Arte Breve (1308)

RAMON LLULL (1232-1316)
Trad.: Ricardo da Costa e Felipe Dias de Sousa

 

 

Deus, com a ajuda de Tua graça e amor, começa a Arte Breve, que é imagem da Arte Geral, assim intitulada: “Deus, com a ajuda de Tua suprema perfeição, começa a Arte Geral”.

Prólogo

A razão pela qual fazemos esta Arte Breve é para que a Arte Magna seja mais facilmente conhecida, pois se se conhece esta, tanto a Arte supracitada como as outras artes podem ser conhecidas e aprendidas com facilidade.

A finalidade dessa Arte é responder a todas as questões, sempre que se saiba o significado de cada termo.

Este livro se divide em treze partes, à similitude da Arte Magna. A primeira parte trata do alfabeto; a segunda das figuras; a terceira das definições; a quarta das regras; a quinta da tábula; a sexta da evacuação da terceira figura; a sétima da multiplicação da quarta figura; a oitava da mescla dos princípios e das regras; a nona dos nove sujeitos; a décima da aplicação; a décima-primeira das questões; a décima-segunda do hábito; a décima-terceira da maneira de se ensinar esta Arte.

Assim, começaremos pela primeira parte.

Da Primeira Parte, que trata do alfabeto dessa Arte

Colocamos um alfabeto nessa Arte para com ele poder fazer figuras e mesclar princípios e regras para investigar a verdade, já que por meio de uma letra que possui muitos significados, o intelecto é mais geral para receber muitos significados e fazer ciência. Convém saber de memória este alfabeto, já que de outro modo o artista dessa Arte não poderá aplicá-la bem.

O Alfabeto

B significa bondade, diferença, se?, Deus, justiça e avareza.

C significa magnitude, concordância, que?, anjo, prudência e gula.

D significa eternidade ou duração, contrariedade, de que?, céu, fortaleza e luxúria.

E significa poder, princípio, por que?, homem, temperança e soberba.

F significa sabedoria, meio, quanto?, imaginativa, fé e acídia.

G significa vontade, fim, qual?, sensitiva, esperança e inveja.

H significa virtude, maioridade, quando?, vegetativa, caridade e ira.

I significa verdade, igualdade, onde?, elementativa, paciência e mentira.

K significa glória, minoridade, como e com que?, instrumentativa, piedade e inconstância.

Da Segunda Parte, das quatro figuras

1. Da primeira figura, significada por A

 

Esta parte se divide em quatro partes, ou seja, em quatro figuras. A primeira figura é a A. Esta figura contém em si nove princípios, a saber, bondade, magnitude, etc., e nove letras, ou seja, B, C, D, E, etc. Esta figura é circular, já que o sujeito se transforma em predicado e vice-versa, como quando se diz: “a bondade é magna”, “a magnitude é boa”, etc. Nessa figura o artista da Arte inquire a conjunção natural entre o sujeito e o predicado, sua disposição e proporção, para que possa encontrar o meio termo que lhe permita chegar à conclusão.

Qualquer princípio tomado em si mesmo é absolutamente geral, como quando se diz “bondade” ou “magnitude”. Mas quando um princípio se refere a outro, é subalterno, como quando se diz “bondade magna”, etc. E quando algum princípio se refere a algo singular, então é um princípio especialíssimo, como quando se diz “a bondade de Pedro é grande”, etc. E assim, o intelecto dispõe de uma escala ascendente e descendente, de um princípio absolutamente geral até um não absolutamente geral nem absolutamente especial, e de um não absolutamente geral nem absolutamente especial a um absolutamente especial. O mesmo se pode dizer do ascenso dessa escala.

Nos princípios dessa figura se encontra incluído tudo o que existe, pois tudo o que existe ou é bom, ou é grande, etc., como Deus e o anjo, que são bons e grandes, etc. Por isso, tudo o que é se pode reduzir aos supracitados princípios.

2. Da segunda figura, significada por T

 

A segunda figura se chama T, e contém em si três triângulos, e qualquer deles é geral a respeito de tudo o que existe.

1. O primeiro triângulo é de diferença, concordância e contrariedade. Nele, à sua maneira, entra tudo o que existe, pois tudo o que existe ou existe em diferença, ou em concordância ou em contrariedade, e não se pode encontrar nada fora desses princípios.

Convém saber que cada ângulo desse triângulo tem três espécies, pois há diferença entre o sensual e o sensual, como, por exemplo, entre a pedra e a árvore, e também entre o sensual e o intelectual, como, por exemplo, entre o corpo e a alma, e ainda, entre o intelectual e o intelectual, como entre a alma e Deus, ou entre a alma e o anjo, ou ainda entre um anjo e outro anjo, ou entre Deus e o anjo. O mesmo se pode dizer, à sua maneira, da concordância e da contrariedade, e esta diferença que há em qualquer ângulo desse triângulo é uma escala do intelecto pela qual este ascende e descende para poder encontrar um meio-termo natural entre o sujeito e o predicado e com ele poder chegar a uma conclusão. O mesmo se pode dizer, à sua maneira, da escala da concordância e da contrariedade.

2. Outro triângulo é de princípio, meio e fim, e nele entra tudo o que existe, pois o que existe ou existe no princípio, ou no meio, ou no fim, e nada pode ser encontrado fora desses princípios.

No ângulo de “princípio”, a causa significa causa eficiente, material, formal e final, enquanto que por quantidade e tempo são significados os outros predicados e tudo aquilo que se pode reduzir a eles.

No ângulo de “meio”, há três espécies de meio, como, por exemplo, meio de conjunção, que existe entre o sujeito e o predicado, como quando se diz “o homem é um animal”, pois entre o homem e o animal há meios-termos. Por exemplo, a vida e seu corpo, sem os quais o homem não pode ser animal. Do mesmo modo, há um meio-termo mensurável, que existe pelo ato que há entre o agente e o agível, como o amar se encontra entre o amante e o amável. Todavia, há um meio de extremidades, como a linha que há entre dois pontos, e esse ângulo de meio é uma escala geral do intelecto.

Três são as espécies do ângulo de “fim”. A primeira é do fim da privação, que significa hábito privativo, e as coisas que estão no tempo pretérito. A segunda espécie é a do fim do término, que significa os limites, como os dois pontos nos quais acaba uma linha, ou como o amar no amante e o amado. A terceira espécie é a do fim da perfeição, que é o fim último, como o caso do homem que existe para multiplicar sua espécie e para entender, amar e recordar Deus, e para outras coisas do mesmo tipo. Este ângulo é uma escala geral do intelecto.

3. O terceiro triângulo é de maioridade, igualdade e minoridade, e é geral a todas as coisas conforme sua maneira, pois tudo o que existe ou existe em maioridade, ou em igualdade, ou em menoridade. A maioridade tem três espécies. A primeira é quando há maioridade entre substância e substância, como, por exemplo, a substância do céu, que é maior que a substância ígnea. A segunda espécie é quando há maioridade entre substância e acidente, como a substância, que é maior que sua quantidade, já que a substância existe por si mesma, mas não ocorre o mesmo com o acidente. A terceira espécie é quando há maioridade entre acidente e acidente, como o entender, que é maior que o ver, e o ver é maior que o correr. O mesmo que se disse da maioridade se pode dizer da minoridade, pois ambas guardam relação.

O ângulo de “igualdade” tem três espécies. A primeira é quando as coisas são substancialmente iguais, como Pedro e Guilherme, que são iguais em substância. A segunda é quando a substância e o acidente se igualam, como a substância e sua quantidade. A terceira é quando existe igualdade entre o acidente e o acidente, como entender e amar, que são iguais em seu objeto. Este ângulo é escala do intelecto, pelo qual se ascende e descende, como já se disse dos outros triângulos. E quando o intelecto ascende aos objetos gerais, é geral, mas quando descende aos particulares, é particular.

Esta figura T serve à primeira figura, pois mediante a diferença se distingue bondade de bondade, bondade de grandeza, etc. E por esta figura, unida à primeira, o intelecto adquire a ciência, e ao ser geral esta figura, o intelecto é geral.

3. Da terceira figura

 

A terceira figura é composta a partir da primeira e da segunda, pois a B que lhe é própria equivale à B que está na primeira e na segunda figuras. O mesmo ocorre com as outras letras.

Esta figura tem trinta e seis câmaras, como se pode ver. Qualquer de suas câmaras possui muitos e diversos significados, de acordo com as duas letras que contêm. Assim, a câmara BC tem muitos e diversos significados em virtude das letras B e C. Igualmente a câmara BD tem muitos e diversos significados, em virtude das letras B e D, etc. Isso já se percebe no alfabeto anteriormente apresentado.

Cada câmara contém duas letras, que significam o sujeito e o predicado nos quais o artista da Arte busca o meio-termo com o qual possa unir o sujeito e o predicado, como no caso da bondade e da grandeza, que se unem mediante a concordância, e do mesmo modo as outras dignidades. Com esse meio-termo, o artista tenta concluir e declarar a proposição.

Nesta figura cada princípio é atribuído a qualquer outro princípio. Como B, que é atribuído C, D, etc.; e a C é atribuído B, D, etc., conforme aparece na figura. Isso é assim para que o intelecto conheça qualquer princípio com todos os princípios, a fim de que deduza muitas razões para a mesma questão.

Desejamos dar um exemplo disso a respeito da bondade, que tomamos como sujeito, e o resto dos princípios como predicado: a bondade é grande, a bondade é durável, a bondade é poderosa, a bondade é cognoscível, a bondade é amável, a bondade é virtuosa, a bondade é verdadeira, a bondade é gloriosa, a bondade é diferente, a bondade é contrária, a bondade é princípio, a bondade é média, a bondade é finita, a bondade é maiorificante, a bondade é igualante, a bondade é minorificante. E como dizemos sobre a bondade, o mesmo se pode dizer dos outros princípios, cada um à sua maneira.

Essa figura é muito geral e, com ela, o intelecto é muito geral para fazer ciências.

A condição dessa figura é que uma câmara não seja contrária à outra, mas que concordem mutuamente na conclusão. Por exemplo, que a câmara BC não seja contrária à câmara BD, e o mesmo para as outras câmaras. Com essa condição, o intelecto se condiciona e faz ciência.

4. Da quarta figura

 

A quarta figura tem três círculos, dos quais o superior é imóvel e os dois inferiores móveis, como aparece na figura.

