O Livro dos Feitos do rei D. Jaime (c. 1252-1274) [1]
Jaime I (1208-1276)
Trad. e notas: Prof. Luciano Vianna e Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)

Imagem 1

Acampamento de Jaime I durante assalto e conquista de Maiorca (1285-1290). Jaime está com Berenguer de Palou (bispo de Barcelona), Gilbert de Cruxes, Nuno Sanches (tio do rei) e um nobre que pode ser Ramon de Centelles. Afresco, detalhe, 177 x 530 cm (hoje no Museu Nacional d'Art de Catalunya, Barcelona).

Capítulos 1-30

1. Meu senhor Santiago me reprova, e diz que sem obras a fé está morta. [2] Nosso Senhor quis cumprir essas palavras em nossos feitos, pois, embora sem obras a fé não valha nada, quando ambas se unem, dão fruto, fruto que Deus deseja receber em sua mansão.

Assim, apesar de ser bom o princípio de nosso nascimento, nossas obras tinham a necessidade de levá-lo à sua perfeição, embora não nos faltasse a fé em nosso Criador e em Suas obras, tampouco preces à Sua Mãe para que rogasse por nós a Seu querido Filho, a fim de que nos perdoasse os erros que Lhe fazíamos, pois a fé que nós tínhamos nos levou à verdadeira saúde. [3]

E como Nosso Senhor Jesus Cristo, que sabe todas as coisas, sabia que nossa vida se prolongaria tanto que uniríamos as boas obras à nossa fé, fazia-nos tanta graça e mercê, que por mais que fôssemos pecadores de pecados mortais e veniais, não quis que tivéssemos desonra ou dano com os quais pudéssemos nos envergonhar, na corte ou em outro lugar, nem quis que morrêssemos até que tivéssemos concluído isso. [4]

Era tamanha a mercê que Ele nos brindava que sempre fazia nossos inimigos nos honrar, tanto com feitos quanto com palavras, e nos deu boa saúde em nossa pessoa durante nossa vida. E se algumas vezes nos dava doenças, o fazia como castigo [5], de maneira semelhante a um pai que castiga seu filho, pois disse Salomão que quem perdoa a seu filho as varas do castigo, mal lhe faz, e não parece desejar-lhe bem [6], embora Nosso Senhor nunca tenha nos corrigido tão fortemente para nos dar dano. Assim, agradecíamos a hora em que Ele nos castigava e o castigo que nos fazia, e ainda mais agora, que entendemos melhor que o fez por nosso bem.

E lembramos bem uma sentença que nos recordam as Sagradas Escrituras e que diz: Omnis laus in fine canitur [7], que quer dizer: a melhor coisa que o homem pode ter é o fim de seus anos. E a compaixão do Senhor da Glória fez em nós essa semelhança pela qual se cumpre a palavra de Santiago, já que em nossos últimos anos ele quis cumprir que a obra concordasse com a fé.

Assim, refletindo e pensando qual era este mundo em que os homens vivem humanamente, quão pequeno, frívolo e cheio de escândalo é este século, e como o outro tem em si a glória que não tem fim que Nosso Senhor dá àqueles que a desejam ter e a perseguem, e pensando ainda como é grande o Seu poder e pequena a nossa fraqueza, conhecemos e entendemos como verdadeiro este ditado que diz a Escritura: Omnia pretereunt preter amare Deum [8], que quer dizer: todas as coisas do mundo são transpassadas e se perdem, exceto o amor de Deus.

Dessa forma, conhecendo que esta é a verdade e tudo mais é engano, nós quisemos dar, pensar e endereçar nosso pensamento e nossas obras aos mandamentos de Nosso Salvador, e assim deixamos as vanglórias desse mundo para conseguir Seu reino, pois Ele nos diz no Evangelho Qui vult venire post me, abneget semetipsum, et tollat crucem suam et sequatur me [9], mas desejo também dizer em romance: quem deseja ir atrás d’Ele, que abandone sua vontade pela Sua. E como ainda lembramos as grandes graças que muitas vezes Ele nos fez nos tempos de nossa vida, e, maiormente, no fim de nossos dias, desejamos deixar nossa vontade pela Sua. E para que os homens conhecessem e soubessem como passamos esta vida mortal e o que nós fizemos com a ajuda do Senhor Poderoso, que é a verdadeira Trindade, deixamos este Livro como memória para aqueles que desejam ouvir as graças que Nosso Senhor nos têm feito, e para dar exemplo a todos os outros homens do mundo para fazer o que nós temos feito: colocar sua fé nesse Senhor que é tão poderoso.

2. É coisa certa e verdadeira que nosso avô, o rei Dom Afonso [10], fez negociações matrimoniais com o imperador de Constantinopla para que lhe desse a sua filha como mulher. [11] E com aquelas palavras que foram tratadas e acordadas por ambas as partes, isto é, entre nosso avô e o imperador, nosso avô contraiu matrimônio com a rainha Dona Sancha, filha do imperador de Castela. [12]

Por outro lado, o imperador de Constantinopla, desconhecendo o matrimônio que ele fizera, enviou sua filha ao rei Dom Afonso de Aragão, que era conde de Barcelona e marquês de Provença. Quando um bispo e dois poderosos ricos-homens chegaram com ela a Montpelier, souberam que o rei Dom Afonso, nosso avô, tinha tomado como mulher a rainha Dona Sancha, filha do imperador de Castela, se viram em um grande problema e pensaram o que fariam, pois aquele tinha tomado outra mulher. [13]

Dom Guilherme de Montpelier era o senhor de Montpelier e da senhoria que pertence a Montpelier. Aqueles nobres que tinham vindo com a filha do imperador perguntaram-lhe o que fariam com este engano e com esta falta que haviam recebido, e como eles deveriam se comportar, pois tinham vindo com a filha do imperador Manuel para que o rei Dom Afonso a tomasse como mulher e ele havia tomado outra. Ele lhes respondeu que reuniria seu Conselho.

Quando Dom Guilherme de Montpelier reuniu seu Conselho, seus ricos-homens, cavaleiros e aqueles que eram homens de valor na cidade de Montpelier lhe aconselharam que a tomasse como mulher, pois Deus lhe havia concedido tanta graça que a filha do imperador Manuel, que naquele tempo era o melhor homem dos cristãos, havia vindo para sua vila e para o lugar onde ele estava e ainda por cima se encontrava desconsolada com o marido que deveria ter, que a tomasse como mulher e que por nada a deixasse voltar.

A esse respeito ele deu resposta ao bispo e aos nobres que vieram com ela. E essa foi a resposta que ele enviou através de seus mensageiros: que Deus lhe havia propiciado tanta graça, pois ela não tivera o marido que deveria ter, que ele desejava tê-la como mulher.

Quando os mensageiros do imperador ouviram essas palavras, o desconsolo que tiveram antes se duplicou, pois a filha de imperador só devia tomar por marido rei ou imperador, porque outro não lhe correspondia. Assim, rogaram muito encarecidamente por Deus e pelo valor que ele tinha: que lhes deixassem retornar com a filha do imperador, pois eles tinham prometido que, se aquele matrimônio não se realizasse, a devolveriam a seu pai, por terra ou por mar, e que não lhes impedissem, porque não tinha razão para isso. Contudo, Dom Guilherme e seu Conselho responderam que não seria feito de outra maneira a não ser a sua.

Quando os mensageiros do imperador entenderam que sua vontade não poderia ser de outra maneira, pediram um tempo para refletir, e eles concederam um prazo até o dia seguinte. E quando o bispo e os outros ricos-homens que vinham com ela viram que a vontade de Dom Guilherme de Montpelier e de seu Conselho havia de permanecer, pensaram que aquele matrimônio poderia ser feito com esta condição: que o filho ou a filha que fosse gerada por Dom Guilherme de Montpelier e pela filha do imperador deveria ser o senhor de Montpelier, ainda com seus pais vivos. E tornaram a fazer sua resposta e disseram a Dom Guilherme de Montpelier e a seu conselho que eles poderiam fazer mal a ela, a prender ou a roubar, mas nem suas vontades nem a dela concordariam fazer aquele matrimônio se não fosse daquela maneira: que ele prometesse com sacramento e homenagem e que fizesse todos os homens de Montpelier, de dez anos em diante, jurarem que o filho ou a filha de ambos seria senhor de Montpelier, se fosse homem e também se fosse mulher.

Essas palavras foram colocadas em cartas. E desta maneira, Dom Guilherme de Montpelier, com o conselho de seus nobres e de seu Conselho, outorgou as palavras e fez-se o matrimônio. E Dom Guilherme de Montpelier teve daquela senhora uma filha de nome Maria. [14]

Imagens 2 e 3

Montpelier medieval (vista aérea do centro medieval e reconstituição de uma rua)

3. Quando mais adiante se tratou do matrimônio entre o rei Dom Pedro, nosso pai [15], e a filha de Dom Guilherme de Montpelier, que era dona de Montpelier e de todos os seus pertences, foi acordado que ela daria seu corpo e Montpelier com todos os seus pertences. E assim fez-se o matrimônio, e a rainha, que tinha o nome de Dona Maria, foi elevada.

4. Depois disso, Dom Guilherme de Montpelier, estando a rainha ainda viva, tomou outra senhora que era de Castela (de quem nós não lembramos o nome do pai, mas ela se chamava Dona Inês), da qual teve estes filhos: Dom Guilherme de Montpelier, que possuiu Peyolla até a hora de sua morte [16]; Dom Bergunho; Dom Bernardo Guilherme [17], de quem que nós herdamos e demos como mulher Dona Juliana, que era de linhagem da mãe, de nome Entenza, filha de Dom Ponce Hugo, freire do conde de Ampúrias, que tinha por nome Hugo [18]; e outro frade que tinha o nome de Tortoseta, e que educou nosso pai.

Este Guilherme de Montpelier, que era o filho mais velho de Dom Guilherme de Montpelier, lutou para ser senhor de Montpelier, por que era homem. E levou este pleito até diante do apóstolo. [19] E assim, nossa mãe, a rainha Dona Maria, foi à corte de Roma para manter seu direito [20], para que nós, que éramos seu herdeiro, fôssemos o senhor de Montpelier. E eles mantiveram tanto o seu pleito diante do apóstolo que ele lhes deu como sentença (sentença do apóstolo escrita em uma decretal) o julgamento que aqueles que eram filhos de Dom Guilherme de Montpelier e de Dona Inês não eram de união conjugal legal, porque foram feitos em adultério, pois ele tinha outra mulher. E ele julgou que Montpelier fosse da rainha Dona Maria e de nós, que éramos seu filho.

5. Agora contaremos de que maneira nós fomos engendrados e como foi o nosso nascimento. Primeiro, de que maneira nós fomos engendrados. Nosso pai, o rei Dom Pedro, não queria ver nossa mãe, a rainha. E sucedeu que uma vez o rei nosso pai estava em Lates [21], e a rainha em Miraval. Um rico-homem de nome Guilherme de Alcalá veio ao rei, e pediu-lhe tanto que o fez vir a Miraval, onde estava a rainha, nossa mãe. E aquela noite em que ambos estavam em Miraval quis Nosso Senhor que fôssemos engendrados. [22] E quando a rainha, nossa mãe, se sentiu prenha, foi para Montpelier. E aqui Nosso Senhor quis que fosse o nosso nascimento, na casa daqueles de Tornamira, na véspera de Nossa Senhora Santa Maria da Candelária. [23] E nossa mãe, assim que nascemos, enviou-nos à Santa Maria, levando-nos nos braços e dizendo as matinas na igreja de Nossa Senhora. [24] E assim que nós passamos pelo portal, cantaram Te Deum laudamus. Os clérigos não sabiam que nós iríamos entrar ali, mas nós entramos quando eles cantavam aquele cântico.

