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História dos Francos (c. 591)
Gregório de Tours (c. 540-594)
Aqui começa o Primeiro Prefácio
O culto das belas letras está em decadência e morre nas cidades da Gália. Enquanto as boas e as más ações se realizam, a barbárie dos povos se desencadeia, redobra o furor dos reis, as igrejas são atacadas pelos heréticos e protegidas pelos católicos, a fé do Cristo torna-se mais ardente entre muitos, mas indiferente entre outros, as igrejas enriquecem pelos devotos e são despojadas pelos infiéis, não podemos encontrar um único letrado bastante versado na arte da dialética para descrever tudo isso em prosa ou em versos métricos.
Freqüentemente muitos se lamentam, dizendo: “Maldita a nossa época, pois o estudo das letras está morto entre nós, e não encontramos no povo ninguém capaz de relatar por escrito os acontecimentos presentes”. Assim, como eu não cessava de escutar essas reflexões e outras semelhantes, disse a mim mesmo que, para que a lembrança do passado se conservasse, ela devia chegar ao conhecimento dos homens que estão por vir, mesmo sob uma forma grosseira. Eu não posso calar os conflitos dos medíocres nem a vida daqueles que vivem honestamente. Eu fui, sobretudo, estimulado, porque freqüentemente escutei dizer em meu círculo, para minha surpresa, que poucos compreendem um retórico a filosofar, mas muitos um rústico a falar. Quanto ao cálculo dos anos, eu decidi tomar o começo do mundo por ponto de partida do Livro Primeiro, ao qual indiquei abaixo os capítulos.
Começo (do quadro) dos capítulos
do Livro Primeiro
I. Adão e Eva
II. Caim e Abel
III. Enoch, o justo
IV. O Dilúvio
V. Chus, inventor da idolatria
VI. Babilônia
VII. Abraão e Ninus
VIII. Isaac, Esaú, Jó e Jacó
IX. José no Egito
X. A travessia do Mar Vermelho
XI. O povo no deserto e Josué
XII. Cativeiro do povo de Israel e as gerações até Davi
XIII. Salomão e a construção do Templo
XIV. Divisão do Reino de Israel
XV. Cativeiro da Babilônia
XVI. Natividade do Cristo
XVII. Os diversos reinos das nações
XVIII. Em que época Lyon foi fundada
XIX. Presentes dos magos e morte dos bebês
XX. Milagres e paixão do Cristo
XXI. José que se esconde
XXII. Tiago, o apóstolo
XXIII. Dia da ressurreição do Senhor
XXIV. Ascensão do Senhor e morte violenta de Pilatos e de Herodes
XXV. Paixão dos apóstolos e Nero
XXVI. Tiago, Marcos e João, o evangelista
XXVII. Perseguição sob Trajano
XXVIII. Adriano; invenções dos heréticos; paixão de São Policarpo e de
Justiniano
XXIX. São Potino, Irene e os outros mártires de lyoneses
XXX. Dos sete homens que foram enviados à Gália para pregar
XXXI. A Igreja de Bourges
XXXII. Crocus e o templo de Auvergne
XXXIII. Os mártires que foram supliciados em Auvergne
XXXIV. São Privado, mártir
XXXV. Cerin, bispo e mártir
XXXVI. Natividade de São Martinho e invenção da cruz
XXXVII. Jacques, bispo de Nisibis
XXXVIII. Morte de Antônio monge
XXXIX. Vinda de São Martinho
XL. A matrona Melanie
XLI. Morte violenta do imperador Valente
XLII. Reino de Teodoro
XLIII. Morte violenta do tirano Máximo
XLIV. Urbicus, bispo de Auvergne
XLV. São Hilídius, bispo
XLVI. Os bispos Nepotiano e Artemius
XLVII. Castidade de (dois) amantes
XLVIII. Morte de São Martinho
Fim do quadro dos capítulos do Livro I.
Em nome do Cristo, começo do Livro
Primeiro das Histórias
Antes de descrever as lutas dos reis com as nações adversárias,
dos mártires com os pagãos, das igrejas com os heréticos, eu desejo confessar
minha fé, para que aquele que me leia não duvide que sou católico. Eu
quis também, para aqueles que se desesperam com a aproximação do fim do
mundo, indicar claramente o número de anos que escorre desde o começo
do mundo, recolhendo nas crônicas e histórias um resumo dos fatos passados.
Mas antes, eu suplico aos leitores que me desculpem se nas cartas e nas
sílabas me acontece de transgredir as regras da arte da gramática, pois
não as possuo plenamente.
Meu único cuidado é reter sem nenhuma alteração nem hesitação
do coração aquilo que nos ordena acreditar na Igreja, pois sei que aquele
que se tornou culpado de pecados pode obter o perdão de Deus pela pureza
de sua fé.
Assim, eu acredito em Deus Pai Todo-Poderoso. Eu acredito
em Jesus Cristo, seu filho único, Nosso Senhor nascido do Pai, que não
foi engendrado, que sempre existiu com o Pai, não no tempo, mas antes
do tempo, pois o Pai não poderia ser assim designado se ele não tivesse
tido um Filho e este também não seria um filho se ele não tivesse um Pai.
Quanto àqueles que dizem: “Foi um tempo onde não existia ainda”, eu os
renego com execração e declaro que eles estão excluídos da Igreja. Eu
acredito que o Cristo é o Verbo do Pai por quem todas as coisas foram
criadas. Eu acredito que esse Verbo foi feito carne, que o mundo foi redimido
por sua Paixão e acredito que foi Sua humanidade e não Sua divindade quem
sofreu a Paixão. Eu acredito que Ele ressuscitou no terceiro dia, que
libertou o homem que estava perdido, que subiu aos céus, que está sentado
à direita do Pai e voltará e julgará os vivos e os mortos.
Eu acredito que o Espírito Santo procedeu do Pai e do
Filho, que não lhes é inferior, que não é verdade que não tenha existido
antes, mas que é igual a ambos, e que, sempre coeterno com o Pai e o Filho,
é Deus, estando consubstancial em natureza com eles, igual a eles por
sua todo-poderosa, sempiterna como eles em sua essência, que não foi jamais
sem o Pai nem o Filho e que não é inferior nem ao Pai nem ao Filho. Eu
acredito que essa Trindade Santa subsiste com Suas Pessoas distintas,
que uma é a Pessoa do Pai, outra do Filho e outra do Espírito Santo. Eu
confesso que nessa Trindade há apenas uma única Divindade, uma única Potência,
uma única Essência. Eu acredito que a bem-aventurada Maria permaneceu
virgem após sua concepção como ela o era antes, e acredito fielmente
em tudo o que foi instituído em Nicéia por 318 bispos.
Quanto ao fim do mundo, eu penso como aprendi dos antigos
que antes virá o Anticristo. Pois o Anticristo instituirá antes a circuncisão
pretendendo ser o Cristo, pois ele colocará no templo de Jerusalém sua
estátua para que o adoremos como o Senhor o disse. Nós leremos: “Vós vereis
a abominação da desolação se instalar no lugar santo”. Mas esse dia permanece
ignorado de todos os homens. O Senhor mesmo declara, quando diz: “Ninguém
sabe nada desse dia, nem dessa hora, nem mesmo os anjos dos céus, nem
o Filho, salvo somente o Pai”. Sobre isso nós responderemos aos heréticos
que nos atacam, pretendendo que o Filho é inferior ao Pai, pois Ele ignora
esse dia. Que eles saibam, pois, que essa palavra Filho designa o povo
cristão de quem Deus profetizou: “Eu serei para eles um pai, e eles serão
para mim filhos”. Se a predição fosse aplicada ao Filho único, jamais
Deus teria colocado os anjos antes Dele. Ele disse, com efeito: “Nem os
anjos dos céus, nem o Filho, para mostrar que ele não falava do Filho
único, mas do povo adotivo”. Nosso fim é o Cristo, ele mesmo, que nos
dará a vida eterna com uma larga bem-aventurança, se nos convertermos
a Ele.
Quanto à cronologia desse mundo, as Crônicas de Eusébio,
bispo de Cesaréia, e de padre Jerônimo, expõem claramente, apresentando
um cálculo de toda a série dos anos. Por sua vez, Horósio, que fez pesquisas
muito diligentes, reuniu em um volume a cronologia completa, desde o começo
do mundo até o seu tempo. Victorius , também fez a mesma coisa, assim
como uma pesquisa sobre a data das solenidades da Páscoa. Seguindo os
exemplos dos escritores pré-citados, nós nos propomos, se o Senhor condescender-nos
e nos prestar Seu socorro, de calcular todo o conjunto dos anos, desde
a criação do primeiro homem até o nosso tempo. Assim, nós chegaremos mais
facilmente se começarmos pelo próprio Adão.