O círculo do meio gira sob o círculo superior imóvel, e assim se coloca, por exemplo, C sob B. O círculo inferior gira sob o círculo do meio, e assim se coloca D sob C. Então se formam nove câmaras: BCD é uma, CDE é outra, etc. Continuando, ponha E do círculo menor sob C do círculo médio, e então se formam outras nove câmaras: BCE é uma câmara, CDF, etc. E quando todas as letras do círculo menor tenham discorrido com B do círculo maior e com C do círculo médio, C estará entre B e D, já que B e D participam mutuamente nos significados de C; e o mesmo com as outras câmaras. E assim, por meio das câmaras, o homem busca as conclusões necessárias e as encontra.

Novamente façam discorrer as letras com B do mesmo círculo maior e com D do círculo do meio, e o mesmo com as outras letras do círculo do meio e do círculo inferior, mudando enquanto B do círculo maior permanece imóvel até que chegue com B do círculo maior, I do círculo do meio e K do círculo inferior. Assim terá duzentas e cinqüenta e duas câmaras.

Esta figura é mais geral que a terceira, já que em qualquer compartimento dessa figura há três letras, enquanto que em qualquer compartimento da terceira figura há somente duas letras. Por isso, o intelecto é mais geral pela quarta figura que pela terceira.

É próprio da condição da quarta figura que o intelecto aplique a seu propósito as letras que parecem mais aplicáveis. Uma vez feita a câmara de três letras, se deve receber os significados das mesmas, considerando a conveniência que existe entre sujeito e predicado, e evitando a inconveniência. Com essa condição, o intelecto faz ciência mediante a quarta figura, e dispõe de muitas razões para uma mesma conclusão.

Tratamos das quatro figuras que convém saber de memória, e sem as quais o artista não pode usar nem praticar bem esta Arte.

Da Terceira Parte, que trata das definições dos princípios

Nesta Arte se definem seus princípios para que sejam conhecidos mediante essas definições, e para que sejam utilizados, afirmando ou negando, mas de tal maneira que as definições permaneçam invariáveis, pois com tais condições o intelecto faz ciência, encontra meios-termos e foge da ignorância, que é sua inimiga.

1.       Bondade é o ser em razão do qual o bom faz o bem.

2.      Grandeza é aquilo em razão do qual a bondade e a duração são grandes.

3.      Eternidade ou duração é aquilo em razão da qual a bondade e os demais princípios duram.

4.      Poder é o ser em razão do qual a bondade e os demais princípios podem existir e agir.

5.      Sabedoria é aquilo em razão do qual o sábio entende.

6.      Vontade é aquilo em razão da qual a bondade, a grandeza, etc., são amáveis ou desejáveis.

7.      Virtude é a origem da união da bondade, da grandeza, etc.

8.      Verdade é aquilo que é verdadeiro de bondade, de grandeza, etc.

9.      Glória é o mesmo deleite no qual a bondade e os demais princípios repousam.

10.     Diferença é aquilo em razão da qual a bondade e os demais princípios são razões inconfusas ou claras.

11.     Concordância é aquilo em razão do qual a bondade e os demais princípios concordam em um e em vários.

12.     Contrariedade é a mútua resistência de alguns seres à causa de seus diversos fins.

13.     Princípio é aquilo que guarda relação com tudo em razão de alguma prioridade.

14.     Meio é o sujeito em que o fim influi no princípio e o princípio reflui no fim e conhece a natureza de ambos.

15.     Fim é aquilo em que repousa o princípio.

16.     Maioridade é a imagem da imensidão da bondade, da grandeza, etc.

17.     Igualdade é o sujeito em que repousa o fim da concordância da bondade e dos demais princípios.

18.     Menoridade é o ser próximo ao nada.

Tratamos das definições dos princípios que convém saber de memória, pois se ignoram as definições não se pode ensinar a Arte.

Da Quarta Parte, que trata das regras

As regras dessa Arte são as dez questões gerais que se reduzem a todas as outras questões que podem ser feitas. E são as seguintes: (B) Se é? (C) O que é? (D) De que é? (E) Por que é? (F) Quanto é? (G) Qual é? (H) Quando é? (I) Onde é? (K-1) Como é? (K-2) Com que é?

Cada uma dessas questões tem suas espécies:

B. “Se” tem três espécies: duvidativa, afirmativa e negativa, para que, no princípio, o intelecto possa supor que ambas as partes são possíveis e não se ligue com o “crer”, que não é seu ato, mas com o “entender”. E assim, receba a parte com a qual adquira um entender maior, pois esse deve ser o verdadeiro.

C. “Que” tem quatro espécies. A primeira é definitiva, como quando se pergunta: que é o intelecto? Deve-se responder que é aquela potência à que lhe corresponde propriamente entender.

A segunda espécie é quando se pergunta: o que o intelecto tem em si mesmo co-essencialmente? Deve-se responder que ele tem seus correlativos, ou seja, o intelectivo, o inteligível e o entender, sem os quais ele não pode existir. Além disso, sem eles o intelecto seria ocioso e carente de natureza, de fim e de repouso.

A terceira espécie é quando se pergunta: que é um ser em outro?, e como quando se pergunta: que é o intelecto em outro ser? Deve-se responder que ele é bom quando entende na bondade, e grande quando entende na grandeza, etc.; e na gramática é um intelecto gramatical, lógico na lógica, retórico na retórica, etc.

A quarta espécie é quando se pergunta: que tem um ser em outro?, e como quando se diz: que tem o intelecto em outro ser? Deve-se responder que na ciência ele tem o entender, e na fé o crer.

D. A regra “de que” tem três espécies. A primeira é primitiva, como quando se diz: de que é o intelecto? Deve-se responder que ele é de si mesmo, pois não deriva naturalmente de nada geral.

A segunda espécie é quando se pergunta particularmente: de que consta o ente?, e como quando se pergunta: de que consta o intelecto? Deve-se responder que ele consta de sua forma e de sua matéria específicas e com as quais tem um entender específico.

A terceira espécie é quando se pergunta: de quem é o ser?, e como quando se pergunta: de quem é o intelecto? Deve-se responder que ele é do homem, como a parte é de seu todo e o cavalo é de seu dono.

E. A quarta parte tem duas espécies: formal e final. Formal quando se pergunta: Por que existe um ente?, e como quando se pergunta: por que existe o intelecto? Deve-se responder que ele existe por sua forma e matéria específicas, com as quais tem um intelecto específico e com elas obra por sua espécie.

A segunda espécie se refere ao fim, como quando se pergunta: por que existe o intelecto? Deve-se responder: para que existam objetos inteligíveis, ou para que se possa ter ciência das coisas.

F. A quinta regra pergunta sobre a quantidade, e tem duas espécies. A primeira é quando se pergunta pela quantidade contínua, como quando se diz: quão grande é o intelecto? Deve-se responder que o é tanto como pode sê-lo por quantidade espiritual, mas não à maneira dos pontos ou das linhas.

A segunda espécie é quando se pergunta pela quantidade discreta, como quando se diz: quão grande é o intelecto? Deve-se responder que o é tanto como o são seus correlativos, que difundem e sustentam sua essência, isto é, o intelectivo, o inteligível e o entender. Com eles, ele é teórico e prático, geral e particular.

G. A sexta regra considera a qualidade, e tem duas espécies. A primeira é quando se pergunta: qual é a qualidade própria e primária do intelecto? Deve-se responder que é a inteligibilidade com a qual se reveste. Mas o entender extrínseco é uma propriedade secundária e mais remota, mediante a qual o mesmo intelecto conhece o homem, o leão, etc., e dele o entender intrínseco e substancial se reveste com o mesmo intelecto. O mesmo ocorre com o inteligível extrínseco.

A segunda espécie é quando se pergunta pela qualidade apropriada, como quando se pergunta: qual é a qualidade apropriada do mesmo intelecto? Deve-se responder que é o crer, o duvidar ou o supor, pois é o entender, e não estes atos, que convêm propriamente ao intelecto.

H. A sétima regra pergunta sobre o tempo, e tem quinze espécies significadas pela regra C D K, como se mostra na Arte Magna. Mas como essa Arte é breve, tratamos dessa regra com poucas palavras, como quando se pergunta: se não é pontual ou linear, de que maneira o intelecto está no tempo? Deve-se responder que o intelecto está no tempo porque tem um início e é criado, e permanece sucessivamente no tempo mediante o movimento do corpo com o qual se encontra unido.

I. A oitava regra pergunta sobre o lugar e tem quinze espécies, significadas pela regra C D K, segundo se mostra na Arte Magna, como quando se pergunta: onde está o intelecto? Deve-se responder brevemente que ele está no sujeito no qual se encontra, como a parte está em seu todo, mas não está encerrado, mas difuso nele, pois o intelecto não tem uma essência pontual, nem linear, e tampouco tem superfície.

K contêm duas regras: modal e instrumental. K-1. A regra modal tem quatro espécies, como quando se pergunta: como existe o intelecto?, e como a parte está na parte?, e as partes no todo?, e o todo em suas partes?, e como ele transmite sua semelhança para fora de si? Deve-se responder que o intelecto existe subjetivamente, conforme o modo no qual é deduzido mediante as espécies indicadas, e entende objetivamente de acordo com seu modo de operar, isto é, encontrando o meio termo que existe entre o sujeito e o predicado (e que está indicado nas figuras), multiplicando as espécies novas abstraídas do sentido e da imaginação, que são caracterizadas e entendidas em seu próprio inteligível.

K-2. A segunda regra de K tem quatro espécies, ou seja, quando se pergunta: com o que existe o intelecto?, e com o que está a parte na parte?, e as partes no todo?, e o todo em suas partes?, e com o que transmite sua semelhança ao exterior? Deve-se responder que o intelecto existe com seus correlativos, sem os quais não pode existir nem entender, e assim entende com as novas espécies com as quais faz instrumento para entender.

Tratamos das regras. Com elas, o intelecto resolve questões, deduzindo-as mediante as regras, considerando subjetivamente o que significa a regra e suas espécies, e contemplando a questão à luz dos princípios e das regras, de maneira que o intelecto coloque objeções a toda questão duvidosa mediante as definições dos princípios, e eleja, entendendo inteligivelmente a afirmativa ou a negativa. Assim o intelecto se distancia da dúvida.

Da Quinta Parte, que trata da Tábula

 

Este tábula é o sujeito no qual o intelecto se faz universal, pois entende e abstrai dele muitos particulares de todas as matérias, discorrendo objetivamente os particulares à luz dos princípios e subjetivamente à luz da regras, aplicando a cada questão vinte razões que expliquem a mesma questão, e de cada câmara de uma mesma coluna se abstraia uma razão.