Depois disso nos levaram para São Firmino. E quando aqueles que nos levavam entraram na igreja de São Firmino, cantavam Benedictus Dominus Deus Israel. [25] E quando nos levaram de volta para a casa de nossa mãe, ela ficou muito alegre com esses prognósticos ocorridos conosco. Mandou então que fizessem doze velas, todas do mesmo peso e tamanho, e as fez acender ao mesmo tempo, e a cada uma deu o nome de um dos apóstolos, e prometeu ao nosso Senhor que nós receberíamos o nome daquela que mais durasse. E como durou mais a de São Jaime, quase três dedos de altura a mais que as outras, por isso e pela graça de Deus nós temos o nome de Jaime.

E assim nós procedemos da parte de nossa mãe e do rei Dom Pedro, nosso pai. E isso parece obra de Deus, porque os acordos que nosso avô havia feito para ter esta como mulher aconteceram depois, de modo que aquela natureza do imperador Manuel e de nosso pai, o rei Dom Pedro, o matrimônio fez recobrar a falta ocorrida no outro matrimônio.

Adiante, quando nós jazíamos no berço, por uma janela atiraram uma pedra sobre nós, mas ela caiu perto do berço, pois Nosso Senhor quis nos salvar para que não morrêssemos.

6. Nosso pai, o rei Dom Pedro, foi o rei mais liberal que houve em Espanha, o mais cortês e o mais afável, pois dava tanto que suas rendas e terras cada vez valiam menos. [26] E era um bom cavaleiro de armas, sem igual no mundo. Dos outros bons costumes que ele tinha não desejamos falar para não alongar o escrito.

7. Da rainha Dona Maria, nossa mãe, desejamos dizer que se boa senhora havia no mundo era ela, tanto por temer e honrar a Deus quanto nos outros bons costumes que tinha. E poderíamos dizer ainda mais dela, mas diremos algo suficiente: ela é amada por todos os homens do mundo que conheceram seu comportamento. E Nosso Senhor a amou tanto e lhe deu tantas graças que ela é aclamada “rainha santa” por aqueles que estão em Roma, e “santa” por todo o mundo. Ela cura muitos doentes que bebem o vinho ou a água que brota da pedra próxima de seu túmulo. Ela jaz em Roma, na igreja de São Pedro, perto de Santa Petronila, que foi filha de São Pedro. [27]

Observem aqueles que lerem esta escritura se não é milagroso que nosso avô, o rei Dom Afonso, prometeu que sua mulher seria filha do imperador e depois tomou a rainha Dona Sancha. E Nosso Senhor quis que, por aquela promessa que o rei havia primeiramente feito, isto é, que seria sua mulher a filha do imperador Manuel, ela retornasse para seu lugar. E assim parece, pois a neta do imperador foi depois mulher de nosso pai, de onde nós viemos. Por isso, é obra de Deus que aquele acordo que não se cumpriu naquele tempo tenha se cumprido depois, quando nosso pai tomou como mulher a neta do imperador.

8. Passado o tempo de nosso nascimento, Dom Simon de Montfort [28], que tinha as terras de Carcassonne, de Bèziers e de Toulouse, que tinha ganhado do rei de França, quis ter o amor de nosso pai e pediu-lhe que nos entregasse a ele para que ele nos educasse. [29] E ele confiou tanto nele e em seu amor que nos entregou a ele para nos nutrir. [30]

Quando nós estávamos em seu poder, as gentes daquelas terras que dissemos acima foram a nosso pai e lhe disseram que ele podia ser senhor daquelas terras, se ele desejasse tomá-las ou protegê-las. E o rei Dom Pedro, nosso pai, que era liberal e piedoso, com a piedade que tomou deles disse que os ampararia. Mas eles o enganaram com belas palavras. De uma parte, lhe davam sua palavra, de outra, a negava com atos. Pois nós ouvimos de Dom Guilherme de Cervera, de Dom Arnau de Castellbó, de Dom Dalmau de Crexel e de outros que estavam com eles [31], que lhe disseram: “Senhor, veja nossos castelos e nossas vilas: apodere-se deles e nomeie vossos bailios”. [32] E quando ele queria tomar posse diziam-lhe: “Senhor, como expulsaremos nossas mulheres de nossas mansões? Contudo, nós e elas seremos vossos e faremos a vossa vontade”.

E assim não lhe atenderam em nada o que tinham lhe prometido. E mostravam-lhe suas mulheres, suas filhas e parentas, as mais belas que podiam encontrar. E como muitos sabiam que ele era um homem de mulheres, tomavam seu bom propósito e faziam-no mudar para o que eles queriam. Mas como essas novidades seriam longas de contar, não desejamos mais falar essas coisas impróprias que aconteceram.

9. Dom Simon de Montfort estava em Muret com homens a cavalo, entre oitocentos e mil, e nosso pai caiu sobre ele perto do lugar onde ele estava. [33] Os de Aragão que estiveram com ele foram Dom Miguel de Luzia, Dom Blasco de Alagón, Dom Rodrigo Lizana, Dom Ladrão, Dom Gomes de Luna, Dom Miguel de Rada, Dom Guilherme de Poyo, Dom Aznar Pardo e muitos outros de sua mesnada, além de outros que não recordamos. [34] Mas nos lembramos disso porque aqueles que estiveram presentes nos disseram que, à exceção de Dom Gomes, Dom Miguel de Rada, Dom Aznar Pardo e alguns de sua mesnada que morreram ali, todos os outros o desampararam na batalha e fugiram da Catalunha: Dom Dalmau de Crexel, Dom Hugo de Mataplana, Dom Guilherme de Orta e Dom Bernardo de Castellbisbal; estes fugiram com os outros.

Mas decerto bem sabemos que Dom Nuno Sanchez e Dom Guilherme de Montcada, que foi filho de Dom Guilherme Ramon e de Dona Guilhermina de Castellvi, não estiveram na batalha, mas enviaram uma mensagem ao rei para que os esperasse. Contudo, o rei não quis esperá-los, e fez a batalha com aqueles que estavam com ele.

Naquele dia que ocorreu a batalha, ele havia se deitado com uma senhora, a ponto de, segundo depois ouvimos dizer de seu reboster de nome Gil [35] que foi depois freire do Hospital e havia estado naquele Conselho, e de outros que viram com seus próprios olhos, não poder estar de pé para ler o Evangelho, e teve que permanecer sentado em seu lugar enquanto liam para ele. [36]

Antes de acontecer a batalha, Dom Simon de Montfort desejava impor seu poder para fazer sua vontade, e desejava se encontrar com o rei, mas nosso pai não quis recebê-lo. E quando viram isso, o conde Simon e os que ali estavam tomaram penitência, receberam o corpo de Jesus Cristo e disseram que mais valia morrer no campo que na vila. Depois disso, saíram juntos para combater. E aqueles da parte do rei não souberam ordenar a batalha nem ir unidos, e cada rico-homem feria por si e contra a natureza das armas. Assim, pelo mau ordenamento, pelo pecado que estava neles e pela falta de mercê dos que estavam dentro, eles foram vencidos na batalha. E aqui morreu nosso pai, pois assim tem ocorrido em nossa linhagem por todos os tempos, que nas batalhas que fizeram e que nós faremos se deve vencer ou morrer. E nós permanecemos em Carcassonne em poder do conde, pois ele nos educava e possuía aquele lugar.

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Reconstituição do castelo de Muret

10. Depois, passado isso, nossos naturais, Dom Nuno Sanchez e Dom Guilherme de Cardona, pai de Dom Ramon Folch [37], que guerreavam contra os franceses e as terras que eles tinham, nos reclamaram, isto é, à parte a guerra que eles faziam em Narbona e em outros lugares, eles enviaram uma mensagem ao apóstolo Inocêncio III para que ele tomasse Conselho e forçasse Dom Simon de Montfort por veto [38] ou por outra maneira, para que nós fôssemos recuperados, pois éramos seu senhor natural, já que não havia mais filho de cônjuge leal de nosso pai além de nós.

Este apóstolo, o papa Inocêncio, foi o melhor apóstolo, pois da maturidade que fazemos este livro até cem anos passados não houve tão bom apóstolo na Igreja de Roma. [39] Ele era bom clérigo nos saberes que dizem respeito ao apóstolo saber, tinha senso natural, e dos saberes do mundo tinha um grande conhecimento. Ele enviou cartas e mensageiros tão fortes ao conde Simon que este teve que concordar em nos restituir aos nossos homens. Assim, os franceses nos conduziram até Narbona e dali saiu uma grande partida de nobres da Catalunha e dos cidadãos para nos receber. [40] Nós poderíamos ter então seis anos e três meses. E eles acordaram quando estiveram em Catalunha quem nos educaria, e todos concordaram que quem nos educaria seria o mestre do Templo em Monzón. O nome daquele mestre era Dom Guilherme de Montredon, natural de Osona e mestre do Tempo em Aragão e Catalunha. [41]

11. E tiveram outro conselho: que em nosso nome e com um novo selo que mandariam fazer, ordenariam uma corte de catalães e aragoneses em Lleida, na qual também iriam o arcebispo, os bispos, abades, ricos-homens de cada um dos reinos e de cada cidade, e dez homens com a autoridade dos outros para fazer o que fosse necessário. E todos vieram no dia da corte, exceto Dom Fernando e o conde Dom Sancho, pois tinham a esperança que cada um fosse rei. [42] Ali todos juraram que guardariam nosso corpo, nossos membros e nossa terra, e que nos guardariam de todas as coisas e de todos.

O lugar onde nós estávamos era onde o arcebispo Espárech nos tinha pelo braço [43], que era da linhagem da Barca e nosso parente, em seu palácio de volta [44], que então era de madeira, na janela onde agora está a cozinha por onde se dá do que comer àqueles que comem no palácio. E feito o dito sacramento, a corte se dissolveu e o mestre nos levou para Monzón, onde estivemos dois anos e meio entregue a um tenente. E toda a renda que nosso pai tinha em Aragão e em Catalunha estava penhorada, até aos judeus e sarracenos, e também as honras, que naquele tempo eram setecentas cavalarias; e nosso pai, o rei Dom Pedro, tinha dado ou vendido todas, exceto cento e trinta. Por isso, quando entramos em Monzón não tínhamos sequer do que comer para um dia, pois nossa terra estava destruída e penhorada! [45]

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Castelo de Monzón

12. Quando estávamos em Monzón, levantaram-se bandos e partidas entre os ricos-homens de Aragão. Dom Pedro Ahones, Dom Atorella, Dom Jimeno de Urrea, Dom Arnau Palacin, Dom Bernardo de Benavent e Dom Blasco Maza [46], e outros que não nos lembramos, além de ricos-homens e cavaleiros, fizeram um bando e uma partida com o conde de Rosellón, Sancho, que era seu líder, e seguiam seu caminho.

Dom Pedro Fernandez de Albarracin, Dom Rodrigo Lizana e Dom Blasco de Alagón, estavam com Dom Fernando, e fizeram dele seu líder. Dom Pedro Cornel e Dom Vales de Antillón não tinham ainda terra, nem honra, porque eram muito jovens e estavam pela primeira vez uns com os outros. Dom Jimeno Cornel já tinha muitos dias e pesavam-lhe aqueles grandes males que via em Aragão, pois era o homem mais sábio que naquele tempo havia em Aragão e o mais bem aconselhado. [47] Algumas vezes inclusive vinham a Monzón e pediam-nos que saíssemos do castelo de Monzón para fazer partidas, para que apoiássemos uma partida e destruíssemos outra.

