|
Mapa 1 Por volta de 540, um angustiado e obstinado monge bretão de nome Gildas decidiu relatar os trágicos acontecimentos ocorridos alguns anos antes em sua ilha. A invasão de anglos e saxões havia praticamente destruído o pouco que restara da dominação romana naquela que se chamaria mais tarde Inglaterra. Seu opúsculo, A Destruição Britânica e sua Conquista, escrito na primeira metade do século VI, tornar-se-ia o único registro desse conturbado século naquela região. Este artigo analisará esta importante obra de Gildas, especialmente as passagens onde o autor exorta os chefes bretões por suas fraquezas, para ele, responsáveis pela destruição dos bretões. Um problema na análise da obra de Gildas é que os reis bretões são em sua maioria, lendários, traço que foi mantido em obras posteriores, como a de Nennius no século IX (História dos Bretões). Porém, para reconstituirmos a história da Inglaterra na Alta Idade Média é necessário enfrentar este desafio e tecê-la com o que nos contam as fontes da época, mantendo sempre o espírito crítico. Dividimos o trabalho em duas partes. Inicialmente, tratamos dos aspectos socioculturais comuns à todos os povos germânicos que migraram nos séculos V-VI, dando ênfase especialmente à sua organização social. A seguir, tratamos da invasão da Bretanha, dissertando brevemente a respeito da dominação romana e a visão que os romanos tinham dos povos nativos, utilizando a obra de Tácito Vida de Júlio Agrícola como base documental. Ainda comentamos as diferentes formas de invasão realizadas pelas tribos bárbaras, abordando as novas estruturas sociais e a cristianização da Inglaterra no limiar do século VII. Nesta parte, nos valemos da Crônica Anglo-Saxã, escrita em vernáculo durante o reinado de Alfredo, o Grande (871-899, n. 849), rei de Wessex, além da própria obra de Gildas. Na segunda parte, fizemos um breve histórico do pouco que se sabe a respeito da vida de Gildas, para, a seguir, tratar de sua obra, destacando a estrutura do documento e seus aspectos literários. Analisamos as passagens da Destruição Britânica e sua Conquista em que o autor comenta as fraquezas dos bretões, sua incapacidade de governar, os vícios de seus tiranos, responsáveis por sua derrocada e, por fim, sua crítica aos monges de seu tempo, uma crítica mordaz e eloqüente provavelmente influenciada pelo rígido monaquismo irlandês. I. Características dos reinos germânicos Apesar de possuírem características distintas, os reinos germânicos que surgiram no ocidente a partir da queda do Império Romano desenvolveram-se ao longo da Alta Idade Média tendo como alicerce alguns traços comuns. O primeiro deles era o parentesco tribal, instituição antiga e baseada numa tradição linhagística (Maeght, Aet, Sippe, Geschlecht ou Fara). Ela oferecia a segurança necessária aos bens e às vidas dos membros da comunidade, além de proporcionar prestígio ao grupo. Tratava-se de uma rede estável de direitos que uniam as famílias de um povo. A teoria clássica da Sippe a definiu como um clã, uma organização governada por um conselho de anciãos. No caso anglo-saxônico, os clãs eram claramente familiares, agnáticos — parentesco de consangüinidade por linha masculina — e exogâmicos — matrimônios realizados com membros de outra tribo ou, se da mesma tribo, de clãs diferentes. O marido entrava para o clã da mulher (CUVILLIER, 1997: 30). O casamento (éwa) era celebrado no seio do povo: uma troca matrimonial feita de modo equilibrado. Este equilíbrio estava assentado no Mund (paz, honra, proteção e compra). Socialmente, o Mund era o poder de compra da noiva por parte da parentela do noivo. O marido geria o dote da mulher sob a vigilância do clã dela, clã do qual ele passava a estar associado. É este equilíbrio que significa a palavra Mund. Assim que o casamento era consumado, o dono da casa (husherre) — que detinha um poder de vida e morte sobre sua família — concedia à sua esposa o Morgengabe (bens que destinava à mulher caso falecesse antes dela), reconhecendo-a como dona da casa. Cabia à essa mulher germânica exprimir a consciência do grupo (Familiensinn), pois representava o papel principal na manutenção da paz clânica (CUVILLIER, 1997: 33). No entanto, a relação entre essas estirpes foi sempre bastante conturbada, pois sabemos que a sociedade germânica era profundamente marcada por vinganças privadas (fehde), uma decorrência das teias de reciprocidade social. Essas rixas marcaram indelevelmente as sociedades medievais européias e sua existência se prolongou por toda a Idade Média. A vingança podia ser realizada se um dos membros da estirpe fosse morto, ferido ou maltratado, e ela poderia ser proporcional ou até maior que o prejuízo sofrido. Ela tornava-se um dever, mais que um direito, pela manutenção da honra tribal. A estirpe que estivesse ressentida poderia preceder do direito à vingança física mediante o pagamento do wehrgeld, espécie de compensação pecuniária que variava de acordo com a grandeza do ato infligido (PREVITÉ-ORTON, 1967: 193). As reuniões dos homens livres determinavam as questões ligadas aos litígios e às decisões decorrentes, além de fixarem as normas do direito consuetudinário, um outro traço comum a todos os reinos germânicos ocidentais. Tal tradição perdurou mais tarde sob a forma de tribunais locais de justiça. A instituição do comitatus — comitiva composta por um grupo armado (Gasindi, Gefolge) com o objetivo de proteger, na paz ou na guerra, o rei ou o chefe da tribo — era outra forma de proteção social mútua, pois fixava as solidariedades e a camaradagem do bando. Essa tradição germânica se mesclou com o costume romano do Baixo Império Romano de uma guarda pessoal de homens poderosos (bucelari). Ao mesmo tempo em que forneciam uma força bélica, essas comitivas criavam um ambiente de segurança recíproca numa clara relação de interdependência de seus membros. E mais ainda: o Gefolge era a própria estrutura do poder, pois tanto a consagração dos chefes como guerreiros quanto os vínculos de solidariedade foram-se fixando lentamente a partir dessa comitiva armada. Homens livres, jovens em busca de aventuras e riquezas se uniam a um senhor através de um laço de fidelidade e conservando sua liberdade. Estes