Trabalha e Confia

As idades médias capixabas

Introdução

Uma abordagem acerca dos estudos acadêmicos sobre a Idade Média no Espírito Santo nos impôs, logo de início, uma dupla reflexão. Por um lado, a responsabilidade de realizar um levantamento sobre a produção acadêmica que, como o mundo medieval, é vasta e multifacetada. Expomo-nos ao risco de, em nosso esforço de síntese, cometer, porventura, alguns atropelos. Por isso, de antemão, fazemos o nosso mea culpa, embora estejamos compromissados com uma análise o mais ampla e completa possível.

Além disso, a segunda reflexão que veio à nossa mente reside no impacto que o medievo opera não só em nossas investigações, mas também na realidade social cotidiana. Para além do fascínio sobre o período que a cultura popular desperta no grande público – a exemplo do recente fenômeno Game of Thrones (GoT)1 – o universo medieval, sobretudo sua mentalidade (conceito algo gasto, mas ainda útil), influenciou nossa formação cultural.

Uma das possíveis projeções do pensamento da Idade Média na “terra da moqueca”, por exemplo, faz-se presente já em nossa bandeira. O lema Trabalha e confia, trazido no título deste artigo, é a abreviação de um adágio atribuído a Santo Inácio de Loyola (1491-1556), fundador da Companhia de Jesus: “trabalha como se tudo dependesse de ti e confia como se tudo dependesse de Deus”. A frase, que denuncia a presença jesuítica na formação histórica capixaba, sugere ser uma espécie de rememoração moderna do ensinamento beneditino – e medieval – ora et labora. A colonização do Brasil por Portugal, ainda que entendida como um processo próprio da Modernidade, esteve permeada por uma mentalidade típica do medievo, que não se perdeu ou se desfez com o fim cronológico tradicional da Idade Média.

Elementos como a formação religiosa de nossa sociedade, católica, e o estabelecimento de um mandonismo local – até hoje presente na atuação político-econômica de famílias influentes da elite capixaba – revelam a absorção, desde o período colonial, de estruturas feudais, em especial no campo das ideias e das relações sociais. As visões de mundo em termos de tempo, espaço e moral, por exemplo, eram ainda medievais e se projetavam sobre essa nova realidade social, política, econômica e cultural que se desenhava na América. Essa é a tese desenvolvida por Jérôme Baschet (1960- ) em A civilização feudal: do ano mil à colonização da América.2 Na qualidade de professor da Universidad Autónoma de Chiapas, no México, o medievalista francês refletiu sobre sua experiência de estudar a Idade Média em terras americanas e realizou uma ampla abordagem dos elementos constitutivos desse período histórico.

Seu objetivo, contudo, foi abordar as chamadas herencias medievales mexicanas, num esforço de compreender como esse universo, restrito à Europa, cruzou o Atlântico e se tropicalizou. Nessa obra, Baschet, discípulo de Jacques Le Goff (1924-2014), levou adiante a perspectiva da história das mentalidades, além, é claro, da noção da longa Idade Média. Le Goff elaborou essa teoria inspirado pelas múltiplas temporalidades de Braudel (1902-1985), com destaque para sua noção de longa duração3: se as estruturas mentais não acompanhavam as conjunturas políticas e econômicas, o âmbito da cultura estava, pois, inserido, nesse tempo longo, de continuidades.

Percebeu ele que a Idade Média se alongava para além da cronologia tradicional, uma vez que as formas de pensamento desse momento histórico figuravam como permanências quase até o século XIX!4 Assim, Baschet alongou ainda mais a Idade Média, não só temporal como espacialmente.

Embora não seja o nosso objetivo traçar as possíveis reminiscências medievais presentes na formação histórica do Brasil (e, naturalmente, do Espírito Santo), fizemos essa breve reflexão de cunho teórico para que o leitor perceba o alcance e a longevidade desse universo medieval para além do mundo acadêmico, e também conheça, de antemão, nossos pressupostos teórico-metodológicos.5

Certamente, os núcleos de pesquisa que apresentaremos adiante não se aproximaram do medievo para entender o momento histórico e as estruturas sociais da atualidade, mas por interesses subjetivos, por vezes pessoais (e o que no Brasil não é sobretudo pessoal?). Pesquisadores que se interessaram, gostaram e, com o tempo, aprenderam a amar a Idade Média. Fica, no entanto, essa meditação inicial de uma Idade Média que não se restringe à pena de nossa história escrita. Ela se prolonga e se faz presente, direta e indiretamente, em nossa história vivida.

I. Uma sempre incompreendida Idade Média

Antes de passarmos à abordagem dos núcleos de pesquisas medievais presentes nos estudos acadêmicos do Espírito Santo, parece-nos prudente tecer alguns comentários sobre os desafios que enfrentamos ao longo dos anos de investigação e que, possivelmente, fazem parte, em maior ou menor medida, da trajetória dos colegas de todo o Brasil. Afinal, ao mesmo tempo em que a Idade Média desperta fascínio no grande público, ela é vítima de inúmeros e traiçoeiros ataques.

Os múltiplos medievos apresentadas pela Literatura, pelo Cinema e pelas séries televisivas atuais obliteram a História. Reforçam preconceitos que os historiadores se esforçam para combater e se voltam a maldosas e persistentes elaborações como a da “Idade das Trevas”, esses terríveis dez séculos de guerras constantes e de controle ideológico ferrenho por parte da Igreja Católica.6 São desinformações disseminadas em plena “Era da Informação”!7 Infelizmente, a difusão dessa rica mitologia não parte só da mídia e do mainstream cultural. Nos últimos anos, a Universidade tem se tornado ambiente fértil para o incremento dessa realidade. Presenciamos, com preocupação, o crescimento, cada vez mais intenso, de correntes materialistas (e inclusive anticristãs) que têm dominado a interpretação historiográfica na Academia e que, por conta de suas opções político-ideológicas, desmerecem outras pesquisas com olhares distintos, que, para aqueles, não conscientizam as massas ou levantam bandeiras sociais. Nesse contexto político algo maniqueísta, esforços cultural-pluralistas parecem soçobrar em meio ao populismo que avança, dia-a-dia, rumo ao leme das universidades brasileiras.8

Imagem 1

FRIEDRICH, Caspar David. A entrada do cemitério (c. 1825). Óleo sobre tela, 143 x 110 cm, Galerie Neue Meister, Dresden, Alemanha.

