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Amor e Crime, Castigo
e Redenção na Glória da Cruzada de Reconquista:
Afonso VIII de Castela nas batalhas de Alarcos (1195) e Las
Navas de Tolosa (1212)
In:
OLIVEIRA, Marco A. M. de (org.). Guerras e Imigrações.
Campo Grande: Editora da UFMS, 2004, p. 73-94 (ISBN 85-7613-023-8).
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Imagem 1

Escudo de armas da cidade de Évora
(Portugal, século XIV). O cavaleiro cristão empunha uma
pesada espada. Acima dele, duas cabeças de muçulmanos degolados.
Durante muitos anos, a cidade de Évora foi o centro militar de
resistência contra os almôadas. In: MATTOSO, José
(dir.). História de Portugal - Antes de Portugal. Lisboa:
Editorial Estampa, s/d., vol. 2, p. 428.
Na Idade Média, os homens iam para a guerra felizes.
Existia uma grande polarização: enquanto os camponeses sofriam
com as mortes e as devastações dos campos, os cavaleiros
cantavam, caminhando e cavalgando ansiosos para a luta. A primavera era
o tempo propício. Havia também um grande paradoxo: enquanto
as flores desabrochavam e a natureza renascia do inverno hibernante, os
poetas e trovadores do espírito cavaleiresco anunciavam a chegada
da vida e o momento do combate. Por exemplo, Bertrand de Born (1159-1197)
exaltou as flores e as folhas coloridas, as aves que cantavam e os cavaleiros
que, felizes, gritavam “avante” em direção à
morte (2):
Depois de ter começado a lutar,
nenhum nobre cavaleiro pensa em outra coisa a não ser romper
cabeças e armas, melhor um homem morto do que um vivo e inútil
(...) Barões, é melhor que percais castelos, vilas e cidades
antes de vos recusardes, qualquer um de vós, a ir para a guerra
(3).
Essa excitação, esse sentimento de euforia
eram freqüentes naqueles homens rudes e violentos, sempre dispostos
ao combate corpo-a-corpo e ao tilintar viril das espadas e dos escudos.
Essa era a guerra laica, uma festa, como um torneio (4).
Mas havia ainda uma guerra mais importante, solene, sagrada, que conferia
ao combatente cristão a glória do Paraíso e as bem-aventuranças
eternas: a cruzada. Guerra santa, guerra de duas visões, de duas
religiões. Na Península Ibérica, a mentalidade de
cruzada penetrou pouco a pouco por entre a nobreza, em parte graças
à imigração de cavaleiros franceses (5),
em parte graças à atuação da abadia de Cluny
na difusão dessa mentalidade (6), sempre com o
apoio do papado, em parte, devido à atuação das ordens
militares, sempre prontas a difundir o novo ideal cavaleiresco do monge-cruzado
(7).
E foi justamente no final do reinado de Afonso VIII (1158-1214), o Nobre,
de Castela, que o caráter de cruzada foi definitivamente associado
à Reconquista. Isso aconteceu devido, principalmente, ao segundo
avanço islâmico dos almôadas, em 1179. Esta dinastia
norte-africana (1130-1269), que se auto-intitulava “crentes na unidade
de Deus”, era ainda mais intolerante que a anterior, dos almorávidas
(1056-1147), pois pregava uma rigorosa moralidade baseada no Alcorão.
Espécie de monges-soldados, os almôadas tinham uma aversão
natural à “civilização depravada” almorávida
de al-Andaluz (8), como mostra esta passagem da obra
Kitab al-Muchid:
Os almorávidas abandonaram-se
uns aos outros, cedendo seu gosto pelo repouso e a tranqüilidade
e caindo sob a autoridade das mulheres. Chegaram a ser objeto do desdém
e do desprezo dos habitantes de al-Andaluz, provocando a audácia
dos inimigos. E assim, os cristãos se apoderaram de numerosas
praças fortes vizinhas de suas fronteiras (9).
Assim, partindo do Marrocos em 1179 - sede de seu império
- os almôadas, além de findarem a dinastia almorávida,
impingiram uma série de derrotas aos cristãos. A mais espetacular
delas, de Alarcos (1195), foi também a última vitória
dos muçulmanos norte-africanos na Península Ibérica
(10).
Afonso VIII participou, e foi derrotado, na batalha de Alarcos. Dezessete
anos depois, venceu os muçulmanos no confronto mais famoso da história
da Reconquista, a batalha de Las Navas de Tolosa (1212), sepultando definitivamente
as pretensões muçulmanas em al-Andaluz e associando definitiva
e indelevelmente a mentalidade de cruzada à Reconquista.
Neste artigo, analisarei brevemente a construção da imagem
bélica de Afonso VIII e sua incrível história de
amor e crime, castigo e redenção contida na Crónica
Geral de Espanha de 1344, documento escrito pelo conde D. Pedro,
filho bastardo do rei D. Dinis de Portugal (11).
Minha perspectiva será a dos atores da época. Minha forma,
a narrativa (12). Meu método, a análise
comparativa de textos da época: confrontarei a Crónica
Geral de Espanha de 1344 com a Crónica latina de los reyes
de Castilla (13), a Primera Crónica General
(Estoria de España) que mandó componer Alfonso X, el Sabio
(14), uma carta do arcebispo de Narbona (15)
e quatro textos muçulmanos (16). Assim, o leitor
terá uma boa perspectiva dos dois lados da luta, além de
uma melhor percepção da singularidade da "narrativa
fantástica" contida na Crónica de Espanha.
I. Afonso VIII, D. Leonor e
a “bruxa” judia
Conta a Crónica Geral de Espanha que,
em 1170, Afonso VIII “já era um homem” (tinha doze
anos!), quando seus embaixadores trouxeram a filha do rei Henrique II
da Inglaterra, Leonor (1161-1214), para se casar com ele. Ela tinha nove
anos (17). Logo após seu casamento, o rei esteve
em Toledo, quando conheceu e se enamorou por uma judia, provavelmente
de uma rica família, pois em Toledo as mulheres judias gozavam
de uma grande independência econômica (18).
Afonso ficou tão apaixonado por aquela “bruxa judia”
que se esqueceu de Leonor, de seu reino, de si próprio e de qualquer
outra coisa. O arcebispo Rodrigo disse que ele esteve "ençarrado"
com ela durante sete meses; "E dizem alguns que este tão grande
amor que ele tinha por esta judia não era senão por feitiços
que ela sabia fazer"(19).
Imagem
2

Afonso VIII e a rainha
Eleonor concedendo a cidade e a vila de Uclés ao mestre da Ordem
de Santiago (Miniatura del Tumbo Menor de Castilla. Archivo
Historico National. Madrid). In: RIBEIRA, Pedro. “Historia
de España (Edades Antigua y Media)”. Enciclopedia Labor.
