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Gislebert de Mons
Trad.: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes) Revisão: Prof. Dr. Francisco Vieira Notas: Ricardo da Costa e Francisco Vieira Imagem 3 - Bélgica * O condado de Hainaut e Balduíno III A Balduíno II, conde de Hainaut, filho de Balduíno I, conde de Flandres e Hainaut e da condessa Riquilda, lhe sucedeu no condado seu filho primogênito, Balduíno III. O secundogênito, Arnulfo, foi padre de Eustáquio, senhor de Roeux. Das três filhas, Ida foi dada em matrimônio a um homem nobre e belicoso, Thomas de Marle; [73] Riquilda se casou na França com o conde de Montfort e mais tarde foi repudiada por seu marido, vivendo honorificamente como monja por um largo tempo na igreja de Meubeuge; finalmente Adelaide se casou com um homem nobre chamado Hugo de Rumigny. Quando o conde Balduíno III ainda era extremamente jovem, tomou por esposa Yolanda, mulher de nobre posição, filha do poderoso conde de Gueldre. Outra filha deste mesmo conde foi a esposa de Henrique, duque de Limbourg, cujo dote, a propriedade alodial do castelo de Wassenberg, passou para o patrimônio de seus herdeiros, os senhores de Limbourg. De sua esposa Yolanda, Balduíno III teve dois filhos: Balduíno, o primogênito, Gerardo, o secundogênito, além de duas filhas; uma foi dada em matrimônio ao senhor de Tosny e a outra ao castelão de Tournai. [74] Toda a terra de Hainaut foi herdada por Balduíno III pois, como havia sido entregue à igreja de Liège e os condes a tinham em feudo do bispo, devia passar integralmente ao primogênito, sem a participação da herança nem de seu irmão Arnulfo nem de suas irmãs. Arnulfo foi padre, como foi dito, de Eustáquio de Roeux, chamado o Velho, homem vigoroso e de grande poderem Hainaut. Este tomou por esposa a filha de um nobre chamado Juan que era par do castelo de Mons, possuindo a terra por ela. Em conseqüência disso também foi nomeado par de Mons. Eustáquio fundou e fortificou vilas em suas terras de Roeux e Morlanwelz. De sua esposa chamada Maria teve dois filhos: Nicolau, o primogênito e Eustáquio, o secundogênito, e três filhas, Beatriz, Adelaide e Ada. Por desejo de seu pai, Nicolau foi estimulado desde criança a consagrar-se às letras e, quando se fez adulto, não quis abandoná-las e se fez clérigo, cedendo a seu irmão todo o seu direito à herança. Ornado de toda a erudição e honestidade, permaneceu clérigo, enriquecido com muitos bens eclesiásticos. Eustáquio, por outro lado, foi armado cavaleiro. Foi um homem probíssimo, de renome e grande poder, tanto na corte de Hainaut quanto nos Conselhos dos nobres. De sua esposa Berta, filha de Rasão de Grave e Damison de Chièvres, teve um filho, Eustáquio, e uma filha, Beatriz. Das três irmãs de Nicolau e Eustáquio, a primeira delas, Beatriz, esposou um homem nobre, par do castelo de Mons, chamado Walter de Lens, e lhe deu um filho, Eustáquio, e duas filhas, Ida e Maria; a segunda, Adelaide, foi desposada por um nobre que morreu sem deixar descendência. Após isso, ela tomou o hábito e se retirou para a abadia de São Feuillien, onde se dedicou a obras santas e morreu; a terceira, Ada, foi dada em matrimônio ao nobre Nicolau de Boulaere, engendrando uma filha que herdou todo o patrimônio. Morto Nicolau, Ada contraiu segundas núpcias com o nobre Drogon de Bousies, do qual teve vários filhos; e finalmente, ao morrer Drogon, ela voltou a se casar pela terceira vez com um cavaleiro de Flandres chamado Gosuino. Uma das irmãs de Balduíno III, Adelaide, filha do conde de Hainaut Balduíno II e da condessa Ida, se uniu em matrimônio a um nobre de Rumigny e teve um filho, Nicolau, que possuiu os castelos de Rumigny e Florennes, e seis filhas: Beatriz, Adelaide, Riquilda e mais três das quais ignoro o nome. Nicolau ampliou enormemente os bens de sua terra; de sua esposa Damison de Chièvres teve dois filhos, ambos cavaleiros muito probos: Nicolau, que depois possuiu Rumigny e foi um homem prudente, probo e de grande fama, e Hugo, que possuiu Florennes. Teve também várias filhas; Juliana, a primeira, esposa de Renaud de Rozoy, homem nobilíssimo, do qual engendrou um filho, Roger; Clemencia, a segunda, casada com Gerardo de Ophasselt; Yolanda, a terceira, casada com Henrique de Hierges, e outras que esposaram o protetor de Hesbaye e o senhor de Schelde-windecke, em Flandres. Nicolau de Rumigny deu em matrimônio uma de suas seis irmãs, chamada Riquilda, ao senhor de Cons, e este engendrou um filho, Egildo; a outra, Beatriz, foi casada com Gosuino de Mons, homem nobilíssimo e muito poderoso de Hainaut, enriquecido por numerosas possessões por cumprir constantemente o serviço de permanência em Mons, em Valenciennes e Beaumont, com a condição de que enquanto estivesse cumprindo esse serviço em Valenciennes não devia fazê-lo em Beaumont e enquanto estivesse em Beaumont não poderia estar obrigado a cumpri-lo em Valenciennes, mas de todas as formas era par de ambos os sítios na corte de Mons. Gosuino teve um irmão clérigo que deixou boa memória: Nicolau, bispo de Cambrai, homem pleno de todas as virtudes, que governou sua diocese com grande poder, regendo-a com honestidade. Por isso, foi muito amado pelos homens de Hainaut. De sua esposa Beatriz, Gosuino teve um único filho, Gosuino, e seis filhas: Ida, casada em primeiras núpcias com o nobre Siger de Enghien, em segundas com Rainier de Jauche e em terceiras núpcias com Balduíno de Caron; Matilde, casada com Walter de Ligne em primeiras núpcias e em segundas com Walter de Fontaine; Adelaide, dada em matrimônio a Rogério de Condé; Rixa, dada a Estêvão de Denain; Beatriz, casada com Balduíno de Roisin, e Inês, dada a Hugo, senhor de Espiny e de Antoing. Mas o filho primogênito, Gosuino, morreu jovem, antes de ter sido armado cavaleiro. Por isso, a maior parte das possessões, as estâncias de Beaumont de Valenciennes e os outros bens passaram para Ida de Jauche e seu esposo Rainier e posteriormente foram herdadas pelo filho de ambos, Gerardo. Nicolau de Rumigny casou outra de suas seis irmãs, Adelaide, com o senhor de Thour, a outra casou-se em primeiras núpcias com o senhor de Chéry, próximo de Rehtel, e em segundas núpcias com o senhor de Donchery; outra irmã desposou o senhor de Balham e a última Isaac de Barbençon, par do castelo de Mons, engendrando um filho, Nicolau, cavaleiro probo e discreto, poderoso nos Conselhos da corte de Hainaut. Uma segunda irmã do conde Balduíno III de Hainaut uniu-se em matrimônio a um homem da França, nobre, poderoso e belicoso, chamado Thomás de Marle, do qual teve uma filha, Ida, que por sua vez casou-se com um homem nobre, Arnaldo de Chimay, chamado Poliere, e depois, morto Arnaldo, contraiu segundas núpcias com Bernardo de Orbais, do qual teve um filho, Engelramo. Balduíno III, conde de Hainaut e filho do conde Balduíno e da condessa Ida, teve por esposa, como já foi dito, Yolanda, filha de Gerardo, conde de Gueldre. Dela nasceram dois filhos: Balduíno IV, o primogênito, que hoje se encontra enterrado no coro superior do altar maior em Mons, e Gerardo. O conde teve também duas filhas: uma contraiu matrimônio com o senhor de Tosny e a outra com o castelão de Tournai. A primeira teve três filhos que foram cavaleiros insignes e grandes homens: Raul, Roger e Balduíno, além de um quarto filho chamado Godofredo, que foi clérigo piedoso, honesto e sábio. O