A tábula tem sete colunas, como se pode ver, e nelas se encontram implícitas as oitenta e quatro colunas expostas na Arte Magna. Neste tábula, a letra T indica que as letras que estão diante dela são da primeira figura, e as que estão detrás são da segunda figura.

Mediante este tábula, o intelecto é ascendente e descendente. É ascendente porque ascende às coisas primeiras e mais gerais; é descendente porque descende às últimas e particulares. Além disso, ele une, pois junta as colunas. Por exemplo, a coluna BCD se une à coluna CDE, e o mesmo com as restantes.

Da Sexta Parte, que trata da evacuação da terceira figura

Na terceira figura o intelecto evacua os compartimentos, já que abstrai deles tudo o que pode, recebendo de qualquer compartimento os significados das letras para aplicá-los a seu propósito. Assim, se torna aplicativo, investigativo e inventivo. Ofereceremos um exemplo em uma câmara, e o modelo nela exposto poderá ser aplicado igualmente às restantes.

Do compartimento BC o intelecto extrai doze proposições, dizendo assim: a bondade é grande, a bondade é diferente, a bondade é concordante; a grandeza é boa, a grandeza é diferente, a grandeza é concordante; a diferença é boa, a diferença é grande, a diferença é concordante; a concordância é boa, a concordância é grande, a concordância é diferente. Uma vez feitas essas doze proposições, substituindo o sujeito pelo predicado, e ao contrário, se pode dizer que se evacuou o compartimento com estas proposições.

Depois, o intelecto deve evacuá-lo com doze termos médios. Chamam-se termos médios porque se encontram entre o sujeito e o predicado, com quem convêm em gênero e espécie. Com estes termos médios o intelecto se torna disputativo e determinativo, como quando se diz: “tudo o que é magnificado pela grandeza é grande. A bondade é magnificada pela grandeza, logo, a bondade é grande”. O mesmo ocorre com os demais casos.

Após essa evacuação, o intelecto deve evacuar o mesmo compartimento com vinte e quatro questões, já que em cada proposição há duas questões implícitas, da seguinte maneira:

“A bondade é grande”, “é a bondade grande?”, “que é a bondade grande?”.

“A bondade é diferente”, “é a bondade diferente?”, “que é a bondade diferente?”.

“A bondade é concordante”, “é a bondade concordante?”, “que é a bondade concordante?”.

“A grandeza é boa”, “é a grandeza boa?”, “que é a grandeza boa?”.

“A grandeza é diferente”, “é a grandeza diferente?”, “que é a grandeza diferente?”.

“A grandeza é concordante”, “é a grandeza concordante?”, “que é a grandeza concordante?”.

“A diferença é boa”, “é a diferença boa?”, “que é a diferença boa?”.

“A diferença é grande”, “é a diferença grande?”, “que é a diferença grande?”.

“A diferença é concordante”, “é a diferença concordante?”, “que é a diferença concordante?”.

“A concordância é boa”, “é a concordância boa?”, “que é a concordância boa?”.

“A concordância é grande”, “é a concordância grande?”, “que é a concordância grande?”.

“A concordância é diferente”, “é a concordância diferente?”, “que é a concordância diferente?”.

Feitas essas evacuações das questões, o intelecto deve evacuar o compartimento com as definições de bondade e de grandeza, e com as três espécies de diferença e de concordância indicadas na segunda figura. Depois, deve evacuar o compartimento com as três espécies da regra B e com as quatro espécies da regra C. Uma vez cumprida essa evacuação, o intelecto resolverá as questões preditas naquela evacuação seguindo as condições do compartimento, afirmando ou negando. E assim, o intelecto expulsa as dúvidas do compartimento, e nele repousa tranqüila e assertivamente. Além disso, se reconhece muito geral e com artifícios, e dotado com grande ciência.

Da Sétima Parte, que trata da multiplicação da quarta figura

A multiplicação da quarta figura consiste em que o primeiro compartimento BCD na quarta figura ou tábula significa que B tem uma condição com C, e outra com D, e C tem uma condição com B, e outra com D; D tem uma condição com B e outra com C. Assim, há neste compartimento seis condições com as quais o intelecto se condiciona e se dispõe a investigar e a encontrar, a opor, a provar e a determinar.

Depois dessas seis condições, o intelecto adquire outras seis, girando o círculo menor e colocando seu E sob o C do círculo do meio, e sob o qual se encontrava D. Assim, ao mudar o compartimento, mudam as condições, e o intelecto assume doze condições. O mesmo ocorre com os demais compartimentos quando se multiplicam as colunas e as faz girar.

As condições que o intelecto multiplica por este modo são difíceis de enumerar, pois de qualquer compartimento o intelecto pode evacuar trinta proposições e noventa questões, como no compartimento BC da terceira figura há doze proposições e vinte e quatro questões.

Desse modo, o intelecto conhece a si mesmo como muito geral e artificial, e acima de qualquer outro intelecto que ignore essa Arte que, por isso, é levado a muitos inconvenientes e impossibilidades. Assim, o sofista não pode resistir diante de um intelecto como esse, pois tal intelecto que é próprio do estudante dessa Arte usa as condições primitivas e naturais, enquanto o sofista usa as secundárias e consideradas fora da natureza, como se mostra na Arte Magna.

Da Oitava Parte, que trata da mescla dos princípios e das regras

Nessa parte, o intelecto mescla um princípio com outro, discorrendo qualquer princípio a partir das definições de todos os outros princípios, e a partir de todas as espécies das regras. E graças a esse discurso, o intelecto adquire conhecimento de qualquer princípio, e adquire um conhecimento diferente do mesmo princípio tantas vezes quanto o mescla de maneiras diferentes. E quem poderia enumerar tantos termos médios como o intelecto encontra para chegar a uma conclusão, ao evacuar esta mescla como evacuou o compartimento BC conforme foi exposto anteriormente?

Esta mescla é o centro e o fundamento para encontrar muitas proposições, questões e termos médios, condições e soluções, e também objeções. Mas prescindimos de exemplificá-la ao intelecto que intui bem, por causa da brevidade e porque na Arte Magna se declara e exemplifica a maneira dessa mescla.

Além disso, essa mescla é o sujeito e o refúgio do artista dessa Arte, para que encontre nela tudo o que queira conforme seu desejo. Pois, se necessita algo que seja do gênero da bondade, deve fazer discorrer essa bondade por todos os princípios e regras, e encontrará o que quiser entender sobre ela. O mesmo que dissemos da bondade pode ser dito dos outros princípios. Essa mescla é condicionada e ordenada, do mesmo modo que uma coisa é distinta da outra. Pois se discorremos sobre a divina bondade por princípios e regras, esse discurso da divina bondade requer definições e espécies de regras mais elevadas que o discurso da bondade do anjo, e o discurso sobre a bondade do anjo requer uma elevação maior que o discurso da bondade do homem; já o discurso da bondade do homem requer uma elevação maior que o discurso da bondade do leão, e o mesmo do resto, conforme seu próprio modo.

Da Nona Parte, que trata dos nove sujeitos

Nessa parte se retomam os nove sujeitos indicados no alfabeto e que englobam tudo o que existe, pois fora deles não há nada. O primeiro sujeito é Deus, significado na letra B. O segundo sujeito é o anjo, significado na letra C. O terceiro sujeito é o céu, significado na letra D. O quarto sujeito é o homem, significado na letra E. O quinto sujeito é imaginação, significado na letra F. O sexto sujeito é a sensitiva, significado na letra G. O sétimo é a vegetativa, significado na letra H. O oitavo é a elementativa, significado na letra I. E o nono e último é a instrumentativa, significado na letra K.

Já que na Arte Magna cada sujeito foi deduzido a partir dos princípios e das regras, evitaremos aqui, aplicar-lhes novamente esse estudo, pois queremos fazer esta Arte mais breve que aquela. Além disso, aquele estudo está implícito nesta Arte. Por isso, deixamos ao intelecto que intui bem, além do fato de o exemplo oferecido na terceira figura ser suficiente, já que aplicamos todos os princípios à bondade. E também aplicamos ao intelecto todas as regras desta Arte.

Pensamos considerar estes sujeitos de acordo com quatro condições, para que, graças a elas, o intelecto seja condicionado a discorrer condicionalmente aos ditos sujeitos os princípios e as regras, conforme a maneira em que cada sujeito é condicionado por sua natureza e essência. Pois a divina bondade tem uma condição em Deus, e a bondade angélica outra no mesmo anjo, e assim sucessivamente, cada uma à sua maneira. O mesmo ocorre com as regras.

A primeira condição é que cada sujeito possua sua própria definição, condição que é diferente de qualquer outro sujeito. E se é formulada alguma questão sobre aquele sujeito, há de se responder afirmando ou negando de tal maneira que as definições dos princípios convenham com a definição do sujeito. O mesmo com as regras, sem que ocorra algum prejuízo nos princípios ou nas regras.

A segunda condição é que se conserve a diferença entre os sujeitos tanto no juízo como na prática. Por exemplo, como a divina bondade, que difere da bondade angélica em infinidade e em eternidade, já que aquela bondade é a razão pela qual Deus produz um bem infinito e eterno, enquanto que a bondade angélica não é assim, pois é finita e criada.

A terceira condição é que não se destrua a concordância que existe entre dois sujeitos. Por exemplo, como a concordância da espiritualidade que há entre Deus e o anjo. O mesmo se pode dizer, à sua maneira, dos outros sujeitos.

A quarta condição é que quanto mais nobre e elevado seja um sujeito, deve-se-lhe atribuir princípios e regras mais nobres e elevadas que a outro. Por exemplo, como Deus, que é mais elevado e nobre que o anjo, etc., e o anjo mais que o homem, e assim sucessivamente, cada um à sua maneira.

Do primeiro sujeito, que é Deus, considerado a partir dos princípios

Deus pode ser considerado a partir dos princípios e das regras, pois Deus é bom, grande, etc. Pode-se-Lhe aplicar muitas definições, definindo-O de maneira ampla, mas aqui Lhe aplicaremos uma: Deus é o ente que não necessita de nadapios convenham com a definiçu negando de tal maneira que as definiç fora de Si mesmo, pois n’Ele todas as perfeições se dão de maneira total.

Com essa definição, Deus se diferencia de qualquer outro ente, pois o resto dos entes necessita de algo exterior a eles.

