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Resenhas, debates e entrevistas publicadas em periódicos nacionais Entrevistas para a televisão - Interviews for television 1) Programa
“Nove Minutos”, de Eustáquio Palhares -
17/04/2007 (Tv
Tribuna - SBT) 2) Reportagem
Rede Gazeta sobre o mini-curso “Alea jacta est”. A História
vista de baixo: Roma através de dois soldados - 25/04/2007
(Tv
Gazeta - Rede Globo) Debate sobre O Julgamento na História com Johnni Langer Resenha do Prof.
Dr. Johnni Langer na Revista
NECULT Réplica do Prof. Langer - O historiador e o julgamento: respostas ao Prof. Ricardo Tréplica
final do Prof. Ricardo da Costa
recusada pelos editores da Revista
NECULT Como se pode perceber, infelizmente a Revista Necult teve vida breve, pois saiu do ar. Assim, quem estiver interessado na resenha e réplica do Prof. Langer e acompanhar esse interessante debate, deve entar em contato com ele. Entrevistas online Cavaleiros Templários - Planeta na Web Em nome da cruz - Revista Galileu (páginas 3 e 4) “Dize-me o que comes e eu te direi quem és - a alimentação na Idade Média” - (Aventuras na História 32) Entrevista
concedida À IHU
online - Revista do Instituto Humanitas Unisinos, edição
198, tema da capa: Idade
Média
Autor de mais de 250 obras e fora dos “tipos” conhecidos do medievo (clérigo, servo e burguês), o filósofo catalão Ramon Llull pode servir como “guia” para se conhecer melhor a Idade Média, sobretudo os séculos XII, XIII e XIV, disse o historiador Ricardo Costa em entrevista por e-mail à IHU On-Line. A profusão de temas abordados por Llull vai da poesia à medicina, do direito à filosofia e teologia. Sua obra é ade grande atualidade, e chega mesmo a antecipar pensadores contemporâneos como Sartre e Plessner. Na entrevista que segue, o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), avalia a importância de Llull e revela que esse autor teria muito a ensinar a nossos políticos, embora isso seja bem difícil de acontecer. E lamenta os preconceitos que ainda persistem sobre a Idade Média: “No Brasil, infelizmente, predomina ainda a idéia de que a Idade Média foi um tempo de ignorância, barbárie. Isso por duas razões: puro desconhecimento por parte de muitos colegas, e a grande mídia, sempre ignorante e em busca do lugar-comum para ser melhor entendida”. Costa é mestre e doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Sua tese intitula-se A Árvore Imperial - Um Espelho de Príncipes na obra de Ramon Llull (1232-1316). Cursou dois pós-doutorados, ambos na Universidade Internacional da Catalunha, na Espanha. De suas dezenas de especializações, destacamos a de tradução de textos do catalão antigo, de Ramon Llull, cursada na Universidade Albert-Ludwigs, na Alemanha. Escreveu A
Árvore Imperial. São Paulo: Instituto Brasileiro
de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2001; Ramon
Llull. O Livro dos Anjos. São Paulo: Instituto Brasileiro
de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2002; Las
definiciones de las siete artes liberales y mecánicas en la obra
de Ramón Llull. São Paulo/Porto: Hottopos, 2005,
entre outros. Conheça mais sobre o trabalho do historiador, acessando
sua página na Internet: www.ricardocosta.com.br" Ricardo Costa – Ramon Llull é um personagem fascinante, pois escreveu mais de 250 obras e não se encaixa em nenhum dos “tipos” famosos medievais (não era clérigo, não era servo, talvez da baixa nobreza ou da baixa burguesia - burguês entendido como morador do burgo, isto é, citadino - mas logo abandonou sua ordem para se dedicar à pregação). Pode-se ter uma boa noção da Idade Média (especialmente dos séculos XII-XIII-XIV) porque ele escreveu sobre praticamente todos os temas famosos na época (poesia, medicina, direito, filosofia, teologia), embora seu "pano de fundo” tenha sido o mesmo: provar, por “razões necessárias", que o catolicismo era a religião verdadeira. É importante traduzir suas obras, porque, assim, os estudantes universitários têm acesso direto a um texto da época, à linguagem da época, a expressões e formas de pensamento típicas do medievo. Sua filosofia, o “humanismo cristão”, é muito importante para resgatarmos um pouco da ética clássica, em que verdade é verdade, mentira é mentira, justiça é uma coisa boa, injustiça uma coisa má, o bem é belo e o mal é feio, e assim por diante (de resto, praticamente todos os antigos e medievais, tinham esses conceitos em mente). Além disso, ao traduzir e rearranjar as frases, eles melhoram muitíssimo o português, você acredita? Agora mesmo estou corrigindo a tradução de uma novela enciclopédica, o Livro das Maravilhas, obra escrita em 1289, com um conteúdo muito interessante. Deve sair esse ano. Como viveu em uma sociedade totalmente mesclada (islamismo, judaísmo e cristianismo), Llull recebeu muitas influências muçulmanas. Ele cita os sufis islâmicos em várias passagens. IHU On-Line – Qual era a definição da pessoa humana em Llull? Qual é a atualidade de sua concepção? Ricardo Costa – Interessantíssima: homem é um animal homificante, isto é, um ser que hominiza o mundo inteiro, apropriando-se dele (o mundo) em seus atos intelectivos, voluntativos e memorativos (em seu entender, querer e lembrar), isso externamente. Internamente, é um ser dinâmico e processual, que se realiza por meio de seus atos e assim se faz homem. Nas palavras do filósofo: “o homem é homificativo e homificável” (sujeito e objeto da homificação), pois é atuando no mundo que o homem se realiza! Segundo um querido amigo, o filósofo alemão Alexander Fidora, da Universidade de Frankfurt, essas idéias antecipam Plessner e Sartre !!! É ou não é atual? IHU On-Line – Qual é a importância de Llull para o nascimento da ciência e suas influências hoje? O que a premissa de buscar o conhecimento livre de julgamento prévio pode ensinar à ciência moderna? Ricardo Costa – Na época de Llull, nascia a ciência - no sentido da observação do mundo (é o ato de maravilhar-se platônico colocado em prática). No próprio Livro das Maravilhas, há muitos capítulos dedicados à natureza (sobre o trovão, as nuvens, etc.). Inclusive, o capítulo sobre o homem (quase 60% de toda a obra) é literalmente uma maravilha (Por que o homem gosta de beber? Por que o homem gosta de cheirar? Por que o homem gosta de ter filhos?) A influência hoje – entendo “influência” como ação na vida das pessoas hoje - é ínfima. A maior parte da humanidade infelizmente vive uma vida voltada apenas para as coisas práticas (os medievais diriam que são escravos, pois só o estudo do conhecimento pelo conhecimento liberta o homem). Mas essa falta de conexão se aplica a praticamente