A novela na Idade Média: O Livro das Maravilhas (1288-1289) de Ramon Llull

 

Félix ou O Livro das Maravilhas é uma das primeiras novelas de cunho filosófico-social escritas na Europa medieval (CARRERAS Y ARTAU, 1939, vol. I: 630). Novela, em catalão medieval, uma boa nova, uma novidade (novell, novella) (GGL, vol. III, 1984: 436). A obra foi escrita por Ramon Llull (1232-1316) em Paris em 1288-1289, durante sua primeira visita àquela cidade. Llull tinha então cerca de 56 anos: já era um homem velho para os padrões medievais. Sua visão sobre a sociedade cristã, sobre a monarquia e sobre os poderes constituídos já estava solidamente consolidada.

Um homem velho para o seu tempo sim, mas cheio de idéias novas, desejando conhecer e, sobretudo, reformar o mundo. Assim, é pouco provável que a corte de Filipe IV, o Belo (1268-1314), tenha alterado substancialmente sua visão política forjada em seus anos de formação em Maiorca e Aragão.

A redação do Livro das Maravilhas se insere num momento muito especial da vida de Ramon: em 1287 ele entrou na cena política européia (HILLGARTH, 1971: 47), quando visitou inutilmente a cúria romana — o papa Honório IV (1285-1287) acabara de falecer — e também a corte de Filipe, o Belo, saindo de seu mundo mediterrâneo de Maiorca e adjacências. Até então, Llull tinha ido somente a Montpellier (1274-1275), para atender a um chamado de Jaime II de Maiorca para que seus livros fossem analisados - e aprovados - por um frei menor mestre em teologia.

Além disso, pela primeira vez Llull leu sua Arte na Universidade de Paris, e tentou uma aproximação com Filipe, o Belo - sinteticamente, defino a Arte luliana como um sistema de pensamento aplicável a qualquer tema ou problema específico, uma tentativa de unificar todo o pensamento da cultura medieval e um instrumento para investigar a verdade das criaturas tendo como pressuposto apriorístico a verdade de Deus, Arte assim criada com o principal objetivo de converter os infiéis. Ela era mais que uma doutrina: era uma técnica, um sistema, um modo de exposição técnico de uma ciência. Possuía cinco usos, segundo seu próprio criador:

1) Conhecer e amar a Deus — amar a Deus era um preceito cristão (Mc 12: 30 e Lc 10: 27), mas amar e conhecer a Deus era uma característica da teologia muçulmana, o que indica uma influência islâmica no pensamento de Ramon;

2) Unir-se às virtudes e odiar os vícios, um processo que, segundo Llull, refrearia as paixões com a virtude da temperança;

3) Confrontar as opiniões errôneas dos infiéis por meio das “razões convincentes”, ou “necessárias”;

4) Formular e resolver questões e

5) Poder adquirir outras ciências em um breve espaço de tempo e tirar as conclusões necessárias segundo as exigências da matéria. Isto fazia da Arte luliana uma ciência das ciências, proporcionando o critério para um ordenamento preciso e racional de todo o conhecimento (COSTA, 2000).

Provavelmente Llull tinha o objetivo de convencer o rei da França a fundar escolas em seu reino que ensinassem línguas orientais a missionários à semelhança do colégio de Miramar em Maiorca, como havia tentado na cúria romana um ano antes. Uma passagem da Vida Coetânia (1311), autobiografia ditada a um amigo da cartuxa de Vauvert, em Paris, afirma esta intenção:

Depois disso, Ramon foi à corte de Roma para ver se poderia conseguir do senhor papa e dos cardeais que fossem construídos pelo mundo monastérios similares (a Miramar) para o ensino de diversas línguas. Contudo, quando chegou à corte soube que o papa, o senhor Honório, acabara de morrer. Por isso, deixou a corte e dirigiu seus passos a Paris a fim de comunicar ao mundo a Arte que Deus havia-lhe dado (Vida Coetânia, 18).

Isto também está claro em três cartas de Llull a Filipe, o Belo, à Universidade de Paris e a um prelado desconhecido, datadas de 1287-1289 (HILLGARTH, 1971: 50), em que sua petição — escrita num latim elegante (o que indica que provavelmente solicitou os préstimos de um latinista parisiense) — corresponde à seguinte passagem autobiográfica no Livro das Maravilhas:

Filho — disse o ermitão — um homem que durante um longo tempo havia trabalhado para a utilidade da Igreja Romana veio a Paris e disse ao rei da França e à Universidade de Paris que fossem feitos monastérios onde fossem ensinadas as línguas daqueles que são infiéis, e que se traduzissem a essas línguas a Arte Demonstrativa e que com aquela Arte Demonstrativa fosse aos tártaros e que lhes predicasse e lhes ensinasse a Arte; e que se levassem alguns deles a Paris e lhes ensinasse a nossa língua e a nossa escrita antes que retornassem à sua terra.

