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O Livro da Ordem de Cavalaria (1279-1283)
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Deus honrado, glorioso, que sois cumprimento de todos
os bens, por vossa graça e vossa bênção começa este livro que é da Ordem
de Cavalaria.
INICIA O PRÓLOGO
1
Por significação dos VII planetas, que são corpos celestiais e governam
e ordenam os corpos terrenais, dividimos este Livro de cavalaria
em VII partes, para demonstrar que os cavaleiros tem honra e senhorio
sobre o povo para o ordenar e defender.
A primeira parte é do começo de cavalaria; a segunda,
do ofício de cavalaria; a terceira, do exame que convém que seja feito
ao escudeiro com vontade de entrar na ordem de cavalaria; a quarta, da
maneira segundo a qual deve ser armado o cavaleiro; a quinta, do que significam
as armas do cavaleiro; a sexta é dos costumes que pertencem ao cavaleiro;
a sétima, da honra que se convém ser feita ao cavaleiro.
2
Em uma terra aconteceu que um sábio cavaleiro que longamente havia mantido
a ordem de cavalaria na nobreza e força de sua alta coragem, e a quem
a sabedoria e ventura o haviam mantido na honra da cavalaria em guerras
e em torneios, em assaltos e em batalhas, elegeu a vida ermitã quando
viu que seus dias eram breves e a natureza o impedia, pela velhice, de
usar as armas. Então, desamparou suas herdades e herdou-as a seus infantes,
e em um bosque grande, abundante de águas e árvores frutuosas, fez sua
habitação e fugiu do mundo para que o enfraquecimento de seu corpo, no
qual chegara pela velhice, não lhe desonrasse naquelas coisas que, com
sabedoria e ventura ao longo do tempo o haviam honrado tanto. E, por isso,
o cavaleiro cogitou na morte, relembrando a passagem deste século ao outro,
e entendeu a sentença perdurável a qual havia de vir.
3
Em um belo prado havia uma árvore muito grande, toda carregada de frutos,
onde o cavaleiro vivia naquela floresta. Debaixo daquela árvore havia
uma fonte muito bela e clara, da qual eram abundantes o prado e as árvores
que ali eram ao redor. E o cavaleiro havia em seu costume, todos os dias,
de vir àquele lugar adorar e contemplar e pregar a Deus, a qual fazia
graças e mercês da grande honra que Lhe havia feito todos os tempos de
sua vida neste mundo.
4
Em aquele tempo, na entrada do grande inverno, aconteceu que um grande
rei muito nobre e de bons e bem abundantes costumes, mandou haver cortes.
E pela grande fama que tinha nas terras de suas cortes, um escudeiro de
assalto, só, cavalgando em seu palafrém, dirigia-se à corte para ser armado
novo cavaleiro; e pelo esforço que havia suportado em sua cavalgada, enquanto
ia em seu palafrém, adormeceu; e naquela hora, o cavaleiro que na floresta
fazia sua penitência chegou à fonte para contemplar a Deus e menosprezar
a vaidade daquele mundo, segundo que cada um dos dias havia se acostumado.
5
Enquanto o escudeiro cavalgava assim, seu palafrém saiu do caminho e meteu-se
pelo bosque, e andou tão à vontade pelo bosque, até que chegou na fonte
onde o cavaleiro estava em oração. O cavaleiro, que viu chegar o escudeiro,
deixou sua oração e assentou-se no belo prado, à sombra da árvore, e começou
a ler em um livro que tinha em sua falda. O palafrém, quando foi à fonte,
bebeu da água; e o escudeiro, que sentiu em sua dormência que seu palafrém
não se movia, despertou e viu diante de si o cavaleiro, que era muito
velho e tinha grande barba e longos cabelos e rotas vestes por seu uso;
e pela penitência que fazia, era magro e pálido, e pelas lágrimas que
vertia, seus olhos eram humildes, tudo dando uma aparência de vida muito
santa.
Muito se maravilharam um do outro, pois o cavaleiro havia
longamente estado em seu eremitério, no qual não havia visto nenhum homem
depois de haver desamparado o mundo e deixado de portar armas; e o escudeiro
se maravilhou fortemente como tinha chegado naquele lugar.
6
O escudeiro desceu de seu palafrém saudando agradavelmente o cavaleiro,
e o cavaleiro o acolheu o mais belamente que pôde, e sentaram-se na bela
erva, um ao lado do outro. O cavaleiro, que percebeu que o escudeiro não
queria primeiramente falar porque lhe queria dar honra, falou primeiramente
e disse:
— Belo amigo, qual é a vossa coragem, onde ides e por
que vieste aqui?
— Senhor — disse o escudeiro — é fama por longínquas
terras que um rei muito sábio mandou haver cortes, e fará a si mesmo cavaleiro
e logo armará cavaleiros outros barões estrangeiros e privados. E por
isso, eu vou àquela corte para ser novo cavaleiro; e meu palafrém, enquanto
dormia pelo trabalho que tive nas grandes jornadas, conduziu-me neste
lugar.
7
Quando o cavaleiro ouviu falar de cavalaria e relembrou a ordem de cavalaria
e o que é pertencente ao cavaleiro, verteu um suspiro e entrou em considerações
lembrando a honraria no qual a cavalaria o havia mantido tanto tempo.
Enquanto o cavaleiro assim cogitava, o escudeiro perguntou ao cavaleiro
quais eram suas considerações. O cavaleiro disse:
— Belo filho, meus pensamentos são sobre a ordem de cavalaria
e do grande dever que é do cavaleiro manter a alta honra de cavalaria.
8
O escudeiro rogou ao cavaleiro que lhe dissesse o que era a ordem de cavalaria,
e de que maneira o homem pode melhor honrá-la e conservar a honra que
Deus lhe havia dado.
— Como, filho? — disse o cavaleiro — e tu não sabes
qual é a regra e a ordem da cavalaria? E como tu podes aspirar à cavalaria
se não tem sapiência da ordem de cavalaria? Pois nenhum cavaleiro pode
manter a ordem que não sabe, nem pode amar sua ordem, nem o que pertence
à sua ordem, se não sabe a ordem de cavalaria, nem sabe conhecer as faltas
que são contra sua ordem. Nem nenhum cavaleiro deve ser cavaleiro se não
sabe a ordem de cavalaria, porque desonrado cavaleiro é que faz cavaleiro
e não sabe lhe mostrar os costumes que pertencem ao cavaleiro.
9
Enquanto o cavaleiro dizia aquelas palavras e repreendia o escudeiro que
desejava cavalaria, o escudeiro perguntou ao cavaleiro:
— Senhor, se a vós aprouver dizer-me em que consiste
a ordem de cavalaria, assim sentirei coragem de aprender a ordem e seguir
a regra e a ordem de cavalaria.
— Belo amigo — disse o cavaleiro — a regra e a ordem
de cavalaria estão neste livro que leio algumas vezes para que me faça
relembrar a graça e a mercê que Deus me fez neste mundo; porque eu honrei
e mantive a ordem de cavalaria com todo meu poder; porque assim como a
cavalaria dá tudo que pertence ao cavaleiro, assim o cavaleiro deve empenhar
todas as suas forças para honrar a cavalaria.
10
O cavaleiro entregou o livro ao escudeiro; e quando o escudeiro acabou
de o ler, entendeu que o cavaleiro é um eleito entre mil homens para haver
o mais nobre ofício de todos, e tendo então entendido a regra e ordem
de cavalaria, pensou consigo um pouco e disse:
— Ah, senhor Deus! Bendito sejais Vós, que me haveis
conduzido em lugar e em tempo para que eu tenha conhecimento de cavalaria,
a qual foi longo tempo desejada sem que soubesse a nobreza de sua ordem
nem a honra em que Deus pôs todos aqueles que são da ordem da cavalaria.
11
— Amável filho — disse o cavaleiro — eu estou perto da morte e meus dias
não são muitos, ora, como este livro foi feito para retornar a devoção
e a lealdade e o ordenamento que o cavaleiro deve haver em ter sua ordem,
por isso, belo filho, portai este livro à corte onde ides e mostrai-o
a todos aqueles que desejam ser novos cavaleiros; guardai-o e apreciai-o
se amais a ordem de cavalaria. E quando fores armado novo cavaleiro, retornai
a este lugar e dizei-me quais são aqueles que foram feitos novos cavaleiros
e não foram tão obedientes à doutrina da cavalaria.
12
O cavaleiro deu sua bênção ao escudeiro, e o escudeiro pegou o livro e
muito devotadamente se despediu do cavaleiro, e subiu em seu palafrém
e se foi para a corte muito alegremente. E sábia e ordenadamente deu e
apresentou aquele livro ao muito nobre rei e toda a grande corte, e permitiu
que todo cavaleiro que quisesse entrar na ordem de cavalaria o pudesse
trasladar, para que de vez em quando o lesse e recordasse a ordem de cavalaria.
I. DO COMEÇO DE CAVALARIA
1
Faltou caridade, lealdade, justiça e verdade no mundo; começou inimizade,
deslealdade, injúria, falsidade; e por isso surgiu erro e turvamento no
povo de Deus, que foi criado para que Deus fosse amado, conhecido, honrado,
servido e temido pelo homem.
2
No começo, como veio ao mundo menosprezo de justiça devido à míngua de
caridade, conveio que a justiça retornasse à sua honra pelo temor. E por
isso, de todo o povo foram feitos milenaristas e de cada mil foi eleito
e escolhido um homem, mais amável, mais sábio, mais leal e mais forte,
e com mais nobre coragem, com mais ensinamentos e de bons modos que todos
os outros.
3
Buscou-se em todas as bestas qual era a mais bela besta e a mais veloz,
e a que pudesse sustentar maior trabalho, e qual era a mais conveniente
para servir ao homem; e porque o cavalo é a mais nobre besta e a mais
conveniente a servir ao homem, por isso, de todas as bestas, o homem elegeu
o cavalo, que foi doado ao homem que foi dos mil homens eleito; e por
isso aquele homem tem o nome de cavaleiro.
4
Ajustada a mais nobre besta ao mais nobre homem, seguidamente conveio
que o homem elegesse e escolhesse de todas as armas, aquelas armas que
são mais nobres e mais convenientes para o combate e para defender o homem
das feridas e da morte, e aquelas armas o homem doou e apropriou ao cavaleiro.
5
Quem quer entrar na ordem de cavalaria lhe convém meditar e pensar no
nobre começo de cavalaria e convém que a nobreza de sua coragem e seus
bons modos concordem e convenham ao começo da cavalaria, pois, se assim
não o faz, contrário seria à ordem de cavalaria e a seus princípios. E
por isso, não se convém que a ordem de cavalaria receba seus inimigos
em suas honras, nem aqueles que são contrários a seus princípios
6
Amor e temor são convenientes contra desamor e menosprezo; e por isso,
convém que o cavaleiro, por nobreza de coragem e de bons costumes e pela
honra tão alta e tão grande na qual lhe foi feita por eleição, e pelo
cavalo e pelas armas, seja amado e temido pelas gentes, e que pelo amor
retornassem a caridade e ensinamento, e pelo temor retornassem a verdade
e a justiça.