séquitos militares tiveram um grande papel entre os germanos, pois aceleraram o processo de hierarquização social, consolidando uma verdadeira nobreza guerreira. Mais tarde, o corpo de idéias nascidas desse grupo transferir-se-ia para as instituições feudo-vassálicas, além da própria realeza medieval (MATTOSO, s/d: 346): muitas realezas tiveram origem nesses grupos armados, pois o rei era eleito entre os melhores guerreiros (Heerkönig). Ao estabelecerem-se nas terras do Império, os invasores não tornavam-se meros camponeses. Especialmente godos, burgúndios, vândalos e francos transformaram-se em grandes senhores de novos reinos, fortalecendo seu poder nas terras conquistadas. O fato de a maior parte dos povos germânicos pertencer ao arianismo foi, decerto, um fator de desagregação com os romanos — o arianismo pregava que o Logos (a palavra de Deus que em Jesus se fizera carne) não era o próprio Deus, “mas uma criatura infinitamente superior aos anjos, embora como eles criada do nada antes do começo do mundo (DUFFY, 1998: 22). Essa idéia divulgada pelo bispo Ario (256-336) foi considerada herética no Concílio de Nicéia (325) (FRÖHLICH, 1987: 31). Tal diferença religiosa inibiu durante um certo tempo os casamentos inter-étnicos, além de causar grande desconfiança mútua e inimizades (DUBY, 1974: 21). Certas práticas do Império tiveram continuidade, mesmo que de forma precária, nos novos reinos germânicos. O sistema e os métodos agrícolas mantiveram suas características gerais, com grandes e pequenas terras; colonos, tanto livres quanto servos, tinham seus direitos e deveres numa economia natural quase fechada, com o declínio do uso do dinheiro e do comércio. Os saxões praticavam uma agricultura sedentária em planícies úmidas, com criação de gado, além de cavalos. O usufruto dos bosques, dos campos e das águas era coletivo - tradição mantida mais tarde em alguns territórios tribais do Kent, do Sussex e do Wessex (CUVILLIER, 1997: 38). Seu artesanato era medíocre, mas chegaram a realizar verdadeiras obras-primas na metalurgia (MUSSET, 1967: 12), como pôde ser visto no enterro real de Sutton Hoo, naquele que foi o reino de East Anglia (em Suffolk): um barco sem vela com um tesouro (moedas, harpa, armas, cornos de beber). Figura 1 O rei germânico herdou as prerrogativas imperiais, assim como as terras do reino. A administração civil romana sobreviveu, embora de forma simplificada. O direito romano continuou a reger a vida dos “romanos” e, ao longo do tempo, influenciou a elaboração dos códigos bárbaros. A literatura romana foi conservada especialmente pelo clero, embora houvesse literatos laicos na Itália e na Espanha. A Igreja Católica teve um papel significativo na preservação dos elementos da civilização romana e cristã, numa constante luta contra os ideais bárbaros de violência e paixão. Figura 2 II. A invasão da Bretanha A Inglaterra foi a região menos romanizada da Europa durante a existência do Império Romano. Após a conquista de César (55 a.C.) — que chamou toda a população de britanni por achá-los semelhantes a uma tribo gaulesa — e a invasão de Cláudio (43 d.C.), os romanos dividiram a ilha em duas províncias, subdivididas em quatro no século IV (Camulodunum [Colchester], Lindum [Lincoln], Eboracum [York] e Glevum [Gloucester]), e treze cidades-estado, todas próximas da fronteira com as tribos celtas. Provavelmente os bretões eram um povo proveniente da fusão dos iberos — uma cultura megalítica pré-céltica — e os celtas (MELEIRO, 1994: 55). Segundo Tácito (n.56/57 d.C.), a aparência destes nativos era
Os romanos construíram estradas e cidades na ilha. A aristocracia romana era detentora de grande propriedades, nas quais fundavam vilas; os imperadores mantinham vastas terras nas Midlands e no posterior reino da Ânglia do leste (NICHOLAS, 1999: 83). Estes latifúndios prosperaram à custa dos pequenos agricultores locais. Parece que muitos deles apoiaram os invasores anglo-saxões contra os proprietários de terras romanos (Cambridge Ancient History, 1924: vol. XII, 287). De qualquer modo, uma “cultura romana” floresceu neste período. Muitas casas romanas, construídas com tijolos, dispunham de aquecimento central e várias tinham janelas com vidraças, sempre rodeadas por um vasto jardim. Muitas aldeias foram construídas em volta dessas grandes propriedades (GRIMAL, 1993: 272). Tácito nos conta que Agrícola, governador da Bretanha (78-84 d.C.) e seu sogro, incitaram os habitantes, “homens rudes e dispersos”, a
O principal comércio na região era o da tecelagem, exportado para o continente. Assim, poucas legiões romanas bastavam para manter a segurança na ilha (ALCOCK, 1971). Esse estado de coisas mudaria a partir do final do século II, quando a pirataria céltica aumentou em toda a costa leste, o que obrigou os romanos, em parceria com um conde saxão, a estabelecerem uma linha de fortificações entre a ilha de Wight e a de Wash — desde Diocleciano, o poder na Bretanha foi dividido entre três homens: um governador civil, um Dux britanniarum (espécie de comandante-chefe) e um Comes littoris saxonici, um conde da costa saxônia que dependia do prefeito das Gálias, e não do governador da Bretanha. Essa organização foi relativamente eficaz no combate às invasões de pictos e escotos durante a primeira metade do século IV. Somente a partir da segunda metade do século IV o poder romano viu-se seriamente ameaçado. Em 367, pictos (da atual Escócia) e escotos (Irlanda) — ambos de origem céltica — e piratas saxões planejaram um ataque, repelido por tropas gaulesas e bretãs. A pressão fazia-se sentir: Magno Máximo (383-388), comandante do exército e conde da Bretanha, revoltou-se em 383, levando para o continente, para fins pessoais, a maior parte das tropas — foi morto em Aquiléia (FERRIL, 1989: 63-64). Até 410, com o usurpador Constantino (407-411), as legiões praticamente desapareceram da região. A arqueologia nos mostra que a partir de 402 houve uma interrupção da importação de moedas: provavelmente isso significa que as tropas acantonadas na ilha deixaram de receber seu pagamento. Assim, em 408 formou-se uma milícia de cidadãos romano-bretões para resistir às invasões. É possível que os líderes romano-bretões tenham contratado mercenários para auxiliá-los na defesa. De qualquer modo, o que restou do domínio romano foi uma “aristocracia bretã romanizada” (OLIVEIRA, 1988: 79), que enviava regularmente pedidos de auxílio à corte imperial em Ravena. Essas súplicas mostram o grau de desespero dos bretões face às invasões de pictos, escotos e saxões. Gildas descreve com grandes metáforas os pedidos de socorro dos bretões:
Em outra importante passagem, Gildas mostra o desespero dos bretões e a cartas a Aetius — comandante romano (430-432 e 433-454 d.C.) durante a maior parte do reinado de Valentiniano III (imperador do Império do Ocidente, 425-455 d.C.):
Esse trecho mostra um pedido bretão que não pôde ser atendido pelos romanos, pois estes se retiraram definitivamente da ilha provavelmente por volta de 446 para defenderem suas terras dos ataques de Átila, rei dos hunos (434-453). Na passagem acima também fica claro o comportamento dos bretões face às invasões. Se dermos crédito às palavras de Gildas, os bretões que não se entregaram refugiaram-se nas florestas e montanhas, sem estabelecerem uma resistência eficaz. Aqueles que se entregaram passaram a viver submissos aos invasores. Assim, até meados de 450 a vida urbana foi sendo abandonada, embora com diferenças que variavam de acordo com a região. De qualquer modo, a arqueologia nos mostra que antes de 430 cessara a produção em grande escala de cerâmica. Os ecos desses acontecimentos reverberaram por muito tempo na memória daqueles povos. A Crônica Anglo-Saxã, escrita mais de quatrocentos anos depois, em vernáculo, durante o reinado de Alfredo, o Grande (871-899, n. 849), rei de Wessex, também comenta estas súplicas:
Assim, as invasões na Bretanha foram realizadas por três ramos das tribos germânicas, com dialetos estreitamente similares. Os anglos, provenientes do atual Slesvig, dominaram as áreas próximas ao Tâmisa (Nortúmbria, Mércia e Ânglia do Leste) (PREVITÉ-ORTON, 1967: 244); os saxões, que compunham o grupo dos germanos do mar, na divisão lingüística de Musset (germanos das estepes – godos e seus vizinhos; germanos dos bosques – a maior parte dos da atual Alemanha; e germanos do mar – saxões, frísios e dinamarqueses) (MUSSET, 1967: 11) provenientes da antiga Saxônia, do Elba e do Weser, dominaram a maior parte do sul da Inglaterra (Essex, Wessex, Sussex e Midlessex, respectivamente saxões do Leste, do Oeste, do Sul e do Centro) (ver mapa 1). Por fim, os jutos, pequena tribo provavelmente originária da Jutlândia, no norte da Dinamarca, da Frísia e do baixo Reno (McEVEDY, 1979: 24) conquistaram o Kent, a ilha de Wight e a região do Hampshire (em torno do estuário do Solent). Desses três grupos os jutos são os mais enigmáticos. Segundo a arqueologia, o mobiliário funerário de Kent possui características semelhantes à mobília funerária das regiões francas do Reno inferior (MUSSET, 1967: vol. 1, 97), mas também tem-se notícia que os jutos haviam se estabelecido temporariamente junto aos francos e frísios (PREVITÉ-ORTON, 1967: 244). Segundo os escassos documentos da época confrontados com vários dados arqueológicos, essas tribos não migraram em um movimento coletivo, unificado. Já antes de 410 haviam germanos na Bretanha, pois foram encontrados túmulos no vale do Tâmisa aparentemente de guerreiros frísios e saxões. Provavelmente as invasões foram atos isolados de chefes com seus comitatus (PREVITÉ-ORTON, 1967: 251). Os primeiros saxões a se fixarem na Bretanha eram foederati, mercenários e não conquistadores. Ou seja, eles haviam sido contratados pelos próprios bretões para defender certas regiões da Bretanha. Então, com alguns grupos já estabelecidos, eles começaram uma série de incursões, com o objetivo inicial da rapina (MUSSET, 1967: vol. 1, 99). Em alguns casos, os grupos de invasores eram formados por membros mistos de tribos distintas, entre os anglos, os saxões e os jutos. Figura 3 A figura acima é uma caracterização do tipo de embarcação utilizada por aqueles primeiros imigrantes — por volta de 450 a arqueologia comprova uma elevação do nível do mar, fato que pode ter incentivado a migração, já que algumas aldeias costeiras devem ter sido abandonadas. Como rotas para a invasão foram usados principalmente três estuários: o do Tâmisa, do Wash e do Humber (PREVITÉ-ORTON, 1967: 251) — ver mapa 1. Pelo Tâmisa deu-se a invasão ligada ao nome do herói juto Hengst (ou Hengist), que teria sido convidado pelo chefe bretão Vortigern para auxiliar os bretões a expulsar uma invasão de pictos e escotos. Este monarca lendário, usurpador do trono teria reinado entre 425 e 450 (ZIERER, 2000) Gildas descreve esse convite em sua obra, e considera Vortigern um tirano, um traidor dos bretões:
Por sua vez, Beda, o Venerável (672-735), nos conta, em sua História Eclesiástica das Gentes dos Anglos, que tal invasão ocorreu no ano 449, e ele conta novamente o desenrolar da chegada de anglos, jutos e saxões, mas já com uma visão retrospectiva, pois haviam passado mais de duzentos anos desde o acontecimento:
Assim, a divisão básica dos povos e seus respectivos estabelecimentos provém de Beda — embora não saibamos suas fontes, sua História Eclesiástica das Gentes dos Anglos, juntamente com A Destruição Britânica e sua Conquista de Gildas e a Crônica Anglo-Saxã do tempo do rei Alfredo são os únicos registros escritos que chegaram até nós. Por fim, Hengst e Aesc (seu filho, ou neto) estabeleceram o reino juto do Kent, nome da tribo britânica Cantii. Os saxões também utilizaram o Tâmisa para invadir as regiões que mais tarde tornaram-se Midlessex e Essex. Os anglos utilizaram o rio Wash para atingir as Midlands do Leste. Vimos com Beda que, pelo Humber, os anglos expandiram-se pelo East Riding de Yorkshire (PREVITÉ-ORTON, 1967: 251). Para ressaltar o caráter épico da conquista, a Crônica Anglo-Saxã também destaca a origem divina dos invasores. Hengist e Horsa seriam descendentes em linha direta de Odin (Woden), sua quinta geração:
A linhagem de Hengist e Horsa remontando a Odin é confirmada por Beda, que, no entanto não destaca a divindade de Odin, apenas cita seu nome (BEDE, Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum, XV: 73). De qualquer forma, os primeiros quarenta anos do século V viram os bretões romanizados entregues à própria sorte pelo Império Romano. Nesta nova conjuntura, anglos e saxões foram o principal instrumento da destruição da Inglaterra romana. Durante os séculos V e VI, a ilha provavelmente foi um caos de tribos e reinos em constante pé de guerra, pois assistiu a uma segunda fase de conquista. Bretões e celtas provavelmente não aceitaram a ocupação anglo-saxã. Parte dos bretões migrou para a Armórica, no continente, que passou a chamar-se Bretanha (norte da França). Os que permaneceram na ilha fugiram para o norte, para as montanhas do País de Gales, Cornualha, Escócia e Irlanda. Sua cultura praticamente retornou ao “barbarismo céltico” (TREVELYAN, s/d: 38). No final do século V, a urbanização, a língua latina e o cristianismo estavam em franco declínio com a instalação dos saxões (FERRIL, 1989: 104-105). Gildas nos conta, em sua Destruição Britânica e sua Conquista, que um grande ataque federado saxão teria ocorrido no século V, e que teria arruinado de vez as cidades romanas e devastado toda a região. Tal invasão é associada ao nome do saxão Aelle, senhor das terras ao sul do Humber, que Beda considera o primeiro Bretwalda (soberano da Inglaterra). O mesmo Aelle é atribuído como senhor do Sussex (centro-sul), onde fundou um reino entre o bosque deserto da Anderida e o mar, entre os anos de 477 e 491 (PREVITÉ-ORTON, 1967:251). Nessa luta contra os invasores, os bretões encontram um chefe originário da antiga população romanizada, Aurelius Ambrosius (BOWDER, s/d: 25). Ele teria estabelecido uma brava resistência, que culminou com a famosa batalha no Monte Badon, por volta do ano 500. Tal batalha foi vencida pelo semi-lendário Artur (Artorius) contra a hoste saxã. Gildas descreve Aurelius como o vencedor da batalha do Monte Badon, sem sequer mencionar Artur. Já Nennius, em sua obra História dos Bretões (c. 800), o apresenta como o principal herói do combate por ser um dux bellorum (chefe guerreiro) cristão (ZIERER, 2000). Artur teria vencido sozinho novecentos e sessenta homens. Na narrativa posterior escrita pelo monge Nennius há o acréscimo da imagem da Virgem Maria, sendo carregada sobre os ombros do Artur: “A décima segunda batalha foi no Monte Badon no qual caíram em um dia novecentos e sessenta homens de uma investida de Artur e ninguém os golpeou exceto o próprio Artur, e em todas as batalhas ele saiu como vencedor” (NENNIUS, História dos Bretões, cap. 56). Após tal luta teriam transcorrido quarenta e quatro anos de relativa paz. Durante esse período os bretões dividiram-se em cinco ou mais reinos tribais na região ocidental. Enquanto isso os reinos e a instabilidade aumentavam entre os anglo-saxões no Leste. Por sua vez, os jutos, a partir de Kent, tomaram a ilha de Wight (PREVITÉ-ORTON, 1967: 252). III. As novas estruturas sociais Dos cinco reis bretões nomeados por Gildas, o mais poderoso era Maelgwyn (Maglocune) de Gwynedd. Gildas se refere a esses chefes como tiranos, pois, segundo os padrões romanos, a autoridade deles não tinha legitimidade. Esses reinos de resistência bretã estavam localizados na Dummonia (Devon e Cornualha) e Wales (País de Gales), além de Strathclyde e o reino bretão independente de Elmet, ambos no norte (LEVICK, Internet). Com a morte de Maelgwyn, ficou aberto o caminho que os anglo-saxões esperavam para sua invasão. O chefe anglo Ida iniciou o seu ataque contra os galeses (welsh), bretões que refugiavam-se onde atualmente localiza-se o País de Gales. Após diversos ataques até 592 o ocidente da ilha foi praticamente tomado pelos invasores. O norte também foi dominado em fins do século VI e início do VII, e formou-se o reino da Nortúmbria (PREVITÉ-ORTON, 1967: 252). Como a Bretanha foi a região menos romanizada durante o período do Império, a forma de dominação diferiu em alguns pontos essenciais da ocorrida no continente. Os invasores conservaram e impuseram sua própria língua; mantiveram as instituições bárbaras e o direito consuetudinário, sem influência do direito romano; estabeleceram seus próprios métodos de cultivo. Eles eram pagãos e, diferentemente dos francos, não adotaram o cristianismo. Assim, estavam livres de qualquer influência da cultura latina (PREVITÉ-ORTON, 1967: 253). A conservação de sua própria língua caminhou paralelamente com a toponímia. Os nomes foram praticamente renovados, com exceção de alguns rios e de acidentes geográficos mais genéricos. Durante essa dominação, a débil classe bretã romanizada caiu quase completamente. Os camponeses escravizados do Leste eram pouco mais civilizados que seus novos senhores e pouco contribuíram para a formação dessa nova cultura. A estrutura da Sippe foi alterada pois, com exceção de Kent, onde foi possível manter algumas das condições sócio-culturais originais dos germanos, os invasores se estabeleceram em pequenos grupos, governados em conjunto por aristocratas tribais. Acima do escravo havia o eorl (nobre), e o ceorl (homem livre). No Kent haviam também os laets, provavelmente remanescentes da população bretã. No Wessex, os galeses livres também ocupavam um lugar específico na sociedade. Os povoados organizavam-se em regiões, ou reinos. Em Kent, o reino era uma divisão administrativa, com a possessão real no centro. A tribo era governada por um rei, geralmente considerado descendente de Woden (Odin). Tais realezas eram formadas pelos chefes das guerras de conquista. Ao redor dos reis, reuniam-se a assembléia de homens notáveis, que o auxiliavam na administração e na justiça. Também devia haver em cada reino uma assembléia central. Mas a presença de assembléias não os fazia democráticos, em um sentido moderno. As guerras privadas, o peso das linhagens, o homem “bem nascido”, todos estes fatores diferenciavam-nos como tipicamente bárbaros. Os elementos de mescla cultural entre as populações aconteceram mais no campo do artesanato e, em alguns casos, na produção de gêneros agrícolas. Os anglos e os saxões trouxeram consigo o costume de cremar os mortos. Já os jutos praticavam o sepultamento, tal como os romanos. Eles trouxeram consigo também seus deuses do panteão nórdico. Odin, Thor, e Tyr encontram-se ainda na toponímina ao sul do Humber. Os nomes dos dias da