A lepra medieval e a Medicina metafórica de Ramon Llull (1232-1316)

Hélio ANGOTTI NETO1
Ricardo da COSTA2

Palestra apresentada no
 I Seminário UFES de Paleopatologia,
no dia 19 de agosto de 2015
no Centro de Ciências da Saúde da UFES.

In: ANGOTTI NETO, Hélio (org.).
Mirabilia Medicinæ 5 (2015/2p. 1-30 (in english).

 

Resumo: Breve estudo sobre a lepra na Idade Média, sua história, percepção médica e atitude social diante da manifestação da doença. Como estudo de caso acerca dos princípios médicos vigentes, apresentaremos alguns extratos das obras Començaments de Medicina (c. 1274-1283), Doctrina pueril (c. 1274-1276), Fèlix o Llibre de meravelles (1288-1289) e Liber prouerbiorum (c. 1296) do filósofo Ramon Llull (1232-1316), que apresenta as bases teóricas de sua medicina: uma arte metafórica que estabelece conexões entre os quatro elementos (ar, fogo, terra e água), de base hipocrática e a teologia cristã por meio do simbolismo numérico.

Abstract: Brief study of leprosy in the Middle Ages, its history, medical perception and social attitude toward manifestation of the disease. As a case study about the prevailing medical principles, we present some excerpts from Començaments de Medicina (The Principles of Medicine), Doctrina pueril (c. 1274-1276), Fèlix o Llibre de meravelles (1288-1289) and Liber prouerbiorum (c. 1296) by the medieval philosopher Ramon Llull (1232-1316), which presents the theoretical foundations of his Medicine: a methaforical art that links the hippocratic four elements (air, fire, earth and water) and Christian Theology using numeric symbolism.

Palavras-chave: História da Medicina – Lepra – Idade Média.

Keywords: History of Medicine – Leprosy – Middle Ages.

***

Imagem 1

baldwiniv.jpg

Guilherme de Tiro (c. 1130-1186) descobre os primeiros sintomas da lepra no futuro rei Balduíno IV (1161-1185). Manuscrito da Estoire de Eracles - tradução francesa da História de Guilherme de Tiro. Iluminura, c. 1250, British Library, Londres.

O sexto dos reis latinos de Jerusalém foi o Senhor Balduíno IV, filho do Senhor rei Amalarico, de ilustre memória3, e da condessa Agnes4, filha caçula do conde Joscelino de Edessa (...)5 Quando Balduíno ainda era um menino, com cerca de nove anos, e eu arcediago de Tiro, o rei Amalarico colocou-o sob os meus cuidados, após pedir-me muitas vezes, com a promessa de ensiná-lo e instruí-lo nas artes liberais. Enquanto esteve em minhas mãos, eu cuidei constantemente dele, como convém ao filho de um rei, e cuidadosamente o instruí nos estudos literários, além de ajudar a formar seu caráter.

Um dia, quando estava brincando com alguns meninos nobres, eles começaram a se beliscar com as unhas, nas mãos e nos braços, como meninos costumam fazer. Os outros demonstraram sua dor com gritos, mas apesar de os colegas não o pouparem, Balduíno suportou muito pacientemente a dor, como se nada sentisse. Após acontecer mais de uma vez, isso foi relatado a mim. No início, pensei que acontecera por causa de sua resistência, não por insensibilidade. Então chamei-o e perguntei o que estava acontecendo. Descobri que cerca da metade de sua mão e de braço direitos estavam dormentes, de modo que ele não se sentia os beliscões e mordidas. Comecei a ter dúvidas, e recordei as palavras do sábio: “É certo que um membro insensível está longe de ser saudável, e quem não se sente doente está em perigo”.6

Relatei tudo isso a seu pai. Médicos foram consultados e prescritas compressas, unções, até drogas venenosas para melhorar sua condição. Tudo em vão. Pois, como foi mais tarde melhor entendido após maiores observações, aquele foi o início de uma doença incurável. Não posso deixar de me emocionar ao falar disso. Quando começou a atingir a puberdade, ficou claro que ele estava sofrendo aquela doença terrível: a lepra. Ele piorava a cada dia. As extremidades do corpo e a face foram as mais afetadas. Os corações de seus homens fiéis eram tocados pela compaixão sempre que olhavam para ele.
Guilherme de Tiro. Historia rerum in partibus transmarinis gestarum, XXI, 1-2.

O rei-leproso Balduíno IV (1161-1185) de Jerusalém morreu com apenas 24 anos. Além da lepra, havia contraído tuberculose, estava praticamente cego e com o rosto, as mãos e as pernas desfiguradas. Mesmo assim, conseguiu conter um pouco o avanço de Saladino (1138-1193)7 e conquistar as últimas vitórias cristãs na Terra Santa.8 O comportamento do rei-leproso comoveu os contemporâneos.

I. A doença entre os antigos

A Hanseníase – doença infectocontagiosa transmitida por um microrganismo bacteriano (Mycobacterium leprae) – é uma velha (e temida) conhecida da Humanidade.9 Entre os antigos, as doenças tinham vários significados. De modo geral, eram costumeiramente associadas a alguma punição divina, devido à condição mórbida (especialmente o caráter estigmatizante causado pelas deformidades e/ou manchas visíveis). Entre os judeus que buscavam a Terra Prometida, após cuidadoso exame da pele, o leproso era afastado do convívio social10:

Se se formar sobre a pele de um homem um tumor, um dartro ou uma mancha, pode tratar-se de um caso de lepra da pele. Será conduzido à Aarão, o sacerdote, ou a um dos sacerdotes seus filhos. O sacerdote examinará a enfermidade sobre a pele. Se no lugar enfermo o pelo se tornou branco e a enfermidade se tornou mais profunda na epiderme, é caso de lepra; depois da observação o sacerdote o declarará impuro.11

Por prudência, mesmo que o exame não demonstrasse os indícios da lepra, devia-se repetir a conduta por mais duas semanas, a fim de observar a evolução do quadro clínico e obter um diagnóstico mais preciso.

A ação divina como causa do adoecimento transparece em Jó, cuja doença foi permitida por Deus e infligida por Satanás, que: “(...) feriu Jó com chagas malignas desde a planta dos pés até o cume da cabeça”.12

Imagem 2

tumblr_mhus9wrqx31rqxd5ko1_1280.jpg

Jó acossado pelo diabo, que exala fogo por todos os orifícios de seu corpo (boca, ouvidos e ânus). Gregório, o Grande (c. 540-604), Moralia in Job, Affligem (séc. XII). BnF, Latin 15675, folio 5v. É interessante observar que, além do fato de Jó estar raspando suas chagas (acreditava-se que as feridas poderiam contaminantes, daí o isolamento social dos leprosos), ao exalar fogo de seus orifícios e o hálito putrefato de sua boca sobre Jó, o diabo representa assim a concepção de que ares contaminados carreavam a doença (a chamada teoria miasmática - ares infectos que poderiam surgir, por exemplo, da matéria pútrida de pântanos. Outras causas poderiam incluir exercícios excessivos ou dieta inadequada. Essa concepção miasmática da doença foi herdada pelos medievais da teoria dos antigos médicos hipocráticos. Entre as doenças creditadas aos miasmas eram descritas a lepra [escamas], a psora [lesões ulceradas com secreção] e o líquen [doenças nodulares]).13

A percepção da doença, seus sinais, castigo ou malefício de ordem divina ou sobrenatural, deixava o doente entregue à sua própria sorte. Vulnerável, poderia sofrer ofensas e ser estigmatizado por ter incorrido em algum tipo de falta moral que explicaria a doença. Em casos mais extremos, era um bode expiatório que dirimiria tensões sociais.14 Em contrapartida, também se observava que os males acometem justos e ímpios, e nada mais são do que realidades da vida humana.15 Com a medicina hipocrática, surgiram explicações naturalistas para as doenças, e dietas e terapias foram prescritas para restabelecer o equilíbrio do corpo humano e seu estado original de saúde.

