Sermão 80 sobre o Cantar dos Cantares [1]
São Bernardo de Claraval (1090-1153)
Tradução e notas: Ricardo da Costa (Ufes)


I.1.
Alguns de vós, como percebo, se sentem incomodados, porque durante vários dias os sermões que lhes servimos se deleitam no estupor e na admiração dos sacramentos, mas ainda não foram nem um pouco temperados com o sal da condição moral. Isso não é comum. Embora não seja possível revisar todo o exposto, não procederei adiante sem antes revolver tudo.

Então, digam-me se recordais de qual lugar da Escritura começais a sentir-vos defraudados, para que eu comece dali. Sou eu quem devo ressarcir os danos, inclusive o próprio Senhor, de quem presumimos tudo. De onde devo principiar? Talvez a partir das palavras: “Em meu leito, pelas noites, buscava o amor de minha alma”. [2] Se não me engano, daí, pois, a partir desse momento, só tive uma preocupação: dissipar a densa escuridão dessas alegorias, e pôr à luz as secretas delícias de Cristo e da Igreja.

Voltemos, então, a indagar o sentido moral, já que o vosso bem não pode me pesar. E será tanto mais oportuno se o que consideramos em Cristo e em Sua Igreja [3] também pudermos consignar no Verbo e na alma.

2. Alguém me dirá: “Porque conjugas estas duas coisas? Qual a relação entre a alma e o Verbo?” É grande, e de muitos modos. [4] Primeiro, porque é tal a semelhança de suas naturezas, que ele é imagem [5], e ela, segundo sua imagem. [6] Depois, porque a similitude testemunha o parentesco. A alma não foi criada somente segundo a imagem, mas também segundo sua semelhança. [7] Me perguntas em que é semelhante? Primeiramente falemos da imagem [278].

O Verbo é Verdade, é Sabedoria, é Justiça: isto é imagem. De quem? Da Justiça, da Sabedoria e da Verdade. Porque essa Imagem é justiça da Justiça, sabedoria da Sabedoria, verdade da Verdade, como luz da Luz, Deus de Deus. Nenhuma dessas coisas é a Alma, porque não é imagem, mas é capaz de todas elas, e as apetece; por isso é segundo a imagem.

Excelsa criatura por sua capacidade da majestade, e insigne sinal por sua apetência de retidão. Lemos que Deus fez o homem reto [8], o que é magno, e o prova essa capacidade, pois o que é segundo a imagem deve convir à imagem, não participar vaziamente do nome imagem, como tampouco a imagem se chama assim só por seu nome, mas por seu conteúdo. Mas do que é imagem se diz “ao subsistir na forma ou natureza de Deus, não considerou como rapina ser igual a Deus”. [9]

Essas palavras te indicam que nessa forma de Deus existe igualmente a Retidão e a Majestade e, comparando uma retidão com outra Retidão, e uma grandeza com outra Grandeza, se conclui que há uma relação recíproca de correspondência entre o que é a imagem e o que é segundo a imagem, da mesma maneira que em ambos os aspectos a imagem corresponde àquele de quem é imagem. Escuta como canta o Santo Davi nos Salmos: “Nosso Senhor é grande e poderoso” [10], e “Nosso Senhor Deus é Reto e não há n’Ele iniqüidade”. [11] Sua imagem recebe de Deus reta e magnanimamente a qualidade de ser reta e magna, e o mesmo a alma, que é segundo a imagem.

II.3. Mas insisto: não possui a imagem algo mais que a alma que é segundo sua imagem, se também essa lhe consignamos grandeza e retidão? Sim, e muito mais. A alma a possui de um modo muito limitado, e o Verbo em toda a sua plenitude. Isso não é muito mais? Mas continue escutando. A primeira possui ambas as coisas por criação e concedidas por pura dignação, e o outro, por geração, o que, sem dúvida, é algo muito mais magnificente. Alguém se atreverá a negar a superioridade que existe entre ser criado por Deus e proceder de Deus, isto é, possuir a Substância de Deus?

