A renovatio medieval na nobreza salvífica do trabalho: a arte de Benedetto Antelami (c. 1150-1230) no Ciclo do Trabalho e os Meses do Batistério de Parma

Ricardo da COSTA

Conferência de abertura do
II Colóquio Internacional LEME/Vivarium/CEEO.
As faces da renovatio no medievo e no Renascimento
,
UFMT, dia 17 de novembro de 2014.

Resumo: O século XI presenciou uma das maiores revoluções mentais da Idade Média: a transformação do trabalho-sofrimento no trabalho-redenção. Pela primeira vez na História do Ocidente, o trabalho manual (na terminologia de então, as Artes Mecânicas) passou a ser considerado como um valor em si, passível inclusive de constar no elenco das Artes, ainda que subalternamente. O responsável por essa renovatio na História do Pensamento foi Hugo de São Vítor (1096-1141). Em seu Didascálicon (Didascalicon de studio legendi, c. 1127), as Artes Mecânicas constam de sua proposta curricular de ensino, algo então inédito (até o século X, devido à herança greco-romana, o trabalho manual era considerado uma atividade servil, de escravos, de espíritos inferiores). Aos poucos, essa nova maneira de perceber a realidade circundante se difundiu pelo corpo do ocidente cristão, por sua Christianitas. Uma das consequências disso está muito bem expressa na Arte, nas imagens do mundo rural e da vida camponesa. Assim, o trabalho no campo ganhou um espaço representativo antes impensado. Por sua vez, a tradição romana do Trabalho e os Meses foi renovada, das iluminuras aos afrescos, dos vitrais às esculturas. A proposta dessa conferência é apresentar um fruto maduro dessa renovatio artística: as representações da vida camponesa nas esculturas de Benedetto Antelami (c. 1150-1230) expostas no Batistério de Parma, edifício construído para a realização de cerimônias batismais e erguido ao lado da Catedral (Duomo) de Parma, símbolo arquitetônico de um momento de transição do Românico ao Gótico. Para isso, inseriremos as esculturas de Antelami na tradição do Trabalho e os Meses, para comparar tanto a atividade do mês quanto a representação campesina e, por fim, propor nossa visão interpretativa desse importante segmento da sociedade medieval.

Palavras-chave: Arte Medieval – Escultura Medieval – Benedetto Antelami – Camponeses medievais – O Trabalho e os Meses.

Abstract: The eleventh century saw a major mental revolution of the Middle Ages: the transformation of work-suffering in work-redemption. For the first time in History of the West, the manual labor (in contemporary terminology, the Mechanical Arts) came to be regarded as a value in itself, including likely to be in the cast of the Arts, although subaltern mode. The responsible for this renovatio in the History of Thought was Hugh of St. Victor (1096-1141). In his Didascalicon (Didascalicon studio legendi, c. 1127), the Mechanical Arts consist of a curriculum of teaching, something unprecedented (until the tenth century, due to the Greco-Roman heritage, the manual labor was considered a activity of slaves, of lower spirits). Gradually, this new way of perceiving the surrounding reality spread throughout the body of the Christian West, in Christianitas. One of these consequences is very well expressed in Art, in the images of the countryside and peasant life. Thus, work in the field gained a representative before unthought space. In turn, the Roman tradition of Labours of the Months was renewed, from illuminations to frescoes, from stained glass windows to sculptures. Thus, the purpose of this conference is to present a ripe fruit of this artistic renovatio: the representations of peasant life in the sculptures of Benedetto Antelami (c. 1150-1230) set out in Baptistery of Parma, building constructed for holding baptismal ceremonies and built beside the Cathedral (Duomo) of Parma and architectural symbol of a time of transition from Romanesque to Gothic. For this, we will enter the sculptures of Antelami in the tradition of Labour of the Months, to compare both the activity of the month as the peasant representation, and finally propose our interpretation that this important segment of Medieval Society vision.

Keywords: Medieval Art – Medieval Sculpture – Benedetto Antelami – Medieval peasants – The Labour of the Months.

