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Ensinamentos astrológicos [1] São João Damasceno (c. 676-754) A Exposição
Exata da Fé Ortodoxa, Livro 2 No começo, então, isto é, no primeiro dia, Deus criou a luz, a glória e o ornamento de toda a criação visível. Pois sem ela todas as coisas ficariam nas trevas indistintas, incapacitadas de mostrar sua beleza própria. E Deus chamou à luz dia, mas às trevas chamou noite. O ar, de fato, não tem luz em sua essência. Foi portanto esta ausência mesma de luz do ar que Deus chamou trevas: e não é a essência do ar que é tenebrosa, mas a ausência de luz que é claramente um acidente e não uma essência. E de fato não foi a noite, mas o dia, que foi nomeado primeiro, de modo que o dia vem antes e depois dele vem a noite. A noite, portanto, segue o dia. E do começo do dia até o dia seguinte há um período completo de noite e dia. Pois a Escritura diz, “e a noite e a manhã foram um dia”. Quando, portanto, nos três primeiros dias a luz foi emanada e reduzida pela ordem divina, tanto o dia e a noite aconteceram. Mas no quarto dia Deus criou o grande luminar, isto é, o Sol, para que tivesse autoridade sobre o dia, pois é por ele que o dia existe: é dia quando o Sol está sobre a Terra, e a duração de um dia é o percurso do Sol sobre a Terra do seu nascer até o crepúsculo. E Ele também criou as luminárias menores, isto é, a Lua e as estrelas, para que tivessem autoridade sobre a noite, e para dar luz à noite. Pois é noite quando o Sol está sob a terra, e a duração da noite é o percurso do Sol sob a terra, do crepúsculo ao nascer. Assim, a Lua e as estrelas foram feitas para iluminar a noite: não que elas estejam sob a Terra durante o dia, pois mesmo durante o dia as estrelas estão no céu sobre a Terra, mas o Sol as esconde, e também a Lua, por causa do seu maior brilho. Nestas luminárias o Criador pôs a luz criada primordialmente: não porque Ele precisasse de outra luz, mas para que aquela luz não ficasse ociosa. Pois um luminar não é meramente luz, mas um veículo para a luz. Existem, dizem-nos, sete planetas entre estas luminárias, e estes se movem em uma direção oposta à do céu: daí o nome planetas [3]. Pois, enquanto dizem que o céu se move do leste para o oeste, os planetas se movem do oeste para o leste; mas o céu carrega os sete planetas consigo, por causa de sua maior velocidade. Eis aqui o nome dos sete planetas: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, e Saturno; e em cada zona do céu está um destes sete planetas:
O curso que o Criador determinou que eles percorressem nunca termina e permanece fixo, como Ele estabeleceu. Pois o divino David diz, “Tu estabeleceste a Lua e as estrelas”, pelo emprego do termo “estabeleceste” ele indicou a fixidez e imutabilidade da ordem e seqüência que Deus lhes deu. Pois Ele os designou para estações, e signos, e dias e anos. É pela ação do Sol que as quatro estações acontecem. E a primeira delas é a Primavera: pois nela Deus criou todas as coisas, e até hoje sua presença é evidenciada pelas flores se abrindo, e este é o período equinocial, uma vez que o dia e a noite têm cada um doze horas. Ela é causada pelo fato de o Sol nascer no meio, e é suave e aumenta o sangue, e é quente e úmida, e está no ponto médio entre o inverno e o verão, sendo mais quente e seca que o inverno, mas mais fria e úmida que o verão. Esta estação vai de 21 de maço a 24 de junho. [4] Depois, quando o ponto do nascer do Sol se move para o norte, vem a estação do verão, que está entre a primavera e o outono, combinando o calor da primavera com a secura do outono: pois ela é quente e seca, e aumenta a bile amarela. Nela acontece o dia mais longo do ano, que tem quinze horas [5], e a noite mais curta de todas, com apenas nove horas. Esta estação vai de 24 de junho a 25 de setembro. Então, quando o Sol retorna ao ponto médio, o outono assume o lugar do verão. Ele tem uma quantidade mediana de frio e calor, secura e umidade, e fica entre o verão e o inverno, combinando a secura do verão com o frio do inverno. Pois ela é fria e seca, e aumenta a bile negra. Esta estação é equinocial, tanto o dia quanto a noite consistindo de 12 horas, e ela dura de 25 de setembro até 25 de dezembro. E quando o nascer do Sol chega a seu ponto mais baixo, isto é, o sul, temos o inverno, com sua frieza e umidade. Ele fica entre o outono e a primavera, combinando o frio do outono com a umidade da primavera. Nele