“A donzela que não podia ouvir falar de foder” e “Da mulher a quem arrancaram os colhões”: dois fabliaux e as questões do corpo e da condição feminina na Idade Média (sécs. XIII-XIV)

 

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A transgressão institucionalizada: com um generoso sorriso, a “donzela” volta suas imensas nádegas para os transeuntes da praça da catedral de Freiburg im Breisgau (Alemanha, escultura do séc. XIV). Essa curiosa escultura encima uma bela seqüência narrativa escultória da expulsão de Adão e Eva do Paraíso, que adorna um dos portões laterais da catedral. A analogia é muito poderosa: Adão e Eva foram expulsos do Paraíso da mesma forma que as fezes são expelidas pelo corpo humano. A solução arquitetônica é completada artisticamente nos dias de chuva, quando a água acumulada escorre pelas canaletas e sai pelo ânus da donzela, criando uma inusitada cascata na frente do portão. Como bem observou Gustave Cohen (1997: 135), muitos fabliaux inspiraram os artistas medievais em seus relevos satíricos, nos detalhes externos das catedrais, nas gárgulas, etc., e isso bem pode ter ocorrido no caso das esculturas da catedral de Freiburg, o que nos mostra a extraordinária fantasia das mentes da época e a original composição dos opostos sagrado/profano no próprio espaço sagrado. Ademais, a escolha da mulher sorridente como instrumento que expele o mal é um sinal claro da consternadora ambivalência feminina na visão dos homens medievais, característica tão combatida pelos clérigos da época. In: Die Wasserpeier am Freiburger Münster. Lindenberg: Kunstverl. Fink, 1997, p. 19.

Cena 1 – “A donzela que não podia ouvir falar de foder”

Era uma vez uma donzela muito orgulhosa e rebelde. Se ela ouvisse alguém “falar de foder” ou algo semelhante, ficava com um ar muito ofendido. Ela era a única filha de um bom homem, um rico camponês que não tinha nenhum servo em sua casa porque a moça não suportava ouvir esse tipo de conversa típica de servos. Ela “...nunca poderia suportar / que um servo falasse de foder / de caralho, colhões ou coisa semelhante” (Fabliaux, 1997: 63).

Um belo dia, um jovem velhaco de nome David chegou àquela aldeia e ouviu falar da filha que odiava os homens. Decidiu então conferir a curiosa estória, oferecendo seus préstimos: disse que sabia lavrar, semear, debulhar o trigo e peneirar. O camponês agradeceu, mas respondeu que tinha uma filha que sentia tanta náusea das coisas obscenas que os homens conversam que não poderia aceitar sua oferta. David fingiu ser um homem temente a Deus e clamou pelo Espírito Santo. Ao ouvir suas palavras, a filha do rico camponês pediu ao pai que contratasse o rapaz, pois ele compartilhava suas idéias.

Houve então uma grande festa para comemorar a contratação do “servo beato”. Quando chegou a hora de dormir, o bronco camponês perguntou à filha onde David descansaria: “Senhor, se isso vos agrada / ele pode dormir comigo / ele parece ser de confiança / e ter estado em casas nobres” (Fabliaux, 1997: 67).

O ingênuo pai concordou. A donzela era muito graciosa e bela, e o servo, matreiro, logo colocou sua mão direita nos alvos seios da moça, depois em seu ventre e seu sexo, sempre perguntando à donzela o que era aquilo que tocava: “David desceu a mão / direto à fenda, sob o ventre / onde o pau entra no corpo / e sentiu os pêlos que despontavam / ainda macios e suaves (...)”. E perguntou:

Por boa fé, senhora, disse David (...)
o que é isto no meio do prado
esta fossa suave e plena?
Disse ela: é a minha fonte
que ainda não brotou.
E o que é isto aqui ao lado /
disse David, nesta guarita?
É o tocador de trompa que a guarda
responde a jovem, verdadeiramente
se um bicho entrasse no meu prado
para beber na fonte clara
o vigia tocava logo o corno
para lhe fazer vergonha e medo. (Fabliaux, 1997: 68)

A seguir, a jovem virgem decidiu ousar e passou a tomar a iniciativa, apalpando igualmente o servo beato. O poema compara o pênis a um potro e os testículos a dois marechais. A donzela pede então que o belo potro do jovem paste em seu prado. David teme que o “tocador de trompa” da moça – provavelmente uma metáfora ao clitóris feminino – faça barulho, isto é, que a jovem grite de dor e prazer. Ela responde: “Se ele disser mal / batê-lo-ão os marechais. / David responde: Muito bem dito.”

