Erotismo estético medieval

O tema das Virgens Néscias e Prudentes (Mt 25, 1-13) em Sant Quirze de Pedret (séc. XII) e em esculturas das catedrais de Freiburg (c. 1300) e de Estrasburgo (c. 1280-1300)

Ricardo da COSTA

Conferência proferida no dia -- de julho de 2021 no
III Simposi Internacional [on line] Delits Prohibits:
sexe, erotisme, bellesa, estètica, gaudi, dret, pecat i prohibició.
Un esguard des dels clàssics, l’etnopòetica, la història i la lingüística de corpus
.
evento organizado por ISIC-IVITRA a ocorrer na
Universitat d'Alacant (UA)
 

***

Resumo: O objetivo do trabalho é analisar três expressões artísticas medievais da Parábola bíblica das Virgens Sábias e Loucas (Mt 25,1-13): os afrescos da abside meridional da Igreja de Sant Quirze de Pedret (século XII) e as esculturas das catedrais de Freiburg (c. 1300) e Estrasburgo (c. 1280-1300). Da seriedade dos afrescos do românico catalão à expressividade gótica das esculturas alemãs.

Abstract: The objective of the work is to analyse three medieval artistic expressions of the biblical Parable of the Wise and Foolish Virgins (Mt 25, 1-13): the frescoes the southern apse from Pedret (12th century) and the sculptures of the cathedrals of Freiburg (c. 1300) and Strasbourg (c. 1280-1300). From the seriousness of Catalan Romanesque frescoes to the Gothic expressiveness of German sculptures.

Palavras-chave: Arte medieval – Românico – Gótico – Parábola das Virgens Néscias – Sant Quirze de Pedret – Catedral de Freiburg – Catedral de Estrasburgo

Keywords: Medieval Art – Romanesque – Gothic – Parable of the Wise and Foolish Virgins – Sant Quirze de Pedret – Freiburg Cathedral – Strasbourg Cathedral.

***

I. Sant Quirze de Pedret

Imagem 1

Igreja de Sant Quirze de Pedret (sécs. IX-XIII) e sua Planta. Cercs, Berguedà, Barcelona, Espanha.

Na capela radiante sul da Igreja de Sant Quirze de Pedret (sécs. IX-XIII) (imagem 1), por volta de 1100 foram pintados os mais antigos afrescos românicos da Catalunha.1 Por suas características estilísticas, eles atestam a corrente bizantinista proveniente da Itália: um desenho muito delineado, policromia intensa e uma tendência à abstração e às formas geométricas.2

No arco triunfal, muito desgastada, em uma mandorla3, a imagem da Virgem com o Menino; no muro, a parábola bíblica das Virgens Néscias e Prudentes (imagem 2), explícita alegoria apocalíptica narrada no Evangelho de São Mateus:

O Reino dos Céus será semelhante a dez virgens que, tomando suas lamparinas, saíram ao encontro do Esposo. Cinco delas eram prudentes e cinco loucas. As loucas, tomando suas lamparinas, não levaram azeite consigo. Mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, com suas lamparinas. E, tardando o Esposo, tosquenejaram todas, e adormeceram. Mas à meia-noite ouviu-se um clamor: “–Aí vem o Esposo, saí-lhe ao encontro”. Então todas aquelas virgens se levantaram e prepararam as suas lamparinas.

As loucas disseram às prudentes: “–Dai-nos do vosso azeite, porque nossas lamparinas se apagam”. Mas as prudentes responderam: “–Não seja caso que nos falte a nós e a vós, ide antes aos que o vendem, e comprai-o para vós”. E, tendo elas ido comprá-lo, chegou o Esposo, e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta. Depois chegaram também as outras virgens, e disseram: “–Senhor, Senhor, abre-nos”.

Ele respondeu: “–Em verdade vos digo que vos não conheço”. Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do Homem há de vir (os grifos são meus).

Mt 25, 1-13.

Imagem 2

Abside sul de Pedret. Afresco, final do séc. XI, início do XII, 325 x 315 x 320 cm. Museu Nacional d'Art de Catalunya (MNAC).

O Mestre de Pedret (fl. séc. XII) decidiu dividir o espaço abaixo da abóbada exatamente entre as néscias e as prudentes.4 À esquerda, as prudentes, serenas, estão sentadas à mesa, com Cristo (imagem 3).

