“O homem é mau quando age contra Deus e contra a semelhança de Deus”: a maldade humana no Livro das Maravilhas (1288-1289) de Ramon Llull

Se o soberano bem não existe,
Sua essência é o soberano mal.
Mas o soberano mal não pode existir,
Porque, se existisse,
Todo o bem seria destruído.
Ramon Llull, Proverbis de Ramon, 4.

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"E agora o rei do triste reino eu vejo, de meio peito do gelo montante, e mais com um gigante eu me cotejo (...) Três caras vi na sua cabeça: toda vermelha era a que tinha à frente (...) Em cada boca um pecador, com cruentos dentes, moía à feição de gramadeira, aos três prestando, de vez, seus tormentos" (...) "Esse que sofre aí pena dobrada, é Judas Iscariote", disse o guia, "co' as pernas fora e a cabeça abocada. Dos outros dois, o que a cabeça arria da bocarra da cara preta é Bruto, que se contorce e cala todavia; Cássio é o outro, de corpo tão hirsuto. Mas, partamos, que a noite ressurgiu, e o que havíamos de ver já é resoluto.", DANTE, A Divina Comédia, Inferno, Canto XXXIV, 28-69. MS. Holkham misc. 48 (Séc. XIV, Itália), p. 53, Bodleian Library, University of Oxford.

A investigação filosófica

Após seguir o conselho de seu pai, sair pelo mundo e conhecer e entender a Deus, os anjos, o cosmos, os elementos, as plantas, os metais e os animais, Félix quis saber a natureza do homem, para ter conhecimento da circunstância do pecado e das boas obras. Assim, em sua peregrinação filosófica, ele subiu a uma alta montanha, e chegou até a uma igreja ermitã, onde soube que vivia um santo homem filósofo em penitência e em estado contemplativo.

Então, ao chegar ao cume da montanha, Félix, o peregrino-protagonista da novela O Livro das Maravilhas (1288-1289), saudou o eremita-filósofo:

Senhor, disse Félix, por muito tempo desejei saber o que é o homem, como foi ordenado pela natureza, e para qual finalidade Deus o criou. Pois existem tantas falhas no homem pecador que muito desejo saber a maneira pela qual o homem foi criado, e a disposição na qual está, para ter conhecimento do homem pecador e do homem justo.

E pelo conhecimento que terei, saberei conhecer a mim mesmo, a Deus primeiramente, e a meu próximo.
RAMON LLULL, O Livro das Maravilhas, Livro VIII, Prólogo.

O eremita recebeu Félix muito agradavelmente, e os dois começaram seu diálogo socrático. Félix iniciou a tertúlia inquirindo o sábio: o que é o homem? Como ele foi ordenado pela natureza? Para qual finalidade Deus o criou? Nosso peregrino desejava saber essa tríade, pois só assim poderia bem entender outra tríade: conhecer a si próprio, a Deus e ao próximo.

O santo eremita disse ter muito prazer com a intenção de Félix, e que havia estudado o homem por muito tempo, precisamente para se entender, entender a Deus e ao próximo. Assim, ele pacientemente explicou a Félix o que era o homem, de que era feito, porque existe, porque vive e ama ter filhos, porque fica doente, tem saúde, envelhece, morre, porque ama a mundanidade e tem prazer em lembrar, entender e querer, ver, ouvir, cheirar, degustar e sentir.

Após ter explicado o aspecto físico e psicológico do homem, o eremita expôs sua própria fragilidade, chorou por muito tempo e agradeceu ter o sentimento de doçura, que permite ao devoto verter lágrimas e desejar morrer por Cristo.

Só depois dessa limpeza, dessa compunção, da sanção das lágrimas (LE GOFF & TRUONG, 2005, p. 64) é que o eremita explicou a Félix porque o homem é bom e mau.

À semelhança do Criador

A medida do bem e do mal no homem é sua proximidade ou distância de Deus. De fato, o problema do conhecimento de si implica, a partir do cristianismo, uma consciência da posição do eu, no mundo e em relação ao seu criador: a imagem do eu sempre será imperfeita se permanecer voltada somente para si mesma, e só adquire valor próprio se referendada ao seu modelo. É o que Etienne Gilson chama de socratismo cristão (GILSON, 2006, p. 284). É por isso que, um século antes, São Bernardo (1090-1153) defendeu a idéia que não é sábio quem não o é primeiro para si: “[...] que tu também bebas com eles do caudal de tua fonte, e não a dividas com estranhos. Ou será que tu és um estranho?” (Da Consideração, V.6).

E é por isso também que, no Livro das Maravilhas, o eremita só pode explicar a Félix o que é o homem depois de ter entendido a si e ter se certificado na realidade que suas conclusões são universais – e o são, pois quanto melhor se entende, melhor se entende o outro e o mundo.

