Entre Chartres e Amiens: a vida cotidiana dos camponeses medievais na Arte (séc. XIII)

Ricardo da COSTA

Conferência proferida na
I Jornada Nacional de História Antiga e Medieval e
IV Encontro Nacional de Estudos Egiptológicos
,
evento do Programa de Pós-graduação de História da
 Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG-PR),
no dia 18 de setembro de 2014.1

Resumo: O trabalho realiza uma análise iconográfica de imagens de camponeses medievais nas catedrais de Chartres e Amiens, tópico intitulado Os Trabalhos dos Meses, muito presente na arte medieval. Tais imagens serão consideradas a partir de seu caráter realista, como representações reais da vida cotidiana. Para isso, apresentaremos o contexto do período em uma perspectiva compreensiva, e definiremos aquelas manifestações arquitetônico-culturais como a materialização do espírito da Idade Média. Como suportes teórico, artístico e histórico, seguiremos a narrativa de Georges Duby (1919-1996) a tese de Alfons Puigarnau (a Estética como manifestação metafísica e sua consequente e necessária representação imagética), e as propostas de análise iconográfica de Erwin Panofsky (1892-1968) e de Jean-Claude Schmitt (1946- ).

Abstract: The work makes an iconographic analysis of images of medieval peasants in the cathedrals of Chartres and Amiens, topic titled Labours of the Months, present in medieval art. These images will be considered from its realistic character, as real representations of everyday life. For this, we present the context of the period in a comprehensive perspective, and define those architectural and cultural manifestations as the materialization of the Spirit of the Middle Ages. As theoretical, artistic and historical basis, the narrative of Georges Duby (1919-1996) the thesis by Alfons Puigarnau (The Aesthetics as a metaphysical manifestation and its consequent and necessary image representation), and the proposed iconographic analysis of Erwin Panofsky (1892-1968) and Jean-Claude Schmitt (1946- ).

Palavras-chave: Arte Medieval – Os Trabalhos e os Meses – Chartres – Amiens – Iconografia.

Keywords: Medieval Art – Labour of the Months – Chartres – Amiens – Iconography.

***

I. Chartres, espírito da Idade Média

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Chartres (1194-1220). “Chartres é ao mesmo tempo uma cidade de planície, com o seu vasto horizonte de searas, e uma cidade em altura, onde sobe a progressão dos telhados, ao longo das subidas íngremes e das ruazinhas com empenas (...) A catedral, como uma praça de armas, comanda e possui a cidade (...) Foi aqui, nos últimos anos do século XII, que ela concebeu e começou a sua obra-prima, e dos princípios experimentados pelos construtores da idade precedente faz sair uma forma nova de arquitetura”.2

Estupefação. Esse é o primeiro sentimento que assalta o historiador compreensivo quando se depara com a sociedade medieval, com suas manifestações coletivas, com sua religiosidade, com seus murmúrios quase inaudíveis, em suma, com sua Arte.3 Caso queiramos realmente viver no passado e evadirmo-nos do sempre desinteressante e frágil instante presente, devemos confrontarmo-nos com as diferenças que as camadas do tempo deixaram para trás.4 Precisamos sentir o estranhamento do outro, de suas concepções existenciais, de suas angústias e anseios, esperanças e medos. Creio que esse seja o verdadeiro espírito do historiador.

E qual o espírito da Idade Média? Há? Talvez Chartres possa nos oferecer um vislumbre de seus impulsos, de seu caráter. No entanto, para isso, além do despojamento dos preconceitos que o presente costumeiramente se nos oferece, é sempre mentalmente saudável principiarmos com um depoimento, com as palavras que eles nos deixaram. Urge. São elas, junto com os vestígios materiais e a Arte que resistiram às intempéries e à ignorância humanas que abrem uma porta para o passado.5

Haimon, abade de Saint-Pierre-sur-Dives, na Normandia, narrou, no século XII, a maravilhosa explosão artística coletiva da Christianitas medieval quando, após um incêndio que pela segunda vez destruiu a catedral de Chartres (em 1134), o bispo (e filósofo) Teodorico organizou e comandou uma verdadeira cruzada para a construção do novo templo6:

...reis, príncipes, homens poderosos e orgulhosos de suas honrarias e riquezas, homens e mulheres de nascimento nobre, puseram rédeas em seus inchados e orgulhosos pescoços e, como animais irracionais, arrastaram-se com carroças de vinho, trigo, óleo, cal, pedras, vigas e outras coisas necessárias para manter a vida e construir igrejas para a morada do Cristo.

À medida que puxavam aquelas carroças, presenciávamos esse milagre: milhares de homens e mulheres, talvez mais, unidos por seus rastros, vastos na multidão, grandiosos em sua engenhosidade, pesados pela carga que suportavam, caminhavam em tal silêncio que nenhuma voz, nenhum murmúrio eram ouvidos.