Em Deus não existe nenhuma contrariedade nem minoridade, pois estes são princípios privativos e defectivos. Pelo contrário, em Deus existe maioridade se comparado aos outros entes, e também existe igualdade em Si mesmo, pois possui princípios iguais, como a bondade, a grandeza, etc., e iguais atos e relações.

Em Deus existe diferença de correlativos, já que sem esta diferença os correlativos não podem existir, e sem eles, Deus não pode ter ação intrínseca, infinita e eterna. E mais: sem eles todas as suas razões seriam ociosas, o que é absolutamente impossível.

Em Deus existe a concordância para, mediante ela, distanciar-se infinita e eternamente da contrariedade, e para que seus correlativos convenham infinita e eternamente em uma mesma essência e natureza, e o mesmo se pode dizer de suas razões.

Em Deus não existe quantidade, tempo e nenhum acidente, razão pela qual Sua substância está separada e despojada de todo acidente, pois é infinita e eterna.

Uma vez condicionado Deus mediante as quatro condições ditas acima, não há dúvida que o intelecto entende a si mesmo condicionado para entender a Deus e o que d’Ele se pode dizer pelos princípios e as regras apropriadas a Deus, e também conhece e entende que se o anjo tem um poder natural em si (e o mesmo dos outros sujeitos), muito mais o tem Deus, pois é um sujeito mais elevado, como se depreende da prova “do menor ao maior”.

Do segundo sujeito, que trata do anjo

O anjo é deduzido a partir dos princípios e das regras. Possui natural bondade, grandeza, duração, etc., e se define assim: o anjo é espírito não unido a um corpo.

Nele não existe contrariedade natural, pois é incorruptível. Há nele matéria de –ble, ou seja, de bonificável, magnificável, etc., conforme está significado pela segunda espécie de D.

No anjo há maioridade, pois ele é mais similar a Deus que o homem, já que possui princípios e regras mais elevadas que este. E assim, o intelecto conhece que, se o homem não pode relacionar-se com as coisas sensíveis sem a mediação de seus órgãos, não quer dizer que o anjo não possa fazê-lo sem órgãos, já que a natureza do anjo é superior. Dessa maneira, o intelecto conhece que os anjos podem falar entre si e atuar sobre nós sem órgãos, e transitar de um lugar ao outro sem meio, etc., como se faz evidente graças ao intelecto que investiga mediante as regras.

No anjo há diferença, pois seu intelecto, sua vontade e sua memória são diferentes entre si.

No anjo há igualdade de entender, de amar e de recordar, graças a seu objeto supremo, pois Deus é por igual inteligível, amável e recordável.

No anjo há minoridade, pois foi criado do nada.

Do terceiro sujeito, que trata do céu

O céu possui bondade natural, grandeza e duração, etc. E define-se assim: o céu é a primeira substância móvel.

Nele não existe contrariedade, pois não está composto de princípios contrários. Possui instinto e apetite naturais e, em conseqüência, movimento, sem o qual não poderia ter natureza, nem instinto, nem apetite.

Mas nele há princípio, pois atua sobre as coisas inferiores. Também está constituído por sua forma e sua matéria específicas, para que atue por sua espécie.

Seu movimento é seu fim e seu repouso.

O céu está em seu lugar, como o corpo em sua superfície.

Também está no tempo, pois é criado, e está no tempo também como o eficiente em seu efeito, e o mesmo com seus outros acidentes, cada um à sua maneira.

Do quarto sujeito, que é o homem

O homem é composto de corpo e alma. Por isso, pode ser deduzido de duas maneiras mediante os princípios e as regras: de maneira espiritual e de maneira corporal. E se define assim: o homem é um animal homificante. No homem, todos os princípios e regras são duplos, por causa da duplicidade da natureza (espiritual e corporal) da qual está constituído. E, por isso, é mais geral que qualquer outro ente criado, e assim se pode dizer, sem nenhuma dúvida, que o homem é a parte maior do mundo.

Do quinto sujeito, que é a imaginativa

Na imaginativa há princípios e regras específicas para imaginar as coisas imagináveis, como há no imã para atrair o ferro. E se define assim: a imaginativa é aquela potência a que compete propriamente imaginar e, por isso, a imaginativa é deduzida mediante os princípios e as regras que lhe são convenientes. Assim, o intelecto adquire um maior conhecimento da imaginativa e daquilo que lhe é conveniente.

A imaginativa abstrai a espécie dos seres percebidos mediante os sentidos particulares, e o faz com seus correlativos, representados pela segunda espécie de C. Com a bondade faz boas aquelas espécies, e com a grandeza as magnifica, como quando se imagina uma grande montanha de ouro. E com a menoridade as minorifica, como quando alguém imagina um ponto indivisível.

A imaginativa possui instinto, da mesma forma que os animais irracionais têm habilidade para viver, e como a cabra o tem para evitar o lobo. A imaginativa tem o apetite de imaginar o imaginável, e para repousar nele, imaginando-o.

Os sentidos particulares, ao aplicarem-se às coisas sensíveis, impedem à imaginativa seu ato, e ela não pode exercê-lo. Por exemplo: quando se vê com os olhos um objeto colorido, a imaginativa não pode, ao mesmo tempo, exercer seu ato. Ou seja, não se pode imaginar o imaginável ausente até que se fechem os olhos, e então a imaginativa exerce seu ato, ou pode exercê-lo.

Quem vê, atinge mais o objeto colorido vendo que imaginando, pois o objeto sensível se encontra mais próximo ao próprio sentido, enquanto que a imaginativa alcança o imaginável mediante o sentido. A imaginativa não é uma potência tão geral nas coisas sensíveis como a sensitiva. Isso se manifesta no tato, graças ao qual o homem que sustenta uma pedra sente ao mesmo tempo muitas e diversas coisas, como o peso da pedra, o frio, a aspereza e a dureza. Mas não é assim no caso da imaginativa, pois esta imagina as sensações sucessivamente. O mesmo ocorre com as coisas similares a esta. E basta isto, por razão da brevidade.

Do sexto sujeito, que é a sensitiva

Há princípios e regras de maneira específica na sensitiva, pois ela tem um poder pela vista, outro pelo ouvido, etc. Isso é provocado maximamente por duas propriedades: o instinto e o apetite, e se define assim: a sensitiva é a potência a que propriamente compete sentir. A sensitiva causa as impressões sensoriais com seus princípios e suas regras específicas. É geral pelo sentido comum, e particular pelos sentidos particulares.

Pelo sentido comum, tem correlativos comuns; pelos sentidos particulares, tem correlativos particulares. A vida radical da sensitiva vive da vida vegetal, como a que está unida e na que está plantada, assim como a vegetativa está na elementativa. A sensitiva percebe os objetos mediante todos os sentidos. Assim, através da visão, ela percebe o objeto colorido, e através do ouvido, a voz, e mediante o afato, dá significado a essa voz. Assim, sem o afato o ouvido não pode perceber a voz e, desse modo, o intelecto conhece que o afato é um sentido.1

Do sétimo sujeito, que é a vegetativa

À vegetativa correspondem princípios e regras específicas, com as quais as plantas atuam conforme as espécies as quais pertencem. Assim, a pimenta atua de acordo com sua espécie, a rosa segundo a sua, o lírio segundo a sua, etc. Os princípios da vegetativa são mais condensados que os da sensitiva, e os da sensitiva mais que os da imaginativa. E se definem assim: a vegetativa é a potência a que compete propriamente vegetar.

Assim, ela dota, à sua maneira, os corpos elementados de natureza vegetativa, como a sensitiva que percebe sensivelmente os corpos vegetados e os elementados. A vegetativa transubstancia a elementativa em sua própria espécie mediante a geração, e dela vive, cresce e se alimenta. A vegetativa morre quando lhe falta a elementativa, da mesma forma que a luz morre na lamparina quando lhe falta o azeite.

Do oitavo sujeito, que é a elementativa

Na elementativa há princípios e regras específicas que dispõem de muitas espécies, como o ouro, a prata, etc. E se define assim: a elementativa é a potência que compete propriamente elementar. Possui correlativos comuns, como a sensitiva. O mesmo se pode dizer de seus particulares (como o fogo, o ar, a água e a terra), pois tem seus correlativos, sem os quais estes elementos não podem existir, assim como os correlativos tampouco podem existir sem os elementos que constituem os últimos fundamentos da elementativa. Graças a estes, a elementativa tem pontos, linhas e figuras, largura, amplitude e profundidade, corpo pleno, qualidades e complexões, dureza, aspereza, ligeireza, peso, etc.

E assim o intelecto conhece que os elementos se encontram em ato nos elementados, mesmo que de maneira solta, pois, de outro modo, os elementados não teriam do que existir, não seriam do gênero da substância, nem teriam forma, matéria, movimento, instinto, largura, amplitude, plenitude, nem apetite, o que é totalmente impossível e absurdo de dizer.

Do nono sujeito, que é a instrumentativa

Este sujeito é da instrumentalidade, e o considera de dois modos: naturalmente, como é o caso do olho, que é o instrumento para ver, e moralmente, como é o caso da justiça para julgar, e do martelo para fabricar.

Pode-se conhecer o instrumento natural deduzindo-o de maneira específica mediante os princípios e as regras desta Arte. O mesmo ocorre com o instrumento moral, mediante os mesmos princípios e regras, conforme sua maneira específica. Assim, os instrumentos naturais e morais diferem entre si. Mas deixemos esta dedução dos instrumentos ao intelecto capacitado para realizá-la. E se o intelecto do artista falha em tal dedução, deve-se recorrer à Arte Magna, onde tratamos largamente da moral. Mas já que os mencionamos no alfabeto, desejamos definir os instrumentos morais, a fim de que o artista tenha conhecimento deles através das definições, princípios e regras da moral.

1.   Instrumentativa é a potência que moralmente age em quem é moral.

2.   Justiça é o hábito com o qual o justo age justamente.

3.   Prudência é o hábito com o qual o prudente atua prudentemente.

4.   Fortaleza é o hábito com o qual o forte de coração age virilmente.

5.   Temperança é o hábito com o qual o temperado atua com temperança.

6.   é o hábito com o qual se crê verdadeiro o que não é sentido nem entendido.