Barcelona: Editorial Labor, 1959, p. 128.
No entanto, os condes, cavaleiros e ricos-homens de
Castela, vendo o reino em grande perigo, degolaram-na. Afonso ficou inconsolável.
Uma noite, quando estava pensando naquela "maldita", um milagre
aconteceu: apareceu-lhe um anjo, que o repreendeu e disse-lhe que não
teria filho varão para reinar, pois Deus castigá-lo-ia.
Quando partiu, o rei ficou muito triste e a câmara real foi inundada
com um "maravilhoso odor e uma grande claridade" (20).
Por este pecado, o rei Afonso, "homem muito honrado, mui nobre e
de grande entendimento, liberal e amante da justiça"
(21), foi derrotado em Alarcos! Essa é a compreensão
do cronista, típica compreensão medieval dos processos históricos.
Além disso, segundo a Crónica, os cristãos
também foram derrotados porque os nobres castelhanos não
se esforçaram como deviam na batalha, pois estavam desonrados (com
ciúmes!) dos elogios que Afonso VIII fez aos cavaleiros da Estremadura
(22).
II. A batalha de Alarcos (1195):
os depoimentos muçulmano e cristão
Desde 1177, com a conquista de Cuenca, Afonso havia conseguido
alguns avanços importantes no território muçulmano,
tomando e ocupando fortalezas e entregando-as às ordens militares
(23). Os monges-cavaleiros, pelo menos desde 1150, estavam
na linha de frente da Reconquista, travando os combates mais decisivos
(24).
Para guardar essa fronteira, Afonso iniciou a construção
da vila de Alarcos, um pouco ao norte do rio Guadiana, ameaçando
dali várias cidades e fortalezas muçulmanas, das quais passou
a exigir um importante botim (25). Além disso,
promoveu o processo de repovoamento, “povoando” uma série
de vilas na Estremadura, “sem deixar de fazer mal aos mouros”
(26) (Ver imagem 3).
Imagem
3
A Vila de Alarcos.
A reação islâmica não se fez
esperar. Forças muçulmanas, a mando do sultão do
Marrocos Yacub ben Yusef I (1184-1199), atravessaram o Estreito e dirigiram-se
a Córdoba. Ali, descansaram três dias. Segundo o cronista
andaluz Ibn Idari, em sua obra Al-Bayán al-Mugrib (27),
datada do século XIII, uma força de cavalaria cristã
avançou contra Calatrava, fortaleza que se encontrava a meio caminho
entre Córdoba e Alarcos (imagem 4), para saber notícias
daquela nova invasão. Contudo, foi rechaçada pelos ocupantes
do castelo, que foram de encontro às forças cristãs
“como o faminto corre para a comida ou o sedento para a água”
(28).
Imagem
4
A ofensiva da Cristandade
sobre o Islã. In: CORTÁZAR, Garcia
de. Historia de España Alfaguarra II. La época medieval.
Madrid: Alianza Universidad, 1981, p. 157. Observe que entre as batalhas
de Alarcos e Las Navas de Tolosa, o limite entre as duas culturas encontrava-se
entre os rios Tejo e Guadiana, já no centro-sul da Península.
Os cristãos fugiram em debandada. Sua correria
foi o “prenúncio da vitória” muçulmana.
Em seu texto, Ibn Idari destacou os eloqüentes discursos dos líderes
muçulmanos que levantaram os ânimos dos combatentes: o vizir
Abu Yahya, que fez os ouvintes chorarem de emoção; o cádi
Abu Ali ibn Hachchach, que os incitou à guerra santa, quando as
gentes “se retiraram com suas inteligências iluminadas e purificadas
em direção a Deus, suas almas se fortificaram e sua bravura
e intrepidez redobraram”, e al-Mansur, que, no meio da batalha,
pronunciou um discurso tão belo que “incendiou as almas”,
e cada pelotão atacou o inimigo mais próximo, incendiando
a luta até a vitória.
O “maldito” Afonso escapou, mas, segundo o cronista, morreram
trinta mil cristãos. Apenas quinhentos muçulmanos “sofreram
o martírio”. Dessa forma, “os enganos dos politeístas”
cristãos e as “fraudes daqueles infiéis” foram
desmascaradas (29).
Por sua vez, a Crónica latina de los reyes de Castilla,
mais realista, conta que a tática vitoriosa dos muçulmanos
foi o cansaço e o ataque surpresa: sabendo que os cristãos
já tinham chegado ao campo de batalha logo pela manhã, o
sultão ordenou que os seus descansassem, deixando o exército
inimigo aguardando sob o sol e fatigando-o com o peso das armas e a sede
até depois do meio-dia. Assim ficaram até o dia seguinte.
Imagem
5

Iluminura das “Estações
de Hariri” (1237). Manuscrito da Biblioteca Nacional
de Paris. In: MATTOSO, José (dir.). História
de Portugal 1 - Antes de Portugal. Lisboa: Editorial Estampa, s/d,
p. 399. Esta cena representa o momento que antecede o combate. Os guerreiros
rufam os tambores e tocam as trombetas (sons escatológicos), para
atemorizar o inimigo.
Por volta da meia-noite, o exército muçulmano
se preparou para a batalha e atacou o acampamento cristão nas primeiras
horas da manhã do dia seguinte. A imprevista presença dos
mouros “produziu simultaneamente estupor e temor nos inimigos”,
que saíram das tendas desordenadamente:
Uma quantidade inumerável de flechas
lançadas dos arcos voou pelos ares e, enviadas ao desconhecido,
feriram os cristãos com um golpe certeiro. Ambos os bandos lutaram
com força. O dia, pródigo em sangue humano, enviou mouros
ao Tártaro e trasladou cristãos aos palácios eternos
(30).
Por sua vez, a Crónica Geral de Espanha
é bastante sucinta em relação à derrota cristã
de Alarcos. De início, o cronista nos diz que, assim que soube
do avanço almôada, Afonso chegou a Alarcos e, imprudentemente,
não quis aguardar a chegada de reforços (31)
- notícia confirmada pela Crónica latina de los reyes
de Castilla: “O glorioso rei de Castela não quis esperar
o rei de Leão, que marchava em sua ajuda e já se encontrava
em terras de Talavera, por mais que lhe dessem esse conselho os homens
prudentes e conhecedores das coisas da guerra.” (32)
E prossegue:
Estando o rei D. Afonso em Alarcos, chegou
o mouro com um poder tão grande que não se podia contar.
E o rei entrou logo na batalha contra ele, como um cavaleiro muito corajoso.
O combate foi muito forte de ambas as partes, mas Jesus Cristo não
quis que os cristãos saíssem no fim com honra, porque
nem todos tinham um só coração, nem ajudaram seu
senhor como deviam. Por isso, foram vencidos e muitos deles morreram,
e no fim, com grandes ferimentos, o rei foi retirado à força,
pois queria morrer ali, mas os seus não o deixaram, fugindo com
ele para Toledo (33).
