Arte e História: a gênese da concepção monárquica no Ocidente cristão (sécs. IV-VI)

Resumen: El texto abarca el nacimiento de la monarquía en el Occidente Medieval. Para ello, se analizan tres casos paradigmáticos que ayudaron a construir el ideal monárquico: las conversiones al cristianismo de Constantino, el Grande (272-337) y el rey Clovis I (c. 466-511), además de la sumisión de Teodosio I (347-395) a la Iglesia Católica, con sus imágenes correspondientes (fresco, pintura, escultura, moneda, iluminación y tumba).

Abstract: The article examines the birth of the Monarchy in the Medieval West. To do it, three paradigmatic cases that helped to build the monarchical ideal are analysed: the conversions to Christianity of Constantine the Great (272-337) and King Clovis I (c. 466-511), beyond the submission of Theodosius I (347-395) to the Roman Catholic Church, with their corresponding images (fresco, painting, sculpture, coin, illumination, tomb).

Palabras-clave: Monarquía – Edad Media – Cristianismo – Constantino el Grande – Teodosio I – Clovis.

Keywords: Monarchy – Middle Ages – Christianity – Constantine, the Great – Theodosius I – Clovis I.

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Nessa riquíssima iluminura, Luís, duque da Aquitânia (1397-1415, à direita) e delfim da França, recebe os conselhos espirituais de seu honorável antepassado, São Luís (Luís IX da França, 1214-1270), rei-modelo porque santo (santo-rei do cristianismo renovado da civilização medieval [LE GOFF, 1999: 292-307]). Como pano de fundo, os símbolos heráldicos da França (para o rei) e da Baviera. Edição anônima da Gesta sancti Ludovici et regis Philippi from Guillaume de Nangis (séc. XV), Biblioteca Britânica, Royal 13 B III, folio 2.

I. Nossa pátria civilizacional

A monarquia é um dos grandes governos (...) Pois assim como o poder doméstico é de algum modo a monarquia de uma casa ou família, a monarquia é uma espécie de regime paternal e familiar de uma cidade, de uma nação ou de várias.
Aristóteles (384-322 a. C.), A Política, cap. IX.

Pertencendo, porém, a um só o governo justo, chama-se ele, propriamente, rei; donde o dizer, por Ezequiel (XXXVIII, 24), o Senhor: o meu servo David será rei sobre todos e ele ser-lhes-á, de todos, pastor. Daí manifestadamente se mostra fazer parte do conceito de rei ser o que preside único e pastor que busca o bem comum e não o interesse próprio.
Tomás de Aquino (1225-1274), Do Governo dos Príncipes, I, 6.

O sistema monárquico está na base das grandes civilizações da Humanidade. Centro no qual brotaram as religiões, a cultura, a educação, a Monarquia, de fato, fundamentou nossa História. Estruturou-a. Desde a Grécia Antiga, com seus basileus (Βασιλεῖς).1 Em nosso particular caso temporal de estudo, a Idade Média Ocidental (sécs. V-XV), a mescla histórica do sistema monárquico com o Cristianismo forjou os ideais mais elevados daquele mundo.

Trata-se, portanto, de nossa pátria civilizacional. Posteriormente, na Modernidade (sécs. XV-XVIII), as monarquias comandaram o devir político dos países, para usar uma bela expressão do historiador francês Emmanuel Le Roy Ladurie (1929- ). Mais: elas estabeleceram um pacto de ordem social, ao proporcionarem um sólido pilar afetivo no qual o mundo cristão se desenvolveu, além de solidificarem os belos conceitos de Dignidade (intimamente ligado à maiestas, como já estudou Miguel Beriain [2004, p. 190] e de Justiça (de resto, ideais também filosóficos clássicos, isto é, oriundos tanto do mundo greco-romano quanto do judaico-cristão).

Assim, ao criar também o senso de Nação, as monarquias cristãs fizeram História. São parte dela. Portanto, quais são seus alicerces? Quais são seus modelos régios paradigmáticos? Narrarei aqui três dos mais representativos exemplos históricos de seu período gestatório (sécs. IV-VI) – os imperadores Constantino e Teodósio e o rei franco Clóvis – para assim tentar construir minha trama e apresentar a gênese da monarquia no Ocidente cristão.

II. As bases da sociedade ocidental: o Cristianismo e Constantino

Após invocar como aliado em suas orações o Deus do céu, Seu Verbo e o próprio Salvador de todos, Jesus Cristo, [Constantino] avançou com todo o seu exército para conseguir para os romanos sua liberdade ancestral.
Eusébio de Cesaréia (c. 263-339), História Eclesiástica, IX, 9, 2.2

O primeiro fundamento do edifício de nossa civilização foi o Cristianismo. E, por mais etéreo que isso possa parecer, politicamente, tudo começou com um sonho, o de Constantino (272-337). In hoc signo vinces. Sonho tido pelo imperador na véspera da vitoriosa (e famosa) batalha da Ponte Mílvia (28 de outubro de 312), perto de Roma.3 Após sua conversão, o imperador não permitiu mais ser adorado como um deus, e deixou de ser representado como a encarnação do Sol (Sol invictus). Notável transformação, lenta, porém profunda. Duradoura revolução das consciências.

A conversão de Constantino já foi um dos temas mais debatidos da historiografia – pelo menos desde que a História se constituiu como “ciência”. No século XIX Jacob Burckhardt (1818-1897) inaugurou a hipercrítica histórica em relação ao tema. Em sua obra Do paganismo ao cristianismo (Die Zeit Constantins des Großen, 1853), o historiador suíço lançava a “interpretação oficial”:

O famoso prodígio que Eusébio e os que escrevem inspirando-se nele nos contam que ocorreu na campanha contra Maxêncio deve ser eliminado da exposição histórica, porque sequer tem o valor de uma lenda ou origem popular, pois foi contado muito depois por Constantino a Eusébio e descrito por este de forma deliberadamente enfática e confusa.