terceiro, Balduíno, foi nutrido em Hainaut, [75] e feito cavaleiro por seu tio materno, o conde Balduíno III, habitando sempre com ele em Hainaut. Dia após dia sua probidade aumentou assombrosamente; ele continha toda a mansidão em seu coração, se comprazia na prodigalidade e largueza. Contudo, um dia, quando fora a Soissons para orar, faleceu na viagem de regresso. Sua morte perturbou ao máximo seu tio e a todos os homens de Hainaut, nobres ou servos. Trouxeram seu corpo para Valenciennes, onde foi enterrado no mosteiro de São João. Seu irmão Godofredo, clérigo, também habitava em Hainaut com seu tio materno, o conde Balduíno III e com seu primo, Balduíno IV, contudo, quando se encontrava em Le Quesnoy, ficou enfermo e morreu. Foi enterrado com grandes honras em Valenciennes junto a seu irmão. O primogênito dos quatro irmãos, Raul, teve um filho chamado Roger, que lhe sucedeu em todos os seus bens. A segunda das filhas de Balduíno III e Yolanda, que foi dada em matrimônio ao castelão de Tournay, teve um filho, Everardo, apelidado de Radou, cavaleiro probo e muito famoso, que possuiu por sua mãe a vila de Feignies, próxima de Maubeuge. Este, de sua primeira esposa, irmã de Roberto de Béthune, protetor de Arras, teve uma filha, Riquilda, que se uniu em matrimônio com o nobre Gislebert de Audenarde, e em segundas núpcias a Gautier de Sottegem, cavaleiro muito probo. Contudo, Everardo, ainda durante a vida de sua primeira esposa, tomou outra que era a mãe de Conão, de João e de Raul, condes de Soissons, senhores de Nesle e castelãos de Bruges. Ele teve um filho dela, Balduíno. Balduíno III, conde de Hainaut, filho do conde Balduíno II e da condessa Ida, morreu quando ainda era um jovem cavaleiro. Seu corpo foi enterrado na entrada do coro da igreja de Mons. Por isso, quando seus filhos ainda eram muito pequenos, Balduíno IV, o primogênito, herdou todo o condado de Hainaut, e o segundo, Gerardo, recebeu toda a propriedade alodial que sua mãe tinha na terra dos advalenses, isto é, o condado de Dodewaard e o de Dalen. Ele ainda teve um filho, o conde Henrique, cavaleiro muito probo. Balduíno IV A condessa viúva, Yolanda, possuiu Hainaut por um longo tempo, tanto por direito dotalício quanto pela menoridade de seu filho Balduíno IV. Uniu-se em segundas núpcias com um fiel seu, o nobre Godofredo de Bouchain, castelão de Valenciennes, que tinha Ostrevant por direito de castelania. Contudo, também possuía Ribemont, Origny e Château-Porcien. Da condessa Yolanda, Godofredo teve um filho que também se chamou Godofredo, e uma filha, Berta. A ambos – Goofredo e Berta – seu irmão, o conde Balduíno IV, lhes adquiriu por justa compra a castelania de Valenciennes e toda a herança de terras de Ostrevant e Cambrai. Godofredo morreu sem descendência e Berta contraiu matrimônio primeiro com o conde de Duras, e logo em segundas núpcias com Egido de Saint-Aubert, do qual teve um filho, Gerardo, e uma filha, que por sua vez se casou com o já mencionado Nicolau de Barbençon. Por seu matrimônio com Egido, homem de glorioso nome e de incomparável fama por sua probidade e largueza entre todos os cavaleiros errantes do reino da França e do Império Germânico, [76] Berta, enquanto viveu, foi exaltada acima de todas as mulheres. Quando morreu, Egido tomou por esposa a Matilde de Berlaimont, filha de Egido de Chin e Damison de Chièvres que, por seu pai possuía Berlaimont e a camareria-maior da corte de Mons. Este Egido de Chin foi, durante toda a sua vida, o mais probo com as armas dentre todos os cavaleiros de sua época. Certa ocasião, nas terras de Ultramar, ele lutou sozinho contra um leão ferocíssimo, o venceu e o matou, não com o arco e flecha mas com o escudo e a lança. Por parte de sua esposa, Damison de Chièvres, ele possuiu o castelo de Chièvres; foi companheiro de armas do conde de Hainaut e finalmante, tomando parte em uma ocasião em uma guerra entre o conde de Namur e o duque de Louvain, ele encontrou a morte e foi enterrado em São Ghislain. Egido de Saint-Albert, senescal-maior da corte de Hainaut por sua própria herança e camareiro-maior pela herança de sua esposa Matilde, teve um filho dela que também se chamou Egídio, fundou a vila de Busigny e construiu ali uma torre, entregue ao conde de Hainaut, Balduíno V, filho de Balduíno IV e da condessa Adelaide. Depois retomou a torre em feudo lígio, fundando antes outra vila em Bohain. O conde Balduíno IV, filho de Balduíno III de Hainaut e da condessa Yolanda, teve que levar a cabo, com grandes esforços, múltiplos ataques e contínuas guerras contra seus vizinhos e contra quase todos os mais poderosos de seus próprios homens, especialmente contra Teodorico, conde de Flandres e sua esposa Sibila, filha do conde de Anjou. Contudo, em todas elas, graças ao auxílio do Senhor, não perdeu nada, nem sua herdade, nem sua honra. Tomou por esposa a Adelaide, de corpo elegante e rosto formoso, plena de costumes honestos, inclinada a boas obras e às esmolas, filha de Godofredo, conde de Namur e da condessa Ermensenda, e irmã de Henrique, conde de Namur e de Luxemburgo. Como as outras irmãs casadas de Adelaide, a duquesa de Zähringen e a condessa de Rethel, já haviam recebido há muito tempo uma parte das terras de propriedade alodial em zonas próximas a seus senhorios, Adelaide, ao contrair matrimônio, decidiu que quando morresse o conde de Namur, Henrique, todos os alódios, feudos e terras censuais passariam ao conde de Hainaut, Balduíno IV, à sua esposa Adelaide e a seus herdeiros. Com o tempo, Balduíno IV e sua esposa Adelaide compraram das outras duas irmãs desta, a casada com o senhor de Rozoy e a casada com o senhor de Espinoy, sua parte alodial, de forma que, ainda em vida do conde Henrique, Balduíno IV e Adelaide tinham direitos sobre pelo menos três partes de toda a propriedade alodial. Mas para manter a paz foi acordado que Henrique, conde de Namur, de La Roche e de Luxemburgo, possuiria todas as terras enquanto vivesse e depois de sua morte os alódios, feudos e outras terras passariam sem nehuma calúnia ao conde de Hainaut, Balduíno IV, e à sua esposa, a condessa Adelaide. O conde Henrique, que intermediava a fé e os juramentos, fez com que seus homens prestassem homenagem de fidelidade e segurança ao conde Balduíno e à sua esposa, não coletivamente, mas de forma individual, e assim o fizeram, tanto os cavaleiros nobres quanto os soldados familiares e os homens das cidades, da terra de Namur e da de Luxemburgo. Este conde Henrique tinha obtido Luxemburgo com a morte de seu tio materno Guilherme, conde de Luxemburgo. A metade dos alódios correspondiam, por direito de herança por parte de sua mãe Ermensenda, em troca os feudos do condado de Thionville e dos protetorados de São Máximo em Tréveris e São Guilhebrodo em Echternach os recebeu das mãos do imperador de Roma, pois seu avúnculo tinha falecido sem descendência direta, e pelo favor do imperador os reteve em sua totalidade frente às exigências de sua prima-irmã, com a qual compartilhava os alódios. Esta foi desposada pelo conde de Grandpré, e teve um filho, Henrique, cavaleiro probo apelidado de Wafflart. Também deve ser sabido que o conde de Namur, Godofredo, homem nobre e poderoso, pai do conde Henrique, teve duas esposas: da primeira nasceram duas filhas, que se casaram – como já foi dito – com o senhor de Rozoy, Roger, e com um nobre de Espinoy, em Artois; da segunda