Além do isolamento social do doente, o que evitava a presença de miasmas contaminados que poderiam afetar a saúde de todos, exames regulares eram previstos para verificar se o mal ainda acometia o indivíduo.16 Médicos e sacerdotes, movidos pela piedade, examinavam e tratavam, na medida do possível, os pacientes.17 Não se furtavam ao contato com os doentes de todo o espectro social.18

A base teórica e prática da Medicina medieval estava assentada em dois autores antigos: Hipócrates (c. 460-370 a. C.) e Galeno (c. 129-200), cujas autoridades só foram atenuadas com a Medicina moderna, baseada na revolução científica e na concepção mecanicista do ser humano.19 Até então, as obras hipocráticas e galênicas eram a base de consulta dos médicos medievais, que buscavam nesses tratados a teoria de causalidade das doenças e a forma de tratamento. 

Hipócrates prescrevia, para o tratamento, além de uma dieta adequada, misturas de diversas substâncias como, por exemplo, leite de cabra, vinagre morno (Do Uso de Líquidos20 ou sulfato de cálcio (Gipsita, descrita em Epidemias, Livro II).21

II. A doença e o Cristianismo

Imagem 3

Detalhe da inicial historiada “C” (de Clérigo): clérigos com lepra sendo abençoados por um bispo. A Igreja era a única instituição com preocupações sociais (no caso, médicas, de proteção). Não é descabido pensar que religiosos adquirissem lepra por tratarem socialmente de leprosos. Enciclopédia Omne Bonum (Londres, c. 1360-1375), de James le Palmer (c. 1326-1375). The British Library, c6541-07, Royal 6 E VI, folio 301.

Desde o século II, na Retórica cristã, o trabalho do médico foi comparado ao trabalho salvador de Jesus Cristo: o termo Christus Medicus ganhou força, tornou-se familiar aos que se dedicavam à cura dos doentes, pois o próprio Deus passou a ser associado a um médico, como se pode perceber nessa intensa passagem da História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia (c. 275-339):

παναγάθου πατρὸς μονώτατος ὑπάρχων πανάγαθος παῖς, γνώμῃ τῆς πατρικῆς φιλανθρωπίας τῶν ἐν φθορᾷ κάτω που κειμένων ἡμῶν εὖ μάλα προθύμως ὑποδὺς τὴν φύσιν, οἷά τις ἰατρῶν ἄριστος τῆς τῶν καμνόντων ἕνεκεν σωτηρίας ‘ὁρῇ μὲν δεινά, θιγγάνει δ᾿ ἀηδέων ἐπ᾿ ἀλλοτρίῃσί τε ξυμφορῇσιν ἰδίας καρποῦται λύπας,’ οὐ νοσοῦντας αὐτὸ μόνον οὐδ᾿ ἕλκεσι δεινοῖς καὶ σεσηπόσιν ἤδη τραύμασιν πιεζομένους, ἀλλὰ καὶ ἐν νεκροῖς κειμένους ἡμᾶς ἐξ αὐτῶν μυχῶν τοῦ θανάτου αὐτὸς ἑαυτῷ διεσώσατο, ὅτι μηδ᾿ ἄλλῳ τῳ τῶν κατ᾿ οὐρανὸν τοσοῦτον παρῆν ἰσχύος, ὡς τῇ τῶν τοσούτων ἀβλαβῶς διακονήσασθαι σωτηρίᾳ. μηδ᾿ ἄλλῳ τῳ τῶν κατ᾿ οὐρανὸν τοσοῦτον παρῆν ἰσχύος, ὡς τῇ τῶν τοσούτων ἀβλαβῶς διακονήσασθαι σωτηρίᾳ.

Porque só Ele, como Filho que é, absolutamente único e santíssimo de um Pai santíssimo, por vontade do amor paterno pelos homens, gostosíssimamente revestiu nossa natureza de homens que jazia em profunda corrupção, e, como um médico excelentíssimo, por causa da salvação dos enfermos, vê coisas terríveis e toca chagas repugnantes e, em calamidades alheias, colhe sofrimentos próprios22, pois nos salvou quando, já entre os mortos, estávamos enfermos ou esgotados com terríveis chagas e feridas já putrefatas. Ele próprio nos arrancou dos abismos da morte para Si, pois nenhum outro no Céu tem tanta força para pôr-se a serviço da salvação de tantos sem menosprezar a si próprio.

μόνος δ᾿ οὖν καὶ τῆς ἡμῶν αὐτῶν βαρυπαθοῦς φθορᾶς ἐφαψάμενος, μόνος τοὺς ἡμετέρους ἀνατλὰς πόνους, μόνος τὰ πρόστιμα τῶν ἡμετέρων ἀσεβημάτων περιθέμενος, οὐχ μιθνῆτας, ἀλλὰ καὶ πάμπαν ἐν μνήμασι καὶ τάφοις μυσαροὺς ἤδη καὶ ὀδωδότας ἀναλαβὼν πάλαι τε καὶ νῦν σπουδῇ τῇ φιλανθρώπῳ παρὰ πᾶσαν τὴν οὗτινος οὖν ἡμῶν τε αὐτῶν ἐλπίδα σῴζει τε καὶ τῶν τοῦ πατρὸς ἀγαθῶν ἀφθονίαν μεταδίδωσιν, ὁ ζωοποιός, ὁ φωταγωγός, ὁ μέγας ἡμῶν ἰατρὸς καὶ βασιλεὺς καὶ κύριος, ὁ Χριστὸς τοῦ θεοῦ.

Assim, só Ele tocou nossa gravíssima corrupção, só Ele suportou nossos sofrimentos, só Ele carregou as penas de nossas iniquidades23, e não nos levantou quando estávamos semimortos, mas quando jazíamos completamente corrompidos e hediondos em tumbas e sepulcros. Agora, como antes, com Sua amorosa solicitude pelos homens, contra a esperança do mundo e, por tanto, da nossa, Ele continua a nos salvar e fazer-nos partícipes da abundância de bens do Pai, Ele, o vivificador, o que trouxe a luz, nosso grande médico, rei e Senhor, o Cristo de Deus. HE, X, 4, 11-12.24 

Por sua vez, Dionísio, bispo de Alexandria (248-264) nos informa que o povo cristão

...mostrou amor e lealdade irrestritos, sem se poupar, pensando sempre no próximo. Sem considerar o perigo, cuidavam dos doentes, atendiam a todas as suas necessidades, tratando-os em Cristo (...) Muitos, ao cuidar e curar os outros, transferiam suas mortes para si e morriam em seus lugares.”

Em contrapartida, ao primeiro sinal da doença os pagãos se afastavam até mesmo de seus entes queridos. O imperador Juliano, o Apóstata (330-363), reconheceu: “Aqueles galileus ímpios auxiliam não somente os seus pobres, mas também os nossos”. Cassiodoro (485-585), pai do monasticismo ocidental, forneceu instruções para os cuidados com os doentes, e incluiu uma bibliografia de textos médicos que os médicos monges e enfermeiros deveriam usar.