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Castelo de Monzón (2)

13. Quando estávamos com a idade de nove anos, e vendo que não nos podiam reter por mais tempo em Monzón, nem a nós nem ao conde de Provença [48], tamanha era a vontade de sair e como éramos necessários à terra, foi acordado entre o mestre e os outros que nos deixariam sair daquele lugar. Sete meses antes que nós saíssemos, chegou uma mensagem ao conde de Provença de ricos-homens de sua terra, dizendo que em um dia determinado eles viriam com uma galera a Salou, que o tirariam secretamente do castelo de Monzón e iriam com ele até Provença. [49] E isso se cumpriu assim como foi cogitado por eles.

Mas antes de marchar, ele disse que queria falar conosco e revelar seu segredo. Então se despediu de nós chorando com aqueles que tinham vindo com ele. E nós choramos com ele pela dor da separação, mas também nos alegramos muito com a sua partida.

No dia seguinte, próximo do crepúsculo da noite, ele saiu do castelo com Dom Pedro Auger, que o educava, e com dois escudeiros seus. Pernoitaram e atravessaram Lérida como se fossem outros homens, pois estavam desfigurados pelas vestimentas. Na outra noite eles chegaram a Salou, embarcaram em uma galera e foram para Provença. E para que todos saibam a nossa idade e a sua, ele tinha dois anos e meio a mais que nós.

14. Quando os freires souberam que o conde de Provença havia saído sem que eles soubessem, entenderam que a nossa permanência ali não lhes era favorável. Ao conde Dom Sancho pesou muito a ida do conde de Provença, quando soube. E quando ele entendeu que o conde havia ido com aqueles que eram de seu bando em Aragão, quis apoderar-se de Aragão.

Assim, nós enviamos uma mensagem a Dom Pedro Fernandez, a Dom Rodrigo Lizana e seu bando, e a Dom Guilherme de Cervera, para que viessem a Monzón, pois estávamos decididos a sair dali de qualquer maneira. E eles nos asseguraram que nos ajudariam e nos defenderiam com todo o seu poder. Quando o conde Dom Sancho ouviu isso, reuniu aqueles que eram de sua ajuda e disse que cobriria toda a terra que nós e aqueles que estivessem conosco passássemos, de Aragão até depois de Cinca, com um tapete vermelho. [50]

Nós saímos de Monzón ao alvorecer. E quando chegamos à ponte [51], a comitiva que nos esperava nos disse que o conde Dom Sancho estava em Selgua com todo o seu poder, e que nos combateria. Nós tínhamos então somente nove anos e, por causa do temor da batalha que pensávamos entrar, um cavaleiro nos emprestou uma loriga para que nos vestíssemos. Esse foi nosso princípio nas primeiras armas que vestimos.

Chegamos naquele dia a Berbegal sem encontrar obstáculos no caminho, e no dia seguinte entramos em Huesca. Depois chegamos a Zaragoza, e foi a primeira vez que chegamos a Aragão, e as gentes ficaram muito alegres com a nossa vinda.

15. Enquanto estávamos em Zaragoza, estavam nesta partida Dom Pedro Fernandez e aqueles que já citamos. E chegou uma mensagem que Dom Rodrigo Lizana havia capturado Dom Lope de Albero, que era parente do mesmo Dom Rodrigo. Dom Pelegrín de Atrosillo tinha a filha de Dom Lope de Albero por mulher. Este Pelegrín e seu irmão Dom Gil pediram-nos e clamaram-nos amor e mercê para que déssemos conselho e ajuda sobre a prisão de Dom Lope de Albero, porque Dom Rodrigo o havia prendido sem que Dom Lope de Albero se protegesse dele e sem ser desafiado, e lhe havia tomado o castelo e a vila de Albero, cerca de dez mil kafizes de pão que eram seus [52], além do mal que havia causado aos cristãos e sarracenos de Albero.

Todos aqueles que estavam conosco reprovaram isso, assim como todos aqueles de Aragão que souberam. E foi acordo de nosso Conselho, pois nós não tínhamos aquele senso para dar conselho a nós ou a outro, que caíssemos sobre ele e libertássemos Dom Lope de Albero de todo aquele dano que ele havia recebido e o tirássemos da prisão. [53] E caímos sobre Albero com uma catapulta que fizemos em Huesca. [54] Aqueles de Dom Rodrigo que estavam há meses ali estabelecidos, se renderam depois de dois dias de tiros da catapulta.

Nós partimos daqui e fomos para Lizana, onde Dom Rodrigo tinha prendido Dom Lope de Albero, e a assediamos. Os que ali estavam estabelecidos o foram por Dom Pedro Gomes e outro cavaleiro, cujo nome não recordamos, junto com escudeiros e outras companhias. Este Dom Pedro Gomes, era o maior e melhor de todos, o líder daqueles e do castelo. Então montamos ali uma catapulta, e isso ocorreu no tempo de maio. [55] Quando a catapulta ficou pronta, atirava quinhentas pedras de noite e mil de dia. E quando chegou a hora das vésperas [56], ela havia derrubado uma parte tão grande do muro que fez um grande buraco. Nesse momento, o grito da hoste foi que fôssemos combater. Todos se armaram e então se iniciou a batalha. Os da hoste combateram com escudo e lança, assim como também todos os besteiros que ali estavam. [57] Apesar da batalha, a catapulta não parava de atirar. E foi tão forte a batalha e a catapulta atirava tanto que houve um grande número de feridos entre os que estavam dentro, escudeiros e outros homens.

Dom Pedro Gomes viu que o castelo que tinha por seu senhor estava sendo perdido. [58] Todo guarnecido, abraçado a seu escudo, com seu capacete de ferro na cabeça [59] e a espada na mão, parou no portal como um homem que espera mais a morte que a vida. Por causa da catapulta que lançava a esmo e pela grande quantidade de pó de terra mexido pela catapulta, o lugar se encheu de terra até os joelhos.

A batalha durava e ninguém escalava o castelo, embora houvesse um bom escalador que quisesse tentar. Havia um escudeiro cujo nome não nos lembramos, mas acreditamos que era Dom Pedro Garcés de Alfaro que, vestido com uma loriga, um chapéu de ferro na cabeça e uma espada na mão, vendo que a batalha estava cessando, moveu-se tanto quanto seus pés puderam levá-lo, começou a subir tanto que Dom Pedro Gomes não pôde lhe impedir que subisse, e ficou de uma maneira que Dom Pedro Gomes não pôde tirá-lo, pois estava soterrado na terra do muro. E assim subiram aqueles da hoste, foi tomado o castelo e libertamos Dom Lope de Albero, que era prisioneiro.

Dom Rodrigo Lizana, que era amigo de Dom Pedro Fernandes de Azagra, falou com Dom Pedro Fernandes para que lhe amparasse naquela guerra e rompesse conosco, que então ele lhe daria um encontro em Santa Maria de Albarracin. E assim como Dom Pedro Fernandes esteve conosco quando entramos em Aragão, recebeu Dom Rodrigo e ambos se apartaram de nós, fazendo-nos mal a partir daquele momento. Dom Pedro Ahones e seu bando se uniram a nós e estiveram conosco na tomada desses dois castelos. Depois disso, Dom Jimeno Cornel, que era o maior, à exceção de nosso tio Dom Fernando [60], porque sabia mais que os outros, esteve de nosso lado naquele bando.

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Jaime I representado no Llibre Verd (séc. XIV).

16. Foi tratado o matrimônio da sobrinha de Dom Jimeno Cornel, irmã de Dom Pedro Cornel, para que Dom Pedro Ahones a tomasse como mulher. Entretanto, juntamos nossa hoste na entrada do verão e caímos sobre Albarracin, colocando nosso acampamento sobre a torre do Andador, em uma pequena serra que existe atrás daquela torre. Acreditamos ter estado naquele sítio cerca de dois meses, um pouco mais ou um pouco menos. E fizemos ali um almanjanech que atirava na torre do Andador [61], além de paliçadas diante da catapulta.

Dentro da vila havia cerca de cento e cinqüenta cavaleiros, entre castelhanos, aragoneses e navarros, e estavam ali pelo líder do lugar, Dom Pedro Fernandez, além de Dom Rodrigo Lizana. Conosco estavam Dom Jimeno, Dom Pedro Cornel, Dom Guilherme de Cervera, Dom Vales, Dom Pedro Ahones e seu irmão Dom Pelegrín, e Dom Guilherme de Poyo, pai deste Guilherme de Poyo que estava conosco quando escrevemos este livro [62], além de gente das cidades de Lérida, Zaragoza, Calatayud, Daroca e Teruel.

Todos estes ricos-homens que nos serviam não chegavam a cento e cinqüenta cavaleiros, pois nós éramos uma criança que não tinha mais de onze anos, e tudo o que fazíamos, fazíamos com o conselho daqueles ricos-homens que estavam conosco, pois era razoável que como não sabíamos guiar nossa terra nem dar aquele conselho, era necessário que outros nos aconselhassem. E os parentes e amigos de Dom Pedro Fernandez que estavam conosco diziam as notícias da hoste de noite e de dia, e cavaleiros e escudeiros saíam à vista da hoste, entravam de noite e de dia e faziam-lhes saber todas as notícias da hoste, além de dar-lhes balestras e provisões.

Com exceção de Dom Pedro Ahones, seu irmão, Dom Pelegrín, e Dom Guilherme de Poyo, os outros nos serviam tão mal e tão falsamente quanto podiam, pois aqueles que estavam conosco fizeram saber àqueles que estavam dentro qual noite Dom Pelegrín iria velar o almanjanech. Ele e Dom Guilherme de Poyo foram velar naquela noite. Quando chegou a hora da meia-noite, eles estavam preparados com suas tochas e saíram de suas paliçadas com todo o poder dos cavaleiros, dos escudeiros e dos homens a pé que estavam dentro. Chegaram ali com o fogo aceso nas tochas até a catapulta e foram atacar Dom Pelegrín e Dom Guilherme de Poyo, que estavam de sentinela.

Aqueles que estavam com Dom Pelegrín e Dom Guilherme de Poyo os desampararam, pela grande multidão que viram chegar de dentro. E aqui morreu Dom Pelegrín de Ahones e Dom Guilherme de Poyo, porque tinham maior vergonha que os outros e não quiseram fugir. Então, eles queimaram a catapulta sem que ninguém da hoste fosse impedi-los. A esse respeito, quando nosso Conselho viu que nós estávamos sendo enganados e mal servidos por nossos homens, nos aconselharam a levantar o sítio, e nós tivemos que fazer isso, pois havia tantos bons cavaleiros dentro ou mais que os que estavam fora, e nós não podíamos decidir, já que tínhamos somente onze anos [63], nem tínhamos a quem pedir conselho.

17. Quando nós fomos levados daquele lugar, passado um ano e meio a rainha Dona Berenguela, mãe do rei Dom Fernando [64], falou-nos de matrimônio com sua irmã, que tinha o nome de Dona Leonor. [65] Ambas eram filhas do rei Dom Afonso. E eram estes os filhos e filhas do rei Dom Afonso: a rainha Dona Branca, que foi mulher do rei da França, Luís, filho do rei Felipe [66]; Dona Berenguela, mulher do rei de Leão, que era pai do rei Dom Fernando, de nome Dom Afonso [67]; a rainha Dona Urraca, que foi rainha de Portugal [68], e outra rainha, Dona Leonor, a qual nós tivemos como mulher.

Dos filhos que o rei Dom Afonso de Castela teve, um recebeu o nome de infante Dom Fernando, e outro Dom Henrique, que depois foi rei de Castela. [69] O infante Dom Fernando morreu antes que seu pai morresse, o rei Dom Afonso. E depois que o rei Dom Afonso morreu, fizeram rei a Dom Henrique. Durante um jogo que este fazia com uns moços, quando dividiu em dois grupos e colocou-se com aqueles que o combatiam em um monte parecido com um castelo um deles, que jogava aquele jogo contra ele, lançou-lhe uma telha na cabeça, e ele ali foi ferido e morreu por causa daquele golpe. Assim o reino permaneceu com Dona Berenguela, a qual teve como filho Dom Fernando, rei de Castela.

