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Ricardo
da Costa (Ufes) e
Adriana Zierer (Uema)
Artigo publicado no Boletín Electrónico de la Sociedad Argentina de Estudios Medievales (SAEMED), año II, n. 3, Abril/Julio de 2008 (ISSN 1851-3689). Palestra proferida no III Congresso de História - Jornadas de História Antiga e Medieval, evento organizado pelo Centro Acadêmico de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), no dia 25 de outubro de 2006. *** Imagem 1 I. Medo
Assim começa a carta que São Bernardo (1090-1154) escreveu ao abade Suger, de Saint-Denis (c. 1085-1151), em 1149. Muito preocupado, o monge de Cister pediu a Suger que brandisse o gládio espiritual, “que é o verbo de Deus”, contra um “diabólico costume” que tentava novamente retornar ao reino da França. Isso porque alguns homens que regressaram da cruzada – especialmente Henrique, filho do conde de Champagne, e Roberto, irmão do rei da França – convocaram, para depois da Páscoa, “um desses malditos torneios”, para lançarem-se uns contra os outros em duelo mortal. Bernardo questionou a Suger a sinceridade dos propósitos dos cavaleiros que partiram para a cruzada, e exclamou na carta: “Com que espírito agressivo eles foram para a peregrinação hierosolimitana, e com qual vontade retornaram!” Suplicante, o monge de Cister rogou e admoestou a Suger, “o maior príncipe do reino”, que usasse a persuasão, e, se preciso fosse, a oposição viril, para impedir que um mal tão espantoso terminasse com a paz do reino: “Assim o convém à vossa honra, à de vossa terra e à utilidade da Igreja de Deus” (Ao abade Suger, carta 376) (SAN BERNARDO. 1990: 1078-1079). De fato, devido ao grande número de mortos e feridos, dezenove anos antes a Igreja inutilmente tentara proibir essas “detestáveis assembléias” chamadas torneios: em 1130 (concílios conjuntos de Reims e Clermont), em 1139 (Latrão II) e 1179 (Latrão III). Em Clermont, por exemplo, a Igreja privara de sepultura cristã aqueles que se ostentavam e pereciam nessas feiras (Atas do Concílio de Clermont, IX). [2] Portanto, o século XII assistiu ao surgimento dos torneios, uma novidade no mundo cavaleiresco, profana e escandalosa aos olhos dos clérigos, pois impregnada de morte e de lucro. O que foram? Quais suas principais características? A proposta desse pequeno trabalho é responder essas perguntas, sempre tendo como base o que os próprios coetâneos disseram a respeito. II. Raízes Imagem
2 O prazer da violência foi uma constante na nobreza medieval. Já durante a conferência de paz de Estrasburgo (842), o historiador Nithardo (†c. 843, neto de Carlos Magno), desejoso de mostrar a concórdia e a fraternidade reinantes entre os descendentes carolíngios, comentou a existência de jogos entre os soldados:
O texto de Nithardo ainda nos conta que os soldados, em igual número, foram escolhidos nos exércitos dos reis Carlos e Luís. Eles se lançaram uns contra os outros, brandindo suas lanças, como se quisessem lutar, e depois simularam uma fuga. Jean Flori afirma que se tratou de um espetáculo, uma encenação semelhante às danças dos guerreiros neozelandeses, e não um verdadeiro combate (FLORI, 2005: 98-99). Por sua vez, na Crônica de Saint-Martin de Tours (1066) há outra importante informação: morreram muitos barões nos arredores de Angers. Esse texto nos diz de um deles, Geoffroy de Preuilly (um senhor da região do Loire), que foi “o inventor dos torneios” (Torneamenta invenit) (DUBY, 1993: 121). Embora essa informação seja contestada por muitos historiadores, o fato é que a moda dos torneios estava em alta no início do século XII, na região entre o Loire e o Escaut, pois já em 1125 o escritor do conde de Flandres contava que