acontece o dia mais curto, que tem apenas nove horas, e a noite mais longa, que tem quinze; e dura de 25 de dezembro até 21 de março. O Criador fez este sábio esquema para que não passássemos dos extremos do frio, ou do calor, ou da secura, ou da umidade, ao extremo oposto, e assim tivéssemos doenças terríveis. Pois a razão por si já nos mostra o perigo das mudanças súbitas. Assim, portanto, é o Sol que faz as estações, e através delas o ano; ele faz igualmente os dias e as noites, os dias quando nasce e está sobre a terra, e as noites quando se põe sob ela: e ele dá às demais luminárias, tanto a lua quanto às estrelas, sua luminosidade. Diz-se ainda que há nos céus 12 signos feitos pelas estrelas [6], e que estes se movem em direção oposta ao Sol e à Lua e aos outros cinco planetas, e que os sete planetas passam por estes doze signos. Além disso, o Sol passa um mês completo em cada signo e atravessa os doze signos no mesmo número de meses. Estes, então, são os nomes dos doze signos com seus meses respectivos: Áries, que recebe o Sol em 21 de março. Agora, os gregos dizem que todos os assuntos são controlados pelo nascimento e ocaso destas estrelas, isto é, o Sol e a Lua: pois é destes assuntos que trata a astrologia. Mas nós dizemos que deles temos sinais de chuva e seca, de frio e calor, de umidade e secura, e dos ventos vários, e assim por diante, mas nenhum sinal no que diz respeito às nossas ações. Pois nós fomos criados com vontades livres pelo Criador e somos mestres de nossas próprias ações. Se todas as nossas ações dependem do curso das estrelas, tudo o que fazemos é fruto da necessidade: e a necessidade exclui a virtude e o vício. Mas, se não possuímos nem virtude nem vício, não merecemos louvores nem punições, e Deus, por sua vez, seria injusto, pois ele dá a uns coisas boas e a outros aflições. Ele não mais guiaria nem ajudaria suas próprias criaturas, se as coisas fossem carregadas e levadas pela força da necessidade. E a faculdade da razão nos seria supérflua: se não somos mestres de nossas ações, a deliberação é bastante supérflua. A razão, em verdade, nos é dada apenas para que tomemos conselho, e daí que toda razão supõe o livre arbítrio. E portanto nós dizemos que as estrelas não são as causas das coisas que ocorrem, nem a origem daquelas que acontecem, nem da destruição daquelas coisas que perecem. Elas são antes sinais de chuvas e de mudanças de ar. Mas, talvez, alguém possa dizer que mesmo que elas não sejam as causas das guerras, ainda assim são sinais delas. E, na verdade, a qualidade do ar que é produzido pelo Sol, e a Lua, e as estrelas, produz de maneiras diversas diferentes temperamentos, e hábitos, e disposições. Mas os hábitos estão entre as coisas que temos em nossas próprias mãos, pois é a razão que os regra, e dirige, e modifica. Também acontece, com freqüência, o surgimento de cometas. Estes são sinais da morte de reis, e eles não estão entre as estrelas que foram feitas no começo, mas são formados naquele momento pela divina ordem e depois extintos. E nem mesmo aquela estrela que os Magos viram no nascimento do Amigo e Salvador do homem, nosso Senhor, que se tornou carne para a nossa salvação, está entre aquelas que foram feitas no começo. E este é evidentemente o caso porque às vezes seu curso ia do leste para o oeste, e às vezes do norte para o sul; em um momento estava escondida, e no outro estava visível, o que é desarmonioso em relação à ordem e natureza das estrelas. Deve ser entendido, então, que a Lua deriva a sua luz do Sol; não que Deus não fosse capaz de lhe dar luz própria, mas para que a ordem e o ritmo fossem impressos na natureza, uma parte regendo, e a outra sendo regida, e para que fôssemos ensinados a viver em comunidade e dividir nossas posses uns com os outros, e estar submetidos, primeiro ao nosso Criador, nosso Deus e Senhor, e depois também aos governantes que têm sobre nós a autoridade que Ele concedeu, e não questionar porque este homem é o governante e não eu, mas receber bem tudo o que vem de Deus com espírito razoável e cheio de graça. O Sol e a Lua, além disso, sofrem eclipse, e isto demonstra a loucura daqueles que adoram a criatura no lugar do Criador, e nos ensina quão mutáveis e alteráveis todas as coisas são. Pois todas as coisas são mutáveis exceto Deus, e tudo o que é mutável é passível de corrupção segundo as leis da sua própria natureza. Agora, a causa do eclipse do Sol é que o corpo