esposa, Ermensenda, nasceram dois filhos, o mencionado conde Henrique e Alberto, que morreu jovem, além de três filhas, a duquesa de Zähringen, a condessa de Rethel e a condessa de Hainaut, Adelaide. Das filhas do primeiro matrimônio, a senhora de Rozoy teve dois filhos e duas filhas: o primogênito se chamou Rainier, homem probo e discreto que fundou novas vilas em suas terras, as repovoou e as enriqueceu, e de sua esposa Juliana, filha de Nicolau de Rumigny, teve – como já dissemos – um filho chamado Roger; o segundo filho da senhora de Rozoy, irmão de Rainier, foi Roger, bispo de Laon; de suas duas filhas, uma foi Adelaide, dada em matrimônio ao já mencionado Egido de Chimay, e a outra foi Annchelisa, casada com um nobre homem do condado de Namur, Filipe de Atrive. A segunda filha do primeiro matrimônio do conde Godofredo de Namur, a que casou com um nobre de Espinoy, engendrou também filhos e filhas; uma delas casou com Teodorico de Avesnes. Das três filhas do segundo matrimônio de Godofredo, a duquesa de Zähringen teve três filhos: Bertoldo, duque de Zähringen, príncipe de grande poder, Raul, bispo de Liège, que antes foi arcebispo de Mogúncia e que mandou construir em Liège um palácio grande e formoso, e o conde Hugo. A duquesa teve também uma filha que foi tomada por esposa pelo mais poderoso dos chefes, Henrique, duque da Saxônia. Contudo, o imperador de Roma, Frederico, [77] temeu essa aliança entre dois homens tão poderosos como o duque da Saxônia e o duque de Zähringen e que pudessem opor-lhe resistência. Por isso, tentou e conseguiu rompê-la através do divórcio. Para diminuir ainda mais a influência destes dois homens, expulsou Raul, arcebispo eleito, da sede de Mogúncia. Este, graças ao apoio de seu tio materno, o conde de Namur e de Luxemburgo, Henrique, alcançou a dignidade episcopal na sede de Liège. A condessa de Rethel, outra das três filhas do segundo matrimônio do conde de Namur, Godofredo, teve quatro filhos: Manassés, conde de Rethel, Henrique e Balduíno, cavaleiros, e Alberto, clérigo, prepósito-maior e arquidiácono da igreja de Liège. Teve também várias filhas; uma delas foi tomada pelo poderosíssimo rei da Sicília, Roger, como segunda esposa. Este já tinha um filho de sua primeira esposa chamado Guilherme, que lhe sucedeu no reino da Sicília, no ducado da Apúlia e no principado de Cápua. Contudo, destas segundas núpcias nasceu uma filha, Constança, que seu irmão, o rei Guilherme da Sicília, [78] encheu-a de ouro e riquezas e a entregou como esposa ao imperador de Roma, Henrique, [79] filho de Frederico, [80] que, por sua vez, a tomou com a esperança de obter o reino da Sicília. E assim, quando Guilherme faleceu sem descendência, conseguiu sem esforço, pelo direito que lhe outorgava seu matrimônio com a imperatriz Constança, o reino da Sicília, o ducado da Apúlia e o principado de Cápua. Além disso, a condessa de Rethel teve outra filha que se casou com um homem nobre, Hugo de Pierrepont, tendo dois filhos: Roberto, cavaleiro probo e de renome, e Hugo, clérigo erudito e discreto, prepósito-maior, arquidiácono, abade e finalmente bispo da igreja de Liège. A condessa de Hainaut, Adelaide, teve quatro filhos de seu esposo, o conde Balduíno IV: o primogênito Balduíno, Godofredo (o secundogênito), Balduíno e Henrique, o quarto e último filho. Teve também três filhas, ornadas de toda a formosura e honestidade: Yolanda, Inês e Laureta. O mais velho dos irmãos, Balduíno, morreu jovem e foi enterrado no mosteiro de Santa Maria de Binche. Então, Godofredo passou a ser o primogênito. Era formoso, sossegado e amado por muitos. Tomou Eleonora como esposa, filha do conde Raul de Vermandois. Contudo, um dia, quando tinha dezesseis anos e se aproximava o tempo de sua entrada na cavalaria, Godofredo ficou enfermo em Mons e faleceu. Foi enterrado ali no coro das damas do mosteiro de Santa Waudrú. Assim, só sobreviveram dois filhos de Balduíno IV e da condessa Adelaide: Balduíno V, que governou poderosamente o condado de Hainaut e mais tarde também o de Namur e o de Flandres. Seu irmão menor, Henrique, recebeu, com o consentimento de Balduíno, seu primogênito, os bens que seu pai havia adquirido, isto é: a vila de Sebourg, a de Fayt, parte da de Angre, a quarta parte do alódio de Gosselies junto com os protetorados das vilas de São Pedro de Lobbes, próximo de Gosselies. Por tudo isso, Henrique prestou homenagem lígia a seu irmão. Foi concedida uma graça ao conde Balduíno de Hainaut, filho do conde Balduíno III e da condessa Yolanda, entre muitos outros bens que recebeu do Senhor: desde os tempos mais remotos nunca se vira um dos condes de Hainaut viver para ver um de seus filhos ser feito cavaleiro e uma de suas filhas casada, mas Balduíno IV, vivo e poderoso, deu em matrimônio suas três filhas a três homens nobres e de grande poder. A primeira, Yolanda, que era belíssima, caritativa e devota, foi tomada como esposa por Ivo, o Velho, nobre conde de Soissons e senhor de Nesle, homem venerável e poderoso, generoso em dar e o mais sábio dentre todos os barões da França. [81] Quando morreu sem ter dado descendência, Yolanda se casou em segundas núpcias com Hugo de Saint-Pol, cavaleiro probo, nascendo duas filhas: Isabel e Eustáquia. A segunda das filhas do conde Balduíno IV e da condessa Adelaide, Inês, que era um pouco coxa mas formosa de rosto e plena de encanto e honestidade, foi tomada como esposa por um homem nobre, rico e poderoso, Rodolfo de Coucy, que possuía os castelos de Coucy, Marle, Vervins e La Fere. Ainda que nessa terra morassem homens selvagens e soberbos, Inês foi amada por todos acima das demais. Deu três filhas ao senhor de Coucy: Yolanda, que esposou Roberto, conde de Dreux e de Braisne, cavaleiro probo, filho do conde Roberto, irmão do rei Luís da França; outra das filhas desposou Raul, conde de Coucy, que morreu sem deixar descendente [82]. Ela então casou-se com o conde de Grandpré, sem levar em consideração seu parentesco pela casa de Luxemburgo; a terceira delas, Ada, se casou com um nobre de Flandres, Teodorico de Beveren, castelão de Dixmude. Pelo matrimônio com Inês, Raul de Coucy recebeu como dote a concessão da vila de Mons quarenta libras de uma imposição de oitenta libras de dinheiros anuais, recebendo-os na festa de São Remígio, e o extremo de Binche. Quando morreu seu pai, seu irmão Balduíno V alcançou a dignidade condal, acrescentando sessenta libras no extremo de Valenciennes. Finalmente, a terceira das filhas do conde Balduíno IV e da condessa Adelaide, Laureta, foi tomada como esposa por um homem nobre, o jovem cavaleiro Teodorico de Alost, filho de Ivan de Gandave e de Laureta. Esta Laureta, casada com Ivan de Gandave, era a filha da primeira mulher de Teodorico, conde de Flandres, e quando Ivan morreu, Raul, conde de Vermandois, que era viúvo, a tomou por esposa. Depois ela se casou com o duque de Limbourg, Henrique, e finalmente com o conde de Namur, que também se chamava Henrique. Contudo, após ter deixado todos os seus esposos, um a um, tomou os hábitos da religião. Não deve ser omitido, para que seja do conhecimento de todos os presentes e para a posteridade, que o conde Balduíno IV e sua esposa, a condessa Adelaide e todos os seus descendentes têm direito, desde há muito, sobre os bens de Henrique, conde de Namur e Luxemburgo. Pois quando o conde Henrique quis tomar Laureta por esposa, não