Por isso, a menos que víssemos com nossos próprios olhos, nenhum homem imaginaria que tal multidão estivesse ali. Quando se detinham um pouco no caminho, apenas se podiam ouvir confissões de culpa, súplicas e orações puras a Deus, para que Ele pudesse conceder Seu perdão por seus pecados. E enquanto os padres pregavam a paz, aplacavam-se os ódios, afastavam-se as discórdias, perdoavam-se as dívidas e a unidade era restaurada entre homens e mulheres.7

Haimon é subestimado pelos historiadores, cada vez mais hipercríticos.8 Via de regra, os depoimentos dos medievais são por eles matizados, criticados. Desdenhados. “Ingênuos, crentes”, dizem. Não será isso um indício de nossa incapacidade compreensiva? Ainda que não tenham sido “milhares de homens e de mulheres” a puxarem as carroças, o texto oferece sim o tom da emoção, do frenesi, da devoção da época.9 Por exemplo, sabemos que o rei São Luís (1214-1270) rezava na abadia de Royaumont (1228-1235) quando um muro estava sendo construído. Após os monges rezarem, trabalhavam com pedra e argamassa no muro. O rei então “agarrava a padiola e levava-a carregada de pedras”, atitude muito semelhante à procissão coletiva construtora em Chartres.10

Mas não é meu intento contar a história das construções (e reiteradas reconstruções) das duas catedrais que aqui selecionei, mesmo que elas também sejam um indício desse espírito do tempo – pela tenacidade de sua fé coletiva, sinal palpável e arquitetônico da explosão mariana. Sim, o motor que impulsionou a febre de construções foi Nossa Senhora.

Notre-Dame (Nossa Senhora, Senhora de todos nós, intercessora da Humanidade) foi o belo nome cavaleiresco que a Idade Média dedicou à Virgem, Mãe de Deus.11 E Chartres foi um dos centros mais antigos em que a devoção mariana se manifestou.

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A Virgem e o Menino Jesus. Chartres, Portal Real, Tímpano direito (c. 1142-1150). Foto: Lavieb-aile.“Esse pórtico da parte norte pertence à Virgem e conta sua história com reverente afeição. As estátuas aí se destacam; a indumentária é graciosa e natural como a de qualquer escultura grega; a figura da Modéstia é representada por uma jovem francesa em toda a sua graça feminina, uma imagem sem beleza igual em toda a história da escultura. ‘Essas estátuas’, disse Henry Adams, ‘são os mármores do Egeu da arte francesa’”.12

Foi para a Virgem que todas as efusões sociais se dirigiram, a partir de meados do século XII, tempo da piedade mariana. A mãe de Deus unia a humanidade ao Criador: representava tanto a Nova Lei, acabamento da Antiga13, quanto o corpo reunido da Igreja e a nova sabedoria do estudo. Por isso, no tímpano de Chartres (imagem 2) ela é a Senhora de todas as ciências e filosofias: a seu serviço estão as sete Artes Liberais (e seus respectivos representantes).14 De certo modo, além de catalisar as energias criativas artísticas, a Virgem marcou a transição do primeiro estilo internacional – o românico – para o novo, aquele que simbolizaria, para o bem e para o mal, a Idade Média aos pósteros: o gótico.15
 

I.1. O Trabalho e os Meses nos vitrais de Chartres: Fevereiro, Junho e Setembro

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Mês de Fevereiro. Detalhe do vitral O Zodíaco e o Trabalho e os Meses da Catedral de Chartres.

Na Catedral de Chartres há um vitral intitulado O Zodíaco e o Trabalho e os Meses.16 Na representação do mês de fevereiro (segundo círculo de cima para baixo do vitral, ou seja, muito próximo da visão do expectador), sob o signo de Peixes, um camponês descansa em uma cadeira acolchoada e ricamente entalhada (imagem 3). Suas feições são brutas (para as outras ordens nesse tempo, especialmente a nobreza, o camponês era um ser tosco, incapaz de amar).17 Ele está em frente a uma lareira, com uma vara recostada (para remexer o carvão). Abaixo, a inscrição FEBRVS. Há muita madeira: o fogo é intenso (as labaredas saltam para fora da lareira). Sentado em um banco almofadado, com um jarro de vinho no chão, ao seu alcance, agasalhado, ele aquece seus pés descalços e suas mãos. O tempo do descanso é crucial, pois o trabalho é incessante. A cena é muito comum nas sequências dos Trabalhos e os Meses: é importante que os camponeses se protejam do inclemente inverno europeu. E que descansem. Afinal, sem eles ninguém come.