Precisamos remar contra a maré, visitar o cemitério, fazer os mortos ressoarem em nós9, ir além e enxergar a multiplicidade de acontecimentos e a complexa rede de processos históricos intercambiantes que se desenvolveram entre o alvorecer e o outono da Idade Média – para usar a brilhante expressão de Johan Huizinga (1872-1945).10 O papel do pesquisador é o de se aproximar dessa temporalidade despido o máximo de toda e qualquer amarra pré-judicativa e partir de uma busca honesta (e incansável, porque inalcançável) pela verdade, por mais estranha que ela possa parecer aos nossos tempos. Como fazê-lo? Com os documentos de época, as fontes. Sempre elas.

Sempre elas porque elas devem ser sempre as balizadoras de qualquer pesquisa histórica. Antes de qualquer conjectura, hipótese ou elaboração teórica. É preciso meditá-las (traduzi-las!) e, com elas, distanciarmo-nos das prenoções de nossa própria temporalidade que obscurecem uma interpretação mais próxima da verdade histórica. É necessário estar no solitário, soturno e melancólico ambiente da pintura de Caspar David Friedrich (1774-1840) – imagem 1: o cemitério. Ele nos posiciona, discretamente, à frente do imenso portão – uma alegoria imagética da grandeza da morte diante da vida – e nos obriga a contemplar a imensidão fúnebre das sepulturas e o mórbido ambiente do passado que se desfaz por entre a névoa e as árvores.

Quando recorremos às fontes, encontramos os mortos. Não trazemos o cemitério para a urbanidade contemporânea. Braudel já meditou: a contemporaneidade nunca é muito deleitável.11 Tal como o ambiente do quadro, somos espectros à espera das almas que assombram aquele lugar sagrado e assim materializam e personificam em nós a narrativa histórica.

As fontes primárias são nossas verdadeiras – e talvez únicas – armas contra os preconceitos ainda imperantes sobre a Idade Média. Só elas são capazes de dar fôlego e de reabilitar o status e a pesquisa de nosso métier. Usemo-las!12

II. As Idades Médias capixabas

Apresentaremos quatro núcleos de pesquisa e de produção historiográfica sobre a Idade Média ainda em atividade na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Utilizamos aqui a expressão Idades Médias, no plural, para denotar a variedade temática levada a cabo por esses grupos. De fato, eles se debruçam sobre o mesmo período histórico, mas suas abordagens são amplas, diversas, múltiplas – por vezes opostas – assim como o próprio medievo.

O primeiro grupo – e mais antigo – está sob a batuta do Prof. Dr. Paulo Roberto Sodré (Departamento de Línguas e Letras) e centra suas investigações na crítica e na interpretação de exemplares do trovadorismo galego-português, com ênfase nos de gênero satírico, além de estudar os desdobramentos socioculturais dessa produção literária.

O segundo – e o mais recente (a partir de 2005) – é liderado pelo Prof. Dr. Sérgio Alberto Feldman (Departamento de História) e tem por foco os estudos sobre a alteridade, os marginalizados e os excluídos nos mundos tardo-antigo e medieval, com destaque para a questão judaica no contexto da Península Ibérica.

O terceiro é dirigido pelo Prof. Dr. Jorge Augusto da Silva Santos, que direciona suas pesquisas para a Filosofia medieval e, mais recentemente, para as estratégias de sua apropriação por parte da Filosofia contemporânea.

Finalmente, o grupo que está sob nossa coordenação, estabelecido em 2000 (no Departamento de História, hoje no de Teoria da Arte e Música), e que tem visibilidade nas cenas nacional e internacional pela multidisciplinaridade das investigações, com incursões pela História, pela Filosofia, pela Literatura e pelas Artes, sempre orientadas pela hermenêutica das fontes primárias.13

O levantamento que realizaremos, neste artigo, privilegiará as publicações em periódicos especializados e livros de autoria desses profissionais e/ou de alguns de seus orientandos (sobretudo as que estão disponíveis na Internet), pontuando, sempre que necessário, sua pertinência em relação aos projetos mais referenciais desenvolvidos.

II.1. As cantigas galego-portuguesas e a lírica trovadoresca

O Prof. Dr. Paulo Roberto Sodré, talvez o pioneiro nos estudos medievais na UFES, é mestre e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), com ênfase em Literatura portuguesa. É professor efetivo da UFES desde 1989, vinculado ao Departamento de Línguas e Letras (DLL) e ao Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL). Dedica-se ao estudo do trovadorismo galego-português e do gênero satírico na literatura lusa. Em seus primeiros projetos de pesquisa, debruçou-se sobre as chamadas cantigas de amigo e cantigas de madre, de modo a desenvolver uma análise crítico-interpretativa dessas fontes, objetos, aliás, de sua dissertação e de sua tese.

Desde 1997, Sodré coordenou 11 projetos de pesquisa, dos quais 10 tiveram como escopo o estudo das cantigas galego-portuguesas.14 O fio condutor das investigações foi, quase sempre, a análise dos elementos satíricos e cômicos presentes em tais fontes, sem perder de vista importantes temáticas subjacentes como o riso e o escárnio – e a própria noção de uma história do riso que se desenha com bastante presença no Ocidente medieval – a utilização de uma linguagem menos erudita, chula, além de questões sobre a sexualidade, o gênero e a alteridade, como é o caso de referências à homossexualidade masculina nesses textos de época (tema sobre o qual se debruçou, mais especificamente, entre 2004 e 2007).

Nesse sentido, a visão historiográfica sobre o medievo que o pesquisador desenvolveu ao longo dos anos de investigação se materializou numa perspectiva mais voltada para o âmbito da cultura, com especial destaque para a influência que as cantigas satíricas tiveram na formação linguístico-literária do português e para a maneira como elas evidenciam as relações sociais que se estabeleceram na Península Ibérica entre os séculos XII e XIV.

Mais do que analisar a lírica e os aspectos formais dessa produção a partir da crítica textual, os esforços do grupo liderado por Sodré também se direcionaram para compreender a constituição das personagens e, consequentemente, de seus estereótipos, que povoaram o imaginário dos trovadores portugueses: a donzela feia, o sodomita, o mouro, o cavaleiro, etc.