A imagem é consubstancial com Deus, e tudo que seja participação de Sua imagem é substancial a ambos, não acidental. Mas observa ainda outra coisa que a imagem se sobressai extraordinariamente. Na imagem, a grandeza e a retidão são uma mesma natureza. Contudo, ninguém ignora que, por sua natureza, são duas realidades discrepantes. Mais: são uma só com a imagem. Para a imagem [279], não é um só modo, ser reta e grande, mas a grandeza e retidão são seu próprio ser. Não é assim com a alma: sua grandeza e retidão são diversas de seu ser pessoal, além de diversas entre si.

Como vos dizia antes, a alma é grande porque tem capacidade para as realidades eternas, e é reta porque apetece as realidades celestiais. Mas se não busca nem apetece o que é de cima, mas o terreno [12], não é reta, mas curva, embora não deixe de ser grande, porque mesmo assim mantém sua capacidade ao eterno, e jamais perderá essa capacidade, embora nunca a alcance, pois o afirma claramente a Escritura: “O homem passa como em imagem”. [13] Mas só em parte, para que resplandeça a eminência do Verbo por sua integridade.

E pode o Verbo cair de sua grandeza e retidão se possui ambas como seu próprio ser? A alma também é, em parte, imagem, porque se sua privação fosse total, careceria de toda esperança de salvação [14], e se perdesse sua grandeza, também perderia sua capacidade. Precisamente por essa capacidade, como disse, é que se mede a grandeza da alma. E poderia esperar algo caso não se sentisse capaz?

4. Assim, por essa grandeza que ainda retém depois de perder sua retidão, o homem passa como imagem, como se claudicasse de um pé ou se fosse um filho bastardo. A estes, creio que se aplica aquele texto: “Meus filhos se tornaram filhos bastardos; caíram na velhice e claudicaram fora de seus caminhos”. [15] Que bom que são chamados filhos bastardos! São filhos porque conservam sua grandeza. São bastardos porque perderam sua retidão. E se os homens perdessem totalmente sua imagem, eu não diria “claudicaram”, mas “corromperam”, ou algo semelhante.

Por sua grandeza, certamente o homem passa como imagem, mas em relação à retidão, tropeçando ele claudica, se curva e se despoja da imagem, segundo a Escritura: “O homem passa como em imagem, mas em vão se curva” [16], e continua: “Entesoura sem saber para quem”. [17] Mas por que ignora, já que, ao se inclinar [18] sobre as insignificâncias terrenas, entesoura terra?

Além disso, quem se inclina [19] e entesoura o que arranca da terra, ignora completamente se o faz para o pó demolidor ou para o ladrão que desenterra [20], para o inimigo arrasador [21] ou para o fogo devorador. [22]

Por isso, se aplica o lamento do Salmo ao homem miserável que se curva e se inclina à terra: “Vou curvado e prostrado, todos [280] os dias caminho sombrio”. [23] Experimenta a verdade daquela sentença do Sábio: “Deus fez o homem reto, e ele buscou múltiplas dores” [24], e aquela contínua voz ultrajante que diz: “Te curva, para que passemos”. [25]

III.5. Mas como chegamos até aqui? Ah, sim, tentava explicar-vos que a retidão e a grandeza – essa dupla bondade com as quais definíamos a imagem – não formam uma só realidade com a alma, nem entre si, enquanto que no Verbo e com o Verbo formam, em tese, uma unidade fiel e estrita. Do dito sobre a retidão, se conclui que ela é diversa da alma e da grandeza da alma, pois embora esta não a possua, a alma continua sendo alma e grande.

E de onde se deduz a diversidade entre a alma e sua grandeza? Não é possível demonstrá-la com o mesmo argumento que distingue a alma de sua retidão, pois a alma não pode privar-se de sua grandeza como de sua retidão. Contudo, a alma não é sua própria grandeza, pois ainda que a alma não exista sem sua grandeza, esta não se encontra fora da alma.