18. Nós tivemos como mulher a rainha Dona Leonor por conselho de nossos homens, que nos aconselharam que depois que nosso pai somente nos tivera como filho, que nós tomássemos mulher ainda jovem, porque eles tinham grande temor por nossa vida por razão de doenças ou medicinas que nos dessem, e que de qualquer maneira desejavam que um herdeiro proviesse de nós para que o reino não saísse da natureza, já que quando o conde Dom Sancho, filho do conde de Barcelona, e Dom Fernando, que era nosso tio e filho do rei Dom Afonso, entendiam que cada um deles deveria ser rei, já tinham lutado em nossa infância, quando estávamos em Monzón. Por aquele temor nos aconselharam que tomássemos como mulher a filha do rei Dom Afonso de Castela. E isso foi aconselhado por Dom Jimenez Cornel e Dom Guilherme de Cervera, nossos maiores conselheiros [70], e Dom Guilherme de Montcada, que morreu em Maiorca, além de outros que não nos lembramos. Assim, a tomamos como mulher em Ágreda. [71]

Imagem 8

Reconstituição da cota de malha e túnica de Jaime I

19. Nossa cavalaria aconteceu em Santa Maria de Huerta, em Tarragona. [72] Ouvida a missa do Espírito Santo, cingimos a espada que tomamos do altar. Podíamos ter então doze anos completos, entrando no décimo terceiro ano, e estivemos um ano com ela sem poder fazer o que os homens têm que fazer com sua mulher, porque não tínhamos idade.

20. Consumado este matrimônio, entramos em Aragão e em Catalunha, nós e nossa mulher, a rainha. [73] E cada um dos ricos-homens lutava para ser nosso privado, para que o que nós fizéssemos, o fizéssemos a conselho deles. Dom Nuno Sanchez, filho do conde Dom Sancho, a quem em seus dias nosso pai dera Rossillón, Conflent e Cerdaña, tinha grande amor por Dom Guilherme de Montcada. Pelas palavras que teve Dom Nuno Sanchez com Dom Guilherme de Cervelló por causa de um falcão macho que Dom Guilherme de Cervelió não quis lhe dar, eles trocaram más palavras e disseram coisas más um para o outro. [74] Dom Guilherme de Montcada disse a Dom Nuno que dali por diante não desejava ter amor com ele. Dom Nuno respondeu que se ele não valia seu amor, ele não desejava o seu, disse que não confiaria mais nele, e que ele não era mais seu amigo daquela hora em diante. E então Dom Guilherme de Montcada fez seu pacto de amor com Dom Pedro Fernandez e com sua partida. [75]

Dom Nuno quis ter o amor, e o teve, de Dom Fernando e Dom Pedro Ahones e sua partida. E Dom Guilherme de Montcada e Dom Pedro Fernandez foram a uma corte que nós havíamos ordenado em Monzón com aqueles que poderiam ir. Chegaram cerca de trezentos cavaleiros a uma vila do Templo chamada Valcarca. [76] Dom Fernando e Dom Pedro Ahones uniram-se com seus bandos e vieram a Castejón del Puente, de Monzón. Durante nosso trajeto de Lérida para a corte de Monzón, Dom Nuno saiu do caminho para nos pedir que lhe déssemos conselho e ajuda, pois caso contrário ele teria uma grande desonra ou morte. Nós perguntamos qual desonra seria aquela, e ele disse:

“Senhor, vedes Dom Guilherme de Montcada e Dom Pedro Fernandez que se aproximam? Como vós sabeis, estamos sem amor, eu e Dom Guilherme. Eles estarão amanhã em Valcarca, e virão com trezentos cavaleiros, com vontade de me combater. Caso me digam palavras de desmentidos ou desonras, eu não poderei deixar de responder. E se eu responder, temo que me matem ou me façam tal desonra que valha tanto quanto a morte”.

Naquela ocasião nós não tínhamos mais que catorze anos. Então lhe dissemos que nos pesavam muito as palavras que ele nos dizia por este motivo: nós teríamos como nossa a sua desonra, tão forte era o parentesco que havia entre nós e ele. E sobre aquilo que ele nos havia dito, dissemos a ele que nós tínhamos um conselho para que ele não tomasse aquele mal nem aquela desonra, e que faríamos dessa maneira: que sempre que nós entrássemos em Monzón, chamaríamos os melhores homens da vila para que viessem diante de nós e lhe diríamos assim:

“Pedimos e ordenamos que guardassem bem a vila, que fecheis todas as portas, que tenhais porteiros e homens armados e não deixeis entrar nenhum rico-homem ou cavaleiro nem de dia, nem de noite sem que nós saibamos”.

E que quando aí entrasse, entrasse um rico-homem com dois cavaleiros, e mais não permitissem. E assim o fizemos.

Quando Dom Nuno soube que nós fizemos aquilo tão bem, tanto para a nossa honra quanto para a dele, disse que nos agradecia tanto quanto podia, pois bem sabia que o amávamos e que por termos tomado tal conselho o havíamos salvado da desonra e da morte. A esse respeito, Dom Guilherme de Montcada e Dom Pedro Fernandez vieram com todo o seu poder, mas não puderam entrar, a não ser com aqueles que nós havíamos ordenado. Dom Fernando e Dom Pedro Ahones entraram com outros tantos, Dom Guilherme de Montcada e Dom Pedro Fernandez viram que não podiam terminar o que desejavam e tiveram que partir. E assim, tiveram que começar a dizer outras palavras, mas nós os proibimos, pois se dissessem alguma coisa a Dom Nuno, pagariam caro por isso. Assim, Don Nuno partiu com honra e eles fracassaram no que desejavam fazer.

21. Passado isso, entramos em Aragão. Dom Guilherme de Montcada fez seu ajuntamento de forças em Catalunha, e Dom Nuno o soube. Nós estávamos em Huesca, e a rainha conosco. Vieram então e se mostraram a nós o conde Dom Sancho e Dom Nuno. Diante da rainha, ele [77] disse que Dom Guilherme de Montcada desejava entrar em Rossillón para lhe fazer mal e dano àquela terra que nosso pai lhe dera, e que a nós deveria retornar. Assim, pedia e clamava nosso amor e mercê para que nós o ajudássemos a esse respeito, pois Dom Guilherme lhe desejava causar dano e desonra, e que nem ele nem seu pai tinham parentes nem em Aragão, nem na Catalunha além de nós, e que também ele daria direito a todos que clamassem contra ele. [78]

Ele disse ainda que faria isso porque tinha fé e esperança que nós o ajudaríamos e que seríamos seu fiador, e que se Dom Guilherme de Montcada tivesse parentes e amigos para lhe fazer esse mal, ele não teria outros parentes ou amigos que pudessem defendê-lo, apenas nós. E sempre assegurava isso através de Dom Ato de Foces, Dom Blasco Maza e com o que tinha em Rossillón que nosso pai dera em seus dias, e também que ele daria o total direito a Dom Guilherme de Montcada ou a qualquer outro homem que lhe reclamasse algo. [79]

A esse respeito, nós enviamos nossas cartas a Dom Guilherme de Montcada para que ele não lhe fizesse mal, pois Dom Sancho havia assegurado diante de nosso poder que cumpriria o direito. Mas Dom Guilherme pouco se importou, pelo contrário, não voltou atrás, entrou em Rossillón com sua linhagem e tomou um castelo de nome Alvarí com seu escudo e lança, castelo onde estava Dom Gisbert de Barberá a serviço de Dom Nuno. [80] Atacou ainda os da vila logo que saíram, venceu os de Perpignan e prendeu Don Gisbert de Barberá naquele ataque.

Como Dom Guilherme de Montcada não quis obedecer às nossas ordens nas cartas que enviamos, fez mal a Don Nuno e entrou em Rossillón, convocamos nossas hostes em Aragão e o atacamos. Tomamos centro e trinta fortalezas, entre torres e castelos, dele, de sua linhagem e de seus protetores, e em treze dias tomamos Cervelló. [81] Depois disso, fomos sitiar Montcada. Ali nos esperavam Dom Guilherme de Montcada, Dom Pedro Cornel, Dom Rodrigo Lizana, Dom Vales de Antillón e Dom Bernardo de Santa Eugenia, irmão de Dom Ponce Guilherme de Torroella. Nós não tínhamos mais que catorze anos quando o assediamos, e estavam conosco o conde Dom Sancho, Dom Nuno, Dom Fernando, Dom Pedro Ahones, Dom Ato de Foces, Dom Artal de Luna e nossa mesnada de Aragão. Entre todos poderia haver quatrocentos cavaleiros, e os de dentro podiam ser cento e trinta cavaleiros.

Assim, fizemos com que pedissem a Dom Guilherme de Montcada que nos desse o poder de Montcada. [82] Ele respondeu que teria nos dado voluntariamente se tivéssemos feito esse pedido de outra maneira, mas como lhe havíamos feito um grande mal ao vir com uma hoste sobre ele, disse então que não deveria nos dar, e não nos deu. Assim, montamos nossa hoste sobre ele em um monte que existe sobre a vila onde fazem o mercado. Estivemos aí por três meses, um pouco mais, um pouco menos. E se não fosse o que levavam da hoste para eles com o conselho dos aragoneses que estavam conosco, que davam de comer com os dinheiros dos aragoneses que eram de Montcada, os catalães, que recebiam o que comer de Barcelona, não teriam o que comer ao fim de três dias. [83] Como éramos muito jovem, não sabíamos dar conselho. Por isso, não agradava muito àqueles que estavam conosco o mal daqueles que estavam dentro, exceto o conde Dom Sancho e Dom Pedro Ahones, e como aquela força é uma das melhores da Espanha [84], tivemos que sair do lugar.

O castelo de Montcada é tão forte e tem uma fortificação tão boa que se não fosse pela fome, não poderia ser tomado por nenhuma hoste. Além disso, há bastante água na costa do castelo, de uma fonte que nasce de uma parte que se vê no norte, e ninguém pode tomá-la sem antes tomar o castelo.

Depois disso fomos para Aragão, e Dom Guilherme de Montcada caiu sobre Terrassa com seu poder e tomou toda a vila, exceto o castelo. Logo tomou Arbós, saqueou toda a vila e foi até Piera, mas não pôde tomá-la. Fez-se então uma conveniência entre ele, Dom Fernando e Dom Pedro Ahones [85], e então Dom Guilherme de Montcada entrou em Aragão e foi a Tauste, que Dom Pedro Ahones tinha de nós por honra. Nesta conveniência estiveram Zaragoza, Huesca e Jaca.

Nós estávamos em Alagón, e Dom Nuno, Dom Pedro Fernandez, Dom Blasco de Alagón, Dom Artal e Dom Rodrigo Lizana estavam conosco, mas em Alagón somente estiveram conosco Dom Nuno, Dom Pedro Fernandes e Dom Ato. E sobre isso falaram do pacto de amor entre Dom Fernando, Dom Guilherme de Montcada e Dom Pedro Ahones, pacto que seria contra todos os homens com Dom Nuno e Dom Pedro Fernandes. E disso falou Dom Lope Jimenez de Luzia, vassalo de Dom Nuno e irmão de Ruy Jimenez.

Eles nos enviaram uma mensagem que dizia que viriam até nós e que fariam toda a nossa vontade. Eles tinham feito uma conveniência com sacramento e com cartas, e isso nos foi dito por Dom Nuno e Dom Pedro. A esse respeito eles pediram que nós saíssemos para receber Dom Fernando, que era nosso tio, Dom Guilherme de Montcada, que era homem honrado, e Dom Pedro Ahones. Assim, saímos e dissemos que estávamos em um dia de inverno, que era tarde, e que eles entrassem com quatro ou cinco cavaleiros e enviassem os outros companheiros pelas aldeias próximas.