O imperador jurou ao bispo que não era um conto, mas que viu de verdade aquela cruz no céu com a inscrição “com este sinal vencerás” e que Cristo se lhe apareceu em sonhos, etc., mas a História não tem muita relação com um juramento de Constantino, o Grande, pois entre outras coisas, ele mandou matar seu cunhado depois de tê-lo assegurado do contrário, sob juramento. Tampouco Eusébio é muito honesto para não inventar duas terças partes do conto.4

Acriticamente, centenas de livros e teses foram lançadas no mundo com esse preconceito intrínseco – a conversão de Constantino foi mentirosa, e provavelmente se deu por pragmatismo, oportunismo, espécie de maquiavelismo político avant la lettre. E qual era a base para Burckhardt afirmar que Constantino inventou a história a Eusébio? Simplesmente a distância entre a redação do fato e o fato em si – além, é claro, de uma postura que, mais tarde, se tornou corrente entre os historiadores, especialmente os marxistas: “até que se prove o contrário, todos são culpados” (especialmente os cristãos), procedimento mental posteriormente criticado por Henri-Irenée Marrou (1904-1977) e definido como uma superexcitação do espírito crítico [MARROU, 1978].

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Detalhe do afresco de Piero della Francesca (1415-1492), O sonho de Constantino (c. 1452-1456), Capela Magiore da Igreja de São Francisco, Arezzo, Itália. Dois guardas e o servo do imperador (à cabeceira do catre) velam o sono que transformou o mundo. Acima, o céu é rasgado por um esvoaçante anjo que, incisivamente, aponta para a tenda do imperador, que tranquilamente sonha, conferindo-lhe veracidade ao seu devaneio onírico.

Não, o historiador deve ter uma postura oposta, creio. Como costumeiramente realizamos uma investigação retrospectiva, a suspeita a priori das fontes faz com que o historiador não consiga reconhecer o significado real e o valor dos documentos que investiga. Certa vez afirmei que uma atitude desse tipo é tão doente e perigosa em História como na vida cotidiana (COSTA, 2004).

Bem, Burckhardt acredita e não acredita em Eusébio: crê quando ele diz que Constantino lhe contou a história muito depois, mas não crê em seu conteúdo. Ou seja, acredita quando o crido está de acordo com suas crenças...

O mito da falsa conversão de Constantino só “começou” a ser desmontado recentemente. Paul Veyne (1930- ) fez uma minuciosa análise das fontes acerca do tema (inclusive de Lactâncio [c. 240-320]) e concluiu: o mais simples é supor que a memória de Eusébio estava confusa. Melhor: em seus escritos há duas camadas sucessivas de redação. É provável que inicialmente ele soubesse poucas coisas sobre o sonho, porém, mais tarde, o próprio Constantino, sob juramento, descreveu-lhe com precisão a crisma (VEYNE, 2010).

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Detalhe do afresco O sonho de Constantino (c. 1452-1456), Capela Magiore da Igreja de São Francisco, Arezzo, Itália. Roberto Longui (1890-1970) considerou esse afresco a pintura italiana mais inesperada de todas, porque conjuga o noturno fabuloso do gótico com o classicismo antigo.

Seja como for, cínicos ou não, os historiadores concordam que, a partir de então, o poder romano e a religião cristã estariam sedimentados em um só corpo, especialmente depois que Constantino, já como imperador cristão, convocou o primeiro Concílio Ecumênico da Igreja, o de Nicéia (na Anatólia, em 325), aquele que definiu o Credo.5 Christianitas. A participação e o interesse do poder político na religião católica estavam inaugurados. O Império Romano e sua antiga civilização foram assim unidos ao Cristo. Desse modo, a Europa Medieval se desenvolveu e se civilizou estribada nos ideais éticos e normas de conduta cristãos – equilibrado juízo de Charles William Previté-Orton (1877-1947) antes da blitzkrieg materialista do século XX (PREVITÉ-ORTON, 1967). Assim, a Idade Média recebeu e incorporou a herança da civilização greco-romana.

Entrementes, a Igreja se estruturava – e talvez seja melhor definir de antemão os significados da palavra Igreja para esses séculos: 1) O corpo místico cristão; 2) a comunidade local presidida por um bispo; 3) a construção na qual se realiza o culto; e 4) a organização cristã de um determinado território. Pois normalmente quando dizemos (e pensamos) “a Igreja”, os ouvintes hodiernos costumam pensar na estrutura institucional surgida após o Concílio de Trento (1545-1563). Anacronismo de nossos tempos.

Nesse período de gestação da Europa, as igrejas eram comunidades autônomas, com seus bispos eleitos pela comunidade e assistidos por presbíteros (sacerdos), diáconos, subdiáconos (além de exorcistas, acólitos, leitores e diaconisas). O Cristianismo deu às mulheres uma nova posição, e elas eram as mais zelosas convertidas e as mais eficazes missionárias domésticas, como veremos no caso da monarquia medieval (as rainhas tiveram um papel fundamental na cristianização das monarquias bárbaras).

É desse período a afirmação da primazia do bispo de Roma. Dois dos documentos mais antigos que corroboram esse fato são a Carta de Clemente aos coríntios (Prima clementis), documento em que o papa Clemente I (†c. 96) intervém em uma querela na Ásia Menor e dirime o problema6). A história é muito paradigmática daqueles tempos turbulentos. O imperador publicara um decreto que condenava à morte quem praticasse a pederastia. O governador imperial da Tessalônica, Boterico, aplicou a lei e prendeu um conhecido auriga que havia seduzido um servo do imperador. A população exigiu sua libertação. Como o governador se opôs, o povo dominou a guarnição e o linchou, desfilando vitoriosamente pelas ruas com partes de seus membros como estandartes.