7
O homem, enquanto possui sensatez e entendimento e é de mais forte natureza
que a fêmea, pode ser melhor que a mulher, porque se não fosse tão poderoso
e bom como a fêmea, seguir-se-ia que bondade e força de natureza fosse
contrária à bondade de coração e boas obras. Logo, assim como o homem
por sua natureza é mais aparelhado a haver nobre coragem e ser bom que
a fêmea, assim o homem é mais aparelhado a ser vil que a mulher; pois,
se assim não fosse, não seria digno que tivesse maior nobreza de coração
e maior mérito de ser bom que a fêmea.
8
Guarda, escudeiro, que farás se abraçares a ordem de cavalaria; porque
se és cavaleiro, tu recebes a honra e a servidão que se convém aos amigos
de cavalaria. Porque quanto mais nobres princípios tens, mais obrigado
a ser bom e agradar a Deus e às gentes; e se és vil, tu serás o maior
inimigo de cavalaria, e mais contrário a seus princípios e sua honra.
9
Tão alta e nobre é a ordem do cavaleiro que não bastou à ordem que o homem
a fizesse das mais nobres pessoas; nem que o homem lhe doasse as bestas
mais nobres nem lhe desse as mais honradas armas, antes conveio ao homem
que se fizessem senhores das gentes aqueles homens que são da ordem da
cavalaria.
E porque no senhorio há tanto de nobreza, e na servidão
tanto de submissão, se tu, que abraças a ordem de cavalaria, fores vil
e malvado, poderá pensar qual injúria fazes a todos seus submetidos e
a todos companheiros que são bons, porque pela vileza em que estás, deverias
ser súdito, e pela nobreza dos cavaleiros que são bons, és indigno de
ser chamado cavaleiro.
10
Eleição, nem cavalo, nem armas, nem senhoria não bastam à alta honra que
pertence ao cavaleiro; antes convém que o homem lhe dê escudeiro e palafreneiro
que o sirvam e que cuidem das bestas. E convém que as gentes arem e cavem
e traguem o mal para que a terra lhe dê os frutos de que viva o cavaleiro
e suas bestas; e que o cavaleiro cavalgue e senhoreie e haja bem-aventurança
daquelas coisas em que seus homens são maltratados e sofrem malefícios.
11
Ciência e doutrina têm os clérigos para poder a sapiência e querer amar,
conhecer e honrar a Deus e suas obras, e para dar doutrina às suas gentes
e bom exemplo em amar e honrar a Deus; e para que sejam ordenados nestas
coisas, aprendem e estão em escolas. Logo, assim como os clérigos, por
honesta vida e por bom exemplo e por ciência, têm ordem e ofício de inclinar
as gentes à devoção e à boa vida, assim os cavaleiros, por nobreza de
coragem e por força das armas mantêm a ordem de cavalaria, têm a ordem
em que estão para que inclinem as gentes ao temor, pelo qual temem fazer
falta uns homens contra outros.
12
A ciência e a escola da ordem de cavalaria é que cavaleiro faça ensinar
a seu filho cavalgar em sua juventude; pois, se o infante em sua juventude
não aprender a cavalgar não poderá aprender em sua velhice. E ao filho
do cavaleiro convém que enquanto é escudeiro, saiba cuidar do cavalo.
E ao filho de cavaleiro convém que antes seja súdito que senhor, e que
saiba servir ao senhor, pois de outra maneira não conheceria a nobreza
de seu senhorio quando fosse cavaleiro. E por isso o cavaleiro deve submeter
seu filho a outro cavaleiro para que aprenda a cortar e a se guarnecer
e as outras coisas que pertencem à honra da cavalaria.
13
Quem ama a ordem de cavalaria convém que, assim como aquele que deseja
ser carpinteiro tem mestre que seja carpinteiro e aquele que deseja ser
sapateiro convém que tenha mestre que seja sapateiro, assim quem deseja
ser cavaleiro convém que tenha mestre que seja cavaleiro, porque é coisa
inconveniente que escudeiro aprenda a ordem de cavalaria de outro homem,
mas de homem que seja cavaleiro, como seria coisa inconveniente se o carpinteiro
ensinasse ao homem que desejasse ser sapateiro.
14
Assim como os juristas e os médicos e os clérigos nas ciências e livros,
ouvem a lição e aprendem seu ofício por doutrina de letras, é tão honrada
e alta a ordem de cavalaria que não tão somente basta que ao escudeiro
seja ensinada a ordem de cavalaria para cuidar do cavalo nem para servir
senhor nem para ir com ele aos feitos de armas nem para outras coisas
semelhantes a estas; como ainda seria coisa conveniente que o homem da
ordem de cavalaria fizesse escola, e que fosse ciência escrita em livros
e que fosse arte ensinada, assim como são ensinadas as altas ciências;
e que os infantes filhos dos cavaleiros, em seus princípios, que aprendessem
a ciência que pertence à cavalaria, e depois que fossem escudeiros e que
andassem pelas terras com os cavaleiros.
15
Se faltas não houvesse em clérigos nem em cavaleiros, apenas faria faltas
em outras gentes; porque, pelos clérigos todo homem teria amor e devoção
a Deus, e pelos cavaleiros todos temeriam injuriar seu próximo. Ora, se
os clérigos têm mestre e doutrina e estão em escolas para serem bons,
e se há tantas ciências em doutrina e em letras, injúria muito grande
é feita à ordem de cavalaria porque não é assim uma ciência ensinada pelas
letras e que não seja feita escola como são nas outras ciências. Logo,
por isso, aquele que compõe este livro suplica ao nobre rei e à toda sua
corte que está reunida para a honra de cavalaria, que seja satisfeita
e restituída a honrada ordem de cavalaria, que é agradável a Deus.
II. DO OFÍCIO QUE PERTENCE AO CAVALEIRO
1
Ofício de cavaleiro é o fim e a intenção pelos quais foi principiada a
ordem de cavalaria. Logo, se o cavaleiro não cumpre com o ofício de cavalaria
é contrário à sua ordem e aos princípios de cavalaria acima ditos; pela
qual contrariedade não é verdadeiro cavaleiro, mesmo sendo chamado cavaleiro,
e esse tal cavaleiro é mais vil que o tecelão e o trompeteiro que seguem
seu ofício.
2
Ofício de cavaleiro é manter e defender a santa fé católica pela qual
Deus, o Pai, enviou seu Filho para encarnar na virgem gloriosa Nossa Senhora
Santa Maria, e para a fé ser honrada e multiplicada sofreu neste mundo
muitos trabalhos e muitas afrontas e grande morte. Daí que, assim como
nosso senhor Deus elegeu clérigos para manter a Santa Fé com escrituras
e com provações necessárias, pregando aquela aos infiéis com tão grande
caridade que até a morte foi por eles desejada, assim o Deus da glória
elegeu cavaleiros que por força das armas vençam e submetam os infiéis
que cada dia pugnam em destruir a Santa Igreja. Por isso, Deus honrou
neste mundo e no outro tais cavaleiros que são mantenedores e defensores
do ofício de Deus e da fé pela qual nos havemos de salvar.
3
Cavaleiro que tem fé e não usa da fé e é contrário àqueles que mantêm
a fé, é assim como entendimento de homem a quem Deus tem dado a razão
e usa de desrazão e de ignorância. Ocorre que, quem tem fé e é contrário
à fé quer ser salvo justamente por isso ao qual é contra, e por isso sua
vontade concorda com a descrença que é contrária à fé e à salvação, pela
qual descrença o homem é condenado a trabalhos que não têm fim.
4
Muitos são os ofícios que Deus têm dado neste mundo para ser servido pelos
homens; mas todos os mais nobres, os mais honrados, os mais próximos dos
ofícios que existem neste mundo são ofício de clérigo e ofício de cavaleiro;
e por isso, a maior amizade que deveria existir neste mundo deveria ser
entre clérigo e cavaleiro. Logo, assim como o clérigo não segue a ordem
de clerezia quando é contra a ordem de cavalaria, assim, cavaleiro não
mantém ordem de cavalaria quando é contrário e desobediente aos clérigos,
que são obrigados a amar e a manter a ordem de cavalaria.
5
Uma ordem não consiste tão somente nos homens que amam sua ordem, senão
que consiste neles quando amam outras ordens. Por isso, amar uma ordem
e desamar outra ordem não é manter a ordem, porque nenhuma ordem Deus
fez contrária a outra ordem. Logo, assim como algum homem religioso que
amasse tanto sua ordem que fosse inimigo de outra, ordem não seguiria,
assim cavaleiro não tem ofício de cavaleiro quando ama tanto sua ordem
que menospreza e desama outra ordem. Porque, se cavaleiro tivesse a ordem
de cavalaria desamando e destruindo outra ordem, seguir-se-ia que Deus
e ordem fossem contrários, a qual contrariedade é impossível.
6
Tanto é nobre coisa o ofício de cavaleiro que cada cavaleiro deveria ser
senhor e regedor de terra; mas, para os cavaleiros, que são muitos, não
bastam as terras. E, para significar que um só Deus é senhor de todas
as coisas, o imperador deve ser cavaleiro e senhor de todos os cavaleiros;
mas, porque o imperador não poderia por si manter e reger todos os cavaleiros,
convém que tenha abaixo de si reis que sejam cavaleiros, para que o ajudem
a manter a ordem de cavalaria. E os reis devem haver abaixo de si condes,
condores, varvesores, e assim os outros graus de cavalaria; e debaixo
destes graus devem estar os cavaleiros de um escudo, os quais sejam governados
e possuídos pelos graus de cavalaria acima ditos.
7
Para demonstrar o excelente senhorio, sabedoria e poder de nosso senhor
Deus, que é uno e pode e sabe reger e governar tudo o quanto é, incoveniente
coisa seria que um cavaleiro pudesse por si só manter e reger todas as
gentes deste mundo; porque se o fizesse, não seriam tão bem significados
o senhorio, o poder, a sabedoria de Nosso Senhor Deus. Por isso, Deus
quis que, para reger todas as gentes deste mundo, haja mister muitos oficiais
que sejam cavaleiros; daí que o rei ou o príncipe que fizer procuradores,
vegueres , bailios, de outros homens que não sejam cavaleiros o faz contra
o ofício de cavalaria, dado que seja mais conveniente que o cavaleiro,
segundo dignidade de seu ofício, senhoreie o povo do que outros homens.
Pois, pela honra de seu ofício, lhe deve esse feito mais de honra que
a outro homem que não seja tão honrado no ofício; e pela honra em que
se encontra pela sua ordem, tem nobreza de coração, e pela nobreza de
coragem, se inclina mais tarde à maldade e ao engano e a feitos vis, que
outro homem.
8
Ofício de cavaleiro é manter e defender o senhor terreno, pois o rei,
nem o príncipe, nem nenhum outro barão sem ajuda poderia manter justiça
em suas gentes; logo, se um povo ou algum homem é contra o mandamento
do rei ou do príncipe, convém que os cavaleiros ajudem a seu senhor, que
é um homem sozinho, assim como qualquer outro homem. Logo, o cavaleiro
malvado que antes ajuda o povo que a seu senhor, ou que quer ser senhor
e quer despossuir seu senhor, não segue o ofício pelo qual é chamado cavaleiro.