I. No começo, o Senhor formou o céu e a terra
em seu Cristo, que é o princípio de todas as coisas, isto é, em Seu Filho,
e, após a criação de todos os elementos do mundo inteiro, Aquele, pegando
uma porção frágil de limo, fabricou um homem à Sua imagem e à Sua semelhança
e soprou o sopro de vida sobre a face desse homem que se tornou assim
uma alma vivente. Enquanto ele dormia, uma costela lhe foi retirada, uma
mulher. Eva foi criada. Não é duvidoso que esse primeiro homem, Adão,
prefigurou antes de pecar o Senhor redentor. O próprio Senhor, quando
dormiu durante a Paixão, e de seu lado corria água e sangue, simbolizou
a Igreja virgem e imaculada, redimida pelo sangue e purificada pela água,
essa Igreja, que não tem mais esforço nem ferrugem, porque por seu esforço
ela foi lavada nas águas por causa da ferrugem estendida sobre a cruz.
Pois, esses primeiros homens, que viveram felizes no
meio das graças do Paraíso, seduzidos por uma astúcia de serpente, transgrediram
os preceitos divinos e, expulsos de sua morada angelical, foram entregues
aos sofrimentos do mundo.
II. Tendo conhecido seu companheiro, a mulher
concebeu e deu a luz a dois filhos. Mas enquanto Deus acolheu favoravelmente
o sacrifício de um dos dois, o outro se encheu de um ciúme ardente e,
primeiro parricida, se dirigiu para retomar o sangue fraternal; ele atacou
seu irmão, bateu-lhe, matou-lhe.
III. Desde então, a raça inteira está violentada para
uma criminalidade execrável, à exceção de Enoch, o justo, que, andando
nas vias de Deus, foi adotado por causa de sua honestidade pelo próprio
Senhor, que o arrancou do meio do povo pecador. Nós lemos, com efeito,
isto: “Enoch foi com Deus e desapareceu porque Deus o levou.”
IV. O Senhor, irritado com as iniqüidades do povo
que não andava sob seus traços, provocou o dilúvio e destruiu todos os
seres vivos da superfície da Terra que inundou esse dilúvio. Só Noé, que
lhe era muito fielmente ligado, e que representava um exemplar de seu
modelo divino, foi salvo numa arca com sua própria mulher e aqueles seus
três filhos para que sua posteridade fosse continuada.
Aqui os heréticos nos criticam, nos perguntando por que
a Escritura Santa disse que Deus se colocou em cólera. Que eles saibam,
pois, que nosso Deus não se coloca em cólera como um homem. Ele fica descontente
para nos amedrontar, nos persegue para nos chamar à ordem, se coloca em
cólera para nos corrigir. Mas eu não hesito em pensar que esta espécie
de arca simbolizava a mãe Igreja. Ela também, com efeito, vagava no meio
das torrentes e dos rochedos deste século, nos acolhendo em seu seio maternal,
seu piedoso abraço e sua proteção nos defendem contra os males que nos
ameaçam.
De Adão até Noé nós contamos dez gerações: Adão, Set,
Enos, Cainã, Malaleel, Jared, Enoch, Matusalém, Lamech, Noé. Durante essas
dez gerações, 2.242 anos escorreram. Adão foi enterrado na terra dos Enacim,
que foi antes nomeada Hebron, como indica claramente o Livro de Josué.
V. Noé tinha antes do Dilúvio três filhos:
Sem, Cham e Jafé. Povos saíram de Jafé assim como de Cham e de Sem e,
como conta a história antiga, é por eles que o gênero humano se disseminou
sob todos os céus. O filho primogênito de Cham foi Chus. Este foi o primeiro
inventor da arte da magia e da idolatria que lhe ensinou o diabo. Primeiro
ele elevou, à instigação do diabo, um ídolo destinado a ser adorado; ele
mostrou também aos homens um pretendido milagre das estrelas e do fogo
caindo do céu. Ele retornou junto aos persas e os persas o denominaram
Zoroastro, isto é, a estrela viva. Preparados assim por ele para adorar
o fogo, estes o adoram mesmo como um deus que um fogo divino teria consumido.
VI. Como os homens se multiplicando se dispersaram
por toda a terra, eles descobriram ao sair do Oriente a planície verdejante
de Sennaar, onde, edificando uma cidade, eles tentaram construir uma torre
para tocar os céus. Mas Deus os confundiu, por sua vez, em sua vã pretensão
e, em sua língua, dispersando o mundo sobre uma vasta extensão através
de toda a terra, e o nome que se chamava a cidade era Babel, isto é, confusão,
porque Deus aí teria confundido suas línguas. Babilônia foi edificada
por Nemrod, o gigante, filho de Chus. Ela estava disposta, como conta
a História de Orósio, em forma de quadrados, em uma planície admirável.
Suas muralhas, de pedra argilosa e de barro cozido, revestidas
de betume, tinham cinqüenta cúbitos de largura, duzentos cúbitos de altura
e 470 estádios de torno. Um estádio mede cinco arependis, havia vinte
e cinco portas de cada lado, o que perfazia (um total de) cem portas.
Os batentes dessas portas, de uma grandeza extraordinária, eram de bronze
fundido. O mesmo historiógrafo conta bem outras coisas sobre essa cidade
e acrescenta: “Apesar dessa magnificência de edifício, ele foi arruinado
e demolido”.
VII. O filho primogênito de Noé foi Sem. Abraão
é seu descendente na décima geração. Essas gerações são: Noé, Sem, Arphaxad,
Salé, Héber, Falech, Rheu, Saruc, Tharé, que engendrou Abraão. Durante
essas dez gerações, a saber, de Noé até Abraão, se conta 942 anos. Nesse
tempo reinava Ninus, que edificou a cidade de Ninus, que se chama Nínive.
O profeta Jonas avaliou o comprimento de seu perímetro em três jornadas
de marcha. Foi no quadragésimo-terceiro ano de seu reinado que nasceu
Abraão. Esse Abraão é o princípio de nossa fé. Ele recebeu as promessas.
O Cristo Nosso Senhor lhe revelou que nasceria e sofreria
por nós operando uma mudança de vítima; ele próprio disse assim nos Evangelhos:
“Abraão sobressaltou-se por ver meu dia; ele o viu, ele se rejubilou”
. Esse holocausto foi oferecido sob o monte Calvário, onde o senhor foi
crucificado, conta Sulpício Severo em sua Crônica, e ainda a opinião
corrente, na própria cidade de Jerusalém. Sob esse monte se estabeleceu
a cruz santa, a qual o Redentor foi pregado e da qual seu sangue bem-aventurado
correu.
Esse Abraão recebeu o sinal da circuncisão para mostrar
que o que ele operou em seu corpo nós devemos suportar em nosso coração,
como disse o profeta: “Circuncisai-vos para vosso Deus, e circuncidais
o prepúcio de vosso coração, e não seguireis os deuses estrangeiros”.
Depois, ainda: “Todos aqueles que não tiverem o coração circuncidado não
entrarão em meu santuário”. Deus denominou Abraão o pai de numerosas nações
após ter juntado uma sílaba a seu nome.
VIII. Quando esse último fez cem anos, engendrou
Isaac. Depois, Isaac teve em sexagésimo ano dois filhos gêmeos de Rebeca.
O primeiro foi Esaú ou Edom, isto é, o Camponês, que por glutonaria vendeu
sua primogenitura. É o pai dos idumeus, dos quais saiu Jobab na quarta
geração. Ele teve Esaú, Raguel, Zara, Jobab ou Jó. Esse último viveu 249
anos; ele estava no seu octogésimo-nono ano quando ele foi libertado de
sua enfermidade. Após sua cura ele viveu 170 anos, todos os seus bens
lhe foram restituídos em dobro e teve a alegria de ter tantos filhos quantos
tinha perdido.
IX. O segundo foi Jacó. Jacó, o preferido de Deus,
como ele disse pela boca do profeta: “Eu amei Jacó, mas odiei Esaú”. Depois
de sua luta com o anjo, Jacó foi chamado Israel, e dele saíram os israelitas.
