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Ricardo da Costa (Ufes)
In: Pequena Morte 17, Junho/Julho 2009 (ISSN 1980-6787) In: SANTOS, Franklin Santana (org.). A Arte de Morrer - Visões Plurais - Volume 3. Bragança Paulista, SP: Editora Comenius, 2010, p. 118-134 (ISBN 978-85-98472-27-0)
Nascemos, vivemos e morremos. Esta é uma certeza, uma verdade a-histórica, universal e comum a todas as culturas ditas humanas que já existiram, existem e ainda existirão na face da Terra. Outra característica humana é que sempre pensamos e refletimos sobre a finitude da vida, sempre estivemos perplexos com a morte. A morte. Ela iguala a todos, ricos e pobres, homens e mulheres. Para além dela, o Além: ele é um mistério, uma incerteza, um tabu (RODRIGUES, 1983: 17). Essa herança milenar sofreu um rude golpe com a modernidade. Hoje, nossa sociedade, dita ocidental, cada vez mais tenta prolongar a vida, não envelhecer, se distanciar da morte, e principalmente não pensar nela, esquecê-la. Afinal, todos os mitos foram destruídos e pisoteados, apesar de a brevidade da existência ter sido reafirmada. Hoje afirma-se que após o “sono eterno” há o nada, o aniquilamento. Resta então viver a vida, gozar os prazeres dos sentidos corporais. Hoje há uma crise, crise de paradigmas metafísicos. Hoje, sobretudo no mundo ocidental, muitos morrem mentalmente jovens e não pensam sobre o sentido de nossa existência. Porém, os atuais movimentos populares religiosos, também uma permanência ao longo da história humana (DELUMEAU, 1997), reciclam as preocupações com o além e com o destino das almas dos homens. Sabemos que a crença ou a descrença no Além modifica o comportamento humano. Quando não se acredita numa outra vida há um determinado tipo de atitude diante situações do cotidiano; quando se acredita também, especialmente quando o tempo em questão é a Idade Média ocidental (OEXLE, 1996: 28). Nesse período, o mundo era considerado um local de combate contra o Diabo, um combate pela salvação da alma (LE GOFF, 2002: 22). São elementos (mentais) interferindo em ações (materiais), aspectos culturais e, sobretudo, religiosos, que alteram e modificam o comportamento social. E depois da morte? O que há? O que já pensamos a respeito? A Idade Média foi rica nesse campo subjetivo. Criou imagens que forjaram nossa cultura ocidental (ARIÈS, 1989: 65) e muitos de nossos conceitos, especialmente os espaciais. Essa geografia do além, como já foi chamada (LE GOFF, 1993), delimitou nosso imaginário, circunscreveu nossas atitudes, ocupou nossos sonhos e pesadelos (PATLAGEAN, 1993: 291-318), enfim, inundou os corações de milhares de homens, pelo menos desde que Agostinho (354-430) interpretou o sonho de sua mãe Mônica (COSTA, 1995: 21-35). Na Idade Média a morte era o grande momento de transição. Transição fundamental, das coisas passageiras para as eternas. Praticamente ausente na iconografia medieval (LE GOFF, 1984, vol. II: 325) - como as crianças (COSTA, 2002: 13-20) - a morte era um rito de passagem. Ela era aguardada no leito de casa. O moribundo deveria ficar deitado de costas porque assim seu rosto estaria voltado para o céu (ARIÈS, 1989: 22). A morte era uma grande cerimônia pública, um ritual compartilhado por toda a família, por todos da casa. Os medievais sabiam de sua chegada, pressentiam sua vinda, tinham visões que anunciavam sua morte (DUBY, 1986: 80-83). Premonições. Assim, tinham tempo para preparar seu ritual coletivo. Pois ninguém morria só. A morte era uma festa, momento máximo do convívio social (DUBY, 1990: 65-66). Todos deveriam acompanhar a passagem do moribundo para o além, inclusive as