Todas estas coisas e muitas outras solicitou este homem ao rei e à Universidade de Paris, e que fosse confirmada pelo santo apóstolo e fosse uma obra perdurável. Dessa maneira, filho, poderia crescer a fé romana, porque converteríamos os tártaros e aqueles da Licônia e outros gentios, e aqueles destruiriam os sarracenos, e assim, pela via do martírio e pela grandeza da caridade, todo o mundo poderia ser entregue à cristandade (RAMON LLULL. “Fèlix o el Libre de meravelles”. In: OS, vol. II, p. 291).

Ramon menciona os tártaros — mongóis — porque neste período, com o fim das cruzadas na Palestina em 1291, existia uma intensa atividade diplomática entre os reinos europeus e o grande Khã mongol da Pérsia (também em domínio dos tártaros), que possuía então uma simpatia pelo cristianismo (VILLOSLADA, 1963: 547-552; CAHEN, 1989: 301-315). Esta possível aliança mongol com os reinos cristãos tinha o objetivo político de expulsar os mamelucos egípcios da Síria e da Palestina. Toda esta atividade diplomática suscitava o interesse de Ramon Llull pelo fato de sua proposta de conversão dos infiéis poder ser aí inserida.

Estas passagens explicam muito a respeito da proposta de reforma social luliana - reforma que alicerça todo o Livro das Maravilhas. Para Llull, o mundo só poderia ser reformado se, por um lado (o da cristandade), os fiéis fossem educados na religião (a começar pelos príncipes) e, por outro, os infiéis fossem convertidos, através do diálogo, pela razão. Assim, seus projetos de reforma social possuíam um forte alicerce espiritual (BONNER, 1989, vol. II: 09):

Assim, o Livro das Maravilhas se insere num novo contexto político e numa nova fase da vida de Ramon Llull: a corte parisiense de Filipe, o Belo e a própria Universidade de Paris, onde o autor leu sua Arte pela primeira vez para um público “internacional” de estudantes e doutores de diversas nações (HILLGARTH, 1971: 46). Contudo, por problemas de comunicação em sua exposição (“sua maneira arábica de falar”) esta tentativa de divulgar sua Arte em Paris foi um fracasso, à semelhança de sua estada em Roma pouco antes (Vida Coetânia, 18, 19).

O Livro das Maravilhas é uma das obras mais conhecidas de Ramon Llull. Seu Prólogo, como o da Árvore da Ciência (1295-1296), é autobiográfico, num tom lamurioso, e explica as circunstâncias da redação da obra — uma das características literárias do pensamento luliano (BATLLORI, 1957: 313). Ramon, numa estranha terra (que todos os especialistas estão de acordo tratar-se de Paris), chora e se lamenta que tão poucos adorem a Deus:

Em tristeza e em languidez estava um homem em terra estranha. Fortemente se maravilhava ao ver como as gentes deste mundo conheciam e amavam tão pouco a Deus, que criou este mundo e com grande nobreza e bondade o deu aos homens a fim de que por eles fosse muito amado e conhecido. Este homem chorava e se lamentava por Deus ter neste mundo tão poucos que O amem, O sirvam e O louvem. E para que fosse conhecido, amado e servido faz este Livro das Maravilhas... (RAMON LLULL. “Fèlix o el Libre de meravelles”. In: OS, vol. II, p. 19).

Numa sensibilidade tipicamente franciscana, o homem (Ramon) pede então ao filho, de nome Félix — considerado por alguns como uma extensão metafórica e literária do próprio Llull (BATLLORI, 1957: 312) — que vá correr o mundo para descobrir (“se maravilhar”) o porque os homens cessaram de amar e conhecer a Deus:

Amável filho, quase mortas estão a sabedoria, a caridade e a devoção, e poucos são os homens que se encontram na finalidade para a qual Nosso Senhor Deus os criou (...) Vá pelo mundo e maravilhe-se dos homens que cessam de amar e conhecer Deus (...) Félix foi, obediente a seu pai (...)

E com a doutrina que seu pai lhe transmitiu andou pelos bosques, montes e planícies, pelos lugares ermos e povoados, encontrou príncipes e cavaleiros pelos castelos e cidades, e se maravilhava das maravilhas que existem no mundo. Perguntava o que não entendia, explicava o que sabia e metia-se em trabalhos e perigos a fim de que a Deus fossem feitas reverência e honra. (RAMON LLULL. “Fèlix o el Libre de meravelles”. In: OS, vol. II, p. 20)

Assim, Félix sai pelo mundo como um errante, questionando o porquê das coisas, como um herói cristão, cheio de estoicismo religioso e uma simplicidade frugal. Esse protagonista da novela - que Llull criou com base em lendas célticas e bretãs trazidas para a Catalunha por trovadores provençais - flui agradável e singelamente por entre o misticismo e o realismo, uma característica das criações literárias espanholas (ALFONSO, 1968: 77-81).