Ele engendrou doze patriarcas: Rubens, Simão, Levi, Judá, Issachar, Zabulon,
Dan, Naphatali, Gad, Asser. Depois eles engendraram José de Rachel quando
ele estava no nonagésimo segundo ano de sua idade. Ele amou este último
mais que seus outros filhos. Ele teve ainda dela Benjamin, o último de
todos. Quando José tinha a idade de dezesseis anos, ele, que prefigurava
o Redentor, teve sonhos que relatou a seus irmãos: parecia-lhe que ligava
feixes de trigo e que seus irmãos adoravam o seu, e outra vez que
o Sol e a Lua, assim como onze estrelas, avançavam diante dele. Essa coisa
provocou junto a seus irmãos um grande ódio contra ele. Inflamados de
ciúme, eles o venderam por trinta peças de prata aos ismaelitas, que iam
ao Egito.
Na iminência de uma fome, no momento em que eles desciam
ao Egito, eles foram reconhecidos por José, mas eles não reconheceram
José. Finalmente, ele se fez conhecer a eles depois de tê-los submetido
a numerosas provas, e quando trouxeram Benjamin, pois este último também
nascera de Rachel, sua mãe. Depois desses acontecimentos, todos os israelitas
desceram ao Egito, e por intermédio de José gozaram do favor do faraó.
Quanto a Jacó, depois de ter abençoado seus filhos, morreu no Egito e
foi enterrado por José no sepulcro de seu pai na terra de Canaã. Após
a morte de José e do faraó, toda a raça foi reduzida à servidão. Ela foi
libertada por Moisés depois das dez pragas do Egito, quando o faraó desapareceu
no Mar Vermelho.
X. Como muitos falaram dessa travessia do mar,
pareceu-me que devia inserir neste resumo alguns detalhes sobre o sítio
deste reino e sobre a própria travessia. O Nilo corre através do Egito
como vós o sabeis perfeitamente, e ele o irriga no seu curso, e é por
isso que os egípcios são chamados também habitantes do Nilo. Numerosos
visitantes desses lugares dizem que suas margens são agora cheias de monastérios
sagrados. Sobre a margem desse rio está situada não a Babilônia que nós
evocamos acima, mas a cidade de Babilônia, na qual José edificou, com
uma arte admirável, silos em pedras de cantaria e em pedra não-talhada.
Eles são muitos largos na base, mas estreitos no topo, de sorte que o
trigo aí é introduzido por uma pequena abertura. Esses silos se vêem ainda
hoje.
Foi desta cidade que o rei se dirigiu em perseguição
aos hebreus com exércitos de carros e uma numerosa tropa a pé. O rio dito
acima, que vem do Oriente, vai à direção do Ocidente para o mar Vermelho;
mas à Ocidente, se destaca um lago ou um braço do Mar Vermelho. Ele corre
em face de oeste em torno de cinqüenta milhas de comprimento e dezoito de
largura. Na extremidade deste lago, a cidade de Clysma foi edificada não
por causa da fertilidade do lugar, pois ele não é dos mais estéreis, mas
pela comodidade de seu porto, aonde os navios que vinham da Índia aí
paravam e de onde as mercadorias compradas são encaminhadas através de
todo o Egito.
Os hebreus, que através do deserto se dirigiam em direção
ao lago, chegavam até o dito mar e aí descobriram a água doce, eles aí
acamparam. É nesse lugar, que está limitado por sua vez pelo deserto e
o mar, que eles pararam como está escrito: “Faraó, sabendo que o mar e
o deserto os tinham cercado e que eles não tinham solução para poder avançar,
marchou em sua perseguição”. À aproximação dos egípcios, Moisés, que o
povo tinha aclamado, jogou, sob a ordem da divindade, uma vara sob o mar,
que se dividiu, e eles marcharam no seco e, protegidos de todos os lados,
como disse a Escritura, por uma muralha de água chegaram direito, são
e salvos, até a margem que está ao pé do monte Sinai, sob a condução de
Moisés, enquanto os egípcios se afogaram.
Contou-se muitas coisas sobre essa travessia, como eu
disse, mas nós nos reservamos a não reproduzir nesta página apenas os
fatos que nós obtivemos de pessoas competentes e de uma maneira certa
de homens que foram àqueles lugares. Eles contam também que os sulcos
que foram feitos pelas rodas dos carros permanecerem até os nossos dias
e que são discerníveis no fundo da água tanto quanto o olhar aí possa
penetrar. A agitação do mar os esconde um pouco; mas logo que ele se acalma
eles reaparecem de novo miraculosamente tais como eles eram.
Outros dizem que depois de terem feito um pequeno circuito
através do mar, os hebreus teriam voltado à mesma margem de onde tinham
partido. Outros ainda afirmam que a entrada no mar foi a mesma para todos,
mas no dizer de alguns, cada tribo viu se abrir sua via própria; eles
interpretaram abusivamente o testemunho dos Salmos: “Ele dividiu o Mar
Vermelho em sendas”. Nós precisamos interpretar estas sendas num sentido
espiritual e não ao pé da letra. Há, com efeito, neste século, que chamou
ao figurado um mar, muitas “sendas”. Todos os homens não podem uniformemente,
nem seguindo o mesmo caminho, chegar à vida eterna.
Uns, com efeito, a alcançam na primeira hora; são aqueles,
que, nascidos de novo pelo batismo, podem perseverar sem ser maculados
por todos os pecados da carne até o fim da vida presente. Outros a alcançaram
na terceira hora; são aqueles que, em sua maioria, se converteram; outros
à sexta; são aqueles que reprimem os ardores da luxúria. É, pois, a essas
diferentes horas, como expôs o evangelista, que eles são conduzidos à
obra da vinha do Senhor segundo sua fé pessoal. Tais são as sendas pelas
quais se atravessa esse mar.
Quanto à assertiva segunda a qual os hebreus chegados
até o mar e teriam retornado para ocupar a margem do lago, é uma alusão
ao que o Senhor disse a Moisés: “No seu retorno, que eles acampem na região
de Phiairoth, que é entre Magdal e o mar frente a Beelsephon”. Não é duvidoso
que essa passagem do mar e a coluna de nuvens simbolizam nosso batismo,
assim como disse o bem-aventurado apóstolo Paulo: “Eu não quero vos deixar
ignorar, irmãos, que nossos pais foram todos sob uma nuvem que todos foram
batizados sob a condução de Moisés no meio da nuvem e do mar”. Quanto
à coluna de fogo, ela prefigurou o santo espírito. Da natividade de Abraão
até a saída do Egito dos filhos de Israel e a passagem do Mar Vermelho,
que teve lugar no octogésimo ano de Moisés, conta-se um número de quatrocentos
e sessenta de dois anos.
XI. Em seguida, durante quarenta anos, os israelitas
habitaram o deserto. Eles foram instruídos nas leis e foram alimentados
de alimentos angélicos. Em seguida, depois de ter recebido a lei e atravessado
o Jordão com Josué, eles obtiveram a terra prometida.
XII. Após sua morte, enquanto eles desprezaram os preceitos
divinos foram freqüentemente submetidos ao jugo dos povos estrangeiros.
Mas, convertendo-se, eles sofreram, e com o socorro de Deus eles foram
libertados pelos braços dos homens fortes. Depois disso, eles pediram
ao Senhor, por intermédio de Samuel, um rei como as outras nações; eles
receberam primeiro Saul, depois David. Assim, de Abraão até David
houve quatorze gerações: Abraão, Isaac, Jacó, Judá, Pharis, Esdrom, Aram,
Aminadab, Naasson, Salma, Booz, Obeth, Jessé, David; Davi engendrou, por
sua vez, de Betsabé a Salomão. Este último foi elevado ao trono pelo profeta
Nathan, por seu irmão e por sua mãe.
XIII. Depois da morte de David, quando seu filho
começou a reinar, o Senhor lhe apareceu e prometeu-lhe concordar com o
que ele pedisse. Mas ele, desdenhando as riquezas terrestres, pediu, de
preferência, a sabedoria. Isto agradou ao Senhor assim que o escutou:
“Você não buscou os reinos do mundo, nem suas riquezas, mas você buscou
a sabedoria; recebei-a, pois. Antes de você não houve ninguém que fosse
tão sábio e após você não haverá.” É o que se provou em seguida no julgamento
que ele pronunciou em um litígio entre duas mulheres a respeito de uma
criança. Salomão edificou um templo admirável ao Senhor; empregou muito
ouro e prata, bronze e ferro, de sorte que alguns diziam que jamais semelhante
edifício tinha sido construído no mundo.
Da saída do Egito dos filhos de Israel até a construção
do templo, que teve lugar durante o sétimo ano do reino de Salomão, contam-se
quatrocentos e oitenta anos do testemunho da história dos reis.