III. Espaços e pessoas A maior parte dos torneios ocorreu nas antigas “marcas” ao norte, junto às “velhas florestas fronteiriças”: Vermandois (Gournay e Resson), Champagne (Lagny e Joigny), Normandia (Eu). A biografia de Guilherme, o Marechal (c. 1145-1219), descreve dezesseis torneios, ocorridos em quinze campos, a maioria nessas regiões. (DUBY, 1987: 124-125) O espaço era quase sempre um campo, com bosques e pastagens (mas também poderia ser em uma cidade, ou seus arredores). O torneio era uma atividade coletiva: durante vários dias, dois grandes grupos – formados por cavaleiros, escudeiros, arqueiros e infantes – disputavam um determinado espaço, com sítios, ataques (frontais ou não), emboscadas e simulações de fugas. (LADERO QUESADA, 2004: 129) Imagem
3 Quem eram os participantes desses confrontos coletivos? A maioria vinha da própria região, mas também da Inglaterra, Bretanha, Anjou, Poitou, Borgonha, Flandres, Hainaut e Baixa Lorena; ninguém do leste, nem do sul; nenhum rei. Os reis estavam, segundo John de Salisbury (c. 1115-1180), situados na “fortaleza da comunidade política por disposição divina”, pois Deus os escolheu pelo mistério de Sua Providência (Policraticus V, 6). Por isso, não podiam macular seus corpos participando de um encontro profano e condenado pela Igreja. Mas barões e condes - a alta baronia medieval (condes de Clermont, de Beaumont, de Bolonha, Blois, o conde de Hainaut) – estavam como que desobrigados desse vínculo. Assim, uma vez mais os milites, aos olhos da Igreja, descumpriam seus votos e obrigações sociais. Eram fanfarrões,
Não era à toa que os clérigos censuravam os torneios. Para eles, os milites deveriam
No entanto, eles agora derramavam inutilmente seu sangue em solo profano. A Igreja pretendia tornar o cavaleiro um miliciano de Deus, para que protegesse os fracos. Por isso, sacralizou a cavalaria e tentou criar uma ética cristã. Iniciou esse processo o movimento da Pax Dei (Paz de Deus), no final do século X, com a proibição de atacar santuários, ofícios, estradas, e também todos aqueles considerados pobres, isto é, indefesos (os clérigos, camponeses, viúvas e órfãos), sob pena de excomunhão. Além disso, no século seguinte, foi criada a Tregua Dei (Trégua de Deus), proibindo combates em certos dias da semana (de quinta a domingo) e em dias santos (CARDINI, 1989: 58-50; COSTA, 2001: 19-20). Daí a posição radicalmente contrária da Igreja aos torneios. IV. O Torneio de Soissons (1175): arautos, heráldica e a violência cavaleiresca Imagem 4 Segundo seu cronista, o monge Gislebert de Mons, Balduíno V foi um homem “muito sábio e príncipe poderosíssimo” (Crônica de Hainaut, 1171). Conde de Hainaut (1171-1195), de Flandres (1191-1195) e primeiro marquês de Namur, Balduíno foi ordenado cavaleiro “com grande honra e alegria” por seu pai, Balduíno IV, em 1168, durante a vigília pascal. A seguir, para mostrar a todos os seus que já era cavaleiro, Balduíno V foi ao torneio de Maestrich, “com muitos outros cavaleiros que floresciam em Hainaut naquele tempo”. Além disso,
O torneio era a ocasião mais propícia
para um cavaleiro demonstrar coragem e honra. Era um momento no qual aqueles
homens brutos e violentos desafogavam suas energias acumuladas, e se entregavam
virilmente à luta.