O fato é que o período que denominamos de Alta Idade Média, com o advento do Cristianismo e suas noções de caritas e de assistência aos mais fracos, fez com que profundas mudanças, não só mentais, mas estruturais, ocorressem no mundo conhecido. O que mais nos chama a atenção para o tema que aqui nos interessa é o do surgimento do hospital, instituição desconhecida no mundo antigo e formalmente reconhecida pelo imperador Justiniano (482-565). Desde seu surgimento, os hospitais ofereciam assistência de diagnóstico e de terapia, além de terem seções especializadas (uma das primeiras foi a área de oftalmologia).25

À medida que a nova mentalidade se propagou pelo Ocidente e a sociedade medieval voltou a crescer após o fim das últimas invasões, no século XI, a Medicina foi positivamente afetada: o ideal de caritas assumiu importância fundamental e o conceito de infirmus (doente) estendeu-se aos desprotegidos socialmente. A partir do século XII, a doutrina da infirmitus (doença) passou a ser gradativamente separada da paupertas (pobreza), o que fez com que houvesse um maior cuidado com o bem-estar físico. A Igreja geria os (poucos) lugares de assistência médica: hospícios (hospitalia) e banhos se difundiram, além de enfermarias e farmácias (como as da abadia beneditina de São Galo, fundada no século IX). Destacamos os banhos, importante elemento terapêutico, acompanhados pela difusão de manuais de farmacologia e botânica.26

Ainda que conhecida desde a Antiguidade, como vimos, a lepra difundiu-se a partir das cruzadas. Era, até então, quase desconhecida no Ocidente. Quase. A propagação da doença criou uma nova forma de se pensar o sofrimento do corpo. Social e religiosamente.27 Leprosários surgiram (mais pela percepção de que o leproso era um ser impuro), antecedentes diretos dos lazaretos (hospitais específicos para leprosos). Por exemplo, do final do século XI até o século XIV, pelo menos 320 leprosários foram estabelecidos na Inglaterra.28 Com a recusa social ao atendimento ao leproso, revestia-se de especial importância a atitude humanitária da Igreja que, por disseminar o conceito de amor ao próximo, tornava-se assim o único locus institucional que acolhia não só o leproso, mas os doentes, os rejeitados, os excluídos. Ademais, é do mesmo período a difusão dos tratados médicos árabes (Hunayn ibn Ishaq [809-873], Abu al-Qasim al-Zahrawi [936-1013] e sobretudo Avicena [980-1037] e Constantino, o Africano [1015-1087]), textos que alicerçaram o estudo da Medicina no Ocidente, ainda que com uma excessiva ênfase em seus aspectos teóricos29

Imagem 4

 

À entrada do principal portão da cidade, o burguês se recusa a receber um leproso e um ferido (o primeiro, com chagas no rosto, toca um instrumento para anunciar sua vinda, costume da época; o segundo, atrás, tem uma ferida visível em sua perna esquerda). A recusa social da doença contrastava vivamente com a acolhida da Igreja, que fundou hospitais, enfermarias e leprosários graças à caritas cristã. O tamanho do corpo do primeiro leproso em relação ao burguês na entrada da cidade indica a importância social do doente na concepção cristã. Vicent de Beauvais (c. 1184-1264), Speculum historiale (manuscrito do séc. XIV). Bibliothèque de l'Arsenal, folio 373r.30

Imagem 5

Detalhe do folio 373r da obra Speculum historiale de Vicente de Beauvais (c. 1184-1264). Aqui pode-se perceber mais claramente o destaque dado ao personagem leproso, seu sofrimento (expresso em seus olhos esbugalhados). O ferido, atrás, parece tentar aproveitar a possível entrada do leproso na cidade para ingressar com ele, mas a recusa do burguês (residente do burgo), manifesta em sua postura corporal (com as mãos a impedir a caminhada do doente), frustra as expectativas de ambos.

Com a difusão do sistema educacional e a fundação das universidades com faculdades de Medicina (Montpellier, Paris, Parma, Bolonha, Pádua – em Salerno, Florença e Aragão há, inclusive, a existência de mulheres que exercem em nome próprio o ofício da cura e se intitulam medicae), no século XIII desenvolvem-se estudos teóricos alicerçados na teoria filosófica vigente que insere o corpo humano em uma estrutura cosmológica, tradição grega reforçada pelos tratados médicos árabes. O filósofo Ramon Llull (1231-1316) é um de seus representantes.

III. O simbolismo numérico na Medicina metafórica de Ramon Llull (1232-1316)

1. Medicina es sciencia de conjuyer so qui es natural a conservar natura e a retornar-la en so que esser solia en lo cors anilmat. Hon, aquesta sciencia ha, fil, .III. comensaments: lo primer es natural, segon es i[n]natural, ters es contra natura.

2. Lo primer comensament se departex en .VII. parts: elaments, complecions, humors, membres, vertuts, operacions, sperit. Lo segon comensament es departir en .VI. parts: alenar, exarsitar  so es, trebayar e repozar –, menyar e boure, dormir e vetlar, umplir e buid[ar] – so es, que a vegades manuc e beva hom molt, e a vegades p[o]ch –; lo derrer es dels accidents de anima, so es, goyg e tristicia. Lo ters comensament es depar[ti]t en .III. parts: malautia, occazió de malautia, accident.31

1. A Medicina é a ciência que une o que é natural para conservar a natureza e retorná-la àquilo no qual estava acostumada no corpo animado. Assim, filho, essa ciência tem três princípios: o primeiro é natural, o segundo inatural e o terceiro contra a natureza.

2. O primeiro princípio divide-se em sete partes: elementos, compleições, humores, membros, virtudes, operações e espírito. O segundo princípio é dividido em seis partes: respirar, exercitar, isto é, trabalhar e repousar, comer e beber, dormir e despertar, encher e esvaziar, isto é, às vezes o homem come e bebe muito, às vezes pouco. O último é dos acidentes da alma, isto é, o gozo e a tristeza. O terceiro princípio é dividido em três partes: a doença, a ocasião para a doença e o acidente.32

Imagem 6

Leproso mutilado (sem a mão esquerda e o pé direito) com um sino (os leprosos deveriam anunciar que estavam passando, para que as pessoas pudessem saber e se afastar). The British Library, Pontifical (c. 1400), Manuscrito Lansdowne 451, folio 127.

De modo bastante simples, o filósofo Ramon Llull (1232-1316) explica a seu filho o que é a Medicina, na obra Doutrina para crianças (Doctrina pueril, c. 1274-1276), com base em seus conhecimentos sobre a matéria. Mas explicar as obras médicas de Ramon Llull não é tarefa fácil.33 Para que possamos compreender a forma com que o filósofo aborda o tema, é preciso fazer uma breve contextualização cultural. Assim, o que era a Medicina no século XIII?

III.1. O contexto

As hoje distintas áreas de conhecimento não o eram no século XIII. No caso da Medicina, era muito comum sua estreita conexão com a Filosofia (e a Astronomia), herança clássica (de Aristóteles e de Galeno) reforçada pela tradição islâmica (os mais notáveis filósofos muçulmanos eram, igualmente, médicos). A definição do que é a Medicina encontra-se espalhada em várias obras suas, além da Doutrina para crianças. Por exemplo, no Livro dos Provérbios (Roma, c. 1296), quando Llull discorre um pouco sobre a importância de se equilibrar as potências (princípios inatos) do corpo, a elementativa, a vegetativa e a sensitiva:

1. A Medicina é a ajuda à saúde.
2. A Medicina é a arte de curar o corpo doente.
3. Por sua natureza, a Medicina é uma filosofia.
4. O médico deve assinalar o que sobra e o que falta.
5. O médico se esforça em harmonizar as compleições contrárias.
6. O médico dispõe, a natureza obra.
7. O sujeito da Medicina é a saúde.
8. A Medicina não procura o dinheiro nem as honrarias.
9. O sujeito da Medicina se encontra integrado pelas potências elementativa, vegetativa e sensitiva.
10. Quem não conhece os princípios, não conhece seus atos.
11. O corpo do paciente pede ajuda à sua própria natureza.
12. A saúde que o corpo toma dos elementos passa à sensitiva pela vegetativa.
13. O médico sábio receita frutas sãs para ajudar a vegetativa.
14. Se o enfermo pode comer frutas ao invés de pão, deve-se ao fato de a vegetativa preferir o que lhe é naturalmente semelhante ao que lhe é artificial.
15. À vegetativa do enfermo apetece mais as frutas do que as carnes.
16. As enfermidades da sensitiva dependem das que são próprias da vegetativa.
17. A carne alimenta mais do que a fruta por razão de sua tripla virtude.
18. A sensitiva tem a virtude de elementar, de vegetar e de sentir.
19. A enfermidade procura a saúde por meio da elementativa, da vegetativa e da sensitiva.
20. A saúde escapa da enfermidade com a potência em que sua virtude logrou maior recuperação.34

Do mesmo modo, a teoria (grega) dos quatro elementosar, terra, fogo, água – e suas qualidades (calor, secura, umidade e frio), fornecia uma base tanto para a Medicina quanto para o que hoje denominamos Biologia, Física e Química.