Entre 1996 e 2017, Sodré publicou 25 artigos em periódicos especializados, 4 livros de sua autoria e outros 10 na qualidade de organizador. Conta ainda com 16 textos publicados na forma de capítulos de livros. O docente também orientou cerca de 15 alunos graduandos inscritos em projetos de iniciação científica, 21 trabalhos de conclusão de curso de graduação, 14 dissertações de mestrado e 4 teses de doutorado (somadas as orientações concluídas e as em andamento). Nem todas essas publicações, é importante destacar, estão diretamente relacionadas aos estudos medievais, uma vez que o autor também transita entre temáticas da literatura portuguesa e capixaba contemporâneas, além de abordar as permanências de elementos medievais na sátira moderna. Seja como for, é destacável a extensão da produção acadêmica desenvolvida pelo núcleo de Sodré.

Gostaríamos de destacar algumas publicações do pesquisador que tiveram mais impacto no desenvolvimento das investigações sobre o medievo no Espírito Santo. Uma delas foi a coleção Fontes primárias da Idade Média15, organizada por Lênia Márcia Mongelli, professora de Literatura Portuguesa da USP, e que teve em Sodré um de seus colaboradores. Publicada em três volumes entre 1999 e 2005, constituiu-se num levantamento das fontes primárias da Idade Média existentes nas principais bibliotecas de Brasília, Goiás, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo/Assis. O trabalho foi realizado por várias equipes sob coordenação de professores universitários de cada localidade. No caso do Espírito Santo, o Prof. Sodré esteve à frente e sua contribuição resultou dos esforços de um de seus grupos de pesquisa, que já realizava esse levantamento desde 1998, sob os auspícios da Associação Brasileira de Estudos Medievais (ABREM). Ao que parece, essa foi a primeira iniciativa, em terras capixabas, relacionada à publicação de fontes primárias medievais.

Ainda na linha de tornar públicos alguns dos textos da Idade Média utilizados por pesquisadores em suas investigações, Sodré participou da organização dos três primeiros volumes da Série Estudos Medievais16, a cargo do Grupo de Trabalho de Estudos Medievais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL). Aqui, teve-se o cuidado de disponibilizar esse material na Internet, o que certamente propiciou uma maior difusão desses conhecimentos.

Três outras publicações de Sodré também lhe deram destaque como investigador da literatura medieval galego-portuguesa: 1) Um trovador na berlinda: as cantigas de amigo de Nuno Fernandez Torneol (1998)17, originalmente sua dissertação de mestrado, em que o autor apresenta um estudo da estética trovadoresca medieval e analisa, transcreve, comenta e interpreta oito cantigas de amigo desse trovador; 2) Cantigas de madre galego-portuguesas. Estudo de xéneros das cantigas líricas (2008)18, sua tese de doutorado, traduzida para o galego e publicada na Espanha, na qual o foco de investigação recai sobre parte do conjunto de cantigas de amigo que fogem à definição estrita do gênero e dão voz à figura da madre, ao invés da donzela; 3) finalmente, O riso no jogo e o jogo no riso na sátira galego-portuguesa (2010)19, ensaio em que procurou investigar o conjunto de leis organizado pelo rei e trovador Afonso X (1221-1284), produzido entre os anos de 1250 e 1270, em particular a monumental obra Las Siete Partidas. O autor observa como seu estudo pode ajudar a compreender as motivações e limites da produção da sátira do trovadorismo galego-português, específica e mais abrangentemente, da literatura satírica ocidental, sempre dividida entre a acusação e a brincadeira, à qual subjaz um teor moralista.

De maneira geral, a produção acadêmica de Sodré tem se voltado mais estritamente para o público brasileiro, com publicações em periódicos de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e Espírito Santo. Há, no entanto, três artigos de sua autoria em revistas da Espanha e da Argentina e que, da mesma forma que aqueles publicados no Brasil, têm como objeto as cantigas galego-portuguesas medievais. Além disso, percebe-se uma fraca interação do pesquisador com seus orientandos no que tange à publicação de trabalhos. Parece-nos que Sodré trilha o caminho de uma pesquisa mais solitária, seja por uma opção pessoal, seja pelas dificuldades enfrentadas nessa tortuosa vereda dos estudos medievais.

II.2. Política e Religião no Ocidente Tardo-Antigo e Medieval

O segundo núcleo de pesquisas que abordaremos é coordenado pelo Prof. Dr. Sérgio Alberto Feldman, mestre em História Social pela USP e doutor em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). É professor efetivo da UFES desde 2005, vinculado ao Departamento de História (DHiS) e ao Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas (PPGHiS). Dedica-se aos estudos de história ibérica e judaica medieval, com destaque para as noções de identidade e de alteridade, além da abordagem dos grupos sociais identificados como marginalizados e excluídos nesse contexto. Em seus primeiros grupos de pesquisa, debruçou-se sobre a questão judaica nos escritos de Isidoro de Sevilha (c. 560-636), objeto, aliás, de sua tese de doutorado, de modo a analisá-la a partir de um viés não só religioso, mas político e antropológico.

Feldman dirigiu, desde 2005, cerca de 5 projetos de pesquisa, todos ligados ao universo medieval. O cerne das investigações está na abordagem de grupos sociais marginalizados do Ocidente tardo-antigo e medieval e na sua relação com os poderes constituídos (Igreja, monarquias, Império e senhorios laicos e religiosos). Ao longo dos anos, os estudos, inicialmente centrados nos judeus e nos hereges ganharam outros focos de análise, como as bruxas, os leprosos e os homossexuais, com destaque para os conflitos entre esses grupos e a Cristandade. A visão historiográfica que conduz os trabalhos deste núcleo, portanto, é perpassada por uma compreensão sociopolítica da religião cristã e pela utilização das noções antropológicas de estabelecidos (no caso, os cristãos) e de outsiders (os marginalizados). Incorpora-se, ainda, a ideia de representação, no sentido de compreender como foram construídas as estigmatizações que visavam isolar o mundo cristão dos “efeitos malignos” da alteridade.

A produção acadêmica do pesquisador começa a se delinear antes mesmo de sua entrada na UFES. Entre 1991 e 2017, Feldman publicou 38 artigos em periódicos especializados, 5 livros de sua autoria e outros 2 como organizador, além de 23 capítulos de livros. Atuou, ainda, na orientação de quase 50 alunos vinculados a projetos de iniciação científica, 58 trabalhos de conclusão de curso de graduação, 20 dissertações de mestrado e 3 teses de doutorado (somadas as já concluídas e as em andamento).