Foram judiciosas: se prepararam para a chegada do Filho do Homem e agora desfrutam de Sua fartura e de Sua visão – como dissera São Bernardo de Claraval (1090-1153), Cristo oferece algumas primícias de Seu amor, algo que diz respeito às “...promessas das bodas nas quais Ele se deixará ver e possuir para sempre” (Terceira Série de Sentenças, 159).5

Imagem 3

As virgens prudentes (e sua reconstituição). Detalhe da Abside sul de Pedret. Afresco, final do séc. XI, início do XII, 80 x 133 cm. Museu Nacional d'Art de Catalunya (MNAC).

As virgens prudentes são sóbrias damas coroadas, aureoladas, peroladas. Hieráticas.6 Parcimoniosas, ainda que ricamente ornadas, não expressam a felicidade da Eternidade, mas a serenidade das bodas do Esposo.

Por sua vez, as néscias, à direita (imagem 4), com gesticulação marcante em suas mãos, espiritualmente agitadas, estão de pé, como que suspensas em um limbo: não mereceram o divino privilégio do descanso eterno.

Imagem 4

As virgens néscias (e sua reconstituição). Detalhe da Abside sul de Pedret. Afresco, final do séc. XI, início do XII. Museu Nacional d'Art de Catalunya (MNAC).

A reconstituição in situ do ambiente artístico, isto é, na própria capela radiante sul de Pedret (imagem 5), permite que tenhamos uma boa ideia do exuberante e vibrante mundo colorido do românico catalão. Conseguimos imaginar de modo ainda mais palpável a sensação transcendente, imponente, majestática e envolvente das imagens medievais.

Esteticamente, essa estreita relação transcendental matéria/espírito se explicava em termos analógicos, como se pode perceber nessa passagem do Comentário ao Cântico dos Cânticos (c. 1179-1189) do monge cisterciense Thomas de Perseigne (†c. 1190):

Triplex est pulchritudo: primo quando est sine macula, secundo in qua est quaedam gustus et ornatus elegantia, tertia quaedam membrorum et coloris in se trahens intuentium affectus gratia. Haec triplex pulchritudo es in anima: prima inest per peccati abolitionem, secunda per religiosam conversationem, tertia per ocultam gratiae inspirationem.

Tripla é a beleza: quando não tem mácula, quando há certa elegância do gosto e do ornato, e quando há certa graciosidade dos membros e da cor que atrai a simpatia dos espectadores. Esta tripla beleza também há na alma: pela abolição do pecado, pela conversação religiosa e pela oculta inspiração da graça (os grifos são meus).7

Imagem 5

Reconstituição da abside sul de Pedret. Igreja de Sant Quirze de Pedret. Cercs, Berguedà, Barcelona, Espanha.

Mas por que o tema das Virgens Néscias e Prudentes se revestiu de tanta gravidade no românico catalão? Por fazer parte de um dos inúmeros grupos de ciclos ilustrados do Apocalipse, tema que foi a grande fonte de inspiração da Idade Média.8

Seria necessário esperar a grande onda estilística do gótico (c. 1140-1500)9 para que os medievais contemplassem o desabrochar da dramaticidade, o eflúvio dos sentimentos mais extremados em suas imagens. Da piedade, da compaixão, da ternura.10 E do erotismo.

II. Freiburg

Imagem 6

Catedral de Freiburg (1200-1513). Construção gótica (silhar de arenito) em três fases: 1) 1120, sob o reinado do duque Conrado I de Zähringen (1090-1152) – o transepto (românico tardio); 2) 1210 (torre, com 16 sinos, concluída em 1330) e 3) 1230 (gótico francês), com o presbitério (1354-1513).

Diferentemente de outras catedrais góticas, a de Freiburg abriga um vestíbulo em seu Portão de entrada, abaixo de sua torre (concluída em 1330), ambiente decorado com delicadas esculturas policromadas de ambos os lados (imagem 7). À direita da entrada, de fora para dentro, na ordem:

1) Santa Catarina de Alexandria (com sua Roda característica11);
2) Santa Margarida;
3) as sete Artes Liberais;
4) as cinco Virgens Néscias e, completando as quatro longas arquivoltas do Portão (à direita do observador),
5) a Sinagoga (com venda nos olhos);
6) a personificação da Visitação (Lc 1, 39-56);
7) Maria e
8) o Arcanjo Gabriel.

Imagem 7

Vestíbulo do Portal da Catedral de Freiburg (c. 1300).