Perguntas-me onde? Nos anjos, pois a grandeza dos anjos – e mesmo da alma – radica no fato de serem capazes de eternidade. E se consta que a alma é discrepante de sua retidão por que pode carecer dela, porque também não pode ser evidente que é diversa de sua grandeza, já que não pode reivindicá-la como sua?

Portanto, se a retidão não abarca a alma inteira, e a grandeza não radica somente na alma, é claro que ambas se diferenciam na alma. Além disso, nenhuma forma se identifica com aquilo do qual é forma, e a grandeza é a forma da alma. Por ser inseparável dela, tampouco pode deixar de ser sua forma.

O mesmo ocorre com todas as diferenças substanciais, não somente naquelas que são estritamente próprias, mas também nas propriedades que correspondem às inumeráveis formas. Assim, a alma não é sua grandeza, como o corvo não é sua negrura ou a neve sua brancura, e o homem não é sua capacidade de rir ou pensar. [26] Isso muito embora não encontrareis nunca um corvo que não seja negro, uma neve carente de brancura ou um homem que não seja risível ou racional. O mesmo acontece com a alma e sua grandeza: são inseparáveis e diversas entre si. Pois como não serão diversas se esta subsiste no sujeito e aquela é sujeito e substância?

Somente a suma e incriada natureza que é Deus Trino [281] se apropria a pura e singular simplicidade de Sua Essência sem a menor diversidade de ser, lugar e essência, isto é, permanece em Si mesma o que é e o que têm, sempre e da mesma maneira. Nela, todo o múltiplo é unidade, todo o distinto, identidade, o número nunca é suma pluralidade, nem a alteração sofre qualquer variedade. Guarda dentro de Si todo o lugar, põe cada coisa em seu lugar e não abarca qualquer lugar; o tempo passa por baixo, não por ela; não olha o futuro, não pensa o pretérito, não sofre o presente.

IV.6. Distante de nós, caríssimos, mas muito distante de nós, estão os inovadores [27], não os dialéticos, mas os hereges, que disputam impiamente que a grandeza pela qual Deus é grande [28], a bondade pela qual Deus é bom, a sabedoria pela qual Deus é sábio, a justiça pela qual Deus é justo e, finalmente, a divindade pela qual Deus é Deus, não são o próprio Deus. Dizem: “Por sua divindade é Deus, mas a divindade não é Deus”. [29] Será que não se digna ser Deus essa divindade que é tão grande que pode fazer-se Deus? Se não é Deus, o que é? Porque ou é Deus ou algo que não é Deus, ou é nada.

Claramente rechaçam que seja Deus, mas penso que tampouco reconhecerão que é o nada, se confessam que é tão necessária para Deus que não só sem ela Deus não pode ser Deus, mas que existe por ela. E se é algo que não é Deus, será menor que Deus, ou maior, ou igual. Mas como poderá ser menor se é algo próprio de Deus? Assim, só podem confessar que é maior ou igual. Mas se é maior, será o sumo bem, não Deus; sé é igual a Deus, haverá dois sumos bens, não um, e ambas as coisas são contra o sentir católico.

Sobre a grandeza, a bondade, a justiça e a sabedoria, afirmamos o mesmo que dissemos sobre a divindade: são uma mesma realidade em Deus e com Deus. Não é bom por uma razão e grande por outra, nem deduz Sua Justiça e Sabedoria de partes distintas às que O fazem Grande e Bom, porque tudo isso Lhe provêm do mesmo fato de ser Deus, isto é, de Si mesmo.

7. Mas insiste o herege: “Então negas que é Deus por Sua divindade?”. Não, mas essa mesma divindade pela qual é Deus, assevera abertamente que é Deus para não estabelecer que há algo mais excelente que Deus. Porque digo que é Grande por Sua grandeza, mas a que é por Si mesma, para não introduzir algo maior que Deus. E confesso que é Bom por Sua bondade [282], mas não com outra que não seja Ele mesmo, para não descobrir nada que seja melhor que Ele, e assim com todos os modos. Como costuma se dizer, caminho seguro e com gosto com a sentença daquele que dizia: “Deus não é grande a não ser com aquela grandeza que é Ele mesmo. Do contrário, essa grandeza seria maior que Deus”. [30]

Isto dizia Agostinho, martelo eficacíssimo de todos os hereges. Assim, se pudéssemos dizer algo de Deus com propriedade, diríamos com a maior congruência e rigor: “Deus é a Grandeza, a Bondade, a Justiça, a Sabedoria”, melhor que “Deus é grande, bom, justo ou sábio”.