Furioso, Teodósio ordenou represálias. A população foi convidada para assistir jogos no hipódromo. Escondidos, soldados massacraram cerca de 7.000 pessoas, no episódio que entrou para a História como o Massacre de Tessalônica (390). O imperador expediu uma segunda ordem que atenuava a primeira, mas chegou tarde.

Ambrósio (c. 337-397), bispo de Milão, escreveu ao imperador e disse que não celebraria missa em sua presença até que demonstrasse publicamente arrependimento.

Quid igitur facerem? Non audirem? Sed aures non possem cera veterum fabularum claudere. Proderem? Sed quod in tuis jussis timerem, in meis verbis deberem cavere; ne [998] quid cruentum committeretur. Tacerem? Sed quod miserrimum foret omnium, alligaretur conscientia, vox eriperetur. Et ubi illud? Sed si sacerdos non dixerit erranti, is qui erraverit, in sua culpa morietur, et sacerdos reus erit poenae, quia non admonuit errantem (Ez III, 19)?

O que poderia eu fazer? Não escutar? Mas não poderia fechar os ouvidos com cera, como contam as antigas fábulas. Devo dizer o que ouvi? Mas fui obrigado a evitar justamente o que temia pudesse ser provocado por suas ordens, ou seja, um massacre. Devo silenciar? Mas a pior coisa que poderia acontecer seria confinar minha consciência e minhas palavras. Onde estaria? Quando um sacerdote não admoesta um pecador, este morrerá com seu pecado, e o sacerdote será culpado de falhar em corrigi-lo (Epístola 51, 3).

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Santo Ambrósio impede Teodósio I na catedral de Milão (c. 1619-1620), obra de Antoon van Dyck (1599-1641). A tensão do momento transparece não só nos olhares crispados, mas também em todas as posturas corporais da cena: os braços (Ambrósio detém o imperador; atrás do monarca, um soldado, desafiante, empertiga o corpo. Os presentes, atônitos, surpreendem-se com a autoridade do bispo que, resoluto, se nega a receber um pecador em local sagrado. Tempos distintos.

Teodósio tentou entrar na igreja, mas foi sumariamente barrado pelo bispo. Após algumas tensas semanas, o imperador finalmente cedeu: despiu-se de todas as insígnias imperiais, vestiu um saco de penitência e pediu perdão por seus pecados. O bispo aquiesceu. César deveria obedecer à moral cristã. Mais tarde, o próprio imperador confessou que Ambrósio fê-lo compreender o verdadeiro papel de um bispo cristão. Surgia assim um novo paradigma ético a regular o comportamento dos governantes.

Para a Igreja, o primeiro dever dos reis era de ordem espiritual: salvar-se e se esforçar para a salvação de seus súditos. Isso foi muitíssimo bem destacado por Henri-Xavier Arquillière (1883-1956) em sua obra (muito citada, mas infelizmente pouco lida) O Agostinismo político (1935): a diluição da ordem natural na ordem espiritual. Isso só se completaria efetivamente na Idade Média – e seria dissolvido na Modernidade..

IV. As monarquias bárbaras: Clóvis, o novo Constantino

Com as invasões do “século V” (375-476) e o fim do Império Romano do Ocidente, o panorama da Europa Ocidental mudou sensivelmente. As tribos bárbaras – visigodos, francos, suevos, ostrogodos, vândalos, etc. – em maior ou menor grau, tinham um caráter bastante simples de sua realeza: seu fundamento era a força, o prestígio guerreiro, não o Direito; a noção (abstrata) de res publica ficou restrita aos âmbitos religiosos – a Igreja foi a grande mantenedora da tradição romana (por isso, Igreja Católica Apostólica Romana).7

De um modo geral, nesses primeiros tempos medievais a monarquia era eletiva, embora as tribos respeitassem os direitos de sangue (ou estirpe). Contudo, houve um triunfo do privado sobre o público: o poder se revestiu de um caráter patrimonial (o reino podia ser repartido, como uma herança privada). O Direito, as leis, recuaram, das considerações gerais para as particulares, para normatizar os conflitos meramente rotineiros do dia-a-dia (roubo de animais, estupro, etc.) que, assim, assumiram proporções dramáticas. Por exemplo, um pouco mais tarde, o bispo Teodulfo de Orleães (c. 750-821), por volta de 798, em visita à Gália Narbonense (atualmente a Provença e o Languedoc), queixou-se amargamente de assistir um roubo punido com a pena de morte e o homicídio com o pagamento em dinheiro.