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I. O tempo quase imóvel

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O Regresso dos Rebanhos (1565), de Peter Bruegel, o Velho (c. 1525-1569). Óleo sobre madeira, 117 cm x 159 cm, Kunsthistorisches Museum, Vienna. Mesmo no alvorecer da Modernidade, após as revoltas camponesas do final da Idade Média, mesmo no tempo da grande Guerra Camponesa (Deutscher Bauernkrieg, 1524-1525), Brueguel ainda nos mostra o típico camponês medieval, homem rural europeu par excellence: robusto, bem proporcionado, atlético. Jovem. “Em muitos de seus quadros, Bruegel não mostra os homens como senhores da natureza, mas como parte integrante dela: os guardadores mal se distinguem dos bois pelas suas cores. O Regresso dos Rebanhos faz parte de um ciclo de estação ou de mês, do qual chegam até nós cinco quadros. Este quadro simboliza certamente o mês de Novembro”.1

Principio com um importante depoimento, de um grande historiador, um dos maiores do século XX:

Nasci em 1902, entre Champagne e Barrois, num vilarejo que hoje tem uma centena de habitantes e que, na época de minha infância, contava quase o dobro. É uma aldeola estabelecida há séculos; imagino que sua praça central, na confluência de três estradas e de um caminho antigo, possa corresponder ao pátio de uma antiga mansão galo-romana (...) A casa em que eu morava, construída em 1806, durou tal qual, ou quase, até 1970, bela lembrança de uma simples casa camponesa. Creio que, para o historiador que me tornei, esse longo estágio campestre, frequentemente renovado, teve a sua importância. O que os outros aprenderam nos livros, sei desde há muito de fonte direta (...) Fui por antecipação e continuo sendo um historiador de origem camponesa. Conheço por nome as plantas, as árvores dessa aldeia do Leste; conheci cada um de seus habitantes, ainda vi trabalhando o ferreiro, o segeiro da aldeia, os lenhadores ocasionais, os bouquillons2; vi todos os anos alternarem-se as terras de cultivo da aldeia, terras que hoje se reduzem a pastos para o gado; vi girar a roda de um velho moinho, que, creio eu, foi construído outrora para o senhor vizinho por parentes meus.

Fernand Braudel, Minha formação de historiador.3

Fernand Braudel (1902-1985) pertence à nata da historiografia. Metodologicamente, está (quase) tudo aí. Além da escrita (belíssima, narrativa em ondas, rítmica, suave,) a longa duração, a capacidade de imaginar (primeiro e imprescindível instrumento mental de um historiador)4, os diferentes tempos simultâneos em um mesmo tempo que devemos, precisamos, temos a obrigação de tentar compreender.

Assim, antes de tratar da arte do Trabalho e os Meses de Benedetto Antelami (c. 1150-1230), é necessário frisar: o tempo dos camponeses medievais – e mesmo do dos camponeses da era moderna5 – foi o de um tempo quase imóvel, tempo do homem com o meio que o rodeava, de uma história lenta, por vezes lentíssima, de lentas transformações, por vezes com retrocessos, com ciclos reiniciados.6 Por isso, o mundo de Brueguel (c. 1525-1569), do século XVI, de seus camponeses, ainda é, nesse sentido amplo, relacional, quase o mesmo mundo dos camponeses medievais do século XIII, de Antelami.

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A dança de casamento (c. 1566), de Peter Bruegel, o Velho (c. 1525-1569). Óleo sobre painel, 119,4 cm x 157,5 cm, Museum Detroit Institute of Arts, Detroit, Michigan. Havia quem considerasse a gaita de foles como um instrumento de poderes eróticos. Talvez por isso, na cena ela seja tocada na festa da noiva camponesa: a vitalidade e a fecundidade são celebradas no ardor da dança. Bruegel destaca a sensualidade mal reprimida, especialmente na excitação dos homens.7

Disse quase. Isso porque, em que pese seus retratos das festas camponesas, com suas danças8, momentos vários de perturbação da ordem, instantes em que Ágape cedia ante Eros, os camponeses do alvorecer da Modernidade (ou do outono da Idade Média, como preferirem) têm um ar soturno, sombrio, circunspecção excessiva talvez fruto das crises do final da Idade Média. Por isso a necessidade quase imperativa das festas, momentos em que a determinação da labuta cedia espaço à alegria da ociosidadade. Em outras palavras, os camponeses de Bruegel, ainda que fartos, ainda que robustos, talvez estejam mais próximos do camponês do mês de outubro do folio 10 do Livro de Horas do Duque de Berry (Les Très Riches Heures du Duc de Berry, c. 1412-1416), não dos medievais.9

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Folio 10, mês de Outubro (regido pelos signos de Libra e de Escorpião) de Les Très Riches Heures du Duc de Berry. Ademais, a iluminura não deixa de representar alegoricamente a luta do trabalho camponês contra a Natureza e suas vicissitudes: repare nos corvos (à esquerda, abaixo) a devorar os grãos que o infeliz acabou de semear!