Dentre os muitos torneios que Balduíno V participou e mostrou sua nobreza, a Crônica de Hainaut destaca um, o de Soissons. Naquele ano de 1175, os arautos anunciaram um torneio entre a cidade de Soissons e o castelo de Braine. Gislebert nos informa que tomaram parte, “cheios de arrogância e soberba”, cavaleiros da França e os homens de Champagne, “cavaleiros probos e preclaros”, todos unidos para combaterem contra Balduíno, já conhecido por sua coragem e técnica. O arauto e os “reis de armas” publicavam oficialmente os torneios e anunciavam o nome dos combatentes, dando a conhecer seus gritos de guerra e suas qualidades (o termo arauto vem de har, do antigo alemão haren, que significa “gritar” ou “chamar”; POLIANO, 1986: 5). Os arautos também eram especialistas em reconhecer os brasões das equipes, daí o desenvolvimento da heráldica nos torneios – esta palavra também é proveniente do termo arauto (em inglês herald), e este do termo latino heraldus (originário, por sua vez, da palavra germânica herold, “anunciador” ou “pregoeiro”). O adjetivo probo é um dos mais utilizados na Crônica para se referir a um cavaleiro, o que denota a qualidade ideal estimada pelo cronista: o caráter íntegro, honesto, reto, justo daquele que porta a cavalaria. Probos e preclaros (ilustres), todos queriam vencer o conde de Hainaut em uma justa. Balduíno chegou para o torneio com duzentos cavaleiros e mil e duzentos soldados a pé. Ele estava acompanhado por seus cunhados, Rodolfo de Coucy e Bouchard de Montmorency, além do conde de Clermont, Raul, “cavaleiro probíssimo”. Reunidos em Braine, os cavaleiros de Champagne e Flandres, “apesar de terem mais fama”, não se atreveram a sair para o torneio. Balduíno então “cavalgou em armas” até o monte e os vinhedos de Braine, onde ficou toda a tarde, à espera do grupo rival. Contudo, ninguém apareceu para a justa. Balduíno então preferiu aguardar mais um pouco, pois havia dado sua palavra em um pacto “firmado para tornear”. Quando a maior parte dos cavaleiros de seu bando já havia regressado a Soissons – e os soldados estavam na metade do caminho – os homens de Champagne e da França saíram de Braine e traiçoeiramente atacaram o conde de Hainaut, que resistiu até que
Conforme se percebe na descrição dessa fonte, os torneios eram um tipo de esporte coletivo. Alguns combatentes lutavam a cavalo, outros a pé, não sendo obrigatória a igualdade de forças. Como um jogo, vencia a melhor equipe. Ainda que um cavaleiro pudesse se destacar, o importante era a atuação do conjunto de cavaleiros de uma das alas. Se um cavaleiro fosse afoito demais, corria o risco de ser capturado pelo grupo adversário (FLORI, 2005: 100-103). Os combates eram simultâneos, com todas as equipes participando juntas e, depois, a cada dois grupos oponentes. Os romances de cavalaria, como veremos a seguir, deram destaque aos combates individuais. V. Os torneios em O Cavaleiro da Charrete (c. 1164) de Chrètien de Troyes (c. 1135-1190) Imagem 5 Com muita propriedade, Jacques Le Goff mostra uma pista para se estudar os torneios: os textos literários, fontes privilegiadas para o estudo do imaginário medieval (LE GOFF, 1994: 13). E vai além: para ele, são os textos literários que fornecem os documentos de maior exatidão para a apreciação da realidade histórica (LE GOFF, 1994: 274). Hervé Martin concorda sobre a importância das fontes literárias, especialmente para a compreensão da “mentalidade cavaleiresca”, pois expressam os sistemas de valores e códigos ideológicos da nobreza francesa no século XIII. Para Martin, a literatura manifesta as aspirações e normas da sociedade medieval, e respondem aos historiadores tanto às questões relativas às faltas cometidas