Regressões, já disse Jacques Le Goff (1924-2014): do gosto, das técnicas, da administração e, para o caso que nos interessa aqui, da majestade do governo. Por exemplo, o rei franco era entronizado por elevação, em seu escudo, e tinham como único sinal de distinção uma lança e seu cabelo comprido. Rex crinitus. A descrição dos reis merovíngios (c. 457-754), reis indolentes, posteriormente feita por Eginhardo (770-840) é muito famosa:

[1] Gens Meroingorum, de qua Franci reges sibi creare soliti erant, usque in Hildricum regem, qui iussu Stephani Romani pontificis depositus ac detonsus atque in monasterium trusus est, durasse putatur. Quae licet in illo finita possit videri, tamen iam dudum nullius vigoris erat, nec quicquam in se clarum praeter inane regis vocabulum praeferebat. Nam et opes et potentia regni penes palatii praefectos, qui maiores domus dicebantur, et ad quos summa imperii pertinebat, tenebantur. Neque regi aliud relinquebatur, quam ut regio tantum nomine contentus crine profuso, barba summissa, solio resideret ac speciem dominantis effingeret, legatos undecumque venientes audiret eisque abeuntibus responsa, quae erat edoctus vel etiam iussus, ex sua velut potestate redderet; cum praeter inutile regis nomen et precarium vitae stipendium, quod ei praefectus aulae prout videbatur exhibebat, nihil aliud proprii possideret quam unam et eam praeparvi reditus villam, in qua domum et ex qua famulos sibi necessaria ministrantes atque obsequium exhibentes paucae numerositatis habebat. Quocumque eundum erat, carpento ibat, quod bubus iunctis et bubulco rustico more agente trahebatur. Sic ad palatium, sic ad publicum populi sui conventum, qui annuatim ob regni utilitatem celebrabatur, ire, sic domum redire solebat. At regni administrationem et omnia quae vel domi vel foris agenda ac disponenda erant praefectus aulae procurabat.8

Diz-se que a família merovíngia, de onde os francos costumavam escolher seus reis, durou até os tempos de Childerico. Ele foi destituído, tosquiado e confinado em um mosteiro por ordem do pontífice Estevão. Embora possa parecer que essa linhagem tenha acabado com ele, na realidade há muito tempo ela carecia de sua força vital, pois não ostentava qualquer distinção a não ser um vazio título de rei. De fato, tanto as riquezas quanto o poder do reino estavam nas mãos dos prefeitos do palácio, chamados de majordomus, a quem correspondia a máxima autoridade.

Ao rei, portanto, só restava a satisfação de seu título real e o fato de sentar-se no trono com sua longa cabeleira, sua barba crescida, e adotar a atitude de um governante: concedia audiências aos legados que vinham de todos os cantos e dispensava-os como se isso fosse sua responsabilidade, com palavras que eram, de fato, sugeridas ou até mesmo impostas a ele.

Exceto um inútil título real e uma renda para uma manutenção muito precária que o prefeito do palácio lhe concedia como melhor lhe aprouvesse, o rei tinha somente uma propriedade, pouco rentável, na qual havia uma casa e um reduzido número de servos, que lhe proporcionavam o necessário e lhe demonstravam respeito. Para onde tivesse que ir, usava uma carroça arrastada por bois ungidos e conduzida por um boiadeiro. Dessa forma, ele viajava para o palácio e para a assembleia geral de seu povo, celebrada anualmente para o bem-estar do reino, e depois retornava para sua casa. O majordomus ficou encarregado da administração do reino e de tudo que deveria ser feito ou decidido dentro ou fora do mesmo. EGINHARDO, Vida de Carlos Magno, 1.9

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Cópia do selo de Childerico I (c. 440-482), tumba de Tournai, oferecida por M. Lecavelier de Caen. Destaque para os longos cabelos do rei, ou como disse Le Goff, um rei-Sansão com crina.

Embora alguns historiadores considerem essa descrição de Eginhardo a respeito dos reis merovíngios um exagero com objetivos políticos – para destacar e enaltecer os carolíngios – o fato é que as monarquias bárbaras que se instalaram nas regiões do antigo Império Romano do Ocidente tinham concepções de governo bem mais rudimentares que a cultura romana que a precedeu. Dessa mescla e sobreposição de culturas desniveladas – as bárbaras e a greco-romana – nasceu a monarquia medieval.

Seja como for, culturalmente, esses bárbaros eram primacialmente brutais – as considerações históricas de Michel Rouche (1934- ) são definitivas: eles embriagavam-se facilmente, empanturravam-se até vomitar e pilhavam tudo à sua volta, só deixando terra vazia. Como disse um observador em 888, “cada qual quis se fazer rei a partir das próprias entranhas”. Nesse verdadeiro recuo civilizacional, a Igreja foi a única a tentar disciplinar as desenfreadas paixões dos grupos envolvidos na disputa do poder monárquico. Aos olhos dos “invasores”, a Igreja era o Império: já durante o papado de Gregório Magno (590-604), os peregrinos bárbaros que chegavam a Roma consideravam o papa um legítimo representante da ideia imperial e da própria Roma.

Por isso é que os reis merovíngios costumavam apresentar sua autoridade sempre associada ao Império Romano – como, de resto, a maior parte das monarquias bárbaras. Tal fascínio era irresistível. As cartas do bispo Remígio de Reims (c. 437-533) a Clóvis (c. 466-511) – analisadas por Marcelo Cândido da Silva (que, de resto, se debruçou sobre o período em um belo trabalho [SILVA, 2008]) – mostram a ascensão desse personagem na província romana da Bélgica Segunda, além de ressaltar, a meu parecer, a constante intenção da Igreja de civilizar e domesticar com valores éticos cristãos a monarquia. Em uma delas, logo após a conversão do rei franco ao Cristianismo, o bispo o admoestou::

Ao senhor insigne e magnífico pelos méritos, o rei Clóvis, Remígio bispo.

Um grande rumor chegou até nós: vós assumistes a administração da Bélgica Segunda. Isso não é novo, pois vós tereis começado por ser aquilo que vossos pais sempre foram (...) É pelos atos que se reconhece o homem. Vós deveis vos associar a conselheiros que possam ornar vossa fama. Vosso benefício deve ser casto e honesto. Vós devereis relatar aos vossos bispos e recorrer sempre às suas deliberações (...) Anima vossos cidadãos, alivia os aflitos, favorece as viúvas, alimenta os órfãos; mais do que iluminá-los, que todos vos amem e vos respeitem.