Félix é uma novela de crítica social. De intenção reformista, didática e moral, não possui diretamente os objetivos de conversão tão próprios do pensamento luliano, pois foi escrita para o próprio mundo cristão. E exatamente por apontar criticamente para as instituições existentes e para os ofícios daqueles que possuíam as “rédeas do poder” (príncipes, prelados e ricos burgueses), já foi dito que a obra possui um “ar áspero e contracultural” (BONNER, 1989, vol. II: 10).

O conteúdo de Félix é enciclopédico, e inclui todo o universo medieval. Os temas de seus dez livros o indicam: 1. Deus, 2. Anjos, 3. Céu, 4. Elementos, 5. Plantas, 6. Metais, 7. Bestas, 8. Homem (capítulo que ocupa quase 60% de toda a novela), 9. Paraíso e 10. Inferno.

A seqüência da viagem de Félix pelo mundo é intencional: é um caminho cosmogônico, pois ilustra a ordem da criação, onde o próprio mundo e todas coisas existentes são entendidas como uma expressão viva da obra de Deus.

O objetivo da redação do Livro das Maravilhas é bastante claro: que Deus seja conhecido pelas pessoas, que seja amado e servido. Assim, Ramon quer que os homens de seu tempo, ao lerem Félix, tenham a sua alma salva (BONNER, 1989, vol. II: 12). Deve-se ainda ter em mente que o ato de maravilhar-se, conceito que percorre todo o Livro, é a forma luliana de contemplação do mundo, ao lado da meditação solitária tipicamente medieval, uma “evasão metafísica e transcendental do mundo real” (BATLLORI, 1957, vol. I: 311).

O maravilhoso em Ramon Llull é, sobretudo, a pura admiração, um ato de experimentar sentimentos de admiração, um prolongamento do thaumázein platônico - em Platão, o homem se alegra por conhecer as coisas por reflexo da divindade; no caso de Llull, se “maravilha” (COLOMER, 1975: 28. Em português, a palavra maravilha possui ambos os sentidos: é um ato ou fato admirável e assombroso - a maravilha da natureza - e também pode ser entendido como um milagre, uma coisa prodigiosa que causa encanto e fascinação. Maravilha em português é também uma coisa bela, o que indica uma reminiscência do pensamento medieval que associava a verdade com a beleza e a bondade [Unum, Verum, Bonum], tudo retroagindo ao uno, isto é, a Deus).

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Antes de prosseguir na obra como um todo, gostaria de abrir um pequeno parêntese para o capítulo 7 (Das Bestas) do Livro das Maravilhas. Explica-se: ele é como um corpo estranho na obra. Até a datação desse opúsculo é motivo de discussão entre os especialistas: cogita-se que tenha sido escrito antes do Félix (ou seja, antes de março de 1286) e incluída posteriormente (BATLLORI, 1957, vol. I: 314; para a refutação, ver DAGENAIS, 1979: 131-139).

Depois de haver tratado das plantas (Livro 5) e dos metais (Livro 6), Ramon passa a falar dos animais (as bestas). Mas ao invés de prosseguir na forma expositiva anterior — ou melhor, exemplarista, já que a narrativa baseia-se em pequenos exemplos alegóricos (exempla) e encadeados sucessivamente, que servem como forma literária para o pensamento analógico do autor —, Llull inova na forma de exposição e tira Félix de seu papel de protagonista - do “viajante que se maravilha” - para colocá-lo ao lado do leitor, na qualidade de observador da história e mesmo de aprendiz - voltarei adiante ao tema dos exempla medievais (BONNER I BADIA, s/d: 179).

Assim, Llull intercala no Livro das Maravilhas um episódio novelesco no qual as bestas atuam segundo a psicologia que a cada uma delas é atribuída nos bestiários medievais (Bestiaris, 1963, 02 volumes): o mundo dos animais — simbolizado na corte do rei Leão — passa a ser uma caricatura do mundo dos homens (RUBIÓ I BALAGUER, 1985: 317), e seus símbolos zoomórficos, metáforas das paixões humanas (BATLLORI, 1957, vol. I: 314).

Para o homem medieval, tanto a natureza como o mundo animal era um reflexo (speculum) do universo humano, especialmente da moral (MALAXECHEVERRÍA, 1991): o mundo do homem era reflexo do mundo divino, o mundo dos animais reflexo do mundo dos homens. A natureza que Félix descobre em suas andanças não é um conceito antropocêntrico: ela não foi criada para que o homem a use ou a desfrute, e sim para que, através dela, o homem, com seu intelecto, descubra a Deus. Assim, Ramon se vale dos conceitos de espelho e reflexo para tratar das virtudes e vícios humanos, no caso aqui, através do mundo animal, do rei Leão e dos membros de sua corte.

A história é bastante simples: Ramon conta a tentativa da raposa Na Renart — protagonista da história (através dela são contados mais de 50% dos exempla do Livro das Bestas (RAMIS I SERRA, 1991: 154) — de subverter a ordem estabelecida no reino e suplantar o rei Leão através de uma série de maquinações. Mas para Ramon, a raposa não possui este direito: é uma besta pequena e pouco nobre para tal ambição.