Dentre suas publicações, destacamos o livro Amantes e bastardos: as relações conjugais e extra conjugais na alta nobreza portuguesa no final do século XIV e início do século XV (1999)20, fruto de sua dissertação de mestrado, defendida em 1987. A temática se centra no confronto da sociedade medieval portuguesa com os dilemas da sexualidade e dos valores morais inerentes aos interesses dinásticos das famílias reais e casas nobiliárquicas. Diante da impossibilidade de a moral da sociedade cristã medieval em Portugal conter as relações extraconjugais que permeavam o cotidiano de todos os estamentos sociais, o autor traz à baila o modo como se oferecia, nesse contexto, uma espécie de “válvula de escape” para alguns transgredirem as normas do casamento monogâmico e indissolúvel. A obra, originalmente publicada em Curitiba, recebeu uma nova edição pela Editora da UFES (Edufes) em 2008.21

Outra contribuição desse núcleo de pesquisa foi o livro Marginalizados e excluídos do mundo tardo antigo e medieval (2011)22, organizado pelo docente a partir de artigos próprios e de alguns de seus orientandos. Nele, foram materializados os resultados das pesquisas desenvolvidas pelos grupos que coordenou desde sua chegada à UFES, em 2005. A publicação figura como o volume 14 da Coleção Rumos da História, série voltada a livros mais concisos e didáticos, cuja coordenação esteve a cargo do Núcleo de Pesquisa e Informação Histórica (NPIH) do PPGHis.

O livro As obras de Isidoro de Sevilha e a questão judaica: perspectivas da unidade político-religiosa no reino hispano visigodo de Toledo (2017)23 também se destaca entre as produções de maior relevância do pesquisador. Sua análise se direciona a abordagem pedagógica da obra de Isidoro de Sevilha, que visava ensinar e propagar a verdade cristã numa era de pessoas iletradas. O autor se presta a compreender as origens e a evolução do antijudaísmo nos escritos do bispo, fenômeno social que resiste através dos séculos, transforma-se em antissemitismo e chega à contemporaneidade.

Diferentemente da perspectiva iniciada por Sodré, os esforços de Feldman se dirigem mais à elaboração de textos analíticos do que à edição de fontes primárias. Sua produção tem se voltado, de um modo geral, para o meio acadêmico brasileiro, com publicações em periódicos do Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Paraíba, Maranhão e Espírito Santo. O pesquisador possui um artigo publicado no exterior (França), o que testemunha um baixo engajamento de seu núcleo no estabelecimento de relações com centros de investigação estrangeiros.

Também se percebe uma fraca interação com seus orientandos nessas publicações, sendo muito restrito o número de textos em coautoria com eles. Por fim, parecem claras as dificuldades enfrentadas no sentido de dar um prosseguimento às pesquisas de seus alunos de mestrado e doutorado para além de suas defesas. Esse, aliás, parece um desafio enfrentado pelos quatro núcleos aqui abordados.

Barreiras como a própria escassez de vagas no magistério superior federal impedem a continuidade desses pesquisadores no meio universitário e acabam, de certo modo, por dificultar suas investigações. No caso de Feldman, a maior parte de seus antigos orientandos não seguiu carreira acadêmica e passou a desempenhar a função de professores da educação básica pública e privada, à exceção da Profª. Drª. Kellen Jacobsen Follador e do Prof. Dr. José Mário Gonçalves, ainda atuantes no núcleo de pesquisa que coordena e em instituições de ensino superior privadas, além da própria UFES.

II.3. , Mística e Filosofia na Idade Média

O núcleo de pesquisa coordenado pelo Prof. Dr. Jorge Augusto da Silva Santos – que assina muitas de suas publicações como Bento da Silva Santos, oriundo de sua experiência monástica na Ordem de São Bento – estabeleceu-se na UFES em 2002. O docente é mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (Itália) e mestre e doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). É professor efetivo do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPGFil).

Ao longo de sua trajetória intelectual, tem se dedicado ao estudo da Filosofia medieval, com destaque para as influências neoplatônicas e cristãs na Patrística. Desde 2010 pesquisa a relação entre Fenomenologia e Mística no “jovem” Martin Heidegger (1889-1976) por meio da leitura analítica dos cursos sobre o Cristianismo das origens. Uma visão, portanto, de releitura da Filosofia medieval a partir de reflexões contemporâneas.

Sua produção acadêmica, iniciada antes de seu ingresso na UFES, conta com a coordenação de 9 projetos de pesquisa, 33 artigos em periódicos, 15 capítulos de livros e 22 livros publicados, dos quais 03 são em coautoria, 12 organizados por ele e 4 traduções de obras clássicas. Além disso, orientou projetos de iniciação científica de 15 estudantes, 4 trabalhos de conclusão de curso de graduação e 10 dissertações de mestrado (somadas as em andamento).

Como coordenador da Coleção Patrística da Paulus Editora, entre 2007 e 2015, o Prof. Jorge pôde se dedicar à tradução e edição de obras clássicas dessa linha filosófica, de modo a contribuir para a publicização de mais fontes primárias para os estudos tardo-antigos e medievais no Brasil. Passaram pelas suas mãos textos de São João Crisóstomo (c. 347-407)24, Santo Agostinho (354-430)25, São Gregório Magno (c. 540-604)26, Gregório de Nissa (335-394)27, Orígenes (185-254)28 e São Jerônimo (347-420).29 Uma série de importância direcionada não só ao meio acadêmico, mas também à formação teológica de clérigos e fiéis católicos.

Destaca-se também, dentre suas publicações, o livro A imortalidade da alma no Fédon de Platão. Coerência e legitimidade do argumento final (1999)30 – fruto de sua tese de doutorado – em que o autor expõe o último argumento do Fédon de Platão (c. 428-347) sobre a imortalidade da alma e enfatiza a coerência e a legitimidade da prova platônica. Embora a temática abordada esteja mais ligada à Filosofia clássica, o pensamento platônico figura como um dos mais lidos, revisitados e reinterpretados pelos pensadores medievais, o que coloca este trabalho como uma importante fonte para a compreensão das elaborações filosóficas que se desenvolvem no medievo.