Que a justiça seja proferida de vossos lábios. Não requisite nada dos pobres e dos estranhos; não se permita receber presente deles. Que vosso tribunal esteja aberto a todos os homens para que ninguém saia carregando mágoas por não terem sido ouvidos. O senhor possui as riquezas que seu pai lhe deixou. Use-as para pagar o resgate dos cativos e libertá-los da servidão. Se alguém for admitido à sua presença, não deixe que ele se sinta como um estranho. Divirta-se com seus homens, converse com os anciãos. Se desejais reinar, mostrai-vos digno de fazê-lo. Epistolae Austrasicae, 2.10

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Jacente do rei Clóvis (c. 466-511) na Basílica de Saint-Denis. Clóvis foi exumado da Abadia de Santa Genoveva (Sainte Geneviève), que ele mesmo fundou (no séc. VI), então nomeada Mosteiro dos Santos Apóstolos. Essa abadia em que descansavam os restos mortais do rei franco tornou-se, no século XII, um dos berços da Universidade de Paris.

Marcelo Cândido conclui que a autoridade pública de Clóvis – e de seus sucessores – provinha de uma estreita relação com as práticas, hierarquias e símbolos da romanidade. Claro que somada às vitórias militares, como, por exemplo, a batalha de Vouillé (507), em que os francos derrotaram os visigodos (com o auxílio dos burgúndios). Clóvis foi sobretudo um guerreiro vitorioso. E implacável. Mas acrescento: símbolos da romanidade revestidos de ideais éticos e normas de conduta cristãs, como já destaquei anteriormente.

Por isso, é fundamental que nos debrucemos no último ponto dessa conferência: a conversão do rei Clóvis, primeiro rei do Ocidente Medieval a tornar-se católico. O depoimento mais antigo é uma carta do bispo Ávito de Vienne (c. 470-523), escrita em 496 ao rei, no mesmo ano de sua conversão:

Bispo Ávito de Vienne ao rei Clóvis,

Os seguidores do erro [ariano] tentaram em vão, por intermédio de uma nuvem de opiniões contraditórias e falsas, esconder de sua extrema sutileza a glória do nome cristão. Embora entreguemos essas questões à eternidade e confiemos que a verdade da crença de cada homem se revele no julgamento vindouro, a luz da verdade reluziu mesmo em meio às sombras presentes. A Providência Divina encontrou o árbitro de nossa era. Sua escolha é uma sentença geral. Sua fé é sua vitória (...)

Seus ancestrais prepararam-lhe um grande destino; o senhor desejou preparar coisas melhores [para os pósteros]. O senhor segue seus ancestrais ao reinar neste mundo; abriu aos seus descendentes o caminho a um reino celestial (...) O dia celebrado como a natividade do Senhor também lhe pertence, pois nele o senhor nasceu em Cristo, como Cristo nasceu para o mundo, no qual o senhor consagrou sua alma a Deus, sua vida aos contemporâneos, sua glória à posteridade.

O que deve ser dito da gloriosa solenidade de sua regeneração? Se não pude assistir em pessoa junto aos ministros [do ritual], partilhei de sua felicidade (...) Vimos (com os olhos do espírito) essa grande visão, quando uma multidão de bispos ao seu redor, no ardor do santo ministério, derramou sobre seus membros reais as águas da vida; quando essa cabeça temida pelos povos curvou-se diante dos servos de Deus; quando suas madeixas reais, escondidas sob um elmo, foram impregnadas em óleo sagrado; quando seu peito, aliviado de sua couraça, brilhou com a mesma alvura das vestes batismais. Não duvide, mais próspero dos reis, que esse tecido macio lhe dará mais força que suas armas, qualquer fortuna que lhe tenha sido tomada agora, a Santidade lhe concederá (...).11

Como se percebe nesse extrato dessa carta, o bispo Ávito celebra a conversão de Clóvis. Infelizmente não está datada. Os outros registros – uma carta do bispo Nicécio de Trier († c. 566) e a História dos Francos, de Gregório (c. 538-594), bispo de Tours – são posteriores, mas não excludentes, como se costuma afirmar.

O bispo Nicécio escreve à rainha Clotsinda, primeira esposa de Albuíno (530-572), rei dos lombardos. Ela era filha de Clotilde, esposa de Clóvis. Por isso, o bispo recorda a ela como seu pai se converteu ao catolicismo: graças à sua mãe! Portanto, ele a admoesta a não descansar até converter o rei, pois “o marido descrente é santificado pela esposa” (1Cor 7:14).

Quanto à História dos Francos, é o texto mais tardio que aborda a conversão de Clóvis, e o mais famoso. Gregório inicia assim sua narrativa: a rainha Clotilde (475-545), já convertida, pediu ao rei que permitisse batizar o filho primogênito. A seguir, ela faz uma peroração contra os deuses pagãos, mas o rei se manteve firme em sua descrença em relação ao Cristianismo. A rainha, entretanto, desobedeceu ao rei e batizou seu filho, mas, para seu infortúnio, a criança morreu justamente no momento em que estava vestida com os trajes de batismo!

Por isso, o rei vociferou contra o Deus cristão. A rainha, pesarosa, porém crente, afirmou:

Ad haec regina: “Deo”, inquid, “omnipotenti, creatori omnium, gratias ago, qui me non usquequaque iudicavit indigna, ut de utero meo genitum regno suo dignaretur adscire. Mihi autem dolore huius causae animus non attingitur, quia scio, in albis ab hoc mundo vocatus Dei obtutibus nutriendus”.12.

