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Ricardo
da Costa (Ufes)
Artigo publicado (sem as imagens) em LAUAND, Jean (org.). Filosofia e Educação – Estudos 8. Edição Especial VIII Seminário Internacional CEMOrOc: Filosofia e Educação. São Paulo: Editora SEMOrOc (Centro de Estudos Medievais Oriente & Ocidente da Faculdade de Educação da USP) Factash Editora, 2008, p. 35-62 (ISBN 978-85-89909-71-9).
*** Imagem 1 I. 1095: Pogrom no reino franco A onda antijudaica começou na cidade de Rouen. O historiador Steven Runciman não crê (RUNCIMAN, 1983, vol. I: 138), mas, se dermos crédito ao abade Guiberto de Nogent (c. 1053-1124), os preparativos para a peregrinação armada à Terra Santa provocaram nos seus participantes o desejo de, antes, atacar “a raça mais hostil a Deus que existia”, em sua opinião, os judeus. Assim, sedenta de sangue, a horda prendeu em uma igreja quantos judeus encontrou, e matou todos com suas espadas, exceto aqueles que se converteram (NOGENT, Monodies, Livro 2, cap. V). Pouco numerosos no período carolíngio, em teoria os judeus haviam sido impedidos de ter acesso às funções públicas nas terras francas já no século VI. Contudo, essa interdição não foi respeitada na prática. No século VIII, eles eram, sobretudo, comerciantes (FAVIER, 2004: 82), e prósperos mercadores de escravos (particularmente de pagãos, mas também de cristãos) – como, por exemplo, em Narbonne (PIRENNE, 1970: 75, 86 e 98). Eles estavam livres do impedimento cristão de empréstimo a juros – o Talmude e o Pentateuco proibiam isso, mas só entre judeus. Imagem 2 Por isso, o filósofo e matemático Levi ben Gershom (1288-1344) considerava um mandamento positivo onerar o gentio (o não judeu) com juros, “porque não se deveria beneficiar um idólatra”, e assim se poderia causar “...tanto dano quanto possível [ao gentio] sem se desviar da honradez” (citado em JOHNSON, 1989: 176). O mútuo isolamento cotidiano e citadino também contribuiu para criar lendas entre os cristãos que incentivaram o antijudaísmo. Embora, de fato, os judeus praticassem tanto a magia branca quanto a negra – pelo menos assim revelam os documentos do Beth Genize (literalmente “casa do esconderijo”, câmaras existentes em muitas sinagogas que guardavam documentos) – circulavam estórias incríveis na cristandade, só explicáveis pelo alto grau de superstição vigente: os judeus escondiam caudas, sofriam de corrimentos sanguíneos e, principalmente, serviam ao demônio (JOHNSON, 1989: 195-197 e 209). Um exemplo disso, também narrado por Guiberto de Nogent, nos ajuda a entender o quanto o elevado racionalismo filosófico judaico – em Maimônides (1138-1204), por exemplo – não penetrava na religiosidade popular das massas (e o mesmo ocorria no mundo cristão):
Somado a essa mitologia do medo, o rápido desenvolvimento econômico da sociedade do ocidente medieval a partir do século XI (FOURQUIN, 1986: 129-300) aumentou ainda mais a cisão entre as duas culturas – e a distância entre ricos e pobres. Havia um endividamento gradativo por parte dos cristãos para com os judeus, tanto de nobres (pelo aumento dos custos com o equipamento militar) quanto de camponeses (por causa dos empréstimos para a compra de ferramentas, ou mesmo para enfrentar períodos ruins de colheita). Além disso, a negação do homo oeconomicus por parte da teoria cristã vigente acirrou ainda mais a visão pejorativa que o cristão comum tinha do judeu (TUCHMANN, 1990: 36-40). Ademais, nas mentes “simples e infantis” de então (ROUSSET, 1980: 44), a idéia de uma peregrinação armada à Terra Santa deveria ser precedida por uma “purificação” interna (observe que a palavra cruzada não existia na época). Contudo, a Igreja não era partícipe dessa violência. Séculos antes, Agostinho (354-430) já defendera que os judeus eram o testemunho vivo da fé cristã:
De maneira geral, os papas medievais mantinham essa perspectiva agostiniana. Como disse Heinrich Graetz (Tzvi Hirsh Graetz, 1817-1891), um dos grandes historiadores judaicos de seu povo, “Não fosse a Igreja católica, os judeus não teriam sobrevivido à Idade Média na Europa cristã” (GRAETZ, 1891, vol. III: 563, citado em DURANT, s/d: 350). Podemos dar alguns breves exemplos. O papa (beneditino) Gregório I (c. 540-604) proibiu a conversão forçada dos judeus e manteve seus direitos de cidadania romana em terras pontificais; Eugênio III (1145-1153), ex-discípulo cisterciense de Bernardo de Claraval (1090-1154), abençoou os judeus parisienses quando de sua visita à cidade em 1145; Alexandre III (1159-1181) empregou judeus na administração das finanças; o próprio fundador da Inquisição, Gregório IX (c. 1143-1241) isentou os judeus da jurisdição inquisitorial e escreveu uma bula reprovando a violência das massas contra eles, e Inocêncio IV (1243-1254) – cento e cinqüenta anos após o período que analisamos, em 1247 – rejeitou fortemente a lenda do infanticídio ritual supostamente praticado pelos judeus:
Como se vê, mesmo no período em questão, o das cruzadas, o clássico senso de justiça herdado da Antigüidade e a idéia de preservar o judaísmo para que servisse de testemunho da fé cristã continuavam a existir no seio da Igreja. Isso embora as admoestações papais recebessem ouvidos moucos – especialmente a partir do início das cruzadas. Mas não eram só os papas que saíam em defesa dos judeus. Um pouco antes da Segunda Cruzada (1141-1149), o abade Bernardo de Claraval, extremamente preocupado com os pogroms ocorridos na Europa, demonstrou sua apreensão em relação aos judeus numa carta endereçada aos arcebispos da França oriental e da Baviera. Retoricamente incisivo como de costume, o monge de Cister admoestou os seus a lutarem contra os infiéis na Terra Santa, mas prudentemente pediu o “freio da sabedoria ao zelo ardente por Deus”:
Apesar da bela e contundente pregação de Bernardo, que cita os Salmos, a Sabedoria Salomônica e o Amor Joanino – sua última alusão bíblica nesse trecho é pungente, pois coloca os judeus como irmãos (“Aquele que não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia seu irmão é homicida”, 1 Jo 3, 14-15) – isso não foi suficiente para conter os violentos ímpetos antijudaicos das massas. Para elas, os judeus eram os eternos assassinos de Cristo e deveriam agora purgar seu pecado. Assim como as reflexões filosóficas de um Maimônides não ecoavam em boa parte das comunidades judaicas, a meditação sapiencial dos monges cristãos e sua exortação bíblica não conseguiram incutir a benevolência no rebanho de Cristo. Imagem 3 II. Renânia Imagem 4 Ainda no final de 1095, as comunidades judaicas do reino franco escreveram aos judeus renanos, advertindo-os do perigo iminente:
Para piorar ainda mais a situação, as colheitas de 1094 e 1095 foram péssimas (exceto na Itália), o que fez com que os preços subissem justamente durante os preparativos para a expedição (GARCIA-VILLOSLADA, 2003: 371-372). A região renana era comercialmente muito próspera e ativa. Os judeus haviam se instalado naquela região já no período romano (FALBEL, 2001: 45). Até o início do século XII, os príncipes mais ricos e poderosos de toda a Europa encontravam-se a leste do reino franco (e no norte da Itália) (NICHOLAS, 1999: 202) e, de fato, as comunidades judaicas na Renânia eram bastante prósperas (FALBEL, 2001: 45). Assim, a conjunção prosperidade judaica renana/crise agrícola/alta de preços no final do século XI provavelmente ajudou a aumentar drasticamente a hostilidade das massas para com os judeus renanos, além, é claro, da instigação feita pelo conde Emich II von Leiningen e seu grupo. III. Leiningen (†c. 1138) Imagens 5
e 6 A antiga vila de Leiningen (ou Leisingen, atualmente Altleiningen) se encontra hoje no Distrito de Bad Dürkheim, a leste do Bosque do Palatinado (Pfälzerwald). No final do século XI, Leiningen era uma minúscula vila, encravada no coração do Sacro Império Romano-Germânico, praticamente na intercessão entre a Francônia, a Suábia e a Lotaríngia, na fronteira com Champagne e o ducado da Borgonha. Como tantos outros aglomerados humanos, Leiningen foi quase que imediatamente atraída pelo sonho da peregrinação à Terra Santa, no eco da pregação do papa Urbano II em Clermont-Ferrand, em 1095. A região se encontrava no coração do fenômeno conhecido como feudalismo clássico (GANSHOF, s/d) – a quantidade de castelos na região o prova. Paralelamente, também ocorria um revivescimento comercial dos emergentes centros urbanos, concentrados ao longo do Reno (ver imagem 4). As