E assim, como devíamos fazer, fomos para a nossa casa e eles permaneceram nas portas da vila que havíamos fechado. Dom Nuno e Dom Pedro, a quem havíamos confiado as portas, colocaram todos que desejavam sem o nosso conhecimento. E entraram em Alagón cerca de duzentos cavaleiros que vieram com eles. Nós éramos uma criança, pois não tínhamos mais que quinze anos. [86]

Dissemos então à rainha Dona Leonor: “Sabeis que todos os cavaleiros que vieram com Dom Fernando, com Dom Guilherme de Montcada e com Dom Pedro Ahones entraram e que os temos aqui em Alagón?” Nós nos maravilhamos fortemente com isso, chamamos aqueles que tinham a posse das portas por nós e perguntamos por que deixaram entrar e quem os havia colocado dentro. Eles nos disseram que Dom Nuno e Dom Pedro Fernandes os tinham deixado entrar. E nós dissemos: “Santa Maria, essa é uma grande traição: aqueles que nós confiávamos nos traíram e colocaram aqui nossos inimigos”. [87]

22. Depois, quando chegou a manhã, fomos ouvir a missa na Igreja Maior de Alagón. No púlpito, onde cantavam os clérigos, estavam Dom Fernando, Dom Guilherme de Montcada, Dom Pedro Ahones, Dom Pedro Fernandez de Azagra e Dom Nuno, e todos pensavam que eles estivessem em nossa partida, no entanto, todos eram um. Então Dom Fernando se levantou, ficou de pé e disse:

“Senhor, vós sabeis o quanto estou convosco por parentesco, pois sou irmão de vosso pai e não desejo fazer nada que seja um desprazer para vós. Por isso, viemos até vós, e também Dom Guilherme de Montcada e Dom Pedro Ahones, para vos obedecer como a um senhor. Além disso, não queremos guerra nenhuma convosco que não desejemos ter”.

A esse respeito levantou-se Dom Guilherme de Montcada e disse: “Senhor, somente ouvir que dizem que vós nos desejais mal nos causa um forte mal. Pensais em ir a Zaragoza, entrais em vossa cidade e em vosso lugar, e ali podereis falar melhor e fazer vossas coisas. Quanto a nós, estamos preparados para fazer o que vós mandardes.”

Disse Dom Pedro Ahones: “Entrais em Zaragoza, pois nós estamos preparados para fazer por vós o que se faz a um senhor”. Assim, eles nos seduziram tanto com belas e novas palavras que nós ali entramos no outro dia. Quando estávamos ali, em nossas casas, que estão na porta de Toledo que tinha o nome “A Zuda”, ao chegar a noite, disseram-nos que havia cerca de cem homens armados entre a nossa porta e uma portinhola que havia e por aonde se chegava ao muro da vila. E enviaram G. Bohí e Pedro Sanz de Martel, que vieram à nossa casa, fizeram seus leitos e dormiram ali, onde as senhoras costumam dormir.

A rainha, quando ouviu os homens armados que estavam do lado de fora e aqueles que tinham entrado na casa para dormir diante de nós, se pôs a chorar muito fortemente e nós, que estávamos com ela, a confortamos. E entrou diante de nós G. Bohí e Pedro Sanz de Martel, e G. Bohí disse à rainha: “Senhora – disse ele – não chorais, porque logo poderás se confortar, pois pelas lágrimas vertidas se perde a razão que se tem. Ademais, todas estas lágrimas retornarão em gozo, e vossa ira passará”. [88]

A guarda de prontidão dia e noite diante de nós durou cerca de três semanas. Dom Ato de Foces, que havia entrado na vila, foi terminantemente impedido de chegar até nós para nos aconselhar e para privar de nossa intimidade. E ao dizer-nos que estava cheio de desonra, pois não o chamavam para o conselho, perguntou se nos pesaria se ele voltasse para a sua casa. Nós lhe dissemos: “Ide-vos, pois aqui vós não sois uma honra nem para nós, nem para vós”. Ele então partiu para as terras de Huesca.

Depois disso, chamamos Dom Pedro Ahones em um canto e lhe dissemos: “Dom Pedro Ahones, temos lhe amado muito e lhe honrado por parte de Dom Artal de Alagón. E vós retribuís com essa desonra tão grande como a que estamos recebendo! Pois a partir de agora rompemos com vosso amor. Enquanto vivermos, não vos amaremos”.

Ele disse: “Por qual razão?”

“Por que vedes nossa desonra e nosso dano, e se não estivésseis ausente não teríamos recebido essa desonra e este dano, pois poderíeis desfazê-lo, mas não o desfizestes”.

Ele então discutiu conosco sobre isso, disse que não nos desonrava, nem nos causava dano com seu comportamento, e não deu importância às nossas palavras.

23. A respeito dessa discussão, nós fomos à rainha e lhe dissemos: “Sabemos e vemos muito bem o dano e a desonra que vós e nós recebemos, e embora sejamos um infante, nos vingaremos, se vós o desejais, a nós e a vós”.

E também dissemos: “Há uma saída nesta casa. Faremos duas cordas, sentar-vos-emos em uma mesa e descer-vos-emos daqui. Então, na noite que fizermos isso, chamaremos Dom Artal para que venha aqui com sua companhia, e quando soubermos de sua chegada, descer-vos-emos até a porta, Dom Artal irá convosco e eu permanecerei aqui em Zaragoza. E eu, para que não lhe maltratem, não farei nada, mas tão logo vós estiverdes escapado, direi palavras a Dom Fernando, ou a Dom Guilherme de Montcada, ou a Dom Pedro Ahones, e afirmarei que o que eles fizeram contra nós foi traição. Então cavalgarei e ganharei alguma glória [89], e faremos isso de tal maneira que não poderemos deixar de matar um deles. Mas não acreditamos que nos alcancem, pois deveremos ter um cavalo que não teremos temor que venham atrás de nós”.

Ela nos respondeu: “Saibais que por nada desse mundo eu descerei daqui sentada em uma mesa com cordas”. E apesar de pedirmos muito, ela não quis fazer isso, e depois então pacificamos a situação e não fizemos isso por seu temor.

24. Depois disso, Dom Guilherme de Montcada veio e nos pediu, por meio de Dom Fernando, que nós corrigíssemos o mal que lhe havíamos causado em Catalunha. [90] Nós respondemos: “O que nós fizemos, o fizemos com direito”, e que não faríamos nenhuma correção. Eles disseram que se fizéssemos aquela correção, não seria nada para nós, mas seria muito para ele; que nós déssemos vinte mil morabitinos. [91] Nós entendemos que não deveríamos dar-lhe nada, mas fomos vencidos pelas palavras, pela insistência e por pensar que deixariam a maneira falsa que tinham. Então lhe prometemos aqueles vinte mil morabitinos, e após ter estado assim um tempo, fomos para Tortosa, e a rainha para Burbáguena. Dom Fernando, Dom Guilherme de Montcada e Dom Nuno dividiram as honras de Aragão, como se tivéssemos dado esse conselho, mas eles o fizeram a seu bel-prazer.

25. Passado isso, saímos de Tortosa sem que eles soubessem, e fomos a Horta [92], que pertence ao Templo. Ordenamos aos ricos-homens que, pelas honras que tinham por nós, viessem a nosso encontro em Teruel, pois desejávamos entrar em Valencia para fazer mal aos mouros e eles deveriam servir as honras que tinham por nós. Dissemos também a eles o dia que ali deveriam estar. A esse respeito, fizemos empréstimos para as nossas provisões. Dom Pascual Munhoz, que era muito íntimo de nosso pai e um dos melhores homens da vila que tínhamos em nossa terra naquele tempo, disse que nos emprestaria com muita vontade e grande quantidade tudo o que pudesse, de si e de seus amigos. E durante três semanas nos emprestou tudo o que precisávamos. Quando chegou o dia que eles deveriam vir até nós, isto é, os ricos-homens de Aragão, vieram somente Dom Blasco de Alagón, Dom Artal de Luna e Dom Ato de Foces. Vimos então que eles não vieram no dia que nós havíamos dito. Assim, pelo desgaste que eles nos provocaram, tivemos que comer as provisões que havíamos estocado para entrar na terra dos mouros.

Foi nosso acordo que fizéssemos uma trégua com o seid Abu Seid [93], que era então o rei de Valencia, para que ele desse a quinta parte do que ganhava de Valencia e de Múrcia, já tiradas as peitas. [94] Ele outorgou isso com cartas e conveniências que nos fez. Assim, fizemos a trégua com ele.

Passadas as três semanas ditas acima, nós, que havíamos comido as provisões que devíamos ter na cavalgada, saímos de Teruel e entramos em Aragão. [95] Quando chegamos à segunda aldeia depois de Calamocha, encontramos Dom Pedro Ahones, que vinha com cinqüenta ou sessenta cavaleiros. Perguntamos o que ele fazia e para onde se dirigia. Ele nos disse que estava para entrar na terra dos mouros, ele e seu irmão, o bispo de Zaragoza. Dissemos que retornasse conosco, pois desejávamos falar com ele sobre isso. Ele nos pediu que não o retardasse em sua viagem. E lhe dissemos: “Dom Pedro Ahones, não vos atrasará muito andar uma légua conosco, mas desejamos que estejam presentes os ricos-homens de Aragão quando dissermos algumas palavras”. Ele nos disse que isso lhe agradava.

Fomos para Burbáguena, para uma casa que pertencia ao Tempo e que está no caminho de Daroca e de Teruel, na entrada da aldeia quando se vem de Daroca. Ali estavam Dom Blasco, Dom Artal de Alagón, Dom Ato de Foces, Dom Ladrão, Dom Assalit de Gudar, Don Pelegrino de Bolas e ele, vestido com seu perponte [96], sua espada cingida e um batut de malha de ferro na cabeça. [97] Nós entrávamos então com a idade de dezessete anos.

E lhe dissemos: “Dom Pedro Ahones, nós vos esperamos em Teruel cerca de três semanas, contadas a partir daquele dia que nós lhe demos, por que pensávamos fazer com vós e com os ricos-homens de Aragão uma boa cavalgada. E dizemos boa cavalgada porque ainda não vimos mouros de guerra, e teríamos muito prazer em vê-los e que eles tivessem nos visto. Mas principalmente por vossa falta tivemos conselho que com tão poucos cavaleiros como nós tínhamos em Teruel não deveríamos entrar em terra de mouros, pois se Deus não quisesse nos ajudar, poderíamos receber uma desonra ou mesmo a morte. A esse respeito seid Abu Seid nos fez dizer que daria as quintas de Valencia e de Múrcia para que tivéssemos uma trégua com ele, e as tomamos. Por isso, vos rogamos, Dom Pedro Ahones, e vos ordenamos que tenhais estas tréguas e não as rompais”.

Ele nos disse que muito havia lhe custado a reconciliação que fizera com seu irmão, o bispo, e que não queria perder aquilo que havia lhe custado tanto. Assim, lhe dissemos: “Dom Pedro Ahones, grande erro nos dissestes, pois fizemos a trégua que fizemos por vossa falta, já que não viestes no dia que dissemos. E agora dizeis que não deixareis esta ida por nossa ordem. Olhais o que fazeis, pois vós vireis contra o nosso senhorio, coisa que não esperamos. Assim, desejamos saber se vós deixareis de fazer isso, por nossos pedidos e nossas ordens”.