Eu agradeço ao Deus Todo Poderoso, criador de todas as coisas, que não me julgou digna e recebeu em seu reino a criança gerada em meu ventre. Meu espírito está livre de pesar sobre esse acontecimento, pois eu sei que aqueles que são chamados deste mundo nas vestes alvas do batismo serão cuidados sob as vistas de Deus (Livro II, 29).13

Posteriormente, ela deu novamente a luz. A criança, Clodomer, foi igualmente batizada. Mas o rei permanecia convicto em sua posição. Entrementes, uma guerra foi iniciada contra os alamanos (nome que engloba uma aliança de várias tribos germânicas), quando aconteceu uma batalha decisiva em Tolbiac (496 ou 506), hoje Zülpich, na Renânia do Norte-Vestfália.

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Escultura de Santa Clotilde na Notre-Dame de Corbeil (Cathédrale Saint-Spire de Corbeil, séc. XIII).

Gregório nos conta que Clóvis estava a ponto de perder a batalha quando suplicou os céus por Jesus Cristo, e prometeu que, se conseguisse a vitória, se converteria:

Regina vero non cessabat praedicare, ut Deum verum cognusceret et idola neglegerit. Sed nullo modo ad haec credenda poterat commoveri, donec tandem aliquando bellum contra Alamannos conmoveretur, in quo conpulsus est confiteri necessitate, quod prius voluntate negaverat. Factum est autem, ut confligente utroque exercitu vehementer caederentur, atque exercitus Chlodovechi valde ad internitionem ruere coepit. Quod ille videns, elevatis ad caelum oculis, conpunctus corde, commotus in lacrimis, ait: “Iesu Christi, quem Chrotchildis praedicat esse filium Dei vivi, qui dare auxilium laborantibus victuriamque in te sperantibus tribuere diceris, tuae opis gloriam devotus efflagito, ut, si mihi victuriam super hos hostes indulseris et expertus fuero illam virtutem, quam de te populus tuo nomine dicatus probasse se praedicat, credam tibi et in nomine tuo baptizer. Invocavi enim deos meos, sed, ut experior, elongati sunt ab auxilio meo; unde credo, eos nullius esse potestatis praeditos, qui sibi oboedientibus non occurrunt. Te nunc invoco, tibi credere desidero, tantum ut eruar ab adversariis meis”. Cumque haec dicerit, Alamanni terga vertentes, in fugam labi coeperunt. Cumque regem suum cernirent interemptum, Chlodovechi se ditionibus subdunt, dicentes: “Ne amplius, quaesumus, pereat populus, iam tui sumus”. Ad ille, prohibito bello, cohortato populo cum pace regressus, narravit reginae, qualiter per invocationem nominis Christi victuriam meruit obtenire. [Actum anno 15. regni sui.]14

A rainha não deixou de exortá-lo a reconhecer o verdadeiro Deus e a deixar de adorar ídolos. Mas ele não se comovia de nenhum modo por essa crença, até que finalmente surgiu uma guerra contra os alamanos em que foi impelido à necessidade de confessar o que antes livremente negava. Isso aconteceu quando os dois exércitos estavam lutando ferozmente; houve muita mortandade, e o exército de Clóvis esteve a ponto de ser destruído. Ele percebeu isso, ergueu os olhos para o céu e, com o coração compunção, explodiu em lágrimas e gritou: “Jesus Cristo, que Clotilda afirma ser o Filho do Deus vivo, que dizem auxiliar os que estão em perigo e conceder a vitória aos que têm esperança em ti, rogo a glória de Tua ajuda, com o voto de que, se me conceder a vitória sobre esses inimigos e eu souber o poder que ela diz que as pessoas dedicadas ao Teu nome têm de Ti, eu acreditarei e serei batizado em Teu nome. Porque invoquei meus deuses, mas, como achei que eles retiraram sua ajuda, acredito que não têm esse poder, pois não ajudam aos que lhes obedecem. Agora Te invoco, desejo acreditar em Ti, se me resgatar de meus adversários”. Após dizer isso, os alamanos deram as costas e começaram rapidamente a fugir. E, quando viram que seu rei estava morto, submeteram-se ao domínio de Clóvis, e disseram: “Interrompa a mortandade; rezemos, agora somos seus”. Então ele parou a luta e, após encorajar seus homens, retirou-se em paz e disse à rainha como fora seu mérito de vencer e de invocar o nome de Cristo. Isso aconteceu no décimo-quinto ano de seu reinado. (Livro II, 30).

Milagrosamente, após Clóvis fazer esse rogo em meio ao combate, os alamanos fugiram. Com a morte de seu rei, os alamanos não só se renderam, como se ofereceram para serem homens do rei franco. De volta, Clóvis relatou o acontecido à esposa. Provavelmente em júbilo, a rainha em segredo convocou o bispo Remígio e pediu que ele aproveitasse a oportunidade e admoestasse o rei à conversão. Contudo, Clóvis ainda permanecia hesitante: seus homens aceitariam isso?