Assim, apesar de conseguir eliminar uma série de rivais (até mesmo o Boi) com sua perfídia — além de aterrorizar outros tantos — quando está a ponto de conseguir seu objetivo e atentar contra a vida do rei Leão, o Elefante e o Javali fazem com que o espírito de fidelidade medieval triunfe, e a Raposa Renart sucumbe pelas mãos do próprio rei Leão, que no fim dá um urro, metáfora da libertação de sua má influência:

Como Na Renart houvesse falado, o rei lançou um olhar muito horrível ao Coelho e ao Pavão, e deu um urro muito grande, para que a natureza de sua alta soberania tivesse maior virtude na consciência do Coelho e do Pavão que a natureza da qual o Coelho e o Pavão tinham pavor de Na Renart.

Como o Leão houvesse gritado com grande brado, ele ordenou furiosamente ao Coelho e ao Pavão que lhe dissessem a verdade, e o Coelho e o Pavão não puderam conter-se, e disseram a verdade ao rei. E então o rei pessoalmente matou Na Renart. (RAMON LLULL, OS, vol. II, 1989, p. 161-162).

Logo no início do Livro das Bestas Llull trata da eleição do rei (“Em uma bela planície, por onde passava uma bela água, estavam muitas bestas que desejavam eleger um rei...”). Sua teoria de pacto social se baseava no critério de elegibilidade do rei entre seus pares. Ramon em parte no modelo imperial, em parte no modelo monástico para construir sua assembléia utópica de bestas que elegem o rei.

Existem várias influências muçulmanas na obra que já foram mapeadas pelos especialistas. Com exceção do nome e caráter do protagonista (Na Renart) — retirado do Roman de Renart francês (século XII), uma das três obras mais lidas nos séculos XIII e XIV, além da Bíblia, é claro (as outras duas eram o Roman de la rose e a Legenda aurea. Ver COHEN, 1997: 94-96) — todo o conteúdo da obra é de origem oriental. É uma das poucas vezes que Ramon Llull utilizou quase que explicitamente um material literário preexistente (BONNER, 1989, vol. II: 13).

E curiosamente, Ramon coloca Renart no feminino (Na Renart), ao contrário do Roman de Renart francês, onde a raposa é um protagonista masculino, o que dá ao personagem um cunho todo pessoal, além, é claro, de associar o feminino ao demoníaco e subversivo (devemos ter em conta que a palavra Roman não pode ser traduzida por Romance e sim por Conto. Não eram romans porque fossem românticos; é provável que o sentimento tenha passado a ser assim chamado exatamente por constar do Roman. Assim, a tradução mais apropriada seria Conto da Raposa). Em contrapartida, a maior parte dos adjetivos que dizem respeito à Na Renart estão no masculino, o que causa uma grande estranheza ao leitor.

No caso do Roman de Renart, Ramon pode ter conhecido esta obra através da cultura jogralesa. Das influências arábicas, a principal delas é o conto Kalila e Dimna, uma versão arábica que chegou à Europa medieval do Panxatandra (Cinco casos de sabedoria) indiano. O tradutor do original persa para o árabe foi o persa Ibn al-Mukafa (724-759) (IBN AL-MUKAFA, s/d).

Ramon pode ter conhecido duas versões desta história - outra referência muçulmana encontrada é a obra Rasa’il (Epístolas), dos Irmãos da Pureza Muçulmana, uma obra enciclopédica que possuía um apêndice sobre uma disputa entre o homem e os animais (DAGENAIS, op. cit.: 131-139). Em 1251, Kalila e Dimna foi traduzido para o castelhano por ordem do então infante Afonso, futuro Afonso X de Castela. Esta tradução foi presenteada à rainha Joana de França, esposa de Filipe, o Belo (que por sua vez encarregou Ramon de Bèziers de traduzi-la para o latim). A seguir, João de Cápua traduziu o Kalila e Dimna do hebraico para o latim entre 1263 e 1278, dando-lhe o título de Directorium humanae vitae. Muito provavelmente, Ramon Llull teve contato com uma destas versões, possivelmente a latina de João de Cápua (RUBIÓ I BALAGUER, op. cit.: 320).

No entanto, embora tenha se baseado em material já existente, Llull o converteu em motivo para doutrinar moralmente o ambiente político monárquico de seu tempo, para servir de instrução aos reis. Vários exempla do bestiário medieval de Kalila e Dimna reaparecem narrativamente no Livro das Bestas: o leão e a lebre, o papagaio, o símio e o vaga-lume.