Seja como for, a história do campo, do campesinato, é a história de um mundo social quase sem história. Aquelas aldeias, forçadas a bastarem-se a si próprias, por viverem à margem da civilização10, quase à margem do Cristianismo, da Christianitas, eram compostas de homens rudes, de homens broncos, sombrios, avaros.11 A avareza era para eles, na verdade, uma qualidade: enrijecidos pelas dificuldades de seu meio, pela reiterada luta no domínio das forças da natureza, os camponeses eram parcimoniosos, prudentes (a invejosa caricatura do camponês avaro era feita, via de regra, pelos citadinos). Mas eles eram, sim, homens grosseiros, toscos. Pior: de hábitos pouco higiênicos. Quase não tomavam banho (quando o faziam, por vezes ignoravam as áreas genitais!); as mulheres catavam os piolhos dos namorados, futuros maridos (maneira que viam de estabelecer um contato físico mais próximo)12, e os maridos, regularmente, surravam suas mulheres (a conhecida surra conjugal), além de as ofenderem (porca era o adjetivo mais comum).13

Em definitivo: caso queiramos um símbolo imagético de sua ordem, a do campesinato14, a melhor imagem do camponês medieval não é a do esquálido, triste e esfarrapado semeador de outubro do Livro de Horas do Duque de Berry, mas a do vigoroso, jovem, robusto, e sobretudo rude, do camponês-ceifeiro do mês de junho do vitral O Zodíaco e o Trabalho e os Meses da Catedral de Chartres (imagem 3).

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Mês de Junho. Detalhe do vitral O Zodíaco e o Trabalho e os Meses da Catedral de Chartres. Atenção: os meses de Junho e de Julho estão com os títulos trocados nos vitrais! Por isso o mês de Junho está escrito IVLIVS.15

II. Renovatio mental e material

Tão logo cessaram as últimas invasões, no século X, o Ocidente voltou a crescer. Por todos os lados, em todos os âmbitos: na demografia, na economia, nos cultivos dos campos, na educação. Um verdadeiro desabrochar.16 Para o caso que aqui nos interessa, a mais notável renovatio ocorreu nas novas formas de se pensar o mundo, o trabalho. Até então, como herança do mundo antigo, o trabalho braçal, manual, era pensado como algo de escravos, de servos, de espíritos servis.17 A própria escravidão não desaparecera inteiramente com o avanço da servidão – ainda que, é sempre necessário frisar (para os historiadores mais pessimistas18, ante as sempre incompletas informações das fontes), passar de “algo que fala” para uma pessoa com deveres, mas também direitos, tenha sido um notável avanço na condição humana da maior parte da sociedade, a partir do avanço do Cristianismo na Europa da Alta Idade Média.19

E o primeiro documento (não por acaso, de natureza filosófico-pedagógica) a registrar essa lenta mudança de paradigma mental surgiu no âmbito religioso. Hugo de São Vítor (1096-1141), educado na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho (na Saxônia), e depois ingresso na (renomada) escola de São Vitor, em Paris, redigiu, por volta de 1127, uma importante obra com a qual os historiadores podem conhecer um pouco da educação no início do século XII: Didascálicon (Didascalicon de studio legendi).20 Pela primeira vez, ao lado das Artes Liberais21 foram elencados os trabalhos manuais, em uma inédita proposta de sistematização e hierarquização do conhecimento.22 Essa reordenação dos saberes feita no Didascálicon, eminentemente calcada na realidade da complexa vida social que então se desenhava na Europa, a partir do século XII, foi um sintoma textual das notáveis mudanças mentais que ocorriam na época.23

Pari passu a essa renovatio mental, a revolução industrial ocorrida no mesmo período alavancou as bases sociais.24 Para que possamos ter uma perspectiva compreensiva das representações campesinas da arte de Benedetto Antelami (especialmente as robustas silhuetas de seus trabalhadores), é fundamental ter em mente a intensa aceleração da vida rural e urbana dos séculos XII-XIII.

Os progressos na expansão dos arroteamentos, na diversidade da alimentação25, nas técnicas de cultivo e de atrelagem animal ocasionaram uma explosão demográfica nunca antes vista (e desde o Neolítico26). Vejamos o quadro:

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Um crescimento tão impressionante (até as vésperas da Peste Negra que assolou a Europa na segunda metade do século XIV) não poderia deixar de decisivamente afetar a vida do camponês médio europeu.27 De fato, o que percebemos, e em praticamente todas as imagens até o início do século XIV que representam o mundo rural, é que o tipo físico camponês é basicamente o mesmo: bem estruturado, robusto, rijo. Jovem. Exatamente como os camponeses de Benedetto Antelami.