Fenomenologia e Idade Média (2013)31 é o livro, contudo, que marca a virada temática de suas pesquisas. Inspirado nos cursos e anotações sobre o Cristianismo das origens de Heidegger, o autor faz uma relação entre a Fenomenologia e a Idade Média com base no paradigma da descoberta do mundo de si-mesmo (Selbstwelt), que é também a morada de Deus. Essa aproximação entre as questões fenomenológicas, metodologicamente ateias em suas origens, e o mundo medieval, onde é impossível uma suspensão do juízo teológico entre os medievalistas, é paradoxal, mas não impede a prática dessa nova proposta para a Filosofia medieval. A convicção que subjaz aos capítulos desse livro é a de que o acesso às experiências religiosas ou místicas dos medievais não está fechado para o leitor que deseja “voltar às coisas mesmas”.

O caminho trilhado pelo Prof. Jorge em suas pesquisas pouco se diferenciou do de Sodré: pesquisas mais solitárias, com baixa interação de orientandos ou colegas. Talvez pela visão preconceituosa com a qual a Filosofia medieval ainda é encarada na universidade, ambiente naturalmente avesso à Metafísica, especialmente a cristã. Um desafio que está longe de ser superado.

A produção intelectual do pesquisador se voltou mais ao público brasileiro, com publicações no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Pernambuco, Sergipe e Espírito Santo, exceção feita a quatro artigos publicados no Chile, na Argentina e em Portugal. Questões como a divulgação dos resultados das pesquisas na Internet e o contato com os núcleos vizinhos também são problemáticos. O Prof. Jorge manteve, durante alguns anos, um site em que disponibilizava parte de seus trabalhos, iniciativa que foi, infelizmente, descontinuada. Da mesma maneira, o diálogo com os outros grupos de estudos medievais do Espírito Santo é bem modesto, materializado em duas publicações e em quatro eventos organizados em conjunto com o Prof. Dr. Ricardo da Costa.

II.4. História, Arte, Filosofia e Literatura na Idade Média

O quarto e último grupo que abordaremos neste texto é coordenado pelo Prof. Dr. Ricardo da Costa, mestre e doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É professor efetivo da UFES desde 2000 e pertence, atualmente, ao Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM), ao Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGA) e ao Programa de Doutorado internacional (à distância) Transferencias Interculturales e Históricas en la Europa Medieval Mediterránea do Institut Superior d’Investigació Cooperativa/IVITRA [ISIC-2012-022] da Universitat d’Alacant (UA), Espanha.

A multidisciplinaridade temática de sua produção acadêmica reflete uma trajetória que o direcionou por três diferentes departamentos da universidade: além do DTAM, também atuou nos de História e de Filosofia, entre 2000 e 2013. Nesse sentido, as questões abordadas e desenvolvidas em seus textos perpassam, por exemplo, desde a filosofia de Ramon Llull (1232-1316) e de Bernardo de Claraval (1090-1153), a reflexões sobre a educação, o imaginário e as manifestações estéticas do medievo. Se é possível identificar um fio condutor comum a todas essas elaborações, muito provavelmente ele está na noção de que é a cultura o fator preponderante do desenvolvimento histórico da Idade Média.

Desde que chegou à UFES, Costa coordenou 15 grupos de pesquisa, publicou 96 artigos em periódicos nacionais e internacionais, quase 30 livros – somados os de sua autoria, os por ele organizados e as traduções – além de 46 capítulos de livros. O número de orientações também é destacável: 50 alunos de iniciação científica, 59 trabalhos de conclusão de curso de graduação, 20 dissertações de mestrado (incluídas as em andamento) e 1 tese de doutorado.32

Dentre os livros publicados, chamam atenção o já esgotado A Guerra na Idade Média: um estudo da mentalidade de cruzada na Península Ibérica (1998)33, texto originalmente de sua dissertação de mestrado. A obra responde a um triplo propósito: esboçar um panorama geral da Península Ibérica na época da Reconquista, delinear o conceito de guerra medieval e o caso histórico português e, finalmente, alinhavar os conceitos da ideologia cavaleiresca e sua mentalidade. Já aqui, a perspectiva cultural-imaginativa acerca dos processos históricos, que ainda domina as produções do historiador, anuncia-se.

Em Testemunhos da História (2003)34, Costa coordenou um trabalho que acabou por se tornar o norteador de quase toda a sua produção acadêmica dos anos seguintes: a tradução e a edição de fontes primárias. O volume traz alguns dos principais documentos da Antiguidade Clássica e do medievo, traduzidos e apresentados por especialistas brasileiros. O esforço de síntese e de divulgação de textos basilares para a pesquisa nessas áreas, iniciado alguns anos antes cá em terras capixabas pelo Prof. Sodré, alcança continuidade nessa publicação.

A tradução de fontes primárias constituiu-se na senda trilhada por Costa e seus orientandos ao longo dos anos de pesquisas. A experiência adquirida na área remonta ao estágio doutoral que o pesquisador desenvolveu no Raimundus Lullus Institut, sediado na Universidade de Freiburg im Breisgau, Alemanha. Com a Paleografia e o catalão medieval lá aprendidos, ele pôde dar seguimento às traduções aqui no Brasil, com a contribuição de seus grupos de pesquisa. Naturalmente, a obra do filósofo Ramon Llull se tornou figura cativa. Foram traduzidos 19 textos, com 9 publicados em versão impressa: O Livro da Ordem de Cavalaria (2000)35O Livro dos Anjos (2002)36O Livro das Bestas (2006)37, O Livros dos Mil Provérbios (2007)38 Félix ou O Livro das Maravilhas (2009)39, O Livro da Passagem, O Livro Derradeiro, O Livro da Aquisição da Terra Santa (os três textos foram reunidos no livro Raimundo Lúlio e as Cruzadas40, publicado em 2009) e o Tratado de Astronomia (2016).41 Os 10 restantes encontram-se devidamente disponibilizados em seu site. Como é possível perceber, a lida direta com as fontes norteou todas as pesquisas do núcleo dirigido pelo docente. Delas é que partiram os temas, as reflexões e as análises ali desenvolvidas.

