Amável filho,
quase mortas estão a sabedoria, a caridade e a devoção,
e poucos são os homens que se encontram na finalidade para
a qual Nosso Senhor Deus os criou. Não existe mais o fervor
e a devoção que costumava existir nos tempos dos apóstolos
e dos mártires que, por conhecerem e amarem a Deus, definhavam
e morriam. Convém você ir se maravilhar no lugar donde
a caridade e a devoção se foram. Vá pelo mundo
e maravilhe-se dos homens que cessam de amar e conhecer a Deus. Que
toda sua vida seja no amor e no conhecimento de Deus e que você
chore pelas faltas dos homens que ignoram e deixam de amar a Deus.
(RAMON LLULL, “O Livro das Maravilhas”, OS, 1989, vol.
2: 19-20).
Obediente a seu pai, Félix se despediu com
a graça e a bênção de Deus. Com essa doutrina
paterna, como bom medieval ele peregrinou e peregrinou: andou pelos
bosques, pelos montes e planícies, pelos lugares ermos e povoados,
encontrou príncipes e cavaleiros pelos castelos e cidades, e
em todos os lugares “se maravilhava com as maravilhas que existem
no mundo”. Perguntava o que não entendia, explicava o que
sabia e metia-se em trabalhos e perigos para fazer reverência
e honra a Deus.
Nesse belo Prefácio se encontra o tom literário
do Livro das Maravilhas e a atitude do protagonista da novela:
languidamente perplexo, contemplativamente melancólico, decididamente
investigativo, o peregrino criado por Ramon Llull – chamado Félix,
isto é, aquele que é feliz – percorre o
mundo disposto a conhecer a realidade criada por Deus.
Quando escreveu essa novela enciclopédica e alegórica,
Ramon se encontrava em Paris, capital cultural do mundo na época.
Ali, pela primeira vez, lecionou na Universidade e expôs seu sistema
filosófico, sua Arte, sem ser, no entanto, compreendido.
Ali provavelmente também se encontrou com o rei Felipe, o
Belo – sobrinho de Jaime II de Maiorca, seu protetor –
mas também não conseguiu concretizar seu desejo de criar
escolas de línguas para futuros missionários dispostos
a morrer por Cristo e pregar o cristianismo em terras muçulmanas,
como havia conseguido realizar em Miramar (1276), em sua terra natal.
(HILLGARTH, 1988: 77)
Certamente a decepção por não conseguir se comunicar
adequadamente com os estudantes de Paris fez com que Ramon mudasse a
forma de exposição de sua Arte, passando então
(e pela segunda vez) para a narrativa alegórica. (VEGA, 2002:
41) Assim, o Livro das Maravilhas é uma doce “crítica
implacável” e conservadora a quase todos os ofícios
sociais de então. (HILLGARTH, 1988: 67) Esse fato torna o texto
um notável documento para os historiadores compreenderem profundamente
o olhar social de um dos pontos de vista mais importantes do século
XIII: o voluntarismo cristocêntrico das ordens mendicantes,
a emoção e a razão a serviço da fé
(VAUCHEZ, 1995: 125-148), noção que Ramon Llull conjugou
de forma notável em seus escritos.
O tratamento que o filósofo catalão dá ao tema
é exclusivamente exemplarista: são centenas e
centenas de pequenos contos, explicações alegóricas
que constroem a viagem de Félix na escala da criação.
Isso está bem explícito na organização da
obra, seus livros e temas: Deus, os Anjos, o Céu, os Elementos,
as Plantas, os Metais, as Bestas, o Homem, o Paraíso e o Inferno.