À esquerda, mas de dentro para fora, na ordem:

1) os Três Reis Magos e a Ecclesia, de azul (nas quatro arquivoltas);
2) Cristo (de túnica vermelha) como esposo das
3) cinco Virgens Prudentes;
4) Madalena;
5) Abraão;
6) João Batista (com o cordeiro) (Jo 1, 29);
7) Isabel;
8) Zacarias;
9) um anjo;
10) a Luxúria e, por fim;
11) o Tentador, Príncipe do Mundo.12

O Tentador está no fim da sequência de esculturas para servir de advertência, aos que saem da Igreja, para os perigos da mundanidade do mundo (imagem 8).

Imagem 8

O Tentador, a Volúpia e um anjo. Detalhe do Vestíbulo da Catedral de Freiburg (c. 1300).

O Tentador e a Volúpia encarnam os vícios humanos. O sorridente anjo ao lado porta uma faixa, em que está escrito: Ne intretis (“Não entre”, isto é, “não caia em tentação!”). A Luxúria, jovem nua de cabelos dourados, longas sobrancelhas arqueadas, seios pequenos, vestida apenas com uma pele de bode com sua cabeça de longos chifres (símbolo por excelência do diabo), representa a Volúpia (Voluptas).13

O Tentador, homem elegante, com um túnica verde de botões dourados e coroa de rosas, por representar o Príncipe do Mundo, é envolvente, insinuante. Oferece uma flor a quem o contempla mas, em suas costas, está sua verdadeira (e repelente) natureza: serpentes e sapos sobem por sua túnica verde (imagem 9).14

Imagem 9

O Tentador, a Volúpia, um Anjo e o Profeta Zacarias. Detalhe do Vestíbulo da Catedral de Freiburg (c. 1300).

A dubiedade principesca expressa na escultura de O Tentador recorda a péssima imagem que Ramon Llull (1232-1316) tinha dos reis e príncipes de seu tempo: para o filósofo, eles eram perdulários, malvados, causadores de guerras, nunca tinham as portas de seus palácios abertas ao povo, eram ambiciosos, ladrões, traidores e falsos. E davam presentes aos jograis para serem louvados...

Vejo, Senhor, que quando o príncipe comeu e bebeu muito e se retirou da mesa, vêm os que tocam instrumentos, jograis e aduladores, que falam de vaidades e recitam canções que não falam senão de luxúria e coisas vãs. E assim como eles deveriam recordar a Ti e Te dar graças, têm presente coisas que não Te agradam e que servem para Te esquecer e Te desobedecer (Libro de Contemplación en Dios, III, 111, 21).15

Por sua vez, as Virgens Néscias do vestíbulo da Catedral de Freiburg (imagem 10) foram postas, a partir do Portão, ao lado da Sinagoga (de olhos vendados), representação do Antigo Testamento, mas também uma alusão à superioridade do Cristianismo sobre o Judaísmo (por isso a cegueira espiritual, expressa na venda nos olhos da Sinagoga16).

A primeira néscia, angustiada, inclina seu rosto em sua mão esquerda; a segunda é de uma resignação impassível, enquanto a terceira, tensa, tem o rosto com sulcos.

Imagem 10

A Sinagoga (de olhos vendados) e três das cinco Virgens Néscias. Detalhe do Vestíbulo da Catedral de Freiburg (c. 1300). Foto: Ricardo da Costa (nov. 2017).

Imagem 11

Duas das cinco Virgens Néscias e a Gramática, a primeira das sete Artes Liberais. Detalhe do Vestíbulo da Catedral de Freiburg (c. 1300). Foto: Ricardo da Costa (nov. 2017).

A quarta néscia, inutilmente, clama aos céus sua justa sina (imagem 11). A quinta levanta sua mão esquerda: adverte aos incautos o triste destino das imprudentes. Ao seu lado, a severa Gramática, com seu látego na mão direita erguida e duas crianças, uma de pé e outra a seus pés, lendo um livro.

As Virgens Néscias expressam toda a angústia por seu desenlace. Todas estão com suas lamparinas douradas para baixo, vazias. A riqueza e o colorido policromado de suas vestes só aumentam o contraste com o sofrimento expresso em suas posturas corporais.

Imagem 12

Da direita para a esquerda, os Três Reis Magos e a Ecclesia, de azul (nas arquivoltas do portão), Cristo (de túnica vermelha) e as três primeiras Virgens Prudentes. Vestíbulo da Catedral de Freiburg (c. 1300). Foto: Ricardo da Costa (nov. 2017).