pelas pessoas quanto às mudanças sociais. Como os romances de cavalaria ressaltavam a força da nobreza, escondiam assim o fortalecimento das monarquias capetíngia e plantageneta nos séculos XII e XIII, bem como a crescente importância dos mercadores e banqueiros no mesmo período (MARTIN, 1996: 299). Os romances, poemas e canções de gesta expressam a visão do mundo feudal e o código da cavalaria, e também – com o declínio das cruzadas no século XIII – a inquietude, as dúvidas e desilusões da nobreza. O Livro da Ordem de Cavalaria (c. 1275) de Ramon Llull (1232-1316) é um exemplo desta tendência, pois nele o autor propõe a recuperação das funções éticas da cavalaria, sua ligação ao cristianismo através do uso da razão e de um código de virtudes, personificando o ideal do cavaleiro cristão (COSTA, 2001: 231-252; ZIERER, 2006: 1-13). Nas canções de gesta, relatos sobre os feitos guerreiros de certos personagens (como A Canção de Rolando, séc. XII), o cavaleiro deve ter atributos. Não apenas ser corajoso, mas sábio, e, principalmente, dotado de fortaleza, e orientado para feitos nobres. Além disso, o cavaleiro perfeito deveria ser coroado por sua pietas, símbolo de devotamento e caridade (MARTIN, 1994: 304). Na Canção de Rolando, por exemplo, ocorre o sacrifício do herói: antes de morrer ele entoa uma canção de amor à sua espada Durandal, e oferece sua luva a Deus, erguendo-a ao Céu, que se abre para que uma multidão de anjos desça e leve o herói ao Paraíso (CARDINI, 1989: 61). Nos romances corteses compostos nas cortes senhoriais a partir do século XII, é a dama quem incita o cavaleiro a realizar ações para que ele ultrapasse seus limites. O fervor religioso a Deus é laicizado e redirecionado à dama. Ela estimula o jovem a um contínuo sobrepujar-se. Ele age somente para e por ela. O amor cortês torna-se sinônimo de riqueza interior e progresso moral, fonte de toda a inspiração poética (MARTIN, 1996: 329). O cavaleiro é uma “marionete” nas mãos da dama, e se presta à alegria erótica e perversa, muitas vezes em um adultério platônico (MARTIN, 1996: 330-331), ou mesmo real (COSTA, 2003). Esse é o caso de O Cavaleiro da Charrete (c. 1164), poema de 7.134 versos composto por Chrètien de Troyes (c. 1135-1190) a pedido de Maria de Champagne (1145-1198), em que o amor carnal e adúltero é realizado. Nessa obra, fica claro o modelo do cavaleiro cortês, exemplificado no personagem Lancelot do Lago. Ele é leal, valente, cortês e generoso, pois a cavalaria, como instituição ligada à nobreza, desprezava a atividade produtiva e valorizava a largueza demonstrada em festas e torneios (ZIERER, 2004: 189). Inclusive, segundo esse ideal cavaleiresco cortês, era impossível que elementos de outra categoria social que não fossem da nobreza ingressassem na cavalaria, o que, como sabemos, não correspondia exatamente à realidade (IOGNA-PRAT, 2002). O cavaleiro cortês é um jovem totalmente dedicado à sua dama, capaz de fazer qualquer sacrifício por ela. Na narrativa de Chrètien, a história se inicia com o rapto da rainha Guinevere (esposa do rei Artur) por Meleagant, que a conduz ao reino de seu pai. Três cavaleiros da corte de Artur tentam resgatá-la: Kai (senescal de Artur e seu irmão adotivo), Gawaine (seu sobrinho), e Lancelot do Lago (o cavaleiro). Só este obtém sucesso na empreitada. Inicialmente, Lancelot é convidado a viajar numa carroça (algo ultrajante para um cavaleiro), para saber o paradeiro da rainha. Ele consente em ser transportado dessa forma, e mostra assim que faz tudo o que está ao seu alcance por amor à sua dama. Depois de passar por diversas aventuras, o cavaleiro prova seu valor como guerreiro e vence seus oponentes. Algumas passagens de O