Os exemplos originais de Ramon são: a eleição do rei e do bispo, o ermitão e o rei, o mau bispo, o burguês rico, e vários outros — como se vê, exemplos morais da corrupção dos costumes sociais. Mas mesmo os contos orientais recontados no Livro das Bestas possuem uma modulação nos diálogos inexistente no conto oriental, muito mais “seco” e esquemático (RUBIÓ I BALAGUER, op. cit.: 321). Todos os exemplos narrados no Livro das Bestas possuem o mesmo sentido moralizante: que a perversidade da raposa (o homem que se corrompe com a proximidade do poder) sirva de exemplo para que os reis estejam alertas contra seus conselheiros. Esta é a moral da história: o rei deve se guardar dos maus conselheiros.

Apesar de ser uma crítica dura contra os vícios de sua sociedade — especialmente da vida e cultura palacianas — o pensamento político de Ramon exposto no Livro das Bestas não é uma sátira antifeudal (RUBIÓ I BALAGUER, op. cit.: 319). Pelo contrário, suas idéias estão perfeitamente de acordo com o status quo vigente, pois exaltam a ordem hierárquica nobiliárquica. Os subversivos devem ter um castigo exemplar (BONNER I BADIA, op. cit.: 180), e aqui, pelas mãos do próprio rei (o Leão).

Mas isso seria uma deficiência de seu pensamento político? Talvez não seja a ausência de crítica à ordem cavaleiresca um ponto a destacar neste tratado político: como a maior parte dos pensadores que antecederam a Guilherme de Ockham — e apesar de suas críticas reiteradas e veementes especialmente aos que ocupavam os cargos eclesiásticos — Llull considerava que a nobreza e as qualidades intrínsecas do cargo que a pessoa ocupava amenizariam ou até mesmo eliminariam os defeitos pessoais de seu ocupante, um pensamento típico do século XIII.

Assim, sua exaltação à ordem social expressa no urro do Leão no final da história das bestas não seria exatamente um defeito. Seria mais interessante, vendo a obra em retrospecto, destacar sua tentativa de reformar o “corrompido” ambiente cultural e político da nobreza palaciana através de parábolas baseadas no ascetismo cristão e na imagem da perfeição apostólica, ambos temas há muito abandonados pela inteligência escolástica, então preocupada com questões mais prementes, como, por exemplo, não só na educação do príncipe e na relação da administração régia com a formação de uma burocracia selecionada nos meios universitários, especialmente no Direito.

Por outro lado, sua visão social centrada na corte real da forma como está exposta nesse bestiário mudou substancialmente cinco anos depois, como podemos perceber no texto da Árvore Imperial (1295-1296). Parece que Llull optou por ressaltar as ordens sociais ao lado do príncipe que estavam ascendendo socialmente.

Por um lado, através do florescimento das cidades (por exemplo, os burgueses. Ver LOPEZ, 1965: 263). Por outro, na formação de um grupo de letrados, os intelectuais - que, por sua vez, deram origem mais tarde à burocracia nos nascentes “estados nacionais” (SANTAMARÍA, 1989: 134), como, por exemplo juízes, inquiridores e advogados - o conceito de burocracia foi maravilhosamente estudado por Max Weber, e sua definição (sistema impessoal com uma separação entre a esfera pública e privada, administrado por funcionários exclusivos e especialmente treinados para o cargo, nomeados por processos formais, tais como exames, organizados de uma forma hierárquica, usando registros escritos e funcionando com áreas fixas de jurisdição) mostra que o caso medieval não se encaixa nele (WEBER, 1968; BURKE, 1980: 66).

Assim, no período medieval aqui tratado, meados do século XIII, este sistema burocrático weberiano e o conceito de Estado ainda estavam sendo formados. Por exemplo, dos itens que definem o conceito para Weber, a questão da admissão do burocrata através de exames formais ainda não estava fixada no ocidente medieval europeu (SKINNER, 1996: 25-87). Um outro ponto que diferenciava a idéia do ofício público da modernidade no século XIII era sua estreita ligação com a idéia de fidelidade pessoal: o ofício era uma prova de confiança do soberano, pois o exercício do ofício público nobilitava (HESPANHA, 1982: 386).

A confirmação que o Livro das Bestas é um manual político destinado à educação régia está em seu epílogo: “Está terminado o Livro das Bestas, no qual Félix deu a um rei para que visse a maneira segundo a qual fazem as bestas, e entenda o significado de como o rei deve reinar e deixar-se guardar de malvado conselho e de falsos homens.” (RAMON LLULL, OS, vol. II, p. 162).

Pelo local e data de sua composição, existe uma unanimidade entre os especialistas: o Livro das Bestas é dedicado ao rei Filipe IV da França. Na época, o rei deveria ter uns vinte anos e Ramon provavelmente se sentia com liberdade para dar conselhos — principalmente pelo fato de Filipe ser sobrinho de Jaime II de Maiorca, protetor de Ramon.