todos os pensadores anteriores a Maquiavel. Em minha consideração, infelizmente, vivemos em um período maquiavélico. “É melhor ser temido que amado...” Eu sempre achei o contrário. No caso do conhecimento livre de julgamento prévio, isso é uma das bases da compreensão hermenêutica. Também infelizmente, no caso das ciências humanas, contudo, a maior parte das pessoas (mesmo que digam o contrário) busca o conhecimento com muito preconceito (veja o próprio caso do estudo da História Medieval). IHU On-Line – Poderíamos estabelecer alguma ligação entre a “Arte” de Llull com a transdisciplinaridade hoje buscada no conhecimento? Ricardo Costa – Em linhas gerais, sim. Contudo, não acredito nessa “linha histórica" assim tão linear. A história humana é feita de avanços, retrocessos, paradas, e possui tempos diferentes (como me ensinou Fernand Braudel). No caso da transdisciplinaridade pós-moderna, não creio haver muita similitude com a medieval, pois as premissas eram muito diferentes. Em linhas muito genéricas, porém, a resposta é sim: ambas buscam uma aproximação entre os diferentes campos do saber. IHU On-Line – De que forma a cosmovisão de Llull pode estabelecer um diálogo inter-religioso na época conturbada em que vivemos, sobretudo no Oriente Médio? Ricardo Costa – Essa é uma questão espinhosa. E você está certa: vivemos em uma época conturbada mesmo! Entretanto, para não deixar sua pergunta sem resposta, creio que o conceito é “boa vontade” para com o outro. No Livro do Gentio e dos Três Sábios, todos têm o mesmo espaço para apresentar sua fé, e todos escutam o “outro”. No fim, ninguém muda de idéia, mas voltam a caminhar conversando. No fundo, no fundo, trata-se da benevolência platônica, conceito pouquíssimo levado em consideração hoje. Um pequeno parêntese para explicar isso (que também era um pressuposto lluliano) A dialética platônica - que visava a liberdade do espírito - tinha como pressuposto a “discussão com benevolência”. E que é benevolência? É ter boa vontade para com alguém, escutar o outro. Isso está em A República, de Platão. Nesse texto maravilhoso, só o sofista é desagradável, não sabe ouvir, é grosseiro, deselegante. Sócrates, em resposta, sempre tem uma palavra amável para com Trasímaco (em Llull há o mesmo sentimento, com o acréscimo das lágrimas, a compunção cristã. Como disse Jacques Le Goff, “o homem medieval é um homem que chora”). Só assim os homens podem chegar à “liberdade de espírito” e existir uma “comunidade de educação verdadeiramente livre” como desejava Platão. Isso seria um bom começo. IHU On-Line – O que é e como pode ser explicada a aproximação entre o "espelho do príncipe" de Llull e o de Santo Tomás de Aquino? Poderia explicar o projeto político luliano e o que ele poderia ensinar à política contemporânea? Ricardo Costa – Um e outro pertencem à tradição dos Espelhos de Príncipes! Esse é um dos temas de minha tese de doutorado. Para a política contemporânea? Ensinar aos políticos atuais? Você está brincando! Eles são ignorantes. Todos. Inclusive o nosso presidente. Há uma famosa frase de um pensador medieval do século XII (John of Salisbury) que se aplica ao Lula: Rex illiteratus est quasi asinus coronatus (Um rei iletrado é como um asno coroado). Sabe o que diz Platão? Que todo homem que aspira a um cargo político deveria ser proibido de tê-lo. Portanto, as filosofias clássica e medieval têm a ensinar ética! Só assim baniríamos para uma ilha distante os Delúbios, os José Dirceus da vida! IHU On-Line – Acredita que, de certa forma, a sociedade pós-moderna ainda possua, mesmo que veladamente, a divisão medieval entre clérigos, nobres e servos? Quem seriam os clérigos, nobres e servos atuais? Ricardo Costa – Não. A divisão social hoje tem como base o poder econômico; a medieval, a função que a pessoa exercia no todo, independente de seu poder econômico! Mas nem na Idade Média essa divisão correspondia à realidade. Isso foi uma abstração criada por clérigos para se pensar a sociedade de então. A realidade era muitíssimo mais complexa. Llull mesmo, em um tratado, indica mais de 35 profissões em sua ilha (Maiorca)! Ademais, havia clérigos filhos de nobres e clérigos filhos de servos, camponeses ricos e cavaleiros pobres, ricos-homens que abandonavam tudo para viver na pobreza. Por fim, uma vez mais: os pressupostos eram diferentes. IHU On-Line – Ainda com relação às obras de Llull, como era a educação das crianças na Baixa Idade Média? Ricardo Costa – Esse é um tema muito interessante, objeto de pesquisa de meu pós-doutorado em Barcelona e que me deu um enorme prazer! Na Baixa Idade Média, o ensino era dirigido por homens da Igreja (e também por ela própria). Algumas mulheres aprendiam, mas em casa (aulas particulares), quando ricas. A base da educação era o Trivium e o Quadrivium (desde o século V): gramática, lógica e retórica; aritmética, geometria, música e astrologia. Seria o correspondente ao nosso primeiro grau e segundo grau. Depois, uma universidade (Teologia, Direito e Medicina). A Idade Média criou a universidade. Não há nada parecido no mundo antigo. Só isso deveria ser suficiente para banir-se de nosso ensino atual o rótulo “Idade das Trevas”, noção que se aplica muito melhor ao século XX, dos Gulags, dos campos de concentração nazistas e da bomba atômica! IHU On-Line – Quais são os principais preconceitos que ainda persistem sobre a Idade Média e o que já mudou nesse sentido? Ricardo Costa – No Brasil, infelizmente, predomina ainda a idéia de que a Idade Média foi um tempo de ignorância, barbárie. Isso por duas razões: puro desconhecimento por parte de muitos colegas, e a grande mídia, sempre ignorante, e em busca do lugar-comum para ser melhor entendida. Nossos esforços ainda são particularizados ao mundo universitário (mesmo assim com muitos problemas). Dou-lhe um exemplo: uma tarde, em minha sala na Ufes, estava trabalhando no laptop com um texto de Llull. Dois professores entraram - os dois de História Contemporânea - viram a luz apagada, e um disse: “Vamos trazer luz às trevas! Ahahah...” Eu havia esquecido de acender a luz da sala. Artigo publicado no
Jornal "O
Povo" (Fortaleza - CE)