Outro cronista muçulmano, Marrakuxi, afirma que
Afonso se salvou com apenas trinta de seus oficiais, e o sultão,
avançando até Calatrava, conquistou diversas fortalezas
que rodeavam Toledo, retornando a Sevilha “ornado com a auréola
da vitória” (34).
Apesar de jovem e impulsivo, Afonso entendeu a mensagem divina: aquela
derrota fora um castigo de Deus pelo pecado que cometeu, isto é,
por ter amado loucamente a judia de Toledo, como já lhe dissera
o anjo. Neste momento paradigmático, a narrativa marca a mudança
radical da vida do rei:
Conta a estória que, depois que
o rei D. Afonso foi vencido naquela batalha de Alarcos, esteve sempre
muito triste e quebrantado, acreditando que, por causa de seu pecado,
Deus lhe dera aquela penitência. Por isso, obrou para corrigir
sua vida e fazer serviço a Deus em tudo o que podia, dando grandes
esmolas e reconciliando-se com todos que sabia que não lhe queriam
bem, especialmente os fidalgos, pois entendeu que eles estavam escandalizados
por causa das palavras que dissera. Então, concedeu-lhes muitos
benefícios, de tal maneira que ganhou seus corações
para seu serviço (35).
A construção literária do cronista
não deixa dúvida: para o homem medieval, o campo de batalha
era o local do ajuste de contas com Deus (36). O povo
(“as gentes”) sempre arcava com as conseqüências
dos pecados de seu líder. No pensamento político medieval,
rei e súditos eram como um só corpo (37).
Assim, Afonso prosseguiu em sua via crucis redentora: construiu
escolas e pagou “grandes somas” aos mestres, “para que
os estudantes não tivessem desculpa para aprender”; construiu
ainda um mosteiro, herdando-o com muitas posses, e um hospital para cuidar
dos doentes:
...e aos pobres que vão ali, dão
do que comer e boas camas, cuidando dos enfermos até que fiquem
sãos; e os que aí morrem são soterrados honradamente,
para que o nome do rei, que em vida sempre foi muito bom, tenha honra
neste mundo, e que roguem a Deus por ele e por todos os outros reis
que foram bons e direitos, que lhes dê o Paraíso. Amém
(38).
III. Preparativos para a guerra
santa
Enquanto passava por aquele processo de conversão,
Afonso pediu ao arcebispo D. Rodrigo que fosse ao papa Inocêncio
III solicitar a cruzada. Após a anuência papal, começaram
a vir para Toledo grandes companhias de cruzados, provenientes de todas
as partes da Europa. Violentos, de muitas linguagens, eles “faziam
muito mal, pois matavam os judeus e faziam muitas outras travessuras”
(39). A eles juntou-se o rei D. Pedro II de Aragão,
o Católico (1196-1213), com barões de alta linhagem,
condes, viscondes e prelados, e o rei D. Sancho VII de Navarra, o
Forte (1194-1234), com mil e trezentos cavaleiros (40).
No total, se dermos crédito à Crónica de 1344,
o movimento de cruzada conseguiu reunir trinta mil homens a cavalo e incontáveis
homens a pé, todos bem pagos por D. Afonso com maravedis, “moeda
que então corria e que era muito boa” (41).
Por fim, não poderiam deixar de estar presentes os mestres das
ordens militares de Santiago, de São João de Jerusalém,
de Calatrava e do Templo (42), conferindo, assim, um
caráter sagrado ao combate que estava preste a acontecer.
Partindo de Toledo, o grande exército cruzado sitiou e conquistou
a fortaleza de Malagón, “matando e queimando todos os mouros”.
Dali fizeram o cerco ao castelo de Calatrava, já no limite entre
os dois mundos, terra de ninguém que suscitava a imaginação
da percepção geográfica dos cristãos (43).
Após sitiarem-no maravilhosamente, “com tantas flechas e
pedras que nenhum mouro ousava aparecer nos muros” (44),
foi feito um acordo para sua rendição. Generoso, Afonso
VIII mandou dar tudo o que tinha no castelo aos reis de Aragão
e de Navarra e a todos que vieram de fora do reino. Sua prodigalidade
real era a cavaleiresca, a largueza, típica mentalidade medieval
da nobreza (45).
Entrementes, o rei almôada Abu Yusuf al-Nasir de Marrocos (na Crónica
de 1344 chamado de Miramolim) (46), que concentrava
suas gentes em Jaén, ao sul do rio Guadalquivir (ver imagem 4),
aguardava o avanço cristão, contando com as prováveis
doenças e mortes do exército em decorrência da insalubridade
da água do rio Guadiana. Quando soube que muitos franceses morreram
envenenados por aquele motivo, satisfeito, Miramolim avançou calculadamente
suas hostes para impedir o abastecimento do inimigo.
D. Afonso ordenou então que três barões saíssem
em busca de suprimentos, com cerca de dez mil cavaleiros. Este grupo chegou
ao castelo de Ferral (Castro Ferral, ver imagem 7), que tinha os caminhos
cercados pelos mouros. Impedidos de prosseguir, os cristãos receberam
a graça do milagre divino: com a ajuda de um pastor angélico
(“certamente anjo de Deus era” [47]), eles
foram guiados através de um estreito até uma serra com bons
prados, chamada “seda do imperador” (48),
e ali, em um sábado, abasteceram seus exércitos (49).
Com o retorno dos barões, os reis ordenaram que armassem suas tendas
em frente aos mouros. Dessa vez impaciente, Miramolim armou sua tenda
à direita da do rei de Castela, colocando suas azes cheias de mouros
acaudilhadas por “muitos reis e altos homens” (50).
No entanto, dessa vez os cristãos não tiveram pressa: percebendo
o “ardil dos mouros” e vendo que seus cavalos estavam fatigados
por terem atravessado o estreito, decidiram descansar, deixando o rei
almôada esperando em campo de batalha.
Enquanto isso, o arcebispo de Toledo, D. Rodrigo, aquele que fora ao papa
solicitar o chamamento de cruzada para essa batalha, pregava. Pedia a
todos que comungassem, concedendo o perdão divino aos que entrassem
na batalha com o coração puro. Era um domingo. No dia seguinte,
após a missa matinal, quando os prelados deram o Santo Sacramento
aos guerreiros, a cavalaria pôs-se em marcha, com o sol irradiando
sua luz (51).
IV. A cruzada de Las Navas
de Tolosa (1212)
A procissão guerreira teve início na segunda-feira.
A alegria e o entusiasmo dos combatentes confundiam-se com as cores do
desabrochar da primavera e multidão de cores dos brasões
e símbolos das distintas linhagens que se misturavam na cavalgada
cruzada (ver imagem 6).