Além disso, o comportamento do protagonista ao longo da narrativa
é tipicamente franciscano: o jovem (e virgem) Félix contempla,
pergunta, observa, medita, se surpreende e se maravilha (BONNER, 1989:
11-12), pois o mundo está se laicizando e os homens estão
deixando de amar a Deus. Em seu caminho, esse “peregrino do conhecimento”
conhece um eremita, que lhe mostra os mistérios da natureza divina
e o ensina a interpretar a realidade a partir de Deus e de princípios
racionais com base na seguinte dicotomia: o mal é o não-ser,
e o bem, o ser. (BADIA I BONNER, 1992: 112)
Por fim, o entrelaçamento dos exemplos em um labirinto de significados
metafísicos no Livro das Maravilhas tem o objetivo de
testar e exercitar a inteligência do leitor. (VEJA, 2002: 41)
Em outra oportunidade, defini o exemplo luliano como um phantasticus
exemplum (COSTA, 2000: 213), pois Llull mescla parábolas
fantásticas com cenas mais realistas, sempre com o intuito de
provar racionalmente a existência da Santíssima Trindade
na estrutura do mundo e do cosmo.
Assim, após esse rápido preâmbulo, passo à
análise de algumas passagens do Livro das Maravilhas
em que Ramon narra dezenas e dezenas de exemplos relacionados aos sete
pecados capitais. Esses trechos foram extraídos do capítulo
VIII (Sobre o Homem), que corresponde a quase 60% do total da obra.
I. O que é pecado?
Muitas vezes Félix ouviu dizerem que o pecado
não era nada! Maravilhado com o fato de os homens carregarem
o fardo do pecado original, fardo que “não é nada”,
Félix indaga o eremita sobre essa maravilha. Este inicia então
o diálogo com Félix definindo o que é pecado: o
pecado existe quando o homem ama mais outras coisas que a Deus, invertendo
a intenção para a qual foi criado. Essa definição
se baseia em uma teoria de Ramon Llull chamada “primeira e segunda
intenção” (ORL, 1935: 03-66).
Acontece então a exposição de quatro exemplos sobre
o pecado: o rei, o pastor, o hortelão e o bispo (em cada capítulo
sobre um pecado há vários exemplos, o que me obrigou a
fazer uma seleção arbitrária). Deterei-me apenas
no primeiro, a estória do “rei pecador”, exemplo
que trata da função do poder monárquico:
Havia um rei que
amava os deleites deste mundo e menosprezava a glória do outro
século. Aquele rei fora ordenado rei para ter justiça
na terra, mas tinha a intenção de ser rei para ter abundância
de dinheiros, de honramentos e de deleites, como caçar, se
divertir, comer, beber, vestir e ter deleites carnais. O rei fazia
todas essas coisas e não cuidava da justiça, e assim
seu reino se destruía porque não tinha regente. Este
rei pecava porque invertia a intenção pela qual era
rei. (RAMON LLULL, “O Livro das Maravilhas”, OS,
1989, vol. 2, Livro VIII, cap. 113: 362)
Os reis existem para terem o mundo em paz, pensa Ramon,
pensavam os medievais. No entanto, a observação da realidade
lhe impõe uma constatação: na prática de
seu ofício, os reis invertem a prerrogativa divina e se deleitam
nos prazeres mundanos – e aqui não posso deixar de comentar
o duplo sentido da palavra catalã delit: deleite,
um vivo prazer da alma ou dos sentidos, mas também delito,
infração da lei, no caso, da lei divina. (GGL,
1983, vol. II: 35-36). Ou seja, quando o rei se deleita, comete delito,
deleite/delito contra Deus.
II. A Gula na mesa
do príncipe
A Gula

Livro de Horas (c. 1475) de Robinet Testard
(França, 149 x 107 mm, M. 1001, fol. 84, detalhe)
A gula (ou glutonia) é voraz
e nunca se sacia.
As iluminuras desse famoso Livro de Horas estão sempre
divididas em dois espaços. No primeiro plano, acima, sempre ocupando
um espaço maior, há a representação do pecado
capital, sempre sob a forma cavaleiresca - um personagem montado, ocupando
uma sala. Trata-se de uma cena de interiores em que o motivo
cavaleiresco é caricaturado às últimas conseqüências.