Imagem 7

 

 

Quadrado da correspondência entre os quatro elementos, suas qualidades (ativas e passivas).35

Os elementos dependiam de suas qualidades. Cada elemento tinha duas: uma ativa, outra passiva. O arquente úmido, contrário à terraseca fria, por seu calor concordava com o fogo, quente e seco; a água, úmida e fria, por sua umidade concordava com o ar que, por ser frio, concordava com a terra, mas se opunha ao fogo. Esses elementos, que a Medicina considerava estarem presentes no corpo humano, se manifestavam fisiologicamente em quatro humores: o colérico (fogo), o sanguíneo (ar), o fleumático (água) e o melancólico (terra). Os contrastes dos elementos explicavam “cientificamente” as doenças, o envelhecimento e a morte.36 Na obra Félix ou O Livro das Maravilhas (1288-1289) o filósofo explica, de um modo muito simples, como isso ocorria:

– Senhor eremita, disse Félix, por qual natureza o homem envelhece?

O eremita respondeu que um discípulo fez aquela mesma pergunta a seu mestre, que então mostrou a ele um canal com um moinho envelhecido pela passagem da água.

– Belo amigo, disse o eremita, o corpo do homem é um vaso no qual entra e sai continuamente um elemento em outro. E no corpo do homem é feita a transmutação de uma coisa em outra, assim como o pão, o vinho, a água e qualquer outra comida que o homem recebe e que se transmuda em sangue e na carne do homem. E pela resistência que uma coisa faz em outra é feita a corrupção pela qual o homem tem inclinação à velhice.

– Dentro do corpo do homem entram o fogo e o ar. No ar passa o fogo que aquece a água, e a água contrasta com o fogo e coloca-o na terra. Assim o fogo é mortificado, passando pelo ar, pela água e pela terra. O mesmo acontece com os outros elementos, que passam um no outro, mortificando um no outro, e por essa mortificação o homem torna-se velho, preguiçoso, fraco e pesado.37

Imagem 8

Iluminura medieval de um manuscrito inglês do final do século XI que mostra a relação entre os quatro elementos, suas qualidades, os signos do Zodíaco e as fases da vida.

Todas as medicinas (cristã, judaica e muçulmana) estavam fundamentadas nessa teoria. A principal base documental era a obra Sobre a geração e a corrupção, de Aristóteles (cujas cópias mais antigas datam do período carolíngio), especialmente seu Livro II.38 O que o médico tinha que saber era como uma determinada doença havia desequilibrado a harmonia temperamental do paciente (as doenças também eram chamadas de desequilíbrio compleicional). As receitas eram normalmente baseadas em plantas. O médico, por isso, tinha que precisar qual o grau elemental delas (o que era chamado de medicina vegetal). Pensava-se que a intensidade das qualidades diferia de uma substância herbácea para outra. Além disso, o médico também tinha que determinar o mapa astronômico do paciente, pois se acreditava que os astros, por suas próprias naturezas elementais, influenciavam as criaturas elementadas (chamada de astrologia médica). Essa teoria (denominada complexio, krasis, ou temperamento) era ensinada nas universidades de Medicina. Por fim, a percepção do sintoma variava conforme o sexo, a idade, o clima e a dieta.39

Llull viajou várias vezes para Montpellier (um dos três principais centros do Reino de Maiorca), e provavelmente aprendeu o que sabia de Medicina em sua universidade, então a mais prestigiada da Europa na área. Quais eram então as questões médicas mais prementes? Antes de tudo, encontrar uma base teórica que ordenasse a miríade de informações médicas (tradicionais e empíricas) – e era quase consenso que a chave para isso se encontrava na teoria dos elementos (suas qualidades, humores e graus). A seguir, quantificar esses dados em uma teoria de modo que um médico pudesse manuseá-los e utilizá-los no momento de avaliar o quadro clínico de um paciente.

O filósofo tratou do tema de duas formas: mostrar como seu sistema filosófico (que denominou Arte) poderia ser aplicável à Medicina, e utilizar a teoria médica em seu raciocínio filosófico-analógico.40 O resultado foi seu primeiro tratado médico-filosófico: Os Princípios da Medicina (Començaments de Medicina), obra escrita em Maiorca entre 1274 e 1283.41

III.2. Os Princípios da Medicina (Començaments de Medicina, c. 1274-1283)

Imagem 9

Árvore dos Princípios da Medicina conforme o Manuscrito de Palma, Bibl. Publ., 1029, folio 23v.42

Composto em Maiorca, o texto Os Princípios da Medicina é uma das quatro obras médicas escritas pelo filósofo. Seu objetivo era demonstrar que seu sistema filosófico poderia ser aplicado ao estudo de qualquer matéria, como um sistema teórico capaz de sistematizar os dispersos conhecimentos médicos em um único conjunto lógico ou, como ele mesmo diz, fazer o estudante (especialmente o estudante pobre)43 conhecer princípios universais que o ajudassem a descobrir os “particulares” (assuntos específicos), e assim conseguir ascender dos particulares aos universais e, em contrapartida, constituir os universais a partir dos particulares.44

Como se pode perceber na Árvore dos Princípios da Medicina (imagem 8), as bases conceituais médicas estão ancoradas nos quatro humores (cólera, sangue, fleuma e melancolia), com as combinações possíveis entre os elementos (A = calor; B = secura; C = umidade, e D = frio). Dessa “raiz” nascem dois “ramos”:

1) O ramo dos princípios da medicina conforme narrados pelos antigos”45 (à esquerda), que se divide, por sua vez, em três partes: natural (com as “folhas forma, elementos, compleições, humores, membros, virtudes, operações, espírito, idade, cor, masculino e feminino), inatural (com as folhas” ar, exercício e repouso, comer e beber, descansar e dormir, encher e esvaziar, acidentes da alma) e contra a natureza (com as folhas” acidentes, doença e causa);

2) O ramo de sua Arte (“novidade descoberta para ser exposta artificial e metaforicamente”)46, ao centro da imagem 8, dividida em duas partes: a primeira dos elementos e a segunda em triângulos e quadrângulos de sua obra Arte abreviada de encontrar a verdade (com os graus das febres e das ervas medicinais).

O filósofo divide a obra conforme os ramos dessa árvore, e dedica uma boa parte de seu conteúdo à combinação dos elementos e dos graus das febres na aplicação dos princípios universais de sua Arte – princípio, meio e fim, diferença, concordância e contrariedade, maioridade, menoridade e igualdade (capítulos II-IV). O capítulo V é dedicado aos graus das febres (quando cita Avicena e Mateu Plateari, este último um médico muito conhecido da Escola de Salerno)47, o VI à geração e corrupção, o VII às febres, o VIII aos tipos de urina, o IX aos pulsos (os médicos tomavam o pulso dos doentes), tudo sempre de acordo com os quatro humores (portanto, para nos atermos a um só exemplo, havia uma urina de cor colérica [vermelha], uma urina de cor sanguínea [vermelha e espessa], uma urina fleumática [branca e espessa] e uma urina melancólica [branca e clara]48!).

Mas como o exame da urina não é preciso, Llull faz uma advertência ao final desse capítulo:

Moltes de vegades s’esdevé que la urina per alcuns accidents no demostra veritat de la malautia, e per açò deus recórrer al pols e a la color que l’home ha en sa cara e en sos ulls e per sa persona, per tal que no sies enganat per la urina qui sots una color amaga la malautia.