III. O Trabalho e os Meses de Benedetto Antelami (c. 1150-1230): Janeiro, Fevereiro, Junho, Setembro e Outubro

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Fevereiro. O Trabalho e os Meses do Batistério de Parma (séc. XIII). A pujança do campesinato medieval está muito bem expressa na robustez dos camponeses de Benedetto Antelami. No caso do mês de Fevereiro, a força do braço rude que desbravava os campos está aludida na musculatura do antebraço do jovem, que finca a pá na terra para revolvê-la. Acima da cena, o signo de Peixes, a mostrar nos céus o momento astronômico/astrológico sob o qual se desenrola a típica cena rural.

Na Idade Média, a Península Itálica é um caso à parte.28 Ao lado de sua rica e variada vida urbana, as tradições antigas, romanas, persistiram por muito mais tempo que em França, por exemplo. Por isso, podemos perceber na arte (de estilo provençal) do arquiteto e escultor lombardo Benedetto Antelami ecos de antigas tradições estilísticas que podem remontar à Antiguidade Tardia.29 O próprio tema do Ciclo dos Trabalhos e os Meses não era original, embora também fosse o resultado da preocupação dos artistas medievais com a parte da vida do Cosmos chamada de o mundo sublunar, isto é, a parte do universo do frágil, inconstante e perecível mundo dos quatro elementos (Ar, Fogo, Terra, Água) que viviam em constante oposição e decomposição e que, em sua efervescência e de acordo com os astros zodiacais, faziam a Fortuna girar sua Roda conforme seu instável auspício.30

O tema dos Trabalhos e os Meses está espalhado por toda a Europa. Iluminuras31, vitrais e baixos-relevos32 atestam a força desse motivo imagético. Uma interessante comprovação das permanências clássicas está na representação do mês de Janeiro: apesar de ser um mundo cristão, em quase todos os calendários medievais, o mês era representado por um dos deuses mais antigos do panteão romano33: Jano (Ianus bifrons), deus das portas, deus das transições, dos inícios e dos fins (ou seja, do passado e do futuro) e, portanto, sempre posto com duas cabeças.34

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Janeiro. O Trabalho e os Meses do Batistério de Parma (séc. XIII).

Sereno, barbado, com uma longa túnica bordada abaixo do pescoço, no colo, altivamente sentado em um trono, ele anuncia o fim do ano-velho e o início do novo.35 Janeiro era uma pequena pausa na labuta cotidiana de um mundo em que o sagrado e o profano ainda estavam imbricados, em que o paganismo greco-romano embebia o cristianismo de alegorias e metáforas literárias e imagéticas.36

Mês a mês, a vida prosseguia, intensa. E uma das cenas mais características do mundo rural medieval era a da ceifa (ou sega) – em Junho – tempo da colheita dos cereais, tempo de receber a dádiva do trabalho, tempo de alegria, de fartura (isto é, caso a natureza fosse propícia).37 O camponês de Junho é normalmente representado com uma foice na mão direita.38

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Junho. O Trabalho e os Meses do Batistério de Parma (séc. XIII).

Jovem, bem proporcionado, robusto, simples. E pobre. Descalço, com uma modesta vestimenta a cobrir os braços, ele trabalha. Esse padrão se repete nos meses seguintes.39 Por exemplo, no mês de Setembro, outra cena muito comum: a vinificação e o desengaçamento (extração da uva dos cachos).40

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Setembro. O Trabalho e os Meses do Batistério de Parma (séc. XIII).

Abaixo, a Balança (signo de Libra). Acima, outro jovem, com a típica touca camponesa, mangas arregaçadas, túnica aberta na lateral da coxa, corta, de modo resoluto, os generosos cachos de uva que caem em um tonel de madeira. Seus olhos estão quase arregalados: é um trabalho muito importante. Requer atenção. As colheitas medievais eram ocasiões propícias para festas, comemorações coletivas pela alegria do mês da fartura.

Os historiadores mais pessimistas e afeitos à interpretações literais do rol de cobranças de impostos extorquidos da massa rural tendem a se esquecer da quantidade de feriados religiosos e festas decorrentes das colheitas.41 Sim, o mundo medieval tinha ambas as coisas: pesados tributos (ainda que negociáveis caso a caso, conforme o direito consuetudinário local42 e festas: como disse, a Idade Média também era uma festa.43 Ano após ano, a labuta se repetia. Após a colheita, o descanso e rotação da terra e, a seguir, a semeadura. Na imagem 10 (abaixo), mês de Outubro, sob o signo de Escorpião (em forma de uma lagarta gigante, acima da cabeça do semeador), o ciclo da vida se renovava.