XIIII. Depois da morte de Salomão o reino foi
dividido em duas partes por causa da duração de Roboão. Duas tribos ficaram
com Roboão; chamavam-nas Judá. A Jeroboão adveio dez tribos que foram
denominadas Israel. Depois disso, eles (os judeus) caíram na idolatria
e nem as prédicas dos profetas, nem seus próprios males, nem os desastres
da pátria, nem a queda de seus reis, os corrigiram.
XV. Finalmente o Senhor, irritado, incitou contra
eles Nabucodonosor, que os levou em cativeiro à Babilônia com tudo o que
decorava o templo. Durante esse cativeiro, Daniel, profeta eminente, que,
cercado de leões famintos, não tinha sofrido nenhum ferimento, e três
crianças, que tinham escapado do meio das chamas vivas, partiram cativas.
Foi também durante esse cativeiro que Ezequiel profetizou e nasceu o profeta
Esdras.
Desde David até a destruição do templo e o cativeiro
da Babilônia, houve catorze gerações: David, Salomão, Roboão, Abia, Asa,
Josafá, Joram, Ozias, Joatham, Achaz, Ezequiel, Manassés, Amon e Josias.
Durante essas catorze gerações conta-se um número de trezentos e noventa
anos . E eles (os judeus) foram libertos desse cativeiro por Zorobabel,
que restaurou, em seguida, o templo e a cidade. Esse cativeiro é, eu o
penso, o símbolo do cativeiro na qual é conduzida a alma pecadora e onde
ela será horrivelmente exilada, se Zorobabel, isto é, o Cristo, não libertá-la.
O próprio Senhor, com efeito, disse no Evangelho: “Quando
o Filho vos tiver libertado, vós sereis livres.” Que se preparem então
em nós um templo onde ele condescenderá habitar, um templo onde a fé luzirá
como ouro, onde a eloqüência da predicação resplandecerá como a prata,
onde todos os ornamentos desse templo visível brilham graças à pureza
de nossos sentimentos. Que à nossa boa-vontade ele condescenda consentir
um efeito salutar, pois “se não é ele que terá edificado a morada, é em
vão que trabalharão aqueles que a quiseram edificar”. Diz-se que esse
cativeiro durou setenta anos.
XVI. Tendo retornado graças a Zorobabel, como
nós o dissemos, logo eles murmuraram contra Deus, logo eles se jogaram
aos pés dos ídolos e imitaram as abominações que praticavam os gentios.
Pois, enquanto desprezavam os profetas de Deus, eles foram entregues aos
gentios, colocados sob o jugo, massacrados até que o próprio Senhor, prometido
pela voz dos patriarcas e dos profetas, desceu no seio da Virgem Maria
por intermédio do Espírito Santo, condescendendo nascer para a redenção
tanto desta nação quanto de todas as nações.
Desde a transmigração até a natividade do Cristo, houve
catorze gerações: Jechonias, Salathiel, Zorobabel, Abiúde, Eliacim, Azor,
Sadoc, Joachim, Eliud, Eleazarde, Mathan, Jacó, José, esposo de Maria,
de quem Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu, e da qual José conta como a
décima quarta.
XVII. Para não ter o ar de conhecer que existe
somente o povo hebreu, lembremos os outros reinos e em que tempo da história
dos israelitas eles existiram: no tempo de Abraão, Ninus reinava sobre
os assírios, Europa sobre Sycione ; em relação aos egípcios, era o décimo
sexto governo que em sua língua eles chamavam dinastia. No tempo de Moisés,
junto aos Argians, reinava Tropas, seu sétimo rei; na Ática, Cécrops,
o primeiro rei ; junto aos egípcios Cencris, o décimo segundo, aquele
que foi afogado no Mar Vermelho; junto aos assírios, Agatad, o décimo
sexto; junto aos Sicionianos, Marate.
No tempo de Salomão, quando ele reinava sobre Israel,
entre os latinos reinava o quinto rei, Sylvios; entre os lacedemônios,
Festus; em Corinto, o segundo rei, Óxion; entre os egípcios, os tebanos
reinavam desde 126; entre os assírios reinava Eutrope; entre os atenienses,
o décimo rei, Agasate.
No tempo em que Amon reinava sobre Judá, quando o povo
partiu em cativeiro para a Babilônia, Argeu reinava sobre os macedônios,
Gygès sobre os lídios, Vafrés sobre os egípcios; na Babilônia era Nabucodonosor,
que os trouxera em cativeiro, entre os romanos, o sexto rei, Servius.
XVIII. Depois desses personagens, Júlio César
foi o primeiro imperador que obteve o poder monárquico sobre todo o império.
O segundo foi Otávio, sobrinho de Júlio César, que chamamos Augusto. É
dele que o mês de agosto tirou seu nome. É durante o décimo nono ano de
seu reino que Lyon foi fundada nas Gálias, como nós descobrimos de uma
maneira muito certa. Essa cidade foi em seguida ilustrada e muito belamente qualificada com o sangue dos mártires.
XIX. No quadragésimo terceiro ano do reino
de Augusto, Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu pela carne, como nós o dissemos,
da Virgem Maria em Belém, fortaleza de David. Vendo do lado do Oriente
uma grande estrela, magos vieram com presentes e modestamente adoraram
a criança, oferecendo seus presentes. Herodes, ciumento de sua realeza
e se esforçando para perseguir o Cristo Deus, colocou as crianças à morte.
Ele próprio também foi atingido em seguida pela justiça divina.
XX. Pois enquanto o Senhor nosso Deus, Jesus Cristo,
pregava a penitência, distribuindo a graça do batismo, prometendo o reino
celeste a todas as nações, operando prodígios e milagres entre as populações,
transformando água em vinho, fazendo desaparecer as febres, dando a luz
aos cegos, devolvendo a vida aos homens enterrados, libertando os possuídos
dos espíritos imundos, curando os leprosos que tinham vergonha de sua
pele miserável, e, enquanto realizava ainda muitos outros milagres, mostrando
às populações da maneira mais manifesta que ele era seu Deus, a cólera
se acendeu entre os judeus, seu ciúme se desencadeou e seu espírito, alimentado
do sangue dos profetas, trabalhou criminosamente preparando a morte do
Justo.
Também para que fossem cumpridos os oráculos dos velhos
profetas, ele foi traído por um discípulo, condenado pelos pontífices,
ridicularizado pelos judeus, crucificado com criminosos e depois de ter
entregue a alma, guardado pelos soldados. Essas coisas acontecidas, as
trevas se espalharam pelo mundo inteiro e muitos que tinham se convertido
gemendo confessaram-se a Jesus, filho de Deus.
XXI. Prendeu-se também José que, após o ter embalsamado,
o tinha enterrado em seu próprio sepulcro. José foi fechado em uma cela
e guardado pelos príncipes dos próprios padres que tinham, como o relatam
os atos de Pilatos endereçados ao imperador Tibério, mais de animosidade
contra ele que contra o próprio Senhor. Ele também estava guardado pelos
próprios padres enquanto que este o foi por soldados. Mas quando o Senhor
ressuscitou enquanto os guardas estavam alarmados por uma visão angélica
e não se encontravam na tumba, as paredes da cela na qual José estava
detido suspenderam-se no ar durante a noite e ele foi libertado da prisão
por um anjo que o descobriu, depois os muros foram colocados no lugar.
Como os pontífices culpavam os guardas eles reclamavam com insistência
o corpo santo, os soldados disseram-lhe: “Devolvei-vos vós mesmos José,
nós devolveremos o Cristo; mas, dizendo a verdade, vós não sois mais capazes
de devolver o benfeitor de Deus que nós o filho de Deus”. Os tendo assim
confundidos, os soldados foram liberados sob essa desculpa.
XXII. Relata-se que quando o apóstolo Tiago viu o Senhor
já morto sobre a Cruz, teria atestado e jurado que não comeria pão até
contemplar o Senhor ressuscitado. Também quando no terceiro dia o Senhor
voltou após ter vencido triunfalmente o Tártaro, ele se mostrou a Tiago
e disse: “Levantai Tiago, come, porque eu ressuscitei dentre os mortos”.
Esse personagem Tiago, “O Justo” se chama o “irmão do Senhor” porque era
filho de José, que o tinha engendrado de outra mulher.
XXIII. Nós acreditamos que o domingo da ressurreição
teve lugar no primeiro dia (da semana) e não no sétimo, como muitos pensam.
É o dia da ressureição do Nosso Senhor Jesus Cristo que nós chamamos precisamente
domingo, por causa da santa ressurreição. Foi o primeiro dia que viu a
luz no começo do mundo, e foi o primeiro que mereceu contemplar o Senhor
ressuscitando da tumba.