Caderno Vida & Arte - Cultura (Especial sobre o fime O Código Da Vinci) Domingo, 14 de maio de 2006 O Código Da Vinci: ficção realista ou realidade ficcional? Uma das características mais lamentáveis do processo de globalização pelo qual passa a humanidade nesse início de século XXI é a proliferação de embusteiros, pessoas sem o menor preparo intelectual que se aventuram – em busca de dinheiro e sucesso, naturalmente – no mundo da História, da investigação do passado, do estudo das sociedades no tempo, para produzirem narrativas pseudocientíficas, e o que é pior, com ares de verdade. Não bastasse a terrível politicagem que vigora hoje – empresários milionários e políticos na Academia de Letras alçados à glória da imortalidade, ou então escritores de quinta categoria que choram nas margens de Rios, mas que são merecedores de prêmios internacionais – hoje assistimos a uma verdadeira explosão de péssimos romancistas lançados à glória internacional pelos seus milhões de livros vendidos em todo o mundo. Cada vez mais quantidade significa qualidade, número representa valor, importância é o que parece, não o que é. O Código da Vinci é um excelente exemplo dessa imbecilização coletiva da civilização ocidental. A obra é uma síntese de milhares de lugares comuns que a sociedade de massa, de consumo fácil, acha que aconteceu, ou simplesmente pensa que a História deve ter sido assim por ser mais emocionante, por ser mais incrível, mais retumbante. Hoje o mundo inverteu as coisas: romance é verdade, história é mentira... Pois o problema básico do livro reside no fato de o autor defender ter feito uma pesquisa intensa, e que o resultado é precisamente o texto que ele apresenta ao leitor. Ora, o golpe mais antigo do mundo do cinema de entretenimento é colocar na tela a seguinte frase ANTES de começar o filme: “baseado em fatos reais”. Esse golpe propagandístico foi descoberto muito cedo por Hollywood. Os magnatas do cinema logo perceberam que o povo gosta de pensar que o que está assistindo aconteceu de verdade. Isso confere à estória narrada um status, uma importância muito grande, e cria uma empatia com a platéia que facilita enormemente a passagem da informação, do conteúdo. Assim, quando o Código da Vinci começa com essa advertência, o leitor imediatamente se sente transportado diretamente a um (verdadeiro!) rodamoinho policial – há melhor estória que um suspense policial de verdade? – que mistura assassinatos, seitas secretas, Jesus Cristo fazendo sexo com Maria Madalena, pinturas mundialmente conhecidas, lendas famosas (o Santo Graal), e principalmente a Igreja Católica, essa suposta instituição retrógrada e ultraconservadora que, dizem seus opositores, se recusa a aceitar as mudanças do mundo e continua aferrada a seus dogmas ultrapassados, renegando um papel de destaque à mulher e não aceitando a explosão gay que passa o mundo no momento. Bem, como historiador, meu depoimento é o seguinte: História é História, Literatura é Literatura (mesmo de quinta categoria), ou, como dizia a minha avó: “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Assim, vou tentar resumir ao leitor de “O Povo” o porquê do sucesso do livro – e certamente do filme que logo entrará em cartaz. Criar a fantasia que Jesus se casou com Maria Madalena e que a partir dessa união nasceu uma seita que protege os descendentes desse casamento – e o Opus Dei (como representante da Igreja católica) contrata um assassino para matar todos que sabem desse segredo – é, na verdade, atingir diretamente um dos fundamentos da fé cristã, e assim, atingir também a instituição da Igreja. Ponto. Na verdade, a Igreja nunca sofreu, ao longo de sua história, um momento tão hostil (a não ser na época das grandes perseguições, dos mártires). Isso, certamente, é um “gancho” forte para o sucesso do livro, pois em seu anti-cristianismo, ou melhor, em sua hostilidade à Igreja católica, ele reverbera fundo no imaginário coletivo atual, profundamente anti-religioso. Como historiador, afirmo categoricamente que não há nenhum documento que alicerce essa idéia da ligação mais íntima entre o Cristo e Maria Madalena. A mensagem bíblica do beijo com as lágrimas é outra, bem diferente, muito mais profunda e pedagógica. Pelo contrário, me parece que essa idéia é um triste indício dos tempos nefastos que vivemos. Hoje se valoriza Maria Madalena, além de tentarem ver Judas com outros olhos. Uma prostituta e um traidor elevados aos píncaros. Bons tempos em que louvávamos o amor, a amizade, a confiança... Particularmente eu conheço duas pessoas, na verdade mais que isso, dois amigos que estão ligados ao Opus Dei no Brasil, e ambos estão em posições opostas quando esse é o tema. Um viveu ali durante duas décadas, acaba de sair, e publicou recentemente um livro que revela os horrores pelos quais passam seus membros. O outro ainda integra o Opus, e é uma das pessoas mais gentis e doces que eu tive a oportunidade de conhecer. Isso para o leitor ter uma idéia da complexidade da questão. É o que eu sei. Mas daí afirmar que o Opus contrata assassinos para não revelar ao mundo o segredo do Código da Vinci me parece ridículo. Nem os quadrinhos de Dick Tracy ou o romance “Falcão Maltês” ousariam baixar tanto o nível! Quanto ao cerne do livro – a pintura renascentista da Última Ceia – qualquer historiador estudioso e minimamente preparado na interpretação de imagens do passado percebe a ingenuidade da idéia de um segredo à vista de todos e só percebido por iniciados. O esoterismo hoje vende – e muito (a astrologia e o Tarot também...). Como remédio a essas crendices tolas, eu sugiro que o leitor de “O Povo” pegue na biblioteca de sua cidade qualquer obra do grande Erwin Panofsky, o primeiro no século XX a propor um estudo sistematizado e científico das obras de arte. Leiam-no com calma, como quem sorve lentamente uma boa cerveja gelada. Logo descobrirão que estão bancando papel de bobos, e que o Código da Vinci é uma leitura de baixo nível. Claro, dizer que o mago Merlin nunca existiu, que as Brumas de Avalon e Robin Hood são lendas, ou que gnomo é coisa de gente boba, não dá Ibope. A Idade Média tem esse lado fantástico e maravilhoso que desperta a imaginação das crianças – com seus cavaleiros templários, supostos guardiões do cálice sagrado e dos segredos miraculosos do sangue de Cristo – mas o trabalho do verdadeiro historiador passa longe dessas fantasias (a menos que ele queira pesquisar a história das lendas, das crendices populares. Aí tudo bem). Portanto, caro leitor de “O Povo”, lamento informar-lhe, mas: 1) Cristo nunca se casou, 2) o Opus Dei não é uma seita de assassinos e 3) Leonardo da Vinci era um gênio, mas nunca um membro de uma seita secreta. O Código da Vinci é um romance (em minha opinião, de baixíssima categoria) e só. O resto é conversa fiada. Ah, se eu fosse vocês, leria Machado de Assis, Monteiro Lobato, Guimarães Rosa. Isso sim é literatura! Ricardo da Costa Os textos abaixo, todos de minha autoria, foram publicados no Jornal O Globo Caderno Prosa & Verso Caderno Prosa & Verso,
Sábado, 10 de julho de 2004, página 04.