Assim, o eremita explica a Félix que o homem é bom porque Deus pôs nele um pouco de Sua semelhança, e é bom quando deseja usar aquela semelhança que Deus lhe deu. Por sua vez, o homem é mau quando age contra Deus e contra a semelhança divina, e quando não deseja usar de Sua Bondade nem de Sua semelhança, e usa a maldade e tudo que é contrário à semelhança de Deus.

Para que o homem seja bom e se esquive do mal, o eremita ensina a Félix que o homem deve crer, conhecer e amar os catorze artigos da fé romana e as sete virtudes (fé, esperança, caridade, justiça, prudência, fortaleza e temperança), além de conhecer os sete vícios que tornam o homem mau quando ele os ama (glutonia, luxúria, avareza, acídia, soberba, inveja e ira). Ademais, deve-se ter em si os dez mandamentos e os sete sacramentos, e agradecer a Deus os sete dons que o Espírito Santo deu (sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor).

A seguir, o eremita aconselha Félix a ler o Livro do gentio e dos três sábios e a Doutrina para crianças, pois nessas obras estão expostos todos esses ensinamentos.

A medida de todas as coisas: Deus

O eremita explica então o motivo pelo qual a medida da bondade ou a maldade do homem se encontra no Criador: porque o homem foi feito para lembrar, entender e amar a Deus, e que, portanto, o homem é mau quando lembra, entende e desama a Deus, ou quando não lembra, não entende e não ama a Deus. Em uma belíssima e poética passagem, o eremita coloca todo o universo criado à disposição do homem:

Filho, o firmamento, o Sol, a Lua, as estrelas, os elementos, as plantas, as aves, os peixes, as bestas e todas as coisas corporais são boas para o homem, porque Deus criou todas para servir ao homem e sem o homem elas não valeriam nada.

O homem é bom quando tem Deus, porque foi criado para servir a Deus e fazer Sua vontade, pois sem Deus o homem não valeria nada. Logo, de acordo com as palavras que eu te falei, filho, tu podes conhecer o motivo pelo qual o homem é bom e porque ele é mau, neste mundo e no outro.
RAMON LLULL, O Livro das Maravilhas, Livro VIII, 61.

A bondade perfeita – Deus – criou o homem para que livremente fosse bom, em Deus e em si mesmo. Nesse momento, Félix se surpreende (se maravilha) e faz a clássica pergunta sobre o tema: “[...] se Deus criou o homem para que fosse bom, não para ser mau, como podem existir mais homens maus que bons e mais homens que estejam em maldade e que são maus do que homens que estejam em bondade e sejam bons?”.

O encontro entre a Bondade e a Maldade

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Um monstruoso diabo de imensas asas e gigantescos olhos alça vôo após se libertar de seus grilhões.
Capitel do claustro de Mossac (séc. XI).

O eremita chorou durante muito tempo antes de resolver essa questão e, em suspiros, alegoricamente respondeu a Félix contando a estória do encontro entre a Bondade e a Maldade:

Uma vez aconteceu uma discussão entre a Bondade e a Maldade. A Bondade disse que ela era maior que a Maldade, e a Maldade disse o contrário. A Bondade alegou que ela era maior que a Maldade por ser serva de Deus e semelhante a Ele, cumprindo a finalidade para a qual fora criada. De sua parte, a Maldade alegava que era maior que a Bondade porque tinha mais príncipes e grandes senhores em sua servidão que a Bondade, e existiam mais homens muito maus que homens muito bons.

A Bondade estava sendo vencida no debate até dizer que um pequeno bem é maior em bondade que muitos grandes males em maldade, pois a grandeza é conveniente ao bem e inconveniente ao mal. Além disso, quanto mais existe o mal em maior grandeza, mais é inconveniente com a grandeza da maldade. E quanto maior é o bem, mais existe concordância com a grandeza da bondade.
RAMON LLULL, O Livro das Maravilhas, Livro VIII, 61.

Através da alegoria, Llull explica que um pequeno bem é maior em bondade que muitos males em maldade, pois a grandeza convém ao bem, não ao mal. Por um lado, o filósofo recorre à noção estóica e neoplatônica do mal como ausência, como não (mais tarde incorporada às filosofias cristã, hebraica e árabe). Por outro, se vale do conceito divino de grandeza, uma das dignidades da essência divina, para explicar a inconveniência e mesmo impossibilidade da grandeza do mal.