Muitas vezes ocorre da urina, por alguns acidentes, não demonstrar a verdade da doença. Por isso, deves recorrer ao pulso, à cor que o homem tem em seu rosto, em seus olhos e em sua pessoa, para que não sejas enganado pela urina que sob uma cor, oculta a doença.
49

III.3. A Medicina Metafórica de Ramon Llull

A última seção dos Princípios da Medicina (X) é intitulada Da Metáfora.50 E Llull explica:

1. Metàfora és significant una cosa per altra, així con lo malaute qui és pres de mort, e és fred, e desija fredor, e encerca en lo lit con la pusca atrobar sintent. On adoncs t'és significat que lo sintiment de fredor és destruït per gran abundància de calor, e per açò natura en lo desig que lo malaute ha de atrobar fredor, significa que volria recobrar lo sentiment que ha perdut, ço és a saber, la fredor que·l malaute ha, la qual no sent.

2. Con la febra ve ab fred, e lo malaute desija calor, e és cald per la febra, adoncs metaforicalment lo malaute desija calor contra fredor, jassia que haja més de A que de D. On son desig significa que la calor natural se corromp e que D entra en A corrompent la calor natural; e per açò lo malaute sent D e no sent A, e desija A contra D.

1. A metáfora é o significado de uma coisa por outra, como o doente próximo da morte que está frio, deseja o calor e procura em seu leito um jeito de senti-lo. Portanto, isso significa que a sensação de frio é destruída pela abundância de calor e, por isso, a natureza existente no desejo que o doente tem de ter frio significa que desejaria recuperar a sensação que perdeu, isto é, o frio que o doente tem e que não sente.

2. Com a febre vem o frio, e o doente deseja calor e é aquecido pela febre. Portanto, metaforicamente o doente deseja o calor contra o frio até ter mais de A (calor) do que de D (frio). Assim, seu desejo significa que o calor natural se corrompeu e que D entra em A e corrompe o calor natural. Por isso o doente sente D e não A, e deseja A contra D.51

Esse décimo capítulo é o mais surpreendente, porque tipicamente medieval, já que se baseia na forma analógica de raciocínio, modo costumeiro com que os pensadores de então desenvolviam seus argumentos.52 Isso pode ser facilmente percebido nesse trecho abaixo, espécie de meditação médico-analógica da estrutura do corpo humano como uma representação física da teologia cristã:

3. Per los set dies de la setmana e per les set planetes te són significats los set punts en los quals se departeix A qui és en 4 grau; e per los set punts de A, e per los tres de B, e los dos de C, e la un de D en la E, te són significats los dotze apòstols e Jesu Crist, qui és cap d’ells; enaixí con lo setè punt simple, qui és forma als dotze punts en E, o en K, o en O, o en S. E per lo setè punt simple, que no entra en composició ab los altres punts, t’és significat lo setè dia, que Deus reposà, lo qual és forma als sis dies de la setmana enaixí con lo setè punt simple de A, qui és forma als sis punts qui·s mesclen ab B C D.

3. Os sete dias da semana e os sete planetas representam os sete pontos nos quais A se divide, que existe em quarto grau; e os sete pontos de A, os três de B, os dois de C, e um de D e em E significam os doze apóstolos e Jesus Cristo, seu líder, do mesmo modo como o sétimo ponto simples forma os doze pontos em E, ou em K, ou em O, ou em S. E o sétimo ponto simples, que não participa na composição dos outros pontos, significa o sétimo dia em que Deus repousou, que forma os seis dias a semana assim como o sétimo ponto simples de A é forma dos seis pontos que se mesclam com BC e D.53

As analogias entre as operações do corpo e a estrutura do Cosmo prosseguem em todo o capítulo. Por exemplo, quando vemos as flores e folhas que brotam nas árvores quando chega a Primavera, sabemos que é necessário que façamos sangrias e tomemos banhos com frequência, além de termos de beber e comer pouco, para que ocorra a passagem de uma matéria em outra por A, B, C e D, sem qualquer impedimento (Dist. X, 12); sabemos que o homem que come muito, que bebe muito e que faz muito sexo com sua mulher não pode viver muito quando vemos que o cavalo que corre muito se cansa rapidamente, ou o mestre de obras que se apressa não faz o trabalho tão bem quanto o faria com pausa (Dist X, 13); ou ainda, quando vemos que a água alimenta e multiplica os vegetais, sabemos que, do mesmo modo, o sangue alimenta os corpos dos animais (Dist X, 18).54

E assim o filósofo conclui a obra:

Molts d'altres començaments poríem recontar segons esta art metaforical, mas cor havem a parlar dels Començaments de Teologia, e de Dret, e de Natures, cové que donem fi a los Començaments de medicina, los quals són acabats ab ajuda e ab benedicció de nostre Senyor Déus. Amen.

Poderíamos contar muitos outros princípios conforme esta arte metafórica, mas coo já tratamos dos Princípios da Teologia, do Direito e das Naturezas, convém que terminemos os Princípios da Medicina, os quais foram concluídos com a ajuda e a bênção de Nosso Senhor Deus. Amém.55

Conclusão

2. Los metges qui sanen lo cors, veem que·l sanen de dues maneres: l’una és com lo sanen de la malaltia que ha dintre si, e aquella cura veem, Sènyer, que fan ab bevendes e ab aixarops, e ab letovaris e ab dietes; l’autra cura és com los metges sanen lo cors de la malaltia qui apar en la superficients del cors. On, aquesta curam veem que fan los metges ab foc, e ab engüents, e ab empastres, e ab pólvores e herbes.

3. Vemos que os médicos que curam o corpo o fazem de duas maneiras: uma é quando curam a doença que há dentro de si, e vemos que fazem essa cura, Senhor, com beberagens, xaropes, letovaris56 e dietas; a outra cura acontece quando os médicos sanam o corpo da doença que aparece na superfície do corpo. Vemos que os médicos fazem essa cura com fogo, com unguentos e emplastros, pólvoras e ervas.57

Imagem 10

À esquerda, São Elzeário de Sabran (1285-1323, barão de Ansouis, conde de Ariano Irpino, terciário franciscano, místico) cura três agradecidos leprosos. A pequena peça, de mármore (43,5 x 38,5 x 12 cm) foi esculpida por volta de 1373 para adornar a base do túmulo do santo (canonizado pelo papa Urbano V, 1310-1370), na igreja franciscana de sua terra natal, Apt, Provença-Alpes-Costa Azul, Vaucluse.

Em que pese os precários conhecimentos práticos relacionados à prática médica, oriundos em boa parte pelo excessivo respeito com que os estudiosos medievais liam os tratados clássicos (além do fato dos textos gregos serem referendados pela medicina islâmica, então mais desenvolvida do que a cristã), a sociedade medieval, graças à difusão do cristianismo e em especial às práticas caritativas da Igreja, concebeu novas formas de assistência social que deram origem, ainda no mesmo período histórico, ao hospital, à farmacologia e à noção de tratamento médico-institucional aos doentes e desamparados (além da própria figura do médico formado em um curso universitário especializado).

Ao olharmos para a Medicina desse tempo, certamente sofremos ao constatarmos quão rudimentares e imperfeitos eram os diagnósticos e os tratamentos das doenças, e sorrimos estupefatos com as conexões teóricas da Medicina com a Filosofia e a Astronomia (como apresentamos com o pequeno estudo de caso de Ramon Llull), mas caso queiramos realmente compreender o passado, com todos os seus paradoxos e disparidades, é preciso pensarmos no fluxo do tempo como um processo: não linear, como muitos já o imaginaram, mas como uma série de traçados por vezes incertos, de avanços e de retrocessos, com tempos distintos em um mesmo tempo e com percepções que se entrecruzaram e se entrecruzam na multiplicidade da existência humana. Seja como for, sem a contribuição medieval, não teríamos as faculdades de Medicina, nem os médicos formados, o hospital e a noção de assistencialismo público e social.

À guisa de conclusão, terminamos com uma pequena passagem do Livro da contemplação em que o filósofo constata, com um olhas crítico face aos erros dos diagnósticos, a ascensão social que a Medicina proporcionava aos seus estudantes.