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Outubro. O Trabalho e os Meses do Batistério de Parma (séc. XIII).

Para a semeadura, era necessário um homem mais experiente, mais velho, que já conhecesse os segredos da terra, a qualidade das sementes, o modo de lançá-las de modo preciso no espaço determinado. Por isso não era necessária a paixão da juventude, mas o amor da maturidade. O resoluto camponês de Outubro de Antelami calça um tipo de sapatilha com detalhes arredondados nos bicos, provavelmente adequada para, enquanto lançasse as sementes, delicadamente pisoteasse a terra, já limpa, já arada.

Suas mãos, fortes, firmes, destacadas na escultura (repare nas unhas, muito bem torneadas pelo artista) são como que o elo que o liga à vida da Natureza. Aliás, na cena, a própria planta na qual o signo de Escorpião se assenta e que serve como motivo, como pano de fundo do movimento do rústico, parece brotar de sua mão direita, como a representar o solo a ser fecundado, a vida que nascerá daquele movimento.

Conclusão

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Dezembro. O Trabalho e os Meses do Batistério de Parma (séc. XIII).

Esculpidas para adornar o Batistério de Parma, as representações camponesas dos Trabalhos e os Meses de Benedetto Antelami mantiveram a tradição dos calendários medievais carolíngios, embeberam o vigoroso estilo provençal então dominante no sul da Europa e fixaram, ainda que de modo fugaz, a imagem real do jovem e robusto camponês medieval (modelo logo suplantado pelo esquálido e famélico camponês da Modernidade). Antelami, o mais importante escultor do românico pleno italiano44, sintetizou, com suas vigorosas linhas que fundiram o classicismo com o estilo artístico então vigente45, a força do campesinato medieval que, com suas energias, impulsionou a Europa rumo a uma revolução agrícola nunca antes vista na história humana.

Paralela a esse impulso econômico, real, as consciências dos escritores monásticos sofreram uma importante mutação mental: a gradativa e persistente valorização dos trabalhos manuais, então chamados de Artes Mecânicas, como atesta o Didascálicon de Hugo de São Vítor. Em que pese o olhar enviesado dos senhores.46 Esse desprezo senhorial, denunciado pelos moralistas e clérigos, exposto por burgueses em seus fabliaux47, não deteve a renovatio medieval na nobreza salvífica do trabalho, somente o recrudescimento da escravidão no período moderno (devido, em boa parte, ao fascínio dos universitários medievais pelo Direito romano, renascido a partir do séc. XIII, e que previa a escravidão). Mas isso é outra história. Mais triste, mais funesta.