Essa perspectiva mais voltada aos textos de época se aprofundou e se internacionalizou a partir de 2010, quando se estabeleceu um convênio entre o Prof. Ricardo da Costa e o Institut Internacional Virtual de Traducció (IVITRA), projeto da UA, coordenado pelo Prof. Dr. Dr. Vicent Martines. O núcleo passou a integrar um corpo de cinquenta pesquisadores de quarenta e três universidades de treze países a trabalhar a tradução dos clássicos da Coroa de Aragão (1162-1715). A primeira missão dada por IVITRA foi a de traduzir, pela primeira vez para a língua portuguesa, a novela de cavalaria Curial e Guelfa (séc. XV), que foi publicada, em 2011, pela University of California, Santa Barbara, Estados Unidos (EUA).42 O mergulho no belo oceano da literatura catalã-aragonesa persistiu com a proposta da tradução de Lo Somni, texto trecentista de Bernat Metge (1340-1413) – um dos precursores do Humanismo em terras ibéricas – publicado em 2016.43

A visibilidade e o contato com especialistas europeus proporcionados por IVITRA representou um divisor de águas nas pesquisas direcionadas pelo núcleo. É satisfatório perceber que nossa proposta teórico-metodológica é não só compartilhada como valorizada por outros pesquisadores no exterior. Mesmo com o redirecionamento de nossa área de interesse, a partir de 2013, para as manifestações artístico-estéticas do medievo, nosso olhar de Clio permaneceu na mesma direção: a das fontes. Agora, não apenas as textuais, mas também as iconográficas, sempre em diálogo.

Diante do levantamento feito até aqui, algumas questões parecem revelar certas discrepâncias quando comparamos o nosso núcleo aos outros três aqui abordados. Em nosso caso, além do intenso trabalho de tradução e publicização das fontes – já largamente discutido – empenhamo-nos no alcance não só nacional, mas internacional de nossa produção (com publicações nos EUA, na Espanha, em Portugal, na Argentina, no Chile, no Uruguai, no México e na Costa Rica) e primamos por uma interação frequente (e crescente) com nossos orientandos nas publicações, perspectivas que, infelizmente, não têm sido acompanhadas por nossos vizinhos. Da mesma maneira, a utilização da Internet como ferramenta de divulgação dos trabalhos ainda apresenta resistências. Ficam claros, assim, alguns dos desafios que ainda temos que enfrentar se quisermos tornar mais exitosa a nossa atuação nos estudos medievais realizados no Espírito Santo.

Não poderíamos partir para nossas considerações finais sem antes apresentar a nossa pièce de resistance. Nossa mais recente publicação (de setembro de 2017) testemunha o desejo de que nossa produção acadêmica não fique restrita aos nossos pares. Em Impressões da Idade Média44, fazemos uma viagem pelos quatro pilares essenciais para conhecer e compreender o medievo: História, Literatura, Filosofia e Artes. O livro é uma coletânea de 12 artigos de nossa produção mais recente que se dividem pelas seções citadas, na tentativa de apresentar ao leitor as múltiplas e incompreendidas Idades Médias. O leitmotiv que dá sentido às nossas abordagens é, uma vez mais, a cultura. Para nossa surpresa, a publicação foi proposta por um projeto editorial alternativo e resultou de uma campanha de crowdfunding, financiamento coletivo via Internet no qual os leitores tornam-se também benfeitores do projeto.

Considerações finais

Nosso esforço de síntese, diante da vasta produção acadêmica por parte dos três núcleos capixabas de estudos medievais, implicou exclusões inevitáveis e indesejadas. Contudo, nosso levantamento não tem, de maneira alguma, a pretensão de ser definitivo. É apenas, e não mais que isso, um breve, pioneiro e provisório quadro dessas pesquisas no estado do Espírito Santo, que nos permite ver o que há de mais destacável no meio acadêmico local e vislumbrar as tendências que se delineiam para os anos vindouros.

Seja como for, fazem-se necessárias, ao fim deste trabalho, algumas ponderações a esses quatro núcleos de investigação. De fato, é a crítica, e não o elogio, que consolida e aprimora o trabalho do historiador. Como dissera Monteiro Lobato (1882-1948): “a lisonja mata e a sinceridade salva”.45 Ao longo dos anos de experiência em pesquisas, percebemos que parece haver, pelo menos, três pilares fundamentais para o desenvolvimento adequado dos estudos medievais (bem como de investigação histórica). São eles: 1) a utilização primordial das fontes primárias, ou seja, dos relatos, das crônicas, dos textos literários e filosóficos, epístolas, peças iconográficas da época que se quer estudar. 2) a publicização dos resultados das investigações para além de nossos pares e, finalmente, 3) um diálogo mais efetivo e aberto entre os grupos de estudos. A análise que fizemos nos leva a crer que os quatro núcleos aqui abordados tiveram dificuldades em cumprir ao menos um desses critérios.

Quanto às fontes, é inegável que os quatro investigadores as utilizam em suas pesquisas. Mas mais que citar esse material, é necessário compreendê-lo em seus detalhes e nuances, traduzi-lo, contextualizá-lo, confrontá-lo e, especialmente, torná-lo acessível a outros pesquisadores. Tais esforços têm sido até hoje o ponto de partida de nosso grupo, embora não percebamos uma continuidade desse mesmo processo nos outros três. Infelizmente, as fontes têm sido utilizadas, frequentemente, como legitimadoras de discursos, de bandeiras políticas e de elaborações teóricas. Um fenômeno, aliás, presente na historiografia brasileira de um modo geral. A reabilitação do status de nosso métier só será possível, conforme destacamos, a partir de uma utilização rigorosamente adequada, pública e honesta dessas fontes. O que elas têm a nos oferecer? Este sim deve ser o questionamento a inquietar, diariamente, a fértil mente do historiador.

Outro calcanhar de Aquiles de alguns desses grupos é a divulgação das pesquisas. Sempre tivemos o entendimento de que nossa produção, devidamente desenvolvida em universidades públicas, deve estar ao alcance e a serviço do público, especializado ou não. Por isso o cuidado, ao longo desses anos, para que nosso site permaneça ativo. Com um país com as dimensões continentais como o nosso, a Internet é a ferramenta ideal para que nosso trabalho não se restrinja às paredes de nossos gabinetes, mas ganhe o mundo.46 Esse é um caminho para tentarmos superar a irresistível (e tipicamente brasileira) superposição do privado ao público e a possibilidade de nossos núcleos de pesquisa se tornarem feudos (no pior sentido da palavra).

No diálogo reside a nossa maior dificuldade. O que observamos em nossa realidade acadêmica – e cremos se tratar de uma situação que não é restrita ao Espírito Santo – é a falta de abertura que esses grupos têm em relação a seus vizinhos. O contato e, sobretudo, a troca de informações, essenciais para a constituição de um ambiente plural na universidade, não acontecem. O homem cordial47 de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) parece ainda assombrar o meio universitário capixaba e brasileiro: as relações são quase sempre familiares e a discordância ou o embate de ideias são tidos como ofensas pessoais. A comunicação, pois, esteriliza-se. Aqui, o princípio da impessoalidade seguido a priori pelos colegas europeus é fundamental. Só assim conseguiremos estabelecer o devido diálogo – e uma pesquisa de fato acadêmica – entre os grupos de uma mesma localidade (caso do Espírito Santo), ou mesmo alcançar os contextos nacional e internacional, como acontece com os centros de investigação do Velho Continente.

