A vida é como uma obra de arte

Ricardo da COSTA

In: DURANT, Will. A História da Civilização V. A Renascença.
Campinas, São Paulo: Kírion, 2025, pp. __-__
(ISBN ).

Will Durant (1885-1981) e sua esposa Ariel (Chaya Kaufman, 1898-1981) marcaram profundamente a minha formação intelectual. Encontrei-os no início da década de oitenta do século XX, quando ingressei em minha graduação em História na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Foi paixão à primeira vista, como diziam.

Isso porque eles eram donos de uma narrativa envolvente, ampla, total, ao mesmo tempo descritiva e analítica, com espaço suficiente para o hálito vital da Humanidade, elã que eu não encontrava na árida bibliografia indicada por meus professores universitários de então.

Após dois anos de estudo, infelizmente abandonei a faculdade para me dedicar à Música. Retornei após dez anos à História, dessa vez para sempre, mas nunca abandonei os Durant, pelo contrário, livre das imposições acadêmicas, li toda a sua enorme obra, a História da Civilização. E mais de uma vez.

Foi um encontro para a vida. E sempre volto a relê-la, o que faz com que a considere um clássico histórico – pois clássicas são as obras que, ávidos, sempre retornamos, e com o renovado olhar da maturidade e da senectude.1

Embora não seja obrigatoriamente necessário conhecer um bom autor para apreciar sua obra – ideal olímpico poucas vezes atingido pelos historiadores – sou obrigado, por dever de ofício, a destacar alguns interessantíssimos aspectos de sua formação e de seu perfil intelectual. Nascido em Massachussetts, de família católica franco-canadense, William James Durant estava direcionado para o sacerdócio. Entrou para o Seminário, mas desiludiu-se com o Catolicismo institucional. Flertou com o Socialismo, o Anarquismo, apaixonou-se pela filosofia racionalista e panteísta de Baruch Spinosa (1632-1677). Formou-se em Artes e fez seu mestrado também em Artes (1907-1908) na Saint Peter’s College, Nova Jérsei (EUA), faculdade fundada em 1872 pela Companhia de Jesus – a formação em Artes significava (e ainda significa nos países anglo-saxões) Artes Liberais, com ênfase em Humanidades (Letras, Filosofia e História, costumeiramente).

Lecionou latim e francês, com vinte e sete anos (1913) casou-se com Chaya Kaufman (1898-1981), filha de imigrantes judeus russos, sua ex-aluna, futura coautora da História da Civilização, e concluiu seu doutorado em Filosofia (1917) na Columbia University, Nova York – com o tema A filosofia e o problema social – sob a orientação do filósofo pragmatista (e psicólogo funcionalista) John Dewey (1859-1952). Uma instigante e rica formação cosmopolita, de sólida base católica e, do ponto de vista cultural, interreligiosa e racionalista.

Após escrever uma História da Filosofia em capítulos na série Litlle Blue Books (opúsculos populares de grande tiragem), transformada em livro que se tornou best-seller em 1926 (com um milhão de exemplares vendidos só no primeiro ano!), Durant pôde se aposentar precocemente da docência e concentrar todos os seus esforços intelectuais e existenciais para escrever a obra de sua vida, a História da Civilização Ocidental.

Na primeira metade do século XX, ainda vigorava no Ocidente a confiança intelectual que era possível abarcar em uma narrativa uma história geral, total, linear, com causas e consequências, baseada em documentos de época e ampla e diversificada bibliografia e, sobretudo, que abrangesse as áreas afins à História – Antropologia, Arqueologia, Sociologia etc.

Will Durant, filho direto do final do século XIX, século criador da disciplina História, História com pretensão científica, narrada com fatos em ordem cronológica, de um ponto de vista imparcial – ou o mais imparcial que um intelectual pode ser capaz de se expressar – com clareza de ideias e opiniões apresentadas de modo racional, humanista, e com fundamentos argumentativos, é um autor que sintetiza como poucos essa tradição hoje perdida, porque conscientemente abandonada.