Ao lado dos Três Reis Magos, a Ecclesia – o Novo Testamento, a noiva de Cristo17 – abre a sequência do lado esquerdo do vestíbulo, com as Virgens Prudentes (imagem 12). Sequência temporal católica: do anúncio da vinda de Cristo e o advento da Igreja ao Cristo in persona e suas prudentes noivas, isto é, a salvação das amorosas almas que se prepararam para o fim dos tempos, a Parusia (παρουσία). Do início ao fim.

Imagem 13

Da esquerda para a direita, João Batista, Abraão, Maria Madalena, as Virgens Prudentes, Cristo (de túnica vermelha) e, na arquivolta, de azul, a Ecclesia. Vestíbulo da Catedral de Freiburg (c. 1300). Foto: Ricardo da Costa (nov. 2017).

Felizes, ao lado de Cristo (de túnica vermelha), as inclinações de seus corpos e o modo como exibem suas túnicas coloridas traduzem sua confiança, sua felicidade. Sua glória. Sorridentes, altivas, elas exibem suas lamparinas, antecipadamente preparadas para o Esposo (imagem 13).

III. Estrasburgo

Imagem 14

Fachada oeste (final do séc. XIII) da Catedral de Notre-Dame de Estrasburgo (1176-1439), com os portões dedicados à infância de Cristo (esquerdo, com as imagens femininas das virtudes que triunfam sobre os vícios), a Paixão de Cristo (central, com esculturas de profetas e mártires) e o Juízo Final (direito, no qual se encontram as Virgens Néscias e Prudentes).

A respeito desse colosso gótico chamado Estrasburgo (imagem 14), Goethe (1749-1832) sentenciou:

Quando fui pela primeira vez à catedral, eu tinha a cabeça cheia de conhecimentos gerais do bom gosto. Eu louvei a harmonia das massas e a pureza das formas por ouvir falar, era um inimigo declarado das arbitrariedades confusas dos adornos góticos. Sob a rubrica ‘gótico’, semelhante a um verbete de um dicionário, juntei todos os mal-entendidos sinonímicos, termos como indeterminado, desordenado, inatural, agregado, remendado, sobrecarregado, que sempre vinham à minha cabeça (...)

Mas, com que sentimento inesperado fui surpreendido pela visão quando cheguei diante dela! Uma impressão total e grandiosa preencheu a minha alma, impressão que eu certamente pude saborear e desfrutar, mas não conhecer e esclarecer, porque consistia em milhares de particularidades harmoniosas entre si. Dizem que é assim a alegria do céu; e quantas vezes eu voltei para desfrutar essa alegria celestial e terrena, para abranger o espírito gigantesco de nossos irmãos mais velhos em suas obras. Quantas vezes eu retornei para contemplar a sua dignidade e magnificência de todos os lados, de todas as distâncias, em cada luz do dia. É difícil para o espírito humano quando a obra de seu irmão é tão sublime que ele apenas deve se ajoelhar e adorar. Quantas vezes o crepúsculo aliviou com repouso amigável meus olhos fatigados pela visão investigadora, quando por meio dela as incontáveis partes se fundiam em massas inteiras (...)

E você, meu irmão no espírito da pesquisa pela verdade e pela beleza, feche o seu ouvido a toda verborragia sobre a arte plástica, venha, desfrute e olhe (os grifos são meus).18

Com sua confessional estupefação poética, Goethe expressou a eterna e injusta mácula que o gótico – e tudo o que se refere à Idade Média – carrega no imaginário popular ocidental.19 Registro seu maravilhamento aos incautos. E prossigo.20

A fachada oeste da Catedral de Estrasburgo apresenta três portões, com esculturas esculpidas entre 1277 e 1298. O tímpano do portão da direita trata do Juízo Final. Em suas estátuas de ombreira21, o tema das Virgens Néscias e Prudentes (imagem 15), mas com uma nova monumentalidade (a mesma monumentalidade costumeiramente proporcionada às esculturas dos Profetas).

Além disso o tema aqui é associado a outro, recorrente na Arte (e na Filosofia) do período: o combate entre as virtudes e os vícios22 – no tímpano do Portão norte da fachada oeste da Catedral.

Imagem 15

Portão sul (1277-1298) da fachada oeste (final do séc. XIII) da Catedral de Notre-Dame de Estrasburgo (1176-1439), com o tímpano do Juízo Final e as estátuas de ombreira do Tentador e as Virgens Néscias (à esquerda) e Cristo e as Virgens Prudentes (à direita).