No entanto, no caso do mau conselheiro não se encontrou ainda um personagem histórico que correspondesse à Renart, pois todos os “maus conselheiros” de Filipe, o Belo (especialmente Guilherme de Nogaret — c. 1265-1313) só adquiririam fama dez anos mais tarde (BONNER, 1989, vol. II: 14), embora Pierre Dubois (c.1250-c.1320) já tivesse afirmado que Filipe era mal aconselhado (DUBY, 1992: 253). Cabe aqui um pequeno parênteses para Guilherme de Nogaret e Pierre Dubois, pois são uma espécie de paradigma desse homem-novo dos quatrocentos que Llull tanto se opunha. Pierre Dubois foi jurista e escritor político. Por volta de 1300, tornou-se advogado do rei em Coutances. Sua obra mais famosa foi De Recuperatione Terrae Sanctae (1306).

Como todo bom jurista a serviço da coroa francesa, defendia que esta deveria aumentar seus poderes administrativos e assumir a liderança da Europa, tudo em nome da paz (KANTOROWICZ, 1998: 163-64). Já Guilherme de Nogaret era de origem plebéia, tendo sido professor de direito em Montpellier. Nomeado juiz-maior de Beaucaire e Nîmes em 1299, foi chamado para o conselho real por Filipe, o Belo e nomeado cavaleiro. Em 1303, participou da prisão do papa Bonifácio VIII (o chamado Atentado de Anagni), e dos templários na França (PERNOUD, s/d: 129). Nogaret é sempre lembrado pelos historiadores por sua crueldade, desumanidade e cega devoção à monarquia francesa (HOLTZMANN, 1898; DEMURGER, 1986: 286). Georges Duby é um dos poucos historiadores que possui uma opinião mais “neutra” em relação a Nogaret e a Filipe, o Belo (DUBY, 1992: 249-255).

Assim, no Livro das Bestas, o rei ocupa na terra o lugar de Deus, e seu primeiro dever é para com a paz e a justiça (RAMON LLULL. OS, vol. II, p. 146-147) e, sobretudo, por esse motivo, o rei é imagem de Deus na terra. No entanto, o príncipe luliano está sujeito a maus conselheiros, fruto da corrupção humana. Mais tarde, na Árvore Imperial, Ramon estenderá esta visão de homem corrompido (que no Livro das Bestas enfatiza a figura do mau conselheiro) ao próprio rei: ele deverá ter um confessor que será sua própria consciência, para que o reino seja resguardado de atitudes erradas por parte de seu príncipe.

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Feita esta ressalva e este breve comentário a respeito do Livro VII, volto então às características mais genéricas do Livro das Maravilhas. Como disse anteriormente, o objetivo da obra é salvar as almas perdidas, pois à medida que o leitor caminhar com o protagonista da novela conhecerá Deus e suas obras. O tom lamurioso do escrito — que se deve ao fato do autor acreditar que os homens de seu tempo não conheciam nem amavam a Deus — percorre toda a obra. Félix se maravilha porque o mundo não adora a Deus e especialmente porque seus governantes (príncipes, clérigos e os ricos burgueses) não dão o exemplo e são os responsáveis pelo estado lamentável que o mundo se encontra (BONNER, 1989, vol. II: 12).

Exemplo, exemplum, exempla: o Livro das Maravilhas é construído inteiramente com base nesse tipo de narrativa, típica do século XIII. Eu gostaria de enfatizar o caráter inovador de Llull na forma da exposição de seus exempla. Mas antes, em primeiro lugar, quero ressaltar que os exempla medievais são textos importantes para uma análise da vida cotidiana do homem medieval. A utilização do exemplum (e suas metáforas), como documento histórico é claramente defendida por Jacques Le Goff, um dos grande especialistas deste tipo de fonte histórica (LE GOFF, 1994: 267).

Embora o exemplum luliano esteja inserido na pregação urbana característica do século XIII, ele não se enquadra exatamente na definição do exemplum clássico medieval — um relato breve e verídico para ser inserido num sermão ou discurso de fundo teológico com o objetivo de convencer uma platéia através de uma lição moral (BREMOND, 1998: 21-28; CAZALÉ-BÉRARD, 1998: 29-42; GREGG, 1997 e LE GOFF, 1999: 324-344). Oriundo da retórica antiga — a partir de Aristóteles (exemplumparadeigma) (CURTIUS, 1996: 97) — o exemplum medieval possuía uma estrutura literária bastante rígida e repetitiva, pois era normalmente destinado a um auditório iletrado (SCHMITT, 1999: 144). Por sua vez, o exemplum luliano nunca é realista e não pretende ter um valor de documento histórico. Embora o objetivo seja o mesmo, o de converter ou reformar através de histórias moralizantes, Ramon busca sempre uma atemporalidade e uma utopicidade aplicáveis universalmente (BONNER I BADIA, op. cit.: 118-119).

Esta tendência de Llull de transformar exempla em parábolas fantásticas também se explica na forma escolhida de transmissão (a palavra escrita em prosa), e pela vontade explícita de entreter o ouvinte/leitor (GONZÁLEZ CASANOVAS, 1998: 64). Por esse motivo, a forma do desenvolvimento do exemplum luliano possui um dinamismo e um entrelaçamento textual que o distingue bastante do exemplum clássico trecentista definido acima.