A Bondade cresce, a Maldade ainda mais

Mesmo assim, o peregrino ainda questionou o eremita sobre o mesmo dilema: se a grandeza convém ao bem, não ao mal, porque os homens se inclinam mais ao mal que ao bem? Para respondê-lo, uma vez mais o eremita recorreu à alegoria, dessa vez contando a estória de um santo homem que vivia em um eremitério. Esse solitário, paradoxalmente, quanto mais meditava e melhor se tornava, percebia que maiores eram as tentações que tinha. Isso lhe causou uma grande maravilha, pois ele pensava que quanto mais se esforçava para ser bom, menos deveria ser tentado pelo mal.

Nesse momento, Deus enviou ao santo homem uma visão: a bondade e a santidade do homem estavam em luta para se oporem e vencerem a maldade, e esta vitória e luta não podem existir sem as tentações, pois quanto maiores são as tentações, maior é o homem bom quando as vence.
RAMON LLULL, O Livro das Maravilhas, Livro VIII, 61.

Parece claro o raciocínio: 1) não pode existir somente a bondade, pois isso impediria sua percepção; 2) a maldade cresce em quantidade à medida que a bondade cresce em qualidade, 3) uma bondade pode vencer muitas maldades e 4) o auxílio divino é fundamental para a vitória da bondade.

Há bondade no homem mau?

Satisfeito com a explicação, Félix fez a quarta pergunta ao eremita, e desejou saber se o homem mau tem alguma bondade. O eremita contou-lhe a estória de uma senhora, esposa de um gentil-homem que, por muito tempo, viveu no pecado da luxúria e, por isso, desesperou-se, e pensou que nenhuma penitência seria suficiente para Deus perdoá-la. Um dia, meditando sobre sua maldade, a mulher pensou se tinha alguma bondade em si, e concluiu que, como havia sido tão má, pelo menos a Justiça de Deus seria boa, julgando-a ao Inferno – e assim sua existência teria tido algum fim bom. Essas palavras de contrição foram tão boas que a Justiça de Deus se converteu em misericórdia, através da bondade da contrição.

Neste exemplum, Ramon mostra o ato da contrição perfeita (a contrição de caridade), que brota do amor de Deus. A contrição – dor da alma e detestação do pecado cometido, com a resolução de não mais pecar no futuro (CIC, 1993, p. 346) – é antecedida por um exame de consciência.

Definido somente na XIV Sessão do Concílio de Trento (1551), o ato da contrição está, contudo, muito presente na história do cristianismo no ocidente medieval, e particularmente na filosofia luliana. Para Ramon, trata-se da dor que faz com que se chore pelos pecados que ofenderam a Deus, sofrimento que conduz às lágrimas e suspiros, angústia que faz o homem chorar lágrimas doces na terra para, depois, rir no Paraíso (Livro dos Mil Provérbios, XX.7, 12).

O homem medieval é um homem que chora. E as lágrimas têm um valor muito profundo na filosofia luliana. Para os medievais, não havia verdadeira compunção sem as lágrimas. Para Llull, as lágrimas tornar-se-ão risos no outro século, e os risos, lágrimas (Livro das Maravilhas, Livro VIII, 70). Por esse motivo, o maior mal que o homem pode fazer no mundo, disse o eremita, é não conhecer Deus, nem amá-Lo, ou conhecê-Lo e desamá-Lo.

O cristão e o muçulmano

Nesse momento em que o diálogo ultrapassava a esfera humana para a divina, Félix pensou que os maus cristãos são ainda piores que os muçulmanos, pois “maior mal faz aquele homem que conhece e desama a Deus que o homem infiel que não conhece nem ama a Deus”, mas teve medo de pensar isso, e disse ao eremita o contrário do que tinha pensado, quando então ouviu o seguinte argumento:

Deus deu virtude à vontade, que pode tanto desviar o entendimento da finalidade para a qual foi criado quanto inclinar a finalidade para a qual foi criado. Em outras palavras, quando o entendimento entende Deus e a vontade não O ama, o entendimento não tem uma boa capacidade de entender, e esse entender é mau por sua má vontade. Isso acontece porque o entender torna-se mau por causa de sua má vontade, assim como também se torna bom por sua boa vontade.

No entanto, o entendimento não pode expulsar sua vontade, mas pode multiplicá-la, em maioridade ou menoridade, pois tanto como o entendimento entende o bem ou o mal, da mesma forma proporciona à sua vontade a capacidade de ser grande ou pequena.
RAMON LLULL, O Livro das Maravilhas, Livro VIII, 61.

Nessa interessante passagem, o filósofo explica que, das três potências da alma – a memória, o entendimento e a vontade – quando a vontade não quer, o entender do entendimento fica comprometido, e torna-se mau por causa de sua má vontade (COSTA, 2005). Isso porque Deus deu ao homem o livre-arbítrio, que depende mais da vontade que do entendimento. Por isso o mau cristão é pior que o mau muçulmano, pois conhece Deus, mas não o ama.

Qual o maior prazer que existe?