Nas estátuas de ombreira do portão sul, do lado direito, Cristo e três das Virgens Prudentes; do lado esquerdo, o Tentador e três das Virgens Néscias. As esculturas estão postas em bases chamadas de socos (ou supedâneos) em que estão esculpidas, por sua vez, cenas dos trabalhos e os meses e signos do Zodíaco. Acima das cabeças das estátuas, dosséis – cobertura ornamental que também encima tronos, altares, sepulcros, especialmente na arte gótica.23

Em relação às Virgens Prudentes, Stephen Jaeger (1940-) considera que são as mais belas representações femininas que nos restaram da Idade Média. São extraordinárias nuances de postura e de expressão facial em uma perfeita e harmônica síntese entre a aspiração do escultor de representar pessoas específicas (desejo muito gótico) e, ao mesmo tempo, a idealização de suas personalidades.24

 

 

 

 

 

- CONTINUA - 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conclusão

Imagem

As Virgens Prudentes (séc. XIII) da Catedral de Estrasburgo. Musée de l'Œuvre Notre-Dame de Strasbourg.

5. Tu ergo noli aemulari in malignantibus et mendicantibus pulchritudinem alienam, ubi perdiderint suam. Nativo quippe et interno se produnt decore nudas, quae tanto studio et pretio de diversis etvariis speciebus eius, quae praeterit, figurae mundi, foris sibi conficere satagunt, unde oculis insipientium appareant speciosae. Indignum tibi iudica formam a pellibus murium et operibus vermium mutuari; tua tibi sufficiat. Ille est verus propiusque cuiusque rei decor qui nulla interiacente materia, per se inest. O quam decenti rubore genas suffundit virgineas ingeniti gemma pudoris! Quae inaures reginarum huic comparabuntur? Nec inferioris insigne decoris disciplina praefert. O quam compositum reddit omnem puellaris corporis statum, nedum et mentis habitum, disciplina? Cervicem submittit, ponit supercilia, componit vultum, ligat oculos, cachinnos cohibet, moderatur linguam, gulam frenat, iram sedat, format incessum. Talibus decet pudicitiae vestem distingui margaritis. Istiusmodi circumdata varietate virginitas, cui gloriae merito no praefertur? Angelicae? Angelus habet virginitatem, sed non carnem, sane felicior quam [291] fortior in hac parte. Optimus et optabilis valde ornatus iste, qui et angelis possit esse invidiosus. 

5. Que tu não te exasperes com as malignas mendicantes da beleza alheia que perdem a sua. Mostram-se nuas de beleza natural interior aquelas que, com tanto afã e apreço, se consomem por fora com as mais variadas e diversas espécies desse mundo em que tudo passa para parecerem formosas aos olhares dos néscios. Considera indigno de ti emprestar tua beleza às peles de arminho ou ao produto dos vermes: a tua é suficiente. O genuíno e autêntico encanto de algo é o que lhe é natural, sem acréscimos de qualquer natureza. Que jóia preciosa é o pudor inato destilado pelas faces virgens com o rubor da castidade! Podem ser comparadas às pedras preciosas das rainhas? Não é menor a beleza que nasce da submissão a uma disciplina. Quão harmoniosa é a postura corporal das meninas e seu hábito mental graças à disciplina! Ela submete a altivez, ordena as sobrancelhas, compõe o rosto, recolhe o olhar, coíbe o riso, modera a língua, freia a gula, alivia a ira, harmoniza o porte. Estas são as pérolas que vestem as prendas da pudicícia. Que glória se pode comparar a tal arranjo virginal? A dos anjos? O anjo é virgem, mas não tem carne; é mais feliz por isso [291], mas não tão forte. Ótimo e esperançoso é esse ornamento que até os anjos podem invejar! (os grifos são meus).

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL, Carta 113, À virgem Sofia, 5.25

 

 

 

 

 

 

 

 

 

***

Fontes

GOETHE, Johann Wolfgang. Escritos sobre Arte (introd., trad. e notas: Marco Aurélio Werle). São Paulo: Associação Editorial Humanitas, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.

JACOPO DE VARAZZE. Legenda ÁureaVidas de Santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

He-goat”. In: The Medieval Bestiary. Animals in the Middle Ages.

RAMON LLULL. Libro de Contemplación en Dios. Volume II, Libro III (introd. de Julia Butiñá, trad. y notas con la colaboración de Matilde Conde, Carmen Teresa Pabón, Maria Lluïsa Ordóñez y Antonio Ortega Villoslada). Madrid: Centro de Lingüística Aplicada Atenea, 2019.