Aqui o cavaleiro é um gordo burguês que monta um peludo
javali, não um nobre corcel. Na cena abaixo, a seguir, o artista
sempre retrata o caos provocado pelo pecado na sociedade humana, na
sociedade de corte. São sempre cenas nobres, em que os personagens
estão tomados, possuídos pelos baixos instintos pecaminosos,
sempre com o demônio em cena, instigando homens e mulheres. Na
iluminura da gula,
um banquete e seus excessos: à esquerda, uma mulher
segura a cabeça de um homem, que vomita para, a seguir, comer
novamente. À direita, a mesa tem pão e galinha; todos
bebem e se empanturram muito.
O pecado tenta especialmente aquele que não
peca, aquele que anda reto. Havia um príncipe que amava tanto
a temperança que mandara colocar em seu copo predileto a inscrição
“temperança e gula” para que, sempre que se sentasse
à mesa para comer e beber, se lembrasse daquela virtude oposta
à gula. Um dia, no entanto, o príncipe comeu e bebeu demais,
e a gula ainda o fez pegar mais um pedaço de carne. Quando estava
com o pedaço de carne em uma das mãos, sua consciência
o trouxe à razão e ele se perguntou o que valia mais,
Deus e a temperança, a longa vida e a saúde ou a gula,
a doença, a morte e a ira divina. Depois dessa consideração,
o príncipe largou o pedaço de carne e agradeceu ao Senhor
o fato de ter recebido a temperança, e com ela poder amá-Lo,
temê-Lo e servi-Lo. (RAMON LLULL, “O Livro das Maravilhas”,
OS, 1989, vol. 2, Livro VIII, cap. 69: 231)
III. A Avareza no
sonho do rei
A Avareza

Livro de Horas (c. 1475) de Robinet Testard
(França, 149 x 107 mm, M. 1001, fol. 91, detalhe)
A avareza é gananciosa,
tem fome de dinheiro.
O cavaleiro monta um lobo escancaradamente voraz, símbolo do
apetite do avaro pelo dinheiro. Ele exibe e entorna sua bolsa vermelha
cheia de moedas (outra, preta, está igualmente cheia, em sua
cintura); o diabo está a seu lado. Na cena abaixo, oito personagens
avaros em um quarto: na cama, um rico-homem conta suas moedas, ao centro,
uma senhora, com sua negra bolsa de moedas à mostra, ensina às
suas jovens pupilas como serem avaras; à esquerda, uma espécie
de competição: quem tem a bolsa mais cheia?
Para Ramon, todas as virtudes existem no homem em potência
porque elas existem em Deus em essência, e o Criador as transmite
à humanidade através de Sua bondade, através da
ação intrínseca de Suas dignidades. Por isso, ao
tratar da avareza, o beato inicia o capítulo dizendo
que Deus é generoso e se dá totalmente ao Filho e ao Espírito
Santo, “engendrando o Filho e espirando o Espírito Santo”
– e o mesmo ocorre com as outras duas Pessoas Divinas. Por esse
motivo, a avareza é contrária à largueza divina..
E para exemplificar o contrário dessa generosidade divina, isto
é, o pecado da avareza, Ramon novamente se vale do exemplo da
monarquia, pois seus olhos críticos voltam-se constantemente
em direção aos senhores do poder. Assim, o eremita conta
a Félix que havia um rei muito rico e poderoso que se dedicava
a “honrar a si mesmo e ter todos os deleites deste mundo”.
Soberbo, ele desejava viver para desfrutar esses prazeres e para que
todos os homens de seu reino o honrassem e o servissem. Um dia, o rei
caiu doente e esteve à beira da morte. Quando dormiu, teve um
sonho. Duas senhoras surgiram diante dele: a Largueza e a Avareza. O
rei pediu saúde e longa vida à Largueza, mas ela se recusou
a lhe dar algo, dizendo-lhe que isso seria contrário à
vontade de Deus, já que assim ela concordaria com a Avareza.