Notas

  • 1. HAGEN, Rose-Marie e Rainer. Pieter Brugel o Velho, cerca de 1525-1569. Camponeses, loucos e demônios. Taschen, 1995, p. 57.
  • 2. Isto é, criadores de bode.
  • 3. BRAUDEL, Fernand. Reflexões sobre a História. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 4.
  • 4. No que concorda Georges Duby: “Imaginemos. É o que os historiadores sempre se vêem obrigados a fazer. Seu papel é o de recolher vestígios, os traços deixados pelos homens do passado, de estabelecer, de criticar escrupulosamente um testemunho. Esses traços, contudo, principalmente aqueles deixados pelo pobres, pelo cotidiano da vida, são tênues, descontínuos. Para tempos muito remotos, como o de que tratamos aqui, eles são raríssimos. Sobre eles podemos construir uma armadura, que no entanto é frágil. Entre esses poucos esteios permanece aberta a incerteza. A Europa do ano mil, portanto, é preciso imaginá-la.” – DUBY, Georges. A Europa na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1988, p. 01.
  • 5. LE ROY LADURIE, Emmanuel. História dos camponeses franceses. Da Peste Negra à Revolução. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2007.
  • 6. BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na época de Felipe II. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995, vol. I, p. 25.
  • 7. “Poder-se-ia aplicar a muitas aldeias camponesas a descrição de uma noite de festa na hospedaria de Pontassieve (Toscana): ‘Umas boas três dezenas de camponeses se haviam reunido, segundo o hábito das noites de festa, para ali beber, jogar, contar suas inépcias (fim do século XV)”, DE LA RONCIÈRE, Charles. “A vida privada dos notáveis toscanos no limiar da Renascença”. In: ARIÈS, Philippe e DUBY, Georges. História da vida privada 2. Da Europa feudal à Renascença. São Paulo: São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 172.
  • 8. Como, por exemplo, A dança do casamento (imagem 2), A dança camponesa (c. 1569, óleo em painel, 114 x 164 cm, Kunsthistorisches Museum, Viena) ou O casamento camponês (c. 1568-69, 114 cm x 164 cm, Kunsthistorisches Museum).
  • 9. Por isso, sempre que confronto os documentos com as imagens que chegaram até nós, também imagino os camponeses medievais ainda semi-pagãos, ainda mais imunes ao universo da Christianitas que os do tempo de Bruegel.
  • 10. Pelo fato de quase não terem a História vivida, mas a do tempo lentíssimo, os camponeses medievais não tinham em si esse princípio constitutivo civilizacional. Para isso, ver a interessantíssima entrevista do historiador José Enrique Ruiz-Domènec (1948- ), a respeito do lançamento de seu livro, La trama del pasado (Barcelona: Libros deVanguardia, 2014).
  • 11. Todas características das sociedades montanhesas mediterrâneas. Ver BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na época de Felipe II, op. cit., p. 35-63.
  • 12. O Brasil manteve essa tradição, e a adocicou, no cafuné!
  • 13. “Mas não exageremos a impotência feminina”, diz-nos o historiador Emmanuel le Roy Ladurie (1929- ), que fez essa arqueologia do gesto, como chamou, em sua maravilhosa obra Montaillou. Cátaros e Católicos numa aldeia francesa, 1294-1324 (Lisboa: Edições 70, s/d, p. 251).
  • 14. Ainda que não haja, em definitivo, uma concordância para se tomar o conceito de camponês (ou campesinato) aplicável a todos os períodos históricos. Para isso, por exemplo, ver CARDOSO, Ciro Flamarion S. “Camponês, campesinato: questões acadêmicas, questões políticas”. In: CHEVITARESE, André Leonardo (org.). O Campesinato na História. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002, p. 19-38.
  • 15. “Não deixa de ser divertido pensar na descompostura que o desatento artista deve ter recebido!”. COSTA, Ricardo da. Entre Chartres e Amiens: a vida cotidiana dos camponeses medievais na Arte (séc. XIII). Conferência proferida na I Jornada Nacional de História Antiga e Medieval e IV Encontro Nacional de Estudos Egiptológicos, evento do Programa de Pós-graduação de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG-PR), no dia 18 de setembro de 2014.
  • 16. Praticamente todos os historiadores que se debruçaram sobre o período trataram desse notável crescimento europeu, Desde Marc Bloch (1886-1944) – A Sociedade Feudal. Lisboa: Edições 70, 1989 – a Jérôme Baschet – A civilização feudal. Do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006 – passando por Robert Lopez (1910-1986) – O nascimento da Europa. Lisboa: Cosmos, 1965 – e Jacques Le Goff (1924-2014) – A Civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1983, 02 vols.