7.   Esperança é o hábito com o qual se espera vir de Deus perdão e glória, e se confia no amigo bom e potente.

8.   Caridade é a virtude com a qual aquele que possui bens próprios os torna comuns.

9.   Paciência é o hábito com o qual o paciente vence, e não é vencido.

10. Piedade é o hábito com o qual o piedoso se condói com a dor de seu próximo.

11. Avareza é o hábito com o qual o rico é pobre e mendiga.

12. Gula é o hábito com o qual o guloso, com o tempo, acaba encarcerado na enfermidade e na pobreza.

13. Luxúria é o hábito com o qual o homem usa suas potências indevidamente e contra o matrimônio.

14. Soberba é o hábito com o qual o homem soberbo tenta ser superior aos outros homens, e é contra a humildade.

15. Acídia é o hábito com o qual o acidioso se condói com o bem alheio e se alegra com o mal.

16. Inveja é o hábito com o qual o invejoso deseja injustamente os bens alheios.

17. Ira é o hábito com o qual o irado ata sua capacidade de juízo e sua liberdade.

18. Mentira é o hábito com o qual o mentiroso fala ou testemunha contra a verdade.

19. Inconstância é o hábito com o qual o inconstante é volúvel de muitas maneiras.

Dissemos dos nove sujeitos que o artista pode ter conhecimento contemplando-os e discorrendo através dos princípios e regras desta Arte.

Da décima parte, que trata da aplicação

A aplicação se divide em três partes. Na primeira, o implícito se aplica ao explícito; na segunda, o abstrato se aplica ao concreto, e na terceira, a questão se aplica aos lugares desta Arte. E da primeira e da segunda parte assim decidimos:

1. Se os termos em questão são implícitos, há de se explicar os termos explícitos desta Arte; como quando se pergunta: “existe Deus?”, ou “existem os anjos?”, etc., há que se aplicarem os termos à bondade, grandeza, etc.; ou seja: “É bom, grande, etc. que existe em Deus e que existe no anjo?”.

2. Da segunda parte, há que se dizer que se os termos da questão são abstratos, aplicar-se-ão aos seus termos concretos; como “bondade” ao “bom”, “grandeza” ao “grande”, “cor” ao “colorido”, etc. E há que se fixar de que modo se relacionam o termo abstrato e o termo concreto, através dos princípios e das regras.

3. A terceira parte trata da aplicação dos lugares, e se divide em treze partes, que são as seguintes: (1) primeira figura, (2) segunda, (3) terceira, (4) quarta figura, (5) definições, (6) regras, (7) tábula, (8) evacuação da terceira figura, (9) multiplicação da quarta figura, (10) mescla dos princípios e das regras, (11) nove sujeitos, (12) cem formas e (13) questões.

1-11. As matérias das questões vão se aplicar às onze primeiras partes segundo lhes correspondam. Pois se a matéria da questão compete à primeira figura, se aplicará a primeira figura, solucionando a questão extraindo-se do texto da mesma figura, afirmando ou negando de tal modo que o texto permaneça invariável. E o que dissemos da primeira figura, pode ser dito para as outras partes, cada uma ao seu modo.

Isto é o suficiente no que diz respeito à aplicação, por causa da brevidade desta Arte. E se o intelecto do artista falha na aplicação dos termos, ele deve recorrer à Arte Magna, pois ali se trata com mais amplitude.

Das cem formas

Nesta parte se consideram cem formas com suas definições, para que o sujeito seja assimilado pelo intelecto. Pois, mediante as definições das formas, o intelecto assumirá condições para discorrê-las através dos princípios e das regras; e graças a este estudo, adquirirá conhecimento das formas que aparecem nas questões e nas definições. Assim, estas são as formas, com suas definições.

1.       Entidade é a causa em razão da qual um ente causa outro ente.

2.      Essência é a forma abstraída do ser e sustentada por ele.

3.      Unidade é a forma a qual compete propriamente unir.

4.      Pluralidade é a forma agregada com plural que difere em número.

5.      Natureza é a forma que propriamente compete naturar.

6.      Gênero é um ente muito geral e muito confuso que se predica de muitas coisas de diferentes em espécie.

7.      Espécie é o ente que se predica de muitas coisas que diferem em número.

8.      Individualidade é o termo que dista mais do gênero que qualquer outro ente.

9.      Propriedade é a forma com a qual o agente especificamente age.

10.     Simplicidade é a forma que se encontra mais distante da composição que qualquer outro ente.

11.     Composição é a forma agregada de essências plurais.

12.     Forma é a essência com a qual o agente age na matéria.

13.     Matéria é a essência simplesmente passiva.

14.     Substância é o ente existente por si.

15.     Acidente é forma, não existente por si, e que não guarda relação, principalmente com seu fim.

16.     Quantidade é ente em razão da qual o sujeito é quantificado, e com ela age quantitativamente.

17.     Qualidade é o ente em razão do qual os princípios são qualificados.

18.     Relação é forma respectiva à muitas coisas diversas, sem as quais não podem existir.

19.     Ação é a forma inerente ao passivo.

20.    Passividade é o ente que subsistente e inerente à ação.

21.     Hábito é a forma que reveste o sujeito.

22.    Situação é a posição das partes, retas e devidamente ordenadas no sujeito.

23.    Tempo é ente no qual os entes criados têm início e origem. Ou: tempo é o ente constituído no presente por uma multiplicidade conforme o antes e o depois.

24.    Lugar é o acidente no qual o ente é colocado. Ou lugar é a superfície que ambienta e contêm de maneira imediata as partes interiores de um corpo.

25.    Movimento é o instrumento com o qual o motor move o movido. Ou: movimento é aquilo que conhece a natureza do princípio, do meio e do fim.

26.    Imobilidade é o ente que não tem nenhum apetite de mover-se.

27.    Instinto é figura e semelhança do intelecto.

28.    Apetite é forma e similitude da vontade.

29.    Atração é a forma com a qual o atraente atrai o atraído. Ou: atração é uma forma que tem instinto e apetite de atrair algo no sujeito.

30.    Recepção é a forma com a qual o receptor recebe o recebido. Ou: recepção é uma forma que tem forma e apetite de receber algo no sujeito.

31.     Fantasia é a semelhança abstraída das coisas por meio da imaginação.

32.    Plenitude é a forma distanciada da vacuidade.

33.    Difusão é a forma com a qual o difusor difunde o difundível.

34.    Digestão é a forma pela qual o digestor digere o digerível.

35.    Expulsão é a forma com a qual a natureza expele o que não convêm ao sujeito.

36.    Significação é a revelação dos segredos demonstrados através de um signo.

37.    Beleza é uma bela forma recebida pela visão, pela audição, pela imaginação, pelo conceito e pela deleitação.

38.    Novidade é a forma em razão da qual o sujeito se habitua com novos hábitos.

39.    Idéia, em Deus, é Deus; na criação, é criatura.

40.    Matemática é a forma com a qual o intelecto humano despoja a substância de seus acidentes.

41.     Ente, em potência, é a forma que existe no sujeito sem movimento, quantidade, qualidade, etc.

42.    Pontuidade é a essência do ponto natural, e a menor parte que existe no corpo.

43.    Linha é a longitude constituída por muitos pontos contínuos, cujas extremidades são dois pontos.

44.    Triângulo é a figura que tem três ângulos agudos contidos em três linhas.

45.    Quadrângulo é a figura que tem quatro ângulos retos.

46.    Círculo é a figura contida em uma linha circular.

47.    Corpo é a substância plena de pontos, linhas e ângulos.

48.    Figura é o acidente constituído pela situação e pelo hábito.

49.    As direções gerais são seis, pelas quais todo corpo se encontra no centro de linhas diametrais.

50.    Monstruosidade é o desvio do curso da natureza.

51.     Derivação é o sujeito material através do qual o particular descende ao universal.

52.    Sombra é o hábito da privação.

53.    Espelho é um corpo diáfano, disposto a receber todas as figuras representadas.

54.    Cor é o hábito contido pela figura.

55.    Proporção é a forma cuja propriedade compete proporcionar.

56.    Disposição é a forma cuja propriedade compete dispor.

57.    Criação é a idéia na eternidade; o tempo é uma criatura.

58.    Predestinação é uma idéia na sabedoria de Deus, mas na criação é uma criatura.

59.    Misericórdia é uma idéia na eternidade; no predestinado é uma criatura.

60.    Necessidade é a forma que não pode dar-se de outra maneira, e o necessitado é o ente que a contêm.

61.     Fortuna é um acidente inerente ao sujeito, e o afortunado é o homem disposto a ela.

62.    Ordenação é a forma cuja propriedade corresponde ordenar; o ordenado é seu próprio sujeito.

63.    Conselho é uma proposição duvidativa; o aconselhado é seu repouso.

64.    Graça é uma forma primitiva posta no agraciado sem mérito seu.

65.    Perfeição é a forma cuja propriedade compete perfeccionar um sujeito perfeito.

66.    Declaração é a forma na qual o intelecto repousa distinguindo. Declarado é seu sujeito, no qual a declaração é um hábito.

67.    Transubstanciação é o ato da natureza no transubstanciado, que se desnuda da forma antiga e se reveste em uma nova.

68.    Alteração é a forma nascida no alterado.

69.    Infinidade é a forma que tem o ato infinito, alheia de qualquer coisa finita.

70.    Decepção é o hábito positivo de quem decepciona, e é um hábito privativo de quem é decepcionado.

71.     Honra é um hábito ativo no que honra, e passivo no que é honrado.

72.    Capacidade é a forma com a qual o capaz pode conter e receber tudo o que pode vir.

73.    Existência é a forma com a qual o existente existe como é. Agência é a forma que move o existente ao término ao qual se dirige.

74.    Compreensão é uma semelhança de infinitude, e apreensão de finitude.

75.    Invenção é a forma com a qual o intelecto encontra o encontrado.

76.    Semelhança é a forma com a qual o semelhante se assemelha a seu semelhado.

77.    Antecedente é a forma que causa o conseqüente. Conseqüente é o sujeito no qual repousa o antecedente.

78.    Potência é a forma com a qual o intelecto alcança o objeto. Objeto é o sujeito no qual o intelecto repousa. Ato é a conexão entre a potência e o objeto.

79.    Geração, nas criaturas, é a forma com a que o agente causa formas novas. Corrupção é a forma com a qual o que corrompe elimina as formas antigas. Privação é o que existe no meio de ambas.

80.    Teologia é a ciência que fala de Deus.

81.     Filosofia é o sujeito pelo qual o intelecto entra se relaciona com todas as ciências.

82.    Geometria é a arte inventada para medir linhas, ângulos e figuras.

83.    Astronomia é a arte com a qual o astrônomo conhece as virtudes e os movimentos que o céu tem efetivamente nas coisas inferiores.