(RAMON LLULL, “Fèlix o el Libre de Meravelles”, OS,
1989, Livro VIII, cap. 70: 233)
Há aqui duas tradições que se entrecruzam no exemplo:
a personificação das virtudes e dos vícios em belos
diálogos fantasiosos, uma característica dos escritos
lulianos (BADIA, 1992) e a tradição do sonho no cristianismo.
(LE GOFF, 2002: 511-529). Além disso, a forma com que Ramon Llull
trata o tema, dosa a dura advertência com o amor típico
do ensinamento cristão – e que é a base de toda
a sua mensagem (DOMINGUES REBOIRAS, 1990: xxi), pois a presença
onírica das duas damas suaviza o impacto da chegada da morte
e o medo do julgamento final.
IV. A senhora casada e casta
e a Luxúria do bispo
A Luxúria

Livro de Horas (c. 1475) de Robinet Testard
(França, 149 x 107 mm, M. 1001, fol. 98, detalhe)
A luxúria se encanta consigo
mesma e desordena o mundo.
O cavaleiro agora é um jovem, muito bem vestido, de longos cabelos
cacheados. Com longas esporas - símbolo fálico - e montado
em um bode com grandes testículos (personificação
da luxúria), ele traz um pássaro (não um falcão),
que seduz com seu canto. Na cena inferior, o diabo, de nome Smodeus,
tem agora longos chifres. Com sua mão direita, ele parece impulsionar
seu pecado: no centro da cena, uma mulher é assediada por três
homens (um a agarra por trás); exibida, ela parece gostar muito
da corte da luxúria. À direita, uma senhora é
violentada por um homem. Ela tenta repeli-lo, mas ele é forte
e a domina, tocando-a em suas partes íntimas. Uma jovem de vestido
vermelho assiste a tudo, extasiada.
Félix se maravilha como o homem é movido
ao deleite da luxúria através da visão e da audição.
O eremita lhe explica que o homem é tocado de duas maneiras:
no corpo e na alma. Narra então o melhor exemplo que poderia
haver da fortíssima oposição entre a castidade
e a luxúria para ilustrar a Félix o que diz: a escandalosa
estória do bispo luxurioso. (RAMON LLULL, “Fèlix
o el Libre de Meravelles”, OS, 1989, Livro VIII, cap.
71: 236)
Esse servo de Deus era um pecador porque amava uma senhora casada, virtuosa
e amante da castidade. Muitas vezes o bispo pediu a ela que fizesse
a sua vontade, mas a boa senhora lhe repelia, dizendo que não
daria uma ovelha ao lobo. O bispo insistia, e tinha um cuidado tão
grande com ela que a deixava enojada. Para dar um basta a essa situação,
a senhora levou o iludido bispo a sua cama e, na presença de
duas donzelas suas e de um sobrinho, tirou sua camisa, “suja com
uma sujeira vergonhosa” para que ele a tocasse e desse nome àquela
sujeira. Depois, ela se despiu completamente e disse ao bispo que se
tivesse olhos que olhasse, pois ela perderia a castidade e a Deus, “aviltando
o corpo de Jesus Cristo quando O deveria santificar”. E ainda
disse mais:
...que ele desejava
que ela estivesse na ira de Deus, de seu marido e de seus amigos,
na blasfêmia das gentes, que fosse inimiga da castidade e submetida
à luxúria. O bispo sentiu vergonha e contrição,
e maravilhou-se com sua grande loucura, com a grande castidade e virtude
da senhora, e tornou-se um homem justo e de santa vida.