Mas porque os camponeses são representados na arte medieval? Afinal, sua baixa condição social não os qualificaria para tanto! Por isso, para compreendermos esse aparente paradoxo imagético, é necessário explicar o pensamento da época. Há uma passagem muito famosa sobre o tema no primeiro tratado de filosofia política do Ocidente18, Polycraticus – De nugis curialium et vestigiis philosophorum (Policrático, sobre as frivolidades dos cortesãos e os vestígios dos filósofos, de 1159)19, de João de Salisbury (c. 1115-1180), bispo e um dos maiores escritores de seu tempo:

Os agricultores se parecem aos pés, pois também se encontram continuamente no solo. Para eles é especialmente necessária a atenção da cabeça, já que tropeçam em muitas dificuldades enquanto pisam a terra com o trabalho de seu corpo, e merecem ser protegidos com tanta ou mais justa proteção para se manterem de pé, sustentarem e moverem todo o corpo. Retire de qualquer corpo os pés que, por mais robusto que ele seja, não poderá caminhar por suas próprias forças, mas tentará se arrastar torpemente com as mãos, sem consegui-lo e com grande fadiga, ou só poderá se mover com o auxílio das bestas (os grifos são meus).20

O trecho acima ganhou notoriedade por estabelecer a metáfora do corpo para descrever a estrutura da sociedade (então vigente): a cabeça, o príncipe; os olhos, os ouvidos e a língua, os juízes e prefeitos; os oficiais e os soldados, as mãos; os questores e escrivães, o ventre e os intestinos; os camponeses, os pés. O bispo destaca o aparente paradoxo dos pés: em relação à cabeça são menos importantes, mas ouse retirar os pés do corpo! Por mais forte que seja, não conseguimos caminhar sem eles! Merecem os camponeses, por isso, especial atenção dos governantes.21 Essa era a admoestação da filosofia cristã que, tanto na Idade Média quanto na Antiguidade, tinha como parâmetro ético a Moral.22 Por isso, tanto espaço a arte medieval concede aos camponeses. E eles estão por toda a parte: quadros, tapeçarias, esculturas, iluminuras, capitéis. Por onde quer que olhemos, encontramos o trabalho nos campos como a inspiração artística mais recorrente.23

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Mês de Junho. Detalhe do vitral O Zodíaco e o Trabalho e os Meses da Catedral de Chartres. Atenção: os meses de Junho e de Julho estão com os títulos trocados nos vitrais!  Por isso o mês de Junho está escrito IVLIVS. Não deixa de ser divertido pensar na descompostura que o desatento artista deve ter recebido!

Em Chartres, junho (mês regido pelo signo de Câncer) é o mês da ceifa (ou sega), tempo do preparo do feno para alimentar os animais. Um jovem e robusto camponês corta, com uma imensa foice, uma vasta área de vegetação (feno) de diferentes tonalidades de verde.24 Ele usa um amplo chapéu em forma de tigela, certamente para se proteger da intensa luz solar, e uma espécie de túnica, vermelha, drapeada, presa na cintura. Sua calça, fendida na altura dos joelhos, deixa seus pés e suas pernas nuas, livres para os vigorosos movimentos de seu trabalho. À direita, um martelo e um balde amarelo.

Como ele é jovem! Nunca é demais recordar a juventude da sociedade feudal.25 Seja como for, com sua vitalidade e energia juvenil, também representadas em seu intenso sistema cromático26, o camponês do mês de junho no vitral O Zodíaco e o Trabalho e os Meses da Catedral de Chartres é, certamente, uma das melhores representações artísticas do campesinato medieval – e não o famélico camponês do mês de outubro do folio 10 do Livro de Horas do Duque de Berry (Les Très Riches Heures du Duc de Berry, c. 1412-1416).27 Trezentos anos da Idade Média central ao século XV (e a Peste Negra) fizeram seu estrago na vida rural europeia!28

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Mês de Setembro. Detalhe do vitral O Zodíaco e o Trabalho e os Meses da Catedral de Chartres.

Setembro é o mês da vinificação. Após o desengaçamento (extração da uva dos cachos), era feito o pisoteamento das uvas em um lagar, para se obter o mosto.29 Era uma alegre e metafórica “cerimônia” que também simbolizava o domínio da Natureza pelo homem. Por isso, a imagem mostra dois homens em um grande tonel, a pisotear as uvas (mas atenção: camponesas também costumavam fazer esse serviço). O trabalho no mundo é uma alegoria, uma manifestação estética da metafísica divina.30 Para sintetizar essas duas primeiras fases da produção do vinho em uma só cena, o artista pôs o homem da direita a cortar os cachos de uvas da vinha com uma pequena foice, enquanto, simultaneamente, pisoteia as uvas. Na borda verde, abaixo do tonel, a inscrição SEPTENBER.