Especialmente também porque Durant constrói seu texto com uma preocupação clássica: a clareza, virtude já definida na Antiguidade por Cícero (106-43 a.C.): “A mim me bastam a clareza e a simplicidade, que são o melhor ornamento da verdade (...) falar clara e simplesmente é o que compete a um homem inteligente e douto”2 e, na contemporaneidade, pelo filósofo Giovanni Reale (1931-2014): “A honestidade de fundo de todo pensador se reconhece pela sua clareza: fugir da clareza e da transparência significa fugir da verdade (ou, se se prefere, de uma transparente busca da verdade)”.3

A interminável busca da verdade do Passado é o fundamento básico do historiador – ou pelo menos do que se preza como tal. Durant certamente riria dos atuais relativismos e inseguranças intelectuais contemporâneas, ainda que cônscio da dificuldade da compreensão histórica, já que sua obra é calcada na constatação da fragilidade de nosso conhecimento do Passado. Por isso suas viagens ao redor do mundo para escrever sua obra. In situ.

***

A Renascença é o título do quinto volume da saga de Will Durant em busca do tempo perdido da Civilização Ocidental, iniciado com o caminho do Swan (vol. I), à sombra das moças em flor (vol. II), o caminho de Guermantes (vols. III e IV), e agora Sodoma e Gomorra (vol. V). Faço essa analogia algo imperfeita da famosa obra de Proust (1871-1922)4 com a História da Civilização de Will Durant (e em especial com seu quinto volume) porque, visto na retrospectiva histórica da longa duração, nossa jornada nesse vale de lágrimas da existência humana na Terra5 é sempre uma sinuosa e dramática epopeia infinda que o contexto italiano ressaltou.

A Renascença marcou a notável inflexão que vivemos, da metafísica à física, da transcendência à imanência6, dramática peregrinação rumo à carnalidade, que enfim triunfou vitoriosamente no século XX com o ocaso do Cristianismo como agente civilizador do Ocidente7 – a ponto de o Papa Pio XII (1876-1958) afirmar, em sua Encíclica Summi Pontificatus (20 de outubro de 1939) que haviam caído trevas sob a Terra.8

Da redação daquela Encíclica à publicação de A Renascença (1953) se passaram quinze anos. O mundo ainda se reconstruía do inimaginável horror da Segunda Guerra (1939-1945) – o Japão ainda passava por esse processo, e os EUA, intocado em seu território, vivia sua Era de Ouro, década conhecida por ser a propagadora do sonho americano (American Dream), ainda que a Guerra Fria (1947-1991) e a polarização do mundo estivesse em pleno curso. Mas, em definitivo, foi a época em que os EUA passaram ao protagonismo do mundo. Plano Marschall (1947-1951) na Europa e, na Ásia e no Japão, Plano Dodge (1947) e Plano Colombo (1951).

Explosão demográfica, crescimento econômico: os norte-americanos viveram seu Céu de Brigadeiro. Sincronicidade temporal-textual: o contexto histórico estava muito propício para que Durant voltasse seu estudo para uma das épocas artisticamente mais deslumbrantes da história da Humanidade – e, assim como o mundo do século XX em reconstrução, a Arte do séculos da Renascença também não poderia viver sem patrocínio! Graças a ele, o Renascimento italiano foi época fertilíssima em inspirações e genialidades, ainda que não sem seus costumeiros horrores humanos, suas habituais tragédias.

Durant apresenta sua Renascença de um só fôlego. Obra mais curta que A Idade da Fé mas densa e intensa, cheia da tragicomédia da vida, com personagens paradoxais e contraditórios, doces e raivosos, religiosos assassinos, elegantes profanos, deslumbrados e exibicionistas, veementes protagonistas viscerais e sanguíneos com tal intensidade existencial que só poderiam desabrochar na Itália – foi o tempo do indivíduo, do retrato, da autoafirmação das personalidades.9 Todos imersos no dolce far niente latino, mas com a característica culpa católica. Afinal, o século XV foi o tempo em que os extremos sociais foram mais que nunca polarizados: os ricos nunca foram tão ricos e exibidos, os pobres nunca tão pobres e revoltados10, pelo menos até o despontar da Revolução Industrial (1760-1830).11

Entre tiranetes e artistas, cidades e regiões, Durant divide a obra em seis livros, vinte e seis capítulos ao todo. Drama: o texto é um verdadeiro carrossel de sangue e arte. Inicia com Petrarca (1304-1374), laureado poeta infelizmente ainda pouco divulgado no Brasil – ainda que sua obra-prima, Cancioneiro (Il Canzoniere, c. 1327-1368) tenha sido traduzida.12

A seguir, para dar ao leitor o tom ambivalente do período, passa de um sublime poeta a um comezinho e deslumbrado ditador, Cola di Rienzo (1313-1354), brutalmente assassinado (a fluente narrativa de Durant nos conduz imaginariamente ao palco da tragédia romana).

