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Livro II São Bernardo de Claraval (1090-1153)
Trad.: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) Revisão gramatical: Nayhara Sepulcri (CNPq - Ufes)
I.1. Não esqueci a promessa que te fiz, boníssimo papa Eugenio. [102] Já faz tempo que me sinto teu devedor, e desejo satisfazer-te, ainda que seja tarde. Pois me envergonharia desta dilação se minha consciência incorresse em incúria ou desconsideração, mas não é assim. Como bem sabes, aconteceram recentemente tais desastres que cheguei a pensar que podiam cessar todas as minhas afeições, e até minha vida, como se o Senhor, provocado por nossos pecados e esquecendo-Se de Sua misericórdia, tivesse determinado julgar com inteira eqüidade todo o orbe terrestre antes do tempo. [103]. Ele não perdoou Seu povo [411] [104], nem Seu nome. Por que os gentios não dizem agora “Onde está teu Deus”? [105] Não é de estranhar se disserem. Pois os filhos da Igreja, os que se gloriavam de serem cristãos, estão prostrados no deserto [106], abatidos pelo gládio [107], ou consumidos pela fome. [108] Ele lançou o desprezo sobre os príncipes, os fez errar em descaminhos, não no caminho. [109] Contrição e infelicidade encontraram sua via [110]. Pavor, aflição e confusão penetraram até no aposento real. [111] Quanta confusão para os que anunciam a paz e para os que anunciam a boa nova! [112] Dizemos “paz”, mas não há paz [113]; prometemos o bem, mas há turvação. [114] Como se em nossos projetos tenhamos sido temerariamente levianos. [115] Contudo, dei-me plenamente, não incertamente [116], e porque me ordenaste, ou melhor, Deus, por meio de ti. Por que jejuamos e Ele não nos olhou, humilhamos nossas almas e Ele nos ignorou? [117] E, apesar disso, Ele não aplaca Seu furor, e Sua mão continua estendida. [118] Com paciência, Ele escuta as vozes sacrílegas e blasfemas dos egípcios, que ainda dizem “com má intenção os tirou para fazê-los morrer no deserto”. [119] Contudo, quem pode ignorar que a Justiça do Senhor é verdadeira? [120] Essa justiça é um abismo tão profundo [121] que posso ter como um beato a quem não fique escandalizado com o Senhor. [122] 2. Além disso, não seria uma grande temeridade humana atrever-se a repreender o que escapa inteiramente à nossa compreensão? Recordemos Seus antigos juízos [123], que são seculares [124], para nos consolarmos fortemente. [125] Na verdade, assim alguém disse: “Relembrando teus juízos seculares, Senhor, fiquei consolado”. Vou recordar coisas que ninguém ignora, mas que parece que todos esquecem. Pois assim é o coração dos mortais: o que sabemos quando não necessitamos sabê-lo, esquecemos quando necessitamos. Quando Moisés retirou seu povo da terra egípcia, prometeu uma terra melhor. [126] Caso contrário, será que seu povo, tão apegado àquela terra, o teria seguido? Sim, ele os retirou [412], mas não os introduziu na terra que prometeu. [127] Contudo, ninguém pode imputar à temeridade daquele guia um desenlace tão triste e inesperado, pois tudo ele fazia por ordem do Senhor, com a cooperação direta do Senhor, que confirmava com sinais que o acompanhavam. [128] Mas tu dirás: “Aquele povo era teimoso e contencioso [129], sempre contra o Senhor [130] e contra seu servo Moisés”. De acordo: eram uns incrédulos e rebeldes. E nós? [131] Pergunte a eles. [132] Porque eu devo dizer isso se eles mesmos o estão confessando? Digo a mim mesmo: como podiam seguir adiante os que sempre se voltavam em seu deambulatório? [133] Ao longo de sua peregrinação não houve um momento em que seu coração não se voltasse para o Egito. [134] Se caíram e pereceram por sua iniqüidade [135], podemos estranhar agora que sofram o mesmo desastre quem lhes imitou em seus passos? Será que as adversidades que eles padeceram põem em juízo as promessas de Deus? [136] Não, tampouco agora, pois as promessas de Deus nunca criam conflito com Sua justiça. E escuta outra coisa. 