semana também sofreram clara influência da cultura germânica (PREVITÉ-ORTON, 1967: 254-255). Por exemplo, a quarta-feira (Wednesday, em inglês) deriva o seu nome do Deus Odin ou Wotan, a quinta-feira (Thursday) do Deus Thor e a terça (Tuesday) do Deus Tyr. IV. A cristianização da Inglaterra O estabelecimento do cristianismo durante o período romano na antiga Bretanha deu-se especialmente entre os bretões, pois eram romanizados e foram cristianizados a partir do momento em que o Império adotou a religião cristã. Os escotos da Irlanda também foram cristianizados a partir das incursões e do estabelecimento do bretão São Patrício (c. 385-461), segundo a Crônica Anglo-Saxã, enviado pelo papa Celestino I (422-432) em 430 para “pregar o batismo entre os escotos”. Outro santo importante foi São Germano (378-448), mencionado por Nennius na História dos Bretões. Ele esteve duas vezes na Bretanha no século V, tentando extirpar o pelagianismo, uma heresia que afirmava não serem os humanos culpados pelo pecado de Adão, visto pelo santo como uma falta individual. Nennius afirma que São Germano põe em relevo os pecados de Vortigern, como o fato de ter se casado com a filha do chefe saxão e de mais tarde unir-se à própria filha, tendo dela um filho, fatos estes que justificariam a dominação chefiada pelos saxões que veio a seguir (ZIERER, 2000). Com a invasão de anglos, saxões e jutos, o panorama da cristianização da ilha se modificou. Os saxões permaneceram intocados pelo cristianismo; sob a influência dos anglos, pictos e galeses retornaram ao paganismo. Com a saída dos romanos vários outros povos reviveram suas antigas tradições, mantidas por costumes e pela tradição oral (JONES e PENNICK, 1999: 157). Os galeses passaram a viver sob a dominação de reis tribais, e a população sob o regime de clãs e estirpes, com o poder fragmentado entre vários reinos. As igrejas bretã e irlandesa encontravam-se isoladas. Nelas, o papa Gregório (590-604) não exercia qualquer influência. Assim desenvolveu-se uma “microcristandade”, com instituições e estilos próprios, diferindo bastante do continente (BROWN, 1997: 188-201; DUFFY, 1998: 57). A instituição do bispado não era tão importante. Os grandes mosteiros funcionavam mais como centros religiosos, e eram governados por abades em um estilo tribal. Os seus monges fervorosos, de um ascetismo mais rigoroso, tal como Gildas e seus colegas mais famosos Patrício e Columba (528-614), representavam a força da Igreja cristã nas ilhas (PREVITÉ-ORTON, 1967: 256), sendo praticamente os únicos centros de vida intelectual (HEERS, 1991: 32). Figura 4 No entanto, a maior parte da ilha encontrava-se praticamente pagã. Celestino I enviara um bispo chamado Paládio para uma missão junto aos irlandeses, mas com poucos resultados práticos. A conversão da Irlanda — início do processo de conversão da ilha — foi obra do papa Gregório. A lenda é bem conhecida. Ainda diácono, Gregório parece ter visto belos e louros rapazes anglo-saxões num mercado de escravos em Roma. Gregório viu neles os anjos de Deus, e foi tomado do desejo de converter a ilha. Assim, em 597 ordenou que quarenta monges romanos, liderados por Agostinho, prefeito do mosteiro de Santo André, fossem para a ilha com a missão de evangelizá-la. Beda nos conta: “Agostinho, portanto, sendo muito encorajado com o conforto do abençoado pai Gregório, retornou ao trabalho da palavra com os servos de Cristo que estavam com ele e foi para a Bretanha” (BEDE, Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum, XXV: 107-109). O pretexto fora o casamento do rei de Kent, Ethelberto, com Bertha, cristã e filha do rei de Paris. Gregório se referia à Inglaterra como “o fim do universo” (DUFFY, 1998: 56). Ao chegar à ilha, Agostinho se deparou com uma terra totalmente germânica, governada por reis saxões que remontavam a Odin. Não eram urbanos, viviam em vilas fortificadas e aldeias, falavam anglo-saxão ao invés de celta ou latim e seguiam as leis germânicas, muito semelhantes às descritas por Tácito, quinhentos anos antes (JONES e PENNICK, 1999: 157). Para se ter uma idéia da força dos rituais pagãos, segundo Gildas, quando o rei Ethelberto de Kent recebeu este primeiro grupo de sacerdotes cristãos em 597, exigiu que o encontro fosse ao ar livre, para que o vento dissipasse os encantamentos que pudessem tentar lhe lançar com sua “magia estrangeira” (citado por LACEY E DANZINGER, 1999: 27). Assim, no final do século VI a Inglaterra era uma região pagã, com pequenos núcleos de cristianização, como a Irlanda. No ano 600, em uma carta endereçada ao abade Melito, o papa Gregório ainda aconselhava a melhor forma de se converter os bretões:
Bretões sacrificando animais ainda no ano 600! Apesar disso, no tempo de Gildas, sessenta anos antes da redação dessa carta, eles eram os únicos remanescentes do pouco que restou da cultura latina romana — e o papa os considerava “poucos civilizados”. De qualquer modo, como eram a origem social e étnica de nosso autor, isso que explica em boa parte suas lamentações a respeito da degradação de seu tempo. Mapa 2 V. Gildas São Gildas nasceu por volta de 516 d.C., possivelmente nas encostas do rio Clyde (na atual Escócia). Seu pai era um nobre bretão de nome Cau (ou Nau). Gildas tinha um irmão de nome Hull (ou Cuil). Ainda jovem, foi enviado a um mosteiro em Glamorganshire, em Walles, onde foi instruído por São Iltut. Ali foi colega de São Samson e São Pedro de León. Gildas também é conhecido pelo cognome Badonicus, pois, como ele mesmo disse em sua narrativa, nasceu no mesmo ano da famosa batalha do monte Badon (A Destruição Britânica e sua Conquista, 26) — atualmente Bannesdown, próximo a Bath, em Somersetshire. Nessa batalha, como vimos, é atribuída uma importante vitória dos bretões sobre os saxões. Posteriormente, o monge galês Nennius afirmou que o líder dos bretões seria o lendário Artur (História dos Bretões, 56), fato que Gildas não comenta. Beda, que também não menciona a existência de Artur em sua obra História Eclesiástica da Inglaterra, coloca a batalha do monte Badon 44 anos após a primeira chegada dos saxões à Bretanha, em 451 (por essas contas, Gildas teria nascido em 494, e não em 516). Após ter obtido o monacato, Gildas