9
Pelos cavaleiros deve ser mantida justiça, porque, assim como os juízes
têm ofício de julgar, assim os cavaleiros têm ofício de manter justiça.
E se cavaleiro e letras pudessem convir tão fortemente que cavaleiro por
ciência bastasse para ser juiz [...] como é de cavaleiro; porque aquele
por quem justiça pode ser melhor mantida é mais conveniente para ser juiz
que outro homem, com o que o cavaleiro é conveniente a ser juiz-cavaleiro.
10
Cavalgar, justar, lançar a távola, andar com armas, torneios, fazer távolas
redondas, esgrimir, caçar cervos, ursos, javalis, leões, e as outras coisas
semelhantes a estas que são ofício de cavaleiro; pois por todas essas
coisas se acostumam os cavaleiros a feitos de armas e a manter a ordem
de cavalaria. Ora, menosprezar o costume e a usança disso pelo qual o
cavaleiro é mais preparado a usar de seu ofício é menosprezar a ordem
de cavalaria.
11
Assim com todos estes usos acima ditos pertencem ao cavaleiro quanto ao
corpo, assim justiça, sabedoria, caridade, lealdade, verdade, humildade,
fortaleza, esperança, esperteza e as outras virtudes semelhantes a estas
pertencem ao cavaleiro quanto à alma. E, por isso, o cavaleiro que usa
destas coisas que pertencem à ordem de cavalaria quanto ao corpo, e não
usa quanto à alma daquelas virtudes que pertencem à cavalaria, não é amigo
da ordem de cavalaria, porque se o fosse, seguir-se-ia que o corpo e a
cavalaria juntos fossem contrários à alma e à suas virtudes, e isso não
é verdade.
12
Ofício de cavaleiro é manter terra; porque pelo pavor que as gentes têm
dos cavaleiros, duvidam em destruir as terras, e por temor dos cavaleiros,
duvidam os reis e os príncipes vir uns contra os outros. Mas o malvado
cavaleiro que não ajuda a seu senhor terrenal, natural, contra outro príncipe
é cavaleiro sem ofício, e é assim com fé sem obra, e é assim com descrença,
que é contra a fé. Logo, se esse tal cavaleiro seguisse a ordem e seu
ofício de cavalaria, cavalaria e sua ordem seriam injuriosas ao cavaleiro
que combate até a morte por justiça e pelo seu senhor, para o manter e
o defender.
13
Nenhum ofício há que seja feito que não possa ser desfeito; porque se
o que é feito não pudesse ser desfeito nem destruído, só o que é feito
seria semelhante a Deus, que não é feito nem pode ser destruído. Logo,
como o ofício de cavalaria é feito e ordenado por Deus e se mantém por
aqueles que amam a ordem de cavalaria e que estão na ordem de cavalaria,
por isso, o malvado cavaleiro que se vai da ordem de cavalaria desama
o ofício da cavalaria, desfaz em si mesmo a cavalaria.
14
Rei ou príncipe que desfaz em si mesmo ordem de cavaleiro não tão somente
desfaz cavaleiro em si mesmo como também aos cavaleiros que lhe são submetidos;
os quais, pelo mau exemplo de seu senhor e para que sejam amados por ele
e seguirem seus malvados ensinamentos, fazem o que não pertence à cavalaria
nem à sua ordem. E por isso, os malvados príncipes não tanto sómente são
contrários em si mesmo à ordem de cavalaria, que também o são em seus
submetidos, nos quais se desfaz a ordem de cavalaria. Logo, se expulsar
um cavaleiro da ordem de cavalaria é grande malvadez, muito e grande vileza
de coração, quanto mais o é quem muitos cavaleiros expulsa da ordem de
cavalaria!
15
Ah, como é grande a força de coragem no cavaleiro que vence e apodera
muitos malvados cavaleiros! O qual cavaleiro é príncipe ou alto barão
que ama tanto a ordem de cavalaria que, para muitos malvados homens que
são chamados cavaleiros e que cada dia lhe aconselhem que faça maldades,
faltas e enganos para destruir em si mesmo a cavalaria, e o bem-aventurado
príncipe, só com a nobreza de seu coração e com a ajuda que lhe faz a
cavalaria e sua ordem destrói e vence todos os inimigos da cavalaria.
16
Se cavalaria fosse em força corporal mais que em força de coragem, seguir-se-ia
que a ordem de cavalaria concordaria mais fortemente com o corpo que com
a alma, e se então fosse, o corpo teria maior nobreza que a alma. Logo,
como nobreza de coragem não pode ser vencida nem apoderada por um homem
nem por todos os homens que são, e um corpo ser vencido por outro e preso,
o malvado cavaleiro que tem mais fortemente a força do corpo quando foge
da batalha e desampara seu senhor, que pela maldade e a fraqueza de sua
coragem, não usa do ofício de cavaleiro nem é servidor nem obediente à
honrada ordem de cavalaria, que foi iniciada pela nobreza de coragem.
17
Se a menor nobreza de coragem fosse melhor conveniente com a ordem de
cavalaria que a maior, concordar-se-iam fraqueza e covardia com cavalaria
contra ardor e força de coragem; e se isto fosse assim, fraqueza e covardia
seriam ofício de cavaleiro, e ardor e força desordenariam a ordem de cavalaria.
Logo, como isto seja o contrário, por isto, se tu, cavaleiro, queres e
amas muito a cavalaria, te convém esforçar para que, quanto mais fortemente
tiver faltas de companheiros e de armas e de mantimentos, ajas ardorosamente
e com coragem e esperança contra aqueles que são contrários à cavalaria.
E se tu morres para manter a cavalaria, então tu tens a cavalaria naquilo
que mais pode amar e servir e ter, porque cavalaria em nenhum lugar está
tão agradavelmente como em nobreza de coragem; e nenhum homem não pode
mais amar nem honrar nem ter cavalaria que aquele que morre pela honra
e a ordem de cavalaria.
18
Cavalaria e ardor não se convêm sem sabedoria e sentido, porque se o fizessem,
loucura e ignorância seriam convenientes à ordem de cavalaria; e se isto
fosse assim, sabedoria e sentido, que são contrários a loucura e
ignorância, seriam contrários à ordem, e isso é impossível, pela qual
impossibilidade é significado a ti, cavaleiro que tens grande amor à ordem
de cavalaria, que assim como cavaleiro, por nobreza de coragem, te faz
haver ardor e te faz menosprezar os perigos, para que a cavalaria possas
honrar; assim à ordem de cavalaria convém que se faça amar sabedoria e
sentido, e que busquem honrar a ordem de cavalaria contra o desordenamento
e o falecimento que existem naqueles que cuidam seguir a honra da cavalaria
pela loucura e pela míngua de entendimento.
19
Ofício de cavaleiro é manter viúvas, órfãos, homens despossuídos; porque
assim como é costume e razão que os maiores ajudem a defender os menores,
e os menores achem refúgio nos maiores, assim, é costume da ordem de cavalaria
que, por isso porque é grande e honrada e poderosa, vá em socorro e ajuda
a aqueles que lhe são debaixo em honra e em força. Logo, se isto é assim,
se forçar viúvas que tem mister de ajuda, e deserdar órfãos, que tem mister
de protetor, e roubar e destruir os homens mesquinhos e despossuídos,
a quem o homem deve empenhar, se concorda com a ordem de cavalaria, maldade
e engano e crueldade e falta se convém à ordem e à nobreza e à honra;
e se isto é assim, então cavaleiro e sua ordem são contrários aos princípios
da ordem de cavalaria.
20
Se Deus deu olhos ao mesteiral para que veja obrar, ao homem pecador deu
olhos para que possa chorar seus pecados, e se ao cavaleiro deu o coração
para que seja câmara onde esteja a nobreza de sua coragem, ao cavaleiro
que tem na força e em sua honra deu coração para que nele tenha piedade
de mercê para ajudar e salvar e guardar aqueles que levam os olhos a chorar
e os corações com esperança aos cavaleiros, que os ajudem e os defendam
e os protejam de suas necessidades. Logo, cavaleiro que não tenha olhos
para que veja os despossuídos, nem coração para pensar suas necessidades,
não é verdadeiro cavaleiro nem está na ordem de cavalaria, porque é tão
alta coisa e nobre a cavalaria, que todos aqueles que são obcecados e
tem vil coragem expulsa de sua ordem e de seu benefício.
21
Se cavalaria, que é tão honrado ofício, fosse ofício de roubar e de destruir
os pobres e os despossuídos, e de enganar e de forçar as viúvas e as outras
fêmeas, bem grande e bem nobre ofício seria ajudar e manter órfãos e viúvas
e pobres. Logo, se o que é maldade e engano fosse na ordem de cavalaria
que é tão honrada, e por maldade e por falsidade e traição e crueldade
cavalaria se mantém em sua honra, muito mais fortemente sobre cavalaria
seria honrada ordem que fizesse honra pela lealdade e cortesia e liberalidade
e piedade!
22
Ofício de cavaleiro é haver castelo e cavalo para guardar os caminhos
e para defender os lavradores. Ofício de cavaleiro é ter vilas, cidades,
para manter em justa harmonia as suas gentes e para congregar e ajustar
carpinteiros em um lugar, ferreiros, sapateiros, drapeiros, mercadores,
e outros ofícios que pertencem ao ordenamento deste mundo, e que são necessários
a conservar o corpo a suas necessidades. Logo, se os cavaleiros para manter
seu ofício são tão bem alojados que são senhores de castelos e vilas e
cidades, se destruir vilas, castelos, cremar cidades, cortar as árvores,
as plantas, e matar o bestiário e roubar os caminhos fosse ofício e ordem
de cavaleiro, obrar e edificar castelos, fortes, vilas, cidades, defender
lavradores ter atalaias para manter os caminhos seguros, e as outras coisas
semelhantes a estas seria desordenamento da cavalaria; e se isto fosse
assim, a razão pela qual a cavalaria é constituída seria uma única mesma
coisa com o seu desordenamento e seu contrário.
23
Traidores, ladrões, salteadores devem estar sob o encalço dos cavaleiros,
porque assim como o machado é feito para destruir as árvores, assim cavaleiro
tem seu ofício para destruir os maus homens. Logo, se cavaleiro é salteador,
ladrão, traidor, e os salteadores, traidores e ladrões devem ser mortos
pelos cavaleiros, e presos, se o cavaleiro que é ladrão ou traidor ou
salteador quer usar de seu ofício e usa em outro de seu ofício, mate e
prenda a si mesmo; e se em si mesmo não for usar de seu ofício, e usa
em outro de seu ofício, com ordem de cavalaria se convém melhor em outro
que em si mesmo. Não é coisa lícita que nenhum homem mate a si mesmo,
e por isso cavaleiro que seja ladrão, traidor e salteador deve ser destruído
e morto por outro cavaleiro. E cavaleiro que sofre e mantenha cavaleiro
traidor, salteador, ladrão, não usa de seu ofício; porque se usasse de
seu ofício, contra seu ofício faria se os homens ladrões, traidores que
não são cavaleiros matasse e destruísse.