Contudo, quando se dirigiu a seu povo, outra surpresa: os soldados clamaram a uma só voz que estavam prontos para seguir o deus do bispo Remígio. Ao saber disso, exultante, o bispo preparou a cerimônia. Então

Procedit novos Constantinus ad lavacrum, deleturus leprae veteris morbum sordentesque maculas gestas antiquitus recenti latice deleturus. Cui ingresso ad baptismum sanctus Dei sic infit ore facundo: “Mitis depone colla, Sigamber; adora quod incendisti, incende quod adorasti”. Erat autem sanctus Remegius episcopus egregiae scientiae et rethoricis adprimum inbutus studiis, sed et sanctitate ita praelatus, ut Silvestri virtutebus equaretur. Est enim nunc liber vitae eius, qui eum narrat mortuum suscitasse. Igitur rex omnipotentem Deum in Trinitate confessus, baptizatus in nomine Patris et Filii et Spiritus sancti delebutusque sacro crismate cum signaculo crucis Christi. De exercito vero eius baptizati sunt amplius tria milia. Baptizata est et soror eius Albofledis, quae non post multum tempus migravit ad Dominum.15

Como um novo Constantino, ele (Clóvis) adentrou a água para livrar-se da antiga lepra, para enxaguar, nessa nova correnteza, as manchas dos dias passados. Enquanto se dirigia para ser batizado, o santo de Deus disse essas palavras, saídas de seus lábios fecundos: “Curva humildemente tua altiva cabeça, sicambro; adora o que queimaste, queima o que adoraste”. O santo Remígio, bispo, tinha muito estudo e era, acima de tudo, versado na arte da Retórica. Era tão exemplar em sua santidade que seus milagres se equiparavam ao de São Silvestre. Foi preservado para nós um livro a respeito de sua vida, no qual narra como ressuscitou um homem dos mortos. Portanto, o rei se confessou ao onipotente Deus em Trindade, foi batizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ungido com o sagrado crisma com o sinal da cruz de Cristo. De seu exército foram batizados mais de três mil; sua irmã Albofleda, que não muito depois foi levada à presença do Senhor, também foi batizada (Livro II, 31).

A analogia no texto é importantíssima. Gregório recorda Constantino. As circunstâncias lhe parecem semelhantes – e são. A meu juízo, o fator decisivo de toda essa história foi a atuação da rainha Clotilde. Muito mais do que quaisquer motivações políticas, o papel da rainha foi fundamental. Aliás, as mulheres foram fundamentais na evangelização do mundo medieval. Especialmente as rainhas.

É por isso que é um absurdo que Jacques Le Goff tenha dito, em sua Civilização do Ocidente Medieval (1964) que o rei Clóvis foi “esperto”, pois, ao se converter, “jogou uma cartada religiosa” para conseguir o apoio da “poderosa hierarquia católica e do não menos poderoso monaquismo”. Marcelo Cândido – mesmo que em menor grau e com muita erudição, de fato – com sua definição de realeza constantiniana para o reinado de Clóvis também está nesse rol de grandes interpretistas maquiavélicos, ou, como bem definiu Arquillière, os que observam o passado com um “ângulo moderno”.

Não obstante, a relação entre a monarquia e a Igreja Católica no alvorecer da Idade Média era, de fato, estreitíssima. Creio que o erro de boa parte da historiografia reside na avaliação de suas motivações. Na visão dos papas, as monarquias deveriam estar sujeitas ao poder espiritual – como o corpo está sujeito à alma. O corpo deveria interferir somente quando a alma estivesse atribulada.

Por exemplo, nesse mesmo período, o papa Gregório Magno admoestou o rei da Austrásia, Childeberto II (570-595), neto de Clóvis, a salvaguardar a disciplina eclesiástica (Carta 60).16 Também exortou a rainha Brunilda da Austrásia (c. 550-613), recém-convertida ao catolicismo calcedônio17, esposa do rei Sigeberto I (535-575), filho de Clotário, a reprimir a simonia, a obrigar os súditos a abandonar os sacrifícios aos ídolos, a disciplinar os violentos, adúlteros e ladrões por meio do temor da vingança divina (divinae ultionis iracundia) (Carta 11).18 E isso, segundo Arquillière, com uma notável mansidão, em que pese os tempos turbulentos em que viveu.

Para ser real, por fim, a monarquia deveria ser católica. Gregório afirma claramente isso ao rei Childeberto:

Ser rei não tem em si nada de maravilhoso, pois outros o são. O que importa é ser um rei católico.

Esse autem regem, quia sunt et alii, nom mirur est, sed esse catholicum, quod alii non meretur, satis est.

GREGÓRIO MAGNO, Registr., VI, 6.

Conclusão

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Rex a Deo coronatus. Na iluminura, para a estupefação dos presentes, o papa Leão III (c. 750-816) coroa Carlos Magno (c. 742-814) imperador na Basílica de São Pedro (25 de dezembro de 800). Chroniques de France (séc. XIV). Antes de celebrada a missa de Natal, o papa lhe impôs a coroa e convidou os presentes a aclamá-lo como “Carlos, Augusto, coroado por Deus, magno e pacífico imperador dos romanos”. Não obstante, segundo Eginhardo, caso soubesse das intenções do pontífice, Carlos não teria entrado na Igreja (Vida de Carlos Magno, 28).

Por uma feliz coincidência do Destino, a oportunidade de proferir essa conferência nesse encontro somou-se ao Jubileu de Diamante da rainha Elizabeth II (1926- ), quando pude presenciar os programas da BBC de Londres que apresentaram todas as festividades e, sobretudo, documentários sobre a história recente da monarquia inglesa, o modo como os britânicos se relacionam com sua tradição monárquica e o papel do soberano em suas vidas.19 Em uma das cenas mais interessantes, a rainha, jovem, proferiu um pequeno discurso no qual tratou do sentido conceitual da palavra “servir”. Afirmou que dedicaria toda a sua vida, não importasse o quanto durasse, a servir seu povo. Profundo sentido nobiliárquico medieval, o poder deveria servir a nação, pois parte da função do monarca era expressar o sentimento coletivo. Reciprocidade social. Entrega. Continuidade. Solidez, Tradição. Bom-senso. Carisma – hoje diríamos vocação.