De Rienzo, caminha para o Paraíso: Giotto (1267-1337), pintor responsável por uma verdadeira revolução na arte pictórica, por sua composição rítmica, senso de profundidade (alvorada da perspectiva), dignidade pungente, grandeza, tranquilo e suave movimento dos personagens, dotados de cores suaves e luminosas.13 Aliás, A Renascença é um convite a ser lido praticamente pari passu a uma consulta na Internet em busca das obras de arte citadas!

De Giotto para Bocaccio (1313-1375) e seu Decamerão14, intensa temperatura que migra do desejo da poesia para a prosa, alimentada por fontes clássicas, orientais, medievais, vigoroso e eloquente livro profano que Durant define como uma obra de amor à vida. E o texto não permite sequer um fôlego para o leitor, pois de Petrarca, Giotto e Bocaccio, nosso autor chega à deslumbrante cidade de Siena, palco de um dos afrescos mais impressionantes da História da Arte: A Alegoria do Bom e do Mau Governo (1338-1339), de Ambrogio Lorenzetti (c. 1290-1348), obra que me deparei em meu doutorado e que serviu de abertura para a minha tese (2000)15, pois desde sempre relacionei História, Filosofia e Literatura à Arte, discípulo que fui e sou de Georges Duby (1919-1996).16

Durant reconhece – ufa! – que a Idade Média conhecia (e apreciava) os clássicos pagãos. Afinal, foram os monges católicos dos séculos alto-medievais que pacientemente conservaram suas obras, copiando e recopiando tudo (quando os historiadores tupiniquins vão aprender isso?), e fecha o Livro I com o Cativeiro da Babilônia (1309-1377), tempo em que o papado residiu na cidade francesa de Avignon.17

Assim, o Livro I de A Renascença, é uma Overture em grande estilo. Oferece uma impressionante riqueza existencial e nos conduz diretamente à Renascença florentina (1378-1534) (Livro II). E com uma frase marcante (e verdadeira): o dinheiro é a raiz de toda civilização. Responde à indagação do porquê foi o norte da Itália o primeiro a experimentar esse despertar da primavera, as bases econômicas florentinas, para se deter nos Médici, Cósimo (1389-1464) em primeiro lugar – Pater Patriae – título dado pela Signoria de Florença (governo da república florentina, sécs. XIII-XVI). Cósimo e seus descendentes – especialmente Lourenço, o Magnífico (1449-1492) e os papas Leão X (1475-1521) e Clemente VII (1478-1534) – fizeram dos Médici a família que mais patrocinou a cultura e as artes na História.

Dessa famosa família, Durant passa aos humanistas, movimento indissociado do Renascimento, e chega à Brunelleschi (1377-1446), considerado o inventor da perspectiva linear (ponto de fuga único). Não há turista de Florença que não se deslumbre com as portas do Batistério e a cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore. Mas infelizmente não posso me deter nas obras: são centenas as citadas e analisadas por Durant, que passa de Brunelleschi a Ghiberti (1378-1445), Donatello (1386-1466), Lucca della Robbia (1400-1482), Masaccio (1401-1428) – quando então afirma que a pintura sobrepujou a escultura na Itália – e o dulcíssimo Fra Angelico (1395-1455), glória da arte em mãos dos dominicanos: nenhum pintor, exceto El Greco (1541-1614), teve estilo tão próprio quanto Fra Angelico!

E podemos ter um vislumbre dessa delicadeza hoje, pois sua Anunciação (c. 1425-1428) foi recentemente restaurada, em exposição no fabuloso Museo del Prado, em Madrid (trabalho concluído em 2019) – tive a graça de contemplá-la in loco, estupefato e maravilhado com a verdadeira arte, não esses pastiches contemporâneos. Durant descreve a obra com um anjo de graça infinita sendo docemente reverenciado pela futura Mãe de Deus, que se curva e cruza os braços, estupefata, humilíssima e incrédula (porém absoluta em sua natural majestade).18

Uma lástima que dedique poucas linhas à Anunciação de Fra Angelico (sequer aborda a cena al lado, da Expulsão do Paraíso, que será tema eterno da Arte). Mas está perdoado, pois ainda precisa dar conta de uma inesgotável miríade de Beleza! Na Literatura e na Filosofia, Policiano (1454-1494) e o sempre algo enigmático Pico della Mirandola (1463-1494) que, ao ler Durant descubro ter sido uma figura favorita de mulheres e filósofos, de espírito atento e curioso (estudioso da Cabala judaica), além de Luigi Pulci (1432-1484), autor de Morgante, poema épico citado por Cervantes (1547-1616) em seu Dom Quixote.