24
Se tu, cavaleiro, tem dor ou algum mal em uma mão, aquele mal mais próximo
está da outra mão que de mim ou outro homem; logo, cavaleiro que seja
traidor e ladrão e salteador mais próximo está seu vício e sua falta a
ti, que és cavaleiro, que a mim, que não sou cavaleiro. Logo, se o teu
mal te dá mais trabalho que o meu, porque escusas e manténs cavaleiro
um inimigo da honra de cavalaria? E porque blasfemas os homens que não
são cavaleiros pelas faltas que fazem?
25
Cavaleiro ladrão maior latrocínio faz à alta honra de cavalaria quando
se retira dela ou quando ela retira o seu nome, que quando rouba dinheiro
ou outras coisas; porque roubar honra é dar vileza e má fama àquela coisa
que é digna de ser louvada e honrada; e como honra e honradez valem
mais que dinheiro, que ouro e prata, por isso é maior falta envilecer
a cavalaria que roubar dinheiro e outras coisas que não são a cavalaria.
E se isto não fosse assim, seguir-se-ia que dinheiro e as coisas que o
homem rouba seriam melhores que o homem, ou que era maior latrocínio roubar
um dinheiro do que roubar muitos dinheiros.
26
Se homem traidor que mata seu senhor ou dorme com sua mulher ou se entrega
seu castelo é cavaleiro, que coisa é o homem que morre para honrar e defender
seu senhor? E se o cavaleiro traidor é objeto da blandícia de seu senhor,
qual falta poderá fazer para que seja punido ou repreendido? E se o senhor
não mantém a honra de cavalaria contra seu cavaleiro traidor, quem a manterá?
E o senhor que não destrói seu traidor, qual coisa destruiria, e por que
é senhor e homem e coisa nula?
27
Se ofício de cavaleiro é reptar ou combater o traidor, e se ofício de
cavaleiro traidor é esconder-se e combater o leal cavaleiro, que coisa
é ofício de cavaleiro? E se coragem tão malvada como é a coragem do cavaleiro
traidor cuida vencer coragem do cavaleiro leal, a alta coragem do cavaleiro
que combate pela lealdade, que coisa cuida vencer e sobrar? E se o cavaleiro
amigo de cavalaria e de lealdade é vencido, qual é o pecado feito e onde
foi parar a honra de cavalaria?
28
Se roubar fosse ofício de cavaleiro, dar seria contrário à ordem de cavalaria;
e se dar fosse conveniente a algum ofício, quanto de valor seria aquele
homem que tivesse o ofício de dar! E se dar as coisas roubadas conviesse
com a honra de cavalaria, restituir, com quem conviriam? E se tirar o
que Deus dá deve possuir o cavaleiro, que coisa é que o cavaleiro não
deve possuir?
29
Pouco sabe de encomendar quem ao lobo faminto encomenda suas ovelhas,
e quem sua mulher bela encomenda ao cavaleiro jovem traidor, e quem seu
forte castelo encomenda ao cavaleiro avaro e salteador. E se um tal homem
sabia pouco de encomendar suas coisas, quem é aquele que seus bens sabe
encomendar, e qual é aquele que suas encomendas sabe reter e guardar?
30
Tem visto algum cavaleiro que seu castelo não queira recuperar? E visto
um cavaleiro que não queira sua mulher guardar de cavaleiro traidor? E
visto algum cavaleiro salteador que não roube escondido? E se nenhum destes
cavaleiros tem visto, regra nem ordem os poderá retornar à ordem de cavalaria.
31
Ter reluzente seu arnês e bem cuidado seu cavalo é ofício de cavaleiro.
E se jogar suas armas e seu cavalo é ofício de cavaleiro, donde, é ofício
de cavaleiro o que é e o que não é; logo, se isto é assim, donde ofício
de cavaleiro é e não é; logo, como ser e não ser são contrários, e destruir
seu arnês não é cavalaria, e donde, cavalaria sem armas qual coisa é?
E por qual razão és nominado cavaleiro?
32
É mandamento de lei que o homem não seja perjuro. Logo, se fazer falsamente
uma sagração não é contra a ordem de cavalaria, Deus, que fez o mandamento,
e cavalaria, são contrários; e se o são, onde está a honra de cavalaria,
e qual coisa é seu ofício? E se Deus e cavalaria são convenientes, convém
que jurar falsamente não se dê naqueles que mantêm a cavalaria. E se fazer
voto e prometer a Deus e jurar em vão não se dá no cavaleiro, o que é
seu e em que está a cavalaria?
33
Se justiça e luxúria se convêm, cavalaria, que se convêm com justiça,
se convêm com luxúria. E se cavalaria e luxúria se convêm, castidade,
que é o contrário da luxúria, é contra a honra de cavalaria; e se isto
é assim, seria verdade que cavaleiros quisessem honrar a cavalaria para
manter a luxúria. E se justiça e luxúria são contrários, e cavalaria é
para manter justiça, então cavaleiro luxurioso e cavalaria são contrários,
e se o são, na cavalaria deveria ser esquivado mais fortemente o vício
da lúxúria, o que não é; e se fosse punido o vício da luxúria segundo
deveria, de nenhuma ordem não seriam expulsos tantos homens como da ordem
de cavalaria.
34
Se justiça e humildade fossem contrárias, cavalaria, que concorda com
justiça, seria contra a humildade e concordar-se-ia com orgulho. E se
cavaleiro orgulhoso mantém ofício de cavalaria, outra cavalaria foi aquela
que começou pela justiça e para manter os homens humildes contra os orgulhosos
injustos. E se isto é assim, os cavaleiros que são destes tempos não estão
na ordem na qual eram os outros cavaleiros que foram primeiros; e se estes
cavaleiros que agora estão têm a regra e usam o ofício do qual usavam
os primeiros, orgulho nem maldade existem nestes cavaleiros que vemos
orgulhosos e injuriosos; e se o que parece que seja orgulho e injúria
nada é, então, humildade e justiça em que estão e onde estão e o que são?
35
Se justiça e paz fossem contrárias, cavalaria, que concorda com justiça,
seria contrária à paz; e se o é, então estes cavaleiros que são
inimigos da paz e amam guerras e trabalhos são cavaleiros, e aqueles que
pacificam as gentes e fogem de trabalhos são injuriosos e são contra cavalaria.
Logo, se isto é assim, e os cavaleiros que agora estão usam do ofício
de cavalaria se são injuriosos e guerreiros e amadores do mal e de trabalhos,
pergunto qual coisa eram os primeiros cavaleiros, que se concordavam com
justiça e com paz, pacificando os homens pela justiça e pela força das
armas? Pois assim como nos tempos primeiros era ofício de cavaleiro pacificar
os homens pela força das armas, e se os cavaleiros guerreiros injuriosos,
que estão nestes tempos em que estamos, não estão na ordem de cavalaria
nem possuem ofício de cavaleiro, onde está cavalaria, e quais e quantos
são aqueles que estão em sua ordem?
36
Muitas maneiras são porque cavaleiro pode e deve usar do ofício da cavalaria,
e como nós temos de tratar de outras coisas, por isso nós passamos o mais
abreviadamente possível, e mormente como o fizemos a pedido de um cortês
escudeiro, leal, verdadeiro, que por longo tempo têm seguido a regra de
cavaleiro, temos feito este livro abreviadamente, porque em breve tempo
deve ser armado novo cavaleiro.
III. DO EXAME DO ESCUDEIRO QUE DESEJA ENTRAR NA
ORDEM DE CAVALARIA
1
Ao examinar o escudeiro convém que o examinador seja cavaleiro amante
da ordem de cavalaria, porque alguns cavaleiros são que amam maior número
de cavaleiros que sejam bons; e porque cavalaria não observa multidão
de número e ama nobreza de coragem e de bons modos, por isso, se o examinador
ama mais multidão de cavaleiros que nobreza de cavalaria, é incoveniente
que seja examinador, e seria mister que fosse examinado e repreendido
da injúria que faz à alta honra de cavalaria.
2
No princípio, convém perguntar ao escudeiro que deseja ser cavaleiro se
ama e teme a Deus, porque sem amar e temer a Deus nenhum homem é digno
de entrar na ordem de cavalaria, e o temor faz vacilar ante as faltas
pelas quais cavalaria adquire desonra. Logo, quando sucede que o escudeiro
que não ama nem tem Deus é feito cavaleiro, se o escudeiro adquire honra
por receber cavalaria, cavalaria recebe desonra no escudeiro que não a
recebe honrando Deus, que tem honrado a cavalaria. E como receber honra
e dar desonra não se convêm, por isso escudeiro sem amor e temor não é
digno de ser cavaleiro.
3
Assim como cavaleiro sem cavalo não se convém com o ofício de cavalaria,
assim escudeiro sem nobreza de coragem não se convém com ordem de cavalaria;
porque nobreza de coragem foi o começo da cavalaria e vileza de coragem
é a destruição da ordem de cavaleiro. Logo, se escudeiro com vileza de
coragem deseja ser cavaleiro, então deseja destruir a ordem que demanda;
e se é contra a ordem, porque demanda a ordem? E o cavaleiro que faz escudeiro
com vileza de coragem, porque desfaz sua ordem?
4
Não demandes à boca nobreza de coragem, porque toda hora não diz verdade.
Nem a demandes a honradas vestimentas, porque sob um honrado manto está
um vil coração e fraco, onde está maldade e engano; nem nobreza de coragem
demandes ao cavalo, porque não te poderá responder; nem demandes nobreza
de coração às guarnições nem ao arnês, porque dentro das grandes guarnições
pode estar traidor coração e malvado. Logo, se desejas encontrar nobreza
de coragem demanda à fé, esperança caridade, justiça, fortaleza, lealdade,
e às outras virtudes, porque naquelas está nobreza de coragem, e por aquelas
o nobre coração do cavaleiro se defende da maldade e do engano e dos inimigos
da cavalaria.
5
Idade conveniente se convém ao novo cavaleiro. E se é muito jovem o escudeiro
que deseja ser cavaleiro, não pode haver aprendido os ensinamentos que
pertencem ao escudeiro antes que seja cavaleiro; e não poderá também relembrar
o que prometeu à honra de cavalaria, se é na infância feito novo cavaleiro.
E se o escudeiro é velho e tem debilidade de corpo e deseja ser cavaleiro,
antes que fosse velho fez injúria à cavalaria, que é mantida pelos fortes
combatentes e é aviltada pelos fracos, despossuídos, vencidos, fugitivos.
6
Assim como no meio está a medida da virtude e seu contrário está nos dois
extremos, que são vício, assim cavalaria está na idade que convém ao cavaleiro,
porque se não o fosse, seguir-se-ia que contrariedade haveria entre meio
e cavalaria, e se houvesse, virtude e cavalaria seriam contrárias. E se
o são, tu escudeiro, que demasiadamente demoras e tardas a ser cavaleiro,
porque desejas entrar na ordem de cavalaria?
7
Se por beleza de feições e pelo grande corpo acorde com ruivos cabelos
e pelo espelho na bolsa, escudeiro deve ser armado cavaleiro o belo
filho de camponês ou da bela fêmea poderá ser cavaleiro, e se o fazes,
desonras a antigüidade da honrada linhagem e a menosprezas, e a nobreza
que Deus deu mais ao homem que à mulher rebaixas em vileza. E por tal
menosprezo e desonra aviltas e rebaixas a ordem de cavalaria.