foi à Irlanda e ao norte da Bretanha, e teve sua presença confirmada por relatos de milagres. De volta à Irlanda a convite do rei bretão Ainmire, Gildas fez pregações e fundou igrejas e monastérios. Durante a volta de uma peregrinação feita a Roma, ele decidiu retirar-se para a ilha de Houat. Todas essas viagens descritas pela tradição explicam-se pela idéia corrente de santificação: uma das melhores formas de se consegui-la era viajando e peregrinando (DUBY, 1974: 31). No caso do monaquismo irlandês, haviam duas tradições de peregrinação: a pequena e a grande peregrinação. De qualquer modo, a ilha de Houat era um pequeno pedaço de terra de uma légua de comprimento localizada entre a costa de Rhuys e a ilha de Bellisle, a quatro léguas da última, na costa da Armórica, no continente. Gildas passou a viver ali como ermitão. Quando seu eremitério ficou conhecido através de pescadores e habitantes próximos que acorriam ali em busca de iluminação, os bretões o convenceram a fundar um monastério em Rhuys (península na costa da Armórica). Guerech, o primeiro chefe dos bretões em Vannes, outorgou a Gildas as terras necessárias à construção do monastério. Nesse monastério, provavelmente ele escreveu sua mais famosa e importante obra, A Destruição Britânica e sua Conquista, provavelmente entre os anos 540-546. Gildas resolveu novamente fazer um retiro, passando através do golfo de Vannes e o promontório de Quiberon, até escolher uma gruta nas margens do rio Blavet. Ali achou uma caverna que foi convertida em capela. De tempos em tempos, Gildas saía de seu eremitério para visitar o monastério de Rhuys, aconselhando a todos na busca do caminho das virtudes cristãs. Sabe-se também que em Rhuys viveu Santa Trifina, filha de Guerech. Ela era casada com o conde Conomor, antrustião do rei merovíngio Childeberto. Conomor assassinou Trifina e seu filho, de nome Gildas, e afilhado de São Gildas. Santa Trifina e seu filho são invocados no conjunto de contos galeses intitulado Mabinogion — obra produzida no século XII, mas que remonta ao século VII (O Mabinogion, 2000). Gildas morreu por volta de 570 na ilha de Houat, onde fazia novamente seu retiro, indo poucas vezes ao monastério. Um dos maiores desejos de Gildas era copiar o que lhe parecia ser o modo de vida mais perfeito da vida monástica cristã. Reza a tradição que mal comia e bebia, vivendo asceticamente. Usava um casaco de peles rústico com uma túnica, dormindo no chão com uma pedra como travesseiro. Sua vida esteve voltada para o martírio, um perpétuo sacrifício. O objetivo de sua contemplação era o aprofundamento do conhecimento de Deus e dele mesmo, sendo seus estudos direcionados para a vida dos santos. Suas leituras levaram-no cada vez mais ao isolamento do mundo, uma atitude típica do monasticismo da Alta Idade Média. Gildas é lembrado nas antigas histórias britânicas e citado por Beda e Alcuíno de York. No século XI foi escrita uma biografia de Gildas por um monge desconhecido da abadia de Rhuys. Posteriormente, no século XII, Caradoc, um galês, escreveu outra biografia de Gildas. Ambas possuem uma cronologia bastante incorreta e com várias disparidades, atribuídas à distância temporal do biografado. A data em que São Gildas é comemorado pela Igreja é 29 de janeiro, e no dia 11 de maio comemora-se a translação de suas relíquias, que foram transportadas para Berry no século X. VI. A Destruição Britânica (c. 540) A obra é dividida em três partes. Inicia com um breve Prefácio, onde Gildas destaca o caráter lamurioso de seu escrito e que vai tratar da “situação da Bretanha, sua desobediência e sujeição, sua rebelião, segunda sujeição e terrível escravidão (...) de seus tiranos, suas duas hostis e devastadas nações (...) da subversão de suas cidades e do resto que escapou; e, finalmente, da paz, na qual, pela vontade de Deus, foi garantida em nosso tempo.” (I.2) A segunda parte trata da história da Bretanha e inicia com uma bela descrição geográfica, posteriormente copiada integralmente por Nennius. Gildas comenta a conquista romana, a revolta da rainha bretã Boadicéia contra a ocupação romana, fala de Santo Albano (II.11) († no século IV) — proto-mártir da Inglaterra, convertido por um padre cristão perseguido que ele havia abrigado em sua casa e que sofreu o martírio perto da Vila de Verulam, hoje St. Albans (MOURRE, 1968) — Albano é, ao lado de Thomas Becket, um dos santos mais famosos na Idade Média, motivo de grandes peregrinações a York. A terceira parte, mais extensa, é a sua Epístola. Possui várias construções literárias, além de diversos relatos de príncipes, cléricos e da população bárbara. Gildas endereça sua Epístola aos últimos governadores da Bretanha e a cinco reis bretões, na seguinte em ordem: Constantino (III.28, 29), Aurelius Conanus (III.30), Vortipore (III.31), Cuneglasse (III.32) e Maglocune (III.33, 34, 35 e 36). Além disso, critica a corrupção monástica, segundo ele, uma característica de sua época. Acusa os juízes de iniqüidade (iniquitate), a perversidade, a extrema injustiça — um dos vícios mais constantes de seu escrito. A obra, na verdade, é uma completa exortação de todos os pecados e vícios presentes em sua época e, em sua opinião, praticados por todos os habitantes. Um dos vícios mais citados no texto é a perversidade (perversitate). Tal pecado é um dos conceitos básicos do texto, um vício que Gildas estende quase a todos. Mais do que aquele que possui má índole, o perverso, para Gildas, é aquele que foi pervertido por alguma coisa, ou até por ele próprio. A gama de acusações que Gildas faz aos de seu tempo é bastanta vasta: adultério, gula (grandes festas seguidas de embriaguez), idolatria. A todos Gildas impiedosamente amaldiçoa, enviando-os para o inferno, ou ainda, adverte-os que sofrerão diversos males ainda em vida terrena. Muito importante também é a acusação de tirania por parte dos reis bretões. A base de sua exortação são os exemplos bíblicos, com passagens de profetas e apóstolos. Gildas tem especial predileção pelo Velho Testamento. Por fim, o texto é em seu conjunto um grande sermão, e possui um caráter litúrgico de massa típico dos santos irlandeses. Gildas reprova e adverte os cinco reis que cita em sua