II. Amiens (1220-1270)

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Fachada ocidental da Catedral de Amiens (1220-1270). Os três portais (da esquerda para a direita) são: Portal de São Firmino, o Mártir, Portal do Julgamento Final (conhecido como o do Belo Deus) e Portal da Virgem (dito da Mãe de Deus).

Modelo arquetípico do gótico clássico, Amiens é um imponente espetáculo. Suas estátuas são ainda mais elegantes e mais bem-acabadas que as de Chartres, embora menos rigorosas (do ponto de vista teológico) e densas (talvez por isso mesmo mais “humanas”, isto é, apreciáveis esteticamente por admiradores sem a necessária profundidade metafísica). Dentre todas, a que melhor sintetiza a fé mariana que perpassou o século é a estátua da Vierge dorée, no portal sul. Ela segura o Filho nos braços e mostra toda a suave ternura materna.31 Por isso, só podemos compreender a vida cotidiana camponesa na arte medieval se não nos esquecermos que a vida transcorria àqueles crentes sob o amoroso olhar da Mãe de Deus.

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Detalhe da Vierge Dorée (1240-1245). Portal sul da Catedral de Amiens. “O real significado da Vierge Dorée na história da arte está na própria imagem da Virgem. Seu sorriso, voltado para a criança, é muito novo, e transmite-nos não só a relação íntima entre os dois, mas também seu aspecto mais humano. Mais importante ainda é a tensão que parece vir da própria imagem, em sua perna direita ligeiramente estendida, e a inclinação para a direita quase imperceptível da parte superior do tronco, o que é contraposto pela leve posição da cabeça para a esquerda. O uso de princípios da escultura clássica, como o contrapposto (a torção da figura em direções opostas) foi adotada para a figura da Virgem, tema muito comum na Île-de-France em meados do século XIII, não só nas fachadas das catedrais. A Vierge Dorée de Amiens foi o ponto de partida para muitas esculturas da Virgem com o Menino”.32

II.1. Os Trabalhos e os Meses esculpidos em Amiens: março, setembro 

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Detalhe do Mês de Março dos alicerçes do Portal de São Firmino da Catedral de Amiens. Foto: Ricardo da Costa.

Na base da entrada do Portal de São Firmino, na Catedral de Amiens, há a sequência dos Trabalhos e os meses.33 São duas fileiras de medalhões quadrilobados, com os doze signos do Zodíaco na fileira superior e o trabalho dos homens no mundo na inferior. Na imagem 8 (mês de março), encimado pelo signo de Áries, há um vigoroso camponês, com sua típica touca bem ajustada na cabeça e uma longa túnica aberta entre as pernas, a revolver a terra com uma pá. As videiras se enroscam compulsivamente nas placas de madeira. A força da natureza é vibrante, mas dominada: com seu trabalho, o rústico renova as forças do solo para o cultivo da vinha. Suas pernas são rijas (uma das principais características imagéticas do campesinato medieval), seu movimento é decidido. Jovem, ele representa a força do trabalho que impulsionou a Europa medieval no século XIII.

Em outro medalhão (figura 9), abaixo do signo de Libra, a representar o mês de setembro, outro camponês sacode um arbusto. Ele tem as mesmas características físicas das representações campesinas feitas no período medieval: jovem, bem proporcionado, fisicamente robusto.

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Detalhe do Mês de Setembro dos alicerçes do Portal de São Firmino da Catedral de Amiens. Foto: Ricardo da Costa.

As imagens dos camponeses dos Trabalhos dos meses fazem parte do chamado realismo gótico, a principal e mais notável característica desse estilo. Trata-se de um realismo de pormenores, de uma paixão pelas minúcias, pelos detalhes que dão cor à vida.34 São imagens simples, diretas, que se abrem como uma janela e que mostram as atividades mais corriqueiras da vida no campo. Para o que aqui nos interessa – o camponês, seu corpo, sua imagem – não há melhor base de comparação com as fontes textuais. Por isso, a visão que parte dos historiadores e o senso-comum têm a respeito dos camponeses medievais não se encaixa com as imagens que os próprios medievais elaboraram desse importante segmento social. De modo algum! Como certa vez disse o historiador Jacques Heers (1924-2013): “Essa imagem catastrófica, e sobretudo miserabilista, tem de ser revista. É tudo falso, ou exagerado”. O que a realidade histórica mostra é um grupo social sem meios técnicos sofisticados, sem espécies vegetais selecionadas capazes de resistir aos rigores climáticos, sem assistência estatal, e mesmo assim capazes de construir paisagens agrárias. E indaga o historiador: “Terão esses camponeses trabalhado exclusivamente sob o jugo da opressão?”.35 Respondo: claro que não.