Ele nos respondeu que faria qualquer coisa por nossos pedidos e nossas ordens, mas não isso, pois havia lhe custado tanto que não poderia deixar de fazê-lo, e assim nos pedia que o deixássemos entrar em terra de mouros, ele e seu irmão, pois nos faria um bom serviço. Mas nós lhe dissemos que seria um mau serviço romper a trégua que nós fizemos. “Por isso, desejamos saber se vós fareis isso ou não”.

Ele nos disse que não poderia nos atender. Então lhe dissemos: “Já que desejais romper uma coisa tão preciosa como essa, dizemos que desejamos prendê-lo.”

26. Depois disso não houve mais palavras. Ele ficou de pé, e aqueles que estavam conosco, isto é, os que citamos acima, nos desampararam e foram para um canto da casa pegar suas adagas. Depois que eles vestiram suas mantas e seus perpontes, deixaram-nos a sós com ele. [98] Ele era um grande cavaleiro, forte e bom em armas, e quis colocar a mão em sua espada, mas nós retivemos sua espada com a mão, e ele não a pôde tirar. Do lado de fora, os cavaleiros de Dom Pedro Ahones não estavam desmontados dos cavalos, e quando ouviram o barulho que se fazia na casa, desmontaram trinta ou quarenta cavaleiros de uma só vez. Enquanto os seus vinham, ele quis pegar sua adaga, mas nós o impedimos e ele não pôde tirá-la. Enquanto isso, os seus foram entrando, enquanto os nossos estavam em suas pousadas, e nos pegaram à força com suas mãos, pois ele não tinha poder de se separar de nós, e os nossos, que estavam em casa, não nos ajudaram, pelo contrário, somente olhavam a luta que tínhamos com ele. [99]

Depois disso, colocaram-no em seu cavalo e fizeram-no ir adiante, e eles foram junto com suas armas. Nós dissemos a um cavaleiro de Alagón de nome Dom Miguel da Ágües, que tinha um cavalo na porta, que nos entregasse. Rapidamente o montamos e, com nosso perponte vestido, trouxeram nossas armas e fomos atrás dele. Mas antes que estivéssemos providos, Dom Ato cavalgou com seu quarteto de cavaleiros, e um pouco depois, cavalgaram Dom Ato, Dom Blasco e Dom Artal com seus cavaleiros. Dom Ato alcançou-o à saída de umas muretas das vinhas de Burbáguena, e um cavaleiro disse a Dom Pedro Ahones: “Veja, Dom Ato nos segue”. Disse Dom Pedro Ahones: “Caiam sobre ele, e não deixem o vilão escapar”, embora ele não fosse vilão, nem mal-educado. [100]

Aqueles que andavam com Dom Ato se abriram, ao invés de se aproximarem dele, dando espaço aos outros que queriam feri-lo. Dois cavaleiros o feriram, um abaixo da boca na parte esquerda, e o outro o feriu com o escudo. E ele, por temor que o golpe fosse tão grande se o recebesse de frente, se deixou cair do cavalo no lado direito e se colocou debaixo do escudo por temor de morrer. [101] Enquanto isso, Dom Blasco de Alagón e Dom Artal de Alagón vinham pelo caminho.

Nós passamos por Dom Ato e lhe perguntamos como estava e o que havia acontecido. Ele nos disse: “Estou ferido! Vedes por aonde vão”. Estavam conosco somente Dom Assalit de Gudar e Domingo Lopes de Pomar.

E vimos Pedro Ahones, com vinte cavaleiros que nos separavam dele, subindo por uma encosta à esquerda para escapar para um castelo de um bispo de nome Contanda. Dom Blasco de Alagón e Dom Artal de Alagón estavam atrás dele a uma distância de um tiro de balestra. [102] Dom Pedro Ahones chegou a um monte com aquela companhia que tinha e ali se deteve. Dom Jimeno Lopez de Riglos apeou de seu cavalo e disse a Dom Pedro Ahones que cavalgasse nele, pois seu cavalo estava cansado, e que pensasse em sua salvação. Enquanto faziam isso, eles atiravam pedras grandes e pequenas em nós que estávamos embaixo, para que não subíssemos, e Dom Pedro Ahones mudou de cavalo.

Quando vimos o lugar em que fizeram o acampamento, dissemos a Dom Assalit e a Dom Domingo Lopes de Pomar que havia uma subida à direita daquele lugar por onde nós poderíamos chegar onde eles estavam. Nós fomos à frente dos dois, porque nosso cavalo corria mais que os deles. Ao ver que nós fazíamos isso, os da companhia de Dom Pedro Ahones atiravam pedras em Dom Artal e em Dom Blasco, que estavam de uma maneira que não conseguiam subir o monte em que os outros estavam. E ao ver que nós o fizemos, eles gritaram “Aragão, Aragão!”. [103] Então, ao mesmo tempo nós e a nossa companhia subimos o monte, e todos os cavaleiros que protegiam Dom Pedro Ahones o desampararam, exceto um que tinha o nome de Martim Perez de Mesquita, que acabava de chegar depois de nós seguindo seu senhor. [104]

Entretanto, chegou Sancho Martinez de Luna, irmão mais velho de Martim Lopez, e o feriu com a parte direita de sua lança, cravando-a meio pé em seu lado direito, na abertura do perponte debaixo do braço. E ele, que estava à nossa frente, sem ninguém entre nós (de tão perto que estávamos), sentiu-se ferido, parou e abraçou o pescoço de seu cavalo. Nós nos aproximamos quando ele começou a cair de seu cavalo, apeamos e o colocamos em nossos braços, e inclinando-nos sobre ele, dissemos: “Ah, Dom Pedro Ahones, em má hora nascestes! Por que não quisestes acreditar no que nós vos aconselhamos?” Ele não podia responder-nos nada, apenas mirava nosso rosto.

27. Nós estávamos assim quando chegou Dom Blasco e disse: “Ah, Senhor, deixai-nos este leão, para que nos vinguemos do que ele vos fez!”. [105] E nós dissemos a Dom Blasco: “Que Deus vos confunda por ter dito essas palavras. Eu vos digo que se ferir Dom Pedro Ahones, a mim ferirá e a mim terás que ferir primeiro. Por isso, vos proíbo de fazer isso tão duramente”. Assim, colocaram-no em uma besta e um escudeiro lhe suportava o corpo. Mas ele morreu no caminho, antes que chegássemos a Burbáguena.

Fomos então para Daroca e levamos Dom Pedro Ahones em um ataúde para Daroca, quando então o colocaram na Igreja de Santa Maria de Daroca. Quando saímos, os de Daroca desonraram nossos homens, os que vinham depois de nós, e deram uma pedrada no queixo de um escudeiro nosso, parente de Dom Pelegrín de Bolas, quando ele ousou desmenti-los. Dom Pedro Ahones tinha Bolea e Loarre em penhora, desde que nosso pai lhe havia empenhorado. Essas penhoras tinham tanto tempo que ele já poderia ter pagado. Então fomos lá e encontramos Dom Fernando e Dom Pedro Cornel, que estavam ali há meses, com setenta ou oitenta cavaleiros.

Nós pensávamos que não encontraríamos ninguém e que entraríamos, pois os homens eram nossos. Mas aqueles da vila estavam com eles e contra nós, e faziam-nos o mal que podiam, como se não fôssemos seu senhor. Vimos que o castelo estava guardado por uma grande guarnição de cavaleiros e de homens a pé, e que tinham do que comer daquilo que encontrassem na vila por um ano. Assim, foi nosso acordo que nos movêssemos e partíssemos dali.

28. Quando partimos dali, as cidades de Aragão se levantaram contra nós, com Dom Fernando, Dom Pedro Cornel e a partida de Dom Pedro Ahones. A esse respeito, eles solicitaram a Dom Guilherme de Montcada que viesse, e ele chegou com todo o seu poder. As cidades de Aragão estavam todas contra nós, exceto Calatayud.

Nós fomos para Almudébar e ali estivemos cerca de três semanas. Mudamo-nos para Pertusa [107] e chamamos Dom Ramon Folch de Cardona. Ele veio em nosso socorro depois de um mês, com cerca de sessenta cavaleiros e com seu irmão, Dom Guilherme de Cardona. Enviamos Dom Blasco de Alagón e Dom Artal de Luna à fronteira contra os de Zaragoza, permanecendo conosco somente Dom Ato, Dom Rodrigo Lizana e Dom Ladrão. Um bispo de Zaragoza, irmão de Dom Pedro Ahones, mandou-os em cavalgada, e eles foram durante a noite a Alcovera, a tomaram e a saquearam totalmente. [108] Como isso aconteceu na Quaresma, eles foram perdoados pelo mal que fizeram e autorizados a comer a carne que quisessem. [109]

Outra vez os de Zaragoza saíram até Castellar. [110] Dom Blasco e Dom Artal estavam em Alagón, atravessaram as águas do Ebro e os atacaram naquela serra que está próxima a Castellar, ao lado de Zaragoza. Entre mortos e prisioneiros havia trezentos homens. Dom Ramon Folch chegou a Pertusa, e recebemos pão dos de Zaragoza, dos de Huesca e dos cavaleiros que vieram em sua ajuda, que tinham comprado em Monzón cerca de duas mil, medida de Aragão. [111] Fizemos então um almanjanech e fomos capturar Ponzano.

29. Dali nós nos mudamos para Lascellas e concluímos o almanjanech. E depois de três dias de disparos, um escudeiro que tinha o castelo nos fez um pleito para que lhe déssemos um dia. Caso até aquele dia não fosse socorrido, ele renderia o castelo. E foi acordado por Dom Ramon Folch, Dom Rodrigo Lizana, Dom Ato, Dom Ladrão e Dom Pedro Pomar que nós aceitássemos esse pedido, contanto que fosse breve. Assim, ele pediu quinze dias, mas foi acordado que fossem somente oito. [112]

Dom Ato disse que passaria à outra margem [113] e se percebesse que alguém chegaria contra nós, nos faria saber. Quando chegou o oitavo dia, fomos a Pertusa e reunimos nosso Conselho na primeira hora da manhã. Pela grande senhoria que tínhamos sobre eles, ordenamos que, no outro dia bem cedo, eles fossem a Lascellas com suas armas, e aquele que não fosse perderia todos os bens que tivesse em nossa terra. E fizemos uma carta dessa mesma maneira para Berbegal e Barbastro, para que estivessem conosco naquele dia.

Quando terminamos de comer, pois era dia de jejum, Dom Pelegrín de Atrosillo e Dom Gil chegaram pelo caminho de Huesca. E vieram sós, com escudo e lança, trotando e a galope tanto quanto podiam. Eles se mostraram, mas não o reconhecemos até que chegaram à ponte de Pertusa. [114] Nós fomos esperá-los na Igreja de Santa Maria, no cemitério.

Eles chegaram e nos disseram: “Deus vos salve! Ainda virão até aqui Dom Fernando, Dom Pedro Cornel, os de Zaragoza e os de Huesca, todos para socorrer Lascellas. Nós os deixamos diante de Velillas, e pensamos vir o mais rápido que pudemos”. Assim, mandamos ferrar os cavalos, e só havia conosco quatro cavaleiros. Ordenamos então ao Conselho, sob pena de traição, que viessem depois de nós, e enviamos a mesma ordem a Berbegal e a Barbastro. Nós fomos para Lascellas e ali encontramos Dom Ramon Folch, Dom Guilherme de Cardona, Dom Rodrigo Lizana e a nossa mesnada. Dentre todos só havia entre setenta e oitenta cavaleiros.