Para uma conceitualização, talvez possa definir o exemplum luliano como um phantasticus exemplum. Ramon Llull muitas vezes cria diálogos abstratos entre as virtudes, os vícios, os animais e o homem — já foi visto que, da mesma forma que o mundo dos homens é reflexo e vestígio (vestigium) do mundo divino, o mundo dos animais é também reflexo do mundo dos homens (MALAXECHEVERRÍA, op. cit.). Como na visão do homem medieval todos estes mundos estão interligados, é possível então o diálogo entre os componentes das partes — embora nesse aspecto Ramon não fosse original: Jacques de Vitry (†1240), bispo de Acre e pregador de grande reputação na primeira metade do século XIII, já se havia valido dos exempla animalescos, uma vez que a associação com o mundo dos animais conferia uma grande eficácia ao exemplum narrado (LE GOFF, 1994: 271-272).

De qualquer modo, este é o caso de muitas narrativas contidas no Félix. E ressalto ainda que o fato do exemplum luliano não ser real, isto é, não estar baseado em diálogos reais — apesar das passagens claramente autobiográficas — não invalida seu caráter e sua base no real.

Explico. Para criar essa atmosfera literária sedutora, com os textos exemplaristas se encadeando numa sucessão rítmica vertiginosa — que muitas vezes faz com que o leitor se veja obrigado a voltar ao início do diálogo para entender novamente os porquês das respostas — Llull com certeza ambientou os personagens e os diálogos na vida cotidiana que presenciou, em Maiorca, Aragão, França, África ou Avignon. O objetivo era torná-los reais apesar de não serem reais. Somente essa familiaridade com as cenas e os diálogos (entre reis, príncipes, nobres, burgueses, ferreiros, sapateiros, eremitas, judeus, muçulmanos, camponeses, clérigos) faz com que o leitor/ouvinte sinta-se em seu mundo — o de Llull e o seu próprio. Caso contrário, seria necessário um esforço de abstração que, de certa forma, anularia a circularidade criada entre leitor e escritor, em que pese as dezenas de passagens filosóficas e metafísicas onde o autor tenta ambientar sua Arte no mundo real e palpável do leitor.

Na verdade, o Livro das Maravilhas é um grande espetáculo, onde o mundo medieval e especialmente os diálogos medievais são postos em cena — talvez nunca o conceito de teatrocracia de Balandier, a idéia de que o grande ator político, reconhecido pela sua força dramática e que  “comanda o real através imaginário”, produzindo um espetáculo político, esteja tão bem encaixado num documento (BALANDIER, 1982). O protagonista — Félix — é, sobretudo, um anfitrião que recebe em seu caminho todo o espectro social do século XIII. E o mais importante: essa enciclopédia do conhecimento em forma de literatura fantástica que é o Livro das Maravilhas tem como epicentro o homem — quase 60% da obra é reservada à Humanidade, pois para Llull e para todos os homens do século XIII somos o ápice da criação divina.

Isso desfaz em grande parte o mito que a Idade Média não pensou o homem. A idéia luliana de natureza humana como o ponto de encontro entre a primeira causa (“...amá-Lo, honrá-Lo, servi-Lo e conhecer a Vossa bondade e a Vossa nobreza...” [RAMON LLULL, ORL, vol. I, 1906, cap. 45, 2, p. 227) e sua operação determina qual a definição do homem e sua relação com Deus e o mundo: em relação à criação, o homem é o centro, em relação ao criador e ao mundo, o homem é criativo enquanto produz coisas (ferramentas e obras de arte) (DOMÍNGUEZ REBOIRAS, 1997: 288).

Para Llull, o homem é o centro de toda a criação pois “...nele tem lugar a união da realidade espiritual com a natureza corporal e, por isso, ele é o vínculo que sustenta toda a criação...” (DOMÍNGUEZ REBOIRAS, 1997). Daí a desproporção entre o capítulo “Do Homem” e os demais capítulos da obra. Naturalmente, o ser é visto numa escala evolutiva e ascendente: devemos nos conhecer e conhecer o mundo para buscar sempre amar e honrar a Deus. Por isso — e apesar disso — Félix descobre todas as formas possíveis do entendimento humano, iniciando aristotélicamente com as potências da alma, passando pelos sentidos e pela apreensão do real até as virtudes necessárias e os vícios que devemos evitar para chegarmos ao estado perfeito, o da temperança. O que e como pensamos, por e para que existimos, como e porque existe o mundo. E depois dessa epopéia humana, o Livro das Maravilhas termina dantescamente com o Paraíso e o Inferno.