8
Linhagem e cavalaria se convêm e se concordam, porque linhagem não é mais
que continuada honra anciã, e cavalaria é ordem e regra que se mantém
desde o começo dos tempos em que foi iniciada, que adentrou até os tempos
em que estamos. Logo, porque linhagem e cavalaria se convêm, se fazes
cavaleiro homem que não seja de linhagem, tu fazes ser contrário linhagem
e cavalaria naquilo que fazes; e por isso, aquele que faz cavaleiro é
contra linhagem e cavalaria, e se o é cavaleiro, que é isso em que está
a cavalaria?
9
Se tu tens tanto poder na ordem de cavalaria que aí podes meter quem não
lhe convém, necessariamente convém que tu ajas de tanto poder que busques
tirar da ordem de cavalaria aquele que por linhagem é conveniente para
ser cavaleiro. E se cavalaria tem tanta virtude que tu não lhe possa tirar
sua honra nem aqueles que por linhagem lhe convêm, então tu não podes
haver poder para fazer cavaleiro homem vil de linhagem.
10
A respeito da natureza corporal, tão honrada é a natureza nas árvores
e nas bestas quanto nos homens; mas, pela nobreza da alma racional, que
participa tão somente do corpo do homem, por isso, a natureza tem maior
virtude no corpo humano do que no corpo das bestas. Por isso, a ordem
de cavalaria consente que, pelos muitos nobres costumes e pelos muitos
nobres feitos e pela nobreza do príncipe possa ter a cavalaria algum homem
de nova honrada linhagem. E se isso não fosse assim, seguir-se-ia que,
cavalaria fosse mais conveniente à natureza do corpo do que à virtude
da alma, e isso não é verdade, uma vez que a nobreza de coragem que convém
à cavalaria, convém melhor com a alma do que com o corpo.
11
Segundo o exame do escudeiro que deverá ser cavaleiro, convém que se pergunte
sobre seus ensinamentos e seus costumes, porque se malvados ensinamentos
e malvados costumes expulsam da ordem de cavalaria os malvados cavaleiros,
quanto menos é coisa conveniente que malvado escudeiro seja cavaleiro,
e que entre na ordem de onde deveria sair por feitos vis e por desagradáveis
costumes!
12
Se cavalaria se convém tão fortemente com valor que todos os amigos de
desonra são expulsos de sua ordem, se a cavalaria não recebesse aqueles
que têm valor e a amam e a mantêm, seguir-se-ia que a cavalaria poderia
ser destruída por vileza, e não poderia refazer-se em nobreza. E como
isso não é verdade, por isso tu, cavaleiro que examinas o escudeiro, és
mais fortemente obrigado a enxergar valor e nobreza no escudeiro que em
nenhuma outra coisa.
13
Deveis saber por qual intenção o escudeiro tem vontade de ser cavaleiro;
porque se quer cavalaria para ser rico ou para senhorear ou para ser honrado,
sem fazer honra à cavalaria nem honra aos honrados que a cavalaria dá
honorificência e honra, amando a cavalaria ama sua desonra, pela qual
desonra és indigno que pela cavalaria haja riqueza, nem bem-estar nem
honorificência. Assim como intenção se desmente aos clérigos que
são eleitos prelados por simonia, assim malvado escudeiro desmente sua
vontade e sua intenção quando deseja ser cavaleiro contra a ordem de cavalaria;
e se clérigo em tudo quanto faz é contra a prelazia, se há em si simonia,
escudeiro em tudo quanto faz é contra a ordem de cavalaria, se com falsa
intenção possui o ofício de cavalaria.
14
Ao escudeiro que deseja cavalaria convém saber a grande carga de cavalaria
e os grandes perigos que são destinados a aqueles que desejam manter a
cavalaria; porque o cavaleiro deve mais hesitar a censura das gentes do
que a morte, e vergonha deve dar maior paixão a sua coragem do que a fome,
sede, calor, frio ou outra paixão e trabalho a seu corpo. E por isso todos
estes perigos devem ser mostrados e denunciados ao escudeiro antes que
seja armado cavaleiro.
15
Cavalaria não pode ser mantida sem o arnês que pertence ao cavaleiro,
nem sem os honrados feitos e as grandes despesas que convêm ao ofício
de cavalaria. E por isso, escudeiro sem armas e que não possua tanta riqueza
que possa manter cavalaria não deve ser cavaleiro, porque por falta de
riqueza falha o arnês, e por enfraquecimento do arnês e despesas, malvado
cavaleiro torna-se roubador, traidor, ladrão, mentiroso, falso, e de outros
vícios que são contrários à ordem de cavalaria.
16
Homem aleijado ou gordo e grande, ou que possua outro vício em seu corpo
pelo qual não possa fazer uso do ofício de cavaleiro não deve estar na
ordem de cavalaria; porque vileza é da ordem de cavalaria se recebe homem
que seja debilitado, corrompido e incapaz de portar arnês. E é tão nobre
e alta a cavalaria em sua honorificência que nem riqueza, nem nobreza
de coração, nem de linhagem não bastam ao escudeiro que seja mutilado
em algum membro.
17
Interrogado e investigado deve ser o escudeiro que demanda cavalaria se
fez maldade ou engano que seja contra a ordem de cavalaria; porque tal
falta poderá haver feito, e tanto pode crescer à falta que fez, que não
é digno que a cavalaria o receba em sua ordem, nem que lhe faça companheiro
daqueles que mantêm a honra de cavalaria.
18
Se o escudeiro tem vanglória do que faz, não parece que seja bom para
cavaleiro, porque vanglória é vício que destrói os méritos e as recompensas
dos bons feitos que são dados pela cavalaria. Nem o escudeiro adulador
não se convém com o ofício de cavaleiro, porque adulador tem intenção
corrompida, pela qual corrupção destrói e mutila a vontade e a lealdade
que convém à coragem do cavaleiro.
19
Orgulhoso escudeiro, mal ensinado, sujo em suas palavras e em suas vestimentas,
com cruel coração, avaro, mentiroso, desleal, preguiçoso, irascícel e
luxurioso, embriagado, glutão, perjuro, ou que possua outros vícios semelhantes
a estes não é conveniente à ordem de cavalaria. Logo, se cavalaria pudesse
receber aqueles que são contra sua ordem, seguir-se-ia que ordem e desordenação
seriam uma mesma coisa; logo, como cavalaria seja pura ordenação de valor,
por isso deve ser examinado todo escudeiro antes que seja cavaleiro.
IV. DA MANEIRA SEGUNDO A QUAL O ESCUDEIRO DEVE
RECEBER A CAVALARIA
1
No princípio, quando o escudeiro deve entrar na ordem de cavalaria, convém
que se confesse das faltas que fez contra Deus, o qual vai servir na ordem
de cavalaria; e se é sem pecado, deve receber o corpo de Jesus Cristo
segundo o que se convém.
2
Para fazer cavaleiro, convém uma festa das honradas do ano, para que pela
honra da festa se ajustem muitos homens naquele dia e naquele lugar
onde o escudeiro deve ser feito cavaleiro: e que todos orem a Deus pelo
escudeiro, que Deus lhe dê graça e bênção pela qual seja leal à ordem
de cavalaria.
3
O escudeiro deve jejuar na vigília da festa, por honra do santo da festa.
E deve vir a Igreja orar a Deus na noite antes do dia que deve ser feito
cavaleiro; deve velar e estar em preces e em contemplação e ouvir palavras
de Deus e da ordem de cavalaria; e se escuta jograis que cantam e falam
de putarias e pecados, no começo que entra na ordem de cavalaria começa
a desonrar e a menosprezar a ordem de cavalaria.
4
No dia seguinte, convém que a missa seja cantada solenemente. E o escudeiro
deve vir diante do altar e deve se oferecer ao presbítero, que está no
lugar de Deus, e à ordem de cavalaria, para tal que seja servidor de Deus.
E convém que se obrigue e se submeta a honrar e a manter a ordem de cavalaria
em todo seu poder. Naquele dia convém ser feito sermão, no qual sejam
recontados os catorze artigos nos quais é fundada a fé, os dez mandamentos
e os sete sacramentos da santa Igreja, e as outras coisas que pertencem
à fé. E o escudeiro deve relembrar fortemente todas estas coisas para
que saiba harmonizar o ofício de cavalaria com as coisas que pertencem
à santa fé católica.
5
Os catorze artigos são estes: crer num Deus é o primeiro artigo. Crer
no Pai e no Filho e no Espírito Santo são três artigos. E convém que o
homem creia que o Pai e o Filho e o Espírito Santo sejam um Deus eternamente,
sem fim nem começo. Crer que Deus seja criador de tudo quanto é, é o quinto.
O sexto é crer que Deus seja recriador, isto é, que tenha redimido a humana
linhagem do pecado que Adão e Eva fizeram. O sétimo é crer que Deus dará
glória a aqueles que estão no Paraíso. Estes sete artigos pertencem à
deidade. Aqueles outros sete pertencem à humanidade, que o Filho de Deus
tomou em Nossa Dona Santa Maria, os quais sete são estes: crer que Jesus
Cristo foi concebido do Espírito Santo quando São Gabriel saudou Nossa
Dona é o primeiro. Segundo é crer que Jesus Cristo tenha nascido. Terceiro
é que tenha sido crucificado e morto para nos salvar. Quarto é que desceu
a Sua alma ao Inferno para salvar Adão e Abraão e os outros profetas
que creram em sua vinda antes que morressem. Quinto é crer que Jesus Cristo
tenha ressuscitado. Sexto é crer que tenha subido ao Céu no dia
da Ascensão. Sétimo é crer que Jesus Cristo virá no dia do Juízo, quando
todos forem ressuscitados e julgará os bons e os maus. Todo homem é obrigado
a crer nestes catorze artigos que são testemunhos de Deus e de Suas obras;
e sem estes artigos nenhum homem pode ser salvo.
6
Os dez mandamentos que Deus deu a Moisés no monte Sinai são estes: um
Deus tão somente adorarás e servirás. Não sejas perjuro. Guardarás o sábado
e honrarás teu pai e tua mãe. Não farás homicídio. Não fornicarás. Não
farás latrocínio. Não farás falso testemunho. Não invejarás a mulher de
teu próximo. Não terás inveja dos bens de teu próximo. A todo cavaleiro
convém saber estes dez mandamentos para que sua ordem não seja desobediente
aos mandamentos que Deus deu.
7
Os sete sacramentos da santa Igreja são estes: batismo, confirmação, o
sacrifício do altar, a penitência que o homem faz de seus pecados, as
ordens que o bispo faz quando faz presbíteros e diáconos e subdiáconos,
matrimônio, unção. Por estes sete sacramentos nos havemos de salvar. E
a honrar e a cumprir estes sete sacramentos é obrigado o sacramento
da cavalaria; e por isso, pertence a todo cavaleiro que saiba quais coisas
seu ofício é obrigado.
8
De todas estas coisas ditas acima deve pregar o presbítero, e das outras
coisas que pertencem à cavalaria. E o escudeiro que deseja ser cavaleiro
deve orar a Deus que lhe dê graça e a bênção com que possa ser, por todo
o tempo de sua vida, seu servidor.