Conclusão

Na construção de suas Idades Médias, os historiadores se esqueceram das catedrais. Quando se recordam delas, o tom é, via de regra, hostil, contrário à percepção compreensiva da melhor perspectiva histórica.36 Um dos poucos sensíveis a elas foi Georges Duby (1919-1996), um dos grandes, talvez o maior dos medievalistas franceses.37 Sua narrativa é delicada, colorida, cheia de vida, de arte. Por isso, Duby inseriu a catedral, símbolo maior do renascimento das cidades, em sua reconstrução histórica e denominou a Idade Média de O tempo das catedrais.38

Moldadas em um tempo de mudança do paradigma social – além da representação do mundo rural, base existencial da sociedade medieval, agora surgiam as corporações de ofícios, o trabalho dos burgueses (residentes do burgo, da cidade) – a arte religiosa, contudo, não se esqueceu que está na vida, que é a vida, que é o sopro estético e devocional da comunidade, da Christianitas, da comuna em busca de conforto, de paz, de descanso da labuta, ansiosa por sua salvação espiritual. Por isso, e pelo novo racionalismo embebido de realismo surgido com as novas escolas urbanas (catedralícias!) e as universidades, encontramos a notável presença da representação do ciclo das estações dos trabalhos agrícolas, da vida cotidiana.39 Justa celebração, disse Duby40: a sociedade se entendia como um corpo, em que cada trabalhador contribuía para a boa consecução da vida social. Nada mais justo que todos, do mais rico ao mais pobre, do mais simples ao mais refinado, estivessem representados na sublime superação do vale de lágrimas que é a vida no mundo, como pensavam.41

É por isso que, para compreender a arte desse tempo, o historiador deve embeber-se mais de Teologia do que de Economia e Sociologia42, mais da fé dos daquele tempo do que das dúvidas dos do nosso tempo.

Na intercessão de duas perspectivas artístico-religiosas, as catedrais dos séculos XII-XIII, entre elas, Chartres e Amiens, exprimiram a suave tensão da lenta transformação de um mundo a outro: do românico ao gótico; do Deus do Juízo Final à Virgem intercessora dos homens; da pedagogia imagética do terror à do amor; da emoção e do simbolismo do pensamento alegórico às novas e instigantes estruturas arquitetônicas e escolásticas da razão; de Platão e Agostinho para Aristóteles e Santo Tomás de Aquino. Estudar a sociedade medieval sem o vislumbre de sua essência, sem a arte das catedrais, arte da França entre Chartres e Soissons, terra em que o rei Clóvis (466-511) morreu – primeiro rei do Ocidente a celebrar a conversão ao catolicismo romano – é como viver a vida sem suas sublimações: sem música, sem arquitetura, sem pintura, sem livros, sem poesia, sem teatro. Sem arte.