84.    Aritmética é a arte inventada para numerar muitas unidades.

85.    Música é a arte inventada para ordenar muitas vozes concordantes em um canto.

86.    Retórica é a arte inventada com a que o retórico orna e colore suas palavras.

87.    Lógica é a arte com a qual o lógico encontra a conjunção natural entre o sujeito e o predicado.

88.    Gramática é a arte de encontrar a maneira correta de falar e escrever.

89.    Moralidade é a arte de fazer o bem e o mal.

90.    Política é a arte com a qual os burgueses procuram a utilidade pública das cidades.

91.     Direito é o ato regulado no homem habituado à justiça.

92.    Medicina é o hábito com o qual o médico procura a saúde do paciente.

93.    Regimento é a forma com a qual o príncipe rege seu povo.

94.    Cavalaria é o hábito com o qual o cavaleiro ajuda o príncipe a manter a justiça.

95.    Mercadoria é o hábito com o qual o mercador sabe comprar e vender.

96.    Navegação é a arte com a qual os marinheiros sabem navegar pelo mar.

97.    Consciência é a forma com a qual o intelecto aflige a alma pela faltas cometidas.

98.    Pregação é a forma com a qual o pregador instrui o povo para que adquira bons costumes e evite os maus.

99.    Oração é a forma com a qual aquele que ora fala santamente com Deus.

100.   Memória é o ente com o qual os entes são recordáveis.

Da décima-primeira parte, que é das questões

Esta parte se divide em doze partes ou lugares, dispostos e proporcionados às questões conforme a diversidade da matéria que tratam. Em um lugar ou parte ela significa a solução de uma questão, e em outro lugar a solução de outra questão. Por isso, aplicaremos as questões aos ditos lugares de diversos modos.

Faremos isso de dois modos, já que resolveremos algumas questões e outras não, pois estas serão deixadas ao artista bom e observador, para que ele extraia bem a solução daquela parte ou lugar para onde remitiremos as questões, e onde está significada a solução. Assim, proporemos e resolveremos poucas questões, por causa da brevidade, já que esta Arte abstrata provém da Arte Magna, para tratá-la mais brevemente, e o intelecto  aprenda muito a partir de poucas palavras. Assim, ele será mais universal.

Mediante as soluções a estas questões aqui indicadas ou propostas, poder-se-á solucionar outras questões ao seu modo.

Os lugares ou partes às quais remeteremos as questões são doze, como já foi indicado, a saber: (1) a primeira figura, (2) a segunda figura, (3) a terceira figura, (4) a quarta figura, (5) as definições, (6) as regras, (7) a tábula, (8) a evacuação da terceira figura, (9) a multiplicação da quarta figura, (10) a mescla dos princípios e das regras, (11) os nove sujeitos e (12) as cem formas.

Assim, trataremos primeiramente da primeira parte ou lugar.

1. Das questões da primeira figura

Questão 1: Existe algum ente no qual o sujeito e o predicado se convertem em uma identidade essencial, de natureza e de número por toda a primeira figura? Há de se responder que sim, pois, de outro modo, tanto a conversão do sujeito e do predicado como sua igualdade seriam absolutamente destruídas, a eternidade seria superior por infinidade de duração, e sua bondade, grandeza, poder, etc., seriam inferiores por finitude, o que é impossível.

2. Perguntam: Qual é aquele ente no qual o sujeito e o predicado se convertem? Há de se responder que aquele ente é Deus, pois tal conversão não pode ter lugar a não ser em um ente infinito e eterno.

3. Perguntam: A bondade divina tem em si tão magna bonificação como o intelecto divino intelecção?

4. Perguntam: Por que Deus tem em Si tão magna agência como existência?

5. Perguntam: De onde procede que o poder de Deus seja tão grande quanto Ele?

6. Perguntam: Por que o homem e o animal não se convertem? Há de se responder que: a causa é que a conversão não pode dar-se entre o maior e o menor, somente entre iguais.

7. Perguntam: São convertíveis no anjo seu poder, intelecto e vontade? A resposta é não, pois, do contrário, ele poderia ter um ato tão infinito e eterno quanto Deus.

2. Das questões da segunda figura

As questões da segunda figura podem ser feitas de três modos, como o exemplo do homem e do leão, que, por diferença, diferem em espécie, por concordância, coincidem em gênero, e por contrariedade, são contrários, ou seja, por corruptibilidade e incorruptibilidade, e o mesmo nos outros casos, cada um ao seu modo.

8. Perguntam: É a diferença mais geral que a concordância e a contrariedade? Deve-se responder que sim, já que onde há concordância e contrariedade, há diferença; mas nem sempre há o inverso, pois em muitas coisas há diferença e concordância, e não há nelas contrariedade natural, como é o caso dos entes espirituais.

9. Perguntam: Qual é o maior princípio, a concordância ou a contrariedade? Dizemos que é a concordância, pois da concordância descendem os princípios positivos, e da contrariedade os privativos.

10. Perguntam: A definição “o homem é um animal homificante” – ou “o homem é o ente ao qual corresponde propriamente homificar” – é mais clara que “o homem é um animal racional mortal”? Há de se responder que sim, pois o ato de homificar corresponde somente ao homem, e a racionalidade e a mortalidade a muitos seres.

          Através do triângulo princípio-meio-fim podem ser feitas questões de três modos. O primeiro deles é quando se pergunta:

11. Porque existe uma causa primeira e não muitas? Devemos responder que isso é assim para que exista um fim infinito.

O segundo modo é quando se pergunta:

12. O termo médio que existe entre o sujeito e o predicado tem quantidade contínua ou discreta? Há de se responder que tem quantidade contínua a respeito do meio de extremidades, mas discreta a respeito do meio de conjunção e de medida.

O terceiro modo é quando se pergunta:

13. Qual fim é o último no sujeito? Há de se responder que é o fim próprio, não o apropriado.

Através do triângulo maioridade-igualdade-menoridade podem ser feitas questões de três modos. Por maioridade, como quando se pergunta:

14. Porque Deus é superior ao anjo e o anjo superior ao homem? Há de se responder que Deus é superior ao anjo porque a Bondade, a Grandeza, etc., divinas distanciam-se de quantidade por infinidade, e de tempo por eternidade, e não ocorre assim com a bondade, a grandeza, etc., do anjo, que são superiores à bondade, grandeza, etc., do homem, pois no sujeito no qual se encontram, distanciam-se de divisão e de sucessão, e não ocorre assim com a bondade, grandeza, etc., do corpo do homem.

O segundo modo é quando se pergunta:

15. Porque o intelecto, a vontade e a memória são iguais na alma por essência? Há de se responder que a causa primeira é igualmente inteligível, recordável e amável pela igualdade de sua bondade, grandeza, etc. Assim, o intelecto conhece que a demonstração se pode fazer de três modos: a partir da causa, do efeito, e por igualdade ou equiparação.

O terceiro modo é quando se pergunta:

16. Porque o pecado está mais próximo ao nada que a qualquer outro ente? E há que se dizer que é mais incompatível com o fim do ser.

17. Perguntam: A diferença que existe entre o sensual e o sensual é maior que a que existe entre o sensual e o intelectual, e a que existe entre o intelectual e o intelectual?

18. E também: A diferença que existe entre princípio e meio é maior que a que existe entre meio e fim?

19. Igualmente se pode perguntar sobre a diferença que existe entre substância e substância, etc. E há que se responder pelo que foi significado nos triângulos supracitados, subjetivas e objetivamente, mediante a regra B.

3. Das questões da terceira figura

Ao tratar da terceira figura se disse que qualquer princípio se aplicava a outro. E por isso se pergunta:

20. A contrariedade é tão aplicável à bondade, grandeza, etc., como à concordância? E há que se dizer que não, pois a contrariedade se aplica aos princípios privando e contrariando, e a concordância pondo e concordando.

Diz-se na terceira figura: “A bondade é magna”. E por isso se pergunta:

21. Que é a bondade magna? E há que se responder que a bondade magna é aquela que, sem contrariedade nem menoridade, convém com todos os princípios e seus correlativos.

22. Perguntam: Onde está a bondade? Veja a câmara BI e extraia seus significados.

23. Perguntam: De que é feita a bondade?

24. Perguntam: Como é a bondade? Vá às câmaras BD e BK e extraia seus significados, e faça o mesmo com as outras regras.

25. E também perguntam: quando o intelecto é universal e particular?

4. Das questões da quarta figura

26. Perguntam pela câmara BCD: alguma bondade é infinitamente grande como a eternidade? E há que se responder que sim, pois, do contrário, toda a grandeza da eternidade não seria boa.

27. Pela câmara BEF se pergunta: Deus é tão potente por sua bondade como por seu intelecto? Vá àquela câmara e extraia os significados de seus correlativos e suas definições.

28. Perguntam: O anjo produz outro anjo, sendo superior, como o homem produz outro homem, sendo inferior? Há que se responder que não, já que o anjo não recebe nenhum aumento externo, pois se esvaziaria de sua essência; mas o homem sim, por causa de seu corpo.

5. Das questões pelas definições dos princípios

29. Perguntam: Deus é um ente necessário?

30. Perguntam: Pode a unidade ser infinita sem um ato infinito?

31. Perguntam: Existe um só Deus?

32. Perguntam: Pode Deus ser mau? Vá às definições de bondade, de grandeza e de eternidade, e retenha o que significam. Pois se a bondade é grande e eterna, é necessário que a bondade seja a razão do bem grande e eterno que produza um bem grande eterno. E o mesmo com as outras questões que se podem fazer a partir das definições dos princípios.

6. Das questões a partir da regras

33. Perguntam: Crer antecede o entender?

34. Perguntam: Que definição é maior e mais clara, a que se dá pela potência e seu ato específico, ou a que se dá pelo gênero e pela diferença? E há que se responder que é a que se dá pela potência e por seu ato específico, pois por ela se adquire conhecimento do sujeito e do ato que lhe é específico, enquanto que pela outra só se adquire o conhecimento das partes.