10. ¡Oh vós, sènyer Déus, d’on davalla gràcia e benedicció als vostres pobles! Los metges del cors veem, Sènyer, qui van bé vestits e bé encavalcats, e veem que ajusten riquees e tresors, dels grans engans que fan a lurs malautes, los quals enganen en totes maneres; car ells se gaben de conèixer la malautia, la qual no coneixen; e ells allonguen, Sènyer, als malautes lurs malauties per tal que major loguer n’hagen; e·ls donen, Sènyer, als malautes aixarops e lletovaris e altres coses, per tal car han lur part en lo guany que fan los especiaires en les coses que venen als malaltes.

1o. Oh, Vós, Senhor, fonte de graça e bênção aos Vossos povos! Vemos que os médicos do corpo, Senhor, andam bem vestidos e bem montados em cavalos, e juntam riquezas e tesouros graças aos grandes enganos que causam a seus doentes, os quais enganam de todas as maneiras, pois se gabam de conhecer a doença que não conhecem. Além disso, eles prolongam, Senhor, as doenças nos doentes, para que tenham mais ganhos. E eles dão aos doentes, Senhor, xaropes, letovaris e outras coisas, para que tenham parte do lucro do que fazem os especialistas nas coisas que vendem aos doentes.
58

***

Fontes

ARISTÓTELES. Sobre a geração e a corrupção (trad. e notas de Francisco Chorão). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2009.

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2012.

EUSEBIO DE CESAREA. Historia Eclesiástica II (texto, versión española, introducción y notas por Argimiro Velasco-Delgado, O.P.). Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMXCVII.

HIPPOCRATES. Ancient Medicine. Airs, Waters, Places. Epidemics 1 and 3. The Oath. Precepts. Nutriment (translated by W. H. S. Jones). Cambridge, MA: Harvard University Press, Loeb Classical Library 147, 1923.

HIPPOCRATES. Places in Man. Glands. Fleshes. Prorrhetic 1-2. Physician. Use of Liquids. Ulcers. Haemorrhoids and Fistulas (edited and translated by Paul Potter). Cambridge, MA: Harvard University Press, 1995, Loeb Classical Library 482, p. 326-327.

Obres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner). Mallorca: Editorial Moll, 1989.

RAMON LLULL. Obres essencials II. Barcelona: Editorial Selecta, 1960.

RAMON LLULL. El Libro de los Proverbios (ed. Sebastián García Palou). Madrid: Miraguano S. A. Ediciones, 2011.

RAMON LLULL. “Començaments de Medicina”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner). Mallorca: Editorial Moll, 1989, p. 407-496.

RAMON LLULL. Començaments de Medicina. Tractat d'Astronomia (a cura de Lola Badia). Palma: Patronat Ramon Llull, 2002, p. 1-120.

RAMON LLULL. Doctrina pueril (edició crítica de Joan Santanach i Suñol). Palma: Patronat Ramon Llull, Nova Edició de les Obres de Ramon Llull VII, 2005.

WILLIAM OF TYRE. Historia rerum in partibus transmarinis gestarum, XXI, 1-2.

 

Bibliografia

BÉNIAC, Françoise. “O medo da lepra”. In: As doenças têm história (apres. Jacques Le Goff). Lisboa: Terramar, s/d, p. 127-145.

BADIA, Lola. “La Ciència a l’obra de Ramon Llull”. In: VERNET, Joan, i PARÉS, Ramon (ed.). La Ciència en la Història dels Països Catalans, ed. Joan Vernet i Ramon Parés, I. Dels àrabs al renaixement. Barcelona-València: Institut d'Estudis Catalans, Universitat de València, 2004, p. 403-442. Internet.

BONNER, Antoni. “Introducció”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner). Mallorca: Editorial Moll, 1989, p. 397-405.

BORDIN, Giorgio; BUSSAGLI, Marco; D'AMBROSIO, Laura Polo. Le Livre D'Or du Corps Humain. Anatomie et Symboles. Paris: Éditions Hazan, 2015.

BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo. Séculos XV-XVIII. As Estruturas do Cotidiano: o possível e o impossível. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

COLOM I MATEU, Miquel. Glossari General Lul.lià (GGL). Mallorca: Editorial Moll, 1982-1985, 05 volumes.

CONFORTI, Maria. “Corpo, Saúde e Doença no cristianismo”. In: ECO, Umberto (org.). Idade Média I. Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos. Alfragide, Portugal: D. Quixote, 2014, p. 381-400.

CONFORTI, Maria. “Medicina e doença no Ocidente nos séculos XI e XII”. In: ECO, Umberto (org.). Idade Média II. Catedrais, cavaleiros e cidades. Alfragide, Portugal: D. Quixote, 2014, p. 304-313.

CONFORTI, Maria. “A Medicina nas universidades e a escolástica médica”. In: ECO, Umberto (org.). Idade Média III. Castelos, mercadores e poetas. Alfragide, Portugal: D. Quixote, 2014, p. 523-530.

CONFORTI, Maria. “Medicina e cirurgia em Itália”. In: ECO, Umberto (org.). Idade Média III. Castelos, mercadores e poetas. Alfragide, Portugal: D. Quixote, 2014, p. 531-535.

DOMÍNGUEZ, Fernando. “Works”. In: FIDORA, Alexander, and RUBIO (ed.). RAIMUNDUS LULLUS, An Introduction to his Life, Works and Thought. Turnhout: Brepols & Publihers, 2008, p. 125-242.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. Similibus simile cognoscitur. O pensamento analógico medieval”. InMedievalista online 13, 2013.

GIRARD, René. A Rota Antiga dos Homens Perversos. São Paulo: Paulus, 2009.

GISBERT, Eugènia. Metaforice loquendo: de l’analogia a la metáfora em els Començaments de medicina de Ramon Llull”. InStudia Luliana XLIV. Palma de Mallorca: Maioricensis Schola Lullistica, 2004, n. 100, p. 17-52.

GOLSAN, Richard J. Mito e Teoria Mimética: uma introdução ao pensamento girardiano. São Paulo: É Realizações, 2014.

GUERRERO-PERAL, A. L. Manifestaciones neurológicas de la lepra del rey Balduino IV de Jerusalén. In: REV NEUROL 2009; 49 (8): 430-433.

JONSEN, Albert J. A Short History of Medical Ethics. Oxford: Oxford University Press, 2000.

MARTINS, Milton de Arruda et al. Clínica Médica: Volume 7 (Alergia e Imunologia Clínica, Doenças da Pele e Doenças Infecciosas). Barueri, SP: Editora Manole, 2009.

PERNOUD, Régine. A mulher no tempo das cruzadas. Campinas, SP: Papirus, 1993.

PRING-MILL, Robert D. F. Estudis sobre Ramon Llull (1956-1978). Barcelona: Curial Edicions Catalanes/Publicacions de l'Abadia de Montserrat, 1991.

RAWCLIFFE, Carole. Leprosy in Medieval England. Suffolk, UK: The Boydell Press, 2006.

RUNCIMAN, Steven. Historia de las cruzadas 2. El Reino de Jerusalén y el Oriente Franco, 1100-1187. Madrid: Alianza Editorial S. A., 1973.

SIRAISI, Nancy. “A Faculdade de Medicina”. In: DE RIDDER-SYMOENS, Hilde (coord.). Uma História da Universidade na Europa. Volume I: As Universidades na Idade Média. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1996, p. 361-388.