E assim a jovem virgem e falsa pudica “foi derrubada quatro vezes”, “...e se o tocador de corno troou / foi batido pelos dois gêmeos / Com esta palavra termina o fabliau.” (Fabliaux, 1997: 70)

Cena 2 – “Da mulher a quem arrancaram os colhões”

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A elegante dama concede o (saboroso) privilégio ao cavaleiro de colocar sua longa “chave” no orifício de seu largo e profundo “cofre”. A iluminura explicitamente joga com o duplo sentido dos objetos chave (pênis) e cofre (vagina). Ademais, a longa chave do cavaleiro, posicionada justamente na direção de seu pênis, também insinua sua incontida excitação (talvez o único gesto comedido da cena seja a mão direita da donzela estendida: ela parece pedir calma, delicadeza e carinho ao extasiado cavaleiro). "São desenhos eróticos típicos dos que se faziam nas chamadas Cortes de Amor, denotando uma surpreendente liberdade dos costumes". Iluminura das Aquarelas eróticas da Corte de Borgonha (c. 1470). In: MINDLIN, José. Reencontros com o tempo. São Paulo: Edusp / Companhia das Letras, 1997, p. 154.

Antes de começar a contar sua estória, o escritor adverte: “não deveis doar tudo a vossas mulheres, de medo que vos amem menos”, e sugere aos leitores que tomem a estória como um exemplo.

Houve outrora um rico cavaleiro dono de grandes riquezas. Ele amava tanto a sua esposa que lhe doara o senhorio de sua terra e de sua casa. Contudo, ela o desprezava tanto que tudo o que dizia, ela contradizia, e desfazia tudo o que ele fazia. Eles tinham uma bela filha, da qual um conde “jovem, de grande discernimento e cheio de sabedoria” se enamorou porque ouviu falar de sua beleza.

Certo dia, após uma caçada, aquele conde e seus cavaleiros perderam-se numa floresta. A casa mais próxima que avistaram foi a do cavaleiro, pai da bela donzela. Devido ao mau tempo, o conde pediu abrigo. O cavaleiro negou, afirmando que era por sua mulher que o fazia: “Por causa de minha mulher, que por preço nenhum concorda com que eu faça ou diga”. O cavaleiro então forjou um diálogo com o conde, de maneira que a mulher – para contrariá-lo – aceitasse albergar e servir os hóspedes. E conseguiu.

Após o jantar, o conde, seduzido pelo amor, pediu a jovem filha do cavaleiro em casamento. Astuto, o pai da dama negou. A mãe tomou-lhe a palavra e entregou a donzela ao conde, além de ouro e prata. Aconselhou ainda sua filha a ser altiva como ela para que mantivesse a honra das suas.

A jovem e o conde se casaram. Ele a levou à principal cidade de seu domínio, onde, reunidos, estavam os barões e os vassalos, muito tristes, porque acreditavam terem perdido seu senhor. Com grande júbilo, todos receberam a ele e a nova senhora. O conde então organizou uma grande festa para celebrar suas núpcias. Pediu ao cozinheiro que fizesse temperos que lhe agradassem, além de saborosos molhos. A senhora chamou o cozinheiro e, seguindo o conselho de sua mãe, contradisse as ordens do marido, pedindo-lhe os molhos com alho.

Ao servir as iguarias, o conde ficou perplexo: o cozinheiro não fizera o ordenado. Após a saída dos convidados, ele chamou o cozinheiro e o puniu, furando-lhe um olho, cortando-lhe a orelha e uma das mãos e, por fim, exilou-o de sua terra. Quanto à senhora, julgou que não poderia perdoá-la sem castigo. Com um bastão de espinhos, castigou-a tanto que quase a matou.1 Ela ficou deitada por três meses sem poder sentar à mesa. E lá o conde a fez sarar.

Entrementes, a orgulhosa mulher do homem probo foi tomada por um desejo de visitar sua filha. A contragosto o conde recebeu sua sogra. Após saborearem iguarias e bons vinhos, no dia seguinte, o conde, triste por

 

Notas

  • 1. A violência contra a mulher era recorrente nas sociedades pré-industriais (e perpassou todo o período medieval e moderno, chegando ao século XX): “A situação feminina era ainda pior nas camadas sociais inferiores (burgueses e camponeses). Naturalmente, a descoberta da cortesia nas classes altas do século XII não se difundiu rapidamente por todo o corpo social. No século XIV um texto do direito de Aardenburgo (cidade flamenga que seguia o costume de Bruges) é muito chocante no que diz respeito à condição das mulheres burguesas: “Um homem pode bater na sua mulher, cortá-la, rachá-la de alto a baixo e aquecer os pés no seu sangue; desde que, voltando a cosê-la, ela sobreviva; ele não comete nenhum malefício contra o senhor.” – COSTA, Ricardo da e COUTINHO, Priscilla Lauret. “Entre a Pintura e a Poesia: o nascimento do Amor e a elevação da Condição Feminina na Idade Média”. In: GUGLIELMI, Nilda (dir.). Apuntes sobre familia, matrimonio y sexualidad en la Edad Media. Colección Fuentes y Estudios Medievales 12. Mar del Plata: GIEM (Grupo de Investigaciones y Estudios Medievales), Universidad Nacional de Mar del Plata (UNMdP), diciembre de 2003, p. 10.

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