Tapeçaria de Bayeux (c. 1070-1080)

Tradução: Profa. Débora Rosa Stein
Supervisão: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)

A Tapeçaria de Bayeux é uma obra de arte bordada entre 1070-1080 pelos artesãos da catedral de Canterbury a pedido do bispo Odo de Bayeux (c. 1030-1097), meio-irmão de Guilherme, o Conquistador. Além de representar magnificamente muitas cenas da vida cotidiana nobre do final do século XI, a Tapeçaria retrata a vitória normanda na batalha de Hastings (1066), que teve como conseqüência a posterior conquista normanda da Inglaterra com a derrota anglo-saxã das forças de Haroldo II, rei da Inglaterra (1066) (veja artigo).

Abaixo, vocês podem observar as cenas do tapete, com um breve comentário sobre os personagens representados e o significado das cenas - na primeira frase, em negrito, encontra-se a tradução do texto em latim bordado no tapete, texto localizado sempre acima das cenas.


Cena 11

Os miles do duque William lutam contra os moradores de Dinan, e Conan é a chave para desvendar o mistério
Trata-se de uma cena típica de um combate por um castelo. Os normandos cercaram Conan na mota de Dinan (no centro). Durante essa batalha, os milites, a cavalo, arremessaram suas lanças em direção às muralhas, enquanto outros ateavam fogo às muralhas (dois normandos abaixo do castro). Conan se entrega: ele está de pé, na muralha do castro, passando a chave de Dinan para Guilherme na ponta de sua lança (cena no centro) - Guilherme está montado em um cavalo vermelho, e pega a chave também com sua lança.

Cena 12

William fornece armas para Haroldo. William chega a Bayeux. Haroldo sacramenta sua lealdade ao duque William
Para recompensar esse serviço, Guilherme presenteou Haroldo com uma arma (cena à esquerda). Retornando a Bayeux, na Normandia (representada pelo belo castelo no monte), Guilherme realiza a cerimônia feudal de compromisso, sacramentando a lealdade de Haroldo a ele. Guilherme está agora sentado em seu trono, e Haroldo, à sua esquerda, de pé, faz seu juramento, tocando relíquias sagradas guardadas em duas ricas caixas, com suas duas mãos.
A cena bordada mostra a terceira parte do contrato vassálico (o juramento sobre as relíquias), como atesta um relato
feito por Galbert de Bruges em 1127: "Em primeiro lugar, prestaram homenagem da seguinte maneira: o conde perguntou ao futuro vassalo se queria tornar-se seu homem, sem reserva, e este respondeu: “quero”; depois, estando as suas mãos apertadas pelas do conde, aliaram-se por um beijo. Em segundo lugar, aquele que havia prestado homenagem fez compromisso da sua fidelidade ao “avant-parlier” do conde, nestes termos: “Prometo, pela minha fé, ser, a partir deste instante, fiel ao conde Guilherme e guardar-lhe, contra todos e inteiramente, a minha homenagem, de boa-fé e sem dolo”; em terceiro lugar jurou o mesmo sobre as relíquias dos santos."

Cena 13

O duque Haroldo retorna para sua terra inglesa e Haroldo se aproxima do rei Eduardo
Após prestar seu juramento de fidelidade a Guilherme, Haroldo fica livre e então retorna para o reino inglês (à esquerda). A seguir, Haroldo viaja acompanhado ao encontro do rei Eduardo, o Confessor.

Cena 14

O corpo do rei Eduardo é carregado para a igreja de São Pedro. O rei Eduardo fala a seus fiéis em seu leito de morte e morre
Na cena à esquerda, o rei Eduardo recebe Haroldo. Ele está em seu trono, como o cedro em sua mão esquerda, enquanto a direita aponta para Haroldo - sinal de diálogo. Ele tem um aspecto muito doente (repare em suas longas barbas douradas). Na cena a seguir, é retratado o enterro de Eduardo, que morreu no dia 5 de janeiro de 1066. As pessoas carregam o caixão decorado do rei defunto em cortejo fúnebre. O funeral ocorreu na catedral de Westminster, na igreja de Abbey. Eduardo estava doente desde 28 de dezembro de 1065.