pôde contrair matrimônio sem o consentimento e a aprovação do conde de Hainaut, Balduíno IV, da condessa Adelaide e de seu filho Balduíno V. Os condes de Hainaut deram seu consentimento em Heppignies, com o testemunho de muitos nobres e ministeriais, e ali mesmo as homenagens de fidelidade e garantias por parte dos homens do conde de Namur e Luxemburgo foram solenemente renovadas e confiadas por escrito em um documento autêntico. Teodorico de Alost morreu quando ainda era um jovem cavaleiro e sua esposa Laureta, filha do conde Balduíno IV e da condessa Adelaide, permaneceu viúva alguns anos, mas as terras de Alost e de Waes retornaram a Filipe, poderosíssimo conde de Flandres e de Vermandois. Quando Balduíno IV e a condessa Adelaide morreram, seu filho Balduíno V, novo conde de Hainaut, voltou a casar Laureta com um homem muito nobre do reino da França, Bouchard de Montmorency, que teve um filho dela, Mateo. Seu tio Balduíno V apressou-se para nomeá-lo cavaleiro para que tivesse a força e a capacidade para obter o domínio da terra. Naquele tempo, o conde Balduíno IV teve notícias que sua irmã, casada em Tosny, havia sido ultrajada gravemente por alguns de seus vizinhos que tinham muito poder. Então se apressou para acudir em seu auxílio com trezentos cavaleiros, e sem pedir licença nem escolta, atravessou a França. Vingou sua irmã das injúrias de seus inimigos e após restabelecer a paz regressou à suas terras. Balduíno IV, conde de Hainaut, filho de Balduíno III e da condessa Yolanda, que tinha por esposa a condessa Adelaide, possuiu durante toda a sua vida o condado de Hainaut poderosamente. Freqüentemente teve que resistir com ânimo constante aos contínuos ataques do conde Teodorico de Flandres, que levava a cabo uma guerra contra ele, mas que não conseguiu causar dano nem a seus direitos nem a seu domínio, com exceção de uma fortaleza próxima a Douai que pertencia ao conde de Hainaut e que havia sido sitiada pelo de Flandres, e após um largo assédio e muitos e muito duros combates entre os cavaleiros de ambas as partes, o conde de Flandres a abateu. Durante este sítio, em um de seus combates morreu Rasse de Gavre, que tomara Damison de Chièvres como esposa quando faleceu Egido de Chin. Rasse teve um filho de Damison chamado Rasão, cavaleiro poderoso e enérgico, e uma filha, Berta, esposa de Eustáquio de Roeulx, cavaleiro de grande probidade, filho de Eustáquio de Roeulx, o Velho, do qual já falamos. Este conde de Hainaut, Balduíno IV, filho de Balduíno III e de Yolanda, amuralhou a vila de Binche fundada por sua mãe; rodeou a fortaleza de Mons com um novo muro, e seu filho o melhoraria ainda mais; fundou a vila de Hasmonquesnoit e construiu nela um castelo, rodeando-o de fossos e muralhas, também melhorado por seu filho; cintou Bouchain de muralhas e iniciou ali a construção de uma torre, terminada por seu filho. Em Valenciennes edificou uma casa de pedra sobre o rio Escaut apta para ser habitada, fundou a vila de Raismes e nela construiu uma torre contra os ladrões de Vicogne e para vigiar o caminho para Flandres de onde os homens desse condado vinham continuamente devastar Hainaut, e essa torre também foi completada por seu filho; comprou Ath, uma vila do Brabante, do nobre Egido de Trazegnies, cavaleiro probo, enérgico par do castelo de Mons e pai de um cavaleiro também muito probo, Otão, de nome glorioso e preclara fama. Então, concebeu a idéia de fundar ali uma vila nova e construir um castelo. Rasão de Gavre, filho de Rasse e Damison de Chièvres, com o consentimento do conde de Flandres e Vermandois, quis impedi-lo, chegando às terras de Chièvres com muitos cavaleiros e instalando-se ali. Fez isso ainda durante a vida de sua mãe, esposa de Nicolau de Rumigny, consangüíneo de Balduino IV, conde de Hainaut. Contudo, o conde da Hainaut reuniu seu exército em Blicquy, e com suas forças construiu o castelo de Ath, de modo que a vontade de Rasse de Gavre não prevaleceu. O conde Balduíno IV adquiriu também Braine-le-Conte da igreja de Mons e ali construiu uma torre construída por seu filho. Nesta compra o conde de Hainaut e a igreja de Mons concordaram que a igreja reteria sempre os dízimos dos censos e os dízimos das oferendas assim como a terra que foi de Henrique, senhor de Braine, e que havia chegado nas mãos da igreja através de esmola. Concordaram também que o altar da vila seria conservado com dízimos menores, dotalícios e tudo quanto pertencesse a esse altar, assim como seu próprio manso com a lenha da zona alodial do bosque necessária para fazer fogo e para a construção, sem precisar apresentar licença para tomá-la; servos e servas permaneceriam com a mesma liberdade e a igreja conservaria também a terceira parte do dízimo. As outras duas partes o conde as reteve sob um censo anual de doze dinheiros. Balduíno IV também adquiriu Chimay e seus alódios correspondentes, de modo que o senhor desse castelo, que já devia serviço de estância em Mons por uns feudos, acrescentou a estes o castelo de Chimay e seus alódios correspondentes. [83] Por isso foi concordado que todos os cavaleiros e feudatários de todos aqueles alódios, assim como todos os habitantes de Chimay com mais de quinze anos deveriam prestar homenagem de fidelidade ao conde de Hainaut, jurando sobre os Santos Evangelhos. Assim, se o senhor do castelo de Chimay alguma vez não quisesse entregar a petição sua à fortaleza ou fosse contrário a algo, estes cavaleiros, feudatários e todos os homens de Chimay deveriam prestar auxílio ao conde de Hainaut de todas as formas possíveis contra o senhor do castelo. Adão de Walincourt, um fiel deste conde de Hainaut, tinha Walincourt e outros bens em feudo lígio do conde. Retomou do conde em feudo lígio o castelo de Premont que ele mesmo havia construído. Este Adão era um cavaleiro probo, sábio, enérgico e corpulento, e aumentou seus bens e terras, sempre permanecendo poderoso entre seus consanguíneos e vizinhos. Portanto, pode-se dizer que o conde Balduíno IV tinha como fidelidade e garantia todos os castelos e fortalezas do condado e domínio de Hainaut. Qualquer homem que tivesse castelos ou fortalezas em Hainaut, Brabante ou Ostrevant, antigos ou novos, em feudo ou alódio, estava obrigado pela justiça a prestar diante de todos fidelidade e garantias ao conde de Hainaut com uma homenagem diante os demais homens do conde, mesmo que sua fortaleza estivesse situada em outro feudo ou alódio. Conseqüentemente, se o conde, por necessidade ou mera vontade o requeresse, deveria entregar a fortaleza ou o castelo a ele mesmo ou a seus núncios. De sua parte, o conde deveria devolvê-la no mesmo estado que a recebeu, com tudo o que se encontrava nela quando lhe fora entregue, uma vez executados os assuntos. Nos tempos desse conde, Balduíno IV, aconteceu uma ocasião uma discussão em sua corte sobre questões relacionadas a todas essas coisas. Gautier, senhor de Avesnes, apelidade Pulechel, se encontrava em presença do conde e de muitos de seus pares e outros homens de condição nobre e servil. Quando iam ditar a sentença contra ele a respeito dessas questões, ele morreu repentinamente. Seu filho Nicolau o sucedeu, homem pacífico e discreto, e, ao contrário de seus antecessores, sempre rebeldes ao conde, nunca quis se opor ao seu senhor. Por isso, ampliou muito seus bens e terras e fundou nelas muitas vilas novas, as povoou e as enriqueceu, construiu