E dissemos que armassem seus cavalos, pois Dom Fernando vinha, e os de Zaragoza e de Huesca vinham com ele. E todos pensaram em se armar. Quando nós ainda dizíamos essas palavras, Dom Pedro Pomar, que era um cavaleiro antigo e de nossa mesnada, veio e nos disse: “Senhor, eu vos darei um bom conselho: aqui há um monte que é muito forte [115], entreis ali que as vilas saberão e todos acorrerão para vos ajudar”. Nós respondemo-los: “Dom Pedro Pomar, nós somos rei de Aragão por nosso direito, e estes que vêm contra nós são nossos naturais e fazem o que não devem, pois vem combater contra nós. Nós temos o direito, eles têm o erro. Por isso, Deus nos ajudará, e nós não deixaremos a vila, a não ser morto, mas os venceremos. [116] Assim, dessa vez não tomaremos vosso conselho”.

Assim, esperamo-los, mas eles não vieram a nós. Por isso, tomamos o castelo.

30. Depois disso retornamos a Pertusa, quando chegou o arcebispo de Tarragona, de nome Dom Espárech, que era nosso parente. Quando ele viu que a terra de Aragão ia mal e que muitos faziam o que não devia contra nós, rogou-nos muito por Deus e pelo amor dele para que nós desejássemos fazer uma conciliação com os nossos homens, e que ele pudesse falar conosco e com eles. Nós o autorizamos. O arcebispo, após receber nossa palavra, falou com eles. Mas aquela conciliação nunca pôde terminar, pois eles pediam coisas que se nós fizéssemos seria contra a nossa senhoria. Por isso, ele teve que partir.

Quando eles viram que nós havíamos tomado Lascellas, os de Huesca enviaram Dom Martinho de Perexolo, que era nosso meirinho [117], e outros amigos nossos, para dizer que nós tínhamos que nos aproximar de Huesca, pois fariam a nossa vontade, e que tinham certeza disso. Assim, nós fomos para Huesca, mas não desejamos armar cavaleiros para que não se esquivassem de nós. [118] Antes que fôssemos lá, os bons homens da vila, cerca de vinte, saíram para Santa Maria de Sales. Nós argumentamos com eles e dissemos que nos maravilhávamos muito com isso que ocorria, pois nós só queríamos lhes fazer o bem, e que se antes nossa linhagem não lhes fez bem nem os amou, nós seriamos aqueles que lhes amariam tanto ou mais que eles. Quando escutaram isso, eles nos agradeceram muito, e disseram que nós entrávamos em boa hora na vila, e fariam por nós o que se deve fazer por um senhor natural.

Quando nós entramos, as crianças e a gente miúda demonstraram uma grande alegria com a nossa chegada. Nós entramos na vila na hora das vésperas, e entraram conosco Dom Rodrigo Lizana, Dom Blasco Maza e nossa mesnada, Dom Assalit, Dom Pelegrín de Bolas e muitos outros. Eles não nos convidaram para comer, e depois que comemos, fomos alegres e dissemos que nos parecia que eles fariam o que nós desejássemos, de tão bem que nos recebiam. [119]


Notas

[1] Tradução de Ricardo da Costa (Ufes) e Luciano Vianna com base na edição Llibre dels Fets del Rei En Jaume (a cura de Jordi Bruguera), Barcelona, Editorial Barcino, 1991, cotejada com Jaime I. Libro de los hechos (introd., trad. y notas de Julia Butiñá Jiménez), Madrid, Gredos, 2003, de quem aproveitamos as notas explicativas (além de acrescentarmos mais notas). Quanto aos nomes próprios e de lugares, sempre que possível colocamos em espanhol, exceto os nomes de uso corrente em português (como Guilherme, Pedro, etc.).

“O Llibre dels fets ou Crònica de Jaume I é a primeira das ‘Quatro Grandes Crônicas’. Parece que a conquista de Maiorca (1229) incentivou sua redação. Como Jaume I morreu em 1276, a obra deve ter sido quase concluída um pouco antes. Não obstante, as cópias que temos são posteriores (o manuscrito mais antigo conservado é de 1343). O título é muito significativo, já que não se trata de uma crônica, mas um livro de feitos. Os estudos realizados sobre este livro durante os anos 80 (Josep Maria Pujol, Jordi Bruguera, Stefano Asperti, entre outros) concluem que se trata de um livro que não pertence a qualquer gênero conhecido, e que está fortemente influenciado pela tradição oral, já que foi redigido oralmente. Seu autor, Jaime I, não o escreveu: ditou-o, pois era illiteratus (não sabia escrever). Não obstante, era um home culto. A Crònica narra, de forma autobiográfica, a vida e as gestas mais importantes do rei (sobretudo as conquistas de Maiorca e Valência). A história inicia com seu nascimento e termina com sua morte (1208-1276). Alguém propôs para ele fazer um prólogo e um epílego: tanto por sua erudição quanto por sua perfeição estilística este prólogo deve ter sido feito por outra pessoa, de uma cultura superio, e um pouco depois da morte do rei. O conquistador foi bem explícito no momento de exprimir a finalidade de suas ‘memórias’: ‘E per tal que los hòmens coneguessen, quan hauríem passada aquesta vida mortal, ço que nós hauríem fet [...] e per dar eximpli a tots los altres hòmens del món...’. O conteúdo da Crònica pode ser dividido em quatro partes: 1) 1208 e 1228 – um conjunto de pequenos conflitos durante sua idade mais tenra, enquanto os templários se ocupavam de sua formação (o nascimento quase miraculoso de Jaime I, a morte de Pedro I em Muret, o casamento de Jaume com Leonor de Castela, etc.); 2) 1229 a 1240 – Trata-se da parte mais agradável do Llibre dels fets, pois narra a conquista de Maiorca, o primeiro passo no destino da coroa de Aragão. A seguir, a conquista de Valência (1238). No livro, tenta-se mostrar como todos estes feitos puderam ter sido levados a cabo pelo rei graças ao favor divino; 3) 1240 a 1265 – Os fatos narrados são menos dinâmicos, embora sejam descritos os conflitos com sarracenos rebeldes de Valência, 4) 1265 a 1276 – O dinamismo e a narrativa dos feitos bélicos retorna, outra vez contra os mouros. Conquista de Múrcia. Além disso, há muitos episódios de política interna que pretendem justificar seus atos. Os últimos capítulos narram a doença que levaria o rei à morte. Provavelmente foram redigidos por alguém desejoso de incorporar a mort do monarca à Crònica. A intenção didàtica e justificativa, além do sentimento religioso e providencialista se refletem ao longo de toda a obra. O rei, a quem agrada aparecer como um herói de epopéia, nem sempre faz uma história militar e política, pois freqüentemente nos mostra pequenos feitos de sua vida e recantos mais recônditos de sua personalidade. A Crònica faz uso de uma linguagem viva e popular (refrãos, ditos e expressões coloquiais, uso da primeira pessoa do plural, etc.) i da língua própria por parte dos personagens (catalão, castelhano, aragonês, árabe, francês, etc.).”, Llibre dels fets, Internet.

[2] “Meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tem obras, que lhe aproveitará isso? Acaso a fé pode salvá-lo? (...) Com efeito, como o corpo sem o sopro da vida é morto, assim também é morta a fé sem obras”, Tg 14, 26. Por sua vez, a palavra retraure em catalão significa “recordar”, “relembrar”, mas ocasionando um sentimento de culpa na pessoa que está sendo admoestada. Assim, optamos em utilizar o verbo “reprovar”.

[3] A palavra “saúde” corresponde no texto a palavra salut, que nesse contexto significa “saúde espiritual”, e representa o hábito contínuo de praticar as virtudes e afastar-se dos vícios, tema muito recorrente na tradição literária medieval.

[4] Passagem que sugere que o Prólogo foi redigido depois da morte do rei.

[5] Sab 11, 10.

[6] Prov 13, 24.

[7] “Todo louvor se canta no fim”, provérbio medieval muito conhecido e repetido.

[8] “Tudo passa, menos amar a Deus”, frase que procede de uma passagem de Paulo (I Cor 13, 8).

[9] “Quem quer vir depois de mim, negue a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”, Mt 16, 24 e Lc 9, 23.

[10] Afonso, o Casto (II de Aragão e I de Catalunha, 1162-1196), foi o primeiro monarca de ambos os reinos confederados.

[11] Trata-se de Eudóxia, filha de Manuel Comeno I (1143-1180).

[12] Afonso VIII, o Imperador, rei de Leão e Castela (1126-1157).

[13] O termo rico-homem, tanto em Castela quanto em Aragão, tinha o significado de “poderoso” (do gótico reiks, “poderoso”).

[14] Dona Maria de Montpelier se casou com Pedro II, o Católico, de Aragão, em 1204.

[15] Pedro, o Católico, II de Aragão e I de Catalunha (1196-1213).

[16] Peyolla = provavelmente corresponde à atual Paulhan, no Departamento francês de Hérault.

[17] Trata-se de Bernardo Guilherme de Entenza (também nome de seu filho), e isso se explica na filiação descrita mais adiante.

[18] Supõe-se que haja uma lacuna no documento, pois a filiação entre Ponce Hugo e Hugo não está precisa.

[19] Apóstolo, isto é, o papa (no caso, Inocêncio III, 1198-1216).

[20] Viagem que aconteceu em 1212.

[21] Lates é uma localidade próxima a Montpelier, ao sul de Miraval.

[22] Provavelmente em maio de 1207.

[23] Provavelmente na noite do dia 01 de fevereiro de 1208. A festa da Purificação da Virgem Maria acontece uma procissão solene com velas abençoadas na igreja. A mansão Tornamira era a residência provisória dos senhores de Montpelier.

[24] Trata-se da Igreja de Notre-Dame das Madeiras.

[25] Este cântico era entoado depois do ofício das matinas (que terminava com o Te Deum), o que faz com que a crônica esteja cronologicamente correta em sua narrativa.

[26] A primeira e mais estimada virtude de um nobre na Idade Média, especialmente um rei, era a largueza, a generosidade, o fato de não reter nada nas mãos.

[27] Sua tumba, diante do altar dessa santa, encontra-se hoje no solo, sob uma lousa de mármore.

[28] Simon de Montfort foi o líder da cruzada contra os hereges albigenses que, como súditos, eram defendidos pelo rei Pedro II.

[29] Embora tenha ganhado guerras e territórios ao sul da França, Simon de Montfort tinha domínios na ilha-da-França e era conde de Leicester na Inglaterra, tendo, portanto, interesses no norte, de onde era originário.

[30] Esta é a primeira vez que o termo “amor” surge no texto, aqui definindo a relação feudo-vassálica e sendo a base da educação que o filho de um senhor recebia na casa de seu vassalo. No original, educar sempre surge com a palavra nutrir, que significa alimentar, corporal e espiritualmente.

[31] Os dois primeiros foram conselheiros do rei Jaime, o terceiro participou na batalha de Las Navas de Tolosa (segundo a Crônica de Pere Tomic). Para a batalha de Las Navas, ver COSTA, Ricardo da. “Amor e Crime, Castigo e Redenção na Glória da Cruzada de Reconquista: Afonso VIII de Castela nas batalhas de Alarcos (1195) e Las Navas de Tolosa (1212)”, em OLIVEIRA, Marco A. M. de (org.). Guerras e Imigrações. Campo Grande: Editora da UFMS, 2004, p. 73-94.

[32] Na Catalunha, a justiça era exercida pelo viguier, enquanto o bailio (batlle) administrava o patrimônio real. Batlle – “Oficial encarregado de administrar a justiça em uma vila ou cidade em nome do rei ou do senhor feudal” – Diccionari catalã-valencià-balear, Internet. Misto de juiz e cobrador de impostos, o batlle também arrecadava as rendas para o senhor. Esse cargo também era encarregado das funções judiciais (na coroa de Aragão seria um “juiz ordinário” de certos povos com senhorio). Em latim clássico, bajulare significa “carregar nas costas”, e bajulus “carregador”. Em francês medieval bailir (no sentido de administrar), no Sul bajulus e no Norte bailli, baillivus, com o sentido genérico de administrador, servidor. Ver GUENÉE, Bernard. O Ocidente nos séculos XIV e XV. Os Estados. São Paulo: EDUSP, 1981, p. 154-155.