Os estudiosos estão mais ou menos de acordo
que esse exemplum serviu de base para uma lenda que surgiu
no final do século XV e início do XVI a respeito da conversão
de Llull em 1263. Segundo essa lenda, o próprio Llull teria assediado
uma senhora que, no fim, permitiu que ele entrasse em seu quarto para
se despir e mostrar a ele um seio canceroso. Assim, alguns estudiosos,
como, por exemplo, Hillgarth, acreditam que essa passagem sobre a senhora
casta e doente pode ter algum fundamento real (HILLGARTH, 1998: 62)
V. A Acídia
do burguês rico
A Acídia

Livro de Horas (c. 1475) de Robinet Testard
(França, 149 x 107 mm, M. 1001, fol. 97, detalhe)
A preguiça alonga o tempo
e retarda o trabalho.
Ninguém consegue fazer nada: deprimido, o cavalo está
inerte no chão; o viajante tenta inutilmente erguê-lo.
Abaixo, o diabo, de amarelo, incita o mundo à inércia.
Todos estão cansados e não cumprem seu ofício.
A fiadeira dorme, seu cão também; o alfaiate não
corta o tecido: o mundo está parado.
De todos os ofícios sociais, o burguês
é o que merece as maiores críticas por parte de Ramon
Llull. Motivo das grandes transformações sociais dos séculos
XII-XIII, a burguesia citadina corrompeu as estruturas feudais e medievais,
acelerando a mobilidade social e causando uma grande preocupação
(e por vezes ira) dos conservadores e tradicionalistas, como, por exemplo,
São Bernardo, Jacob de Vitry e o próprio Ramon Llull.
Em muitas passagens do Livro das Maravilhas, Llull critica
os burgueses. No capítulo 72 há um interessante exemplo
que narra a inseparável acídia que o ofício da
burguesia traz em si:
Havia um burguês
muito rico e honrado em uma cidade. Aquele burguês vivia de
suas rendas e não fazia nada além de comer, beber e
fazer tudo o que desejava. Como o burguês não fazia nada
útil, não tinha nenhuma diligência, estava ocioso
todos os dias e, por causa dessa ociosidade, sentia-se sempre triste
e desgostoso. Por essa tristeza e desgosto, esteve acidioso, tendo
prazer com o mal e desprazer com o bem. Do desprazer que tinha com
o mal, lhe vinha um desprazer quando o mal não era maior e
do bem que desamava lhe vinha pesar e tristeza quando o bem era muito
grande. Assim, de todas as maneiras, esse burguês estava submetido
ao trabalho e à tristeza por causa da ociosidade e acídia
que tinha. (RAMON LLULL, “O Livro das Maravilhas”, OS,
1989, vol. 2, Livro VIII, cap. 72: 239)
A burguesia é avara, ambiciosa e preguiçosa,
pois vive de suas rendas. Dessa forma, ela representa o vício
e a desproporção que origina a desordem. A partir do século
XII, a burguesia se tornou um dos temas preferidos dos pregadores (RICHARDS,
1992: 19), e Ramon aderiu a essas críticas com vigor. (COSTA
E ZIERER, 2000)
VI. O Orgulho da
mulher nobre do camponês
O Orgulho

Livro de Horas (c. 1475) de Robinet Testard
(França, 149 x 107 mm, M. 1001, fol. 84, detalhe)
O orgulho (a soberba) se embevece.
Montado em um nobre e vigoroso leão, o cavaleiro contempla sua
própria beleza refletida em um espelho. Abaixo. o gordo diabo
tem uma grossa corrente azul com uma maça dourada e pontiaguda
envolvendo seu pescoço. Ele aponta para a vaidosa sociedade humana:
homens - e especialmente mulheres - sentem-se superiores. A soberba
é a rainha e raiz de todos os pecados.