9
Quando o presbítero tiver feito o que pertence a seu ofício, então convém
que o príncipe ou alto barão que deseja fazer cavaleiro o escudeiro que
demanda cavalaria possua virtude e ordem de cavalaria em si mesmo, para
tal que possa, pela graça de Deus, dar virtude e ordem de cavalaria ao
escudeiro que deseja ordem e virtude de cavalaria. E se o cavaleiro não
é ordenado nem virtuoso em si mesmo, não pode dar o que não tem, e é de
pior condição que as plantas, que têm virtude de dar a umas e outras sua
natureza, e isso mesmo se segue com as bestas e as aves.
10
Esse tal cavaleiro malvado que desordenadamente deseja fazer e multiplicar
a ordem, injúria faz à cavalaria e ao escudeiro; e disso por que ele deveria
ser desfeito, deseja fazer o que não convém que seja feito. E pela falta
desse tal cavaleiro acontece algumas vezes que o escudeiro que recebe
cavalaria não é tão ajudado pela graça de Deus nem pela virtude de cavalaria;
onde, por isso, todo escudeiro que desse tal cavaleiro recebe cavalaria
é louco.
11
O escudeiro, diante do altar, deve ajoelhar-se, e que levante seus olhos
a Deus, corporais e espirituais, e suas mãos a Deus. E o cavaleiro deve
cingir-lhe a espada, para significar castidade e justiça; e, como significado
de caridade deve beijar seu escudeiro e dar-lhe uma bofetada para que
se lembre disso que prometeu e do grande cargo a que se obriga e da grande
honra que recebe pela ordem de cavalaria.
12
Depois que o cavaleiro espiritual e o cavaleiro terrenal tiverem cumprido
seu ofício em fazer novo cavaleiro, o cavaleiro novo deve cavalgar e deve
mostrar-se às gentes, para que todos saibam que ele é cavaleiro e que
se obrigou a manter e a defender a honra de cavalaria; porque quanto mais
gentes saibam de sua cavalaria, maior refreamento terá o novo cavaleiro
a fazer novas faltas que sejam contra sua ordem.
13
Naquele dia deve ser feita grande festa de oferecimento, de convites,
justas, e das outras coisas que se convém à festa de cavalaria. E o senhor
que faz cavaleiro deve dar ao novo cavaleiro e aos outros novos cavaleiros;
e o cavaleiro novo deve dar, naquele dia, porque quem recebe tão grande
dom como é a ordem de cavalaria, sua ordem desmente se não dá segundo
deve dar. Todas estas coisas e muitas outras que seriam longas de contar
pertencem ao fato de dar cavalaria.
V. DO SIGNIFICADO QUE EXISTE NAS ARMAS DE CAVALEIRO
1
Tudo que o presbítero veste para cantar na missa tem algum significado
que se convém ao seu ofício; e porque ofício de clérigo e ofício de cavaleiro
se convêm, por isso ordem de cavalaria requer que tudo o que é mister
ao cavaleiro usar de seu ofício tenha alguma significação, pela qual seja
significada a nobreza da ordem de cavalaria.
2
Ao cavaleiro é dada a espada, que é feita à semelhança da cruz, para significar
que assim como nosso Senhor Jesus Cristo venceu a morte na cruz na qual
tínhamos caído pelo pecado de nosso pai Adão, assim o cavaleiro deve vencer
e destruir os inimigos da cruz com a espada. E porque a espada é cortante
em cada parte, e cavalaria é para manter a justiça, e justiça é dar a
cada um o seu direito, por isso a espada do cavaleiro significa que o
cavaleiro com a espada mantêm a cavalaria e a justiça.
3
A lança é dada ao cavaleiro para significar a verdade, porque verdade
é coisa direita e não se torce; e verdade vai diante da falsidade. E o
ferro da lança significa a força que a verdade tem sobre a falsidade;
e o pendão significa que a verdade se demonstra a todos, e não há poder
de falsidade nem de engano; e verdade é a base da esperança, e assim das
outras coisas que são significadas de verdade pela lança do cavaleiro.
4
Chapéu de ferro é dado ao cavaleiro para significar vergonha, porque cavaleiro
sem vergonha não pode ser obediente à ordem de cavalaria. Logo, assim
como a vergonha faz o homem ser vergonhoso, e faz o homem ter seus olhos
na terra, assim o chapéu defende o homem das coisas altas e o mira à terra,
e é o meio que está entre as coisas baixas e as coisas altas. E assim
como o chapéu defende a cabeça que é o mais alto e o principal membro
que existe no homem, assim a vergonha defende o cavaleiro, que é, após
o ofício de clérigo, o mais alto ofício que existe, que não se inclina
a vis feitos, nem a nobreza de sua coragem não deve descer à maldade nem
ao engano nem a nenhum mau ensinamento.
5
Cota de malha significa castelo e muro contra vícios e faltas; porque
assim como castelo e muro estão contidos em volta para que homem não possa
entrar, assim cota de malha é encerrada por todas as partes e tampada
para que dê significado à nobre coragem de cavaleiro para que não possa
entrar nela traição nem orgulho nem deslealdade nem nenhum outro vício.
6
Calças de ferro são dadas a cavaleiro para manter seguros seus pés e suas
pernas, para significar que cavaleiro deve manter seguros os caminhos
com ferro, isto é, com espada e com lança, com maça e com as outras armas.
7
Esporas são dadas a cavaleiro para significar diligência e esperteza e
ânsia com que possa manter honrada sua ordem; porque assim como com as
esporas esporeia o cavaleiro seu cavalo para que se cuide e que corra
o mais velozmente que possa, assim diligência faz cuidar as coisas que
convêm ser, e esperteza faz o homem guardar de ser surpreendido, e ânsia
faz procurar o arnês e a despesa que é mister à honra de cavalaria.
8
Gorjeira é dada ao cavaleiro como significado de obediência; porque
cavaleiro que não é obediente a seu senhor nem à ordem de cavalaria, desonra
seu senhor e vai-se da ordem de cavalaria. Logo, assim como a gorjeira
envolve o colo do cavaleiro para que esteja defendido de feridas e golpes,
assim obediência faz estar o cavaleiro dentro dos mandamentos de seu senhorio
maior e dentro da ordem de cavalaria, para que traição nem orgulho nem
injúria nem outro vício não corrompa o sacramento que o cavaleiro tem
feito a seu senhor e a cavalaria.
9
Maça é dada ao cavaleiro para significar força de coragem; porque assim
como a maça é contra todas as armas, e dá e fere de todas as partes, assim
a força de coragem defende cavaleiro de todos os vícios e fortifica as
virtudes e os bons costumes pelos quais cavaleiro mantém a honra de cavalaria.
10
Misericórdia é dada a cavaleiro para que se lhe falharem armas, que se
torne à misericórdia; porque se está tão próximo a seu inimigo que não
o possa ferir com lança nem com espada nem com maça, que lhe faça golpe
com a misericórdia. Logo, esta arma, misericórdia, significa que o cavaleiro
não deve confiar em suas armas nem em sua força, e deve-se tanto acostar
a Deus por esperança que com esperança e com Deus combate seus inimigos
e aqueles que são contrários a cavalaria.
11
Escudo é dado ao cavaleiro para significar ofício de cavaleiro, porque
assim como o escudo mete o cavaleiro entre si e seu inimigo, assim o cavaleiro
é o meio que está entre rei e seu povo. E assim como o golpe fere antes
no escudo que em o corpo do cavaleiro, assim cavaleiro deve parar seu
corpo diante de seu senhor se algum homem desejar pendurar ou ferir seu
senhor.
12
A sela em que cavalga o cavaleiro significa segurança de coragem e carga
de cavalaria; porque assim como pela sela cavaleiro está seguro sobre
seu cavalo, assim segurança de coragem faz estar de cara o cavaleiro na
batalha, pela qual segurança sucede ventura amiga de cavalaria. E por
segurança são menosprezadas muitas covardes presunções e muitas vãs semelhanças,
e são refreados muitos homens que não temem passar avante no lugar onde
coragem nobre faz estar seguro o corpo do cavaleiro. E tanto é grande
a carga de cavalaria que por ligeiras coisas não se devem mover os cavaleiros.
13
Cavalo é dado ao cavaleiro por significado de nobreza de coragem e para
que seja mais alto montado a cavalo que outro homem, e que seja visto
de longe, e que mais coisas tenha debaixo de si, e que antes seja em tudo
o que se convém à honra de cavalaria que outro homem.
14
Ao cavalo é dado freio e às mãos do cavaleiro são dados reinos, à significar
que cavaleiro, pelo freio, refreie sua boca de parlar feias palavras e
falsas, refreie suas mãos, que não dê tanto que haja de querer, nem seja
tão ardente que de seu ardor expulse a sensatez. E pelos reinos, entenda
que ele se deixe conduzir até qualquer parte a ordem de cavalaria o deseje
empregar e enviar; e quando for mister, alargue suas mãos e faça despesa
e dê segundo o que se convém à sua honra, e seja ardoroso e não hesite
seus inimigos, e quando hesitar de ferir, deixe fraqueza de coragem. E
se disso o cavaleiro faz o contrário, seu cavalo, que é besta e que não
possui razão, segue melhor a regra e o ofício de cavalaria que o cavaleiro.
15
Testeira é dada ao cavalo para significar que todo cavaleiro não deve
fazer de armas sem razão; porque assim como a cabeça do cavaleiro vai
primeiro, diante do cavaleiro, assim o cavaleiro deve levar diante a razão
em tudo o que faz; porque obra que seja sem razão possui tanta vileza
em si que não deve existir diante de cavaleiro. Logo, assim como a testeira
guarda e defende a cabeça do cavaleiro, assim razão guarda e defende cavaleiro
de blasfêmia e de vergonha.
16
Guarnições do cavalo defendem cavalo; e pelas guarnições é feito o significado
que o cavaleiro deve guardar e custodiar seus bens e suas riquezas, para
tal que possa bastar ao ofício de cavalaria. Porque assim como o cavalo
não poderia ser defendido de golpes e de feridas sem guarnições, assim
cavaleiro sem estes bens temporais não poderia manter a honra de cavalaria
nem poderia ser defendido de malvados pensamentos, porque pobreza faz
homem cogitar enganos e traições.
17
Perponte dá significado ao cavaleiro dos grandes trabalhos os quais lhe
convém sofrer para honrar a ordem de cavalaria. Porque assim como o perponte
está por cima de outras guarnições e está ao sol e à chuva e ao vento,
e recebe antes os golpes que a loriga e por todas as partes é combatido
e ferido, assim cavaleiro é eleito para maiores trabalhos que outro homem;
porque todos os homens que estão abaixo de sua nobreza e abaixo de sua
guarda hão de recorrer a cavaleiro, e cavaleiro deve a todos defender;
e antes deve cavaleiro ser ferido e chagado e morto que os homens que
lhe estão encomendados. Logo, como isso é assim, donde grande é a carga
de cavalaria; logo, por isso são os príncipes e os altos barões em tão
grande trabalho postos a reger e a defender suas terras e seu povo.