SAN BERNARDO DE CLARAVAL. Obras completas de San Bernardo V. Sermones sobre el Cantar de los Cantares. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMLXXXVII.

SAN BERNARDO DE CLARAVAL. Obras completas de San Bernardo VII. Cartas. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMXC.

SAN BERNARDO DE CLARAVAL. Obras completas de San Bernardo VIII. Sentencias y Parábolas. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMXCIII.

Bibliografia citada

ACCONCI, Alessandra. “Os programas figurativos da Igreja Cristã na Europa (mosaicos, pinturas, esculturas, vitrais, pavimentos, livros)”. In: ECO, Umberto (org.). Idade Média II. Catedrais, cavaleiros e cidades. Alfragide, Portugal: Publicações Dom Quixote, 2013, p. 544-572.

ALEXANDER, Josephine Mary. The theme of the Wise and Foolish virgins as part of the Last Judgement iconography in Flanders and Italy in the late 15th and the 16th centuries. University of St Andrews, 1981.

BERLIOZ, Jacques. “Le crapaud, animal diabolique: une exemplaire construction médiévale”. In: BERLIOZ, Jacques e POLO DE BEAULIEU, Marie-Anne (dir.). L’animal exemplaire au Moyen Age (Ve-XVe siècle). Presses universitaires de Rennes, p. 267-288.

BRITANNICA, The Editors of Encyclopaedia. “Gothic architecture”. InEncyclopedia Britannica, 10 Jan. 2020.

CHILVERS, Ian (ed.). Dicionário Oxford de Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

COSTA, Ricardo da. “Entre Chartres e Amiens. A vida cotidiana dos camponeses medievais na Arte (séc. XIII)”. In: COSTA, Ricardo da. Impressões da Idade Média. São Paulo: Livraria Resistência Cultural Editora, 2017, p. 225-241.

ECO, Umberto. “Introdução à Idade Média”. In: ECO, Umberto (dir.). Idade Média - bárbaros, cristãos e muçulmanos. Lisboa: D. Quixote, 2014, p. 13-40.

GARCÍA GARCÍA, Francisco de Assis. “Iglesia y Sinagoga”. In: Revista Digital de Iconografía Medieval, vol. V, nº 9, 2013, pp. 13-27.

HEERS, Jacques. A Idade Média, uma impostura. Lisboa: Edições Asa, 1994.

JACQUES PI, Jèssica. La estética del románico y el gótico. Madrid: A. Machado Libros, S. A., 2003.

JAEGER, Stephen. “Apêndice A: disciplina moral e escultura gótica: as virgens prudentes e as virgens tolas de Estrasburgo”. In: A inveja dos anjos. As escolas catedrais e os ideais sociais na Europa medieval (950-1200). Campinas: Kírion, 2019, p. 377-395.

JANSON, H. W. História Geral da Arte. O Mundo Antigo e a Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MARSILLA GARCÍA, Juan V. (dir.). Historia del arte medieval. Universitat de València, 2012.

Mestre de Pedret”. In: Gran enciclopèdia catalana.

PEITZ, Christian. “Die Figuren in der Turmvorhalle des Freiburger Münsters”. In: Past Present Promotions.