Todos esses notáveis conceitos, filosóficos, existenciais, nasceram no turbilhão de acontecimentos da Alta Idade Média. A gênese da monarquia medieval, portanto, brotou em solo conturbado. Mescla de romanidade e barbarismo impossível de ser inteiramente destrinchada, o fato é que seu assentamento temporal teve o beneplácito da Igreja. Talvez melhor seja dizer bênção. Com vistas à Eternidade.

Na educação régia movida pelos clérigos, o papel do monarca era, acima de tudo, salvaguardar as almas de seus súditos. Orientados para o Além, mas submersos na tensão entre o reino celeste e o reino terrestre – efêmera vertigem de conspirações, tramas, invídias e assassinatos – os reis medievais tiveram, a longo prazo, sua civilidade lentamente conquistada graças à Igreja Católica.

Tamanha era essa preocupação eclesiástica que, no final do período que aqui nos debruçamos, os religiosos começaram a compor Espelhos de Príncipes para os soberanos, tratados comportamentais de ética e moral, os primeiros escritos ocidentais de filosofia política. Um deles foi a obra Caminho real (Via Regia, c. 810) escrita pelo monge beneditino Smaragdo de São Miguel (c. 760-840) para o rei Luís, o Piedoso (814-840) neto de Carlos Magno, o primeiro rei ungido e coroado em uma mesma cerimônia.20 Educação da monarquia.

Personagem novo na história – lentamente educado na forja dos princípios éticos cristãos – o rei medieval tornou-se ungido e ministerial em sua gênese. Em nosso imaginário, em nossa memória histórica coletiva, a monarquia e seus ideais solidificaram nossa civilização. Cimento da fracionada sociedade medieval, eles proporcionaram princípios de ordem e de unidade.21 Pois, como bem recordou Marc Bloch (1886-1944), fosse para uma terra, fosse para um homem, ter vários senhores era quase normal; ter vários reis, impossível.

 

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Fontes

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Notas

  • 1. Um interessante trabalho que analisa a continuidade monárquica entre a época final do Bronze e o universo dos poemas homéricos e a as nascentes pólis gregas é: GONZÁLEZ GARCÍA, Francisco Javier. “Qa-si-re-u micénico y Basileús homérico. Continuidad y discontinuidad en la concepción griega de la realeza”. InMINIUS X, 2002, p. 71-94.
  • 2. Texto original em grego disponível em Bibliotheca Augustana.
  • 3. Para o tema, ver COSTA, Ricardo da (org.). Os Sonhos na História. Alicante/Madrid: e-Editorial IVITRA Poliglota. Estudis, Edicions i Traduccions / Atenea, 2014.
  • 4. Utilizamos a edição mexicana: BURCKHARDT, Jacob. Del paganismo al cristianismo. México: Fondo de Cultura Económica, 1982.
  • 5. Disponível em Catechismus Catholicae Ecclesiae.
  • 6. Disponível em LEXUNDRIA.Carta aos Romanos do bispo Inácio de Antioquia (c. 68-100), na qual este afirma o primado da Sé de Roma.Disponível em Internet.

    III. A Igreja e Teodósio

    Uma das primeiras manifestações da supremacia – melhor dizer primazia – do poder espiritual sobre o temporal ocorreu com o imperador Teodósio I (347-395), o mesmo que, em 380, fez do Cristianismo a religião oficial do Império (Edito de Tessalônica ou Cunctos PopulosDisponível em Internet.

  • 7. Para um breve contexto histórico, ver COSTA, Ricardo da. “Do fim do Mundo Antigo à Alta Idade Média (100-600 d. C.)”. InInternational Studies on Law and Education – 7 (janeiro-abril 2011), p. 97-102.
  • 8. InEINHARDI VITA KAROLI MAGNI.
  • 9. Outra tradução: EINHARD. Vida de Carlos Magno (trad.: Luciano Vianna e Cassandra Moutinho; rev. e notas de Ricardo da Costa).
  • 10. Para uma discussão a respeito desse documento (e sua tradução comentada), ver BARRETT, Graham, WOUDHUYSEN, George. “Remigius and the ‘important news’ of Clovis rewritten”.
  • 11. Ver SHANZER, D., WOOD, I. (translated with an introduction and notes). “Avitus of Vienne: Letters and Selected Prose”. In: The Classical Review, vol. 54, n. 2 (Oct., 2004), p. 417-419.
  • 12. Internet.
  • 13. Internet.
  • 14. Internet.
  • 15. Internet.
  • 16. SS Gregorius I Magnus – Registri Epistolarum.
  • 17. calcedonianismo defendeu que, nas duas naturezas (humana e divina) de Cristo, uma única hipóstasis do Logos subsiste perfeitamente nelas. Essa interpretação foi consagrada no Concílio de Calcedônia (451).
  • 18. SS Gregorius I Magnus – Registri Epistolarum.
  • 19. Originalmente, esse trabalho foi apresentado como uma Conferência no dia 30 de junho de 2012 no XXII Encontro Monárquico do Rio de Janeiro. Os documentários da BBC foram intitulados The Diamond Queen.
  • 20. Ver VILLALBA, Pere. “Política y Ética – El Arte de Gobernar”. InRevista Internacional d’Humanitats 5, Ano V, n. 5, 2002.
  • 21. O conceito de unidade, originalmente definido por Aristóteles, foi transmitido ao pensamento medieval pelo neoplatonismo (Plotino, Proclo e, especialmente, o Pseudo-Dionísio Areopagita [Dos nomes divinos, XIII, c-d]). Por sua vez, o de ordem, especialmente com o sentido de “disposição recíproca das partes”, foi uma herança da filosofia (romana) estoica (CÍCERO, Tusculanas, I, 40, 142). Em um movimento retroalimentativo, ambos ajudaram a sedimentar o pensamento político medieval e seu ideal monárquico.

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