8. Por isso, não sem razão, no Concílio recentemente celebrado em Reims [31], o papa Eugenio [32] e os demais epíscopos julgaram algo perverso e totalmente suspeitoso a exposição no livro de Gilberto, bispo de Poitiers, sobre um texto mui judicioso e católico do livro Da Trindade de Boécio. [33] O comentarista diz assim: “O Pai é a Verdade, isto é, verdadeiro; o Filho é a Verdade, isto é, verdadeiro; o Espírito Santo é a verdade, isto é, verdadeiro. Estes três não são três verdades, mas uma só verdade, isto é, um só verdadeiro”. [34]

Explanação perversa e obscura! Quão mais verdadeiro e preciso seria se tivesse dito o contrário: “O Pai é verdadeiro, isto é, a Verdade; o Filho é verdadeiro, isto é, a Verdade; o Espírito Santo é verdadeiro, isto é, a Verdade. E estes três são um só verdadeiro, isto é, uma só verdade”. Assim o haveria feito se houvesse se dignado a imitar Fulgêncio [35], que diz: “A única verdade de um só Deus, isto é, a verdade que é um só Deus, não consente associar a criatura com o serviço e o culto que rendemos ao Criador”. [36] Boa correção, pois se refere à verdade com veracidade; pensa piedosa e catolicamente a respeito da verdadeira e pura simplicidade da substância divina, na qual nada pode subsistir mais que ela mesma, e ela é Deus.

O livro do mencionado epíscopo discrepa manifestamente da fé correta em algumas passagens. A guisa de exemplo, citarei também outro texto. Aduz essa frase de Boécio: “Quando dizemos ‘Deus, Deus, Deus’, nos referimos à substância”. [37] [283] E nosso comentarista acrescenta: “Não a substância que é, mas aquela pela qual é”. [38] De maneira nenhuma: está fora da fé católica estabelecer uma substância ou qualquer outra coisa pela qual Deus é Deus, e que, por sua vez, não seja Deus.

9. Mas tudo o que estamos dizendo não é contra este autor. No mesmo Concílio, ele aquiesceu com humildade a sentença dos bispos, e condenou oralmente todas as demais que julgaram dignas de serem repreendidas. Dizemos por aqueles que, segundo dizem, ainda transcrevem e lêem com freqüência este livro, infringindo a proibição promulgada e interdita ali mesmo pelo papa, persistindo contenciosamente em aderirem ao bispo naquilo que ele não se obstinou, e preferindo segui-lo como mestre do erro, não de sua retratação.

Também expus a vós como motivo da diferença entre a imagem e a alma, criada segundo a imagem, pois me pareceu oportuno esse excurso, já que, se alguns beberem alguma vez dessas águas furtivas, elas parecerão mais agradáveis. [39] Com esse antídoto, a devolverão e purgarão o estômago de suas mentes para acolher o que ainda nos falta expor sobre a semelhança, como vos prometi. Assim, se aproximarão com gáudio à fonte mais pura que a minha, que é a do Salvador [40], Esposo da Igreja, Jesus Cristo, Nosso Senhor, que é Deus bendito sobre tudo e pelos séculos. Amém. [41]

- Continua -

Notas

[1] Tradução a partir da edição bilíngüe Obras completas de San Bernardo V. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMLXXXVII, p. 988-1001.

[2] “Em meu leito, pela noite, procurei o amado da minha alma.”, Ct 3, 1.

[3] “É grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a sua Igreja.”, Ef 5, 32.

[4] “E qual a utilidade da circuncisão? Muita, e sob todos os pontos de vista.”, Rm 3, 2.