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Fontes

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Notas

  • 1. Trabalho realizado realizado no âmbito do Institut Superior d’Investigació Cooperativa IVITRA (ISIC-IVITRA).
  • 2. FOCILLON, Henri. Arte do Ocidente. A Idade Média românica e gótica. Lisboa: Editorial Estampa, 1980, p. 194.
  • 3. “Nada é mais difícil para o homem natural que compreender uma cultura ou tradição social diferente de sua própria, uma vez que esse esforço envolve um desligamento quase sobre-humano de formas de pensamento herdadas, de educação e de influências insconscientes de seu meio ambiente social (...) É nesse caso que a arte vem em nosso auxílio, pois a arte, no sentido mais amplo do termo, é a grande ponte que atravessa o abismo de incompreensões mútuas que separa as culturas”. DAWSON, Christopher. Dinâmicas da História do Mundo. São Paulo: É Realizações, 2010, p. p. 143.
  • 4.Invejem-nos. Os historiadores têm ao menos duas maneiras de escapar ao tempo presente. Primeira: eu me enfio e me perco no passado. Vivi assim quarenta anos de minha vida ao lado de Felipe II da Espanha, o rei de triste semblante (...). Segunda: evadir-me para o futuro (...) o mundo atual, decerto, não é lá muito deleitável. Na verdade, não é ele simplesmente sinistro?”. BRAUDEL, Fernand. Reflexões sobre a História. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 330-331 (os grifos são nossos). A evasão do presente pela sua baixeza, pelos seus aspectos mais lúgubres – a vacuidade das massas, a manipulação da opinião pública, a derrota do gosto decente, a ruína dos livros e da educação – são sublinhados por Malcolm Muggeridge (1903-1990). Ver KIRK, Russel. “Malcom Muggeridge e o Flagelo do Progressismo”. In: A Política da Prudência. São Paulo: É Realizações, 2014, p. 208 e 212.
  • 5. “Era um inimigo declarado das arbitrariedades confusas dos adornos góticos. Sob a rubrica ‘gótico’ (..) juntei todos os mal-entendidos que sempre vinham à minha cabeça (...) Mas com que sentimento inesperado fui surpreendido pela visão quando cheguei diante dela! Uma impressão total e grandiosa preencheu a minha alma, impressão que eu certamente pude saborear e desfrutar, mas não conhecer e esclarecer, porque consistia em milhares de particularidades harmoniosas entre si. Dizem que é assim a alegria do céu; e quantas vezes eu voltei para desfrutar essa alegria celestial e terrena, para abranger o espírito gigantesco de nossos irmãos mais velhos em suas obras. Quantas vezes eu retornei para contemplar a sua dignidade e magnificência de todos os lados, de todas as distâncias, em cada luz do dia. É difícil para o espírito humano quando a obra de seu irmão é tão sublime que ele apenas deve se ajoelhar e adorar. Quantas vezes o crepúsculo aliviou com repouso amigável meus olhos fatigados pela visão investigadora, quando por meio dela as incontáveis partes se fundiam em massas inteiras!”. GOETHE, Johann Wolfgang. “Sobre a arquitetura alemã (1772)”. In: Escritos sobre arte (introd., trad. e notas de Marco Aurélio Werle). São Paulo: Associação Editorial Humanitas, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008, p. 43.
  • 6. DURANT, Will. A Idade da Fé. Rio de Janeiro: Record, s/d, p. 785.
  • 7. COULTON, G. G. Life in the Middle Ages, Cambridge University Press, 1930, vol. II, p. 19.
  • 8. “A suspeita a priori das fontes, ao invés de ser uma qualidade, é uma superexcitação do espírito crítico. Quando o historiador age dessa forma, não consegue reconhecer o significado real, o alcance, a profundidade e o valor dos documentos que estuda. Uma atitude desse tipo é tão doente e perigosa em História como na vida cotidiana”, COSTA, Ricardo da. “O conhecimento histórico e a compreensão do passado: o historiador e a arqueologia das palavras”. In: ZIERER, Adriana (coord.). Revista Outros Tempos. São Luís, Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), volume 1, 2004.
  • 9. Por exemplo, Georges Duby (1919-1996), a respeito do cronista Raul Glaber (985-1047), diz: “Outro monge, mas pouco dócil e instável, Raul, dito Glaber, vagueou por diversos mosteiros borguinhões (...) Raul não tem boa reputação. Dizem-no linguareiro, crédulo, inapto...”, DUBY, Georges. O ano mil. Lisboa: Edições 70, 1986, p. 22-23.
  • 10. Citado em DUBY, Georges. O tempo das catedrais. A arte e a sociedade (980-1420). Lisboa: Editorial Estampa, 1979, p. 123.
  • 11. DESCHAMPS, Paul. “Notre-Dame de Chartres”. In: Chartres (photographies de Jean Roubier) – Collection Charme de la France 10. Paris: M.-J. Challamel Éditeur, 1950, s/n.
  • 12. DURANT, Will. A Idade da Fé. Rio de Janeiro: Record, s/d, p. 786. Henry Adams (1838-1918) foi um historiador medievalista norte-americano. Em sua obra Mont Saint-Michel and Chartres (1913), Adams descreveu a concepção medieval do mundo manifesta na arquitetura e propôs a tese que a unidade do reino francês no século XIII deveu-se ao culto da Virgem. Sem ter tido acesso à obra, a concepção histórica desse breve ensaio é a mesma.