Notas

  • 1. Coordenador do curso de Medicina da UNESC (Colatina, ES); diretor da Mirabilia Medicinae, seção médica da Revista Mirabilia.
  • 2. Professor do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM) da UFES, do Programa de Doctorado Internacional a Distancia del Institut Superior d’Investigació Cooperativa IVITRA [ISIC-2012-022] Transferencias Interculturales e Históricas en la Europa Medieval Mediterránea (Universitat d’Alacant, UA) e dos mestrados de Artes e de Filosofia da UFES. Acadèmic corresponent a l'estranger da Reial Acadèmia de Bones Lletres de Barcelona.
  • 3. Amalarico I de Jerusalém (1136-1174).
  • 4. Agnes de Courtenay (c. 1136-1184).
  • 5.  Joscelino II (†1159), quarto e último conde de Edessa.
  • 6. Citação de Hipócrates (460-370 a. C.). A medicina hipocrática (e sua teoria dos humores e dos quatro elementos) era muito estimada na Idade Média, como veremos.
  • 7. Para o reinado de Balduíno IV, ver RUNCIMAN, Steven. Historia de las cruzadas 2. El Reino de Jerusalén y el Oriente Franco, 1100-1187. Madrid: Alianza Editorial S. A., 1973, p. 366-403.
  • 8. Como a de Tell Gezer (conhecida como a Batalha de Montgisard, ocorrida a 25 de novembro de 1177): “Miguel, o Sírio (1126-†1199), patriarca da Igreja Jacobita, foi testemunha dos acontecimentos. ‘Todos’, escreve, ‘haviam perdido a esperança, pois o mal da lepra começava a aparecer no jovem rei Balduíno que ficava mais fraco e, desde então, todos tremiam. Mas Deus, que faz sua força aparecer nos fracos, inspirou o rei enfermo. O resto de suas tropas reuniu-se ao redor dele; ele desceu de sua montaria, prosternou-se, o rosto no chão diante da cruz, e orou chorando. Ao ver isso, o coração de todos os soldados se comoveu. Todos estenderam a mão sobre a cruz e juraram jamais fugir e, em caso de derrota, considerar traidor e apóstata quem fugisse em vez de morrer. Voltaram a montar e avançaram contra os turcos que se rejubilavam, pois acreditavam ter vencido. Ao ver os turcos cujas forças pareciam um mar, os francos concederam-se a paz e pediram uns aos outros o perdão. Em seguida travaram a batalha. No mesmo instante, o Senhor ergueu uma tempestade violenta que tirava a poeira do lado dos francos e jogava-a no rosto dos turcos. Então os francos, compreendendo que o Senhor aceitara seu arrependimento, tomaram coragem, enquanto os turcos recuavam e fugiam. Os francos perseguiram-nos matando e massacrando o dia inteiro’. E a crônica de Ernoul resume: ‘Nunca Rolando ou Olivier fizeram tantas proezas em Roncevaux quanto... naquele dia com a ajuda de Deus e de monsenhor São Jorge que estava no combate conosco’”. Citado em PERNOUD, Régine. A mulher no tempo das cruzadas. Campinas, SP: Papirus, 1993, p. 143-144.
  • 9. MARTINS, Milton de Arruda et al. Clínica Médica: Volume 7 (Alergia e Imunologia Clínica, Doenças da Pele e Doenças Infecciosas). Barueri, SP: Editora Manole, 2009, p. 283-315.
  • 10. “Enquanto durar a sua enfermidade, ficará impuro e, estando impuro, morará à parte: sua habitação será fora do acampamento”.Lv 13, 46. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2012, p. 178.
  • 11. Lv 13, 2,3. Bíblia de Jerusalém, op. cit., p. 177.
  • 12. Jo, 2, 7. Bíblia de Jerusalém, op. cit., p. 804.
  • 13. HIPPOCRATES. Ancient Medicine. Airs, Waters, Places. Epidemics 1 and 3. The Oath. Precepts. Nutriment (translated by W. H. S. Jones). Cambridge, MA: Harvard University Press, Loeb Classical Library 147, 1923, p. 65-137.
  • 14. Tais sinais de vitimação poderiam incluir defeitos de nascença, estigmas de uma doença de pele, estranhezas comportamentais ou simplesmente o fato de ser estrangeiro, fatores predisponentes para que tal indivíduo “marcado” servisse como bode expiatório e fosse exilado do convívio social, para o alívio da comunidade que acumulara tensões insuportáveis. A obra de René Girard (1921- ) oferece ampla fundamentação. Cf. GOLSAN, Richard J. Mito e Teoria Mimética: uma introdução ao pensamento girardiano. São Paulo: É Realizações, 2014, p. 97-124. Girard enxerga no livro de Jó a tentativa de condenar moralmente o próprio Jó por estar gravemente afligido pelo destino de uma grave doença, clara tentativa de colocá-lo na posição de bode expiatório, mas o ciclo de violência e injustiça é interrompido por Deus, que nega que a doença seja causada por um erro moral de seu servo Jó. Ver GIRARD, René. A Rota Antiga dos Homens Perversos. São Paulo: Paulus, 2009.
  • 15. Isaías – chuva sobre os justos e os ímpios, e Deus a condenar os amigos de Jó por dizerem o que não era correto.
  • 16. O miasma é a emanação metífica de matérias pútridas.
  • 17. JONSEN, Albert R. A Short History of Medical Ethics. Oxford: Oxford University Press, 2000, p. 27-41.
  • 18. “em quantas casas eu for, entrarei para benefício dos que sofrem, e evitarei toda a injustiça voluntária e qualquer forma de corrupção, além de atos libidinosos no corpo de mulheres e homens, livres ou escravos” (ἐς οἰκίας δὲ ὁκόσας ἂν ἐσίω, ἐσελεύσομαι ἐπ᾿ ὠφελείῃ καμνόντων, ἐκτὸς ἐὼν πάσης ἀδικίης ἑκουσίης καὶ φθορίης, τῆς τε ἄλλης καὶ ἀφροδισίων ἔργων ἐπί τε γυναικείων σωμάτων καὶ ἀνδρῴων, ἐλευθέρων τε καὶ δούλων). Hippocrates. ‘The Oath’. In: JONES, W. H. S. (Tradutor). Hippocrates Volume I, op. cit., p. 289-302.
  • 19. Com a obra De Humani Corporis Fabrica (publicada em 1543) Andreas Vesalius (1514-1564) foi um dos precursores da visão moderna da Medicina. Ver Andreae Vesalii bruxellensis, scholae medicorum Patavinae professoris, de Humani corporis fabrica Libri septem, Basileae, ex officina Ioannis Oporini, June 1543.
  • 20. HIPPOCRATES. Places in Man. Glands. Fleshes. Prorrhetic 1-2. Physician. Use of Liquids. Ulcers. Haemorrhoids and Fistulas (edited and translated by Paul Potter). Cambridge, MA: Harvard University Press, 1995, Loeb Classical Library 482, p. 326-327.
  • 21. 24. Ἀλφοῦ καὶ λέπρης, τίτανος ἐν ὕδατι, ὡς μὴ ἑλκώσῃς. 24. For white or scaly leprosy, gypsum in water; be careful not to cause ulceration. HIPPOCRATES. Epidemics 2, 4-7 (edited and translated by Wesley D. Smith). Cambridge, MA: Harvard University Press, 1994, Loeb Classical Library 477, p. 74-75.
  • 22. Citação de Hipócrates (De flatibus, I).
  • 23. Is 53, 4-5.
  • 24. EUSEBIO DE CESAREA. Historia Eclesiástica II (texto, versión española, introducción y notas por Argimiro Velasco-Delgado, O.P.). Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMXCVII, p. 601-602.
  • 25. “Mas a assistência a diversos pacientes reunidos e a identificação de uma classe de pacientes pobres ou, de qualquer modo, necessitados e dignos de assistência pública é uma novidade que tem importantes consequências no plano da profissionalização do médico, que encontra no hospital uma possibilidade de emprego estável e uma oportunidade de promoção social.”, CONFORTI, Maria. “Corpo, Saúde e Doença no cristianismo”. In: ECO, Umberto (org.). Idade Média I. Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos. Alfragide, Portugal: D. Quixote, 2014, p. 384-385.