crianças (ARIÈS, 1989: 24). Lágrimas e choro apenas por parte das mulheres: elas deveriam ficar perto do corpo e gritar, rasgar as vestes, arrancar os cabelos. Era sua função pública (DUBY, 1997: 20-21). Seu gemido era um gemido ritual. Elas eram agentes essenciais do rito funerário (LE ROY LADURIE, s/d: 282), um antigo ritual que era uma fruição, uma chegada lenta e regrada. Era mesmo um prelúdio, a mudança para um estado superior (DUBY, 1987: 10), caso aquela alma fosse agraciada por Deus. Portanto, a preocupação, a angústia maior, não era com a morte e sim com a a salvação da alma (LE ROY LADURIE, s/d: 289). I. A morte do usurário Figura 2 Um dos temas mais recorrentes na iconografia medieval a respeito da morte foi a morte do usurário. Maldito entre os malditos, pecador entre os pecadores, o usurário era o exemplo dos exemplos para moralizar o cristão. Jacques de Vitry († 1240) nos conta:
A morte do usurário foi sempre tema para os moralistas medievais. Os pregadores do século XIII utilizavam a usura para lembrar aos vivos o momento da morte e a existência do Inferno, como este exemplo de Ramon Llull (1232-1316):
Figura 3
* Duas imagens significativas (figuras 2 e 3): da morte do usurário do século XIII para a do avarento do século XV há um abismo conceitual imenso, em que pese a permanência do tema. Observe: na pintura de Bosch um anjo de Deus intercede pelo usurário impenitente. Por que? O pintor quer reabilitar a riqueza? Enquanto a pobreza é elevada na iluminura do século XIII e o rico usurário não tem outro destino senão o Inferno, no século XV Bosch destaca a intervenção angélica pela alma do usura, isto é, existe a possibilidade dele ser salvo mesmo sendo impenitente, mesmo ainda recebendo seu lucro no leito de morte. Além disso, Bosch ressalta a figura macilenta da Morte, seguindo a tradição de seu tempo, fascinado pela Dança Macabra. São atitudes diferentes diante do lucro. Por outro lado, no século XIII a morte é coletiva: usura e mendigo estão cercados - o segundo por santos e pela Virgem. Já o avaro de Bosch tem apenas seu contador. Está só. Apesar de colocá-lo cercado de figuras diabólicas, Bosch faz o espectador olhar para o alto, para o Cristo e Seu delicado feixe de luz. Portanto, na pintura de Bosch há um fio de esperança para o usurário impenitente, há espaço para seu perdão. No século XIII, século do cristianismo, isso seria inimaginável (LE GOFF, 1989). Assim, a morte na Idade Média era uma agonia apenas para o usurário. Ela era temida porque era imprevisível, mas desejada pelo cristão quando anunciada, em sonhos ou visões. Ramon explica a seu filho o porquê do temor da morte e a necessidade (a virtude) de se temer a Deus:
Naturalmente, essa era a morte no leito lenta e domesticada daquele que havia sobrevivido ao infanticídio, às intempéries da natureza, às doenças e às fomes. Mas havia também a morte na guerra, a morte antecipada, momento supremo do cavaleiro. Eles iam alegres, cantantes e ansiosos em direção à morte. Os trovadores nos contam da felicidade daqueles cavaleiros rudes quando da chegada da primavera e do momento do combate. Bertrand de Born (1159-1197) nos fala das flores e folhas coloridas, das aves que cantavam e dos cavaleiros que gritavam “Avante”:
Assim a Idade Média tratou da morte: um rito de passagem para a morada definitiva da alma, a derradeira peregrinação do homem-viajante medieval (ZIERER, 2002). Tudo indica que o sentimento mais comum em relação à essa cerimônia é a palavra serenidade. Como o mundo dos vivos estava ligado ao dos mortos - e o papel dos mosteiros era exatamente o de interceder junto ao além pela sociedade terrestre - a morte era encarada com tranqüilidade e resignação. Paz. A morte então foi domesticada nas consciências (ARIÈS, 1989: 19-20). Pelo menos na de cavaleiros e clérigos. A morte foi esperada e reconhecida (LAUWERS, 2002: 243), até mesmo desejada. Foi preciso a Idade Média chegar a seu fim para que novas formas (negativas) de compreensão da morte tomassem conta dos espíritos, como, por exemplo, o conceito de macabro, a Dança da Morte Macabra, que tomou conta dos afrescos e das gravuras em madeira, e exprimia a profunda angústia dos tempos da Peste Negra e da Guerra dos Cem Anos (HUIZINGA, s/d: 145-157). Figura
4 As ordens mendicantes tiveram seu papel na difusão dessa nova espiritualidade e concepção do além no século XIII. Os pregadores franciscanos e dominicanos lembravam às massas a corruptibilidade de todas as coisas. O cadáver putrefato era a imagem preferida dos sermões. Carne associada ao pó e aos vermes (HUIZINGA, s/d: 145). Neste aspecto, a mensagem que Ramon Llull ensina a seu filho a respeito da morte é muito próxima da espiritualidade franciscana, além de muito contundente:
II. Da Morte para o Além O que esperava o crente após sua ressurreição? Melhor perguntar assim: o que o crente acreditava que o aguardava no Além? Nessa viagem da alma, nessa transposição de um mundo para outro (ZIERER, 2002), nessa passagem do mundo das imperfeições e das coisas corruptíveis para o mundo da perfeição e das coisas eternas e incorruptíveis, os homens imaginaram o Além de diferentes maneiras, muitos especialmente influenciados pelas leituras da Bíblia - especialmente pelo Novo Testamento (Mt 25, 31-46; Jo 5, 25-29; Lc 23, 43; 2 Co 12, 4; Ap 2, 7) (LE GOFF, 2002: 22). Adriana Zierer analisou estas imagens e concluiu que algumas percepções construídas nos livros apócrifos dos séculos II e III ajudaram a elaborar o imaginário cristão medieval do Além (ZIERER, 2002): Quadro 1
Ao pensarem o Além, ao preocuparem-se com o pós-morte, os medievais tornaram a realidade transcendente: como o mundo dos vivos, o mundo material, era efêmero, era um mundo de aparências, era uma representação - uma imagem, uma idéia de algo (ABBAGNANO, 1998: 853) - a vida no mundo deveria voltar-se para o verdadeiro significado oculto por trás do véu da matéria. Esse sentido da vida humana era dado pelo mundo do Além. Assim, ao invés de buscarem na natureza um conjunto de regras e princípios, os medievais pretendiam sondar os mistérios das coisas, sua simbologia (PERNOUD, s/d: 160). Faziam isso para recordarem-se que o mundo foi criado num ato de amor, que funcionava por amor - o amor que move o Sol e as outras estrelas (DANTE ALIGHIERI, 1998, canto XXXIII: 234) - e essa contemplação deveria orientar os espíritos de volta para Deus, salvando-os do Inferno. Para muitos, especialmente os neoplatônicos, o mundo sensível era apenas uma sombra, um indício, um caminho para se passar do sensível ao inteligível, da sombra para a luz (GREGORY, 2002: 265-266). Assim, a realidade encontrava-se justamente no Além (LE GOFF, 1984, volume II: 325). A verdade era que Inferno e Paraíso existiam e eram imutáveis e eternos; o mundo não. III. O Inferno Figura 5
* Ramon Llull termina seu livro Doutrina para crianças (c. 1275), dedicado a seu filho Domingos, com uma descrição do Inferno e do Paraíso. Na pedagogia medieval, a lembrança do Além domesticava os espíritos, tornava-os mais serenos, mostrava-os que esse tempo era efêmero, que deveriam se preocupar com a salvação de suas almas. A educação pretendia oferecer uma base metafísica e moral, ocupando a mente e o coração da criança (D'HAUCOURT, 1994: 87). Ao descrever o Inferno para seu filho, Llull dá pistas interessantes para o historiador. Sua geografia infernal é bem hierarquizada. Logo de início ele divide o Inferno em quatro espaços:
Nesta descrição geográfica mesclam-se o novo e o antigo. O Purgatório é a grande novidade: em 1254 este novo lugar do Além já havia sido objeto de definição por parte do papa Inocêncio IV (LE GOFF, 1993: 329-330). O terceiro inferno, Abraão, recebe este nome devido a uma passagem bíblica, a história do mau rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31). Ali encontra-se a expressão judaica “seio de Abraão”, que corresponde à locução bíblica “reunir-se a seus pais” (Jz 2, 10; Gn 15, 15; 47, 30; Dt 31, 16). Na história contada por Jesus, o pobre morre e é levado pelos anjos ao seio de Abraão; o rico é enterrado e vai para a “mansão dos mortos”. Ali, “em meio a tormentos”, o rico vê Abraão e Lázaro, e pede água para refrescar a língua. Abraão lhe diz que ele era rico e Lázaro pobre, agora, no Além, Lázaro é consolado e ele atormentado. Além do mais, há um “grande abismo” entre o paradisíaco seio de Abraão e a mansão dos mortos (Lc 16, 23-26), e quem está do lado infernal pode ver o que perdeu, aumentando ainda mais o seu sofrimento. Assim, na Bíblia, o seio de Abraão é um lugar próximo do Paraíso. O mesmo sucede com o cristianismo primitivo. Em sua Vida de São Martinho (séc. IV), Sulpício Severo tem duas passagens onde comenta o enterro de São Martinho de Tours (c. 316-397):
No entanto, essa tradição sofreu uma mudança geográfica com o passar do tempo. Por exemplo, no final do século XII, aquela passagem bíblica foi reinterpretada por Pedro, o Devorador (†1179), discípulo de Pedro Lombardo († 1160), chanceler da Igreja de Paris, professor de Notre-Dame de 1159 a 1179. Em sua Historia Escolástica ele nos conta:
Pedro, o Devorador foi um dos criadores do Purgatório como lugar determinado - ao lado de Odon d'Ourscamp (†1171). Assim, Ramon Llull mantém a tradição bíblica do “seio de Abraão”, mas coloca-o como um dos lugares do Inferno ao lado do novo espaço, o Purgatório, além do limbo das crianças que não foram batizadas (ROQUER, 1960: 841). O seio de Abraão seria então o lugar das espera dos justos. Nas palavras de Le Goff, o seio de Abraão foi “primeira encarnação cristã do Purgatório.” (LE GOFF, 1993: 61), próximo do Paraíso (para o cristianismo primitivo) ou no Inferno (no século XIII). De qualquer modo, as concepções espaciais dos cristãos medievais em relação ao Além eram mesmo muito contraditórias (GURIÉVITCH, 1990: 112). Bem, estas divisões que Llull cria para o Inferno tentavam responder a uma importante questão para os teólogos medievais: como coordenar a eternidade com o tempo? Mais precisamente: o que acontece com os profetas que viveram antes de Cristo, se Ele é a única fonte de salvação e redenção? Estariam salvos mesmo tendo vivido antes da vinda redentora de Jesus? Se a resposta fosse afirmativa, criar-se-ia o seguinte problema: Cristo redimiu os homens no tempo; se os homens que viveram antes de Cristo estão redimidos antes de Sua encarnação, Ele então encarnou-Se no tempo desnecessariamente. Assim, os medievais, Llull inclusive, responderam não: os profetas que viveram antes da vinda de Cristo deveriam aguardá-Lo em um espaço infernal chamado Abraão. Somente após o retorno de Cristo e sua descida aos infernos para resgatá-los eles poderiam ir para o céu. Llull segue então a tradição judaico-cristã:
A descida de Cristo aos Infernos foi popularizada na Idade Média pelo apócrifo Evangelho de Nicodemo (LE GOFF, 1993: 63). É possível que Llull tenha conhecido essa versão. Para que seu filho imagine as penas infernais, Llull utiliza a analogia, típica forma de pensar da Teologia (ROQUER, 1960: 764) e da Idade Média - se pensava que a lei de criação fora a analogia (GURIÉVITCH, 1990: 80). Como se sabe, o raciocínio é analogante na medida em que conclui em virtude de uma semelhança entre os objetos sobre os quais raciocina, objetos que são diferentes, embora estes se assemelhem sob algum aspecto, ponto de partida da analogia. Analogia é uma síntese da semelhança e da diferença. Mas o que é mais importante é que a analogia se refere a um conceito, de modo que se uma das coisas significadas pelo conceito está ao nosso alcance e a outra não, pode-se conhecer a segunda pela primeira, como por um espelho. Naturalmente, no caso em questão, o filho de Llull não tinha conhecimento das representações do Inferno e do Paraíso. Assim, para demonstrar o espaço do Além, o filósofo se vale inicialmente da imagem do mar. O Inferno é como um mar borbulhante e cheio de fogo ardente, com grande peixes que devoram os homens. Llull pede ao filho que imagine “...os gritos, as vozes e o pavor daqueles homens que não poderão se defender daqueles peixes, dragões infernais, dos quais não se poderá fugir.” (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 2). Imersos nessa água borbulhante, os danados, como os legumes no óleo fervendo, sentirão muita dor (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 4). A porta do Inferno é como a boca de um dragão, cheia de dentes: pecadores e infiéis nunca cessam de cair ali (XCIX, 5). Do mar para o fogo. A segunda analogia relaciona as penas infernais com o fogo. A fornalha onde cozinham o pão e onde moldam o vidro, o chumbo, o ouro e a prata. A vida cotidiana do ferreiro serve de motivo para que Llull peça ao filho para imaginar o pavor dos homens no inferno:
Os diabos devoram os homens no Inferno. Como seu filho pode imaginar isso? Llull recorre à imagem dos cães devorando a carniça:
Hoje todas essas descrições do Inferno e do sofrimento dos condenados parecem muito aterrorizantes para serem incutidas na mente de uma criança com cerca de dez anos. Mas na educação do século XIII, a lembrança das penas infernais era um bom motivo pedagógico para que as crianças aprendessem que deveria amar a Deus acima de tudo, que deveria fazer as coisas tendo Deus como primeiro motivo (SANTANACH I SUÑOL). Pois para as mentes do século XIII, amor e temor caminhavam juntos: mesmo o bom príncipe deveria ter como primeira virtude o temor, o temor a Deus; mesmo a sabedoria estava entrelaçada com o temor (VILLALBA, 2002). Assim, era muito natural que se enfatizasse o caráter punitivo de Deus - deve-se levar em conta também o caráter moral e catequético da obra Doutrina para crianças. IV. O Paraíso Figura 6
* Ao iniciar e findar o último capítulo da Doutrina para crianças, sobre o Paraíso, Ramon Lull diz a seu filho que suas mãos não podem escrever toda a glória do Paraíso (C, 1) e que quanto mais fala da glória celestial, mais percebe sua incapacidade de contar e significar a glória do Céu (C, 11). Humildade. Mas além dessa virtude tipicamente cristã e medieval, ele também mostra assim a dificuldade humana de conceber o puro deleite espiritual da contemplação divina, dificuldade também encontrada por Dante - e magnificamente resolvida. Após esse mea culpa resignado, Llull inicia o tema com as faculdades intelectivas da alma: no Paraíso, Deus demonstra-Se (em Sua Unidade, Trindade e Essência) à lembrança, ao entendimento e ao desejo da alma. Fica claro que a intelectualidade no paraíso luliano é importante para a elevação mística até Deus - a partir do século XII alguns intelectuais relacionaram os espaços celestes com o intelecto, como, por exemplo, Honório de Autun e sua terceira esfera celeste intelectual (GURIÉVITCH, 1990: 94). As almas dos bem-aventurados têm suas capacidades estendidas e plenamente realizadas na trindade operacional da alma (os atos de lembrar, entender e desejar). Há uma complementaridade simbólica perfeita do número três: a Trindade de Deus integra-se com à trindade da alma e do corpo humano:
Quando a alma cumpre sua finalidade - a glória de contemplar a Deus - se deslumbra encantada com o espetáculo das luzes que o rodeiam:
O deleite celestial da visão completa-se com o da audição. Na contemplação do Paraíso, o eleito se deliciaria com a música dos astros bem-aventurados naquela procissão ao redor do Cristo - na iluminura do Paraíso de Dante (figura 6), a procissão é composta por anjos. Imaginar a música no Paraíso tem uma explicação: no século XIII entendia-se o universo como uma harmonia musical, cada estrela tinha seu próprio som, sua própria nota, pois o amor divino no momento da criação do mundo tornara-o uma perfeita sinfonia celeste - a harmonia das esferas celestes é descrita, por exemplo, por Honório de Autun, em sua obra De imagine mundi (séc. XII) (BOEHNER & GILSON, 2000: 278). Somado a esse resplendor, a esse espetáculo harmônico, o corpo seria glorificado com a liberdade total, liberdade de espaço, de movimento, de ausência de qualquer necessidade:
Por fim, Llull faz uma interessantíssima analogia dessa bem-aventurança do Paraíso com o jogo de xadrez! Para que seu filho imagine a grandiosidade da felicidade de poder contemplar Deus em Sua glória, ele pede que Domingos faça uma multiplicação com as casas do jogo de xadrez:
Na Idade Média o xadrez gozou de uma popularidade jamais igualada no futuro (LAUAND, 1988: 23). Com profundo sentido alegórico, a simbologia desse jogo representava a guerra, a sociedade, a conquista amorosa (COSTA) e o drama moral do homem (LAUAND, 1988: 24). Tomando como ponto de partida o xadrez, Llull faz com que seu filho trilhe uma viagem imaginária, das casas do tabuleiro para o céu, para o mar, e finalmente para o tempo (“todos os números que estiveram, estão e estarão no tempo pretérito, presente e futuro”). Além disso, a proposta de soma que Llull sugere a Domingos tem origem em uma antiga história indiana ligada à invenção do jogo de xadrez (por volta do século VI a.C.) - a exemplo das influências orientais já mapeadas quando da redação do Livro das Bestas (BONNER, 1989, vol. II: 13; COSTA). Antigas lendas ligam a invenção do xadrez a números astronômicos associados às casas dos tabuleiros. A título de exemplo, uma versão que circula ainda hoje diz que Sissa, brâmane indiano, inventou o jogo de xadrez para curar o tédio do rei Kaíde. Este ficou tão satisfeito com o presente que prometeu dar ao brâmane qualquer coisa que quisesse. Sissa pediu então um grão de trigo para a primeira casa do tabuleiro, dois grãos para a segunda, quatro para a terceira, oito para a quarta, sempre dobrando, até a casa sessenta e quatro - a mesma soma que Llull sugere ao filho no trecho da Doutrina para crianças para que imagine a bem-aventurança do Paraíso. O rei Kaíde ficou surpreso com um pedido que parecia tão humilde e concordou. No entanto, quando foram feitas as contas, o rei viu que nem todos os tesouros da Índia juntos poderiam pagar o pedido de Sissa! O resultado da soma - associar 1 à primeira casa do tabuleiro, 2 à segunda, 4 à terceira, 8 à quarta, 16 à quinta, etc. - é um exemplo dos chamados números monstruosos: 18.446.744.073.709.551.615. O