O teatro litúrgico da guerra apresentava seus protagonistas. Afonso
VIII era o ator principal; os coadjuvantes organizaram-se ao seu redor.
Assim, nas laterais do rei, de um lado, D. Rodrigo Dias de Cameiros, com
vários nobres e concelhos de várias vilas (52);
de outro, o conde D. Gonçalo de Lara, acompanhado pelas ordens
militares de Santiago, São João e Calatrava e uma multidão
de concelhos. D. Afonso cavalgava na az posterior, com o arcebispo de
Toledo a seu lado e muitos condes e fidalgos; à sua direita, o
rei de Navarra, à sua esquerda o de Aragão.
Imagem
6

Batalha de Las Navas
de Tolosa. Afonso X, Cantigas de Santa Maria.
Manuscrito em pergaminho (50 x 34 cm). Castela (c. 1260-1270). BnF, Manuscritos
(Fac-símile ms. T.l.1 fol. 92, Madrid, Patrimônio nacional)
Com essas lideranças, as azes moveram-se pelo
campo aberto. Então apareceu no céu uma cruz muito formosa
e de muitas cores. Os cristãos viram nela o bom sinal, indício
da vitória (53).
Imagem
7

Las Navas de Tolosa
de acordo com um mapa do século XVI. In:
SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio (org.) La España Musulmana
— según los autores islamitas y cristianos medievales.
Madrid: Espasa-Calpe S. A., 1986, tomo II, p. 363.
Do outro lado, o mal - é importante que o historiador
se coloque no mesmo ponto de vista da narrativa principal que analisa,
na visão do escritor da época, em seu simbolismo maniqueísta
de suas representações mentais (54). Assim,
o chefe das forças maléficas, Miramolim, desfilou com suas
azes muito bem ordenadas, cheias de mouros e lideradas por capitães
muito nobres. Próximo à sua tenda, o islamita ordenou que
fosse feita uma az de curral para protegê-lo. Nela, o cronista cristão
destacou a vergonha: homens armados a pé defendiam o sultão,
mas estavam presos em cadeias de ferro para não fugirem. Cativos.
Eram cem mil homens negros, muçulmanos, armados de lanças,
espadas e adagas, acompanhados de arqueiros e besteiros. Um exército
de prisioneiros no exército muçulmano (55).
Não satisfeito com tamanha proteção, dentro daquela
az de curral, trinta mil homens guardavam ainda mais a preciosidade: o
corpo do sultão. Uma multidão, portanto (56).
E todo o exército? Contá-los, diz o cronista, era impossível:
“não há homem que possa imaginar nem dar conta.”
(57) Ouvi-los, seria um grande espanto – uma das
diferenças dos exércitos cristão e muçulmano
dizia respeito ao som: enquanto os cristãos guerreavam em silêncio,
os muçulmanos utilizavam tambores e trombetas (ver imagem 5).
O primeiro e decisivo impacto contra as hostes mouras foi de D. Diego
Lopez e D. Garcia Romeiro. Eles estavam tão aguerridos que, por
onde passavam, “parecia que um fogo queimava”. Quando, a seguir,
chegaram as forças de D. Afonso, os muçulmanos começaram
a fugir. Atônito, Miramolim, fazendo soar as trombetas e os atabaques,
cavalgou em um cavalo de muitas cores e, aos gritos, incitou a todos que
retornassem à batalha (58).
Por sua vez os cristãos eram incentivados por D. Afonso, que proferia
discursos em meio ao combate (59). Seus golpes eram tão
fortes que “um fogo acendia as ervas”. Assim, as hostes do
sultão foram pouco a pouco sendo desbaratadas até que os
cruzados chegaram à az de curral, onde estavam os negros muçulmanos
prisioneiros, presos em cadeias de ferro. Parecia impossível romper
aquela barreira humana. Então, num gesto de ousadia, D. Álvaro
Nunes, que carregava o pendão do rei, feriu seu cavalo com as esporas
e saltou por cima da az, sendo seguido pelo rei de Aragão e o de
Navarra.
Os outros cavaleiros viram esse gesto de ousadia e coragem de D. Álvaro,
típico da impetuosidade que se esperava de um cavaleiro cruzado
(60). Então, todos também saltaram dentro
da az de curral, e a batalha “foi a mais forte e cruel, e houve
ali mui grandes e mui célebres golpes, com tal mortandade de mouros
que foi uma grande maravilha” (61).
Vendo sua az de curral partida e os seus derrotados, Miramolim cavalgou
“em seu cavalo de muitas cores” e fugiu. Os “mui nobres”
reis cristãos saíram em seu encalço, mas eram tantos
os corpos que jaziam no chão que seus cavalos não puderam
prosseguir. O sultão chegou a Baeça e informou aos mouros
o triste resultado da batalha. Depois partiu para Jaén.
Esgotado, mas vitorioso, Afonso VIII descansou na tenda de Miramolim.
Nos dois dias seguintes, os cristãos colheram os ricos despojos
da batalha dispersos no campo - ouro, pedras preciosas, tecidos de seda,
cavalos e armas (o dinheiro há muito invadira a estrutura da guerra
no século XIII (62). Além de buscarem o
material, o cristãos ainda mataram muitos mouros que jaziam estirados
junto aos cadáveres (63). Segundo o arcebispo
D. Rodrigo, de oitenta mil cavaleiros mouros que participaram da batalha,
trinta e cinco mil morreram, e o número de peões ultrapassou
duzentos mil. Da parte dos cristãos, apenas cento e cinqüenta
homens! “E assim Deus se mostra maravilhoso em Suas obras”
(64).
Após aquela estrondosa vitória cristã, o cronista
português nos conta que a ira de Deus recaiu sobre a Espanha, pois
foi um ano tão ruim e “minguado de pão” que
os homens caíram mortos de fome, o fruto da terra faleceu e os
animais e aves também não frutificaram. Ira de Deus pela
vitória cristã? Não, apenas mais um momento de renovação
do pacto divino com o rei, uma oportunidade para Afonso VIII ser generosamente
cristão ser definitivamente perdoado pelo pecado da luxúria,
por ter-se sujado com a bruxa judia: “E morreram naquele ano muitos
cavalos e bestas de servir por míngua dos mantimentos que não
havia. E com tanta pestilência e fome na terra, o bom rei nunca
cansou de bem fazer, dando grandes esmolas pelo amor de Deus” (65).
Assim purificado pelo combate sagrado, Afonso VIII, o herói-cruzado
de Las Navas de Tolosa, faleceu em 1214. Na presença de sua família
(D. Leonor, sua mulher, de D. Biringuela, sua filha, de seu filho D. Henrique
e seus netos D. Fernando e D. Afonso), e dos bispos de Valência
e D’Ávila, ele recebeu o Santo Sacramento do corpo de Cristo
das mãos do arcebispo D. Rodrigo (66), o mesmo
D. Rodrigo que fora ao papa pedir os votos de cruzada para a batalha de
Las Navas de Tolosa, a cruzada mais célebre da Reconquista
(67).
