Poema I de Guilherme de Aquitânia (1071-1127)
Trad. e notas: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) [1]


Um trovador toca e canta para sua amada, que estende seu braço direito em sua direção.
Detalhe de um porta-jóias (c. 1180), t
esouro da catedral de Vannes.

I.
Companheiro, farei um verso conveniente
que terá mais loucura, não sensatez,
e será todo mesclado de amor, de alegria e de juventude.

II.
Tenhais por vilão quem não o entender, [2]
quem em seu coração com vontade não o aprender,
pois grave é partir aquele que encontra no amor prazer.

III.
Dois cavalos há para selar, e isso está bem.
São bons, corajosos em armas e valentes,
mas não posso tê-los juntos, pois um não suporta o outro.

IV.
Se eu pudesse domesticá-los do meu jeito,
não desejaria ter outros em minha guarnição,
pois, enquanto vivesse, estaria melhor cavalgado que qualquer homem. [3]

V.
Um deles foi o mais rápido dentre os cavalos montanheses,
mas há tanto tempo que está selvagemente fugitivo,
E é tão selvagem e feroz que se defende do comando.

VI.
O outro foi educado lá abaixo, próximo de Confolens.
Nunca houve mais belo, em minha opinião;
este eu não trocaria nem por ouro, nem por prata.

VII.
Quando foi dado a seu senhor, era um potrinho que pastava,
mas eu o retive tão convenientemente,
que, se o tivesse por um ano, tê-lo-ai mais de cem.

VIII.
Cavaleiro, dai-me conselho de um pensamento,
nunca fui tão indeciso em uma escolha,
não sei qual ter, se Dona Agnes ou Dona Arsênia. [4]

IX.
Em Gimel eu tenho o castelo e o domínio,
e por Nieul tenho orgulho diante de todas as gentes,
pois ambos me são jurados e prometidos em sangue. [5]

*

Notas

[1] Tradução feita a partir da edição Guillermo IX. Duque de Aquitania y Jaufré Rudel. Canciones completas (edicion bilingue preparada por Luis Alberto de Cuenca y Miguel Angel Elvira). Madrid: Editora Nacional, 1978, p. 26-29.

[2] Na poesia cavaleiresca, toda alusão ao camponês é sempre injuriosa. Aqui, a passagem sugere que todo camponês é ignorante e, pior, grosseiro, pois não é capaz de perceber as sutilezas dos versos de amor.

[3] “...estaria melhor cavalgado que qualquer homem”, expressão que representa o domínio da mulher (domina) sobre o homem. Posteriormente, o ato de ser cavalgado seria maravilhosamente narrado na lenda de Aristóteles e Phillys (Lai de Aristóteles, c. 1223, poema composto pelo clérigo e trovador normando Henri de Andeli [c. 1220-1240]). Ver COUTINHO, Priscilla Lauret e COSTA, Ricardo da. “Entre a Pintura e a Poesia: o nascimento do Amor e a elevação da Condição Feminina na Idade Média”. In: GUGLIELMI, Nilda (dir.). Apuntes sobre familia, matrimonio y sexualidad en la Edad Media. Colección Fuentes y Estudios Medievales 12. Mar del Plata: GIEM (Grupo de Investigaciones y Estudios Medievales), Universidad Nacional de Mar del Plata (UNMdP), diciembre de 2003, p. 4-28 (ISBN 987-544-029-9).

[4] Nesse momento, o poeta revela seu segredo - e a tensão do poema finda: os cavalos são duas damas, e ele só pode ficar com uma delas, pois ambas se odeiam!

[5] Após a revelação, o poema termina com um auto-elogio: apesar de sua indecisão no amor, Guilherme não quer deixar uma má impressão: embora hesitante, ele é poderoso, pois é estimado por todos, já que possui castelos e domínios.