  • 17. Por exemplo, para Aristoteles (384-322 a. C.), o escravo é aquele que, homem por natureza, não pertence a si próprio, mas a outrem, isto é, está submetido ao outro. São indivíduos inferiores, nascidos para serem escravos (Política, I, 4, 1253b, 1254a; I, 5, 1254a; Metafísica I, 2, 982b)
  • 18. Há uma penca. Cito apenas dois: BOYS, Guy. La Gran Depresión Medieval: Siglos XIV-XV. El precedente de una crisis sistémica. Madrid: Universitat de València, 2001 e, especificamente para o tema aqui desenvolvido (ainda que eruditíssimo), FRIEDMAN, Paul. Images of the Medieval Peasant. California: Stanford University Press, 1999.
  • 19. “O mundo grego-romano via os pobres como insignificantes e os escravos meramente como gado que fala, que vivia em tendas, em grandes propriedades, próximos aos animais (gado semivocal) e que eram tratados pouco melhor que eles, quando não da mesma forma. É preciso somente consultar a obra do século VI, A vida de São Cesário de Arles, com sua insistência para que os cristãos dispensassem a mesma atenção à salvação de seus escravos doentes como à de seus parentes, para ver que uma mudança ocorrera.” – HILLGARTH, Joscelin N. Cristianismo e Paganismo (350-750). A Conversão da Europa Ocidental. São Paulo: Madras Editora, 2004.
  • 20. Literalmente, Coisas relativas à escola. Da arte de ler, documento analisado sob vários ângulos e perspectivas. Por exemplo, ver NOGUEIRA, Maria Simone Marinho. “O Didascálicon de Hugo de São Vítor – Regras de leitura enquanto normas de vida”. In: TÔRRES, Moisés Romanazzi (org.). Mirabilia 16 (2013/1). A Filosofia Monástica e Escolástica na Idade Média, p. 52-64.
  • 21. O Trivium (Gramática, Dialética e Retórica) e o Quadrivium (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia). Ver JOSEPH, Irmã Miriam. O Trivium. As Artes Liberais da Lógica, da Gramática e da Retórica. São Paulo: É Realizações, 2014, e MARTINEAU, John (org.). Quadrivium. As Quatro Artes Liberais Clássicas da Aritmética, da Geometria, da Música e da Cosmologia. São Paulo: É Realizações, 2014.
  • 22. MICCOLI, Lucia. “Le arti meccaniche nelle classificazioni delle scienze di Ugo di San Vittore e Domenico Gundisalvi”. In: Annali della Facoltà di lettere e filosofia dell'Università di Bari, Bari 24 (1981) 73-101.
  • 23. Por exemplo, o filósofo Ramon Llull (1232-1316) elencou quarenta e dois ofícios manuais. Ver COSTA, Ricardo da. “Las definiciones de las siete artes liberales y mecánicas en la obra de Ramon Llull”. In: Anales del Seminario de Historia de la Filosofía. Madrid: Universidad Complutense de Madrid (UCM), vol. 23 (2006), p. 135-136.
  • 24. Reproduzo o conceito de revolução industrial do historiador Jean Gimpel (1918-1996). Ver GIMPEL, Jean. A Revolução Industrial da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1975 (notável trabalho que abrange as transformações agrícolas que sacudiram a vida cotidiana camponesa).
  • 25. Ver especialmente FLANDRIN, Jean-Louis e MONTANARI, Massimo. História da Alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.
  • 26. Segundo defende Jérôme Baschet em A civilização feudal. Do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006.
  • 27. Em que pese o habitual pessimismo de uma parte considerável dos especialistas do tema. Para esse tom sombrio, ver, por exemplo, BORRERO FERNÁNDEZ, Mercedes. Los campesinos en la sociedad medieval. Madrid: Arco Libros, 1999, FOSSIER, Robert. Historia del campesinado en el Occidente Medieval. Barcelona: Critica, 1985 e RÖSENER, Werner. Los campesinos en la Edad Media. Barcelona: Critica, 1990.
  • 28. No caso da arte inclusive. Ver ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte Italiana 1. Da Antigüidade a Duccio. São Paulo: Cosac & Naif, 2003.
  • 29. Devido às similitudes de seu estilo, não é improvável que o artista tenha trabalhado (ou mesmo sido aprendiz) em Saint-Trophime, onde há uma das pérolas do Românico, a Igreja de Saint-Trophime de Arles. Para a arte de Antelami ver Benedetto Antelami e il Battistero di Parma (a cura di A. Dietl, C. Frugoni e W. Sauerländer). Turín: Einaudi, 1995, e DE FRANCOVICH, Géza. Benedetto Antelami. Architetto e scultore e l'arte del suo tempo. Milán: Electa, 1952, 2 vols.
  • 30. As representações medievais mais antigas dos Trabalhos e os Meses remontam aos Calendários carolíngios (por exemplo, as Notícias Astronômicas de Viena, manuscrito de Salzburg (séc. IX), ou o Sacramentário do mestre da Escola de Fulda [c. 800]) que, por sua vez, baseavam-se em modelos romanos-imperiais (por exemplo, o mosaico do século III do sítio arqueológico de Saint-Romain-en-Gal, hoje instalado no Musée d’Archéologie Nationale em Saint-Gemain-en-Laye).