Desde o cativeiro de Jerusalém e a destruição do Templo
até a Paixão do Nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, até o décimo sétimo
ano de Tibério, conta-se 668 anos.
XXIV. O Senhor ressuscitado se entreteve durante
quarenta dias com seus discípulos do reino de Deus. Diante seus olhares
Ele foi levado numa nuvem e subiu aos céus onde está sentado gloriosamente
à direita do Pai. Quanto a Pilatos, ele enviou seus atos a Tibério César
e fez um resumo tanto dos milagres do Cristo quanto de sua paixão e de
sua ressurreição. Esses atos nos são hoje conservados. Disso fez Tibério
um resumo aos senadores, mas o Senado os rejeitou com indignação porque
eles não lhe tinham sido endereçados em primeiro lugar. É daí que os primeiros
germes do ódio contra os cristãos se multiplicaram.
Entretanto, Pilatos não permaneceu impune por sua maldade
criminosa, o assassinato que cometeu contra Nosso Senhor Jesus Cristo:
ele se matou com as próprias mãos. Muitos acreditam que ele foi maniqueísta,
baseando-se nessa frase que se lê no Evangelho: “Vários vieram dentre
os galileus, para lhe anunciar que Pilatos tinha misturado seu sangue
àquele de seus sacrifícios”. Da mesma maneira, o rei Herodes, enraivecido
contra os apóstolos do Senhor, foi atingido pela vontade divina por todos
os seus crimes. Intumescido e cheio de vermes, ele pediu uma faca para
curar seu mal e achou a liberdade golpeando-se com sua própria mão.
XXV. O bem-aventurado apóstolo Pedro chegou a
Roma sob o imperador Cláudio, o quarto desde Augusto. Ali ele pregou e
provou por numerosos milagres, da maneira mais evidente, que o Cristo
é o Filho de Deus.
Foi desde essa época que começou a existir cristãos na
cidade de Roma. Pois, como o nome do Cristo se espalhava cada vez mais
através das populações, o ciúme da antiga serpente se levantou contra
Ele e em todas as entranhas o imperador Nero, este debochado, vão e soberbo.
Esse súcubo se entregava aos homens ao mesmo tempo em que os desejava; ele,
que violou sua mãe da maneira mais imunda, suas irmãs e todas as mulheres
de sua corte, atingiu o ápice de sua malícia atacando primeiro o culto
do Cristo e desencadeando uma perseguição contra os crentes.
Ele tinha ao seu lado Simon, o mágico, homem cheio de
crueldade e antigo mestre em toda a arte da magia. Esse personagem tinha
sido expulso pelos apóstolos do Senhor, Pedro e Paulo. Furioso porque
eles pregavam o Cristo filho de Deus e desdenhavam a adoração dos ídolos,
Nero fez Pedro perecer sobre a cruz e Paulo pela espada. Mas ele próprio,
que buscava fugir de uma revolta dirigida contra ele, se matou com suas
próprias mãos a quatro milhas da cidade.
XXVI. Tiago, irmão do Senhor, e Marcos, o Evangelista,
receberam então a coroa de um martírio glorioso pelo nome de Cristo; mas
o primeiro de todos que entrou nesse caminho foi o mártir levita Etienne.
Após o assassinato do apóstolo Tiago, uma grande calamidade se abateu
sobre os judeus. Com efeito, quando da ascensão de Vespasiano, o templo
foi incendiado e 600.000 judeus pereceram nessa guerra, pela espada e
pela fome. Quanto à Domiciano, ele foi o segundo depois de Nero a exercer
a repressão com rigor contra os judeus. Ele confinou o apóstolo João ao
exílio na ilha de Patmos, e cometeu diversas crueldades contra as populações.
Depois de sua morte, o bem-aventurado apóstolo evangelista João voltou
do exílio. Quando ele ficou velho e cheio de dias, após uma vida perfeita
a serviço de Deus, ele se deitou vivo em um sepulcro. Relata-se que ele
não experimentou a morte até que o Senhor viesse de novo para julgar;
é ele mesmo quem diz nos evangelhos nesses termos: “Eu quero que
ele permaneça até que Eu volte”.
XXVII. O terceiro após Nero, Trajano, desencadeou uma
perseguição contra os cristãos. É sobre ele que o bem-aventurado Clemente,
que foi o terceiro bispo da Igreja Romana, sofreu o martírio, que São
Simeão, bispo de Jerusalém, filho de Cleofas, foi, diz-se, crucificado
pelo nome do Cristo e que Inácio, bispo de Antioquia, foi conduzido à
Roma e entregue às feras. Tudo isso se cumpriu no tempo de Trajano.
XXVIII. Depois dele, Hélios Adriano foi imperador.
Foi por Hélios Adriano, sucessor de Domiciano, que Jerusalém foi denominada
aelia, porque foi ele quem a restaurou. Depois dessas paixões dos santos,
não foi suficiente ao partido adverso ter excitado as nações incrédulas
contra os adoradores do Cristo; foi necessário ainda desencadear cismas
entre os próprios cristãos. Provocou heresias, e a fé católica dividida
e interpretada de uma maneira e de outra. Com efeito, sob o reino de Antonino,
surgiu o erro absurdo dos marcionitas e dos valentinianos, e Justino,
o filósofo, após ter escrito obras sobre a igreja católica, recebeu a
coroa do martírio pelo nome do Cristo.
Na Ásia, onde se desencadeou uma perseguição, o bem-aventurado
Policarpo, discípulo de João, apóstolo e evangelista, foi consagrado ao
Senhor pelo fogo no octogésimo-primeiro ano de sua idade com um puríssimo
holocausto. Nas Gálias muitos foram coroados de pérolas celestes em nome
do Cristo graças a seus martírios. As narrativas de suas paixões são conservadas
fielmente entre nós até os nossos dias.
XXIX. Entre esses mártires havia o primeiro bispo
da igreja de Lyon, Pothin, e cheio de dias sofreu e suportou diversos
suplícios em nome do Cristo. Pois o bem-aventurado Irineu, sucessor desse
mártir, que tinha sido enviado a esta vila pelo bem-aventurado Policarpo,
se distinguiu por suas admiráveis virtudes. Em um curto espaço de tempo
converteu inteiramente, sobretudo pela predicação, a cidade ao cristianismo.
Mas quando veio a perseguição, o diabo perpetrou, pela mão de um tirano,
matanças e uma tão grande multidão de cristãos aí foi degolada por ter
confessado o nome do Senhor que através dos lugares escorreu o sangue
cristão. Nós não podemos recolher seu nome (do tirano), nem seus nomes
(dos cristãos), pois o Senhor os registrou no livro da vida. Infligindo
ao bem-aventurado Irineu diversos suplícios em sua presença, o carrasco
o consagrou ao Senhor Cristo pelo martírio. Depois dele quarenta e oito
mártires foram também supliciados, entre eles nós lemos que o primeiro
foi Véctios Epagathus.
XXX. Sob Dece, imperador, numerosos conflitos
se desencadearam contra o nome cristão, e houve tantos massacres de cristãos
que é impossível numerá-los. Babylas, bispo de Antioquia, com três crianças,
a saber, Urbano, Prilidan e Epolon; Xisto, bispo da igreja romana, e Laurent,
arcediago, assim como Hipólito, pereceram martírios por terem confessado
o nome do Senhor. Valentiniano e Novatien, que eram então os principais
chefes dos heréticos, atacaram a nossa fé sob a pressão do inimigo.
Nesse tempo, sete homens, que tinham sido ordenados bispos,
foram enviados para pregar nas Gálias, como conta a história da paixão
do santo mártir Saturnino. Ele disse: “Sob Dece e Grat, cônsules, assim
como uma fiel lembrança disso é conservada, a cidade de Toulouse recebeu
São Saturnino, seu primeiro e eminente bispo”. Vejamos, pois, aqueles
que foram enviados: junto aos turanginos o bispo Gatien, entre os arlesianos
o bispo Trophine, em Narbonna o bispo Paulo, em Toulouse o bispo Saturnino,
entre os parisienses o bispo Denis, na Auvergne o bispo Austremoine; junto
aos limusinos, Martial foi designado como bispo. Um deles, o bem-aventurado
Denis, bispo de Paris, depois de ter sofrido diversos suplícios em nome
do Cristo, terminou a vida presente golpeado pela espada.
Quanto à Saturnino, quando estava seguro de sofrer o
martírio, disse a dois de seus padres: “Veja que eu já estou imolado,
e o momento de minha desaparição é iminente. Eu vos peço não abandonar-me
completamente enquanto meu fim não tiver sido completo como ele deve ser”.