Meu Deus, ainda estou no Livro II! Mas como não citar Guirlandaio (1448-1494) – que Durant considera um dos maiores pintores da Renascença (sua Visitação [c. 1491] é delicadíssima) – e Botticelli (1445-1510), com seu Nascimento de Vênus (1484) e sua Primavera (1481-1482)? Durant se detêm mais um pouco com Botticelli do que fez com Fra Angelico: considera uma vitória dos humanistas na arte, e que a Igreja demoraria meio século (1480-1534) para reconquistar o domínio sobre os temas da pintura.

E aqui reside talvez o ponto mais notável de A Renascença: a capacidade do historiador de tratar de modo adequado, agradável e erudito a História da Arte, campo ainda hoje desconsiderado por boa parte dos historiadores brasileiros, ainda sobremaneira apegados à Economia e à Política. Pois aprendam com Durant a sensibilidade estética como fio condutor de uma narrativa histórica!

O Livro II termina com política (infelizmente a vida não é apenas o deslumbre da Arte): o incendiário Savonarola (1452-1498) e suas fogueiras das vaidades (1497). Um drama semelhante ao de Cola di Rienzo, só que ainda mais extremo, porque a inflamada retórica do severo asceta dominicano incendiou os espíritos de sua época. Inclusive dos artistas – Michelangelo (1475-1564) frequentemente lia seus sermões e Botticelli ficou horrorizado com sua morte. Espero que tenhamos aprendido com as recorrentes tragédias dos radicais e dos demagogos, a duríssimas penas, que viver na vida do mundo, vida mundana, é saber conviver (com prudência, na medida de nossas forças) face a seus exageros, suas vaidades.

Durant é incisivo: Savonarola foi um protestante antes de Lutero (quem, aliás, o chamou de santo!). Tornar os homens santos Ex lege, Vim facere, faz com que sempre caiamos em algum tipo de totalitarismo. Durant encerra seu Livro II com essa tragédia do século XV (que ainda era ensinada em meu Primeiro Grau, recordo bem), e conclui, talvez para amenizar sua narrativa, com a Arte: Lorenzo di Credi (1458-1537), Baccio della Porta (1472-1517) e Andrea del Sarto (1486-1531), já maneirista (estilo desconsideradíssimo, mas sublime!).

O Livro III (“O Esplendor da Itália, 1378-1534”) é o miolo central da obra. São oito capítulos que percorrem geograficamente a Itália, a começar pelos Visconti (1277-1447) e os Sforza (1411-1535) de Milão. A narrativa política navega entre assassinatos em família, apoio à cultura e às artes, guerras e infidelidades conjugais. Dos Visconti, destaco a subvenção dada a Manuel Chrysoloras (c. 1355-1415), erudito bizantino, pioneiro na reintrodução do estudo da língua e literatura gregas na Europa ocidental durante o Renascimento, graças a Barnabé Visconti (1323-1385).

Dos Sforza, a crudelíssima história de Galeazzo Maria Sforza (1444-1476) e seu famoso assassinato – e a famosa frase proferida por um de seus algozes, o republicano e humanista Girolamo Olgiati (1453-1477), barbaramente torturado até a morte (Mors acerba, fama perpetua – “A morte é amarga, mas a fama é eterna”19), mas especialmente a cativante história de Beatriz d’Este (1475-1497) quem, por seu patrocínio à cultura, transformou Milão em um dos grandes centros europeus do Renascimento.20

Naturalmente, Leonardo da Vinci (1542-1519) é o cume dessa primeira parte da obra. Aliás, Durant faz alusão ao conceito romântico do gênio (genius), homem insuflado por uma dádiva divina que trespassava a verdade.21 O método de criar minibiografias inseridas na narrativa de histórica total (que abrange Geografia, Psicologia, Literatura Economia e Artes) é uma das características mais notáveis da prosa durantiana.22 Quanto a Leonardo, chamou-me a atenção o fato de Durant abordar sua homossexualidade de um modo isento, sem preconceito – do mesmo modo com outros artistas (a homossexualidade tinha muitos adeptos na Itália daquele tempo).