Por fim, não se deve deixar de levar em conta que apesar de todas as suas andanças e das maravilhas que encontra em seus múltiplos caminhos, Félix é essencialmente um ser que ao questionar o mundo e os homens, contempla. Solitário, ele medita as questões que surgem à medida que caminha. Pois para os medievos, o ato de trilhar um caminho para imaginar uma utopia era uma das formas mais perfeitas de reflexão (apesar de os medievais não terem pensado o conceito de utopia, cunhado por Thomas More em 1516 para designar uma ilha imaginária cujo nome remete a “nenhum lugar”, me vali da definição do medievalista Hilário Franco Jr. (“...toda sociedade idealizada, concebida como evasão do concreto ou como proposta de mudanças nele.” [FRANCO JR., 1992: 11]).

A utopia medieval fornecia um caminho para se chegar à perfeição, tratava-se sobretudo de um modelo. No entanto, o importante não era saber se o andarilho chegaria a realizar seu modelo utópico no fim de sua caminhada e sim tentar trilhar sempre o caminho escolhido. Por esse motivo, no fim, Félix morre e outro o substitui, pois a descoberta de nosso eu, do porque estamos aqui e qual o nosso destino são perguntas eternas que a filosofia sempre tentará responder. E o novo Félix sai novamente pelo mundo, dessa vez contando e recontando o Livro das Maravilhas, para “...louvar, glorificar, exaltar e santificar o nome de Jesus Cristo e de sua mãe Santa Maria.”

Ramon Llull é um dos grandes utópicos de seu tempo — apesar do forte filão aristotélico de sua filosofia (JAULENT, 2001: 22-23). Devemos ter em mente que o utopista, para conseguir idealizar sua sociedade perfeita, necessita pelo menos duas qualidades próprias: grande capacidade de imaginação e resfriamento de suas paixões (CARRERAS Y ARTAU, op. cit., vol. I: 630). Isso se traduz numa serenidade generosa — no caso de Llull e de seu Félix, contemplativa e auto-reflexiva —, que consegue perceber as possibilidades latentes de uma determinada sociedade através de sua percepção da realidade vigente e ao mesmo tempo propor um modelo ideal com base numa dura crítica dessas potências adormecidas.

Dessa forma, Llull, apesar de não abandonar a característica do entretenimento exemplarista como uma forma possível de edificar e reformar a sociedade, sugere um retorno utópico a uma igreja desligada dos poderes seculares, não essa igreja do século XIII, mas uma igreja reformada, não só espiritualmente mas também acima de todas as questões mundanas que dilaceravam os poderes monárquicos de seu tempo. Pois seu modelo que serve de base para sua reforma são os apóstolos e mártires. Não é à toa que para Llull o papa deveria ser como uma espécie de árbitro “internacional” das questões litigiosas entre os reinos cristãos.

Essa supremacia papal luliana se baseava fundamentalmente no conceito de Christianitas, a idéia de uma espécie de sociedade jurídico-espiritual de todos os cristãos (num sentido político-social). Assim, a cristandade seria muito mais do que um simples conglomerado de reinos e povos cristãos, pois estes estariam unidos pela submissão espiritual à Igreja Romana (OLIVER, 1957: 237). Esta era uma idéia grandiosa que havia sido gerada a partir do pontificado de Gregório VII (1187), terminando com o próprio Bonifácio VIII, isto é, durante boa parte do período em que Ramon escreveu suas obras. Assim, como possuí um objetivo unificador com fins missionários, Ramon evitava todo e qualquer tipo de polêmica em seus escritos. Por esse motivo, sua hierarquia social encimada espiritualmente pelo papa deve ser vista muito mais como um meio para se chegar a um fim — a unidade da cristandade. Este era seu objetivo maior, juntamente com a paz, para poder realizar a propagação da fé cristã. Entendo que sua hierarquia não deve ser analisada como uma tese hierocrática, tão ao gosto dos teólogos, decretistas e decretalistas de seu tempo (decretal era uma carta ou constituição pontifícia, emitida em resposta a consultas sobre questões de moral ou direito).

Assim, convido-os a uma bela viagem poética e maravilhosa nos caminhos de Félix. Vamos conhecer o mundo medieval através da sensibilidade e da percepção de um homem medieval, e não utilizando esquemas teóricos genéricos que muitas vezes deturpam o tempo passado com a visão do tempo presente. Trata-se de perceber o percebido na ótica do tempo vivido, compreender a forma da experiência passada nos moldes daqueles que a viveram, deixando que o homem fale por si. Nesse caso, o historiador deve falar apenas para elucidar as palavras, os gestos, as cenas descritas nessas múltiplas narrativas que às vezes são tão reais.

O Livro das Maravilhas é tanto uma obra significativa de seu tempo que conheceu uma grande “popularidade”, na Idade Média e no Renascimento. Existem manuscritos que chegaram até nós em castelhano (um do século XV), francês (um do século XV), italiano (três do século XV, um do XVI e um do XVI) e catalão (três do século XIV, dois do XV e cinco do XVII), sem contar a grande difusão e posterior impressão do Livro das Bestas. Boa viagem.

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