Islã medieval, um belo momento histórico protegido pela tolerância. A cultura criada por muçulmanos, judeus e cristãos na Espanha aceitava as diferenças MENOCAL, María Rosa. O ornamento do mundo. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2004, 304p. Um dos sonhos mais estimados pelos historiadores é ultrapassar os umbrais do “pequeno universo” acadêmico e se comunicar com o resto do mundo. Mas, para isso, é fundamental escrever fácil, escrever bem, escrever bonito. Do contrário, não há comunicação. Nesse aspecto tão fundamental da arte do texto, o livro da cubana e professora de espanhol e português da Whitney Humanities Center (Yale University), María Rosa Menocal, intitulado O ornamento do mundo, oferece um ótimo exemplo de como se pode fazer boa história de uma maneira apaixonadamente simples. Em rápidos flashes, “painéis em miniatura” ordenados cronologicamente, a autora nos mostra como o mundo islâmico medieval da Península Ibérica tinha a sociedade mais tolerante e desenvolvida daquela parte do mundo. Seu objetivo é mostrar o momento histórico sui generis daquela cultura. María Rosa define “tolerância” à moda medieval: ser tolerante é dar como pressuposto que as contradições culturais podem ser positivas e produtivas. Essa noção complexa era a própria base da Idade Média; “cultura” para os medievais significava a união de uma série de contrários, o “sim” e o “não”, simultaneamente, e a busca da razão através da religião — a capacidade de pensar que as diferenças, tanto individuais quanto coletivas, são fecundas e enriquecedoras. Ciente dos preconceitos e estereótipos que pairam sobre o período medieval, a autora deseja com seu belo livro contar uma “outra história da Idade Média”, priorizando a cultura e suas variantes estéticas em detrimento do político e do econômico — uma cultura que merece ser mais bem conhecida, porque nos sugere a existência de tolerâncias adormecidas nas profundezas do tecido histórico que termina no atual período. Para essa viagem histórica e estética, O ornamento do mundo inicia com uma breve e ágil narrativa introdutória, da expansão do Islamismo no século VIII até a chegada daqueles conquistadores na Península Ibérica. O destaque é a capacidade de assimilação e miscigenação daqueles guerreiros cheios de fé. Com eles, vieram novas técnicas agrícolas, novas ênfases alimentares, comerciais e higiênicas, novas arquiteturas urbanas, mas, sobretudo, uma nova onda cultural: a ânsia de ler, o cultivo dos livros, das bibliotecas. Esse capítulo introdutório avança até a expulsão dos muçulmanos em 1492, e já mostra ao leitor a convincente tese central da obra: à medida que o mundo medieval termina, a intolerância cresce. Os vários capítulos são verdadeiros painéis decorados por María Rosa: do desenvolvimento e prosperidade das comunidades judaicas, sob governos islâmicos, até a tradição urbanística muçulmana de conjugar construção arquitetônica e natureza (árvores e palácios, palmeiras e mesquitas, flores e motivos geométricos ornamentais). Dentre estes aspectos, convém destacar um, que em minha opinião é a mais bela herança medieval para a época contemporânea: o nascimento do amor. Sim, parece incrível, mas foi a Idade Média que criou o nosso conceito de amor, de submissão do homem à vontade da mulher, submissão do fisicamente forte ao fraco, aceitação da entrega e do sofrimento da espera. No capítulo “O amor e seus Cânticos”, María Rosa nos deleita com uma análise do pequeno tratado de amor de Ibn Hazm (994-1063), O Colar da Pomba, uma linda meditação em prosa e verso sobre o amor. “Deliciosa doença, maravilhoso mal bem-vindo, quem dele não sofre, não quer ser-lhe imune”. Esse sentimento que nos tira o sono, o apetite, faz com que “os avarentos tornem-se desprendidos; os covardes, corajosos; os ásperos, sensíveis; os ignorantes, instruídos; os sujos, limpos; os velhos, jovens; os ascetas e castos, devassos”. Esse amor foi um êxtase poético islâmico que partiu de uma sociedade então fragmentada politicamente em pequenos reinos, para conquistar todo o mundo. Se há uma coisa que o livro de María Rosa Menocal nos mostra é que a Idade Média foi muito mais tolerante que o mundo moderno – ou mesmo contemporâneo. A imagem da destruição da Biblioteca Nacional de Sarajevo (com seu um milhão de livros e cem mil manuscritos) pelos sérvios, em 1992, é uma melancólica prova disso. Mas quem se importa? Quem se lembra? Até quando insistiremos em chamar a Idade Média de Idade das Trevas se, em contrapartida, criamos campos de concentração, bombas atômicas e mísseis teleguiados, gulags e genocídios em massa, prisões políticas e paredóns cubanos? Até mesmo o amor inventado pelos medievais foi considerado, por psicanalistas e marxistas no século XX, um mal e uma ideologia, respectivamente! Além disso, como bem disse Harold Bloom no prefácio do Ornamento do Mundo, a cultura judaico-americana atual que dá o tom de nosso mundo globalizado, juntamente com o multiculturalismo que empesteia nossas universidades e nossa mídia, parecem ridículos se comparados a essa convincente visão do mundo ibérico medieval, narrada pela historiadora de origem cubana e que vive em Manhattan. Naquele mundo perdido, as três religiões monoteístas tiveram seu momento histórico de convivência, momento, infelizmente, tragado pela unitária concepção moderna que não tolerou a contraditória tolerância medieval que guerreava, mas que também exaltava o amor. Ricardo da Costa é professor de História Medieval da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Caderno Prosa & Verso,
Sábado, 13 de abril de 2002, página 06
A