comunidades judaicas eram, em grande parte, responsáveis por esse pujante comércio, protegidas que estavam pela concessão de franquias reais, devido ao ressurgimento do poder imperial sob os otonianos (947-1017). Era um fato costumeiro os poderes instituídos na Idade Média protegerem os judeus contra as recorrentes demonstrações antijudaicas das massas urbanas – não sem cobrar por isso. A cronologia do florescimento da dinastia otoniana, seu renascimento cultural (conhecido como renascimento otoniano) e sua decadência têm relação direta com o apogeu e declínio das judiarias renanas e de seu próspero comércio de longa distância. A primeira menção segura de Leiningen data de 1128 – uma certidão emitida pelo arcebispo de Mainz (Mogúncia), Adalberto I von Saarbrücken (1111-1137), ao conde Emich II. Ali, Emich construiu o núcleo principal de seu senhorio e, provavelmente, ajudou na construção do burgo e do coral da capela claustral do mosteiro agostiniano de Höningen (Chorherrenstift). Contudo, o conde de Leiningen entrou para a História por ter praticamente inaugurado os pogroms na Europa e transformado para sempre a vida dos judeus europeus. Imagem 7
Imagens 8
e 9 IV. Problemas metodológicos Para tratarmos dos pogroms nas cidades renanas do ponto de vista judeu, temos três documentos escritos, todos traduzidos diretamente do hebraico medieval pelo professor Nachman Falbel (USP): 1) A Crônica
de Salomão bar Sansão, preservada em um só manuscrito
do século XV; A utilização das Crônicas Hebraicas para a análise dos massacres das comunidades judias no norte da França e na região renana durante a passagem da Primeira Cruzada exige algumas ponderações e matizações, pois elas apresentam uma série de dificuldades interpretativas que, caso encaradas de forma acrítica, certamente comprometem o resultado e a credibilidade de qualquer pesquisa sobre o tema. Em primeiro lugar, não é possível identificar a data em que elas foram escritas. Além disso, não sabemos ao certo se elas são originárias de uma fonte comum ou se foram redigidas a partir de outras fontes já existentes, que se perderam com o passar do tempo. Por fim, suspeita-se que foram registradas por volta de quatro a cinco décadas após os acontecimentos, através de testemunhos dos judeus que sobreviveram àqueles dias fatídicos. Não há segurança de que os judeus que presenciaram os massacres – ou seus descendentes – sejam os mesmos que, cerca de cinqüenta anos depois, relataram os acontecimentos aos cronistas. Durante esse intervalo de tempo, eles envelheceram, receberam influências que podem ter modificado, acrescentado ou omitido passagens que permaneceram em suas lembranças. Em seus depoimentos posteriores provavelmente já havia uma reflexão, uma reelaboração, certamente um julgamento seletivo dos fatos relembrados, além da incorporação da memória coletiva que, marcada pelas lembranças, mas, também, pelo esquecimento, tornara-se seletiva (PESAVENTO, 2005: 95). Para I. F. Baer, alguns judeus que residiam nas cidades invadidas escreveram cartas, nas quais relataram as ações dos exércitos cristãos que se dirigiam para Jerusalém. Esses textos, segundo esse autor, posteriormente foram utilizados para a confecção das Crônicas, escritas cinqüenta anos depois. Contrariamente a esta posição, Sonne acredita que as diferentes versões presentes nas Crônicas são oriundas de fontes originais e independentes. Por fim, mais recentemente, Anna Sapir Abulafia levantou a hipótese de que a Crônica de Salomão bar Sansão pode ser uma compilação da Crônica de Eliezer bar Nathan e da Crônica Anônima, e que a primeira teria sido escrita entre 1140 e 1146, a segunda antes de 1146, e a terceira contemporânea aos acontecimentos. Some-se a isso o fato (agravante) de os manuscritos existentes terem sido compilados cerca de quatrocentos (para o caso da Crônica de R’ Eliezer bar Nathan) ou quinhentos anos depois (a Crônica de Salomão bar Sansão). A necessidade de uma investigação filológica mais apurada dos textos torna-se necessária, pois, constatamos, seguindo a tese de Baer e a de Falbel, que as Crônicas foram escritas com o intuito de fortalecer a fé das comunidades judias que sobreviveram à violência dos exércitos cruzados. Os cronistas