[5] “Ele é a Imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda criatura.”, Col 1, 15-16.

[6] “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou.”, Gn 1, 27-28.

[7] “Quando Adão completou cento e trinta anos, gerou um filho à sua semelhança, como sua imagem, e lhe deu o nome de Set.”, Gn 5, 3.

[8] “Eis a única conclusão a que cheguei: Deus fez o homem reto, este, porém, procura complicações sem conta.”, Ecl 7, 30.

[9] “Ele tinha a condição divina, e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente.”, Fl 2, 6-8.

[10] “Nosso Senhor é grande e onipotente e sua inteligência é incalculável.”, Sl 146, 5.

[11] “Eles dão fruto mesmo na velhice, são cheios de seiva e verdejantes, para anunciar que Iahweh é reto: meu Rochedo, nele não há injustiça.”, Sl 91, 15-17.

[12] “Pensai nas coisas do alto, e não nas da terra, pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.”, Col 3, 2-3.

[13] “Vê: um palmo são os dias que me deste, minha duração é um nada frente a ti; todo homem que se levanta é apenas um sopro, apenas uma sombra o homem que caminha, apenas sopro as riquezas que amontoa, e ele não sabe quem vai recolhê-las.”, Sl 38, 6-9.

[14] “Nem sol nem estrelas haviam aparecido por vários dias, e a tempestade mantinha a sua violência não pequena: afinal, dissipava-se toda a esperança de nos salvarmos.”, At 27, 20.

[15] “Os filhos de estrangeiros submetem-se a mim, dão-me ouvidos e me obedecem.”, Sl 17, 45-46.

[16] Sl 38, 7. Ver nota 13.

[17] Idem.

[18] “Eles assim diziam para pô-lo à prova, a fim de terem matéria para acusá-lo. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo.”, Jo 8, 6.

[19] Idem.

[20] “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros nos céus, onde nem a traça, nem o caruncho corroem e onde os ladrões não arrombam nem roubam, pois onde está o teu tesouro aí estará também teu coração.”, Mt 6, 19.

[21] “Portanto, saberás hoje que Iahweh teu Deus vai atravessar à tua frente, como um fogo devorador.”, Deut 9, 3.

[22] “Eis que o nome de Iahweh vem de longe; ardente é a sua ira, e grave é a sua ameaça. Os seus lábios transpiram indignação, a sua língua é como um fogo devorador.”, Is 30, 27.

[23] “Estou curvado, inteiramente prostrado, ando o dia todo entristecido.”, Sl 37, 7.

[24] Ecl 7, 30 (ver nota 8).

[25] Is 51, 24. A frase completa é ainda mais ultrajante: “Deita-te, para que passemos por cima de ti!”.

[26] Não é por acaso que São Bernardo ressalte em primeiro lugar a capacidade humana do riso (à frente, inclusive, da razão): “Deus brinca. Deus cria, brincando. E o homem deve brincar para levar uma vida humana, como também é no brincar que encontra a razão mais profunda do mistério da realidade, que é porque é ‘brincada’ por Deus. Bastaria enunciar essas teses – como veremos, fundamentalíssimas na filosofia do principal pensador medieval, Tomás de Aquino – para reparar imediatamente que entre os diferentes preconceitos que ainda há contra a Idade Média, um dos mais injustos é aquele que a concebe como uma época que teria ignorado (ou mesmo combatido...) – o riso e o brincar. Naturalmente, não se trata só de Tomás de Aquino; a verdade é que o “homem da época” é muito sensível ao lúdico, convive com o riso, e cultiva a piada e o brincar. Tomás, por sua vez, situa o lúdico nos próprios fundamentos da realidade e no ato criador da Sabedoria divina.”, LAUAND, Jean. “Deus Ludens – O Lúdico no Pensamento de Tomás de Aquino e na Pedagogia Medieval”. In: NOTANDUM 7.

[27] Para o medievo, a coisa nova, o novo, possuía sempre uma carga negativa, pejorativa. Por exemplo, os protestantes no século XVI se auto-intitulavam novatores.