Mais que colocar o dedo nas feridas dos vizinhos, fazemos também a nossa autocrítica. Sempre há o que aperfeiçoar, é certo, e uma análise franca de nossas virtudes e de nossos defeitos é necessária a fim de cumprirmos com o prognóstico (algo otimista) que o Prof. Dr. José Rivair Macedo fizera nos idos de 2006: “estamos no caminho certo para a consolidação de um campo de estudos sobre a Idade Média em nosso país”.48 Tomara!

Notas

  • 1. Blockbuster da TV norte-americana que, desde 2011, excita a mente de seus telespectadores com um enredo baseado em violentas disputas pelo poder e ambientado num medievo nórdico e fantástico.
  • 2. BASCHET, Jérôme. A civilização feudal: do ano mil à colonização da América. São Paulo: Editora Globo, 2006.
  • 3. A noção de longa duração foi devidamente desenvolvida em BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na Época de Filipe II. Lisboa: Publicações Europa-América, 1995. 2 v.; BRAUDEL, Fernand. “História e Ciências Sociais. A longa duração”. InEscritos sobre a História. São Paulo: Perspectiva, 2014, p. 41-78.
  • 4. “[...] les changements ne se font jamais d’un coup, dans tous les secteurs et dans un seul lieu. Voici pourquoi j’ai parlé d’un long Moyen Âge, un Moyen Âge qui – dans certains aspects de notre civilisation – perdure et, parfois, s’épanouit bien au-delà des dates officielles. De même en économie, ne peut-on parler de marché avant la fin du XVIIIe siècle. L’économie rurale n’est capable de faire disparaître la famine qu’au XIXe siècle (sauf en Russie). Le vocabulaire de la politique et de l’économie ne change définitivement – signe du changement des institutions, des modes de production et des mentalités qui correspondent à ces changements – qu’avec la Révolution française et la Révolution industrielle. C’est aussi le moment de l’aboutissement de la construction d’une science qui n’est plus médiévale (Galilée, Harvey, Newton, etc...)”. – LE GOFF, Jacques. “Un long Moyen Âge”. InÀ la recherche du Moyen Âge. Paris: Éditions Louis Audibert, 2003, p. 50-51.
  • 5. Um belo trabalho a respeito é o de WECKMANN, Luis. La herencia medieval del Brasil. México: Fondo de Cultura Económica,1993.
  • 6. Para o tema, ver COSTA, Ricardo da. “Educação Infantil na Idade Média”. InVideturPorto, v. 17, n. 1, p. 13-20, 2002.
  • 7. Um caso recente ilustra muito bem o quanto essa infeliz noção da “Idade das Trevas” ainda está presente na Universidade. Em uma defesa de dissertação de mestrado de Artes, cujo tema era o nascimento da arquitetura gótica, a mestranda foi arguida por um dos membros da banca nestes termos: “Senti falta, na sua contextualização histórica, de uma abordagem mais tenebrosa da Idade Média, a Idade das Trevas, sabe?!”. A estupefação estampada no rosto da plateia deixou claro que, infelizmente, não se tratava de uma brincadeira!
  • 8. Esse processo de “barbarização” do conhecimento por meio de um materialismo cada vez mais patente no ambiente universitário já havia sido descrito, profeticamente, pelo filósofo Mário Ferreira dos Santos ainda em 1967! Ver SANTOS, Mário Ferreira. Invasão vertical dos bárbaros. São Paulo: É Realizações, 2012.
  • 9. “Como em minhas opções historiográficas – e agora filosóficas – sempre considerei o aprofundamento da capacidade compreensiva o verdadeiro exercício do historiador, nas traduções de textos medievais que realizei eu preferi a primeira opção de Schleiermacher: deixar o escritor em paz e levar o leitor ao seu encontro, ou, para me expressar em termos historiográficos (e um tanto melancolicamente), deixar os mortos em paz e ir pessoalmente ao cemitério. Isso porque, no fundo, considero que todo historiador é um necrófilo par excellence, como já afirmei em outra oportunidade (2004), e reitero agora”. – COSTA, Ricardo da. “Uma jóia medieval no alvorecer do Humanismo: a novela de cavalaria Curial e Guelfa (século XV)”. In: MONGELLI, Lênia Márcia (org.). De cavaleiros e cavalarias. Por terras de Europa e Américas. São Paulo: Humanitas, 2012, p. 539-549.
  • 10. HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média. São Paulo, Cosac Naify, 2010.
  • 11. “Invejem-nos. Os historiadores têm ao menos duas maneiras de escapar ao tempo presente. Primeira: eu me enfio e me perco no passado. Vivi assim quarenta anos de minha vida ao lado de Felipe II da Espanha, o rei de triste semblante (...). Segunda: evadir-me para o futuro (...) o mundo atual, decerto, não é lá muito deleitável. Na verdade, não é ele simplesmente sinistro?”. – BRAUDEL, Fernand. Reflexões sobre a História. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 330-331.
  • 12. Para uma discussão sobre a utilização das fontes primárias, ver COSTA, Ricardo da. “Entrevista com Ricardo da Costa. Curial e Guelfa”. In: Convenit Internacional, Porto, n. 8, p. 55-66, janeiro-abril 2012.
  • 13. Informações disponíveis em: http://www.ricardocosta.com/grupos-de-pesquisas-medievais-da-ufes-2000-2017 e em http://lattes.cnpq.br/5461913639249868
  • 14. Todas as informações que apresentaremos a partir de agora foram retiradas dos currículos Lattes dos pesquisadores. Sua atualização junto a essa plataforma digital é de inteira responsabilidade de seus autores.
  • 15. MONGELLI, Lênia Márcia (org.). Fontes primárias da Idade Média. Séculos V-XV. Cotia, São Paulo: Editora Íbis, 1999-2005. 3 v.