possivelmente exageraram na descrição do apego dos judeus à religião e, conseqüentemente, também pintaram com tons mais fortes a descrição do suicídio coletivo, criando assim um martiriológico – o kidush hashem (FALBEL, 2001: 66-73). IV.2. As fontes cristãs Por sua vez, as crônicas cristãs que aludem aos massacres são as obras de Alberto de Aix-la-Chapelle (ou de Aachen) e Ekkehard de Aura († 1126). O primeiro nasceu no fim do século XI e escreveu sua obra (Liber Christianae Expeditionis pro Ereptione, Emundatione et Restitutione Sanctae Hierosolymitanae Ecclesiae) por volta de 1130. Nada se sabe de sua vida, além do fato de ter visitado o Oriente. Seu relato é considerado o mais completo da primeira cruzada, embora a crítica hoje avalie que seu texto compila com pouco senso crítico (mesmo para a época), lendas de testemunhas oculares, além de quase nunca citar suas fontes. O segundo era abade do mosteiro beneditino de Aura, na Bavária (Aura an der Saale, atualmente distrito de Bad Kissingen), e foi com os cruzados alemães para a Palestina em 1101. Ao regressar para a Alemanha, compôs uma crônica do mundo chamada Hierosolimitana, contando também um pouco de sua vida, além de histórias que lhe foram narradas por seu amigo (igualmente monge) Frutholf, do mosteiro de Michelsberg, por cruzados e, também, redigidas por outros autores. Ekkehard normalmente indica suas fontes, embora seja considerado um homem demasiado crédulo (RUNCIMAN, 1983: 314-315). Em resumo: não possuímos nenhum relato de primeira mão, judeu ou cristão, e parte do material sobre o tema sofreu as interferências da memória coletiva, dos acréscimos naturais das tradições orais, a credulidade dos personagens de então, e a possibilidade da seleção e amplificação por parte dos narradores e copistas. Todos esses aspectos compreensivos devem ser levados em consideração no momento de comparar, interpretar as passagens de ambas as tradições religiosas e efetuar nossa narrativa. No entanto, é preciso deixar claro, que não defendemos nem o relativismo nem o ceticismo, que atualmente vigoram nos círculos acadêmicos: as diferentes versões dos massacres, registradas por diferentes escritores de diferentes credos, são um indício, um rastro que prova a existência do fato (GINZBURG, 2007). O que cabe a nós, historiadores, é compararmos, ponderarmos, interpretarmos e julgarmos as narrativas para chegarmos a um consenso sobre os eventos. IV.3. A rispidez das fontes hebraicas em relação ao cristianismo De modo geral, as Crônicas Hebraicas referem-se ao cristianismo de uma forma muito agressiva e desrespeitosa. Nachman Falbel chega mesmo a utilizar o conceito de “expressões polêmicas anticristãs” para explicar a – sábia – decisão de as traduzir o mais fielmente possível. Por exemplo, assim o Anônimo de Darmstadt inicia seu texto comentando a decisão da cruzada:
Por sua vez, os cristãos são chamados de “incircuncisos impuros” e “filhos da imundície”; o papa Urbano II (1042-1099) de “Satã de Roma, a criminosa”; Cristo de “o pendurado”, o “que nasceu da prostituição”, além de “...pendurado crucificado, rebento inanimado e maculado, ídolo abominável em sua geração, bastardo concebido por uma mulher menstruada e devassa.” (Anônimo de Darmstadt, p. 152). O que significa essa profusão de impropérios contra Jesus Cristo, Maria, a Igreja e os cristãos como um todo? Uma amplificada lembrança rancorosa dos massacres ou um sentimento latente das relações com os cristãos que jazia oculto no âmago de cada judeu? Se a resposta for a primeira hipótese, a recordação do martiriológico serviu para fortalecer o histórico elo que ligou por séculos as comunidades ashkenazis; se a resposta for a segunda tese, as expressões manifestam uma convivência tensa, com um grau de incompreensão e intolerância, que pode facilmente ter escoado para o convívio social e especialmente econômico. Mas, ainda, cabe uma segunda questão: aquelas expressões foram, de fato, proferidas pelos personagens do massacre? Pouco provável. Registradas séculos depois, o mais verossímil é que os cronistas tenham expressado sua dor ao registrarem os depoimentos orais que receberam de segunda, terceira mão. Caso desenvolvamos essa idéia, podemos sugerir que as “polêmicas expressões anticristãs” são, simultaneamente, o registro de um lamento póstumo e também do cerne do pensamento judaico em relação ao cristianismo. Elas são um rastro documental de que, por baixo de cada compra e venda, de cada empréstimo a juros, de cada contato social entre as religiões, existia uma profunda camada de ressentimentos e preconceitos, dos dois lados. V. Emich II von Leiningen (†c. 1138) e o pogrom em Speyer (Spira) (03 de maio de 1096) Imagem