*
Por sua vez, no Anônimo de Copenhage,
obra escrita por um muçulmano contemporâneo à derrota
de Las Navas de Tolosa (68), a descrição
do combate é naturalmente muito mais sucinta:
Este ano foi o da batalha de Uqab (las
Navas), que causou a ruína de al-Andaluz. O emir al-Muminin al-Nasir
dirigiu-se ao país inimigo do maldito Afonso com um grande exército
muçulmano. Os infiéis prepararam-se, e toda a gente de
Castela e de outros diferentes reinos da cristandade próximos
a ela; os dois exércitos se encontraram no sítio chamado
al-Uqab e a vitória se declarou primeiro aos muçulmanos.
Mas os almôadas não se
esforçaram nem se portaram bem nesta expedição
por causa do castigo que al-Nasir impôs aos xeques almôadas
e por havê-los condenado à morte e os despojado pelas mãos
de Ibn Mizna.
O barcelonês (rei de Aragão) acudiu Afonso com três
mil cavalos (...) os muçulmanos deram as costas e a derrota se
estendeu a eles. Al-Nasir permaneceu com tal constância que o
inimigo quase se apoderou de sua pessoa, e as lanças cristãs
já se aproximavam quando ele buscou a salvação
na fuga. Esta batalha aconteceu na segunda-feira, 8 de Safar, do citado
ano.
Contam que alguns diziam: “Diga
a Ibn Mizna que resista a esta inundação”, aludindo
com isto ao ministro que executou os xeques almôadas. Desculpando-se
do resultado dessa batalha, al-Nasir escreveu a Marraquech e a outras
partes (69).
O cronista deu mais ênfase aos dispendiosos preparativos
de Al-Nasir (Miramolim) para o combate do que para a derrota. E apesar
da declaração da falta de esforço do exército
muçulmano, a crônica desvalorizou a vitória cristã,
pois creditou o insucesso almôada a uma execução que
al-Nasir ordenou de alguns xeques almôadas dias antes da batalha
(70).
Por fim, outro cronista muçulmano, Ibn Abi Zar, em sua obra Rawd
al-Quirtas (71), nos oferece um relato tão
dramático e vivo da batalha – com diálogos, inclusive
– que merece ser transcrito na íntegra:
Quando Afonso ouviu que al-Nasir havia
tomado Salvaterra, dirigiu-se contra ele com todos os reis cristãos,
que acompanhavam-no com seus exércitos. Ao saber disso, al-Nasir
saiu ao seu encontro com as tropas muçulmanas: os combatentes
se avistaram em um sítio chamado Hisn al-Iqab (72).
Ali aconteceu a batalha. Foi plantada a tenda vermelha, disposta para
o combate, no cume de uma colina. Al-Nasir ocupou-a e sentou-se sobre
seu escudo, com o cavalo ao lado; os negros rodearam a tenda por todas
as partes com armas e apetrechos.
A retaguarda, com as bandeiras e tambores,
colocou-se diante da guarda negra, com o vizir Abu Said ben Djami. O
exército cristão se dirigiu contra eles, em filas, como
nuvens de gafanhotos; os 160.000 voluntários saíram ao
seu encontro e caíram sobre eles, mas desapareceram entre as
filas dos cristãos, que os cobriram e os combateram terrivelmente.
Os muçulmanos resistiram heroicamente; todos os voluntários
morreram como mártires, sem restar nenhum. As tropas almôadas,
árabes e andaluzas olhavam-nos sem se mover.
Quando os cristãos acabaram com os voluntários, caíram
sobre os almôadas e sobre os árabes com uma pressão
extraordinária (...) Quando os almôadas, os árabes
e os berberes viram que os voluntários haviam sido exterminados,
que os andaluzes fugiam, que o combate aumentava contra os que permaneciam,
e que cada vez mais os cristãos eram mais numerosos, debandaram
e abandonaram al-Nasir. Os infiéis os perseguiram, espada em
punho, até chegarem ao círculo de negros e guardas que
rodeavam al-Nasir como um sólido muro, mas não puderam
abrir nenhuma brecha. Então flanquearam seus cavalos encouraçados
contra as lanças dos negros que estavam direcionadas contra eles,
e entraram em suas fileiras.
Al-Nasir continuava sentado sobre seu escudo, diante sua tenda, e dizia:
“Deus disse a verdade e o demônio mentiu”, sem mover-se
de seu sítio, até que os cristãos se aproximaram
dele. Morreram ao seu redor mais de 10.000 dos que formavam sua guarda.
Um árabe, então, montado em uma égua, aproximou-se
e lhe disse: “Até quando vais continuar sentado? Oh, Príncipe
dos Crentes, o juízo de Deus já se realizou, cumpriu-se
Sua vontade e pereceram os muçulmanos.”
Então, al-Nasir se levantou para
montar o veloz corcel que tinha a seu lado, mas o árabe, desmontando
de sua égua, lhe disse: “Monta nesta que é de puro
sangue e não sofre ignonímia, talvez Deus te salve com
ela, porque em tua salvação encontra-se o nosso bem”.
Al-Nasir montou na égua e o árabe acompanhou-o em seu
cavalo, ambos rodeados por um forte destacamento de negros, com os cristãos
em seu encalce. A degola dos muçulmanos durou até a noite,
e as espadas dos infiéis caíram sobre eles e os exterminaram
completamente, tanto que, de mil, nenhum se salvou. Os arautos de Afonso
gritavam: “Matem e não façam prisioneiros; aquele
que trouxer um prisioneiro será morto com ele”. Foi assim
que o inimigo não fez um só cativo neste dia.
Esta terrível calamidade aconteceu na segunda-feira, 15 de Safar
de 609 (73), quando, a partir dessa derrota, começou
a decair o poder dos muçulmanos em al-Andaluz, e suas bandeiras
não alcançaram mais vitórias; o inimigo propagou-se
por causa dela e se apoderou de seus castelos e da maioria de suas terras.
Eles teriam conquistado tudo se Deus não lhes houvesse concedido
o socorro do emir dos muçulmanos, Abu Yusuf ben Abd al-Haqq,
que restaurou suas ruínas, reedificou seus minaretes e devastou
o país dos infiéis com suas expedições (74).
*
Confrontando o relato de Ibn Abi Zar e o do Anônimo
de Copenhage com a Crónica de 1344, percebo algumas
semelhanças nas descrições da batalha: 1) Al-Nasir
(Miramolim) tinha uma grande proteção de soldados negros
(embora Abi Zar não descreva as correntes que os prendiam), 2)
os cristãos romperam aquele escudo humano com um ousado rompante
da cavalaria, 3) corajoso, o sultão deixou o teatro da guerra momentos
antes de ser capturado e 4) seguiu-se, após o fim do combate, um
grande massacre por parte das forças cristãs.