35. Perguntam: A potência tem um ato externo à sua essência?

36. Perguntam: O intelecto é agente na memória e paciente na vontade?

37. Pode o intelecto apreender um objeto sem nenhum sentido?

38. O poder divino pode ter um ato infinito?

39. Pode existir um ato sem diferença?

40. O ato é possuído pela potência, pelo objeto ou por ambos?

41. Pode existir por si mesma a substância sem suas causas?

42. A vontade tem poder sobre o intelecto por meio do crer, e o intelecto sobre a vontade por meio do entender?

43. A vontade e a memória são desiguais na alma?

44. Pode o intelecto se universal ou particular sem seus correlativos?

45. Quando o intelecto faz ciência, a faz pela propriedade e pela diferença?

46. O intelecto predispõe a amar e a recordar, e ao contrário?

47. Pode o intelecto crer e entender ao mesmo tempo?

48. O intelecto faz ciência em si mesmo?

49. Perguntam: Como o intelecto faz a espécie?

50. O intelecto, com sua espécie, ordena a vontade e a memória que se apresentem na dita espécie?

Como aplicamos as questões das regras ao intelecto, se podem aplicar as outras potências ao seu modo.

7. Das questões feitas pela tábula

51. Perguntam: O mundo é eterno? Vá à coluna BCD e tenha a resposta negativa. E encontrarás na câmara BCTB que, caso seja eterno, então existem muitas eternidades diferentes em espécie, e que são concordantes pela câmara BCTC contra a câmara BCTD, o que é impossível. De onde se segue que há que se responder negativamente à questão, e assim o prova a regra B.

52. Perguntam: Deus pode ser tão infinito por sua grandeza como por sua eternidade? Vá à coluna CDE e a câmara CDTC, respondendo afirmativamente contra a câmara CDTD.

53. Pode Deus tanto por eternidade como por intelecto? Vá à coluna DEF e à câmara DETD.

54. Deus é tão poderoso por Seu poder quanto por Seu entender e amar? Vá à coluna EFG. E responda afirmativamente pela câmara EFTE, pela câmara EFTF, e pela câmara EFTG, até completar toda a coluna.

55. Seu intelecto e sua vontade são maiores que sua virtude? Vá à coluna FGH e responda negativamente por todas as suas câmaras, esgotando o significado destas.

56. A verdade divina é tão virtuosa, pela igualdade dos correlativos como a vontade divina? Vá à coluna GHI, e responda afirmativamente por todas as suas câmaras.

57. Há na virtude, glória e verdade de Deus algo que seja igual e distante no tempo, lugar e menoridade? Vá à coluna HIK e responda afirmativamente por todas as câmaras.

8. Das questões feitas a partir da evacuação da terceira figura

Na câmara BC foi dito que a bondade é magna, e se pergunta:

58. A bondade é grande?

59. Qual é sua magnitude?

60. Em que concordam a bondade e a grandeza?

61. Elas podem concordar sem diferença?

E há que responder que a bondade é magna, segundo se depreende da definição de magnitude; e sua magnitude consiste em ter seus correlativos, segundo se depreende da segunda espécie da regra C. E elas concordam, pois a bondade é grande pela grandeza, e o inverso, e não podem concordar de nenhuma maneira sem a diferença de seus correlativos.

Basta o exposto sobre a evacuação da terceira figura, por causa da brevidade. Pois, a partir do que dela temos dito, o artista pode fazer e resolver questões pelas outras câmaras.

9. Das questões feitas pela multiplicação da quarta figura

62. Se pergunta: de que maneira o intelecto se condiciona ao geral por meio do entender geral? Veja a multiplicação da quarta figura, e observe como o intelecto multiplica as condições, como as que multiplicam os objetos e seu entender, a fim de ser geral e adotar muitos hábitos por muitas e grandes ciências. E isso é o suficiente sobre a multiplicação da quarta figura, por causa da brevidade.

10. Das questões feitas a partir da mescla dos princípios e das regras

63. Se pergunta: a bondade pode ser estudada mediante a grandeza e a duração, mas e o inverso? E há que responder que sim, como foi demonstrado na terceira figura, ao converter o sujeito em predicado.

64. Se pergunta: O que é a bondade na grandeza, na duração, etc.? E há que responder que na grandeza é grande, e na duração duradoura.

65. Se pergunta: O que tem a bondade na grandeza, na duração, etc.? E há que dizer que tem grandes correlativos na grandeza, e duradouros na duração. E conforme exemplificamos com a bondade, se pode exemplificar com os outros princípios à sua maneira. E basta o dito sobre a mescla, por causa da brevidade.

11. Das questões dos nove sujeitos

Das questões do primeiro sujeito, que é Deus

66. Se pergunta: Existe Deus? Há que responder que sim, como foi provado nas questões da primeira figura.

67. Se pergunta: O que é Deus? Há que responder que Deus é o ente que atua em Si mesmo na mesma medida em que existe.

68. Pela segunda espécie de regra C se pergunta: O que tem Deus em Si co-essencialmente? Há que responder que tem seus correlativos, sem os quais não poderia ter imensas e eternas razões.

69. Pela terceira espécie se pergunta: O que é Deus em outro? Há que responder que é criador, governante, etc.

70. Pela quarta espécie da regra C se pergunta: O que tem Deus no outro? Há que responder que no mundo Ele tem poder e domínio, e nos homens juízo e ato de graça, de misericórdia e de humildade, de paciência e de piedade. E basta o dito sobre Deus, por causa da brevidade.

Das questões do segundo sujeito, que é o anjo

71. Se pergunta: Os anjos existem? Há que responder que sim; pois se existe aquilo que parece ser menos semelhante a Deus, com muito mais motivo existe o que parece ser mais semelhante a Deus.

E mais: se existe um ser composto de corporalidade e intelectualidade, com muito mais motivo existe um ser composto de intelectual e intelectual.

E mais ainda: se não existissem os anjos, a escala de diferença e de concordância ficaria vazia, e conseqüentemente também o mundo, o que é impossível.

72. Se pergunta: De que e de quem é o anjo? Há que responder pela regra D que ele é de si mesmo, pois sua essência não pode ser pontual nem linear; e pela segunda espécie da mesma regra se responde que ele é de seus correlativos espirituais, isto é, de seus -tivos, -áveis e -ar, que o compõe. Pelos -tivos é ativo, pelos -áveis é receptivo, e pelo -ar é o ato que existe entre os -ivos e os -áveis. Pela terceira espécie, há que dizer que o anjo é de Deus. E basta o dito sobre os anjos, por causa da brevidade.

Das questões do terceiro sujeito, que é o céu

73. O céu move a si mesmo? Há que responder que sim, para que seus princípios tenham correlativos substanciais e próprios por suas constelações.

74. O céu se move para algum lugar? Há que responder que sim. Ele se move circularmente em si mesmo e em relação ao mundo inferior; mas não fora de si. A razão disto é porque ele não tem nem pode ter nenhuma ação fora de si mesmo.

75. Um anjo move o céu? Há que responder que não, pois, se o movesse, os -tivos e seus correlativos estariam por baixo, e os -áveis por cima. Portanto, ele não moveria os elementos nem os elementados por sua forma, e sim por sua matéria, o que é impossível.

76. Se pergunta: O céu tem uma alma motriz? E há que responder que sim, pois, caso contrário, nem a vegetativa nem a sensitiva teriam almas motrizes, nem os elementos teriam movimento.

77. Se pergunta mediante a primeira espécie da regra E: Porque existe o céu? Há que dizer porque ele está constituído a partir de suas próprias forma e matéria.

78. Pela segunda espécie da regra E se pergunta: Por que existe o céu? Há que responder que ele existe para que os seres inferiores possam ter movimento. E basta o dito sobre o céu, por causa da brevidade.

Das questões do quarto sujeito, que é o homem

79. Se pergunta: O homem pode adquirir um maior conhecimento de Deus afirmando ou negando? Há que responder que afirmando, pois Deus não existe por aquilo sem o qual Ele mesmo existe, e sim por aquilo sem o qual Ele não pode existir.

80. Se pergunta: Porque o homem age por sua forma específica? Veja a segunda espécie da regra E, pois ali se encontra a solução.

81. O homem que acrescenta seus atos acrescenta sua essência? Há que responder que nenhum homem faz a si mesmo.

82. Se pergunta: Quando o homem deseja recordar, e não o pode fazer, quem é mais deficiente, a memória ou o intelecto? Há que responder que é a memória, já que esta devolve natural e mais rapidamente à espécie antiga ao intelecto que à vontade.

83. Se pergunta: Como se compõe a alma e o corpo do homem? Há que responder que no homem a bondade espiritual e corporal compõem uma bondade, e o mesmo com as outras qualidades.

84. Se pergunta: O que é a vida do homem? Há que responder que é aquela forma composta de vegetativa, sensitiva, imaginativa e racional.

85. Que é a morte do homem? Há que responder que ela é a separação das potências elementativa, vegetativa, sensitiva, imaginativa e racional.

86. Se pergunta: O homem é visível? E há que responder que não, pois a vista só pode ver a cor e a figura.

87. Se pergunta: O intelecto e a memória são uma mesma potência no homem? Há que responder que não, pois se fossem uma mesma potência, o intelecto não seria sucessivo na aquisição das espécies, não as esqueceria, nem as ignoraria. E também porque seria excessivamente forte no objeto, contra a liberdade da vontade. E isso é suficiente de se dizer sobre o homem.

Das questões do quinto sujeito, que é a imaginativa

88. Se pergunta: A imaginativa imagina as coisas imagináveis ao seu modo como a sensitiva sente as coisas sensíveis?

89. Se pergunta: Qual é a causa pela qual a imaginativa abstrai as espécies dos objetos sensíveis?

90. Se pergunta: O que é a imaginativa?

91. A imaginativa têm correlativos?

92. A imaginativa aumenta quando aumenta seu ato?

93. A imaginativa é uma potencia mais elevada que a sensitiva?

94. A imaginativa tem instinto e apetite específicos?

95. De qual maneira a sensitiva impede o ato da imaginativa?

96. Por que a imaginativa não é tão potente nas coisas sensíveis como a sensitiva? Veja o sujeito da imaginativa.

97. Se pergunta: A sensitiva sente a imaginativa? Há que responder que as potências inferiores não agem nas superiores.

Das questões do sexto sujeito, que é a sensitiva

98. Se pergunta: Qual destas duas potências sente a fome e a sede: o gosto ou o tato? Há que responder que é aquela que se dispõe melhor ao objeto.

99. O gosto sente a fome ou a sede com o instinto e o apetite de mesma forma que a vista sente o colorido com a cor? Veja a segunda espécie da regra E.

100. Se pergunta: como a sensitiva sente os objetos sensíveis? Há que responder que qualquer sentido particular sente seu objeto sensível mediante a forma específica, como o sujeito colorido dá cor ao cristal no qual se encontra.