Enquanto que, após sua prisão, ele foi conduzido ao capitólio, aqueles
o abandonaram e ele ficou estendido sozinho. Quando se viu abandonado
por eles, conta-se que ele fez essa súplica: “Senhor Jesus Cristo, escute-me
do alto de teu santo céu. Que jamais essa igreja mereça o destino de ter
um pontífice escolhido entre seus habitantes”. Pois nós sabemos o que
se passou até agora nessa cidade. Quanto a ele, foi amarrado atrás de
um touro furioso e precipitado do alto do capitólio. Assim ele terminou
sua vida.
Gatien, Trophine e Austremoine, assim como Paulo e Marcial,
que viveram na maior santidade depois de terem conquistado a Igreja dos
povos e difundido em todos os lugares a fé do Cristo, faleceram numa bem-aventurada
contrição. Assim deixando a terra, uns pela via do martírio, outros por
contrição, esses homens foram igualmente reunidos no mundo celeste.
XXXI. Um de seus discípulos, encontrando-se na
cidade de Bourges, anunciou aos habitantes aquele que dá a salvação a
todos, o Cristo Senhor. Entre estes, somente alguns eram crentes; ordenados
clérigos, eles se iniciaram na prática do canto e aprenderam como se constrói
uma igreja e como se devem celebrar as solenidades em honra do Deus Todo-Poderoso;
mas, ainda tendo somente poucos recursos para construir, eles buscaram
a casa de um habitante para dela fazer uma igreja. Os senadores e outros
personagens mais afortunados do lugar estavam então ligados aos cultos
pagãos; quanto aos crentes, eles pertenciam aos meios pobres, conforme
a palavra do Senhor, onde ele culpa os judeus nesses termos: “Os prostituídos
e os publicanos vos precederão no Reino de Deus”.
Aqueles, pois, não tendo obtido a casa deste a quem eles
tinham pedido, foram encontrar um certo Leocádius, eminente senador das
Gálias, que pertencia à família de Véctius Epagathus, o qual tinha sofrido
o martírio em Lyon em nome do Cristo, como nós lembramos acima. Quando
eles lhe expuseram sua petição, ao mesmo tempo em que sua fé, esse homem
respondeu: “Se a casa que eu tenho na cidade de Bourges devesse ser digna
dessa obra, eu não recusaria emprestá-la”.
Escutando estas palavras, eles se prosternaram aos seus
pés e, tendo-lhe oferecido 300 peças de ouro com um prato de prata, lhe
disseram que essa casa era digna que aí se celebrassem os mistérios. Aceitando
deles três peças de ouro a título de agradecimento, ele lhes abandonou
generosamente o resto, e como ainda estava engajado nos erros da idolatria,
se fez cristão e fez de sua casa uma igreja. É agora a primeira igreja
da vila de Bourges. Ela foi admiravelmente restaurada e ornada das relíquias
do primeiro mártir Etienne.
XXXII. Valeriano e Galiano foram os vigésimos
sétimos a governar o Império Romano; eles desencadearam em seu tempo uma
grande perseguição contra os cristãos. Foi então que Cornélio ilustrou
Roma com seu sangue bem-aventurado e Cipriano Cartago. Em seu tempo também
Chrocus, rei dos alamanos, tendo erguido um exército, invadiu as Gálias.
Conta-se que esse Chrocus era de uma grande arrogância. Após ter cometido
um número de maldades supostamente pelo conselho de uma mãe má,
ele mobilizou, como nós dissemos, a nação dos alamanos, invadiu todas
as Gálias e demoliu de cima abaixo todos os monumentos que tinham sido
construídos desde a Antigüidade.
Vindo à Auvergne, ele incendiou, destruiu e demoliu o
templo que se chama na língua gaulesa, Vasso-Galate. Esse templo tinha
sido feito e restaurado admiravelmente. Sua parede era dupla. Era formado
internamente por pequenos blocos de pedra e, no exterior, por pedras de
cantaria (taille). Esse muro tinha uma espessura de 30 pés. Quanto ao
interior, era decorado de mármore e de mosaico. O piso também era de mármore;
por cima tinha um teto de chumbo.
XXXIII. Perto dessa cidade, Liminius e Antoliano,
mártires, descansam. Foi lá que Cássios e Victorino, associados no amor
do Cristo por uma afeição fraternal, ganharam igualmente o reino dos céus
vertendo seu próprio sangue. Com efeito, uma tradição antiga conta que
Victorino tinha iniciado como servidor do padre do templo pré-citado.
Freqüentemente em um burgo que se chama o burgo dos cristãos para perseguir
os cristãos, ele encontrou Cássios, que era cristão. Tocado por suas pregações
e seus milagres, ele acreditou no Cristo. Deixou as grosserias da idolatria
e, santificado pelo batismo, adquiriu um grande nome ao operar milagres.
Pouco depois, associados sobre a terra, como nós o dissemos, pelo martírio,
(todos os dois) ganharam igualmente o reino celeste.
XXXIV. Quando os alamanos se lançaram sobre a Gália,
São Privat, bispo da cidade de Javols, foi descoberto numa gruta da montanha
de Mende, onde se entregava aos jejuns e à prece enquanto a população
era aprisionada na fortaleza do castelo de Grèzes. Enquanto ele não consentiu,
como um bom pastor, em entregar suas ovelhas ao lobo, foi forçado a sacrificá-las
aos demônios. Maldizendo essa vilania, ao mesmo tempo em que se recusou
a cometê-la, ele foi espancado a golpes de bastão até que o tiveram por
morto. Depois dessa tortura, ele entregou a alma no fim de poucos dias.
Quanto a Chrocus, prenderam-no em Arles, cidade das Gálias, e fizeram-no
sofrer diversos suplícios, pois ele pereceu de um golpe de espada, expiando
como merecia os suplícios que tinha infligido aos santos de Deus.
XXXV. Sob Diocleciano, que foi o trigésimo-terceiro
a governar o império romano, uma grave perseguição foi desencadeada contra
os cristãos durante quatro anos. Matou-se mesmo uma vez no muito santo
dia de Páscoa uma grande multidão de cristãos, porque eles praticavam
o culto do verdadeiro Deus. Nesse tempo, Quirinus, bispo da igreja de
Sissek , sofreu um glorioso martírio em nome do Cristo. Depois de ter
amarrado ao pescoço uma pedra de calcário, a ferocidade dos pagãos o precipitou
no abismo de um rio. Quando ele caiu no abismo, permaneceu longo tempo
sob as águas, sustentado por um milagre divino. Essas águas não engoliram
o homem sob o qual o peso do pecado não exercia pressão.
A multidão do povo à volta, admirando esse fato, se precipitou
para livrar o bispo, a despeito do furor dos gentios. Vendo isso, ele
não suportou ser subtraído ao martírio, mas com olhos levantados ao céu,
gritou: “Senhor Jesus, você que está sentado gloriosamente à direita do
Pai, não permita que me afastem desse estado, mas, recolhendo minha alma,
condescenda-me reunir-me a teus mártires no repouso eterno.” Depois dessas
palavras ele entregou sua alma. Seu corpo foi recolhido por cristãos e
enterrado com veneração.
XXXVI. Constantino, o trigésimo-quarto a ocupar
o império dos romanos, reinou com felicidade durante trinta anos. Durante
o décimo-primeiro ano de seu reino, quando depois da morte de Diocleciano
a paz tinha sido devolvida às igrejas, o mui bem-aventurado prelado Martinho
nasceu em Sabaria, cidade da Panônia, de pais gentios, porém não de baixa
condição. Durante o vigésimo ano de seu reinado, o dito Constantino aprisionou
Crispus, seu filho, e assassinou Fausta, sua mulher, em um banho quente,
porque todos os dois quiseram traí-lo, ele, o imperador.
Em seu tempo o venerável bosque da Cruz do Senhor foi
descoberto graças aos esforços de sua mãe Helena, sob a indicação de Judá,
um hebreu que depois do batismo recebeu o nome de Quiriacus. Foi até esta
época que o historiógrafo Eusébio prosseguiu sua Crônica. A partir do
vigésimo-primeiro ano do reinado deste imperador, Jerônimo fez adições.
Ele indicou que o padre Juvencas colocasse os Evangelhos em versos sob
o pedido do dito imperador.
XXXVII. Foi sob o reinado de Constâncio que viveu
Tiago de Nisibis. Cedendo à suas preces, as orelhas da divina clemência
afastaram muitos perigos de sua cidade. Cita-se também Maximino, bispo
de Trèves, que se distinguiu por sua grande santidade.