3. Pecou a tribo de Benjamim, e as demais tribos se dispuseram a castigá-la [137] com a anuência de Deus. Inclusive, Ele mesmo designou o líder que devia dirigir a batalha. [138] Trava-se o combate, confiantes que estão em mãos valorosas, que sua causa é mais poderosa e que maior é o favor divino. Mas que terrível é Deus em seus desígnios com os homens! [139] Fugiram dos malvados os que se vingariam da maldade e, muito mais numerosos, cederam diante de um inimigo muito menor. Recorrem ao Senhor e o Senhor lhes diz: “Voltai”. [140] Vão outra vez, e de novo são desbaratados e sucumbidos. Primeiro contaram com o favor de Deus, segundo com Sua ordem expressa. Enfrentam-se em um certame e sucumbem. [141] Foram inferiores no certame e superiores na fé. Nas atuais circunstâncias tu imaginas o que fariam comigo se, por minha pregação, os nossos voltassem à guerra e sucumbissem? Crês que me escutariam se os exortasse a, pela terceira vez, repetir a viagem e acometer em uma façanha na qual já fracassaram duas vezes? Pois aí tens os israelitas que, sem ter em conta suas repetidas frustrações, pela terceira vez obedecem e se superam. [142] Mas os nossos homens diriam: “Como saberemos [413] que este sermão veio do Senhor? Que sinal tu fazes para que creiamos? [143] Não ficaria bem se eu mesmo respondesse: minha vergonha não me permite. Em meu lugar responde tu e por ti mesmo, segundo o que ouvistes e vistes [144], ou melhor, segundo o que Deus te inspira. 4. Possivelmente te perguntes por que me entretenho a falar de tudo isso quando me propus outra questão. Contudo, não o faço porque tenha me esquecido, mas porque tudo isso não é alheio ao meu propósito. Recordo muito bem que me propus desenvolver ante tua dignidade o tema da consideração, tema magno e digno de profunda reflexão. Pois os grandes personagens devem considerar coisas grandes. Então, quem como tu poderás estudá-lo com o maior interesse se não há sobre a terra outro semelhante a ti? Sê tu, portanto, a fazê-lo, segundo a sapiência e o poder dados a ti [145] do alto. [146] Devido à minha pequenez, sinto-me incapaz de te ditar como deves fazer as coisas. É suficiente ter insinuado que deves atuar de alguma forma para trazer algum consolo à Igreja, obstruindo os loquazes iníquos. [147] Faço estas brevíssimas considerações em forma de apologia. Espero ter depositado em tua consciência as razões que me deixam plenamente escusado perante a minha responsabilidade e a tua [148], embora sejam insuficientes para esses que costumam estimar os eventos alheios somente por seu êxito, pois a justificação perfeita e absoluta de cada um é o testemunho da própria consciência. [149] Importa-me minimamente o que julgam de mim [150] aqueles que chamam mal ao bem e bem ao mal, trevas à luz e luz às trevas. [151] Se é preciso escolher, prefiro que os homens murmurem de mim, não de Deus. Para mim é bom servir-Lhe de escudo. Acolho com boa vontade as detratoras línguas maledicentes [152] e os venenosos dardos blasfemos de meus detratores, contanto que não cheguem até Ele. Suporto qualquer inglória para que a glória de Deus não sofra menosprezo. Sentir-me-ia glorificado se pudesse dizer: “Por ti suportei opróbrios, a confusão cobriu meu rosto”. [153] Para mim é uma glória compartilhar a sorte de Cristo, que disse: “Os opróbrios com que te insultam caem sobre mim”. [154] Bem, já é hora de voltar ao nosso tema e avançar ordenadamente em nossa exposição.
- Continua -
Notas [102] O leitor observará que,
neste capítulo dedicado ao fracasso na cruzada, Bernardo aprofunda
suas citações bíblicas, como se justificasse
a tragédia como uma espécie de predestinação
divina, castigo por causa dos pecados dos cristãos.
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