Ao papa Eugenio, Da Consideração (1149-1152)
Livro II
São Bernardo de Claraval (1090-1153)
Trad.: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)
Revisão gramatical: Nayhara Sepulcri (CNPq - Ufes)


Livro II – Apologia dos desastres hierosolimitanos

I.1. Não esqueci a promessa que te fiz, boníssimo papa Eugenio. [102] Já faz tempo que me sinto teu devedor, e desejo satisfazer-te, ainda que seja tarde. Pois me envergonharia desta dilação se minha consciência incorresse em incúria ou desconsideração, mas não é assim. Como bem sabes, aconteceram recentemente tais desastres que cheguei a pensar que podiam cessar todas as minhas afeições, e até minha vida, como se o Senhor, provocado por nossos pecados e esquecendo-Se de Sua misericórdia, tivesse determinado julgar com inteira eqüidade todo o orbe terrestre antes do tempo. [103].

Ele não perdoou Seu povo [411] [104], nem Seu nome. Por que os gentios não dizem agora “Onde está teu Deus”? [105] Não é de estranhar se disserem. Pois os filhos da Igreja, os que se gloriavam de serem cristãos, estão prostrados no deserto [106], abatidos pelo gládio [107], ou consumidos pela fome. [108]

Ele lançou o desprezo sobre os príncipes, os fez errar em descaminhos, não no caminho. [109] Contrição e infelicidade encontraram sua via [110]. Pavor, aflição e confusão penetraram até no aposento real. [111] Quanta confusão para os que anunciam a paz e para os que anunciam a boa nova! [112] Dizemos “paz”, mas não há paz [113]; prometemos o bem, mas há turvação. [114] Como se em nossos projetos tenhamos sido temerariamente levianos. [115] Contudo, dei-me plenamente, não incertamente [116], e porque me ordenaste, ou melhor, Deus, por meio de ti.

Por que jejuamos e Ele não nos olhou, humilhamos nossas almas e Ele nos ignorou? [117] E, apesar disso, Ele não aplaca Seu furor, e Sua mão continua estendida. [118] Com paciência, Ele escuta as vozes sacrílegas e blasfemas dos egípcios, que ainda dizem “com má intenção os tirou para fazê-los morrer no deserto”. [119] Contudo, quem pode ignorar que a Justiça do Senhor é verdadeira? [120] Essa justiça é um abismo tão profundo [121] que posso ter como um beato a quem não fique escandalizado com o Senhor. [122]

2. Além disso, não seria uma grande temeridade humana atrever-se a repreender o que escapa inteiramente à nossa compreensão? Recordemos Seus antigos juízos [123], que são seculares [124], para nos consolarmos fortemente. [125] Na verdade, assim alguém disse: “Relembrando teus juízos seculares, Senhor, fiquei consolado”.

Vou recordar coisas que ninguém ignora, mas que parece que todos esquecem. Pois assim é o coração dos mortais: o que sabemos quando não necessitamos sabê-lo, esquecemos quando necessitamos. Quando Moisés retirou seu povo da terra egípcia, prometeu uma terra melhor. [126] Caso contrário, será que seu povo, tão apegado àquela terra, o teria seguido?

Sim, ele os retirou [412], mas não os introduziu na terra que prometeu. [127] Contudo, ninguém pode imputar à temeridade daquele guia um desenlace tão triste e inesperado, pois tudo ele fazia por ordem do Senhor, com a cooperação direta do Senhor, que confirmava com sinais que o acompanhavam. [128]

Mas tu dirás: “Aquele povo era teimoso e contencioso [129], sempre contra o Senhor [130] e contra seu servo Moisés”. De acordo: eram uns incrédulos e rebeldes. E nós? [131] Pergunte a eles. [132] Porque eu devo dizer isso se eles mesmos o estão confessando? Digo a mim mesmo: como podiam seguir adiante os que sempre se voltavam em seu deambulatório? [133] Ao longo de sua peregrinação não houve um momento em que seu coração não se voltasse para o Egito. [134] Se caíram e pereceram por sua iniqüidade [135], podemos estranhar agora que sofram o mesmo desastre quem lhes imitou em seus passos? Será que as adversidades que eles padeceram põem em juízo as promessas de Deus? [136] Não, tampouco agora, pois as promessas de Deus nunca criam conflito com Sua justiça. E escuta outra coisa.

3. Pecou a tribo de Benjamim, e as demais tribos se dispuseram a castigá-la [137] com a anuência de Deus. Inclusive, Ele mesmo designou o líder que devia dirigir a batalha. [138] Trava-se o combate, confiantes que estão em mãos valorosas, que sua causa é mais poderosa e que maior é o favor divino. Mas que terrível é Deus em seus desígnios com os homens! [139] Fugiram dos malvados os que se vingariam da maldade e, muito mais numerosos, cederam diante de um inimigo muito menor. Recorrem ao Senhor e o Senhor lhes diz: “Voltai”. [140] Vão outra vez, e de novo são desbaratados e sucumbidos. Primeiro contaram com o favor de Deus, segundo com Sua ordem expressa. Enfrentam-se em um certame e sucumbem. [141] Foram inferiores no certame e superiores na fé.

Nas atuais circunstâncias tu imaginas o que fariam comigo se, por minha pregação, os nossos voltassem à guerra e sucumbissem? Crês que me escutariam se os exortasse a, pela terceira vez, repetir a viagem e acometer em uma façanha na qual já fracassaram duas vezes? Pois aí tens os israelitas que, sem ter em conta suas repetidas frustrações, pela terceira vez obedecem e se superam. [142] Mas os nossos homens diriam: “Como saberemos [413] que este sermão veio do Senhor? Que sinal tu fazes para que creiamos? [143] Não ficaria bem se eu mesmo respondesse: minha vergonha não me permite. Em meu lugar responde tu e por ti mesmo, segundo o que ouvistes e vistes [144], ou melhor, segundo o que Deus te inspira.