da Lua se interpõe como uma divisória e faz uma sombra, impedindo a luz de ser derramada em nós; e na medida em que o eclipse seja proporcional ao tamanho do corpo da lua, assim o Sol é escondido. Mas não se espantem de o corpo da Lua ser menor. Pois muitos declaram que o Sol é muitas vezes maior do que a Terra, e os Santos Padres dizem que ele é igual à Terra: às vezes uma pequena nuvem, ou mesmo uma pequena colina, ou um muro, praticamente o escondem. O eclipse da lua, por outro lado, é devido à sombra que a Terra faz nela quando a Lua está cheia, e o Sol e a Lua estão nos pontos opostos do círculo máximo [8], o Sol estando sob a Terra e a Lua acima. A Terra faz uma sombra e a Luz do Sol é impedida de iluminar a Lua, e ela é então eclipsada. É preciso entender que a Lua foi criada cheia pelo Criador, isto é, uma lua de quinze dias, pois era apropriado que ela fosse feita completa. Mas no quarto dia, como foi dito, o Sol foi criado. Portanto a Lua estava onze dias à frente do Sol, pois do quarto ao décimo-quinto dia, há onze dias. Por isto acontece que em cada ano os doze meses do sol contenham trezentos e sessenta e cinco dias e um quarto, e como o quarto vira um inteiro, em quatro anos um dia extra é completado, o qual é chamado bissexto. E tal ano tem trezentos e sessenta e seis dias. Os anos da Lua, por outro lado, têm trezentos e cinqüenta e quatro dias. A Lua míngua desde a sua origem, ou renovação, até a idade e de quatorze dias e três quartos, e continua a minguar até o vigésimo-nono dia e meio, quando está completamente sem luz. E então, quando se conecta novamente com o Sol, ela é reproduzida e renovada, um memorial da nossa ressurreição. Assim em cada ano a Lua dá onze dias ao Sol, e assim em três anos vem o mês interpolado dos Hebreus, e aquele ano consiste de treze meses, por causa da adição destes onze dias. É evidente que tanto o Sol quanto a Lua e as estrelas são compostos e passíveis de corrupção de acordo com as leis de suas várias naturezas. Mas somos ignorantes destas. Alguns dizem que o fogo, quando privado da matéria, é invisível, e que quando é apagado, que desaparece completamente. Outros ainda dizem que quando é apagado transforma-se em ar. O círculo do zodíaco tem um movimento oblíquo, e é dividido em doze seções chamadas signos: cada signo tem três divisões de dez pedaços, isto é, trinta divisões, e cada divisão tem sessenta subdivisões de minutos. O céu tem, portanto, trezentos e sessenta graus: o hemisfério sobre a terra e aquele abaixo dela têm cada um cento e oitenta graus. Os domicílios dos planetas Áries e Escorpião são o domicílio de Marte; Touro e Libra, de Vênus; Gêmeos e Virgem, de Mercúrio; Câncer, da Lua; Leão, do Sol; Sagitário e Peixes, de Júpiter; Capricórnio e Aquário, Saturno. Suas exaltações Áries é a exaltação do Sol; Touro, da Lua; Câncer, de Júpiter; Virgem, de Mercúrio; Libra, de Saturno; Capricórnio, de Marte; Peixes, de Vênus. As fases da Lua Ela está em conjunção com o Sol sempre que está no mesmo grau que ele; ela nasce quando está com a forma crescente [9], e isto ocorre duas vezes, nas ocasiões em que está a 60 graus de distância do Sol; ela fica curvada duas vezes, quando está a 120 de distância do Sol; duas vezes está cheia, repleta de luz, quando está a 150 graus de distância do Sol; e é uma Lua completa quando está a 180 graus de distância do Sol. Dizemos duas vezes porque estas fases ocorrem tanto quando a Lua cresce como quando mingua. A Lua demora dois dias e meio para atravessar cada signo. * Notas [1] Para São João Damasceno, consultar Catholic Encyclopedia. [2] Home-page: http://www.astrologiatradicional.com. As intervenções entre colchetes são todas do tradutor. [3] A palavra “planeta” significa “errante”; os planetas eram conhecidos como estrelas errantes, enquanto que aquilo que hoje chamamos de estrelas se chamava de “estrelas fixas”. [4] Aproximadamente. [5] O número de horas, na verdade, depende do lugar onde se está. [6] O que é falso: uma coisa são os signos, outra as constelações, que pelo menos há 2000 anos estavam mais ou menos alinhadas. [7] Na verdade, estas datas são aproximadas. Hoje é mais comum aproximar todas as datas para o dia 21 de cada mês, o que é menos impreciso, mas pode não garantir nada. [8] A eclíptica. [9] Aqui São João se refere ao surgimento do disco lunar no céu, e não ao nascimento da Lua no horizonte.
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