Cena 15

A coroa real é concedida a Haroldo, que é coroado no trono como rei dos ingleses. Arcebispo Stigand. As pessoas estão olhando uma estrela
Enquanto esteve acamado, Eduardo recebeu seu camareiro (à esquerda, cena superior), que lhe informou que seu sucessor poderia ser Haroldo ou a rainha Edith - na parte inferior da cena, o rei já está à beira da morte, e recebe um padre (como essa parte está cortada, o padre se encontra na cena 14, à direita, acima). A seguir, a coroa e o machado são oferecidos a Haroldo, que aceita. Haroldo é então coroado rei da Inglaterra (a coração ocorreu no dia 6 de janeiro de 1066 e o funeral de Eduardo aconteceu no mesmo dia pela manhã). O novo rei está sentado no trono, com o cedro em sua mão direita e o globo terrestre em sua mão esquerda. Ele está cercado de nobres (à sua direita) e o arcebispo Stigand (à sua esquerda) - repare que o nome do arcebispo está bordado acima de sua cabeça. Cinco pessoas à sua esquerda aplaudem a coroação. Na cena à direita, entretanto, um homem mostra a outras cinco pessoas aterrorizadas a passagem do cometa de Halley (que se encontra na cena 16, acima, à esquerda). A passagem do cometa foi interpretada como um mau presságio.

Cena 16

Haroldo. O navio inglês se aproxima da terra do duque William, que determina a construção de embarcações (também na cena 17)
Um homem informa a Haroldo (no trono) a passagem do cometa. Repare que na cena lateral inferior há sombras das embarcações normandas que logo invadiriam o reino - o cometa seria então um presságio funesto do futuro que aguardava o novo rei. No centro da cena, a chegada de um navio às terras de Guilherme representa a informação que este recebe sobre a morte de Eduardo e a coroação de Haroldo.

Cena 17

Guilherme, em seu trono, recebe as notícias da Inglaterra. Furioso porque crê que Haroldo usurpou o trono que seria seu - e aconselhado por seus pares - Guilherme ordena a construção de navios e organiza uma frota para invadir a ilha. Sentado à esquerda do rei está o bispo Odo de Bayeux, seu meio-irmão que pela primeira aparece em uma cena da tapeçaria que mais tarde patrocinaria. Ele aponta para o trabalho dos madeireiros, que cortam as árvores com longos machados, trabalham no preparo das toras e finalmente constroem os navios. A gesticulação do bispo sugere que ele participou ativamente na concepção do ataque, além de aconselhar diretamente o rei naquelas querelas dinásticas.

Cena 18
As embarcações são levadas para o mar. São transportadas armas embaixo das embarcações e as carroças carregadas de armamentos são puxadas
Os homens de Guilherme se preparam para a invasão. Após os barcos serem construídos, eles são puxados e levados para o mar. Uma equipe de homens armados com espadas transporta comida nos ombros para os navios; um homem carrega um tonel de bebida, outro, armado com um machado, um saco. O armamento (elmos, lanças e espadas) é levado acorrentado e coberto em carroças puxadas por homens.

Cena 19

O duque William navega no mar
Em seu elegante cavalo negro, Guilherme conduz seus homens para as embarcações. Armados com lanças e escudos, eles embarcam para a invasão. Calcula-se que partiram para a conquista mais de 700 navios, com cerca de 12.000 homens (dos quais cinco mil cavaleiros, vindos de todas as partes da Europa - Anjou, Bretanha, Aragão, Apúlia e Flandres).

Cena 20
As embarcações se aproximam de Pevensey
O mar se agita com os barcos lotados de guerreiros e cavalos. Guilherme, Mora e Matilde, sua esposa, estão nas embarcações.

Cena 21

Os cavalos estão em terra firme. Os milites vão apressados para Hastings em busca de comida.
Os normandos chegam no dia 28 de setembro em Pevensey. Os cavalos são retirados dos navios. Já com suas cotas de malha, os milites cavalgam: vão para um banquete comemorar a chegada na ilha.

Cena 22
Aqui está Wadard. Cozinhando carne. O empregado serve a comida
Um touro é abatido para o banquete, além de outros animais. O homem armado montado no cavalo é Wadard, discípulo do bispo Odo de Bayeux. Dois homens assam uma carne, outro prepara os pratos.

Cena 23

Eles estão jantando. O bispo abençoa a comida e o vinho. Bispo Odo. William. Robert
O banquete foi servido ao ar-livre. Guilherme está sentado com seus nobres. Há muita bebida e vários tipos de carnes (repare no frango no espeto servido, à esquerda). Seu meio-irmão, o bispo Odo de Bayeux, no centro da mesa, faz uma prece de agradecimento. Os empregados trazem a comida. Na cena ao centro, em um castelo, Guilherme conversa com Odo (à sua direita) e Robert, conde de Mortain (seus nomes estão bordados acima de suas cabeças). Eles decidem construir uma base militar para a invasão em Hastings (o que chamamos hoje na terminologia militar de "cabeça-de-ponte"). Assim, seus homens partem com utensílios para construir um castelo de defesa em Hastings. Dois deles parecem estar brigando.

- Continua -