18
Sinal no escudo e na sela e no perponte é dado ao cavaleiro para ser louvado
dos ardores que faz e dos golpes que dá na batalha; e se é traidor e fraco
e reincidente, lhe é dado o sinal para que seja difamado e repreendido.
E porque sinal é dado a cavaleiro para que seja conhecido se é amigo ou
inimigo de cavalaria, por isso cada cavaleiro deve honrar seu sinal, para
que se guarde da difamação, que expulsa cavaleiro da ordem de cavalaria.
19
Bandeira é dada ao rei e ao príncipe e ao senhor de cavaleiros para significar
que os cavaleiros devem manter a honra do senhor e de sua herdade; porque
na honra do reino e do principado e na honra de seu senhor são honrados
pelas gentes; e na desonra da terra onde estão e do senhor de quem são,
os cavaleiros são mais difamados que outros homens. Porque assim como
pela honra devem ser mais louvados, porque coração a honra mais está neles
que em outros homens, assim na desonra devem ser mais difamados que outros
homens, porque coração pela sua fraqueza ou traição são mais fortemente
deserdados reis e príncipes e altos barões, e são perdidos mais reinos
e condados e outras terras que pela fraqueza e traição de novos outros
homens que não sejam cavaleiros.
VI. DOS COSTUMES QUE PERTENCEM A CAVALEIRO
1
Se a nobreza de coragem elegeu o cavaleiro sobre os homens que lhe estão
abaixo em servidão, nobreza de costumes e de bons ensinamentos se convém
ao cavaleiro, porque nobreza de coragem não pode subir na alta honra de
cavalaria sem eleição de virtudes e de bons costumes. Logo, como isso
é assim, então necessariamente se convém que cavaleiro convenha com bons
costumes e bons ensinamentos.
2
Todo cavaleiro deve saber as sete virtudes que são raiz e princípio de
todos os bons costumes e são vias e carreiras da celestial glória perdurável.
Das quais sete virtudes são as três teologais e as quatro cardeais. As
teologais são fé, esperança, caridade. As cardeais são justiça, prudência,
fortaleza, temperança.
3
Cavaleiro sem fé não pode ser bem acostumado porque, pela fé vê o homem
espiritualmente a Deus e suas obras crendo nas coisas invisíveis. E pela
fé o homem tem esperança, caridade, lealdade, e é o homem servidor da
verdade. E pela fraqueza de fé, o homem descrê em Deus e suas obras e
nas coisas verdadeiras invisíveis, às quais o homem sem fé não pode entender
nem saber.
4
Pela fé que existe nos cavaleiros bem acostumados, vão os cavaleiros à
Terra Santa de Ultramar em peregrinação e fazem armas contra os inimigos
da cruz, e são mártires quando morrem para exaltar a santa fé católica.
E pela fé defendem os clérigos dos malvados homens que por fraqueza de
fé os menosprezam, e os roubam, e os desertam tanto quanto podem.
5
Esperança é virtude que se convêm muito fortemente ao ofício de cavaleiro
porque, pela esperança relembram de Deus na batalha, em Suas coitas e
em Suas atribulações; e pela esperança que têm em Deus recebem socorro
e ajuda de Deus, que vence a batalha por razão da maior esperança e confiança
que os cavaleiros têm no poder de Deus do que em suas forças e em suas
armas. Com a esperança fortalece-se e retorna a coragem ao cavaleiro;
e a esperança faz suportar trabalhos, e faz aventurar os cavaleiros nos
perigos em que se metem; e a esperança os faz suportar fome e sede nos
castelos e nas cidades que defendem quando são assediados. E se não houvesse
esperança, cavaleiro não teria como usar o ofício de cavalaria.
6
Cavaleiro sem caridade não pode ser sem crueldade e má vontade; e porque
crueldade e má vontade não se convêm com o ofício de cavalaria, por isso
caridade se convém ao cavaleiro. Porque se cavaleiro não tem caridade
para com Deus e seu próximo, com que amará a Deus e com que terá piedade
dos homens despossuídos e com que fará mercê dos homens vencidos que demandam
mercê? E se caridade não há no cavaleiro, como poderá ser cavaleiro na
ordem de cavalaria? Caridade é virtude que ajusta uma virtude com outra
e separa um vício do outro; e caridade é amor do qual pode ter todo cavaleiro
e todo homem tanto quanto dele haja mister para manter seu ofício. E caridade
torna mais fácil a grande carga de cavalaria, e assim como o cavalo sem
patas não poderia suportar a carga do cavaleiro, assim nenhum cavaleiro
sem caridade não pode sustentar o grande cargo que uma nobre coragem de
cavaleiro sustenta para honrar a cavalaria.
7.
Se homem sem corpo fosse homem, homem seria coisa invisível, e se o fosse,
homem não seria o que é. Logo, se o cavaleiro fosse no ofício de cavalaria
sem justiça convém que justiça não fosse o que é, ou que cavalaria fosse
outra coisa contra aquela coisa que cavalaria é. E como cavalaria tem
princípio de justiça, qual cavaleiro que está acostumado a fazer coisas
tortas e injúrias cuida estar na ordem de cavalaria? Desfazer cavaleiro
é como romper a correia da espada por trás e lhe é levada a espada, para
significar que não torna útil cavalaria. Logo, se cavalaria e justiça
se covêm tão fortemente que cavalaria não pode ser sem justiça, aquele
cavaleiro que faz injúria a si mesmo e é inimigo da justiça desfaz a si
mesmo e renega e menospreza a ordem de cavalaria.
8
Prudência é virtude pela qual o homem tem conhecimento do bem e do mal,
e pela qual o homem tem sabedoria para ser amante do bem e a ser inimigo
do mal; e prudência é ciência pela qual o homem tem conhecimento das coisas
vindouras com as coisas presentes; e prudência é quando, por algumas cautelas
e maestrias, sabe o homem se esquivar dos danos corporais e espirituais.
Logo, como os cavaleiros são para encalçar e destruir os males, e porque
nenhum homem se mete em tantos perigos como os cavaleiros, qual coisa
é mais necessária ao cavaleiro que a prudência? Usança de cavaleiro de
guarnecer e de combater não se convém tão fortemente com o ofício de cavalaria
como faz usança de razão e de entendimento e de vontade ordenada; porque
mais batalhas são vencidas pela maestria e sensatez que pela multidão
de gentes ou de guarnições ou de cavaleiros. Logo, como isso é assim,
se tu cavaleiro desejas acostumar teu filho ao ofício de cavaleiro para
manter a honra da cavalaria, saiba-o acostumar a usar de razão e entendimento
e tudo o que possa, para que seja amante do bem e inimigo do mal; porque
por tal usança, prudência e cavalaria se ajustem e se convenham para sempre
honrar o cavaleiro.
9
Fortaleza é virtude que está em nobre coragem contra os sete pecados mortais,
que são carreiras pelas quais vai-se aos infernais tormentos que não têm
fim: glutonia, luxúria, avareza, acídia, soberba, invídia, ira. Logo,
cavaleiro que vai por tais carreiras não vai ao hospital onde a nobreza
de coração faz sua habitação e sua estada.
10
Glutonia engendra debilidade do corpo por gula e embriaguez; e glutonia
atrai pobreza por desprender massa em comer e em beber; e glutonia carrega
tanto o corpo de viandas que engendra preguiça e fraqueza. Logo,
como todos estes vícios são contrários a cavaleiro, por isso a forte coragem
do cavaleiro os combate com abstinência e com continência e se tempera
contra a gula e contra seus valedores.
11
Luxúria e fortaleza combatem uma contra a outra. Logo, as armas com que
luxúria combate fortaleza são juventude, belas feições, muito comer e
beber, ornadas vestimentas, ocasião propícia, falsidade, traição, injúria,
menosprezo de Deus e do Paraíso, e pouco temor das infernais penas e com
as outras armas semelhantes a estas. Fortaleza combate a luxúria relembrando
Deus e seus mandamentos, e entendendo Deus e os bens e os males que pode
dar, e amando a Deus porque é digno de ser amado e temido, honrado, obedecido;
e fortaleza combate luxúria com nobreza de coragem, que não se deseja
submeter a malvados e a sujos pensamentos, nem deseja descer de sua alta
honra para estar na blasfêmia das gentes. Logo, como o cavaleiro é dito
cavaleiro para combater os vícios com força de coragem, cavaleiro sem
fortaleza não possui coração de cavaleiro nem tem as armas com as quais
cavaleiro deve combater.
12
Avareza é vício que desce sobre a coragem para a submeter às coisas vis;
logo, pela falta de nobre coragem que não defende o nobre coração de cavaleiro
contra a avareza, são os cavaleiros cobiçosos e avaros, e pela cobiça
fazem injúrias e coisas tortas e fazem-se submetidos e cativos daqueles
bens que Deus Lhes tem submetidos. Fortaleza tem tal costume que não ajuda
nenhum inimigo seu, e se o homem não lhe demanda ajuda, não deseja ajudar
o homem; porque é tão nobre a força de coragem e alta coisa em si mesma,
e tanta honra lhe convém ser feita, que nas correrias e nos trabalhos
deve ser apelada e ajuda lhe deve ser demandada. Logo, quando o cavaleiro
é tentado pela avareza a inclinar sua nobre coragem à alguma maldade,
deslealdade, traição, então deve recorrer à fortaleza, a qual não encontrará
fraqueza nem covardia nem enfraquecimento nem falta de socorro e ajuda.
E porque com fortaleza o nobre coração pode ser forte e pode vencer todos
os vícios, avaro cavaleiro, diabo, por que não és nobre, forte de coragem,
por tal que não seja submetido pela avareza a vis obras e a vis pensamentos?
Porque se avareza e cavalaria se conviessem, usurário, por que não és
cavaleiro?
13
Acídia é vício pelo qual o homem é amante do mal e inimigo do bem; logo,
este é o vício pelo qual o homem melhor pode ver sinais no homem de danação
que por outro vício, e pelo contrário da acídia, melhor pode o homem conhecer
sinais da salvação que por outra virtude. Logo, quem deseja vencer e superar
a acídia convém que haja fortaleza em seu coração pela qual vença a natureza
do corpo que pela corrupção e o pecado de Adão é aparelhada ao mal. O
homem que possui acídia todas as vezes que faz o bem naquilo encontra
desagrado, e quando o homem faz dano, tem desagrado quando o dano não
é maior; e por isso, tal homem, do bem e do mal dos outros homens, tem
trabalho e mal. Logo, uma vez que desprazer dá paixão e trabalho à pessoa,
se tu, cavaleiro, desejas vencer este vício, convém pregar à fortaleza
que fortaleça tua coragem contra acídia, a qual a fortaleza vence, relembrando
que Deus, se faz bem a um homem ou a muitos, por tudo isso não se segue
que não possa fazer bem a tu, uma vez que não lhe dá tudo quanto existe
nem a tu não tira nada teu.