  • 13. DUBY, Georges. O tempo das catedrais, op. cit., p. 156.
  • 14. “Pitágoras como a Música, Aristóteles como a Dialética, Cícero como a Retórica, Euclides como a Geometria, Nicômano como a Aritmética, Prisciano como a Gramática e Ptolomeu como a Astronomia.”, DURANT, Will. A Idade da Fé, op. cit., p. 786. Para a Escola de Chartres, ver COSTA, Ricardo da. “A verdade é a medida eterna das coisas: a divindade no Tratado da Obra dos Seis Dias, de Teodorico de Chartres (†c. 1155)”. In: ZIERER, Adriana (org.). Uma viagem pela Idade Média: estudos interdisciplinares. UFMA, 2010, p. 263-281.
  • 15. E por falar em pósteros, em 1793, a Assembléia Revolucionária Francesa quase destruiu essas estátuas (a proposta, em nome da Filosofia e da República, perdeu por uma pequena margem de votos!).
  • 16. Ou somente Vitral do Zodíaco, pouco depois da Rosácea Sul (do Apocalipse, com Cristo em Majestade), lado direito de quem adentra a nave. Voyage au Moyen Âge à travers les vitraux de Chartres (textes de Colette et Jean-Paul Deremble. Photographies de Henri Gaud). Les Minoteries Viron, Chartres, 2007, p. 43.
  • 17. Ou pelo menos com o mesmo refinamento do amor cortês. Para isso, ver ANDRÉ CAPELÃO. Tratado do Amor Cortês. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
  • 18. E isso antes do resgate de Aristóteles ocorrido no século XIII. SABINE, George H. Historia de la teoría política. México: Fondo de Cultura Económica, 1996, p. 203.
  • 19. JUAN DE SALISBURY. Policraticus (ed. IADERO, Miguel Angel, GARCIA, Matias e ZAMARRIEGO, Tomas). Madrid: Editora Nacional, 1984, Livro V, 2, 6.
  • 20. JUAN DE SALISBURY. Policraticus, op. cit., Livro V, 2, 6.
  • 21. COSTA, Ricardo. “A Estética do Corpo na Filosofia e na Arte da Idade Média: texto e imagem”. In: Trans/form/ação, Marília, v. 35, p. 161-178, 2012.
  • 22. A Filosofia tinha como base a tradição socrático-platônica, transmitida à Idade Média por várias vertentes, uma delas a estoica: “Sócrates, que reduziu toda a filosofia à ética, dizia que a suprema sabedoria consistia em distinguir o bem e o mal. Se a minha autoridade tem para ti algum valor − dizia ele − pratica a moral para poderes ser feliz, e não te importes que fulano ou cicrano te ache estúpido. Deixa que os outros te ofendam e te injuriem; desde que possuas a virtude em nada será lesado por isso. Se queres ser feliz, se queres ser um homem de bem e digno de confiança, não te importes que os outros te desprezem! Ninguém conseguirá atingir este nível se previamente não tiver negado qualquer valor a tudo o mais, se não tiver colocado todos os bens em pé de igualdade − porque não existe bem onde não há moral, e a moral é a mesma em todas as circunstâncias”, LÚCIO ANEU SÉNECA. Cartas a Lucílio (trad., prefácio e notas de J. A. Segurado e Campos). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, Carta 71, 7, p. 273. 
  • 23. PERNOUD, Régine. Luz sobre a Idade Média. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 47-48.
  • 24. Na arte desse período, os artistas se consideram livres para representar a Natureza alegoricamente. Essa liberdade, essa licença poética é belamente comentada por GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 2011.
  • 25. BLOCH, Marc. A sociedade Feudal. Lisboa: Edições 70.
  • 26. SCHMITT, Jean-Claude. O corpo das Imagens. Ensaios sobre a cultura visual na Idade Média. Bauru, SP: EDUSC, 2007, p. 38.
  • 27. Ver a iluminura em Les Très Riches Heures du Duc de Berry, folio 10.
  • 28. Em que pese o interessante contraste entre a crise da vida econômica descrita pelos historiadores e o que os textos literários descrevem a respeito da vida das cortes europeias como, por exemplo, na novela Curial e Guelfa (séc. XV): “São novelas como essa que expressam as paixões, e assim atenuam a terrível sombra que a historiografia projetou sobre esse período: desde a notável Barbara Tuchman e seu Espelho Distante – o terrível século XIV, até Henry Pirenne e Luis Suárez Fernández, mas principalmente pela acachapante tradição marxista, que só viu crise após crise (como, por exemplo, nas obras de A. H. de Oliveira Marques e Guy Bois). A imagem tenebrosa da vida dos séculos XIV-XV exposta por uma tradição historiográfica não poderia ser mais contrastante com a leveza e a delicadeza de Curial. Aqui não há crise, só fartura, opulência, esbanjamento. Seria isso uma fuga literária do mundo? Ou será que os homens de então não perceberam que viviam em uma depressão? Ou ainda: será que existia realmente uma depressão?”, COSTA, Ricardo da. “A experiência de traduzir Curial e Guelfa”. In: Curial e Guelfa. Anônimo do século XV (trad.: Ricardo da Costa). Santa Bárbara: Publications of eHumanista, 2011, p. 67. Como disse, um ótimo exemplo da melhor tradição que defende a crise do final da Idade Média é BOIS, Guy. La Gran Depresión Medieval: siglos XIV-XV. El precedente de una crisis sistémica. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 2001.