No capítulo 73 ("Da Humildade e do Orgulho")
há um exemplo que mostra muito claramente a mobilidade da sociedade
medieval, sociedade de ordens que definia a posição da
pessoa conforme seu ofício, não por sua riqueza material
(COSTA, 2002: 113):
Havia um camponês
que tinha uma bela mulher que era de linhagem nobre. Aquele camponês
amava muito sua mulher, a vestia bem, a fazia estar ociosa e dava-lhe
o melhor de comer, mais que para si. A mulher do camponês, por
se ver bela, por ser de linhagem nobre e vendo que o camponês
a honrava mais que a si mesmo, era orgulhosa e menosprezava seu marido,
pelo qual menosprezo caiu no pecado da luxúria. O camponês
se maravilhou muito por sua mulher ser tão orgulhosa, e maravilhou-se
como ela era mais orgulhosa quanto mais ele a amava e a honrava. (RAMON
LLULL, “O Livro das Maravilhas”, OS, 1989, vol.
2, Livro VIII, cap. 73: 243)
A existência de terras campesinas alodiais –
terras que o senhor feudal não podia cobrar nenhum tipo de imposto
e que eram transmitidas de geração em geração
e, portanto, inalienáveis fora do grupo familiar (BONNASSIE,
1985: 26-29) – permitiu, ao longo da Idade Média, a existência
de camponeses abastados. (HEERS, 1994: 209) Na sociedade de ordens que
foi a medieval, também existiram camponeses ricos e cavaleiros
pobres. (PERROY, 1994: 22) Assim, o exemplo de Llull sobre o terrível
orgulho da mulher nobre que tinha um camponês como marido é
real, não fantasioso e, além de mostrar as possibilidades
da utilização da literatura como uma espécie de
espelho, um pouco distorcido, mas sempre próximo das reais atitudes
humanas (COSTA e COUTINHO, 2003: 28), também comprova a extrema
mobilidade da sociedade medieval. (IOGNA-PRAT, 2002: 313-318)
VII. A disputatio
entre a Inveja e a Continência
A Inveja

Livro de Horas (c. 1475) de Robinet Testard
(França, 149 x 107 mm, M. 1001, fol. 86, detalhe)
A inveja queima, envenena e dói.
O invejoso cavalga, exibido, com um corvo nas mãos. Na cena inferior,
o diabo amarelo exibe três homens que murmuram, corroídos
de inveja, a riqueza do burguês. "O princípio da inveja
é impedir a glória alheia, que é o que entristece
o invejoso, e isto se faz diminuindo o bem do outro ou falando mal dele;
disfarçadamente, pela murmuração, ou abertamente,
com a detração. Ela mata os pequenos, pois o
medíocre acha que a prosperidade do outro impede a sua, o que
é próprio de almas pequenas (Tomás de Aquino).
Para Ramon, a inveja é o desejo humano que deseja
injuriosamente. Ela é o contrário da continência,
que é a satisfação temperada do desejo de comer
(OS, vol. II: 246) – observe que no século XIII ainda não
se havia limitado a continência à repressão do desejo
sexual e, por isso, Llull a define como contenção do apetite.
Para tratar desse vício, Llull se vale da alegoria, da personificação
daquela virtude e daquele vício, que então travam uma
disputatio com o seguinte tema: quem é mais amada nesse
mundo, a Continência ou a Inveja?
A Continência pergunta à Inveja porque
ela a persegue; a Inveja retruca: “Por que vos opondes
a mim, se vedes que neste mundo sou mais amada, mais honrada e tenho
mais amantes que vós?” Após um breve debate com
exemplos de ambos os lados, a Continência conclui: “Inveja,
bem sei que vós sois grande neste mundo e estais grandemente
na ira de Deus. Contudo, ainda que seja pequena neste mundo, eu sou
grande na bênção de Deus.”
VIII. A Ira de Ramon,
o Louco
A Ira

Livro de Horas (c. 1475) de Robinet Testard
(França, 149 x 107 mm, M. 1001, fol. 88, detalhe)
A ira enlouquece o mundo.