10 A cidade de Speyer (Spira) tinha uma considerável comunidade judaica que, desde o início do século XI, se expandira consideravelmente, e prosperara principalmente pelo fato de ter recebido uma carta de imunidade (charta immunitatis), concedida pelo bispo da Igreja Rudiger Huosmannus (c. 1074-1090). Graças a ela, eles podiam ter escravos cristãos, vinhedos, pomares, tribunal próprio, além do direito de vender aos cristãos a carne não consumida do abate ritual. Em caso de um litígio entre um judeu e um cristão, o judeu deveria ser julgado nos costumes judaicos (FALBEL, 2001: 46). Esses privilégios foram outorgados em 1090 pelo imperador Henrique IV (1050-1106) – o mesmo que desencadeou a famosa Questão das Investiduras. Speyer ficava a sudeste de Leiningen. O conde Emich, “homem de reputação muito ruim por causa de seu tirânico modo de vida”, segundo o cristão Ekkehard de Aura, ignorou as concessões do imperador Henrique IV. Reuniu um exército (o terceiro que se preparou para a peregrinação) composto por nobres franceses e alemães, além de uma pequena multidão de peregrinos (RUNCIMAN, 1983: 139) e decidiu começar sua mortandade no dia 03 de maio, atacando justamente a comunidade de Speyer. Emich von Leiningen (†c. 1138), ao qual as fontes hebraicas se referem como “Emico, o cruel”, e costumam completar seu nome com “...que seus ossos se transformem em pó”, ou “...inimigo odioso de todos os judeus”, ou ainda, “...que seus ossos sejam pulverizados”, era um senhor menor da Renânia, embora o cronista Alberto de Aix se refira a ele como “um nobre muito poderoso dessa região” (Alberto de Aix, Internet). Como tantos outros senhores dessa época – o terrível Thomas de Marle (ou de La Fère, c. 1078-1130), sire de Coucy, Boves, Marle, La Fère, Crépy e Vervins, por exemplo – ele havia granjeado fama por sua vida de banditismo, pilhagem e licenciosidade. Além de tudo, um mau senhor. Infelizmente isso não era incomum. Muitos não tinham sido verdadeiramente tocados pelas assembléias de paz organizadas pela Igreja, conhecidas como a Paz de Deus (século X) e a Trégua de Deus (séc. XI). Mal começara o processo civilizador cristão (COSTA, 2001). Pois mesmo a Igreja não conseguia penetrar no fundo das consciências e alterar os hábitos violentos dos homens de então. O próprio Emich é um exemplo disso: apesar de viver fora das prescrições religiosas propaladas pela Igreja, o conde dizia a todos que tinha sido marcado na carne com a cruz de Cristo. Verdade ou não, mesmo com sua vida violenta – ou precisamente por isso – ele sentiu-se tocado pela pregação da cruzada e, decidiu, uma vez mais, pegar em armas. Somado a esse violento contexto cultural, Emich exercia um verdadeiro fascínio sobre os espíritos – durante muito tempo, inclusive, a lembrança de seu nome persistiu em sua terra natal (OLDENBURG, 1968: 114). Graças a esse carisma, ele reuniu “um grande grupo de teutônicos” (segundo Alberto), “quase doze mil portadores da cruz” (segundo Ekkehard). Dentre eles, simples peregrinos, mas, também, senhores da nobreza francesa e alemã (de Zweibrücken e Salm, na Renânia-Palatinado, e de Viernenberger), além de Hartmann de Dillingen, os picardos Drogo de Nesle e Clarambaldo de Vendeuil, o próprio Thomas de Marle e o visconde Guilherme I de Melun, o Carpinteiro (assim cognominado por sua força física) (RUNCIMAN, 1983, vol. I: 139). Em suma: um verdadeiro bando de salteadores. Assim, “...chamado pela revelação divina como outro Saul, por ter mantido a prática da religião à sua maneira, ele usurpou para si o comando de quase doze mil portadores da cruz” (Ekkehard de Aura, Internet) e os convenceu a atacar a comunidade judaica de Speyer. Em um sábado mataram dez ou onze pessoas que não quiseram ser batizadas – além de “uma mulher santa” ter-se imolado para escapar da conversão. Ao saber disso, João, bispo da cidade (1090-1104)