4. Possivelmente te perguntes por que me entretenho a falar de tudo isso quando me propus outra questão. Contudo, não o faço porque tenha me esquecido, mas porque tudo isso não é alheio ao meu propósito. Recordo muito bem que me propus desenvolver ante tua dignidade o tema da consideração, tema magno e digno de profunda reflexão. Pois os grandes personagens devem considerar coisas grandes. Então, quem como tu poderás estudá-lo com o maior interesse se não há sobre a terra outro semelhante a ti? Sê tu, portanto, a fazê-lo, segundo a sapiência e o poder dados a ti [145] do alto. [146]

Devido à minha pequenez, sinto-me incapaz de te ditar como deves fazer as coisas. É suficiente ter insinuado que deves atuar de alguma forma para trazer algum consolo à Igreja, obstruindo os loquazes iníquos. [147] Faço estas brevíssimas considerações em forma de apologia. Espero ter depositado em tua consciência as razões que me deixam plenamente escusado perante a minha responsabilidade e a tua [148], embora sejam insuficientes para esses que costumam estimar os eventos alheios somente por seu êxito, pois a justificação perfeita e absoluta de cada um é o testemunho da própria consciência. [149] Importa-me minimamente o que julgam de mim [150] aqueles que chamam mal ao bem e bem ao mal, trevas à luz e luz às trevas. [151] Se é preciso escolher, prefiro que os homens murmurem de mim, não de Deus. Para mim é bom servir-Lhe de escudo. Acolho com boa vontade as detratoras línguas maledicentes [152] e os venenosos dardos blasfemos de meus detratores, contanto que não cheguem até Ele. Suporto qualquer inglória para que a glória de Deus não sofra menosprezo. Sentir-me-ia glorificado se pudesse dizer: “Por ti suportei opróbrios, a confusão cobriu meu rosto”. [153] Para mim é uma glória compartilhar a sorte de Cristo, que disse: “Os opróbrios com que te insultam caem sobre mim”. [154] Bem, já é hora de voltar ao nosso tema e avançar ordenadamente em nossa exposição.

 

- Continua -

 

Notas

[102] O leitor observará que, neste capítulo dedicado ao fracasso na cruzada, Bernardo aprofunda suas citações bíblicas, como se justificasse a tragédia como uma espécie de predestinação divina, castigo por causa dos pecados dos cristãos.

[103] Sl 9, 9; 95, 13.

[104] Jl 2, 18.

[105] Sl 113, 10.

[106] 1Cor 10, 5.

[107] Ez 32, 21; 35, 8.

[108] Thren 4, 9.

[109] Sl 106, 40.

[110] “Estão todos desviados e obstinados também: não há um que faça o bem, não há um, sequer”, Sl 13, 3.

[111] “Sua terra pululou de rãs, até nos aposentos reais”, Sl 104, 30.

[112] Rom 10, 15.

[113] Ez 13, 10.

[114] Is 17, 14.

[115] 2Cor 1, 17.

[116] “Quanto a mim, é assim que corro, não ao incerto”, 1Cor 9, 26.

[117] Is 58, 3.

[118] Is 5, 25.

[119] Ex 32, 12.

[120] Sl 18, 10.

[121] Sl 35, 7.

[122] Mt 11, 6.

[123] Sl 118, 52.

[124] Sl 24, 6.

[125] Sl 118, 52.

[126] Ex 3, 8.

[127] Nm 20, 12.

[128] Mc 16, 20.

[129] Dt 31, 27.

[130] Nm 20, 10.

[131] Jo 21, 21.

[132] Jo 9, 21.

[133] Ez 1, 17; 10, 11.

[134] Ex 16, 3.

[135] Sl 72, 19.

[136] Gl 3, 21.

[137] Jz 20, 2.

[138] Jz 20, 18.

[139] Sl 65, 5.

[140] Jz 20, 23.

[141] Jz 20, 25.

[142] Jz 20, 30.

[143] Jo 6, 30.

[144] Mt 11, 4.

[145] “Considerai a longanimidade de nosso Senhor como a nossa salvação, conforme também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada.”, 2Pd 3, 15.

[146] “Não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto; por isso, quem a ti me entregou tem maior pecado”, Jo 19, 11.

[147] “...a boca dos mentirosos será fechada”, Sl 62, 12.

[148] Lc 14, 18-19.

[149] “O nosso motivo de ufania é este testemunho da nossa consciência...”, 2Cor 1, 12.

[150] “Quanto a mim, pouco me importa ser julgado por vós ou por um tribunal humano. Eu também não julgo a mim mesmo. Verdade é que a minha consciência de nada me acusa, mas nem por isto estou justificado; meu juiz é o Senhor”, 1Cor 4, 3.

[151] “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem mal, / dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas, / dos que mudam o amargo em doce e o doce em amargo...”, Is 5, 20.

[152] “O vento do norte gera a chuva, / e a língua dissimuladora, uma face irritada”, Pr 25, 23.

[153] “É por tua causa que eu suporto insultos, / que a confusão me cobre o rosto, / que me tornei um estrangeiro aos meus irmãos, / um estranho para os filhos de minha mãe”, Sl 68, 8.

[154] “...pois o zelo por tua casa me devora, / e os insultos dos que te insultam recaem sobre mim.”, Sl 68, 10.