  • 16. MASSINI-CAGLIARI, G.; MUNIZ, M. R. C.; SODRÉ, P. R.; SOUZA, R. B. Série Estudos Medievais. 1 - Metodologias. Rio de Janeiro: ANPOLL, 2008; MASSINI-CAGLIARI, G.; MUNIZ, M. R. C.; SODRÉ, P. R. Série Estudos Medievais. 2 - Fontes. Araraquara, São Paulo: ANPOLL, 2009; MASSINI-CAGLIARI, G.; MUNIZ, M. R. C.; SODRÉ, P. R. Série Estudos Medievais. 3 - Fontes e edições. Araraquara, São Paulo: ANPOLL, 2012. Cf. http://gtestudosmedievais.com.br/index.php.
  • 17. SODRÉ, P. R. Um trovador na berlinda: as cantigas de amigo de Nuno Fernandez Torneol. Cotia, São Paulo: Editora Íbis, 1998.
  • 18. SODRÉ, P. R. Cantigas de madre galego-portuguesas. Estudo de xéneros das cantigas líricas. Santiago de Compostela: Centro Ramón Piñeiro para a Investigación en Humanidades, 2008.
  • 19. SODRÉ, P. R. O riso no jogo e o jogo no riso na sátira galego-portuguesa. Vitória: Edufes, 2010.
  • 20. FELDMAN, S. A. Amantes e bastardos: as relações conjugais e extra conjugais na alta nobreza portuguesa nos séculos XIV e XV. Curitiba: Editora Aos Quatro Ventos, 1999.
  • 21. FELDMAN, S. A. Amantes e bastardosas relações conjugais e extra conjugais na alta nobreza portuguesa nos séculos XIV e XV. Vitória: Edufes, 2008.
  • 22. FELDMAN, S. A (org.). Marginalizados e excluídos do mundo tardo antigo e medieval. Vitória: NPIH; GM Editora, 2011.
  • 23. FELDMAN, S. A. As obras de Isidoro de Sevilha e a questão judaica: perspectivas da unidade político-religiosa no reino hispano visigodo de Toledo. Curitiba: Prismas, 2017.
  • 24. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Comentário às Cartas de São Paulo. São Paulo: Paulus, 2010-2013. 3 v. Coleção Patrística n. 27/1, 27/2 e 27/3.
  • 25. SANTO AGOSTINHO. Contra os Acadêmicos, A Ordem, A Grandeza da Alma, O Mestre. São Paulo: Paulus, 2008. Coleção Patrística n. 24; SANTO AGOSTINHO. Explicação de algumas proposições da Carta aos Romanos - Explicação da Carta aos Gálatas - Explicação incoada da Carta aos Romanos. São Paulo: Paulus, 2009. Coleção Patrística n. 25; SANTO AGOSTINHO. A fé e o símbolo - Primeira Catequese aos não cristãos - A disciplina cristã - A continência. São Paulo: Paulus Editora, 2013. Coleção Patrística n. 32.
  • 26. SÃO GREGÓRIO MAGNO. Regra Pastoral. São Paulo: Paulus Editora, 2010. Coleção Patrística n. 28.
  • 27. GREGÓRIO DE NISSA. A criação do homem, A alma e a ressurreição, A grande catequese. São Paulo: Paulus, 2011. Coleção Patrística n. 29.
  • 28. ORÍGENES. Tratado sobre os Princípios. São Paulo: Paulus, 2012. Coleção Patrística n. 30.
  • 29. SÃO JERÔNIMO. Apologia contra os livros de Rufino. São Paulo: Paulus, 2013. Coleção Patrística n. 31.
  • 30. SILVA SANTOS, B. A imortalidade da alma no Fédon de PlatãoCoerência e legitimidade do argumento final (102a-107b). Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.
  • 31. SILVA SANTOS, B. Fenomenologia e Idade Média. Curitiba: Editora CRV, 2013.
  • 32. Para um levantamento mais aprofundado da produção intelectual do medievalista, ver o Memorial acadêmico apresentado no dia 26 de abril de 2017 a uma Banca de Comissão Especial com vistas à progressão funcional para o nível de Professor Titular.
  • 33. COSTA, Ricardo da. A Guerra na Idade Médiaum estudo da mentalidade de cruzada na Península Ibérica. Rio de Janeiro: Paratodos, 1998.
  • 34. COSTA, Ricardo da (org.). Testemunhos da HistóriaDocumentos de História Antiga e Medieval. Vitória: Edufes, 2003.
  • 35. RAMON LLULL. O Livro da Ordem de Cavalaria (c. 1275). São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2000.
  • 36. RAMON LLULL. O Livro dos Anjos. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2002.
  • 37. RAIMUNDO LÚLIO. O Livro das Bestas (c. 1289). São Paulo: Editora Escala, 2006. Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal, v. 50.
  • 38. RAIMUNDO LÚLIO. O Livro dos Mil Provérbios (1302). São Paulo: Editora Escala, 2007. Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal, v. 68.
  • 39. RAIMUNDO LÚLIO. Félix ou O Livro das Maravilhas. São Paulo: Editora Escala, 2007. Partes I e II. Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal, v. 95-96.
  • 40. RAIMUNDO LÚLIO. Raimundo Lúlio e as Cruzadas. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Sétimo Selo, 2009.
  • 41. RAMON LLULL. Tractat d'Astronomía / Tratado de Astronomia. Madri: Palas Atenea, 2016.
  • 42. Curial e Guelfa. University of California, Santa Barbara (EUA): Publications of eHumanista, 2011.
  • 43. BERNAT METGE. Lo Somni / O Sonho. Madrid. Palas Atenea, 2016.
  • 44. COSTA, Ricardo da. Impressões da Idade Média. São Paulo: Editora Armada/Livraria Resistência Cultural, 2017.
  • 45. LOBATO, José Bento Renato Monteiro. “A Propósito da Exposição Malfatti”. InO Estado de S. Paulo, São Paulo, 20 dez. 1917.
  • 46. A maioria dos contatos que estabelecemos com centros de investigação internacionais se deu justamente pela visibilidade que a Internet, por meio de nosso site, possibilitou às nossas investigações.
  • 47. Conceito desenvolvido em HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
  • 48. MACEDO, José Rivair. Os estudos medievais no Brasil: tentativa de sínteseInReti Medievali Rivista, Florença, v. 7, p. 1-9, jan./jun. 2006. p. 7Infelizmente, o Prof. Rivair Macedo foi o primeiro a descumprir seu prognóstico otimista: desde 2007 trabalha com os estudos da africanologia, o que parece comprovar, ipsis litteris, a nossa crítica!

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