Guerra, pano de fundo das relações humanas TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso (trad.: Mário da Gama Kury). Brasília: Editora UnB/Imprensa Oficial (534 p.) e CARR, E. H. Vinte Anos de Crise - 1919-1939 (trad.: Luiz Alberto F. Machado). Brasília: Ed. UnB/Imp. Oficial (314p.). Ao longo da História, o desejo de impor a vontade a outrem foi uma constante no jogo das relações sociais, tanto entre pessoas quanto entre povos, nações e Estados. Seu limite extremo, a contraposição de vontades, a guerra, sempre foi regularmente alcançado. Trata-se de uma espécie de apetite natural falocêntrico, meta final destruidora, porém criativa. As relações internacionais tiveram essa marca constante porque Freud estava correto: o instinto de agressão (e o sexual) podem ser camuflados e reprimidos, mas são impermeáveis à civilização. E é exatamente por causa desse leitmotiv freudiano que conseguimos compreender e associar no mesmo fio temático os dois belos lançamentos da editora UnB: A História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, e Vinte anos de crise - 1919-1939, de Edward Hallett Carr. Ambos acreditam na busca da verdade dos fatos e, de certa forma, na guerra como pano de fundo quase imóvel das relações humanas. A História da Guerra Peloponeso é um dos clássicos da literatura mundial. Seu autor, Tucídides, era ateniense de nascimento e contemporâneo de Sócrates, Péricles, Aristófanes, Eurípides, Sófocles, e tantos outros gregos imortais. Ele envolveu-se diretamente no conflito, sendo vítima e um dos sobreviventes da peste que assolou Atenas em 427 a. C. Comandante ateniense no começo das hostilidades, foi banido mais tarde por incompetência estratégica, o que o levou a assistir ao restante do conflito à distância, provavelmente na propriedade de algum amigo no Peloponeso. A obra tem o objetivo de narrar o episódio mais decisivo e marcante do mundo grego de então: o conflito entre Atenas e Esparta, as duas maiores polis gregas. Escrito no final do século V a. C., o texto ainda hoje encanta e seduz, pois sua viva narrativa irremediavelmente atira-nos ao centro do conflito. Sua principal característica é a tentativa de narrar a verdade dos fatos a respeito do conflito. Para isso, Tucídides tem como critério básico o fato de ser a testemunha ocular. Em contrapartida, ele recria discursos que imagina terem sido pronunciados pelos protagonistas. Sua admirável retórica reproduz a atmosfera conjuntural dos episódios: ele imagina as lógicas do jogo diplomático e recria os discursos exortativos dos comandantes, como, por exemplo, a oração fúnebre de Péricles, uma das passagens da obra que foram eternizadas por gerações apaixonadas de leitores. A guerra era vista como motor da História Para Tucídides, como para a maioria dos historiadores gregos, a guerra era o grande motor da História. Fenômeno transformador inerente ao homem, através dela ocorreriam as mudanças de regime político, a deslocação de populações e as alterações nas lideranças políticas. Oligarca moderado, Tucídides culpava a ânsia de lucro do império ateniense e a democracia radical, seio onde imperavam os criadores de ilusão, os demagogos, grandes culpados pela guerra e pelas desgraças que recairiam sobre Atenas. A historiografia tradicional sempre elegeu Tucídides como precursor da razão cientificista. Sua preocupação com a objetividade (a História é a procura da verdade) antecipa sim em mais de dois mil anos a história positivista, mas seu método baseia-se no testemunho ocular e não no estudo rigoroso dos documentos escritos, que ele praticamente despreza. Por esse motivo a historiografia grega sempre esteve preocupada com sua história contemporânea. Para Tucídides, quanto mais longínquo estava um fenômeno, mais difícil ele poderia ser estudado com seriedade. Daí a crítica que faz aos primeiros escritores gregos e aos poetas, que, segundo ele, estavam preocupados em agradar ao auditório com a beleza de uma verdade escutada por terceiros. A permanência da História da Guerra do Peloponeso é um bom exemplo da agradável tendência do pensamento ocidental de acreditar na possibilidade de o historiador descrever e fazer emergir a verdade sobre o passado, coisa hoje academicamente desprezada e vista com ironia por uma tola e fútil historiografia pós-moderna que se pretende eterna. O livro foi escrito pouco antes da Segunda Guerra Mundial Com propósitos distintos mas valendo-se de uma perspectiva histórica semelhante, embora com uma distância de mais de vinte séculos, E. Carr utiliza o teatro político farsante do período entre guerras (1919-1939) como pano de fundo para definir uma série de conceitos fundamentais para o pensamento político e filosófico modernos. Escrito imediatamente antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, a base de sua digressão é a divisão entre o ser utópico e o realista, fato abstrato e individual mas que interfere significativamente nas relações internacionais. Resumidamente, em sua definição, o utópico rejeita a realidade e acredita na possibilidade de substituí-la por sua utopia através de um ato de vontade. Assim, ele é por tendência um voluntarista, um radical, um homem teórico que estabelece um padrão ético e que gravita naturalmente para a esquerda. Sua natureza o impele à ação, mas normalmente ocorre um problema de ordem prática: quando chega ao poder e depara-se com as vicissitudes e nuances da realidade, o utópico (ou o movimento utópico) tende a abandonar sua utopia doutrinária e mover-se para a direita (Carr dá o exemplo da Rússia soviética de meados da década de 30) mas mantém seus rótulos de esquerda, o que aumenta a confusão da terminologia - hoje, no entanto, sabemos que praticamente todo o aparato repressivo soviético (Gulags, KGB, etc.) foi idealizado e montado por Lenin e Trotsky e que Stalin apenas tornou-o totalitário. Como Saturno, toda revolução devora seus próprios filhos... Por sua vez, para Carr o realista analisa algo que é impotente para modificar, não aceita nenhum valor como padrão, exceto os fatos. Sua moral é relativa e sua ética é interpretada politicamente. O