XXXVIII. Durante o décimo nono ano do reinado de Constantino,
o Jovem, Antônio, morreu no seu centésimo quinto ano. Mas essa morte é
datada por Jerônimo, que somente lhe deu cem anos, do décimo nono ano
do reinado de Constâncio, e não com escreveu Gregório daquele de Constantino,
o Jovem. O mui bem-aventurado Hilário, bispo de Poitiers foi enviado
ao exílio por instigação dos heréticos; aí ele escreveu livros em favor
da fé católica que enviou a Constâncio; este, tendo-lhe agraciado no curso
do quarto ano do seu exílio, permitiu-lhe retornar à sua casa.
XXXIX. Então, aparecia também nossa luz e novos
raios luminosos aclararam a Gália; foi o tempo no qual o mui bem-aventurado
Martinho começou a pregar nas Gálias. Manifestando às populações por numerosos
milagres que o Cristo, filho de Deus, é o verdadeiro Deus, ele fez recuar
a incredulidade dos gentios. Igualmente, destruiu templos, sufocou a heresia,
edificou igrejas e, ao mesmo tempo, ilustrou-se por outros numerosos milagres,
devolvendo a vida a três mortos para aperfeiçoar seus títulos de glória.
Durante o quarto ano (dos reinados) de Valentiniano e de Valente, São
Hilário de Poitiers, cheio de santidade e de fé, reputado por seus numerosos
milagres, emigrou aos céus; ele também, nós lemos, ressuscitou dos mortos.
XL. Melânia, nobre matrona e habitante da cidade
de Roma, partiu para Jerusalém por devoção, deixando Urbano, seu filho,
em Roma. Ele se mostrou tão cheio de bondade e de santidade a todos que
foi denominado thècle pelos habitantes.
XLI. Depois da morte de Valentiniano, Valente, seu sucessor
no império inteiro, obrigou os monges ao serviço militar e ordenou espancar
os refratários a golpes de vara. Em seguida, os romanos fizeram uma encarniçada guerra
na Trácia. A carnificina foi tal que os romanos, privados
da ajuda dos cavalos, tiveram que fugir a pé. Enquanto eram massacrados
pelos godos em uma grande matança, Valente, que ferido por uma flecha,
fugia, se refugiou em uma pequena cabana diante da ameaça dos inimigos,
mas a cabana, tendo sido incendiada em cima dele, privou-o da sepultura
desejada. Foi assim que a vingança divina, merecida pela efusão do sangue
dos santos, se manifestou finalmente. Nessa parte para Jerônimo, e a partir
dessa época, foi Orósio padre que escreveu a seqüência.
XLII. Quando o imperador Graciano viu que a república
estava desorganizada, fez de Teodósio seu colega no império. Esse Teodósio
colocou toda a sua esperança e sua confiança na misericórdia de Deus.
Ele manteve na obediência numerosas nações menos pela espada do que pelos
cuidados e preces, consolidando a república e entrando na cidade de Constantinopla
como vencedor.
XLIII. Maximiniano, que tinha conseguido uma vitória
por sua tirania esmagando os bretões, foi estabelecido imperador por seus
soldados. Ele estabeleceu sua sede na cidade de Trèves e, após ter adormecido,
traiçoeiramente o imperador Graciano o matou. O bem-aventurado Martinho,
que era já bispo, veio encontrar esse Maximiniano. No lugar de Graciano,
Teodósio, aquele que tinha colocado toda a sua esperança em Deus, tomou
todo o império nas mãos. Em seguida, confiando nas inspirações divinas,
despojou Maximiniano do império e o matou.
XLIV. Em Auvergne, após Austremoine, bispo e pregador,
o primeiro bispo foi Urbicus, de família senatorial, que se convertera.
Ele tinha uma esposa que, segundo o costume eclesiástico, tinha renunciado
a todo o comércio com o bispo, e vivia religiosamente. Eles se ocupavam,
todos os dois, à prece, à caridade e às boas obras. Enquanto eles se comportavam
assim, a perversidade do inimigo, que era sempre ciumenta da santidade,
se levantou junto à mulher. Inflamada de concupiscência por seu marido,
ele fez dela uma nova Eva.
Inflamada pela paixão, envolvida pelas trevas do pecado,
essa mulher retornou à casa da igreja através das trevas da noite. Tendo
encontrado tudo cerrado, ela se pôs a bater às portas da casa eclesiástica
e dizer: “Até quando dormirás tu, bispo? Porque tu desdenhas tua companheira?
Porque com as orelhas tampadas, recusas tu escutar os preceitos de Paulo?
Ele escreveu, com efeito: “Volte em direção a outro, afim de que Satã
não vos tente”. Veja que eu voltei para ti e não foi a um vaso estrangeiro,
mas ao meu próprio vaso que retornei.”
Enquanto ela insistia em fazer esses discursos e outros
semelhantes, os escrúpulos do bispo acabaram abrandando-se. E ele a fez
penetrar em sua cama e, após ter dormido com ela, a expulsou. Voltando
em seguida a si, desolado do pecado que perpetrou, ele entrou em um monastério
de sua diocese para fazer penitência, e quando aí expiou nos gemidos e
nas lágrimas o erro que tinha cometido, voltou à cidade. Quando o curso
de sua vida se completou, ele deixou esse mundo. Pois uma filha nasceu
dessa união; ela permaneceu na religião. O dito bispo, assim como sua
esposa e filha, foram enterrados numa cripta em Chantoin, ao longo
da calçada pública. Em seu lugar foi colocado o bispo Legonus.
XLV. Quando este último morreu, São Ilidius o
sucedeu; era um homem de santidade iminente e de uma virtude notável,
que se distinguia de tal maneira por sua santidade que sua reputação penetrou
até nos países estrangeiros. Isso fez com que o chamassem para curar do
espírito imundo a filha do imperador de Trèves, o que nós relatamos no
livro que escrevemos sobre sua vida. Ele viveu, como conta a tradição,
até muito velho, cheio de dias e de boas obras. Quando ele percorreu com
felicidade até o fim o caminho dessa vida, emigrou até junto do Cristo
e foi enterrado em uma cripta nos arredores dessa cidade. Ele tinha um
arcediago que levava o nome de Juste. Esse homem passou o curso de
sua vida nas boas obras, e divide o túmulo de seu mestre. Logo depois
da morte do bem-aventurado confessor Ilidius, seu glorioso sepulcro foi
teatro de tão numerosos milagres que é impossível lhes descrever inteiramente
e de deles reter a lembrança. E ele teve como sucessor São Nepociano.
XLVI. São Nepociano foi o quarto bispo de Auvergne.
De Trèves, enviou-se embaixadores à Espanha, do qual um certo Artêmios,
de uma sabedoria e de uma beleza admiráveis, foi na flor da idade. Ele
foi tomado por uma febre violenta. Enquanto os outros iam adiante, ele
foi deixado doente em Clermont d‘Auvergne. Pois nessa época, ele foi acorrentado
em Trèves pelas amarras do casamento. Ele foi visitado e untado de óleo
santo por São Nepociano, e por um dom do senhor, a saúde lhe foi devolvida.
Como ele tinha recebido do mesmo santo a palavra da predicação, esquecendo
tanto sua esposa terrestre quanto suas riquezas pessoais, ele se uniu
à Igreja e tornou-se clérigo, distinguindo-se de tal maneira por sua santidade
que foi chamado a suceder ao bem-aventurado Nepociano para dirigir as
ovelhas do rebanho do Senhor.
XLVII. Na mesma época, Injurieux, um dos senadores
de Auvergne que tinha grandes riquezas, pediu em casamento uma moça de
condição semelhante, e tendo sido dada uma soma em dinheiro,
ele fixou o dia do casamento. Todos os dois eram filhos únicos de seus
pais. Quando o dia chegou depois da celebração da solenidade das núpcias,
eles foram colocados em uma mesma cama, segundo o costume. Mas a moça,
gravemente contristada e voltada em direção à parede, chorava amargamente:
“Por que, disse então o rapaz, tu estás embaraçada? Explique a mim, eu
te peço.”