Em suma, com exceção das interferências divinas -
o anjo-pastor, especialmente - e do motivo primeiro das batalhas de Alarcos
e Las Navas - o castigo de Deus pelo amor louco de Afonso pela judia de
Toledo e Seu perdão - as crônicas basicamente concordam nas
linhas mestras daquela narrativa bélica.
E de todas as narrativas, a Crónica de 1344 é,
do ponto de vista literário, a mais bem encadeada, a mais entrelaçada
de imagens simbólicas entre o mundo dos homens e o mundo de Deus,
a que melhor exprime as aberturas para o sagrado que o campo de batalha
proporcionava para os crentes de então (75). Las
Navas de Tolosa, na perspectiva da época, forçou o céu
a manifestar seus desígnios, a mostrar inquestionavelmente de que
lado estava a justiça de Deus, de que lado estavam os verdadeiros
e legítimos sentimentos dos corações dos guerreiros.
A causa, causa cruzada, era a causa justa, a que deveria ser lutada “com
um só coração”, como disseram os cronistas.
Como o ordálio e o duelo, acontecimentos decisivos porque buscavam
a verdade, a guerra medieval era a grande oportunidade que os crentes
tinham de confirmar a vontade de Deus. Pois a batalha campal era a hora
de proclamar e remir, o momento da purificação pelo sangue,
e o sangue derramado era a garantia da salvação eterna.
Por esses motivos, o amor e o crime, o castigo e a redenção
entrecruzaram-se na narrativa fantástica da cruzada da Península
que teve como pano de fundo a redenção do rei Afonso VIII.
Sem essa perspectiva escatológica, não se pode compreender
a guerra medieval, guerra em sua maior parte travada em nome de Deus.
*
Notas
(1) Professor Adjunto de História
Medieval da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
(2) “Já não encontro tanto sabor no comer,
no beber, no dormir / como quando ouço o grito “Avante!”
/ elevar-se dos dois lados, o relinchar dos cavalos sem cavaleiros na
sombra / e os brados “Socorro! Socorro!” / quando vejo cair,
para lá dos fossos, grandes e pequenos na erva; / quando vejo,
enfim, os mortos que, nas entranhas, / têm ainda cravados os restos
das lanças, com as suas flâmulas.” - Citado em BLOCH,
Marc. A sociedade feudal. Lisboa: Edições 70, 1987,
p. 307.
(3) Citado em PRESTWICH, Michael. “A Era da Cavalaria”.
In: A Arte da Guerra. Série História em Revista.
Rio de Janeiro: Abril Livros / Time-Life Books, 1993, p. 52.
(4) Curso de Literatura Inglesa. Jorge Luis Borges (org.,
pesquisa e notas de Martín Arias e Martín Hadis). São
Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 105.
(5) MATTOSO, José. “Cluny, Crúzios e Cistercienses
na formação de Portugal”. In: Portugal
Medieval — novas interpretações. Lisboa: Imprensa
Nacional-Casa da Moeda, 1985, p. 107.
(6) COSTA, Ricardo da. A Guerra na Idade Média - um
estudo da mentalidade de cruzada na Península Ibérica.
Rio de Janeiro: Edições Paratodos, 1998, p. 72.
(7) COSTA, Ricardo da. A Guerra na Idade Média, op.
cit., p. 89.
(8) CAHEN, Claude. El Islam. I. Desde los orígenes
hasta el comienzo del Imperio otomano. Madrid: Siglo XXI, 1992, p.
295.
(9) “Kitab al-Muchid, o Marrakuxi”. In:
SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio (org.). La España Musulmana
— según los autores islamitas y cristianos medievales.
Madrid: Espasa-Calpe S. A., 1986, tomo II, p. 267-268. Todas as traduções
aqui apresentadas, tanto do espanhol quanto do português antigo,
são de minha autoria.
(10) IRADIEL, Paulino, MORETA, Salustiano y SARASA, Esteban.
Historia Medieval de la España Cristiana. Madrid: Ediciones
Cátedra, 1989, p. 147.
(11) Crónica Geral de Espanha de 1344. CINTRA,
Luís Filipe Lindley (ed. crítica). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa
da Moeda, 04 volumes, 1983-1991.
(12) Para a discussão do resgate da narrativa nos textos
históricos, ver LE GOFF, Jacques. São Luís.
Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 23-24.
(13) A Crónica
latina de los reyes de Castilla foi escrita entre os anos 1223
e 1239 provavelmente pelo bispo de Osma e chanceler de Fernando III, Juan
Domíngues. In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio (org.).
La España Musulmana, op. cit., tomo II, p. 323-329; (consulta
no dia 11/06/2003).
(14) “De la Estoria de España que mandó componer
Alfonso X, el Sabio". In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio (org.).
La España Musulmana, op. cit., tomo II, p. 367-381.
(15) "Carta de Arnaldo Amalarico, arcebispo de Narbona".
In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio (org.). La España
Musulmana, op. cit., p. 361-367.
(16) BEM IDHARI. “Bayan al-Mugrib, II, 185”, MARRAKUXI,
“Kitab al-Muchid”, "Anónimo de Copenhage".
In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio (org.). La España
Musulmana, op. cit., p. 330-332, 332-333 e 354-361; IBN ABI ZAR.
Rawd al-quirtas (ed. de A. Huici Miranda), Valencia 1964. Recogido
por Cristina Segura. Publicado na INTERNET: “La
Batalla de las Navas de Tolosa segun los musulmanes” (consulta:
26/03/2003).
(17) Leonor era filha de Leonor da Aquitânia, mãe
de Ricardo Coração de Leão e João Sem Terra.
Uma de suas filhas, Branca de Castela (1188-1252), casou-se com o rei
da França Luís VIII (1187-1226), pai de São Luís
IX (1214-1270).
(18) LEÓN TELLO, Pilar. “A Judería, um certo
sucesso”. In: CARDAILLAC, Louis (org.). Toledo, séculos
XII-XIII. Muçulmanos, cristãos e judeus: o saber e a tolerância.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992, p. 113.
(19) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
volume IV, 1991, cap. DCCXLI, p. 282.
(20) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCXLI, cap. DCCXLI, p. 283.
(21) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCL, p. 297.
(22) "El año 1089, encontramos por vez primera mencionado
el señor de Lara: se trata de don Gonzalo Nuñez, magnate
en la corte de Alfonso VI. Serán sus hijos los que (...) añadan
a la casa nuevas y abundantes tierras desde las Asturias de Santillana
a la Extremadura del Duero (...) Así, a don Nuño Pérez
de Lara que si no fue el mayor de los hijos, sí gozó del
más alto prestigio y alcanzó sin peros la capitanía
del clan (...) Don Nuño Pérez se ocupó de fundar
monasterios (...) y de hacer donaciones benéficas de todo tipo.