O Leviatã - diabo negro com asas vermelhas - incita
o irado, que, montado em um horrendo lobo, se mata com uma facada no
peito e ao mesmo tempo come uma maçã. Abaixo, todos lutam:
as mulheres se ofendem e blasfemam, os cães se mordem, os homens
se matam. A ira causa a rixa e corrompe as relações sociais.
Contrária à paciência, a ira “é
a debilidade de coragem, movida pela vaidade, pelo orgulho, pela injúria,
pela loucura e pela má vontade”. (OS, vol. II:
249) A exposição do último pecado capital no “Livro
do Homem” possui uma passagem autobiográfica – característica
marcante dos escritos de Ramon Llull. O exemplo narrado mostra o descrédito
dos contemporâneos face às propostas de Ramon, e é
interessante observar que nosso próprio autor tem consciência
disso, e mais: ele ainda insere passagens como essa em seus escritos,
trechos que mostram a zombaria e o escárnio que ele sofria, até
mesmo de pessoas ligadas à Igreja.
No exemplo, Ramon se define como um homem “pobre de poder e de
amigos, e que tratava um grande negócio, isto é, que Deus
fosse amado, conhecido e servido por todo o mundo”. Por não
ser rico, nem honrado e nem poderoso, Ramon sabia que sozinho não
podia tratar esse “grande negócio” (que ele chama
em outras obras de “bem público”, que nada mais é
que a expansão do cristianismo e da Igreja). Assim, o Louco
ia a prelados, príncipes e grandes senhores para pedir-lhes que
tratassem daquele negócio. E então,
Um dia aconteceu
dele estar falando sobre aquele negócio com um prelado, que
o escarneceu e riu de suas palavras, menosprezando-as e desconsiderando-as.
Muito se maravilhou aquele homem com o prelado, que tão pouco
pregava a honra a Deus, e começou a sentir ira e sofrimento
em seu coração. Enquanto sentia ira e sofrimento, ele
se maravilhou fortemente como poderia sentir ira se desejava e tratava
de um negócio tão nobre, e pensou que aquela ira fosse
um vício.
Por longo tempo o bom homem considerou isso com o qual se maravilhava
e recorreu à paciência, para que ela lhe ajudasse com
aquela ira que suportava, mas a paciência não lhe ajudou.
O bom homem relembrou a paciência de Cristo e dos apóstolos,
e então a ira na qual se encontrava se multiplicou fortemente,
pois quanto mais relembrava a paciência de Cristo e dos apóstolos
mais fortemente via que o prelado era dessemelhante a Cristo e culpado.
Maravilhou-se o bom homem como a paciência não vencia
sua ira e não expulsava de seu coração o sofrimento
que suportava. Por longo tempo aquele homem se maravilhou com isso,
até que entendeu que aquela ira não era um vício,
pois se fosse, não concordaria com a paciência. (RAMON
LLULL, “O Livro das Maravilhas”, OS, 1989, vol.
2, Livro VIII, cap. 75: 249)
Percebe-se a constante reflexão íntima
de nosso autor, sua confrontação do pecado percebido com
a virtude que lhe opõe, para a busca virtuosa da vida do Cristo
e o desejo do retorno do tempo dos apóstolos. (BOLTON, 1989:
22-24) O deboche com que os homens recebiam as propostas missionárias
de Ramon Llull serviu-lhe de motivo literário. Por exemplo, em
uma obra posterior, a Disputa entre Pedro, o clérigo, e Ramon,
o fantástico (1311) (BADIA, 1991: 211-229), uma das peças
mais encantadoras do beato, há um diálogo entre um clérigo
e Llull, o fantástico. O conceito de fantasia
aqui é sinônimo de loucura, insensatez, pois na Idade Média,
fantasia significava o mesmo que fantasma, espectro, imagem. No texto
de Llull, freqüentemente o verbo fantasiar é usado para
dizer “conhecer equivocadamente”.