  • 31. Ver, por exemplo, The Tripartite Mahzor (Hungarian Academy of Sciences, Kaufmann Collection, MS Kaufmann A384, c. 1320).
  • 32. No Portal de São Firmino da Catedral de Amiens: ver COSTA, Ricardo da. “Entre Chartres e Amiens: a vida cotidiana dos camponeses medievais na Arte (séc. XIII)”. Conferência proferida na I Jornada Nacional de História Antiga e Medieval e IV Encontro Nacional de Estudos Egiptológicos na Universidade Estadual de Ponta Grossa.
  • 33. VILLALBA I VARNEDA, Pere. ROMA A través dels historiadors clàssics. Bellaterra: Universitat Autònoma de Barcelona, 1996, p. 75.
  • 34. Essa é uma importante diferença dos calendários medievais para os do século XV: por exemplo, nas Muy Ricas Horas do Duque de Berry (Très Riches Heures du Duc de Berry, c. 1412), no mês de Janeiro há uma festa (com o próprio duque presente), não o deus Jano!
  • 35. O deus Jano de Benedetto Antelami é muito semelhante ao mês de Janeiro do Vitral O Zodíaco e os Trabalhos dos Meses da Catedral de Chartres (c. 1217-1220): a mesma touca na cabeça de um homem barbado e de túnica. Ver COSTA, Ricardo da. “Entre Chartres e Amiens: a vida cotidiana dos camponeses medievais na Arte (séc. XIII)”, op. cit.
  • 36. MCKITTERICK, Posamond (ed.). La alta Edad Media. Europa 400-1000. Barcelona: Crítica, 2002.
  • 37. Caso contrário, o medo: “Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvos.” – Jr 8, 20.
  • 38. Um dos instrumentos fundamentais da tecnologia agrícola medieval. Para os avanços ocorridos no período, ver WHITE, Lynn. Tecnología medieval y cambio social. Barcelona: Paidós, 1990.
  • 39. Talvez por essa simetria, que associa a tradição lombarda à francesa, Argan considera que Antelami transita do equilíbrio românico ao impulso gótico. ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte Italiana 1. Da Antigüidade a Duccio. São Paulo: Cosac & Naif, 2003, p. 343.
  • 40. Novamente, a mesma cena, mas com dois camponeses, está presente no Vitral O Zodíaco e os Trabalhos dos Meses da Catedral de Chartres (c. 1217-1220). Ver COSTA, Ricardo da. “Entre Chartres e Amiens: a vida cotidiana dos camponeses medievais na Arte (séc. XIII)”, op. cit.
  • 41. Especialmente os medievalistas brasileiros não poderiam se esquecer dos feriados...
  • 42. Para o que considero uma mitologização dos impostos medievais, ver especialmente HEERS, Jacques. A Idade Média, uma impostura. Lisboa: Edições Asa, 1994.
  • 43. A esse respeito, ver o delicioso livro de Miguel Ángel Ladero Quesada, Las fiestas en la cultura medieval (Barcelona: Areté, 2004).
  • 44. GEESE, Uwe. “La escultura románica”. In: TOMAN, Rolf. El Románico. Arquitectura, Escultura, Pintura. Barcelona: h.f.ullmann/Tandem Verlag GmbH, 2007, p. 305.
  • 45. BOZAL, Valeriano, ANTÓN, Pedro, BERETTA CURI, Alcides, J. COBIELLES, Francisco, DORES RÓDENAS, María, e SILIÓ, Fernando. Historia Geral da Arte. Escultura II. Madrid: Ediciones Del Prado, 1996, p. 39.
  • 46. Isso pode ser muito bem percebido, por exemplo, na obra Llibre de contemplació do filósofo Ramon Llull (1232-1316): “17. Em todo o mundo, Senhor, vemos que não há arte e ofício tão necessário aos homens como a arte dos lavradores; pois se os lavradores não existissem, nenhum homem viveria. Assim, como os lavradores são tão proveitosos e necessários para a vida do homem, é uma grande maravilha para mim que os lavradores sejam os mais aviltados, os mais injuriados e menosprezados homens de todo o mundo.”, RAMON LLULL, “Llibre de contemplació”. In: Obres Essencials. Barcelona: Editorial Selecta, 1960, vol. II, p. 364 (trad.: Ricardo da Costa).
  • 47. José Rivair Macedo foi o primeiro historiador brasileiro a se dedicar aos fabliaux: “Imaginário carnavalesco, riso e utopia nos fabliaux medievais”, Revista de História da USP, 132, 1995, p. 19-28; “O real e o imaginário nos fabliaux medievais”, Revista Tempo (UFF),v. 9 n. 17, p. 9-32, 2004. Ver também COSTA, Ricardo da e SEPULCRI, Nayhara. “A donzela que não podia ouvir falar de foder” e “Da mulher a quem arrancaram os colhões”: dois fabliaux e as questões do corpo e da condição feminina na Idade Média (sécs. XIII-XIV). In: COSTA, Ricardo da. Mirabilia 6. A educação e a cultura laica na Idade Média, 2006, p. 79-100.

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