o castelo de Landrecies e o do conde, e logo derrubou Balduíno V, filho do conde Balduíno IV e de Adelaide, por causa de seus excessos e as usurpações cometidas por Jacob, filho de Nicolau. Este Nicolau de Avesnes teve por esposa Matilde, filha de Henrique, conde de Laroche em Ardenne, tio paterno do conde de Namur, Henrique, e da condessa de Hainaut, Adelaide. O conde Henrique de Namur obteve de seu tio e do favor do imperador sua parte de alódios assim como a terra, o condado de Laroche e o protetorado da igreja de Stavelot. Matilde havia engendrado um filho de seu primeiro esposo, Wery de Walcourt, cavaleiro probo, enérgico, astuto e rico, e várias filhas; do segundo marido, que foi Nicolau de Avesnes, teve um filho, Jacob, e uma filha, que se casou com Guilherme, cavaleiro ótimo e honesto, castelão de Saint-Omer. Jacob foi muito probo com as armas, enérgico, discreto e poderoso, mas em algumas ocasiões se rebelou contra seu senhor, o conde de Hainaut. Teve por esposa Adelvia, filha de Buchard de Guise, e através dela possuiu Guise e Lesquielles, e dela teve vários filhos, dos quais seu primogênito Gautier o sucedeu em Avesnes e no Brabante, e várias filhas das quais uma se casou com Nicolau, do qual já falamos, cavaleiro nobre e probo, filho de Nicolau de Rumigny e de Damison de Chièvres. Este Jacob, depois de cometer grandes façanhas das quais falaremos mais adiante, sucumbiu de forma gloriosa nas terras de Ultramar. Regressemos agora a Balduíno III, conde de Hainaut, filho do conde Balduíno II e da condessa Ida, para falar das origens da lei de Valenciennes que chamam “Paz”. Este conde, vendo que a cidade de Valenciennes, grande e povoada, não era regida por nenhuma lei e que por causa disso não havia paz, reuniu-se com seu Conselho de homens e fundou a “Paz de Valenciennes”. A esta lei foram submetidos os cavaleiros do lugar, assim como seus servos e servas, se estes habitassem na cidade, para que assim pudessem gozar a paz. Quando de sua morte, o conde podia aceitar destes servos, assim como do restante dos homens da cidade – com exceção dos clérigos e cavaleiros – as chamadas “mãos mortas”. [84] Contudo, Balduíno III atuou sempre com grande misericórdia e consideração, e desde o momento que foi imposta esta lei cobrou em poucas ocasiões as “mãos mortas”. Além disso, foi acordado que todo aquele que o conde de Hainaut nunca tivesse tido em propriedade no fim de Valenciennes não o daria em feudo, em censo, em precário ou em nada, nem nunca o venderia. O filho de Balduíno III e da condesa Iolanda, o conde de Hainaut Balduíno IV, cobrou enquanto viveu a totalidade das “mãos mortas”, pois os homens de Valenciennes cometeram abusos contra ele em sua juventude e também porque seus súditos o aconselharam. Durante alguns anos seu filho Balduíno V também o fez, mas logo os absolveu deste dever, mas finalmente, por conselho da grande maioria voltou a exigi-las, tal como explicaremos ao narrar as gestas deste conde. Balduíno IV, filho da condessa Yolanda, e sua esposa, a condessa Adelaide, uma mulher muito religiosa, construíram capelas em algumas de suas mansões: em Mons, em Biche e em Hautmont, embora não lhes determinassem nenhuma renda concreta. Mais tarde, seu filho Balduíno V as honrou, entregando-lhes certas rendas: a capela de Mons, construída em honra a São Sérvio recebeu os dízimos de Tronquoy e alguns outros bens, pelos quais o conde de Hainaut deve à Igreja de Santa Waldrú um censo anual de cinco soldos; a capela de Binche, construída também em honra a São Sérvio, recebeu os dízimos de Estinnes-au-Mont, e a de Hautmont, construída em honra a São João Evangelista, recebeu os dízimos de Monteruel. Balduíno IV, filho do conde Balduíno III e da condessa Yolanda, teve como companheiros e conselheiros homens probos, discretos e de renome. Entre eles se encontravam Egildo de Chin, Gosuíno de Mons, Eustáquio, o Velho, de Roeux, Hauwel de Quievrain, os irmãos Luís e Carlos de Fresnes, Teodorico de Ligne, Ivan de Wattripont, os irmãos Henrique e Guilherme de Braine, Roberto de Aisonville, Isac, castelão de Mons, e Guilherme de Birbes. Nos tempos deste conde, Balduíno IV, faleceu o bispo de Cambrai, Nicolau, que deixou boa memória. Pedro o sucedeu, um clérigo e irmão do conde Filipe de Flandres e de Vermandois. Este Pedro, eleito sem ser consagrado, governou a sede de Cambrai em paz durante alguns anos, sem oprimir a igreja e sem ordenar sarcedotes. Contudo, aconselhado pelo conde, seu irmão, abandonou a dignidade episcopal e se fez cavaleiro. Então seu irmão lhe entregou algumas terras de Flandres em propriedade: Lillers e Saint-Venant, e tomou por esposa a viúva do conde de Nevers, da qual teve uma filha. Pouco tempo depois morreu e foi enterrado em Issoudun. Sua filha desposou um cavaleiro probo de Flandres chamado Roberto de Wavrin, e lhe foram entregues os bens de seu pai em Lillers e Saint-Venant. Nos tempos desse mesmo conde Balduíno IV, morreu Carlos, conde de Flandres, assassinado traiçoeiramente por seus homens lígios em sua própria casa na cidade de Bruges. O conde Carlos, nascido na Dácia, havia obtido Flandres em herança quando do falecimento do conde anterior de Flandres. Morto Carlos, sucedeu-lhe no condado, por eleição e justa consideração dos homens de Flandres, Teodorico, homem muito nobre oriundo da Alsácia, irmão do duque de Nancy. Da primeira esposa desse conde nasceu uma filha que, como já dissemos, chamou-se Laureta. A segunda esposa de Teodorico foi Sibila, filha do primeiro matrimônio de Fulque, conde de Anjou, e irmã de Gaufredo. [85] Este mesmo conde de Anjou, Fulque, [86] ao morrer sua primeira esposa, partiu para Jerusalém e ali contraiu segundas núpcias com a rainha daquela terra que ostentava a coroa por direito hereditário. Dela teve um filho que o sucedeu no reino de Jerusalém. O conde Gaufredo sucedeu seu pai Fulque no condado de Anjou. Um de seus filhos foi Henrique, do qual já falamos, que com grandes esforços obteve o ducado da Normandia e, a seguir, o reino da Inglaterra, ostentado por seu tio, o glorioso e poderoso rei Henrique, [87] filho de Godofredo de Anjou, rei da Inglaterra, duque da Normandia e conde de Anjou, que tomou por esposa, contra a vontade do rei da França, a duquesa da Aquitânia, [88] repudiada por esse mesmo rei Luís, [89] depois de engendrar nela duas filhas: a condessa de Champagne e a de Blois. Através dela Henrique obteve o ducado da Aquitânia e deste modo possuiu em feudo do rei da França a Normandia, a Aquitânia, a Bretanha e o Anjou. Dela teve quatro filhos e duas filhas: o primogênito foi o rei Henrique, jovem probo, generoso e belo, que manteve ao seu redor como companheiros de armas os cavaleiros mais probos de então; seu pai o fez coroar rei ainda em vida, o que mais tarde prejudicaria-o. O secundogênito foi Ricardo, [90] cavaleiro atroz ao qual seu pai lhe entregou em vida o ducado da Aquitânia e que recebeu o nome de conde de Poitiers. O terceiro foi Godofredo, cavaleiro probo, cheio de mansidão e generosidade, que obteve a Bretanha por matrimônio e por isso recebeu o nome de conde da Bretanha. O quarto filho foi João, chamado Sem Terra. De suas duas filhas, uma se casou com o rei da Espanha [91] e outra com o duque da Saxônia, Henrique, o mais poderoso dos duques e geralmente um homem muito soberbo e cruel; dela o duque da Saxônia teve um filho, Henrique, probo