[33] Muret se encontra na orla do rio Garona. A batalha ocorreu no dia 12 ou 13 de setembro de 1213. Os combatentes ao lado de Pedro, o Católico, foram cerca de 3.000 cavaleiros e 30.000 soldados a pé.

[34] Mesnada = “Conjunto de familiares ou servos de uma casa; guerreiros e súditos de uma casa feudal; conjunto de guerreiros e súditos de uma casa feudal.” – Diccionari catalã-valencià-balear.

[35] Reboster = “Pessoa encarregada de guardar um rebost (quarto ou outro lugar de uma casa ou de um navio onde se guardavam os comestíveis, dispensa)” – Diccionari catalã-valencià-balear. De acordo com ordenações posteriores, entre as funções do reboster se encontrava a disposição do leito real.

[36] A passagem sugere que um dos fatores para a derrota do rei na batalha de Muret deveu-se a seu comportamento sexual promíscuo na véspera do combate. Essa associação era muito comum na Idade Média. Por exemplo, o mesmo tipo de explicação para uma derrota militar acontece na Crónica Geral de Espanha de 1344. Ver COSTA, Ricardo da. “Amor e Crime, Castigo e Redenção na Glória da Cruzada de Reconquista: Afonso VIII de Castela nas batalhas de Alarcos (1195) e Las Navas de Tolosa (1212)”, op. cit.

[37] Dom Guilherme de Cardona havia sido nomeado conselheiro pelo papa na menoridade do rei.

[38] Por veto, isto é, excomunhão.

[39] Este tipo de elogio sugere a muitos um distanciamento cronológico no momento da redação do texto. Inocêncio III faleceu em 1216, e o louvor de Jaime I também sugere uma crítica aos seus sucessores.

[40] Partida = “Conjunto de pessoas que segue um líder em luta contra outro da mesma nação ou estado; casta, partido” – Diccionari catalã-valencià-balear.

[41] Dom Guilherme de Montredon era mestre do Templo para todo o território de Hispânia e Provença.

[42] Fernando, abade de Montearagón, era o terceiro filho de Afonso, o Casto, e Sancho, o terceiro filho de Ramón Berenguer IV. Ambos aspiravam a coroa na ausência de Jaime I.

[43] Espárech nesse momento ainda não era arcebispo de Tarragona, mas bispo de Pamplona. Quem detinha a sede era Bernardo de Rocabertí (Espárech foi arcebispo nos anos 1215 a 1231).

[44] “Palácio de volta” = palácio abobadado, com abóbada. Parece que se trata do Palacio de la Zuda, antigo alcácer.

[45] O endividamento da família real era um fato comum a boa parte da nobreza na Baixa Idade Média.

[46] Estes cavaleiros foram se incorporando ao lado do rei e lutaram na conquista de Valencia. No entanto, Pedro Ahones (que era conselheiro real pelo papa), morreu guerreando contra o rei, como se verá a seguir.

[47] O território de Rossellón pertencia ao filho de Dom Jimeno, Nuno Sanchez, tido como conde. Por sua vez, ostentava o título condal de Provença, por reger a menoridade de Ramon Berenguer IV.

[48] O conde de Provença então era Ramon Berenguer V, primo-irmão de Jaime I.

[49] Salou era um porto natural próximo a Tarragona e famoso desde a Antiguidade.

[50] “...com um tapete vermelho”, isto é, com sangue.

[51] Atualmente Castejón del Puente.

[52] Kafiz = medida de cereal que variava de acordo com a região.

[53] Nessa passagem, é importante destacar o caráter de primus inter pares da monarquia medieval: o rei afirma que não tinha ainda idade “para dar conselho a nós ou a outro”, isto é, ainda não era capaz de aconselhar os seus.

[54] No original fenèvol = máquina de guerra que consistia de uma grande viga giratória que em um extremo portava um contrapeso e, no outro, uma funda em que era colocada uma grande pedra que, com o movimento da viga, era lançada contra o inimigo ou contra suas fortificações. Esta máquina de guerra não é citada nas outras crônicas medievais.

[55] Em 1220.

[56] Vésperas = entre 18 e 21 horas.

[57] Besteiros porque combatiam com a besta (ou balestra), “...uma arma portátil de arremesso de dardos (virotões ou viratões) extremamente eficiente na penetração das cotas de malhas, escudos e armaduras. Tecnicamente, a besta era uma arma composta essencialmente por um arco apoiado numa haste e cuja corda se retesava por meio de uma mola, armazenando energia suficiente para disparar virotes pesados com grande precisão e longo alcance quando se acionava seu gatilho (...) Ela tinha desaparecido com as legiões romanas, só ressurgindo na cena européia na batalha de Hastings (1066). Mais mortífera que um arco simples de mão, ela era capaz de derrubar um cavaleiro da sela a 100 metros. No entanto, devido a seu peso, era de difícil manejo e recarregamento demorado, pois necessitava de apoio dos pés e ação simultânea das duas mãos.” – COSTA, Ricardo da. A guerra na Idade Média – um estudo da mentalidade de cruzada na Península Ibérica. Rio de Janeiro: Edições Paratodos, 1998.

[58] Dom Pedro Gomes era o castelão de D. Rodrigo. Castelão (castellanus) era o comandante da torre, do castelo, que ali governava em nome de um superior que era seu senhor, senhor do reino ou do condado. O castelão era o sire, o dominus da região. “O poder régio encontra-se plenamente em suas mãos. Mas seja o castelo independente ou não, encontra-se nele um chefe que detém a espada da justiça, o gládio confiado por Deus aos guerreiros para que mantenham a paz na Terra.” – DUBY, Georges. A Idade Média na França. De Hugo Capeto a Joana D’Arc. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992, p. 73.

[59] Capell de ferro – era distinto do casco e do elmo porque não cobria o rosto, somente o crânio.

[60] O infante Dom Fernando era irmão de Pedro, o Católico.

[61] Almanjanech = Máquina de guerra que lançava grandes pedras e tinha um contrapeso fixo e a uma vara inclinada em repouso.

[62] Guilherme de Poyo, o pai, havia participado da batalha de Muret, e seu filho estava presente enquanto o rei ditava a memória desses fatos que tanto lhe afetavam.

[63] Na verdade, nesse momento o rei já havia cumprido doze anos.

[64] Fernando III, o Santo, rei de Castela (1217-1252) e de Leão (1230-1252).

[65] Dona Leonor era a caçula das filhas de Afonso VIII de Castela e Leonor Plantageneta. Afonso VIII e o pai de Jaime I haviam participado da batalha de Las Navas de Tolosa.

[66] Luís VIII, o Leão (1223 - 1226), filho de Felipe II Augusto (1165-1223).

[67] Alfonso IX de Leão (1171-1230), o Baboso.

[68] Urraca, terceira e penúltima filha que se casou com Afonso II de Portugal (1185-1223).

[69] Henrique I só reinou três anos (1214-1217), e morreu em Palencia em 1217, aos treze anos.

[70] Dom Jimenez Cornel e Dom Guilherme de Cervera foram conselheiros reais nomeados pelo papa.

[71] Ágreda era um povoado da coroa de Castela, na fronteira com Aragão (atualmente na província de Soria). A data foi o dia 06 de fevereiro de 1221.

[72] Isto é, a sagração como cavaleiro de Jaime I. A igreja de Santa Maria de Huerta também é conhecida como Santa Maria de la Vega.

[73] Jaime esteve no dia 30 de novembro do mesmo ano em Girona.

[74] O fato de o texto destacar o sexo do falcão faz ressaltar ainda mais o caráter trivial da discussão, pois os falcões utilizados para a arte da falcoaria geralmente eram fêmeas.

[75] Ver nota 40.

[76] Valcarca, vila próxima a Monzón.

[77] Isto é, o conde Dom Sancho.

[78] Nessa interessante passagem, Dom Sancho, além de afirmar não ter parentes em Catalunha e pedir ajuda a seu parente, o rei, também oferecia a oportunidade de um duelo judicial a qualquer um que tivesse alguma queixa contra ele. Com isso, mostrava ao rei a sua disposição de manter a paz. O duelo judicial era também chamado de direito de desafio ou julgamento por combate. Era um tipo de ordálio bilateral, onde as duas partes em litígio desempenhavam uma função. Este tipo de julgamento teve origem na tradição germânica. Com o passar do tempo, gradativamente o costume medieval colocou restrições ao desafio: várias comunidades concediam à corte o direito de proibir um duelo. A partir do século X, campeões pagos eram utilizados substituindo uma das partes do litígio – decorrência natural da idéia que Deus decidia com Sua justiça o caso. Por exemplo, o imperador Oto I (912-973) decidiu a questão da castidade de sua filha num duelo de campeões.

[79] Uma vez mais Dom Sancho afirma que concederá o direito do duelo judicial.

[80] Isto é, Dom Gisbert era o castelão de Dom Nuno no castelo de Alvarí.

[81] Cervelló é um povoado não muito distante de Tarrasa.

[82] “...que nos desse o poder de Montcada”, isto é, reconhecer publicamente a senhoria do castelo, já que Dom Guilherme deveria abandonar a praça em um prazo de dez dias.

[83] Interessante passagem que mostra a incapacidade crônica dos reis medievais de conseguirem a total união de suas forças durante um cerco, agravada neste caso pelo fato de Jaime I ser ainda uma criança.

[84] “Da Espanha” se traduz como “toda a Península Ibérica”.

[85] “Fez-se uma conveniência”, isto é, fez-se um acordo, um pacto.

[86] Calcula-se que nesse momento Jaime I já tinha dezesseis anos.

[87] Reparem que essa é a primeira vez na Crônica que há um pronunciamento de Jaime I. Além disso, até o momento a leitura da Crônica destaca a dificuldade dos primeiros anos do reinado de Jaime I de controlar a nobreza: lembrem que o problema com Dom Guilherme de Montcada começou com uma tola discussão a respeito da posse de um falcão macho!

[88] No original, o texto está em aragonês, não em catalão.

[89] No original, guilando (e em outro manuscrito, guiçado). Segundo o Diccionari catalã-valencià-balear, parece ser o nome de uma arma, sem, contudo, ser taxativo. Em sua tradução, Julia Butiñá Jiménez sugere galardão (homenagem, prêmio, honraria), proposta que aqui seguimos.

[90] “Que nós corrigíssemos o mal”, isto é, que Jaime oferecesse alguma indenização a Dom Guilherme.

[91] Morabetí (no original morabatins e morabetins) = Moeda de ouro dos almorávidas e cunhada por Afonso VIII (morabetí alfonsí ou morabatí d’or de taula nou), que a colocou com o mesmo valor da moeda muçulmana, isto é, entre oito e onze souls (parece que em Barcelona costumava equivaler a nove souls).

[92] Trata-se de Horta de San Juan, hoje município da província de Tarragona, na Comarca de la Tierra Alta.

[93] Seid (no original Seyt) = adaptação do árabe equivalente a “senhor”.

[94] A peita (no original peyta, do latim pacta) era um tributo pago ao rei ou ao senhor territorial em razão dos bens imóveis possuídos. Também poderia ser cada uma das obrigações pagas em espécie estipuladas nos contratos de arrendamento em favor do proprietário. Nesse caso, o rei não cobraria esse tributo dos súditos do rei muçulmano de Valencia, que ficaria com Abu Seid.

[95] Cavalgada era o termo que designava, tanto na Espanha quanto na França, a breve incursão militar a cavalo feita para saquear ou castigar um inimigo. A palavra designava a tropa e também a expedição. No caso dessa