101. A sensitiva tem quantidade pontual e linear? Há que responder que a sensitiva atinge o objeto tão rapidamente de longe como de perto.

102. Como a sensitiva tem um sentido comum, também tem um poder, um instinto e um apetite comuns?

103. Se pergunta: O que é a sensitiva?

104. Com que coisas a sensitiva é comum, e com quais é particular?

105. De que vive e se nutre a sensitiva?

106. A sensitiva é sentida com os sentidos? Veja o sujeito da sensitiva.

Das questões do sétimo sujeito, que é a vegetativa

107. A vegetativa age por meio de sua espécie?

108. A vegetativa tem algo em virtude em razão do qual seja comum e particular, como a sensitiva?

109. A quantidade da vegetativa é pontual ou linear?

110. Se pergunta: O que é a vegetativa? E pela segunda espécie da regra C: o que ela tem em si mesma?

111. Se pergunta: de que vive, se nutre e cresce a vegetativa, e em qual sujeito está plantada?

112. O que é a morte da vegetativa? Veja o sujeito da vegetativa, onde se encontram implícitas as soluções a estas questões.

Das questões do oitavo sujeito, que é a elementativa

113. O que é a elementativa?

114. A elementativa tem muitas espécies como a sensitiva?

115. A elementativa tem seus correlativos?

116. A chama da vela elementa o pavio da lâmpada em si quando acende?

117. A chama da vela acende o pavio com o ar como a vista percebe o objeto colorido com a luz?

118. A elementativa é a causa da longitude, da latitude, profundidade e da plenitude?

119. A elementativa é a espécie comum dos elementos?

120. A elementativa pode estar em um sujeito após terem dele se separado os elementos?

121. A elementativa é o fim (ou fonte) dos pontos, das linhas e das figuras?

122. A elementativa se move naturalmente com seu instinto e apetite, leveza, peso, calor, etc., como o homem se move artificialmente com seus pés?

123. Pode a elementativa ter uma natureza sem os correlativos substanciais?

124. Nos corpos elementados os elementos estão em ato?

125. A elementativa tem quantidade contínua por todos os lugares abaixo do globo lunar?

126. Existem dois calores, duas securas, duas brancuras, etc.? Solução: Veja o sujeito da elementativa e extraia dele as soluções, com o intelecto condicionado e exercitado por esta Arte.

127. Existe um quinto elemento? Há que responder que não, pois nos corpos elementados são suficientes quatro compleições.

Das questões do nono sujeito, que é a instrumentativa

Fizemos acima as questões relativas à instrumentalidade natural. Aqui desejamos fazê-las sobre a moral.

128. Se pergunta: O que é moralidade?

129. Se pergunta: O que é a justiça, a prudência, etc.?

130. Também se pergunta: O que é a avareza, a gula, etc.? Veja o nono sujeito da instrumentativa e aja conforme o que lhe é significado ali.

131. Se pergunta: A justiça é boa? Há que responder que sim, pois, do contrário, a injustiça não seria má.

132. Além disso, se pergunta: A justiça tem correlativos? Há que se dizer que sim, pois, do contrário, ela não poderia ser um hábito, e não teria nada em que fosse sustentada e situada. E como dissemos a propósito destas coisas, igualmente podem ser feitas questões sobre a justiça por meio de todos os seus princípios e suas regras. E assim como foi tratado da justiça, também se podem dizer a respeito dos outros hábitos virtuosos.

133. Os vícios são simplesmente princípios privativos? Há que se responder que sim, pois eles não têm nenhuma conveniência com as virtudes, já que nestas o agente age e os instrumentos concordam mutuamente no objeto virtuoso. E sobre as questões morais isso é suficiente, por causa da brevidade, especialmente porque na Arte Magna a tratamos com mais amplitude.

12. Das questões das cem formas

As questões das cem formas podem ser feitas de tantas maneiras como são diferentes as formas nos nove sujeitos, como “entidade”, etc., que é uma forma em Deus, outra no anjo, outra no céu, etc. Como quando se pergunta:

134. A entidade de Deus é o princípio de todas as entidades? Há que responder que sim, já que Sua bondade é o princípio de todas as bondades, Sua grandeza, de todas as grandezas, Sua eternidade, de todas as durações. Contudo, isto não se pode afirmar da entidade do anjo, do céu, etc. E assim, cada forma, segundo sua diversidade, há de ser considerada de acordo com seus princípios e regras.

135. Se pergunta: a essência e o ser são convertíveis? Há que responder que são convertíveis em Deus, já que Nele não há nada superior nem inferior. Mas no anjo, no céu, etc., não são convertíveis, pois neles o ser existe por essência, não o contrário, já que nestes sujeitos a essência é superior, e o ser, inferior.

Podem ser formuladas de uma maneira questões sobre a unidade de Deus; de outra maneira, sobre a unidade do anjo, e de outra maneira, sobre a unidade do céu, etc. Como quando se pergunta:

136. Compete à unidade de Deus unir o infinito? Há que responder que sim, pois se não unisse o infinito, a dita unidade não poderia ser infinita, já que seu poder seria finito, ligado, e ocioso na eternidade. O mesmo se pode dizer da divina bondade, grandeza, etc., o que é impossível.

137. É feita outra questão sobre a unidade do anjo: lhe corresponde unir? Há que responder segundo as condições de sua unidade, ou seja, que um ato de falar moral e objetivamente, um amar, um entender e um bonificar, unem um anjo ao outro. Não digo com isso que um anjo se una a outro anjo, o que não é possível, conforme já foi dito; nem que um céu se una a outro, mas, efetivamente, que a unidade do céu é causa das unidades inferiores. Não ocorre o mesmo com a unidade do homem, pois um homem pode unir-se a outro e gerar outro homem, e o mesmo dos outros sujeitos, cada um à sua maneira.

138. Se pergunta: Existe pluralidade em Deus? Há que responder que sim, se tomarmos em consideração Seus correlativos, significados pela segunda espécie da regra C, sem os quais não poderia ter em Si uma operação infinita e eterna bonificando, magnificando, eternificando, etc. Assim, Suas razões seriam limitadas e ociosas, o que é impossível. Não ocorre o mesmo com a pluralidade do anjo, pois ele está composto de -ivos e -áveis, com respeito à simplicidade divina. Similarmente, o céu é mais composto que o anjo, e o homem, mais composto que o céu.

139. Se pergunta: Há natureza em Deus? Há que responder que sim, para que Ele tenha natural recordar, entender e amar, e também natural bondade, grandeza, etc., e para que estas mesmas razões Lhe sejam naturais, de maneira que produza um bem infinito e eterno, e Lhe corresponda naturar. Não ocorre o mesmo com a natureza angélica, pois ela é finita e criada. Não obstante, lhe corresponde naturar, pois tem espécies inatas e naturais, com as quais representam os objetos de maneira objetiva e natural. De igual modo pode tratar-se da natureza do céu, à sua maneira e segundo seus princípios e regras naturais específicas, com as quais atua natural e especificamente. O mesmo se pode dizer da natureza dos outros objetos, segundo sua maneira.

Por tudo o que foi dito acima, o artista pode fazer questões sobre as cem formas, e resolvê-las, aplicando às questões um tratamento diverso em cada caso, segundo se refiram a cada um dos nove sujeitos, diferentes entre si, e conservando a cada forma sua definição, enunciada acima. Desse modo, o intelecto tanto conhece como pode adquirir um caráter muito geral para fazer muitas questões, e para resolvê-las segundo o método indicado na evacuação da terceira figura e a multiplicação da quarta. Assim, quem poderia numerar as questões e as soluções que podem ser feitas? Basta o dito a respeito das questões das cem formas, por causa da brevidade.

12. Da décima segunda parte, que é do hábito

Esta parte trata do hábito desta Arte, e se divide em três partes. A primeira trata das treze partes nas quais esta Arte é dividida, e o artista deve se habituar a essa Arte para saber aplicar a questão ao lugar ou lugares convenientes com a dita questão, segundo a proporção de sua matéria.

A segunda parte indica que se habitue ao modo e ao processo do texto desta Arte, atendo-se ao modo do texto para provar e resolver novas questões, conforme são explicadas no texto, como um exemplo que permite declarar e exemplificar outro exemplo.

A terceira parte implica que o artista disponha de uma maneira de multiplicar as questões e soluções até uma mesma conclusão, como se demonstra mediante a terceira e quarta figuras e mediante o que está significado na tábula. E basta o dito a propósito do hábito, por causa da brevidade.

13. Da décima terceira parte, que é o modo de ensinar esta Arte

Esta parte é dividida em quatro. A primeira é para que o artista saiba bem coordenar o alfabeto, as figuras, definições e regras, bem como a posição da tábula.

A segunda parte é para que ele explique bem e racionalmente o texto aos alunos, sem ligar-se às autoridades externas. Os alunos têm que ler e interpretar o texto e, em caso de dúvida, perguntar ao artista ou ao mestre.

A terceira parte é para que o mestre ou o artista faça as questões diante dos alunos e as resolva racionalmente, segundo o processo da Arte. Sem a razão, o artista não poderá bem resolvê-las segundo esta Arte.

Assim, convêm saber que esta Arte tem três amigos: a sutileza de intelecto, a razão e a boa intenção. Sem estas três coisas, nada se pode aprender desta Arte.

A quarta parte é para que o artista faça questões aos alunos para que eles mesmos respondam, e que lhes diga que multipliquem as razões para a mesma conclusão, e também encontrem lugares mediante os quais saibam respondê-las e multiplicá-las. Caso os alunos néscios não saibam respondê-las, nem multiplicá-las, nem encontrá-las, o artista ou o mestre deve ensinar-lhes a fazê-lo.

Do fim desta Arte

A honra e louvor de Deus, e para a utilidade pública, Ramon terminou este livro em Pisa, no monastério de São Domnino, no mês de janeiro do ano de 1307 da Encarnação do Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

 

Notas

  • 1. Effatus – o sexto sentido que produz a palavra. COLOM I MATEU, Miquel. Glossari General Lul.lià (GGL). Mallorca: Editorial Moll, 1983, vol. II, p. 198. O sexto sentido em Llull é o “afato” (do latim affatu), isto é, a faculdade de falar: “Sem o afato, o ouvido não pode perceber a voz, e desse modo o entendimento conhece que o afato é um sentido” – RAMON LLULL, Arte breve (introd. y trad. de Josep E. Rubio), Pamplona, EUNSA, 2004, parte IX, sujeito 6, p. 96.