Notas

  • 1. Segundo a Legenda Áurea (c. 1253-1270), em 230, época do imperador Alexandre Severo (208-235), Julita, mãe de Quirce, foi torturada por ter se recusado a oferecer sacrifício aos deuses. A criança, de três anos, se debateu com o suplício da mãe e o prefeito de Tarso, na Cilícia, “...jogou a criança pela escadaria do tribunal, que ficou coberta com seus miolos”. Julita foi esfolada, coberta com pez fervendo e decapitada. JACOPO DE VARAZZE. Legenda ÁureaVidas de Santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 476-477.
  • 2. DE LA PEÑA GONZÁLEZ, Isabel Ruiz. “El românico pleno”. In: MARSILLA GARCÍA, Juan V. (dir.). Historia del arte medieval. Universitat de València, 2012, p. 178-179.
  • 3. Mandorla (it. “amêndoa”) – Também chamada auréola ou vesica piscis. Uma aura ou conjunto de linhas em forma de amêndoa que emolduram a representação do corpo de um personagem divino. É encontrada sobretudo em representações de Cristo, particularmente em cenas ocorridas após a Ressurreição (mas também, notadamente, em representações da Transfiguração), em que o Filho é visto em seu corpo glorioso. CHILVERS, Ian (ed.). Dicionário Oxford de arte. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 325.
  • 4. Mestre de Pedret”. In: Gran enciclopèdia catalana.
  • 5. SAN BERNARDO DE CLARAVAL. Obras completas de San Bernardo VIII. Sentencias y Parábolas. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMXCIII, p. 260-261.
  • 6. Hierático (gr., heros = sagrado) Termo aplicado a um estilo artístico característico, por exemplo, das culturas egípcia ou bizantina, no qual a arte baseia-se na adesão convencional a determinados tipos ou métodos fixos. Assim, o termo aplica-se também a outras manifestações de pintura e escultura religiosa, ou mesmo secular, que fazem uso de figuras rígidas ou frontais.” – CHILVERS, Ian (ed.). Dicionário Oxford de Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 254.
  • 7. Citado em JACQUES PI, Jèssica. La estética del románico y el gótico. Madrid: A. Machado Libros, S. A., 2003, p. 126-127.
  • 8. ACCONCI, Alessandra. “Os programas figurativos da Igreja Cristã na Europa (mosaicos, pinturas, esculturas, vitrais, pavimentos, livros)”. In: ECO, Umberto (org.). Idade Média II. Catedrais, cavaleiros e cidades. Alfragide, Portugal: Publicações Dom Quixote, 2013, p. 548 e 550.
  • 9. BRITANNICA, The Editors of Encyclopaedia. “Gothic architecture”. InEncyclopedia Britannica, 10 Jan. 2020.
  • 10. JANSON, H. W. História Geral da Arte I. O Mundo Antigo e a Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 462-463
  • 11. “...o prefeito aconselhou o enfurecido rei a mandar preparar em três dias quatro rodas guarnecidas de serras de ferro e de pregos muito pontiagudos, a fim de que essa máquina moesse Catarina em pedaços e o exemplo de morte tão cruel amedrontasse o resto dos cristãos. Dispuseram-se duas rodas que deviam girar numa direção, ao mesmo tempo que duas outras seriam postas em movimento no sentido contrário, de maneira que as de baixo deviam rasgar as carnes que as rodas de cima houvessem jogado nelas.” – JACOPO DE VARAZZE. Legenda Áurea. Vidas de Santos (trad., apres. e notas de Hilário Franco Jr.). São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 966.
  • 12. PEITZ, Christian. “Die Figuren in der Turmvorhalle des Freiburger Münsters”. In: Past Present Promotions.
  • 13. “O bode é uma fera lasciva, conhecida por sua natureza luxuriosa. Essa natureza o deixa tão quente que seu sangue pode dissolver o diamante, pedra que nem o fogo nem o ferro podem ferir.” – MMW, 10 B25, folio 20r.
  • 14. BERLIOZ, Jacques. “Le crapaud, animal diabolique: une exemplaire construction médiévale”. In: BERLIOZ, Jacques e POLO DE BEAULIEU, Marie-Anne (dir.). L’animal exemplaire au Moyen Age (Ve-XVe siècle). Presses universitaires de Rennes, p. 267-288.
  • 15. RAMON LLULL. Libro de Contemplación en Dios. Volume II, Libro III (introd. de Julia Butiñá, trad. y notas con la colaboración de Matilde Conde, Carmen Teresa Pabón, Maria Lluïsa Ordóñez y Antonio Ortega Villoslada). Madrid: Centro de Lingüística Aplicada Atenea, 2019, p. 70.
  • 16. GARCÍA GARCÍA, Francisco de Assis. “Iglesia y Sinagoga”. In: Revista Digital de Iconografía Medieval, vol. V, nº 9, 2013, pp. 13-27.