e enérgico. Contudo, o imperador de Roma, Frederico, [92] deserdou este duque tão poderoso e rico, genro do rei da Inglaterra, arrebatando-lhe a terra e as honras que lhe tinha entregues e deixando-lhe nada mais do que alguns alódios, Brunswich e Althaldensleben, além da terra que chamam Neuland. Dois dos mencionados filhos do rei da Inglaterra e da duquesa da Aquitânia, Henrique, o Jovem, e Ricardo, tiveram duas filhas do rei Luís da França e de sua esposa Constança, da Espanha: Henrique desposou e coroou uma, Ricardo somente lhe jurou matrimônio, conservando-a casta, sem nunca a ter desposado. Contudo, aconteceu que falecidos tanto seu pai, o rei Henrique, quanto seu irmão, Henrique, o Jovem, Ricardo lhes sucedeu no trono, não temeu devolver a mulher a qual havia jurado matrimônio a seu irmão Filipe, [93] rei da França, e tomou outra por esposa. [94] O rei da Inglaterra, Henrique, contra Deus e a justiça, oprimiu gravemente todas as igrejas conventuais de suas terras. Por exemplo, quando os bispos ou os abades morriam, ele retinha suas abadias e episcopados durante muitos anos, sem permitir que os cônegos ou monges celebrassem uma nova eleição até que ele desejasse. Também não consentia que elegessem outro que não fosse alguém que indicasse. Do mesmo modo, quando faleciam os condes ou homens nobres de suas terras, o rei as possuía até que seus filhos pequenos fossem feitos cavaleiros, e só então, apenas por sua graça, lhes devolvia as possessões. Nenhum nobre podia exercer a justiça em sua própria terra sem seu expresso consentimento. O rei Henrique manteve durante toda a sua vida freqüentes guerras com o rei Luís da França e com seu filho, o rei Filipe. Santo Tomás, mártir glorioso e arcebispo de Canterbury, [95] se opôs a este rei para defender a liberdade da Igreja. Por isso, o rei Henrique se encolerizou contra ele de tal maneira que certo dia, estando em Canterbury, se queixou diante seus homens falando dele como um inimigo mortal. Então alguns dos cavaleiros de sua família tomaram suas armas, entraram no mosteiro e, encontrando-o ali orando diante o altar e ornado somente com as armas divinas, lhe assassinaram. Assim, por seus muitos méritos, Deus logo lhe concedeu muitos milagres. Nos tempos do conde Balduíno IV, filho da condessa Yolanda, Raul, conde de Vermandois, era um homem rico e poderoso, e juntou durante toda sua vida um grande tesouro. Teve um filho chamado Raul, o Jovem, e duas filhas, Isabel e Aenora; Isabel foi tomada como esposa por Filipe, o poderoso e justiceiro conde de Flandres e enérgico governante da Igreja, filho do conde Teodorico e da condessa Sibila, esta filha do conde de Anjou; a segunda, Aenora, foi esposa, como foi dito acima, de Godofredo, filho de Balduíno IV, conde de Hainaut. [96] Quando Godofredo morreu, ela contraiu segundas núpcias com Guilherme, conde de Nevers, e ao morrer este Aenora desposou Mateo, conde de Bolonha, irmão do conde de Flandres e cavaleiro probo e formoso. Após morrer Mateo, ela se casou na França com o conde de Beaumont. Quando o riquíssimo conde de Vermandois Raul morreu, lhe sucedeu no condado seu filho ainda pequeno e excessivamente jovem para isso, e a terra de Vermandois e todo o tesouro juntado por seu pai foram confiados a um fiel seu para que o custodiasse. Este era Ivo, conde de Soissons e senhor de Nesle, homem venerável, enérgico e sábio.Os homens dos arredores do condadoe os próprios homens do conde agrediram e levaram a cabo a guerra contra o condado, mas Ivo defendeu virilmente a terra e o tesouro de seu senhor e nunca o utilizou para si mesmo, somente para a defesa da honra e da herdade de seu senhor. O jovem conde Raul caiu enfermo e logo morreu. Ao falecer o conde de Vermandois, o conde Filipe de Flandres, que tinha como esposa Isabel, irmã primogênita de Raul, obteve todo o condado de Vermandois e Le Valois. Estas possessões compreendiam: Saint-Quentin, Ribemont, Roupy, Tincourt-Boucly, Péronne, Athies, Clery-sur-Somme, Cappy, Roye, Chaunay, Thourotte, Choisy-au-Bac, Ressons-sur-Matz, Lassigny, Montdidier, o condado de Amiens, Beauquesne, cujo castelo foi construído pela primeira vez pelo conde Filipe, as homenagens de Guise e Lesquielles, de Beauvoir e de Goy-les-Groseilliers, de Ham, de Nesle, de Bray-sur-Somme, de Albert-sur-l’Ancre, de Marchais, de Villers-le-Sec, de Hangest-en-Santerre, de Pierrepont, de Boves, de Moreuil, de Picquigny, de Breteuil-sur-Noye, que o tinha Raul, conde de Clermont, de Bulles, que o possuía Guilermede Merlo, cavaleiro probo, homem nobre e vassalo enérgico, e os de Poix, de Milly, de Marle e de Vervens, que eram alódios de um homem nobre do qual já falamos, Raul de Coucy, que havia odiado o conde Filipe e não tinha acudido com o auxílio e a justiça devidas ao rei da França, e que agora os recebeu em feudo deste conde Filipe. Através de sua esposa Isabel, o conde de Flandres teve muitos outros feudos em Vermandois: a mencionada terra de Le Valois, isto é, Crepy-en-Valois, Morienval, Villers-Cotterets, Viviers, La Ferté-Milon e muitos outros bens próprios e em homenagem. Nos tempos do mesmo conde Balduíno IV, filho da condessa Yolanda, reinava na França Luís, que teve por esposa a duquesa da Aquitânia, possuindo através dela a Aquitânia e da qual teve duas filhas que deu em matrimônio a dois irmãos, ambos poderosíssimos na França, Henrique, conde de Champagne e Teobaldo, conde de Blois. Contudo, as intrigas de invejosos e pérfidos que não queriam que seu senhor, o rei da França, fosse tão poderoso a ponto de possuir toda a França e a Gasconha, conseguiram que este se divorciasse. Então, o rei Luís tomou por esposa a Constança, filha do rei da Espanha, mulher cheia de bondade, da qual teve duas filhas. Morta Constança, que foi muito chorada na França, o rei tomou Ala por terceira esposa, irmã dos já mencionados condes de Champagne e Blois, casados com suas duas filhas, irmã também do conde Estêvão e de Guilherme, que foi bispo de Chartres, arcebispo de Sens e arcebispo de Reims, e assim mesmo irmã da duquesa da Borgonha, da condessa de Bar-le-Duc e da condessa de Perche. O rei da França Luís teve um filho da rainha Ala chamado Filipe, e uma filha que contraiu matrimônio com um imperador de Constantinopla. Filipe foi um rei poderosíssimo, e teve por esposa a Isabel, filha de Balduíno V, conde de Hainaut, filho do conde Balduíno IV e da condessa Adelaide, do qual falaremos mais extensamente. Teodorico, conde de Flandres, teve filhos e filhas de sua esposa Sibila. Um deles foi Filipe, poderosíssimo conde de Flandres e de Vermandois; outro foi o conde Mateo, que através de sua esposa possuiu a Bolonha. O condado da Bolonha se encontrava sem senhor, pois quase nenhum herdeiro plausível havia surgido. Então os homens desta terra concordaram em chamar uma dama, que havia tomado o hábito e era a herdeira mais próxima, para pedir-lhe que assumisse a dignidade condal. O conde Mateo a tomou por esposa e possuiu através dela o condado da Bolonha, tendo dela duas filhas: Ida, que herdou o condado ao morrer seu pai e que esposou em primeiras núpcias Gerardo, conde de Gueldre, em segundas núpcias Bertoldo, duque de Zähringen e em terceiras a Rinaldo, conde de Dammartin, na França, e Matilde, que contraiu matrimônio com Henrique, duque de Louvain. Quando a condessa da Bolonha deu ao conde Mateo estas duas filhas, quis retomar os hábitos e