Eu gostaria de relacionar a abertura dessa opereta com aquela passagem
do Livro das Maravilhas, e assim seguir a pista do Prof. Anthony
Bonner. (OS, vol. II, 1989: 249) O “grande negócio”
de Ramon, descrito na passagem acima do Félix, eram
suas três metas, ideais forjados desde as visões que teve
do Cristo crucificado (por volta de 1263): 1) escrever o melhor livro
do mundo contra os erros dos infiéis, 2) fundar escolas para
que estudantes aprendessem o idioma dos pagãos e 3) buscar o
martírio. O início do diálogo da Disputa entre
Pedro, o clérigo e Ramon, o fantástico mostra claramente
isso:
(1)
Aconteceu certa vez que dois homens que iam para um Concílio
geral [de Vienne, em 1311) se encontraram no caminho; um deles era
clérigo, o outro leigo. O clérigo perguntou o nome ao
leigo, e ele lhe respondeu: “– Ramon Llull.”
(2) Disse o clérigo: “– Ramon,
já ouvi muito falar que vós sois um grande fantástico.
Vejamos, diga-me, o que irás pedir nesse Concílio?”
(3) Disse Ramon: “– Busco três
coisas. Em primeiro lugar, que o senhor papa e os reverendos cardeais
desejem fundar estudos nos quais se aprendam diversos idiomas, de
maneira que, depois, os estudantes se espalhem por todos os lugares
do mundo, pregando, como está ordenado nos santos Evangelhos
de Deus [Mc 16, 15], e que tal ordenação perdure até
que todos os infiéis tenham vindo para a fé dos cristãos.
Em segundo lugar, que o senhor papa e os cardeais estabeleçam
uma única ordem geral que inclua todos os monges cavaleiros,
e que todos permaneçam no outro lado do mar lutando contra
os infiéis até que a Terra Santa seja restituída
aos cristãos. E em terceiro lugar, que o papa e os cardeais
desejem ordenar que os erros de Averróis propagados em Paris
sejam totalmente extirpados, já que por culpa deles nossa santíssima
fé padece de muitos males”.
(4) Assim que o clérigo ouviu aquelas palavras,
explodiu ruidosamente em uma gargalhada e disse: “– Ramon,
eu pensava que fôsseis um fantástico, mas agora, realmente,
por vossas palavras, vejo que não sois somente um fantástico,
mas um superfantástico!”
Com tanta resistência às suas propostas,
é natural que Ramon Llull tenha inserido em suas obras alguns
dos momentos em que mais sofreu o desprezo e a zombaria dos seus, fosse
para ilustrar ainda melhor sua narrativa, fosse para lhe servir como
válvula de escape para as tensões a que se expunha. No
entanto, o trecho selecionado do Livro das Maravilhas mostra
que Ramon Llull entendia sua ira como uma virtude, pois ele lutava contra
a impiedade do prelado e sua falta de zelo, e enraivecer-se contra o
mal é um bem, é uma virtude. A teoria das paixões
em Ramon é muito rica: segundo o beato, conforme os motivos,
as paixões podem ser boas ou más. (JAULENT, 1990).
IX. Conclusão
Os sete pecados capitais formavam uma das ferramentas
de investigação da Arte luliana. (FIDORA, 2002:
67) Base de sua constante busca da realidade, a descrição
dos pecados está presente em praticamente todos os escritos do
beato maiorquino. Sua ética acompanhou seu objetivo que era,
como o de todo bom reformador social do século XIII, fazer com
que o povo se enamorasse das virtudes e odiasse os pecados. (DOMÍNGUEZ
REBOIRAS, 1990: xxvi) Por esse motivo, o Livro das Maravilhas
possui um espaço tão grande para a descrição
e o combate dos pecados com as virtudes, motivo maior da redação
dos textos de Ramon Llull.
*
Agradeço muitíssimo à
generosa leitura crítica de meu querido amigo Esteve
Jaulent (Instituto
Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio),
sempre solícito e paciente com meus erros.
*
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