  • 17. “Mas a Igreja, rompido o véu da letra que mata graças à morte do Verbo Crucificado, penetra na intimidade pelo espírito da liberdade, é reconhecida e, agradecida, toma o lugar de sua rival: torna-se noiva, frui os abraços conquistados, se une no calor do espírito a Cristo, seu senhor, aproximando-se a Ele, exala o perfume da festa e o difunde entre suas companheiras e, acolhendo-O, exclama: ‘Teu nome é como o óleo derramado’. É de surpreender que seja ungida a que se abraça ao ungido?” – SAN BERNARDO DE CLARAVAL. “Sermón 14, 4”. In: SAN BERNARDO DE CLARAVAL. Obras completas de San Bernardo V. Sermones sobre el Cantar de los Cantares. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMLXXXVII, p. 212-213.
  • 18. GOETHE, Johann Wolfgang. “Sobre a arquitetura alemã, 1772. In: Escritos sobre Arte (introd., trad. e notas: Marco Aurélio Werle). São Paulo: Associação Editorial Humanitas, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008, p. 43 e 46.
  • 19. Para o tema, indico HEERS, Jacques. A Idade Média, uma impostura. Lisboa: Edições Asa, 1994.
  • 20. No Prefácio que escreveu no primeiro volume da coleção Idade Média (que dirigiu), Umberto Eco (1932-2016) elencou – e explicou – todo o elenco de lugares-comuns relacionados à Idade Média: “I. O QUE A IDADE MÉDIA NÃO É: I.1. A Idade Média não é um século; I.2. A Idade Média não é um período exclusivo da civilização europeia; I.3. Os séculos medievais não são a Idade das Trevas, as Dark Ages dos autores anglófonos; I.4. A Idade Média não tinha só uma visão sombria da vida; I.5. A Idade Média não é uma época de castelos torreados como os da Disneylândia; I.6. A Idade Média não ignora a cultura clássica; I.7. A Idade Média não repudiou a ciência da Antiguidade; I.8. A Idade Média não foi uma época em que ninguém se atrevia a ir além dos limites da sua aldeia; I.9. A Idade Média não foi apenas uma época de místicos e rigoristas; I.10. A Idade Média não é sempre misógina; I.11. A Idade Média não foi a única época iluminada por fogueiras; I.12. A Idade Média não foi apenas uma época de ortodoxia triunfante.” – ECO, Umberto. “Introdução à Idade Média”. In: ECO, Umberto (dir.). Idade Média - bárbaros, cristãos e muçulmanos. Lisboa: D. Quixote, 2014, p. 13-40.
  • 21. Estátuas de ombreira (ou jambas) são esculturas nos lados de uma porta (ou de uma janela). São frequentemente estátuas de figuras religiosas e/ou líderes seculares ou eclesiásticos. Normalmente integram um portal, acompanhadas por um dintel (retângulo acima da porta) e um trumeau (pilar central que sustenta um tímpano – nas igrejas medievais, muitas vezes com uma escultura da Virgem e o Menino).
  • 22. ALEXANDER, Josephine Mary. The theme of the Wise and Foolish virgins as part of the Last Judgement iconography in Flanders and Italy in the late 15th and the 16th centuries. University of St Andrews, 1981, p. 7.
  • 23. Em relação ao tema artístico do trabalho e os meses (e sua relação com o Zodíaco), ver COSTA, Ricardo da. “Entre Chartres e Amiens. A vida cotidiana dos camponeses medievais na Arte (séc. XIII)”. In: COSTA, Ricardo da. Impressões da Idade Média. São Paulo: Livraria Resistência Cultural Editora, 2017, p. 225-241.
  • 24. “Com lábios túmidos e narizes bem talhados, as virgens prudentes são de uma beleza assombrosa. As covinhas nos queixos e nas bochechas emprestam realismo aos retratos, sugerindo na pedra a modelagem observável que se dá no corpo humano, e não um artifício qualquer do escultor. Mas a expressividade do grupo reside especialmente na postura e na expressão facial. O modo como inclinam as cabeças, por exemplo, sugere nuances extraordinárias de caráter e de temperamento. A virgem de rosto arredondado que olha para a esquerda parece retrair-se como num passo de hesitação, mas, ao mesmo tempo, pronta para responder ao que quer que se lhe apresente. Essa tensão é criada pela posição do queixo, ligeiramente recuado em relação à testa. A postura transmite contenção de força e perscrutação, qualidades que se expressam na forma humana propriamente dita quando, inclinada a cabeça para baixo, mantém-se o olhar em linha reta, concentrado em algo à frente – e o franzir dos olhos reforça tal impressão... (os grifos são meus).” – JAEGER, Stephen. “Apêndice A: disciplina moral e escultura gótica: as virgens prudentes e as virgens tolas de Estrasburgo”. In: A inveja dos anjos. As escolas catedrais e os ideais sociais na Europa medieval (950-1200). Campinas: Kírion, 2019, p. 387.
  • 25. SAN BERNARDO DE CLARAVAL. Obras completas de San Bernardo VII. Cartas. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), MCMXC, p. 428-431.

Aprenda mais