque se percebe pelo corpo e se apresenta aos sentidos do corpo. A segunda, espiritual, pois tudo o que não é corpo e, no entanto, é algo, diz-se com razão que é espiritual [...] A terceira denomina-se intelectual, porque precede da inteligência [...].” – SANTO AGOSTINHO. Comentário ao Gênesis (trad. Agustinho Belmonte). São Paulo: Paulus, 2005, p. 447 (Livro XII, capítulo VII, 16).
- 7. CIRLOT, Victoria. “Epílogo. Técnica alegórica o experiencia visionaria”. In: CIRLOT, Victoria (ed.). Vida y visiones de Hildegard von Bingen. Madrid: Ediciones Siruela, 2001, p. 314.
- 8. PERNOUD, Régine. A mulher no tempo das catedrais. São Paulo: Quadrante Editora, 2023, p. 55.
- 9. Por exemplo, GARCÍA DE CORTÁZAR; TEJA, Ramón (orgs.). Mujeres en silencio: el monacato femenino en la España medieval. Aguilar de Campoo: Fundación Santa Marí ala Real del Patrimonio Histórico, 2017.
- 10. PERNOUD, Régine. A mulher no tempo das catedrais. São Paulo: Quadrante Editora, 2023, pp. 52-55.
- 11. DURANT, Will. A Idade da Fé. Rio de Janeiro: Record, s/d, p. 724.
- 12. PERNOUD, Régine. Hildegarda de Bingen. A consciência inspirada do século XII. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
- 13. ADELINA FRABOSCHI, Azucena (ed.). Conociendo a Hildegarda. La abadessa de Bingen y su tempo. 1ª Jornada Interdisciplinaria (22 de agosto de 2003). Tucumán: Ediciones de la Universidad Católica Argentina, 2003; ADELINA FRABOSCHI, Azucena. Hildegarda de Bingen. La extraordinaria vida de una mujer extraordinaria. Tucumán: Ediciones de la Universidad Católica Argentina, 2004.
- 14. KLAPISH-ZUBER, Christiane (dir.). História das Mulheres no Ocidente. Volume 2: a Idade Média. Porto: Edições Afrontamento, s/d.
- 15. CIRLOT, Victoria; GARÍ, Blanca. La mirada interior. Escritoras místicas y visionarias en la Edad Media. Madrid: Ediciones Siruela, 2008.
- 16. CIRLOT, Victoria (ed.). Vida y visiones de Hildegard von Bingen. Madrid: Ediciones Siruela, 2001.
- 17. HILDEGARDA DE BINGEN. Libro de las obras divinas (trad.: María Isabel Flisfisch, María Eugenia Góngora y María José Ortúzar). Barcelona: Herder Editorial, 2009.
- 18. HILDEGARDIS BINGENSIS. Scivias (ed.: FÜHRKÖTTER, A.; CARLEVARIS, A). Belgium: Brepols, Corpus Christianorum, Continuatio Mediaevalis, 2003, vols. 43-43A. Edição brasileira: HILDEGARDA DE BINGEN. Scivias (Scito vias Domini): conhece os caminhos do Senhor (trad.: Paulo Ferreira Valério). São Paulo: Paulus, 2015.
- 19. HILDEGARDIS BINGENSIS. Liber vitae meritorum (eds.: Carlevaris, A.). Belgium: Brepols, Corpus Christianorum, Continuatio Mediaevalis, 1995, vol. 90. Edição brasileira: SANTA HILDEGARDA DE BINGEN. Liber Vitae Meritorum. O Livro dos Méritos da Vida. Campinas: Calvariae Editorial, 2024.
- 20. HILDEGARD VON BINGEN. Liber divinorum operum (eds.: DEROLEZ, A.; DRONKE, P.). Turnholt: Brepols, Corpus Christianorum, Continuatio Mediaevalis, 1996, vol. 92.
- 21. SANTA HILDEGARDA DE BINGEN. Physica: Livro de medicina simples. Sobre as propriedades naturais das coisas criadas (trad.: Juliana Maria da Silva). Campinas: Editora Ecclesiae, 2024.
- 22. BEATAE HILDEGARDI. Causae et curae (ed.: Moulinier, Laurence). Berlin: Akademie Verlag, 2003, pp. 117-384. Edição brasileira: SANTA HILDEGARDA DE BINGEN. Livro de Medicina Composta — Causae et Curae. Campinas: Calvariae Editorial, 2024.
- 23. HILDEGARD VON BINGEN. Liber divinorum operum (eds.: DEROLEZ, A.; DRONKE, P.). Turnholt: Brepols, Corpus Christianorum, Continuatio Mediaevalis, 1996, vol. 92, EPILOGVS linhas 34-41, p. 464.