Como ela mantinha silêncio, ele acrescentou: “Eu te imploro
por Jesus Cristo, filha de Deus, que me exponha sabiamente o que causou
tua dor.” Então ela, voltando-se em direção a ele, respondeu: “Mesmo que
eu chore todos os dias de minha vida, jamais minhas lágrimas serão suficientes
para poder lavar a dor tão imensa de meu coração. Eu tinha decidido, com
efeito, preservar para o Cristo meu fraco corpo de todo o contato masculino:
minha maldição! Eu estou tão abandonada por Ele que não pude cumprir o
que desejava, e o que eu tinha conservado desde o começo de minha vida
perdi neste último dia que não deveria ter visto. Vejo-me abandonada pelo
Cristo mortal, que me prometia por dote o Paraíso; a sorte me associou
a um homem mortal, e no lugar de rosas que não florescem, são pedaços
de rosas dessecadas que não somente não me embelezam, mas me enfeiam.
Enquanto eu devia cobrir a roupa da pureza sob o rio do cordeiro que corre
por quatro braços, a roupa que eu corto é-me um fardo, e não uma honra.
Mas porque prolongar longamente este discurso? Infortunada que sou, eu,
a quem a sorte devia merecer os céus, estou hoje mergulhada no abismo.
Oh, se tudo isso devia me acontecer, porque o dia de minha vida que marcou
o começo de minha vida não foi também o fim? Oh, que então eu somente
atravessasse a porta da morte antes de ser alimentada do leite! Oh, os
sugadores de minhas amas de leite deveriam ter me distribuído para os
funerais! Os objetos terrestres me fazem horror, porque eu contemplo as
mãos do Redentor transpassadas pela vida do mundo. Eu também não olho
os diademas nos quais brilham as soberbas pedras preciosas, pois é a coroa
de espinho que eu admiro mentalmente. Eu desdenho tuas vastas terras que
se estendem ao longo e ao largo porque aspiro as graças do paraíso. Teus
terraços me fazem horror, pois contemplo o Senhor residindo sobre os astros.”
Estes propósitos, acompanhados de lágrimas abundantes, tocaram de piedade o rapaz, que respondeu: “Nós fomos as únicas crianças de pais muito nobres de Auvergne. Eles quiseram nos unir para perpetrar sua descendência com medo que, quando nós desaparecêssemos do mundo, um herdeiro estranho recolhesse a sucessão.” A isto ela replicou: “O mundo não é nada, as riquezas não são nada, a pompa desse século não é nada, mesmo a vida da qual gozamos não é nada. Mas a vida que é preciso procurar é aquela que não está nem confinada, nem terminada pela morte, aquela que nenhuma doença mata, e a qual nenhum poente coloca fim; é a vida na qual permanecemos em uma beatitude eterna, onde se vive em uma luz que não se apaga e na qual, o que é melhor de tudo, se goza da presença do próprio Senhor para continuamente contemplá-Lo, somos elevados à condição dos anjos e gozamos de uma alegria inalterável.”
A essas palavras, ele replicou: “Tuas palavras muito
doces fizeram brilhar em meus olhos a vida eterna como uma grande estrela;
se tu queres renunciar à concupiscência carnal, eu participarei da tua
resolução.” Ela lhe respondeu: “É difícil ao sexo masculino fazer esse
sacrifício às mulheres. Entretanto, se tu o fazes de maneira que nós permaneçamos
sem nos corrompermos no século, eu te reservarei uma parte do dote que
me foi prometido por meu esposo, o Senhor Jesus Cristo, a quem fiz o voto
de ser Sua serva e Sua esposa.” Armado do estandarte da cruz, ele disse
então: “Eu farei o que tu me exortas.” Tendo dado as mãos, eles dormiram
e doravante se deitaram durante muitos anos em uma mesma cama, mas conservando
uma castidade digna de elogios, o que foi colocado em evidência mais tarde
quando de suas mortes.
Com efeito, logo depois de ter terminado sua prova, a
jovem emigrou ao pé do Cristo e depois do ofício fúnebre o marido a depositou
em um sepulcro, e declarou: “Eu te rendo graças, Senhor Jesus Cristo,
Senhor Eterno Nosso Deus porque eu restituí à Tua piedade esse tesouro
maculado tal qual o recebi de Ti quando me foi confiado.” A essas palavras
ela replicou sorrindo: “Porque tu falas quando não te perguntam?”. Depois
disso, ela foi enterrada, e ele a seguiu pouco tempo depois. Como os dois
sepulcros tinham sido colocados ao longo de muros diferentes, um milagre
estranho que testemunhou sua castidade se produziu. Com efeito, uma manhã,
enquanto as pessoas se encontravam nos lugares, eles encontraram lado
a lado os sepulcros que tinham sido deixados a uma grande distância um
do outro, sem dúvida para que esses dois seres que o céu reuniria não
tivessem seus corpos separados no monumento onde estavam enterrados. Os
habitantes da localidade continuaram até os nossos dias a lhes denominar
“os dois amantes”. Nós fizemos menção deles no Livro dos Milagres.
XLVIII. Durante o segundo ano do reinado de Arcádius
e de Honórius, São Martinho, bispo de Tours, cheio de milagres da santidade,
grande benfeitor dos fracos, morreu no quadragésimo vigésimo primeiro
ano de sua idade e no vigésimo sexto de seu episcopado em Candes, vila
de sua diocese, para emigrar com felicidade junto do Cristo. Ele morreu
à meia-noite, um domingo, sob os consulados de Atticus e de César. Durante
sua morte muitos escutaram cantos no céu, que nós contamos mais longamente
no Livro Primeiro de seus milagres. Pois, como o santo de Deus tinha começado
a ficar doente em Candes, como nós dissemos, as populações do Poitou e
do Tourane aí se encontraram para assistir a sua passagem. Quando ele
morreu, uma grande altercação surgiu entre as duas populações.
Com efeito, os poitevinos diziam: “É nosso monge. Ele
tornou-se abade entre nós. Nós reclamamos aquele que nos foi confiado.
Que vos contentais de ter gozado de sua eloqüência enquanto ele foi bispo
nesse mundo; vós tomais parte à sua mesa, vós fordes cheios de suas bênçãos,
mas vós haveis gozado de seus milagres. Que todas essas coisas vos contentem,
pois, e que nos seja permitido levar seu cadáver inanimado.”
A isso os touranginos responderam: “Se vós pretendeis
que os milagres feitos entre nós devam nos contentar, sabeis que ele os
operou mais quando ele se encontrava entre vós que aqui mesmo, pois deixando
de lado o maior número, ele ressuscitou dois mortos entre vós e um somente
entre nós. Como ele mesmo dizia freqüentemente, sua virtude miraculosa
foi maior antes de seu episcopado que depois de seu episcopado. É, pois
necessário, que o que ele não acabou entre nós durante sua vida, o acabe
após sua morte. Ele vos foi retirado e nos foi dado por Deus. Além disso,
se se respeita um costume instituído de grande utilidade, é na cidade
onde ele foi ordenado que segundo a ordem de Deus ele terá seu sepulcro.
Na verdade, se vós pretendeis reivindicar um privilégio para vosso monastério,
sabeis que seu primeiro monastério se encontrava entre os milaneses.”
Enquanto eles discutiam, o sol se punha e a noite tombava;
as portas foram fechadas com um cadeado e o corpo, colocado no meio, foi
guardado pelas duas populações, pois poderia acontecer que à manhã ele
fosse retirado à força pelos poitevinos. Mas o Deus todo poderoso não
queria que a cidade de Tours fosse frustrada de seu próprio patriarca.
Pois finalmente, aproximando-se da meia-noite, todo o bando dos poitevinos
cedeu ao sono e não restou ninguém do efetivo para velar. Quando os touranginos
os viram dormindo, pegaram o fardo do corpo muito santo; uns o jogaram
pela janela, outros o recolheram de fora.
Ele foi colocado sob um barco e, com toda a população,
desceu o rio Vienne. Chegando ao leito do Loire, dirigiu-se em direção
à cidade de Tours, dando grandes ações de graça acompanhadas de cantos.
Acordados pelas vozes, os poitevinos, que não tinham mais o tesouro que
guardavam, voltaram confusos para suas casas. Se alguém pergunta por que
desde a passagem do bispo Gatien até a de São Martinho houve apenas um
único bispo, a saber, Litorius, que se saiba que por causa da oposição
dos pagãos à cidade de Tours permaneceu longamente privada por longo tempo
da bênção episcopal. Com efeito, os cristãos desse tempo celebravam o
ofício divino clandestinamente e em lugares secretos, pois quando os pagãos
descobriam cristãos, estes eram oprimidos por golpes ou degolados.
Desde a paixão do Senhor até a morte de São Martinho
conta-se 412 anos.
Fim do Primeiro Livro contendo os 5.596 anos que decorreram
da origem do mundo até a morte do bispo São Martinho.
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