O pêndulo Arte sublime e Política sangrenta com as cidades italianas e suas divas prossegue. Piero della Francesca (1412-1492)23, Luca Signorelli (1441-1523), o deslumbrante – e licencioso – Giovanni Antônio Bazzi, il Sodoma (1477-1549); os clãs Baglioni/Oddi e suas matanças24, Perugino (1446-1523), Mântua e a fusão paganismo/cristianismo de Andrea Mantegna (1431-1506). A seguir, la prima donna del mondo, Isabela d’Este (1474-1539), dama dotada de quase todos os dons e encantos da mulher culta da Renascença25, que prepara o capítulo X: Ferrara e a casa d’Este. Durant se detêm nas Letras, pois chega ao Homero italiano: Ludovico Ariosto (1474-1533) e seu Orlando Furioso26, quando então nos oferece uma das mais belas definições da Poesia – ela é música intraduzível.

O poderosíssimo reino de Veneza e sua política proporcionam a Durant outro desfile sublime de arte (notadamente a pintura) e poesia: Antonello da Messina (), Gentile (c. 1429-1507) e Giovanni Benini (c. 1430-1516), Giorgione (c. 1470-1510) (o pintor da inesquecível Vênus adormecida, c. 1510) e Ticiano (c. 1488-1576). Nas Letras, o cardeal (e cavaleiro hospitalário) Pietro Bembo (1470-1547). E de Corregio (1489-1534) à arquitetura de Bolonha, da culta corte de Urbino a Castiglioni (1478-1529) e seu O Cortesão – um dos livros mais famosos da Renascença27 –, nosso autor conclui o Livro III com o reino de Nápoles de Afonso, o Magnânimo (1396-1458).28

O Livro IV se debruça sobre a política papal: dos papas, os Bórgia (e a famosíssima Lucrécia [1480-1519]) e, claro, Júlio II (1443-1513) e Leão X (1475-1521) e os dois cumes da História da Arte: Rafael (1483-1520) e Michelangelo (1475-1564). Como Leonardo, Michelangelo dispensa apresentações. Como amo afrescos, prefiro destacar a Stanza della Segnatura de Rafael, que Durant esmiúça lindamente.

Nos dois últimos livros de A Renascença, Durant narra o ocaso da moral. Como nutro profunda antipatia por Maquiavel (1469-1527) i tutti quanti, sigo o conselho de Virgílio a Dante no Inferno da Divina Comédia: “Non ragioniam di lor, ma guarda e passa” (“Deles não cuide mais mas olha e passa”, Inferno III, 51).29

Apenas um destaque: o capítulo XX é incisivo para nossos tempos obscuros, em que os relativismos obscurecem a Ética e a Moral. Conclui com Veneza e encerra com o declínio da Renascença (ainda que, como espécie de consolo, termine com Michelangelo.

***

O que dizer desse tour de fource artístico de Will Durant? É leitura existencialmente densa, artisticamente elegante, historicamente fluente. Reli A Renascença para escrever seu Prefácio já com década e meia como professor de História da Arte I (Antiga e Medieval), ou seja, muito mais bem aparelhado intelectualmente do que quando estudante de História. Aliás, por falar em História, além da obra ser especialmente indicada para leitores amantes da bela escrita, estetas, sensíveis, ela o é sobretudo para os jovens historiadores tupiniquins ainda crus na arte da narrativa, entregues que foram há décadas em sua formação a vorazes ideólogos marxistas de todas as correntes, todos, literalmente, ferozmente dedicados a pregar a abominação da história factual, dos grandes personagens da História, e à masoquista arte da péssima redação, do apreço ao sofrimento do leitor. DV: Durant na veia, eles deveriam ter essa vacina! Aconselho que leiam escondidos de seus professores (como eu li Casa Grande & Senzala na década de 80 do século passado, após difamação em sala de aula por parte de um professor revolucionário).30

Ainda bem que o amor ao Belo ainda viceja fora da Academia, graças a editoras como a Kírion.