Cavaleiro da Charrete sintetizam essas qualidades cavaleirescas. Por traição de Meleagant, Lancelot é aprisionado. Mas antes disso, ele conseguiu libertar Guinevere e consumar sua paixão por ela. Na prisão, sua carcereira o informou que a rainha estaria presente em um torneio. Ao saber disso, Lancelot jurou à carcereira que, se ela o deixasse partir, ele retornaria à prisão após o fim do torneio. Ela permite que fosse, mas depois de seu juramento, feito com as mãos em relíquias sagradas, como na cerimônia vassálica (o que mostra a influência da Igreja neste ritual, bem como a fidelidade). Lancelot então disse a ela:
Lancelot lutou no torneio sem revelar sua identidade. Contudo, para testar seu amor e fidelidade, Guinevere lhe enviou uma mensagem: ele deveria perder os combates! Resignado e submetendo-se à sua dama, o cavaleiro fez o que ela ordenou. Contudo, mais tarde a rainha lhe enviou um recado contrário: agora ele deveria lutar o melhor que pudesse. Mais uma vez, ele obedeceu:
Assim, Lancelot, modelo de cavaleiro cortês, venceu o torneio e voltou para a prisão, cumprindo fielmente seu juramento. Chrètien de Troyes não terminou O Cavaleiro da Charrete. Outro copista, Geoffroy de Lagny, concluiu o poema. Nele, o personagem Meleagant construiu uma torre e lá encerrou Lancelot. Mais tarde, o cavaleiro cortês foi libertado pela Donzela da Mula. A narrativa termina com um combate final entre Lancelot e Meleagant, quando este é derrotado e morto pelo herói na corte do rei Artur (ZIERER, 2004: 190).. VI. “Aos potentes e cavaleiros” (Sermão 52): a virulenta crítica aos torneios feita por Jacques de Vitry (c. 1170-1240) Imagem 6 Historiador e bispo de Acre (1216-28) – depois cardeal de Tusculum – Jacques de Vitry (c. 1170-1240) foi um pregador de grande reputação no ocidente medieval na primeira metade do século XIII. Seus sermões são documentos muito importantes para se analisar os costumes, a vida cotidiana e as prescrições da Igreja - nem sempre seguidas pelos fiéis. Vitry tem três sermões dirigidos aos cavaleiros e potentes (termo que designava os superiores da hierarquia social, em oposição aos pobres). Em um deles, o bispo se vale de uma passagem do Evangelho de Lucas (3, 14) para tratar dos torneios – e criticá-los asperamente. Naquela passagem bíblica, João Batista prepara o ministério do Cristo, e é interrogado por multidões aflitas para serem batizadas. Um dos grupos, os soldados, perguntou a ele:
Nessa passagem – que, de resto, não se encontra nos outros evangelhos sinóticos – há uma clara conclamação à caridade e à resignação: para receberem Cristo, os milites não deveriam desejar mais do que tinham, não poderiam causar sofrimento aos outros, muito menos cometer perjúrio. Jacques de Vitry aproveita a passagem de Lucas para contar uma estória que se recorda ter ocorrido consigo. Um dia, ele conversava com um “devoto cavaleiro”, mas que gostava de freqüentar os torneios, além de convidar outros cavaleiros através de arautos e histriões (esses últimos, os farsantes e palhaços do mundo!). Imagem
7 O cavaleiro pensava que “essa espécie de jogo ou exercício” não fosse pecado. Então o bispo tentou convencer o cavaleiro a não participar mais desses eventos, pois ali os sete pecados capitais tinham espaço para o mal e, por isso, a Igreja recusava sepultura cristã aos que morriam nele. (COSTA, 2005) Vitry enumerou-os:
Há melhor documento para abordar a vida real medieval que os sermões dos moralistas? Se o historiador der um passo a mais em sua interpretação textual e destacar cada adjetivação do escritor, perscrutando o significado lato de cada palavra, encontrará uma descrição muito dura, mas certamente bastante fidedigna e próxima do que realmente se passava naquelas festas profanas – além da natureza e o caráter de seus participantes. Ademais, perceberá que, na Idade Média, o discurso clerical era muitas vezes ouvido por ouvidos moucos, e que a cristianização da sociedade foi, em muitos aspectos, superficial, de verniz, incorporada somente nas aparências, muito pouco nas consciências. Portanto, a cavalaria secular e profana que se exibia nos torneios, segundo Jacques de Vitry, era composta de homens incrédulos, hereges, impiedosos, presunçosos, jactanciosos, falastrões, assassinos, invejosos, ladrões e adúlteros! Esses glutões insaciáveis são a melhor prova que “a derrota (moral) da humanidade chega quando o poder se corrompe” – e aqui o bispo de Acre cita Horácio (Epístolas, I, 2, 14), poeta romano (65–8 a.C.), e mostra sua paixão pela poesia clássica, aliada aos ensinamentos éticos cristãos. Citando Mateus, Vitry maldiz os cavaleiros que fazem o sangue jorrar, já que eles serão “afogados nas profundezas do mar” (Mt 18, 6). Após sentenciar os milites mortos nos torneios à verdade do julgamento final, Jacques de Vitry nos informa que seu ouvinte, o piedoso, porém ativo, cavaleiro participante dos torneios – certamente assustado e temeroso com o futuro de sua alma – “ouviu as palavras e reconheceu abertamente a verdade”, e passou a odiar aqueles detestáveis encontros profanos. O bispo então conclui:
VII. Conclusão Imagem 8 Os torneios representaram um traço de união, um distintivo da nobreza, e auxiliaram sua coesão como grupo que buscava afirmar seus privilégios e diferenças em relação a outros grupos sociais, como os burgueses e camponeses. As representações desta atividade foram abundantes em tratados, na literatura e iconografia medieval. Todo esse material, além de enaltecer as qualidades cavaleirescas, também estimulou o desenvolvimento da lírica cortês e o enaltecimento feminino, já que a mais bela e a mais nobre presenteava o melhor guerreiro com um símbolo, como um lenço, uma coroa ou outro objeto (conforme se vê na imagem 5, em que a dama, insinuante, presenteia o jovem vencedor com seu belo anel). A partir do século XIII, o armamento cavaleiresco ficou cada vez mais pesado. Começaram a ser feitas restrições aos armamentos usados em batalha: às armas à outrance, preferia-se o uso de armas à plaisance, onde a ponta aguçada da lança era substituída por uma coroa. Além disso, a substituição gradual do torneio pela justa, com apenas dois combatentes se enfrentando, reduziu os graves acidentes (e mortes) que ocorriam anteriormente (CARDINI, 1989: 72). No final da Idade Média, foi colocada uma barra de madeira entre os contendores, para dar-lhes maior proteção. Quanto à posição da Igreja, na medida em que os torneios foram importantes no desenvolvimento das relações sociais no interior da aristocracia, quando estes perderam a periculosidade e passaram cada vez mais a serem jogos e espetáculos, o papa João XXII (1316-1334) retirou sua proibição (em 1316). Com as justas, cada oponente deveria quebrar a lança de seu oponente, marcando pontos pelo número de lanças quebradas. Seja como for, a constância do discurso hostil da Igreja em relação aos torneios contribuiu enormemente para o gradativo desenvolvimento do processo civilizador e a domesticação da belicosidade dos bellatores (COSTA, 2001), além de, mesmo que indiretamente, favorecer a melhora da condição feminina e o refinamento da sociedade ocidental. * Agradecemos a inestimável ajuda da Profa. Simone Druffner com as páginas do Codex Manesse, e a generosa e sugestiva leitura crítica do texto por parte do Prof. Carlile Lanzieri Júnior. * Fontes Bibliografia
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