Mais adiante, o Anônimo de Darmstadt nos informa que, com o auxílio do rei, esse mesmo bispo salvaguardou o restante da comunidade de Speyer “para suas cidadelas fortificadas”. Como bem observou Nachman Falbel (FALBEL, 2001: 143), o cronista do Anônimo utilizou a expressão “homem justo” por este ser um conceito basilar do judaísmo – todos os “justos das nações do mundo” (isto é, os gentios que ajudam Israel em momentos difíceis) têm lugar no mundo vindouro (Mishneh Torah, cap. 3, 13). Essa firme atitude do bispo de Speyer – em conformidade tanto com a perspectiva agostiniana quanto a carta de imunidade concedida pelo bispo anterior (Rudiger Huosmannus) e outorgada pelo imperador Henrique IV, como vimos – não foi uma exceção: veremos que todos os representantes da Igreja nas cidades onde ocorreram os massacres comportaram-se de modo semelhante. Contudo, seus gestos e apelos não foram atendidos pelas massas, incitadas que estavam por seus líderes, e ávidas de sangue hebraico. Certamente, o bispo de Spira teve mais sucesso em sua defesa da comunidade judaica por ser um senhor feudal poderoso, conde de Kraichgau (região de Baden-Würtemberg), senhor de várias cidades e, especialmente, chefe de um poderoso exército. VI. Massacres em Worms e Mainz (Mogúncia) (18-28 de maio de 1096) Imagem 11 Seguindo em sua rota de mortandade, o exército do conde Emich chegou a Worms no dia 18 de maio. A cidade contava com uma importante judiaria. A prosperidade econômica da comunidade renana era acompanhada de uma notável riqueza cultural: as primeiras escolas superiores em terras alemãs foram justamente as escolas rabínicas de Worms e Mainz (FLASCH, 2006: 306). Em Mainz (Mogúncia), por exemplo, o rabino Gershom ben Jehuda (c. 960-1028) fundou uma academia rabínica (Yeshiva) que se tornou muito importante. Seu comentário sobre o Talmude tornou-o uma autoridade muito consultada pela judiaria germânica. Ele também ficou conhecido por ter decretado a excomunhão de todos os judeus polígamos. Em comparação a Speyer, os cruzados recrudesceram ainda mais o seu massacre em Worms. Os “lobos das estepes” vieram para forçar os judeus “nas águas pestilentas [do batismo]” (Crônica de Salomão bar Sansão, em FALBEL, 2001: 76). Uma vez mais, Eppo, o bispo da cidade (Gegenbischof, 1090-1105), interveio, e abriu as portas de seu palácio para proteger os judeus – o bispo Adalberto II von Sachsen (1070-1107) era adepto da reforma gregoriana e, por isso, estava afastado. Os judeus não eram populares em Worms: os próprios citadinos abriram as portas da cidade para o exército de Emich (Anônimo de Darmstadt, em FALBEL, 2001: 150). Ademais, já corria um rumor de que “eles” haviam contaminado a água com um cadáver para, assim, envenenar os poços da cidade. O Anônimo de Darmstadt nos informa que
A acusação de envenenamento dos poços era nova. Difundida muito mais tarde – quando da Peste Negra, no século XIV – ela somava-se a acusações mais antigas como, por exemplo, a da profanação de hóstias. A credulidade das massas certamente foi um fator decisivo para a aceitação dessa incrível estória. As Crônicas Hebraicas, por exemplo, narram o fantástico milagre do ganso que desejava ir à cruzada – e “sabia” o caminho. Muitos o seguiram, esperançosos de chegar à Terra Santa. Assim, incitados pela acusação de envenenamento dos poços com o cadáver, “como animais esfaimados” (Is 9, 11), os cruzados de Emich queimaram a Torah e, após sete dias de matanças nas ruas da cidade, invadiram o palácio do bispo para trucidar os que lá se encontravam protegidos. Sem um exército como João, bispo de Speyer (e conde), o bispo de Worms nada pôde fazer. Pior: teve que fugir para salvar a própria vida. Segundo a Crônica de Salomão bar Sansão, durante dois dias foram mortos cerca de oitocentos judeus – “...noivos sacrificaram suas noivas e mulheres piedosas a outras criaturas” (em FALBEL, 2001: 76). Emich
Contudo, os cruzados de Emich não estavam ainda satisfeitos. Desviando-se de sua peregrinação à Terra Santa, margeando o rio Reno e dirigindo-se cada vez mais para o norte, chegaram à próspera cidade de Mainz (Mogúncia). Mas dessa vez encontraram as portas fechadas, por ordem do arcebispo da cidade, Rothard II (1088-1109). Os judeus da cidade sabiam do ocorrido em Speyer e Worms e tinham procurado o bispo, em busca de socorro, que lhes disse:
Alberto de Aix o confirma: segundo ele, os judeus puseram um imenso tesouro na guarda do bispo Rothard, pois tinham muita fé em sua proteção, já que ele era o bispo da cidade:
O massacre de Mainz é o que merece o maior espaço nas Crônicas Hebraicas, o que contém o maior número de diálogos. Segundo a Crônica de Salomão bar Sansão, os judeus se encontraram com o próprio Emich e deram a ele sete libras de ouro por suas vidas. De nada adiantou. Os citadinos abriram as portas da cidade para ele, e os exércitos invadiram, “para vingar o sangue do crucificado”. Liderados por R’ Kalonymus bar Meshulam, o Parnass (chefe da comunidade), os judeus “...vestiram suas armaduras e pegaram em armas de guerra, dos mais velhos aos mais jovens”, mas, devido aos jejuns e penitências que tinham feito, estavam sem forças para resistir àquele ataque (Crônica de Salomão bar Sansão, em FALBEL, 2001: 82). Entrementes, os homens de Israel haviam se refugiado no palácio do arcebispo. Este, ao ver o ímpeto assassino da multidão, fugiu com seu séquito. Nachman Falbel o acusa de covardia, e afirma que foi “pusilânime e traiçoeiro” (FALBEL, 2001: 50). Contudo, judeu ou cristão, quem ali permaneceria? A luta ocorreu no pátio interno, judeus contra cruzados e citadinos. Ao verem que seu destino estava selado, todos os judeus, juntos, choraram e aceitaram o fim. Como em Massada (73 a.C.), decidiram então pela imolação coletiva, o kidush hashem. Num longo discurso coletivo proferido na Crônica de Salomão, do qual só podemos extrair seu significado (já que é completamente inverossímil que uma comunidade inteira proferisse um texto tão longo em meio a um ataque naquelas circunstâncias), eles “disseram uns aos outros”:
Novamente, o suicídio coletivo é confirmado por Alberto de Aix:
De todo o longo rol de estórias das Crônicas Hebraicas, porém, a mais pungente é a de uma mãe que, vendo os cruzados se aproximarem para arrombar a porta, decidiu matar seus quatro filhos. Ela preferia isso a vê-los convertidos à “fé dos incircuncisos”. Um deles, de nome Aarão, apavorado, ao ver a mãe apunhalar o irmão ainda no berço, se escondeu embaixo de uma caixa e gritou: “Minha mãe, não me sacrifique!”. A Crônica a denomina “a Justa”, pois ela respondeu: “Também não terei piedade ou misericórdia de ti!”. Resoluta, a mulher “...sacrificou-o ali mesmo, perante o Deus das alturas”. Quase que imediatamente, os cruzados arrombaram a porta, viram-na agonizando, e perguntaram onde estava escondido o seu dinheiro. Mas, ao verem as crianças mortas, “espancaram-na e mataram-na sobre eles, e sua alma pura expirou” (Crônica de Salomão bar Sansão, em FALBEL, 2001: 88). A matança ainda durou dois dias. *** Com algum dos seus – e graças à ajuda do arcebispo Rothard, o “pusilânime”, segundo Falbel – o rabino Kalonymus ainda conseguiu fugir à noite com cerca de cinqüenta judeus, através do rio Reno, para o burgo de Rudesheim. Ali pediu asilo ao arcebispo da cidade que, muito satisfeito, se alegrou por ele ainda estar vivo, e prometeu salvá-lo, juntamente com aqueles que com ele se encontravam. Contudo, logo a seguir ponderou que não tinha como salvá-los, a não ser que se convertessem; do contrário, que “carregassem o pecado de seus antepassados”. O rabino respondeu: “Tuas palavras são verdadeiras e corretas, que não tens força para nos ajudar”, e pediu uma noite para decidir. Ao consultar sua comunidade, contudo, o rabino e os seus decidiram pelo sacrifício. Kalonymus foi o primeiro a dar o exemplo: beijou e matou seu filho José. Ao saber disso, o bispo ficou muito irritado, disse que não desejava mais ajudá-los – e contou aos aldeãos o ocorrido. Estes decidiram então juntarem-se aos cruzados e matar os últimos sobreviventes de Mainz (Crônica de Salomão bar Sansão, em FALBEL, 2001: 98-99). E assim, os cruzados “profanaram em nome do pendurado”. Conclusão Imagem 13 À medida que a Idade Média se aproximou de seu entardecer, de modo geral, a intolerância cresceu (COSTA, 2004). A condição social dos judeus conseqüentemente