obra. Reprova Constantino e exorta-o a ir a Cristo, pois só Ele poderá tirá-lo “das longínquas regiões do pecado”. Caso contrário, o tirano será “atirado e atormentado nas inevitáveis e negras torrentes de eterno fogo.” Gildas vê Constantino como um glutão — um “bezerro engordado” — que come comida de porcos e nunca se sacia. Diz ao rei que ele deve ter em conta a importância do manto e anel reais, pois através deles terá a esperança celestial (III.29). Pior ainda é a descrição de Aurelius Conanus: esse “filhote de leão” está “engolido, como uma enorme enchente do mar, na obscenidade de horríveis assassinatos, fornicações, e adultérios”. Aurelius fechara o portão da paz por amor à guerra civil e à espoliação e foi então deixado só “como uma árvore murchando no meio do campo”. Como Constantino, Gildas diz que Aurelius deve se converter à verdadeira fé, caso contrário, acumulará dores eternas e será para sempre “atormentado e nunca consumido nas cruéis mandíbulas do inferno.” (III.30) Por sua vez, Vortipore, “tolo tirano dos demecianos”, é como o leopardo, pois “age de diversas maneiras e com malícia” e, também como Aurelius, está de cima a baixo “manchado com assassinatos e adultérios”. Beberrão, Vortipore está sentado num “trono cheio de enganos”: tem uma alma miserável, pois vive no pecado da luxúria e incesto com sua filha “sem-vergonha” (III.31). Luxurioso é também Cuneglasse, que expulsou a esposa para estimar sua “detestável irmã” que fez votos a Deus pela eterna juventude. Apesar disso, Gildas julga que Deus dera abundantemente muitas coisas a Cuneglasse. Por isso, o tirano não deve ser adúltero e “orgulhosamente sábio” e sim confiar em Deus e buscar a correção de suas maneiras, isto é, bons hábitos, para se tornar virtuoso. Caso contrário, como os outros, ele será “queimado nas sujas e envolventes chamas do fogo eterno, sem morrer por nenhum meio. Pois as almas dos pecadores estão tão eternamente em perpétuo fogo quando as almas dos justos estão em perpétuo júbilo e contentamento.” (III.32) Maglocune, por fim, é o maior de todos os chefes da Bretanha, tanto em reinado quanto em estatura de corpo, “o dragão da ilha”: o primeiro em malícia, o mais licencioso em pecar, “forte em armas e mais forte em trabalhar a destruição de tua própria alma”. Gildas pergunta a ele: “Maglocune, porque tu estás rolando tolamente na negra poça de brilhantes ofensas como se estivesse afundando no vinho da uva sodomita?” Contudo, apesar de grande, Maglocune é muito pior nos pecados. Gildas fala diretamente a ele:
A cabeça do corpo social estava corrompida pelos vícios. Uma das justificativas mais constantes presentes na literatura política medieval para a derrubada de uma monarquia era o não cumprimento de sua função social: a paz e o bem estar dos súditos. Nesse aspecto, estas passagens da obra de Gildas mostram-se como uma das predecessoras dos Espelhos de Príncipes que surgiriam mais tarde, na corte de Carlos Magno e sucessores, mais de quatrocentos anos depois. Mas não foram apenas os monarcas o alvo das críticas de Gildas. Ao desviar seu olhar para os clérigos, Gildas foi igualmente crítico. Mais do que isso: suas palavras foram de uma contundência poucas vezes vista na literatura medieval. Não seria exagero afirmar que seu capítulo sobre o clero na Bretanha é uma das passagens literárias mais virulentas e mordazes de toda a Idade Média. Apesar de longa, cabe destacarmos esse trecho da Destruição Britânica e sua Conquista, pois ainda podemos sentir seu impacto nos dias de hoje:
O tom do texto é claramente oratório. A sensação é que nosso autor está discursando do púlpito de uma igreja para um grande número de ouvintes. Embora seu estilo seja rebuscado e às vezes sinuoso — características típicas dos textos medievais de pregação, pois visavam atingir as massas e imprimir na memória coletiva certos conceitos básicos com essas repetições, como, por exemplo, a reprovação dos vícios — Gildas não tem pudor de esconder sua grande indignação a respeito dos homens que estavam nos degraus mais elevados de sua tosca sociedade. Além de sentir na pele as conseqüências das migrações de anglos e saxões, o monge bretão aponta o dedo na ferida e indica que os responsáveis pela degradação de seu tempo não foram os invasores do continente e sim seu próprio povo, que não percebeu seus erros e vícios e foi tragado “como uma enorme onda do mar”. A longa passagem destacada acima mostra que suas críticas eram muito pesadas, tão pesadas quanto seu ascetismo: sabemos que o monaquismo irlandês e céltico na ilha era incrivelmente severo, pois era dotado de um “ascetismo feroz e uma concepção excessivamente bárbara da penitência e da salvação” (DUBY, 1974: 31). Bento de Núrsia e seu monaquismo mais moderado não haviam surgido ainda. É bastante provável que Gildas tenha sido influenciado pelo monaquismo irlandês, já que somente a partir do Sínodo de Whitby (663) houve a uniformização do culto nas igrejas da Inglaterra (a favor dos romanos e em detrimento do culto escoto). Além disso, a abadia que Gildas fundou em Rhys estava localizada na Armórica, uma região bastante influenciada pelo monaquismo irlandês, pois a partir da segunda metade do século V os monges irlandeses espalharam-se por todas as regiões célticas, da Escócia e do noroeste da Inglaterra até a própria Armórica, no continente. Conclusão A Destruição Britânica mostra que a situação dos reinos bretões antes das invasões de anglos, saxões e jutos era, aos olhos dos clérigos, bastante caótica, comparada ao antigo e breve surto administrativo romano do século de Augusto, o tempo perfeito, porque fora o tempo de Cristo na Terra. Esse pelo menos deve ter sido o ponto de comparação de Gildas. Suas lamentações a respeito da corrupção dos governantes e dos monges de seu tempo ressoou através dos séculos: tanto Beda quanto a Crônica Anglo-Saxã repetiram os mesmos temas e a mesma forma e seqüência na narrativa da invasão, embora com uma intensidade dramática menor. O fato é que, apesar de pouco confiável historicamente, a Destruição Britânica parece ter marcado profundamente a imagem que as gerações posteriores de leitores medievais tiveram a respeito dos bretões, que foram, como sabemos, incorporados