  • 26. “Do ponto de vista dos banhos e da limpeza do corpo, o Ocidente assistiu, nos séculos XV-XVIII, a uma regressão fantástica. Os banhos, longínqua herança de Roma, eram hábitos em toda a Europa Medieval. Banhos privados, mas também públicos muito numerosos, com as suas cabinas de vapor, suas banheiras e camas de repouso, ou grandes piscinas e a promiscuidade dos corpos nus, homens e mulheres misturados. As pessoas encontravam-se lá tão naturalmente como na Igreja, e estes estabelecimentos balneários eram destinados a todas as classes a ponto de estarem submetidos a direitos senhoriais, tal como os moinhos, as forjas e a distribuição de bebidas. Quanto às casas abastadas, todas possuíam os seus quartos de banho na cave, constituídos por uma estufa e tinas, geralmente de madeira, com aduelas à maneira das pipas (...) A partir do século XVI, os banhos públicos começaram a escassear, quase desaparecem (...) pouco a pouco o banho torna-se uma medicação, já não um hábito de higiene.” – BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo. Séculos XV-XVIII. As Estruturas do Cotidiano: o possível e o impossível. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 296-301.
  • 27. BORDIN, Giorgio; BUSSAGLI, Marco; D'AMBROSIO, Laura Polo. Le Livre D'Or du Corps Humain. Anatomie et Symboles. Paris: Éditions Hazan, 2015.
  • 28. Altough numbers are notoriously hard to determine, and foundation dates remain even more elusive, a bare minimum of 320 leprosaria were established in England between the close of the eleventh century and the Dissolution, most being in existence well before 1350This means that between one quarter and one fifth of all known English medieval hospitals, including almshouses, were initially intended for lepers, sometimes along with other types of patients. – RAWCLIFFE, Carole. Leprosy in Medieval England. Suffolk, UK: The Boydell Press, 2006, p. 107-108.
  • 29. CONFORTI, Maria. “Medicina e doença no Ocidente nos séculos XI e XII”. In: ECO, Umberto (org.). Idade Média II. Catedrais, cavaleiros e cidades. Alfragide, Portugal: D. Quixote, 2014, p. 304-305.
  • 30. Gallica. Bibliothèque Numérique. Internet.
  • 31. RAMON LLULL. Doctrina pueril (edició crítica de Joan Santanach i Suñol). Palma: Patronat Ramon Llull, Nova Edició de les Obres de Ramon Llull VII, 2005, p. 204.
  • 32. RAMON LLULL. Doutrina para crianças (c. 1274-1276) (trad.: Ricardo da Costa e Grupo de Pesquisas Medievais da UFES III [Felipe Dias de Souza, Revson Ost e Tatyana Nunes Lemos]). Alicante: e-Editorial IVITRA, 2010, p. 63.
  • 33. São três: Ars compendiosa medicinae (Montpellier [?], c. 1285-1287), De leuitate et ponderositate elementorum (Nápoles, 1294) – a pedido dos médicos de Nápoles –, Liber de regionibus sanitatis et infirmitatis (Montpellier, dezembro de 1303). Há outra obra, mas atualmente considerada apócrifo: De modo applicandi nouam logicam ad scientiam iuris et medicinae (Gênova [?], 1303 [?]). Ver DOMÍNGUEZ, Fernando. “Works”. In: FIDORA, Alexander, and RUBIO (ed.). RAIMUNDUS LULLUS, An Introduction to his Life, Works and Thought. Turnhout: Brepols & Publihers, 2008, p. 144-184.
  • 34. RAMON LLULL. El Libro de los Proverbios (ed. Sebastián García Palou). Madrid: Miraguano S. A. Ediciones, 2011, p. 389-390.
  • 35. Em PRING-MILL, Robert D. F. Estudis sobre Ramon Llull (1956-1978). Barcelona: Curial Edicions Catalanes/Publicacions de l'Abadia de Montserrat, 1991, p. 58.
  • 36. A mais notável explicação dessa teoria encontra-se em PRING-MILL, Robert D. F. Estudis sobre Ramon Llull (1956-1978). Barcelona: Curial Edicions Catalanes/Publicacions de l'Abadia de Montserrat, 1991, p. 56-62.
  • 37. RAIMUNDO LÚLIO. Félix ou O Livro das Maravilhas. Parte II (apres. e trad.: Ricardo da Costa). São Paulo: Editora Escala, Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal – 96, 2009, p. 53-54.
  • 38. ARISTÓTELES. Sobre a geração e a corrupção (trad. e notas de Francisco Chorão). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2009.
  • 39. SIRAISI, Nancy. “A Faculdade de Medicina”. In: DE RIDDER-SYMOENS, Hilde (coord.). Uma História da Universidade na Europa. Volume I: As Universidades na Idade Média. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1996, p. 382-383.
  • 40. BONNER, Antoni. “Introducció”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner). Mallorca: Editorial Moll, 1989, p. 397-405.
  • 41. DOMÍNGUEZ, Fernando. “Works”. In: FIDORA, Alexander, and RUBIO (ed.). RAIMUNDUS LULLUS, An Introduction to his Life, Works and Thought, op. cit., p. 144.
  • 42. Publicada em Obres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner). Mallorca: Editorial Moll, 1989, p. 410.
  • 43. “...esta Arte é abreviada para que, em um curto espaço de tempo, abrevie o esforço dos estudantes pobres, que pobremente se esforçam em continuar o estudo da Medicina...”. RAMON LLULL. “Començaments de Medicina”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner), op. cit., cap. 5, p. 417.
  • 44. “...os princípios universais são demonstrações e princípios dos princípios particulares...”. RAMON LLULL. “Començaments de Medicina”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner), op. cit., cap. 5, p. 417.
  • 45. RAMON LLULL. “Començaments de Medicina”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner), op. cit., cap. 1, p. 412.
  • 46. RAMON LLULL. “Començaments de Medicina”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner), op. cit., cap. 1, p. 412.
  • 47. BADIA, Lola. “La Ciència a l’obra de Ramon Llull”. In: VERNET, Joan, i PARÉS, Ramon (ed.). La Ciència en la Història dels Països Catalans, ed. Joan Vernet i Ramon Parés, I. Dels àrabs al renaixement. Barcelona-València: Institut d'Estudis Catalans, Universitat de València, 2004, p. 403-442. Internet.
  • 48. RAMON LLULL. “Començaments de Medicina”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner), op. cit., cap. 8, p. 479-482.
  • 49. RAMON LLULL. “Començaments de Medicina”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner), op. cit., cap. 8, p. 482.
  • 50. Baseado no excelente estudo de GISBERT, Eugènia. “Metaforice loquendo: de l’analogia a la metáfora em els Començaments de medicina de Ramon Llull”. In: Studia Luliana XLIV. Palma de Mallorca: Maioricensis Schola Lullistica, 2004, n. 100, p. 17-52.
  • 51. RAMON LLULL. “Començaments de Medicina”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner), op. cit., cap. 10, p. 485.
  • 52. FRANCO JÚNIOR, Hilário. “Similibus simile cognoscitur. O pensamento analógico medieval”. In: Medievalista online 13, 2013.
  • 53. RAMON LLULL. “Començaments de Medicina”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner), op. cit., cap. 10, p. 485-486.
  • 54. RAMON LLULL. “Començaments de Medicina”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner), op. cit., cap. 10, p. 488-490.
  • 55. RAMON LLULL. “Començaments de Medicina”. InObres Selectes de Ramon Llull (1232-1316). Volum II (ed., introd. i notes de Antoni Bonner), op. cit., cap. 10, p. 496.
  • 56. Um letovari (do latim tardio electuariu) era uma composição medicinal, espécie de xarope em forma de uma mescla pastosa de pólvora e mel, que era ingerido oralmente. GGL, vol. III, 1984, p. 218. Não existe palavra correspondente em português.
  • 57. RAMON LLULL. “Libre de contemplació”. In: Obres essencials II. Barcelona: Editorial Selecta, 1960, p. 347.
  • 58. RAMON LLULL. “Libre de contemplació”. InObres essencials II. Barcelona: Editorial Selecta, 1960, p. 347.

Aprenda mais

Palavras-chave: Lepra, Medicina medieval.