[28] 2 Par 2, 5.

[29] Sentença de Gilberto de la Porrée (1076-1154) professor de Chartres acusado de heresia no Concílio de Reims de 1148.

[30] AGOSTINHO, Da Trindade, VI, x, 11.

[31] Concílio celebrado entre março e abril de 1148.

[32] Eugênio III, papa (1145-1153), discípulo de Bernardo de Claraval (1090-1153). Pier Bernardo Pignatelli nasceu em Montemagno, próximo a Pisa, de rica e nobre família cristã. Em 1135 ingressou na Ordem de Cister e, mais tarde, foi designado para abrir um mosteiro em Farfa (diocese de Viterbo). Como papa, enfrentou a difícil situação política italiana, em parte provocada por Arnaldo de Bréscia (c. 1105-1155), conhecido opositor papal. Após tomar conhecimento da queda de Edessa (1145), Eugênio III escreveu uma carta a Luís VII da França (1120-1180), convidando-o a tomar a cruz. Na Dieta de Speyer (1146), o imperador Conrado III (1093-1152), além de muitos nobres, também foram convencidos à peregrinação armada. Eugênio III governou a Igreja somente oito anos e cinco meses, e foi beatificado em 1872.

[33] Publicado em BOÉCIO. Escritos (Opuscula Sacra) (trad., estudos introd. e notas de Juvenal Savian Filho). São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 105-115.

[34] GILBERTO DE LA PORRÉE, In Boetium de Trinitate, 1.II, c.1, n. 27.

[35] Fabius Claudis Gordianus Fulgentius (467-533) nasceu em Thelepte, de uma família de senadores de Cartago. Indicado procurador de sua terra natal e arrecadador de impostos de Byzacena, com 22 anos deixou seu posto e entrou para um mosteiro governado por um bispo ortodoxo de nome Faustus, que havia sido expulso de sua Sé pelo rei ariano Hunerico (477-484). Em 507 foi eleito bispo de Ruspe (Tunísia) e fundou um monastério em Cagliari. Devotou-se ao estudo das Escrituras e escreveu vários tratados, o mais famoso, Respostas a 10 Objeções, uma réplica a questões contra a ortodoxia levantadas pelo rei vândalo Trasamundo (496-523). Também escreveu Três livros ao Rei Trasamundo (uma brilhante refutação ao arianismo). Em 518 foi enviado de volta a Sardinia, onde construiu outro monastério perto de Cagliari. Fulgêncio ainda escreveu um tratado intitulado O destino das crianças não batizadas, até hoje considerado um modelo em Teologia.

[36] FULGÊNCIO, Epist., VIII, 12. “Alguns desses erros brotaram novamente em Gilberto de la Porrée, bispo de Poitiers. Denunciado diante do Concílio de Reims, em 1148, ele teve de comparecer e ouvir a recriminação de Bernardo, que o acusava de ensinar uma doutrina filosófica pouco conforme com o dogma da Trindade. Gilberto se submeteu, firmando uma profissão de fé ortodoxa.” – GARCIA VILLOSLADA, Ricardo. Historia de la Iglesia Católica II. Edad Media (800-1303). Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), 1963, p. 642-643.

[37] GILBERTO DE LA PORRÉE, In Boetium de Trinitate, 1.I, c.4, n. 1.

[38] GILBERTO DE LA PORRÉE, In Boetium de Trinitate, 1.I, c.9, n. 4.

[39] “A água roubada é mais doce, o pão escondido é mais saboroso.”, Prov 9, 17.

[40] “Com alegria tirareis água das fontes da salvação.”, Is 12, 3.

[41] “Quisera eu mesmo ser anátema, separado de Cristo, em favor de meus irmãos, de meus parentes segundo a carne, que são os israelitas, aos quais pertencem a adoção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas, aos quais pertencem os patriarcas, e dos quais descende o Cristo, segundo a carne, que é acima de tudo, Deus bendito pelos séculos! Amém.”, Rm 9, 3-5.