tesoureiro do rei disse que seriam necessárias 16.384 cidades, cada uma com 1.024 celeiros de 174.762 medidas e 32.768 grãos em cada medida. A coroa teria que semear 65 vezes toda a terra para obter mais de dezoito quinquilhões de grãos de trigo! (MATTOS). Dessa forma, Llull se baseia naquele antigo conto indiano para sua projeção do Além, que tem como base o raciocínio. Sua capacidade de imaginar o Paraíso tem como eixo norteador o intelecto. Pelo contrário, sua percepção do Inferno é calcada basicamente nos sentidos corporais, nas dores do corpo do danado. Há, portanto, uma clara associação simbólica invertida nos dois textos: Inferno/sentidos corporais (coisas inferiores porque ligadas ao corpo) e Paraíso/capacidades intelectuais (coisas superiores porque ligadas às faculdades da alma). Conclusão Na Idade Média a morte foi domesticada nos corações. Desejada pelos guerreiros, aguardada pelos religiosos, temida por ser inesperada, a morte foi sentida como um rito de passagem para um outro mundo, o Além. Os medievais percebiam o Além como uma realidade: a Idade Média foi o tempo do Além. A preocupação com o pós-morte foi uma constante em suas vidas. E de todos os homens, o usurário foi o contramodelo social escolhido para representar as opções da geografia do Além, qual a localização das vidas futuras dos crentes. Assim, o Além espelhou, em certa medida, todo o emaranhado imaginário de esperanças, de expectativas e de angústias de toda uma sociedade, daquela sociedade dita medieval. O dilema da finitude humana sempre fez parte do âmbito religioso; as religiões lidaram com a questão da morte e do Além. Da imagem da morte e suas representações - um tema cheio de silêncios voluntários e involuntários (VOVELLE, 1996: 18-19) - o Além é um espaço-espelho da sociedade que o imagina. Espaço-reflexo perfeito (Paraíso) mas também invertido (Inferno). Curiosamente há também uma inversão no espaço perfeito, pois no caso do cristianismo, no Paraíso “os últimos serão os primeiros” (Mt 20, 16) e as crianças estarão à frente dos adultos (Mt 18, 1-4). Tratava-se de uma proposta revolucionária, subversiva, pois alterava a hierarquia social que estruturava a sociedade. As representações do Além que Ramon Llull apresentou a seu filho têm dois importantes acréscimos ao imaginário medieval: as influências dos contos orientais e o tema da intelectualidade ligado à contemplação divina. Ao ressaltar as faculdades intelectivas da alma, o beato maiorquino dá um passo em direção ao racionalismo, sem, no entanto, deixar de lado a espiritualidade mística de tons franciscanos tão característica da síntese realizada pelo seu tempo, o século XIII. Pensar o mundo dos mortos era a melhor forma de melhorar o dos vivos, de torná-lo mais semelhante aos desejos de Deus. * Este artigo é dedicado a cinco queridos amigos: Esteve Jaulent, presidente do Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, que carinhosamente lê criticamente meus textos, Edmar Checon de Freitas, sempre solícito em discutir as recepções medievais dos temas do cristianismo primitivo - especialmente o século IV e “seu” Martinho de Tours -, Alexander Fidora (J. W. Goethe-Universität, Frankfurt am Main, Alemanha), teólogo e filósofo que sempre me auxilia a compreender a mente dos medievais, Jean Lauand (USP), que, além de ter sempre palavras de incentivo e estímulo, desvendou maravilhosamente a conta proposta por Ramon Llull em seu jogo de xadrez, e Sidney Silveira, meu estimado irmão filósofo, que sempre ilumina minhas idéias com suas reflexões metafísicas. * Fontes
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