regressar à Igreja, pois havia feito votos a Deus. Então, Mateo, que possuiu o condado enquanto suas filhas foram menores, tomou Aenora como segunda esposa, que era filha de Raul, conde de Vermandois, e irmã de Isabel, condessa de Flandes. O conde Mateo foi ferido mortalmente no sítio do castelo de Driencourt, na guerra entre o rei da França e o da Inglaterra. Sua viúva desposou o conde Beaumont, que também se chamava Mateo; este possuiu a terra de Le Valois, Saint Quentin e parte de Vermandois, por direito de herança, após sofrer múltiplas injúrias. O terceiro filho do conde Teodorico de Flandres foi Pedro, inicialmente bispo eleito em Cambrai e logo, como já diremos, cavaleiro. Das filhas, uma, Gertrudes, desposou primeiro o conde de Morian, depois Hugo de Oisy, homem sábio e honesto. Finalmente tomou o hábito e se consagrou a Deus no mosteiro de Messines. Outra filha se uniu somente ao Senhor, elegendo-O por esposo e tomando o hábito no mosteiro de Fontevraut. A terceira filha, Margarida, sábia e honesta, contraiu matrimônio com o conde de Hainaut, Balduíno V, filho do conde Balduíno IV e da condesa Adelaide, e dela nasceram vários filhos e filhas cuja grandeza falaremos adiante. Nos tempos de Balduíno IV, conde de Hainaut, filho da condesa Iolanda, um nobre de Brabante chamado Hugo de Enghien, devia fidelidade ao conde. Era um vavassalo poderoso, pai de quatro filhos: Gosuíno, Engeuberto, Soheri e Bonifácio. Um dia Hugo construiu na vila de Enghien uma castelo com fossos, uma muralha e uma torre, tomando-o em feudo do duque de Louvain contra a fidelidade devida ao conde de Hainaut. Por este motivo, começou uma guerra entre o conde Balduíno IV e o conde de Louvain, causa de graves danos nas terras condais. Com o passar do tempo, Balduíno V, conde de Hainaut e também conde de Flandres e marquês de Namur, filho de Balduíno IV, destruiu a fortaleza. A eleição de Frederico I Barba-Ruiva (1123-1190) Nesta mesma época, muitos reis, arcebispos, bispos, duques, condes e outros nobres, além de gentes de qualquer condição tomaram a cruz e enpreenderam o caminho até Jerusalém com o objetivo de reprimir os pagãos e ajudar os cristãos. [98] O rei de Roma, Conrado, [99] juntamente com o rei da França, Luís, e muitos príncipes da Alemanha e da França, atravessou Constantinopla e o Braço de São Jorge. Contudo, muitos levaram consigo suas esposas. No séquito também se encontravam mulheres de todas as condições. Assim, marchando de forma incorreta e injusta, não conseguiam avançar nada. [100] Conta-se daquele séquito que um dos que se encontravam ali, Frederico, duque da Suábia, [101] cavaleiro jovem, ao chegar ao sítio de Damasco, destacou-se com as armas entre todos os demais. Então faleceu o rei de Roma, Conrado, e seguindo o costume e o direito, os príncipes da Alemanha se reuniram na cidade de Frankfurt, que se encontra junto ao rio Main, para eleger seu imperador. Como não chegavam a nenhum acordo para escolher um entre tantos e tão nobres prícipes, decidiram deixar a eleição nas mãos dos quatro príncipes mais poderosos, entre os quais se encontrava o mencionado Frederico, duque da Suábia, sobrinho de rei Conrado e que florescia entre todos na cavalaria e no ânimo. Porém, todos os quatro aos quais havia sido confiada aquela eleição, desejavam alcançar a dignidade imperial. Então, Frederico com astúcia e firmeza, falou secretamente com cada um dos outros três, dizendo a todos que se confiassem a ele somente a eleição, os apoiaria para alcançar o Império. E assim os três, com o juramento, a fé e as garantias dadas, outorgaram o poder de decisão a Frederico, duque da Suábia. Quando os príncipes que haviam entregue e confiado a esses quatro a eleição se reuniram, os três primeiros declararam que cediam a decisão ao duque da Suábia. Todo mundo o olhou e ninguém se opôs. Então Frederico disse que tinha sangue imperial e que não conhecia ninguém melhor para reger o Império e que, portanto, se elegia para ocupar o cargo de suma majestade. Aqueles que os queriam se encheram de gozo. Alguns, contudo, por inveja e avareza, se lamentaram mas não puderam eleger outro. Frederico, que viera à assembléia com três mil cavaleiros armados, se dirigiu rapidamente à cidade de Spira e ali se coroou rei para que ninguém pudesse se opor. Uma vez coroado, dali se dirigiu ao palácio de Aix-la-Chapelle, de onde levou a coroa. Posteriormente, quando teve tempo, foi até Roma e recebeu a dignidade imperial. O imperador Frederico tomou por esposa uma mulher da Borgonha através da qual possuiu a cidade de Besançon e grande parte da Borgonha. Dela teve cinco filhos: Henrique, que seria imperador de Roma e rei da Sicília, [102] Frederico, duque da Suábia, Otão, conde palatino, [103] Conrado, duque de Rotenbourg e Filipe, clérigo, de cujas lendas falaremos a seguir. O imperador Frederico aumentou muito os bens do Império e com grandes esforços submeteu as cidades da Itália que se haviam rebelado à sua vontade. Em uma ocasião, quando se encontrava em guerra com a Itália, angustiado por graves dificuldades e pela morte de muitos dos seus, se dirigiu a um fiel e consanguíneo seu, o poderosíssimo Henrique, duque da Saxônio, homem selvagem e feroz, cujas riquezas e poder admiravam todos que haviam ouvido falar delas, e pediu que o auxiliasse. O Saxão negou seu auxílio e o imperador, fazendo mais do que devia, se prostrou a seus pés, mas ele se manteve perseverante em sua postura e não quis nem ouvir seu senhor nem levantá-lo de seus pés. Por todas essas injúrias contra sua pessoa, o imperador o levou a juízo e o obrigou a abjurar de todas as suas terras, juntamente com suas honras, mas como o duque, apesar de seus pecados e do crescente ódio que seus homens lhe mostravam, não era capaz de renunciar somente com suas forças a tão ampla e espaçosa terra e a tantas e tão grandes fortalezas, o imperador pessoalmente o deserdou completamente e repartiu suas terras entre muitos príncipes. No ano do Senhor de 1168, na Vigília Pascoal, o conde de Hainaut, Balduíno IV e sua esposa, a condessa Adelaide, encontrando-se em Valenciennes juntamente com suas filhas Yolanda, condessa de Soissons e senhora de Nesle, Inês, senhora de Coucy e Laureta, que já era viúva, e seus filhos Balduíno V e Henrique, o maior de todos, ordenou Balduíno cavaleiro com grande honra e alegria. Então se cumpriu plenamente o que o conde havia desejado tanto, pois desde muito tempo nunca se ouvira falar que um conde de Hainaut tivesse visto um de seus filhos feito cavaleiro, ou casado uma de suas filhas. Depois disso, Balduíno V, na segunda feira da oitava da Páscoa, foi ao torneio de Maestrich com muitos outros cavaleiros que floresciam em Hainaut naquele tempo. Ali morreu um cavaleiro paupérrimo, Walter de Honnecourt, pai de Walter. Nesses dias pascoais, o conde Balduíno IV, sua esposa e seus filhos permaneceram um tempo no palácio de Valenciennes. Era um grande palácio, com magníficas estâncias, e estavam se realizando obras para que ficasse ainda mais grandioso. Um sábado, o conde Balduíno IV e seu filho Balduíno V, o novo e probo cavaleiro, foram examinar os trabalhos em curso junto com alguns de seus cavaleiros: Balduíno de Tosny, Godofredo, chamado Tuelasne e Luís de Fraisne, homem prudente, além de outros cavaleiros e soldados. Uma das vigas que eram novas e grossas – fato ainda mais estranho – se rompeu sob seus pés