aos novos povos e culturas que migraram para a ilha a partir do século IV. Por um lado, as imprecações de Gildas contra os vícios dos governantes deram o tom que os clérigos medievais deveriam ter a partir de então: os monges deveriam ser os arautos civilizacionais, a mola mestra condutora das consciências, e, principalmente, o ponto de referência para a educação dos governos monárquicos. A partir de então, os monarcas medievais deveriam buscar ser uma imagem de Deus na Terra — mesmo que imperfeita — para servir de exemplo a seus governados. A crítica de Gildas aos monarcas bretões também serviu de suporte político para legitimar os novos reinos que surgiram da crise do século V — a chamada heptarquia — na redação dos escribas posteriores, como é o caso da Crônica Anglo-Saxã. Por outro lado, quando Gildas admoesta os monges, está ansiando por uma reforma. De espíritos e de corpos. Sua idéia de eremitismo não descartava a reforma da sociedade: os monges não deveriam se refugiar e se isolar em seus mosteiros e sim tomar parte da construção de uma sociedade cristã — entenda-se aqui cristã como romana, civilizacional e culturalmente, já que a Igreja foi praticamente a única instituição que resistiu às invasões e perpassou os mundos antigo e medieval. Nessa fase de transição, os monges, à exemplo de Gildas desejavam reformar os seus. Por isso, Gildas luta tanto contra os vícios, acusando os tiranos de serem beberrões, glutões e luxuriosos, desprezando até os conceitos básicos de incesto — como parece ser o caso de Vortipore. O interdito ao casamento entre consangüíneos ainda não havia se firmado (GUICHARD, 1997: 22): Gildas parece contribuir para essa moralização em sua crítica. Assim, a questão não é insistir na existência real ou não desses personagens, como já foi feito. Reais ou não, os governantes de Gildas e a maior parte dos primeiros líderes bretões citados nas fontes que se referem aos séculos V e VI — além dos próprios monges — são exemplos claros da literatura medieval onde os setores letrados da sociedade tentavam civilizar o mundo novo que nascia. E essa tentativa, frutífera na maior parte das vezes, marcou indelevelmente a história do ocidente medieval europeu. *
Fontes The Anglo-Saxon Chronicle. Part 1: A.D. 1 – 748. Online Medieval and Classical Library Release GILDAS. A Destruição Britânica em Elegia (trad. Bruno Oliveira). NENNIUS. História dos Bretões (c. 800) (trad. de Adriana Zierer). O Mabinogion. (trad. e intr. de José Domingos Morais). Lisboa: Assírio & Alvim, 2000. TÁCITO. “Vida de Julio Agricola”. In: Obras Completas. Madrid: M. Aguilar, Editor, 1946, p. 971-1010. Bibliografia
ARNOLD, C. J. Roman Britain to Saxon England. London, 1984. BARRACLOUGH, Geoffrey (ed.). Atlas da História do Mundo. São Paulo: Folha de S. Paulo, 1992. BIRLEY, Anthony. The people of Roman Britain. Berkeley, 1980. BOWDER, Diana. Quem foi quem na Roma Antiga. São Paulo: Art Editora/Círculo do Livro, s/d. BROWN, Peter. El Primer Milenio de la Cristiandad Occidental. Barcelona: Crítica, 1997. Cambridge Ancient History. New York, 1924, vol. XII. CUVILLIER, Jean-Pierre. “A Urfamília Germânica: Povo, Clã, Casa”. In: BURGUIÈRE, André, KLAPISCH-ZUBER, Christiane, SEGALEN, Martine e ZONABEND, Françoise (dir.). História da Família 2. Tempos Medievais: Ocidente, Oriente. Lisboa: Terramar, 1997, p. 23-41. DUBY, Georges. “A ruína do mundo romano: o Ocidente”. In: PERROY; Édouard. História Geral das Civilizações. Tomo III. A Idade Média. A Expansão do Oriente e o nascimento da civilização ocidental. 1° volume. Preeminência das civilizações orientais. São Paulo: Difel, 1974, cap. I, pp. 13-35. DUFFY, Eamon. Santos & Pecadores. História dos Papas. São Paulo: Cosac & Naify, 1998. EDMONDS, Columba. “St. Gildas”. In: The Catholic Encyclopedia, Vol. VI. FERRIL, Arthur. A queda do Império Romano. A explicação militar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989. FRÖHLICH, Roland. Curso Básico de História da Igreja. São Paulo: Edições Paulinas, 1987. GRIMAL, Pierre. A civilização romana. Lisboa: Edições 70, 1993. GUICHARD, Pierre. “Conjugalidade e sexualidade na civilização paleocristã”. In: BURGUIÈRE, André, KLAPISCH-ZUBER, Christiane, SEGALEN, Martine e ZONABEND, Françoise (dir.). História da Família 2. Tempos Medievais: Ocidente, Oriente. Lisboa: Terramar, 1997, p. 17-23. HEERS, Jacques. História Medieval. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991. JONES, Prudence e PENNICK, Nigel. História da Europa Pagã. Lisboa: Publicações Europa-América, 1999. LACEY, Robert e DANZINGER, Danny. O ano 1000. A vida no início do primeiro milênio. São Paulo: Editora Campus, 1999. LEVICK, Ben. Angelcynn. Anglo-Saxon Living History 400-900 AD. MATTOSO, José. “O poder militar na Germânia primitiva”. In: História de Portugal. Antes de Portugal. Lisboa: Editorial Estampa, s/d. McEVEDY, Colin. Atlas da História Medieval. São Paulo: Editora Verbo / Edusp, 1979. MELEIRO, Maria Lúcia F. A Mitologia dos Povos Germânicos. Lisboa: Editorial Presença, 1994. MORRIS, John. The age of Arthur. New York, 1973. MOURRE, Michel (dir.). Dictionaire de Histoire Universaille. Paris, 1968. MUSSET, Lucien. Las Invasiones. Las Oleadas Germánicas. Barcelona: Editorial Labor S. A., 1967. NICHOLAS, David. A Evolução do Mundo Medieval. Sociedade, Governo e Pensamento na Europa: 312-1500. Lisboa: Publicações Europa-América, 1999. OLIVEIRA, Waldir Freitas. Os primeiros tempos medievais. Os reinos germanos. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1988. PREVITÉ-ORTON, C. W. Historia del Mundo en la Edad Media. Desde el Bajo Imperio Romano Hasta la Disolucion del Imperio Carolingeo. Barcelona: Editorial Ramón Sopena, S. A., 1967. Tomo I. TREVELYAN, G. M. História Concisa da Inglaterra. Volume I. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d. ZIERER, Adriana. A História dos
Bretões (c. 800) de Nennius e sua relevância para a construção do Mito
do Rei Artur. Texto inédito gentilmente cedido pela autora, apresentado
na mesa-redonda “Testemunhos da Medievalidade” no III Encontro Regional
da Associação Nacional de História – Núcleo Espírito Santo - Universidade
Federal do Espírito Santo (UFES), em dezembro de 2000. |
|||||||||||||||