Por fim, Félix faz uma última questão: como o homem pode ter maior prazer, fazendo o bem ou o mal? Para respondê-la, o eremita conta a nosso protagonista mais um exemplum:

Filho, disse o eremita, uma boa senhora, filha da castidade, da caridade, da paciência e da fortaleza, tinha um marido luxurioso, ciumento, irado e muito mal acostumado. Aquele mau homem, por sua malvada educação, fazia muitas maldades e vilanias à sua mulher, que sentia maior prazer em ser casta, paciente e em ter boa educação, apesar de não ser o sentimento que acalentava ao sentir os golpes que seu marido lhe dava quando a feria, nem com as vilanias que ele lhe dizia.
RAMON LLULL, O Livro das Maravilhas, Livro VIII, 61.

O maior prazer que existe é fazer o bem, mesmo sofrendo o mal. O maior valor é se manter no bem, mesmo oprimido pelo mal. A maior virtude é pensar as virtudes, mesmo acossado pelos vícios. O exemplo da mulher casta e do marido luxurioso ensina que o bem sempre sofre com o mal, mas com as virtudes teologais e cardeais esse sofrimento transforma-se em prazer.

Conclusão

O Livro do Homem, oitavo livro da obra Félix ou o Livro das Maravilhas, é um imenso tratado antropológico, no qual Ramon Llull trata da moral e do caráter social do homem. A viagem de Félix, o feliz protagonista virgem que investiga a realidade, é uma peregrinação atemporal, fora do espaço e do tempo, porque é um caminho alegórico em busca do conhecimento.

Sua virgindade é uma metáfora da abertura que o espírito científico deve ter para com o mundo: o verdadeiro espírito científico se desnuda de seus preconceitos para saber; sua curiosidade é precedida pela intenção de educar, de adquirir sabedoria, pois os fundamentos morais são os mais imprescindíveis para o educando.

No capítulo sobre o mal, como vimos, há progressivos níveis no diálogo platônico entre Félix e o filósofo-eremita: a explanação sobre a bondade e a maldade no homem, Deus como o parâmetro de todas as coisas, a submissão do universo ao homem, a estupefação da grandeza da maldade no século, o porquê da vitória da bondade (apesar da aparente grandeza da maldade), o motivo da grandeza da maldade lado-a-lado com a grandeza da bondade, a Sabedoria da Justiça divina, a importância da apologética e o prazer da bondade.

A forma apresentada é a da alegoria, justaposta com um sereno diálogo socrático – que visa o bem e a verdade. A literatura luliana, sempre filosófica, pois pretende narrar as verdades encontradas por sua Arte, instiga o leitor a encontrar as respostas, já existentes na realidade e somente ocultas para os espíritos investigativos maliciosos.

Com a leitura do capítulo “Por que o homem é bom e mau?”, descobrimos que céu e inferno encontram-se no coração humano, que o caminho da sabedoria é o melhor meio para se fugir dos vícios e se chegar à vida virtuosa, e que a compunção expressa pela ternura das lágrimas, além de mostrar a fragilidade da sensibilidade como um valor, expõe a serena doçura que reconhece a douta ignorância e investiga, entre suspiros e prantos, o que a razão reconhece, sempre com a memória que deseja e entende, o entendimento que deseja e memoriza, e a vontade, que entende e guarda.

 

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Fontes

Obres Selectes de Ramon Llull (1232-1316) (ed. introd. i notes de Antoni Bonner), Mallorca, Editorial Moll, 1989, volume 2.

SANTO TOMÁS DE AQUINO. Sobre o mal. Rio de Janeiro: Sétimo Selo, 2005.


Bibliografia

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Catecismo da Igreja Católica (CIC). Petrópolis: Vozes, 1993.

COLOMBÁS, G. M. La tradición benedictina. Ensayo histórico. Tomo tercero: Los siglos VIII-XI. Zamora: Ediciones Monte Casino, 1991.

COSTA, Ricardo da. “O que é, de que é feita e porque existe? Definições lulianas no Livro da Alma Racional (1296)”. In: COSTA, Ricardo da, TÔRRES, Moisés Romanazzi e ZIERER, Adriana (dirs.). Mirabilia 5 – Revista Eletrônica de História Antiga e Medieval – Jornal of Ancient and Medieval History, 2005.

GILSON, Étienne. O espírito da filosofia medieval. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

LE GOFF, Jacques e TRUONG, Nicholas. Uma História do Corpo na Idade Média. Lisboa: Editorial Teorema, 2005.

PRING-MILL, Robert D. F. Estudis sobre Ramon Llull (1956-1978). Barcelona: Publicacions de l’Abadia de Montserrt, 1991.

VEGA, Amador. Ramon Llull y el secreto de la vida. Madrid: Ediciones Siruela, 2002.

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