e todos caíram do alto. O conde quebrou uma perna e esteve um longo tempo convalescendo. Seu filho, por outro lado, que somente deslocou uma mão, se recuperou rapidamente, e seus companheiros e outros cavaleiros que se encontravam ali receberam danos diversos e durante um tempo convalesceram. Enquanto o conde Balduíno IV se encontrava ainda se recuperando de sua lesão na perna, sua esposa Adelaide, mulher religiosíssima, submissa a Deus e generosa em esmolas, caiu enferma e entregou seu espírito ao Senhor. Seu corpo foi levado para Mons e enterrado no mosteiro de Santa Waldru, na cripta de São João Batista. O conde ordenou que o saceerdote que deveria celebrar a missa por sua alma a partir de então, recebesse quinze bonerias de terra arável no território de Nirchin. [104] O conde de Hainaut Balduíno IV, filho de Yolanda, transformou a ordem de cônegos seculares da igreja de São João Batista de Valenciennes, cuja instituição lhe pertencia em propriedade, em uma ordem de cônegos regulares, liberando-os, além disso, de seu direito de instituição e confiando o mando a um abade. Estes cônegos permaneceram próximos ao conde por suas boas obras e tiveram o favor e a familiaridade de seu filho Balduíno V e de sua esposa Margarida, que viveram com honestidade e aumentaram os bens de sua igreja. * Notas [73] Thomas le Marle foi o mais famoso dos sire de Coucy. Filho de Enguerrand I e Adélia de Marle. Sua mãe foi repudiada por seu pai, que desejava casar-se (e se casou) com Sybil (mulher de um senhor de Lorena que se encontrava ausente). Sucedeu seu pai no domínio de Coucy em 1116 e morreu em 1130. Segundo os cronistas da época, foi o homem mais malvado de sua geração, ajudado pelo demônio. Ver TUCHMANN, Barbara W. Um espelho distante. O terrível século XIV. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1990, p. 10-11. [74] Castelão = comandante da torre, do castelo, em nome de um superior que é o senhor do reino ou do condado. O castelão (castellanus) é o sire, o dominus da região. “O poder régio encontra-se plenamente em suas mãos. Mas seja o castelo independente ou não, encontra-se nele um chefe que detém a espada da justiça, o gládio confiado por Deus aos guerreiros para que mantenham a paz na Terra.” — DUBY, Georges. A Idade Média na França. De Hugo Capeto a Joana D’Arc, op. cit., p. 73. [75] O conceito nutris (nutrir) designava aqueles vassalos que eram mantidos, educados e sustentados por seu senhor, criados, educados, vestidos e alimentados por ele (daí o verbo nutrir, alimentar), função e obrigação primeira de um senhor para com os filhos de seus vassalos (e enormemente deficitária do ponto de vista econômico). [76] O termo cavaleiro vagante (gyrovagante), paralelo nobiliárquico dos monges vagantes (goliardos), se refere aos cavaleiros que participavam constantemente dos torneios, atividade execrada asperamente pelos clérigos. Ver LE GOFF, Jacques. “Realidades sociais e códigos ideológicos no início do século XIII: um exemplum de Jacques de Vitry sobre os torneios”. In: O Imaginário Medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1994, p. 267-279. [77] Frederico I Barba-Ruiva, da dinastia dos Hohenstaufen, imperador do Sacro Império Romano-Germânico de 1152 a 1190 (n. c. 1123). [78] Guilherme I, da dinastia normanda de Altavila, rei da Sicília de 1154 a 1166. [79] Imperador Henrique VI Hohenstaufen, que reinou de 1190 a 1197. [80] Frederico I Barba-Ruiva. [81] Neste caso, o termo “barão” aplica-se a todos os nobres do reino. São os nobres titulados, os senhores (condes, príncipes, duques e marqueses). [82] Possivelmente Raul I, neto de Thomas le Marle. Raul morreu na Terra Santa e sua viúva vendeu a Coucy-le-Château em 1197 seu foral de comuna livre por 140 libras. Ver TUCHMANN, Barbara W. Um espelho distante. O terrível século XIV, op. cit., p. 11. [83] Serviço de estágio = Ver nota 64 (primeira parte do texto). [84] Mãos mortas = tratava-se de uma taxa cobrada por parte do senhor aos seus camponeses e burgueses em função dos direitos de transmissão de bens com a morte de um nobre. [85] “Ela (Sibila) desposara em segundas núpcias Teodorico da Alsácia, conde de Flandres (...) o casal partiu em peregrinação para Jerusalém em 1157 (...) Sibila permaneceu na Terra Santa (...) ela morreria em 1135 no convento de São Lázaro (como freira).” - PERNOUD, Régine. A mulher nos tempos das cruzadas. Campinas: Papirus, 1993, p. 93-94. [86] Fulque (ou Foulques) de Anjou foi rei de Jerusalém entre 1131 e 1143. Ver RUNCIMAN, Steven. História das Cruzadas. Volume II: O reino de Jerusalém e Oriente franco (1100-1187). Lisboa: Livros Horizonte, 1993, p. 147-162. [87] Henrique II, rei da Inglaterra (1154-1189). [88] Trata-se de Eleonor de Aquitânia (1122-1204). Ver MEADE, Marion. Eleonor de Aquitânia. Uma biografia. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991. [89] Luís VII da França (1120-1180). [90] Ricardo, cognominado Coração de Leão, rei da Inglaterra de 1189 a 1199. [91] Trata-se de Afonso VIII, o Nobre, de Castela (1158-1214). [92] Frederico I Barba-Ruiva. [93] Filipe II, Augusto (1180-1223, n. 1165). [94] Berengária, filha do rei de Navarra Sancho VI, o Sábio (1150-1194). [95] São Tomás Becket (1117-1170). [96] Isabel de Hainaut (1170-1190), rainha da França e mãe de Luís VIII (1187-1226). [97] O conceito de vavassalo significa subvassalo, isto é, o vassalo do vassalo. Em seu sentido original — acepção empregada aqui — definia os vassalos condais, isto é, os vassalos do rei. Trata-se de um fenômeno que se difundiu a partir do século IX e está diretamente ligado à difusão da grande propriedade e da exploração do solo no domínio. Neste caso, acontecia um tipo de concessão para a exploração por parte do senhor aos vassalos e vavassalos. Ver GANSHOF, F. L. Que é o Feudalismo. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 37. [98] Trata-se da Segunda Cruzada (chamada cruzada dos reis), de 1146 a 1148. [99] Conrado III (1138-1152) Hohenstaufen. [100] Isto é, as mulheres acompanhando o exército cruzado foi um fato considerado injurioso aos olhos dos cronistas. [101] Futuro imperador Frederico I Barba-Ruiva. [102] Henrique VI Hohenstaufen, rei de 1190 a 1197, filho de Frederico I Barba-Ruiva. [103] O termo palatino era dado a todos que viviam em contato direto com o rei, ou seja, no palácio. Assim, havia servidores palatinos, nobres, clérigos e até servos. Eles constituíam a sua mesnada. O conde palatino no Sacro Império tinha esse título em alusão aos condes do palácio da época merovíngia e carolíngia. Entre os séculos X e XII, os condes palatinos julgavam os casos reais em alguns ducados do Império, Saxônia, Baviera, Caríntia, Suábia, Lorena, herdando também as funções dos missi dominici e controlando a administração dos domínios imperiais. Em geral, os condes palatinos residiam em um dos palácios do imperador situados em ducados para onde tinham sido enviados. No século XII, quando a autoridade imperial foi praticamente anulada pelos grandes vassalos, as funções dos conde palatinos foram subjugadas pelas dinastias locais. Sobreviveu apenas o conde palatino da Lorena, que se transformou em palatino do Reno (Pfalzgraf). Ver MOURRE, Michel. Dictionnaire d'histoire universelle. Paris, Ed. Universitaires, s/d. [104] Boneria = medida de terra equivalente a um quarto de acre. |
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