Su arrogancia y hábil politiquear fueron siempre reconocidos y
envidiados. Murió en 1177, luchando junto a su rey en el cerco
de Cuenca." - CASADO, Hererra. Los
Lara, condes de Molina (consulta no dia 11/06/2003).
(23) CORTÁZAR, Garcia de. Historia de España
Alfaguarra II. La época medieval. Madrid: Alianza Universidad,
1981, p. 124.
(24) MATTOSO, José. “Dois séculos de vicissitudes
políticas”. In: MATTOSO, José (dir.). História
de Portugal - A Monarquia Feudal (1096-1480). Lisboa: Editorial Estampa,
s/d, p. 92.
(25) IRADIEL, Paulino, MORETA, Salustiano y SARASA, Esteban.
Historia Medieval de la España Cristiana, op. cit., p.
147.
(26) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLII, p. 308.
(27) IBN IDARI. "Al-Bayán al-Mugrib. Nuevos fragmentos
almorávides y almohades". Textos medievales 8, Valencia,
1963; BEM IDHARI. “Bayan al-Mugrib, II, 185”. In:
SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio (org.). España Musulmana,
op. cit., tomo II, p. 330-332.
(28) BEM IDHARI. “Bayan al-Mugrib, II, 185”. In:
SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio (org.). España Musulmana,
op. cit., tomo II, p. 330.
(29) BEM IDHARI. “Bayan al-Mugrib, II, 185”. In:
SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio (org.). España Musulmana,
op. cit., tomo II, p. 332.
(30) Crónica
latina de los reyes de Castilla, II, 13 (consulta no dia 11/03/2003).
(31) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLIII, p. 309.
(32) Crónica latina de los reyes de Castilla,
II, 13, op. cit.
(33) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLIII, p. 309.
(34) MARRAKUXI, “Kitab al-Muchid”. In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ,
Claudio (org.). España Musulmana, op. cit., tomo II, p.
333.
(35) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLVI, p. 316.
(36) Ver DUBY, Georges. O Domingo de Bouvines. 27 de julho
de 1214. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993, p. 157.
(37) Ver especialmente
KANTOROWICZ, Ernst H. Os Dois Corpos do Rei - Um estudo sobre teologia
política medieval. São Paulo: Companhia das Letras,
1998.
(38) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLVI, p. 317.
(39) Os cruzados de além-Pireneus distinguiam-se dos da
Península Ibérica especialmente pelo ardor anti-semita.
Por exemplo, quando da tomada de Lisboa em 1147, o rei de Portugal Afonso
I teve que conter os ímpetos da turba, pois “os colonenses
e flamengos, vendo na cidade tantos excitativos de cobiça, não
observam respeito algum ao juramento e fidelidade; correm aqui e ali;
fazem presa; arrombam portas; esquadrinham os interiores de cada casa;
afugentam os habitantes, afrontando-os com injúrias contra o direito
divino e humano; estragam vasos e vestidos; procedem injuriosamente para
com as donzelas; igualam o lícito ao ilícito; e às
ocultas surrupiam tudo que devia ser dividido por todos. Contra o direito
e o lícito matam até o bispo da cidade, já muito
idoso, cortando-lhe o pescoço” - Conquista de Lisboa
aos Mouros em 1147 - Carta de um cruzado Inglês. Lisboa: Livros
Horizonte, 1989, p. 77.
(40) As genealogias reais podem ser consultadas em RUCQUOI, Adeline.
História Medieval da Península Ibérica.
Lisboa: Editorial Estampa, 1995, p. 319-335.
(41) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLIX, p. 321.
(42) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLIX, p. 321-22.
(43) “La imagem dominante de la frontera entre los cristianos
era de un desierto - locus desertus - um lugar deshabitado...” -
GLICK, Thomas F. Cristianos y musulmanes en la España Medieval
(711-1250). Madrid: Alianza Universidad, 1994, p. 75.
(44) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLX, p. 323.
(45) DUBY, Georges. Guilherme Marechal ou o melhor cavaleiro
do mundo. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1987, p. 118.
Além disso, Afonso VIII, sabendo que os “estrangeiros”
ficaram sem comida, mandou dar mil cargas de mantimentos e cinqüenta
mil maravedis. Apesar disso, muitos deles retornaram às suas terras
após aquela batalha. Ver Crónica Geral de Espanha de
1344, op. cit., cap. DCCLX, p. 323-324.
(46) E na "Carta de Arnaldo Amalarico, arcebispo de Narbona",
chamado de Miramamolím. Ver SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio (org.).
La España Musulmana, op. cit., p. 361-367.
(47) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLXII, p. 326.
(48) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLXII, p. 327.
(49) É curioso observar a peculiaridade do fato de o anjo
estar representado por um pastor. Para a questão das representações
angélicas medievais ver COSTA, Ricardo da e VENTORIM, Eliane. “Entre
o real e o imaginado. Prolongamentos apocalípticos angélicos
na tradição filosófica medieval: Ramon Llull e o
Livro dos Anjos (1274-1283)”. In: Estudos de Religião
23. Revista Semestral de Estudos e Pesquisas em Religião.
São Bernardo do Campo: UMESP, 2002, Ano XVI, n. 23, dezembro de
2002, p. 200-228. Ainda, uma lenda piedosa da conquista de Cuenca diz
que o pastor Martín Alhaja (ou Alhaxa), que recebera a visita da
Virgem Maria, fez os cristãos passarem através da Porta
de Aljaraz (atualmente chamada Puerta de San Juan), onde começa
a parte alta da ciudad e por onde penetraram castelhanos, leoneses e aragoneses,
reforçados pelos cavaleiros da Ordem de Santiago. Ver Historia
de Cuenca. (consulta no dia 10.06.2003)
(50) Na Idade Média, az era a unidade de combate (Az,
do latim acies: exército romano formado na linha de batalha. O
termo é encontrado na obra de Júlio César, De
bello Gallico [I, 51, 1]. Apud: CARCOPINO, Jérôme. Júlio
César. Lisboa: Publicações Europa-América,
s/d, p. 233-372). Correspondia aproximadamente de 700 a 1.000 lanças
- 2.100 a 3.000 homens. Geralmente, os muçulmanos utilizavam a
az de cunha, forma triangular com a ponta para a frente. No caso em questão,
os almôadas se valeram da az de curral, formação defensiva
em forma de quadrado que tinha como intuito reorganizar as forças
dispersas no campo de batalha. Ver COSTA, Ricardo da. A Guerra na
Idade Média, op. cit., p. 244-245.