realista é um conservador, um burocrata. O autor conclui que todo pensamento sadio deve buscar o equilíbrio entre utopia e realidade, entre livre-arbítrio e determinismo. Essa incapacidade de estabelecer essa harmonia solapou as pretensões pacifistas da Liga das Nações e os diagnósticos políticos relacionados às sociedades totalitárias em expansão. Parece que a década de 30 julgou mal: propaganda, poder econômico, relativização da moral e coação inviabilizaram os ideais mais nobres da busca de uma comunidade internacional tal qual ansiavam gentlemen como Chamberlain, Lord Cecil, Woodrod Wilson e alhures. Todos - até Stalin - foram varridos pelo realismo calculista de Hitler e do próprio Stalin. A partir de então, valeria mais do que nunca a realpolitik germânica. Carr arrisca a previsão de que o conceito de soberania nacional tende a se tornar uma abstração. No entanto, entramos no século XXI e a solução judiciária dos litígios internacionais ainda está por vir. Por isso, lê-lo e ler “A Guerra do Peloponeso” ajuda-nos a entender os fundamentos da guerra e a permanência da violência na História. Talvez o início desta longa caminhada em direção à paz esteja no desejo voluntarioso dentro de nós e não na imposição externa e autoritária de um sistema qualquer. Ricardo da Costa é historiador da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Caderno Prosa & Verso,
Sábado, 02 de fevereiro de 2002, página 02
Ode à possível convivência
entre as religiões RAIMUNDO LÚLIO. O livro do gentio e dos três sábios (1274-1276) (trad.: Esteve Jaulent). Petrópolis - Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2002, 248p. Desesperado com sua velhice e a proximidade da morte, um ateu perambulava por uma linda floresta, repleta de fontes maravilhosas e árvores carregadas de frutos e flores de aroma sutil e delicado. Naquela floresta paradisíaca pássaros lindos cantavam muito docemente, e quanto mais caminhava neste paraíso cheio de vida, mais o pensamento da morte atormentava o ateu, pois ele não acreditava na transcendência da vida, na ressurreição, e isso muito o angustiava. O ateu era velho, barbudo, tinha longos cabelos, estava magro e pálido pelo sofrimento que a idéia da morte trazia para sua alma, daí suas lágrimas e seu coração ficar em suspiros e tristeza profunda. O ateu colhia as flores para sentir a fragrância e comia os frutos para experimentar o sabor da vida e se deliciar mais um pouco com a natureza, mas o pensamento da morte não o abandonava. Assim nesse estado de profunda melancolia, ele teve um momento de profunda compaixão, se ajoelhou na terra e dirigiu-se aos céus para fazer a clássica pergunta da Filosofia: “- Por que vim ao mundo?” Sábios religiosos consolam ateu sem preconceito de fé Enquanto isso, simultaneamente a esse momento paradigmático da vida do ateu, na mesma floresta maravilhosa três sábios, um judeu, um cristão e um muçulmano, conversavam com uma linda dama chamada Inteligência. Ela cavalgava um belíssimo cavalo muito nobremente vestida e explicava aos sábios o significado alegórico e moral de cinco árvores e suas flores - o mundo não era uma imagem e reflexo da ação de Deus? Ele não estava significado em toda a Sua criação, da mais doce flor até o homem? Sim, as virtudes divinas e os vícios estavam presentes em toda a natureza. Bastava olhar com um olhar doce e contemplativo que os homens poderiam encontrar Deus em tudo. A Senhora Inteligência ilustrou divinamente a alegoria da natureza aos sábios e partiu. Os três sábios resolveram tentar unificar toda a metáfora da criação exposta nas flores e árvores da natureza em uma só religião. Acertaram debater suas respectivas fés até chegar a uma conclusão, isto é, qual seria a verdadeira fé. Neste momento, enquanto iniciavam seu diálogo inter-religioso, os três sábios viram chegando o ateu em sua caminhada angustiante. Eles perceberam o desconsolo do ateu e, movidos pela caridade e piedade, decidiram consolá-lo tentando provar a ele a existência de Deus, e que Nele existe bondade, grandeza, eternidade, poder, sabedoria, amor e perfeição. Essa demonstração se daria através das flores das cinco árvores, já explicadas pela Senhora Inteligência. O ateu seria então consolado e poderia escolher qual das três religiões - Judaísmo, Cristianismo, Islamismo - era a verdadeira para morrer em paz. Livro mostra que Idade Média cristã queria diálogo O Livro do gentio e dos três sábios é uma belíssima exposição das três doutrinas religiosas, num ambiente pacífico, harmonioso e contemplativo. A obra foi escrita por volta de 1275 pelo místico catalão Ramon Llull (Raimundo Lúlio), sua idéia central é a necessidade do permanente diálogo entre as religiões para que o mundo viva em paz. Este diálogo medieval baseava-se sobretudo na humildade: o bom estudioso, como afirmou Hugo de São Vítor, deveria ser humilde e manso, afastado das preocupações vãs; que aprendesse a refletir longamente sobre alguma coisa antes de julgá-la, pois todo conhecimento é bom. Os três sábios, representantes de suas religiões, são prudentes estudantes que navegam suavemente pela natureza, prova cabal da existência de Deus. Cada religião tem igualmente seu espaço para expor suas bases doutrinárias, todos ouvem pacientemente o expositor, todos sentem prazer com as palavras da outra fé. No momento pelo qual passamos, especialmente após os acontecimentos de 11 de setembro no World Trade Center, o lançamento de O livro do gentio e dos três sábios na linda edição da Editora Vozes mostra-nos que a Idade Média cristã também possuía projetos pluralistas e pacíficos de convivência étnica e cultural, propostas em sua maior parte esmagadas pela bota repressiva do binômio Modernidade/Estado, sempre sob a égide da Unidade, vista como algo essencialmente bom, especialmente a partir do século XV. Através dessa bela peça literária e filosófica - traduzida com maestria e delicadeza pelo prof. Esteve Jaulent -, a Idade Média refulge esplendorosamente e dá exemplo à intolerância da pós-modernidade, perdida e desnorteada como o gentio. No fim, os sábios perguntam ao ateu qual foi a religião que ele escolheu. A resposta é ainda mais surpreendente. Convido o leitor à sua leitura, munidos da prudência e a humildade medievais de Hugo de São Vítor, a saborear as belas páginas de O livro do gentio e dos três sábios. * Ramon Llull foi um filósofo místico que viveu no século XIII. Compulsivo e afeito a arroubos de temperamento, da alegria esfuziante à profunda depressão, escreveu quase trezentos livros durante a segunda metade de sua longa vida (1232-1316). Livros sobre religião, filosofia, poesia, medicina, botânica, enfim, sobre tudo o que se descobria então, com o típico pensamento enciclopédico da época, tempo que pretendia sistematizar e organizar todo o conhecimento descoberto e discutido, especialmente a partir do século XII. Esse afã discursivo tinha um objetivo em mente: converter todo o mundo ao cristianismo. Sua efusiva produção literária se explica basicamente por dois motivos. Em primeiro lugar, Llull afirma em sua autobiografia (Vida coetânia) escrita no fim de sua vida, ter tido visões do Cristo crucificado: Ele o chamou para mudar de vida e dedicar-se à verdadeira fé. Depois disso, em outra visão, Deus deu-lhe o conhecimento de um sistema filosófico capaz de resolver todas as questões formuladas: era sua Arte, um sistema simbólico e geométrico com letras que, associadas e combinadas, responderiam a qualquer pergunta. Llull passaria a vida escrevendo e rescrevendo essa Arte e visitando reis e papas para pedir que fundassem escolas de tradução e de formação de pregadores que fossem para o mundo islâmico difundir a fé cristã. Ricardo da Costa é historiador da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Caderno Prosa & Verso,
Sábado, 25 de agosto de 2001, página 03
Ira e perdão na França
do século XVI ZEMON DAVIES, Natalie. Histórias de perdão (trad.: José Rubens Siqueira). São Paulo: Companhia das Letras, 2001, 301p. Marguerite era esposa de Jaquemin. Tinha seis filhos, sempre se comportava decentemente. No entanto, seu marido chulo e blasfemador, chegado à embriaguez do vinho, a espancava quase todos os dias, com pauladas, garrafadas e o que mais estivesse à mão. Marguerite rezava, pedia a Deus que serenasse o coração de Jaquemin, sem resultado. Por isso, desejou muitas vezes a morte. Num sábado, oito dias após o fim do resguardo de suas duas últimas filhas gêmeas, Jaquemin surrou-a, atirou-lhe ainda um cálice e um prato de cerâmica. Provavelmente bêbado, ele queria sexo, estava há um mês sem os prazeres da carne devido ao parto da esposa. Ferida em várias partes do corpo, Marguerite fugiu para a casa de um casal vizinho, desesperada, dizendo a todos que preferia a morte, que o marido a matasse logo com o seu grande machado. Mas por piedade das duas crianças que ainda amamentava, Marguerite voltou para casa três semanas depois. No entanto, o marido novamente recomeçou o inferno. Sem forças, ela então pediu o golpe de misericórdia, a machadada. Blasfemando o nome do Senhor, ele pegou o machado e atirou nela, que conseguiu se esquivar. Transtornada, Marguerite voltou-se, pegou o machado e desferiu o golpe mortal no marido. Ela foi presa e, cerca de treze anos depois, em 1536, pediu a clemência do rei. A carta de Marguerite foi registrada por um requerente para ser enviada à Grande Chancelaria real. Cabia ao rei o poder de perdoar os pecadores Esta é uma das muitas histórias contadas pela historiadora Natalie Zemon Davis no livro Histórias de perdão. As cartas de perdão eram lidas em voz alta, numa cerimônia especial. O próprio rei poderia estar presente, especialmente se fosse na Sexta-feira Santa, data reservada ao perdão das penas de morte, em honra e reverência à Paixão de Nosso Senhor. O solicitante era apresentado aos juízes, suplicante e humilde. Bastava ao rei ser magnânimo e caridoso, ou seja, cumprir uma de suas funções delegadas por Deus. E ele o era: mais de 90% dos casos foram perdoados. Em sua maior parte, as cartas de perdão retratam o mundo violento das ordens inferiores: camponeses e artesãos, comerciantes, barbeiros, cuteleiros, açougueiros, quase todos analfabetos, incapazes de redigir uma petição. O cenário é quase sempre uma casa, mas também uma oficina, uma taverna. Pelo olhar daqueles poucos nobres escribas redatores (cerca de 200 em 1589), Zemon Davis busca o cotidiano de um grande espectro social num tipo de documentação em que as capacidades literárias dos escritores influenciavam a decisão final. Assim, a historiadora analisa a forma com que as pessoas do século XVI contavam histórias. Seu método consiste em examinar detalhadamente a estratégia, a linguagem, a caracterização e os motivos das narrativas. Para tratar dessas habilidades literárias, Zemon Davis baseia-se teoricamente em Paul Ricoeur, e mais especialmente Roland Barthes. E é justamente em seu método que residem o ponto forte e o fraco de sua obra. De uma lado - além do belo e instigante tema - a clareza, o rigor acadêmico na pesquisa, a riqueza bibliográfica e a comparação detalhada das narrativas (inclusive com transcrições de várias cartas); de outro, um absenteísmo moral que quase beira a desumanidade, a ausência de emoção. Pois apesar de Zemon Davis pretender alcançar intrinsecamente com essas histórias uma ressonância mais ampla, de longa duração, relacionando o cotidiano violento da França do século XVI com as histórias do cotidiano das grandes cidades modernas (como Nova York, por exemplo), quase nunca se angustia. Pelo menos não demonstra. Até mesmo quando fala da violência contra as mulheres. Autora acha graça da tragédia humana! No caso de Marguerite, a historiadora preocupa-se com a ausência