  • 29. JOHNSON, Hugh. A História do Vinho. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
  • 30. PUIGARNAU, Alfons. Imago Dei y Lux mundi en el siglo XII. La recepción de la Teología de la Luz en la iconografía del Pantocrátor en Catalunya. Tesis doctoral dirigida por Amador Vega. Barcelona: Institut Universitari de Cultura. Universitat Pompeu Fabra, 1999. Aliás, este trabalho é perpassado por essa tese, qual seja, a da estreita relação entre a ação no mundo como um reflexo imperfeito da verdadeira realidade, divina.
  • 31. “É um prazer verificar como os escultores góticos, após servirem a teologia durante um século, descobriram homens e mulheres e talharam a alegria de viver nas fachadas dos templos. A Igreja, que também aprendera a desfrutar a beleza da terra, apreciou a descoberta, mas achou prudente estampar um Dia do Juízo Final lavrado também na fachada principal”, DURANT, Will. A Idade da Fé, op. cit., p. 788.
  • 32. KRÉN, Emil e MARX, Daniel. Web Gallery of Art.
  • 33. Segundo a tradição, São Firmino de Amiens (c. 272-303) foi o primeiro bispo de Amiens. Missionário cristão nascido em Pamplona, era filho de um senador romano que governou Pamplona no século III. Foi convertido por São Honesto (†c. 270), discípulo de São Saturnino (um dos Apóstolos da Gália), quem o batizou. Após ser ordenado sacerdote em Toulouse, Firmino voltou para Pamplona. Após pregar em Navarra, foi para a Gália, onde se estabeleceu em Amiens. Organizou a construção da igreja local e, aos 24 anos, foi ordenado bispo. A oposição oficial à doutrina cristã valeu-lhe a prisão. Depois de se recusar a abandonar a pregação, foi decapitado. Em 1186, o bispo Pedro de Paris levou de Amiens para Pamplona uma relíquia da cabeça de Firmino. Ver PASCAL, Jean-Baptiste Étienne. Gabalum christianum ou Recherches historico-critiques sur l'Église de Mende, ancien Gévaudan, aujourd'hui département de la LozèreParis, Dumoulin, 1853. Por sua vez, São Saturnino é citado na Legenda Áurea (c. 1252/53-1270), cap. 167. JACOPO DE VARAZZE. Legenda Áurea. Vidas de Santos (trad., apres. e notas de Hilário Franco Jr.). São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 971.
  • 34. “As suas produções características [do realismo gótico] não são as estátuas de ombreiras, de orientação clássica, ou as composições dos tímpanos do século XIII, mas os relevos de pequenas dimensões, como os Trabalhos dos Meses, dentro de molduras quadriculadas, da fachada da catedral de Amiens, onde há uma deliciosa observação da vida cotidiana”, JANSON, H. W. História Geral da Arte. O Mundo Antigo e a Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 465.
  • 35. HEERS, Jacques. A Idade Média, uma impostura. Lisboa: Asa, 1994, p. 182-183.
  • 36. Por exemplo, os bispos e cônegos, para construírem-nas, “...gastam às mãos cheias, sangram as paróquias e os senhores para melhor alcançarem os seus objetivos”. KURMANN, Peter. “Catedrais”. In: DUBY, Georges e LACLOTTE, Michel (dir.). História Artística da Europa. A Idade Média. Tomo II. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 220. Um tempo não se traduz, não se imagina, não se compreende com análises extremadas, radicais, mas com o meio-termo da compreensão que suspende o juízo para apreender os mortos, para senti-los na estranha e rica diversidade de suas sensibilidades passadas.
  • 37. “O problema dos franceses é que todos pensam que podem escrever como Georges Duby, disse-me certa vez Fernando Domínguez Reboiras, saudoso orientador durante meu estágio para aprender catalão medieval e paleografia de catalão antigo na Freiburg Universität, em 1999.
  • 38. DUBY, Georges. O tempo das catedrais. A arte e a sociedade (980-1420). Lisboa: Editorial Estampa, 1979.
  • 39. “Não é difícil correlacionar, por exemplo, a explosão artística do período gótico com outras manifestações do gênio medieval, seja do pensamento, seja da ação. O surgimento da arquitetura gótica corresponde, em tempo e lugar, àquele do movimento das comunas da Europa Ocidental, de forma que não é um exagero dizer que o gótico é a arte das comunas francesas. O mesmo se deu com o desenvolvimento da filosofia medieval”. DAWSON, Christopher. Dinâmicas da História do Mundo, op. cit., p. 148-149.
  • 40. DUBY, Georges. O tempo das catedrais. A arte e a sociedade (980-1420), op. cit. p. 99.
  • 41. Sl 84, 7. A esse respeito, há uma passagem muito repreentativa de uma carta de São Bernardo com esse tema: “Ignorava que vivo em um vale de lágrimas (Sl 83,7) ou havia esquecido que habito na terra do esquecimento (Sl 87,13). Não me dava conta que na terra na qual habito germinam cardos e espinhos (Gn 3,18) que, cortados, brotam, e depois, outros sucederão sem fim. Havia escutado, mas a dor faz compreender melhor, como agora a experimento (Is 28,19).”, São Bernardo de Claraval, Carta 189, 2. – OBRAS COMPLETAS DE SAN BERNARDO VII. Cartas. Madrid: BAC, MCMXC, p. 627.
  • 42. Op. cit., p. 101.

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Palavras-chave: Amiens, Camponeses, Chartres, Arte.