14
Soberba é vício de desigualdade, porque homem orgulhoso não deseja haver
par nem igual e por isso ama estar só. E porque humildade e fortaleza
são duas virtudes e amam igualdade e são contra o orgulho, se tu, cavaleiro
orgulhoso, desejas vencer teu orgulho, ajusta em tua coragem humildade
e fortaleza; porque humildade sem fortaleza não é forte contra orgulho,
porque na humildade onde não existe fortaleza, força não existe, e orgulho
sem força pode ser vencido. Quando estiveres guarnecido com todas as armas
sobre teu grande cavalo serás orgulhoso? Não, se a força da humildade
te faz relembrar a razão pela qual é cavaleiro, e se és orgulhoso, não
terás força em tua coragem para vencer e expulsar (de tua coragem) os
pensamentos orgulhosos. Se fores derrubado de teu cavalo e estiveres preso
e vencido, serás tão orgulhoso como eras? Não, porque força corporal terá
vencido e superado o orgulho na coragem do cavaleiro, não obstante que
nobreza de coragem não seja coisa corporal, quanto mais fortaleza e humildade,
que são coisas espirituais, devem expulsar o orgulho de nobre coragem,
que é nobreza espiritual!
15
Invídia é inveja desagradável à justiça, caridade, largueza, que se convém
com ordem de cavalaria. Logo, quando o cavaleiro possui fraca coragem,
não pode sustentar nem seguir ordem de cavalaria. Por falta de fortaleza,
que não está na coragem do cavaleiro, a inveja expulsa de sua coragem
justiça, caridade, largueza; e por isso, é o cavaleiro invejoso de haver
outros bens e é preguiçoso para ganhar semelhantes bens pela força das
armas, e por isso diz mal daquelas coisas que gostaria de possuir daqueles
que as possuem. Logo, por isso, inveja lhe faz cogitar como pudesse fazer
enganos e faltas.
16
Ira é turvamento na coragem, de relembrar e entender a vontade; e pelo
turvamento, a relembrança se converte em esquecimento, e o entendimento
em ignorância, e a vontade em irritação. Logo, como lembrar e entender,
vontade é iluminação pela qual cavaleiro busca seguir as carreiras de
cavalaria, que ira e turvamento do espírito desejam expulsar de sua coragem,
convém que recorra à força de coragem, caridade, abstinência, paciência,
que são refreamento da ira e alívio dos trabalhos que a ira dá. Tanto
quando a ira é maior, tanto é maior a força que vem à ira com caridade,
abstinência, paciência; e onde a força é maior, menor é a ira e maior
é a caridade, abstinência, paciência; e pela minoridade da ira e pela
maioridade das virtudes acima ditas, má vontade, impaciência, e os outros
vícios são menores, e onde menores são os vícios e maiores são as virtudes,
maior é justiça, sabedoria; e pela maioridade da justiça, sabedoria, é
maior a ordem de cavalaria.
Havemos dito a maneira segundo a qual fortaleza está
na coragem do cavaleiro contra os sete pecados mortais. Agora diremos
da temperança.
17
Temperança é virtude que está no meio de dois vícios: um vício é pecado
pelo excesso de grandeza, o outro é pecado por pouco excesso de quantidade.
E por isso, entre muito e pouco convém estar a temperança, em tão conveniente
quantidade que seja virtude; porque se não fosse virtude, entre muito
e pouco não haveria meio termo, e isso não é verdade. Cavaleiro bem acostumado
deve ser temperado em ardor e em comer, e em beber, e em parlar, que se
convém com mentir, e em vestir, que há feito amizade com vanglória, e
em ser esbanjador, e em todas as outras coisas semelhantes a estas. E
sem temperança não poderia manter a honra de cavalaria, nem a poderia
fazer estar no meio, que é virtude por seu corpo não estar nas extremidades.
18
Usança de cavaleiro deve ser ouvir missa e sermão e adorar e pregar e
temer a Deus; porque, por tal costume, cavaleiro cogita na morte e na
vileza deste mundo e demanda a Deus a celestial glória e teme as infernais
penas, e por isso, usa das virtudes e dos costumes que pertencem à ordem
de cavalaria. Mas cavaleiro que disso faz contrário e crê em augúrios
e presságios, faz contra Deus, e possui maior fé e esperança no vento
de sua cabeça e nas obras que fazem as aves e nos presságios, que em Deus
e Suas obras. E por isso, tal cavaleiro não é agradável a Deus nem mantêm
a ordem de cavalaria.
19
O carpinteiro nem o sapateiro nem os outros mesteirais não poderiam usar
de seus ofícios sem a arte e a maneira que pertence a seu ofício. Logo,
como Deus tem dado razão e discrição a cavaleiro para que saiba usar de
feitos de armas quando mantém a regra e a arte de cavalaria, e o cavaleiro
deixa sua discrição e seu entendimento — e razão lhe significa e lhe demonstra
— e expulsa nobreza de sua coragem e segue augúrios e presságios, então
é assim como o homem louco que não usa de razão e faz à aventura o que
faz. E por isso, tal cavaleiro é contra Deus e, segundo a razão, deve
ser vencido e superado pelo seu inimigo que usa contra ele de razão e
de discrição e da esperança que possui em Deus. E se isto não fosse assim,
seguir-se-ia que augúrios e presságios e alma sem razão se conviessem
melhor à ordem de cavalaria que Deus, discrição, fé, esperança e nobreza
de coragem, e isso é impossível.
20
Assim como o juiz segue seu ofício quando julga segundo testemunhas, assim
cavaleiro faz seu ofício quando usa de razão e de discrição, que lhe são
testemunhas disso que deve fazer em feitos de armas. E assim como o juiz
daria falsa sentença se não julgasse segundo testemunhos e julgasse por
augúrios e presságios, assim cavaleiro faz contra o que é de seu ofício
quando desmente o que a razão e discrição lhe demonstra, e crê só o que
as aves fazem por suas necessidades e por seu corpo vão voando à aventura
pelo ar. Logo, como isto é assim, donde por isso cavaleiro deve seguir
a razão e a discrição e o significado que as armas significam, segundo
o que acima havemos dito; e do que só que se faz a aventura, não deve
fazer necessidade nem costume.
21
Ao cavaleiro se convém que seja amador do bem comum, porque para comunidade
de gentes foi eleita cavalaria, e bem comum é maior e mais necessário
que o bem especial. E ao cavaleiro se convém belamente parlar e belamente
vestir e haver belo arnês e ter grande albergue, porque todas estas coisas
são necessárias para honrar cavalaria. Ensinamento e cavalaria se convêm,
porque vilania e ligeiras palavras são contra a cavalaria. Privança de
bons homens, lealdade, verdade, ardor, verdadeira largueza, honestidade,
humildade, piedade e as outras coisas semelhantes a estas pertencem ao
cavaleiro, porque assim como homem deve conhecer a Deus toda nobreza,
assim cavaleiro deve homem comparar tudo seu como cavalaria recebe honra
por aqueles que estão em sua ordem.
22
Pelo costume e bons modos que cavaleiro faz a seu cavalo não é tão mantida
a honra da cavalaria como é no costume e nos bons modos que cavaleiro
faz em si mesmo e em seu filho; porque cavalaria não está no cavalo nem
nas armas, antes está no cavaleiro. Logo, por isso, cavaleiro que acostuma
bem seu cavalo e acostuma a si mesmo e seu filho a malvados modos, faria
de si mesmo e de seu filho, se fazê-lo pudesse, besta, e faria de seu
cavalo, cavaleiro.
VII. DA HONRA QUE DEVE SER FEITA A CAVALEIRO
1
Deus tem honrado cavaleiro e o povo tem honrado cavaleiro segundo é recontado
neste livro. E cavalaria é honrado ofício e é muito necessário ao regimento
do mundo. E por isso, cavaleiro, por todas estas razões e por muitas outras,
deve ser honrado pelas gentes.
2
Se rei e príncipe e senhor de terra devem ser cavaleiros, porque sem que
não tivesse a honra que pertence a cavaleiro não merece ser príncipe nem
senhor de terra, donde os cavaleiros devem ser honrados pelos reis e pelos
altos barões, porque assim como os cavaleiros fazem estar honrados os
reis e os altos senhores sobre os outros homens, assim os reis e os barões
devem ter honrados os cavaleiros sobre os outros homens.
3
Cavalaria e franqueza se convêm; e a franqueza e a senhoria do rei ou
do príncipe se convêm, porque o cavaleiro convém ser franco para que o
rei e o príncipe seja senhor. E como isto é assim, por isso convém que
a honra do rei ou de qualquer que seja seu senhor, se convenha com a honra
do cavaleiro, em tal maneira que o senhor de terra seja senhor e o cavaleiro
seja honrado.
4
À honra de cavaleiro se convém que seja amado, porque é bom; e que seja
temido, porque é forte; e que seja louvado, porque é de bons feitos; e
que seja pregador, porque é privado e conselheiro do senhor. Logo, menosprezar
cavaleiro porque corpo é daquela mesma natureza da qual o homem é, é menosprezar
todas as coisas acima ditas, pelas quais cavaleiro deve ser honrado.
5
Senhor que em sua corte e em seu conselho e em sua távola faz honra a
cavaleiro, faz honra a si mesmo na batalha. E senhor que de sábio cavaleiro
faz mensageiro, encomenda sua honra à nobreza de coragem. E senhor que
multiplica honra em cavaleiro que seja seu servidor, multiplica sua honra
mesma. E senhor que ajuda e mantém cavaleiro, ordena seu ofício e mantém
seu senhorio. E senhor que é privado com cavaleiro, possui amizade com
cavalaria.
6
Demandar mulher de cavaleiro e incliná-la à maldade não é honra de cavaleiro.
Nem mulher de cavaleiro que tem filho de vilão não honra cavaleiro e destrói
a antigüidade da linhagem de cavaleiro, nem cavaleiro que por desonestidade
possua filho de vil fêmea não honra linhagem nem cavalaria. Logo, como
isso é assim, donde linhagem em dona e em cavaleiro, por virtude do matrimônio,
se convém com a honra da cavalaria, e o contrário é a destruição de cavalaria.
7
Se os homens que não são cavaleiros são obrigados a honrar cavaleiro,
quanto mais cavaleiro é obrigado a honrar a si mesmo e seu par cavaleiro!
E se cavaleiro é obrigado a honrar seu corpo e ser bem montado e gentilmente
vestido e adereçado, e de boas pessoas servido, quanto mais deve honrar
sua nobre coragem pela qual é cavaleiro! A qual nobre coragem é desonrada
quando cavaleiro aí mete vis e malvados pensamentos, e enganos e traições,
e expulsa de sua coragem os pensamentos nobres que pertencem à nobreza
de coragem.
8
Cavaleiro que desonra a si mesmo e a seu par cavaleiro não deve ser digno
de honra e de honraria, porque se o fosse, injúria seria feita a cavaleiro
que cavalaria tem honrada em si mesmo e em outro. Logo, como cavalaria
é e está no cavaleiro, quem pode tanto honrar ou desonrar cavalaria como
cavaleiro?
9
Muitas são as honrarias, os honramentos que pertencem ser feitos a cavaleiro;
e quanto maiores são, mais encarregado é cavaleiro a honrar cavalaria.
E porque nós havemos a parlar do livro que é da ordem de clerezia, por
isso parlamos tão brevemente do Livro da Ordem de Cavalaria, o
qual é findo à glória e à bênção de Nosso Senhor Deus.
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