(51) A referência ao sol na Crónica não
é acidental. Na perspectiva medieval, todo combate é como
um raio de luz que rasga as trevas, um feixe que inaugura a boa-nova,
a demarcação do fim de um tempo obscuro e o surgimento de
um novo tempo, o do Cristo redentor. Ver DUBY, Georges. O Domingo
de Bouvines. 27 de julho de 1214. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.
(52) Os concelhos medievais ibéricos eram circunscrições
administrativas organizadas pelas populações rurais, principalmente
as que se encontravam sob governo muçulmano, que reconheciam o
caráter representativo das comunidades cristãs e judias.
Cada concelho possuía sua própria assembléia de notáveis
bons-homens, pequenos proprietários locais, ou ricos mercadores.
Elegiam diversos magistrados, com funções administrativas
e militares. As comunidades concelhias possuíam privilégios
e imunidades em relação ao restante do sistema governamental,
o que tornava a sociedade cristã ibérica bastante distinta,
do ponto de vista jurídico, do restante da sociedade feudal européia.
Ver COSTA, Ricardo da. A Guerra na Idade Média, op. cit.,
p. 80.
(53) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLXIII, p. 329. Um sinal de Deus no céu é um leitmotiv
das narrativas medievais: recorde-se, por exemplo, para nos atermos somente
à Península Ibérica, ao combate entre as nuvens que
os cruzados viram nos céus e que prenunciava a conquista de Lisboa.
Ver Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147 - Carta de um cruzado Inglês.
Lisboa: Livros Horizonte, 1989.
(54) DUBY, Georges. O Domingo de Bouvines. 27 de julho de
1214, op. cit., p. 38.
(55) "Como o nome indica, besteiros por combaterem com a
besta (ou balestra), arma portátil de arremesso de dardos (virotões
ou viratões) extremamente eficiente na penetração
das cotas de malhas, escudos e armaduras. A besta era uma “arma
composta essencialmente por um arco apoiado numa haste e cuja corda se
retesava por meio de uma mola, armazenando energia suficiente para disparar
virotes pesados com grande precisão e longo alcance quando se acionava
seu gatilho. Desaparecido com as legiões romanas, a besta só
ressurgiu na cena européia na batalha de Hastings (1066). Mais
mortífera que um arco simples de mão, ela era capaz de derrubar
um cavaleiro da sela a 100 metros. No entanto, devido a seu peso, era
de difícil manejo e recarregamento demorado, pois necessitava de
apoio dos pés e ação simultânea das duas mãos.
A partir do século XI, a Igreja tentou regulamentar a prática
da guerra. Tentou-se então restringir o uso da besta. O papa Urbano
II a condenou em 1096 como “odiosa a Deus”. Finalmente, ela
foi banida pelo papa Inocêncio II em 1139, no II Concílio
de Latrão, sendo ameaçado de excomunhão quem fizesse
uso dela contra cristãos. Assim, a besta foi implicitamente permitida
apenas na guerra contra os muçulmanos, naturalmente esta determinação
não foi obedecida pelos guerreiros europeus." - COSTA, Ricardo
da. A Guerra na Idade Média, op. cit., p. 113.
(56) Segundo o arcebispo de Narbona, tratava-se de “...uma
az fortíssima, segundo eles acreditavam, e na qual se disse que
estava o próprio Miramamolím.” – "Carta
de Arnaldo Amalarico, arcebispo de Narbona". In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ,
Claudio (org.). La España Musulmana, op. cit., p. 365.
(57) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLXIV, p. 330.
(58) “...e começou de dar my grãdes vozes,
dizendo que fossem bõos e tornassem aa batalha...” - Crónica
Geral de Espanha de 1344, op. cit., cap. DCCLXIV, p. 331.
(59) “- Ferideos, amigos e vassallos, ca este he o nosso
bõo dia. E agora guaanharemos prez pera sempre e ficaremos ricos
e hõrrados.” - Crónica Geral de Espanha de 1344,
op. cit., cap. DCCLXIV, p. 333.
(60) “...os cavaleiros eram irresistíveis. Mas só
se podia contar com eles para um ataque maciço; era quase impossível
reorganizá-los para um novo ataque. Os comandantes cruzados tinham
que avaliar o tempo do ataque com perfeição – e controlar
seus impetuosos homens até o momento certo.” – PRESTWICH,
Michael. “A Era da Cavalaria”. In: A Arte da
Guerra. Série História em Revista. Rio de Janeiro:
Abril Livros / Time-Life Books, 1993, p. 55.
(61) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLXIV, p. 333.
(62) DUBY, Georges. O Domingo de Bouvines. 27 de julho de
1214, op. cit., p. 110.
(63) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLXV, p. 335.
(64) É corrente entre os historiadores que geralmente
os números apresentados pelos cronistas medievais são sempre
elevados, pois o objetivo era causar a admiração e o espanto
do leitor, não fidedignidade à realidade.
(65) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLXVII, p. 338-339.
(66) Crónica Geral de Espanha de 1344, op. cit.,
cap. DCCLXIX, p. 341.
(67) “La campaña que llevó a la victoria
de las Navas recibió uma amplia difusión em los relatos
de las crónicas cristianas – más de treinta –
y musulmanas (...) El resultado victorioso de la campaña de las
Navas le fue comunicado a Inocencio III em uma carta que describía
la batalla, los numerosos combatientes que veiníam de transmontanis
partibus y la ayuda de los reyes de Aragon y Navarra.” – RODRÍGUEZ
LÓPEZ, Ana. La consolidación territorial de la monarquía
feudal castellana. Expansión y fronteras durante el reinado de
Fernando III. Madrid, Consejo Superior de Investigaciones Científicas,
1994, p. 85-86.
(68) "Anónimo de Copenhage". In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ,
Claudio (org.). La España Musulmana, op. cit., p. 354-361.
(69) "Anónimo de Copenhage". In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ,
Claudio (org.). La España Musulmana, op. cit., p. 359.
(70) "Anónimo de Copenhage". In: SÁNCHEZ-ALBORNOZ,
Claudio (org.). La España Musulmana, op. cit., p. 358.
(71) IBN ABI ZAR. Rawd al-quirtas (ed. de A. Huici Miranda),
Valencia 1964. Recogido por Cristina Segura. Publicado na INTERNET: “La
Batalla de las Navas de Tolosa segun los musulmanes” (consulta:
26/03/2003).
(72) Castelo de la Cuesta, hoje Castro Ferral (ver imagem 7).
(73) 16 de julho de 1212.
(74) IBN ABI ZAR. Rawd al-quirtas (ed. de A. Huici Miranda),
Valencia 1964. Recogido por Cristina Segura. Publicado na INTERNET: “La
Batalla de las Navas de Tolosa segun los musulmanes” (consulta:
26/03/2003).
(75) DUBY, Georges. O Domingo de Bouvines. 27 de julho de
1214, op. cit., p. 159.

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