piorou, como bem sublinha Maurice Kriegel (2002: 37). Do antijudaísmo nascido nas cruzadas, a civilização ocidental caminhou a passos largos para o anti-semitismo, palavra originada somente no século XIX (ARENDT, 1989: 17-143), a ponto de Karl Marx (1818-1883), ele próprio um judeu, afirmar, em um vigoroso e ácido texto seu de natureza anti-semita (A questão judaica, de 1844), que os judeus eram anti-sociais, egoístas (pois só pensavam em seus interesses e benefícios), tinham como Deus secular o dinheiro e a letra de câmbio, que um judeu apenas tolerado em Viena decidia, com seu poder monetário, a sorte de todo o Império Austro-Húngaro, e que o cristianismo era o pensamento sublime do judaísmo, “assim como o judaísmo é a aplicação prática vulgar do cristianismo” (MARX, 1991: 55-62). Do ponto de vista compreensivo-histórico, o extermínio nazista do século XX só dificultou ainda mais o estudo histórico das relações entre as duas religiões e a análise do importante papel do judaísmo na construção do mundo contemporâneo. Assim, como entender uma atrocidade ocorrida há mais de novecentos anos? Como historiadores, devemos nos abster de julgar os fatos históricos, como tantos hoje apregoam? A compreensão impede o julgamento? Essas perguntas devem ser respondidas antes de concluirmos essa breve investigação. Em nossa consideração, é impossível não julgar com extrema severidade os massacres do Reno: fazer História sem juízo é uma temeridade, pois nosso reconhecimento do passado implica necessariamente o conceito de julgamento (GINZBURG, 2003). Ademais, nenhuma sociedade age sem algum sentido do certo e do errado (“...mesmo Hitler sabia que o Holocausto era imoral, ou não teria feito esforços para escondê-lo”, GADDIS, 2003: 141), e o sucesso com que o relativismo histórico é acolhido atualmente nos círculos acadêmicos é um imenso retrocesso ético, significativo sinal dos tempos hodiernos. Embora o processo de estranhamento entre cristãos e judeus só crescesse, do final do Império Romano do Ocidente até o início do século XI, embora houvesse, de fato, uma cultura geral ainda bastante embrutecida, bem como os empréstimos a juros praticados pelos judeus causassem muita antipatia nas massas e, embora a teoria antieconômica cristã, defendida pela Igreja, involuntariamente só acirrasse, ainda mais, as diferenças entre as práticas sociais das duas religiões, o fato é que, como vimos, até mesmo os contemporâneos letrados cristãos registraram com severidade os atos praticados pelo conde Emich. Em outras palavras, mesmo para a época, aquela selvageria foi vista como um ato bárbaro, pois os clérigos medievais tinham, em que pesem as circunstâncias, uma notável noção do certo e do errado. Ademais, a pregação da passagem (esse era o termo utilizado pelos medievais para se referirem à cruzada), isto é, da peregrinação armada aos lugares santos atacados para novamente possibilitar aos crentes uma viagem segura, foi acompanhada de uma notável preocupação da Igreja com o antijudaísmo das massas. Não por acaso, Bernardo de Claraval, um dos espíritos mais vigorosos da época – e mal visto por parte da historiografia atual, que, anacronicamente, o considera o defensor de uma espécie de jihad católica (BERLIOZ, s/d) – saiu em defesa dos judeus, avisado que fora dos excessos cometidos por salteadores entre os cruzados, e chegou mesmo a peregrinar pessoalmente àquela região para tentar pôr fim aos massacres (COLOMBÁS, 1993: 163). De qualquer modo, o fato é que os pogroms de 1096 inauguraram novos e difíceis tempos na sociedade do ocidente medieval para os judeus: a partir de então, progressivamente, a vida seria cada vez mais penosa para as comunidades judaicas. O martiriológico das Crônicas Hebraicas serviria como uma forte lembrança de sua consciência de grupo religioso, que os diferenciavam dos goim, do resto do mundo. Aquele maio sangrento nunca deveria ser esquecido. Através das Crônicas Hebraicas, os hediondos crimes do conde Emich II von Leiningen contra os judeus renanos ficaram marcados indelevelmente na memória do povo escolhido. Mas o pior ainda estava por vir. *** Fontes Internet
Jewish History Sourcebook. Bibliografia
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