de raiva no sentimento da mulher que matou o marido. Nenhum comentário para o drama humano, para a miséria da humilhação diária, para essa terrível e degradante condição marital feminina das classes inferiores do século XVI que as cartas tão bem mostram. Essas cartas de perdão versam sobre assassinatos (adultério, roubo, defloração de virgens), mais especialmente assassinatos de mulheres. De mulheres bruxas, de mulheres infiéis, de mulheres que não fizeram nada, de mulheres que passaram a vida inteira sendo surradas, como foi o caso de Marguerite. Apesar disso, a historiadora não demonstra nenhum assombro. Pelo contrário: no fim do livro diz que pensou muitas vezes em pedir perdão àquelas personagens que morreram tragicamente. Sabem por quê? Ela riu de suas histórias. Achou graça da tragédia humana, dizendo que seus leitores devem ter rido também. Será que daqui a quatrocentos anos algum historiador achará graça dos massacres cotidianos que presenciamos em nossas cidades? Ah, querem saber se Marguerite recebeu o perdão real? Leiam o livro. Ricardo da Costa é professor de História
Medieval da Universidade Federal
do Espírito Santo (Ufes) Caderno Prosa & Verso,
Sábado, 02 de junho de 2001, página 03
Pecado,
a arma contra a mulher medieval DUBY, Georges. Eva e os padres - Damas do século XII (trad.: Maria Lúcia Machado). São Paulo: Companhia das Letras, 2001, 176p. A mulher na Idade Média foi o último tema de pesquisa de um dos maiores historiadores do século XX, Georges Duby. Nele, o autor tentou perceber o mundo feminino medieval por intermédio da documentação que restou, isto é, do que os homens letrados de então (os clérigos) escreveram a respeito delas, o que lhes estipularam — o lugar social a elas reservado, seus papéis, funções, palavras. E também os seus murmúrios. Pensar e sentir como as pessoas de outrora Por isso, talvez tenha sido a sua pesquisa mais densa, e, não obstante as dificuldades intrínsecas ao trabalho de interpretação de textos medievais, Duby pensava (a meu ver corretamente) que o historiador deve reconstruir o passado através de um esforço mental de identificação com o que observa, deve tentar pensar e sentir como os de outrora. Mas entender as mulheres? Esta sempre foi uma questão premente no universo masculino. E Duby pergunta: “Que sabemos nós delas?” No caso, compreender as mulheres medievais foi, neste sentido, sua empreitada mais sutil. E vitoriosa, pois, como mostra Eva e os Padres, seu olhar sensível soube como poucos alçar um vôo delicado e, ao mesmo, tempo pujante. O livro inicia com uma interessante arqueologia textual do Livro das Maneiras (c. 1174-1178), poema de autoria do bispo Étienne de Fougères. Trata-se de um sermonário em que, pela primeira vez, as mulheres surgem nos textos medievais como um grupo social específico, dotado de moral singular e sujeito a fraquezas comuns. Elas surgem? Melhor talvez seja dizer que são “denunciadas”. Pois, entre outros pecados, elas “desviam o curso das coisas”, são “hostis à tutela masculina” e possuem o maior dos vícios em sua natureza: a luxúria, desejo que as queima por dentro, as fazem “correr atrás de amantes”. Textos clericais falavam de perversões e feitiços A partir desse poema, Duby recompõe uma imensa teia de textos clericais que repetem à exaustão essa ladainha. Pesquisa notável e diversificada: poemas, cartas, sermões, comentários sobre a Bíblia, tratados. Nada mais do que o principal papel do verdadeiro historiador, o trabalho com as fontes. Destacarei apenas uma, a primeira, uma interessante análise de "Eva e os Padres". Duby trata do livro Da disciplina eclesiástica (c. 907), escrito por um abade com o objetivo de manter a paz, num tempo em que a sociedade feudal sentia a crueldade da violência dos cavaleiros. Do escrito acima mencionado consta um questionário: os clérigos já tentavam reger a intimidade das almas, seus pensamentos. Uma grande novidade. Esse questionário fez sucesso, tanto que foi copiado e recopiado em outros livros de tal forma que, cem anos depois, em outra obra (Decretum), as mulheres foram finalmente objeto de interrogatório. O que eles pensavam delas? Pasme o leitor de hoje: as perguntas versam sobre lesbianismo, feitiçarias com sangue menstrual e testítulos torrados, zoofilia, aborto, sexo grupal com o uso de consolos-de-viúvas, assassinato, prostituição, e até sexo oral: “Provaste da semente de teu homem para que ele arda mais de amor por ti?”. A conclusão de Duby é simples, direta: ele tem dificuldade em imaginar o autor visitando as casas para conversar com as comadres e descobrir as intimidades femininas. Na verdade, o historiador descobre que o clérigo copiou suas perguntas de outras obras! Com o lançamento de Eva e os Padres, a Companhia das Letras fecha a trilogia do feminino medieval escrita por Georges Duby: Heloísa, Isolda e outras damas no século XII (1995) e A lembrança das ancestrais (1997). São escritos fundamentais para os interessados nas relações humanas e, especialmente, para os historiadores brasileiros: a prosa agradável, de ritmo suave e saboroso de Duby (que a tradução de Maria Lúcia Machado consegue bem preservar) mostra que trabalho acadêmico não é sinônimo de texto maçante. Duby marcou seu nome na historiografia mundial porque soube como poucos unir o rigor da pesquisa acadêmica e a sensibilidade madura de seu olhar em um texto primoroso, onde a busca das belas palavras faz com que a leitura seja um deleite. E nada melhor do que olhar as mulheres para mostrar que nós, homens, também podemos e devemos apurar nossas sensibilidades. As damas de Duby, do século XII, são felizes e fortes, “tão fortes que os machos tentam enfraquecê-las pelas angústias do pecado”. Ricardo da Costa é professor de História Medieval da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)
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