Notas

  • 1. Bloom, Harold. Como e porque ler. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
  • 2. Marco Túlio Cícero. Do sumo bem e do sumo mal (DE FINIBUS BONORUM ET MALORUM) (trad.: Carlos Ancêde Nougué). São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 97 (Livro III, V).
  • 3. Reale, Giovanni. “Advertência”. Em: Aristóteles. Metafísica (trad.: Marcelo Perine. Ensaio introdutório, texto grego com tradução e comentário de Giovanni Reale). Volume III. Sumários e comentário. São Paulo: Edições Loyola, 2002, p. XIII.
  • 4. Proust, Marcel. Em busca do tempo perdido. São Paulo: Biblioteca Azul, 07 volumes, 2013.
  • 5. Sl 84 5-7.
  • 6. Costa, Ricardo da. “A Transcendência acima da Imanência. A Alma na mística de São Bernardo de Claraval (1090-1153)”. In: Anales del Seminario de Historia de la Filosofía. Madrid: Publicaciones Universidad Complutense de Madrid (UCM), vol. 26 (2009), pp. 97-105.
  • 7. Agente civilizador que “[...] ajuda a encarcerar a besta [...]. JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 629.
  • 8. “V.72. Veneráveis irmãos, o momento em que vos chega às mãos esta nossa primeira encíclica, bem pode ser qualificado, sob vários aspectos, de uma verdadeira "hora das trevas" (Lc 22, 53), na qual o espírito da violência e da discórdia verte sobre a humanidade a sangüinolenta ânfora de dores inomináveis.” – Carta Encíclica SUMMI PONTIFICATUS do Sumo Pontífice Papa Pio XII.
  • 9. “...tudo que o homem vivia ainda era revestido de um teor imediato e absoluto que, no mundo atual, só se observa nos arroubos infantis de felicidade e dor.” – Costa, Ricardo da. “A experiência de traduzir a novela Curial e Guelfa (séc. XV)”. In: Curial e Guelfa. Anônimo do século XV (apres., trad. e notas de Ricardo da Costa). Santa Bárbara: University of California, Publications of eHumanista, 2011, pp. 57-70.
  • 10. BOIS, Guy. La Gran Depresión Medieval: siglos XIV-XV. El precedente de una crisis sistémica. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 2001.
  • 11. O clássico do tema é Ashton, Thomas Southcliffe. La revolución industrial (1760-1830). México: Fondo de Cultura Económica, 1959.
  • 12. Petrarca. Cancioneiro (trad.: José Clemente Pozenato). Cotia, São Paulo: Ateliê Editorial/Editora da Unicamp, 2014.
  • 13. Longhi, Roberto. Breve mas Verídica História da Pintura Italiana. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
  • 14. Bocaccio. Decamerão (trad.: Raul de Polillo). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2018, 2 volumes.
  • 15. Costa, Ricardo da. “Um espelho de príncipes artístico e profano. A representação das virtudes do Bom Governo e os vícios do Mau Governo nos afrescos de Ambrogio Lorenzetti (c.1290-1348) – análise iconográfica”. In: Utopía y Praxis Latinoamericana. Revista Internacional de Filosofìa Iberoamericana y Teoría Social. Maracaibo (Venezuela): Universidad del Zulia, vol. 8, n. 23, octubre de 2003, pp. 55-71.
  • 16. E, no recorte cronológico desse volume V de Will Durant, o mesmo método multidisciplinar tratado na magnífica obra de André Chastel (1912-1990): Arte e Humanismo em Florença na época de Lourenço o Magnífico: estudos sobre o Renscimento e o humanismo platônico. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
  • 17. Silva, Matheus Corassa da. “O Grande Cisma do Ocidente (1378-1417) em O Sonho (1399), de Bernat Metge”. In: Medievalis 2012, vol. 1, n. 02 (2012), pp. 71-82.
  • 18. Ao contrário do que se costuma pensar, os temas religiosos preponderaram no Renascimento, em especial com a Virgem como protagonista. Para isso, ver Burke, Peter. O Renascimento italiano – Cultura e Sociedade na Itália. São Paulo: Nova Alexandria, 1999, pp. 196-197.
  • 19. Burckhardt, Jacob. A Civilização do Renascimento na Itália. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 60.
  • 20. O trabalho clássico ainda é o de Julia Cartwright (1851-1924): Beatrice D’Este: Duchess of Milan 1475-1497. A Study of the Renaissance. London: J. M. Dent & Co., 1903 (para o leitor perceber que obras históricas bem documentadas costumam durar mais do que o período de vida do historiador – como é o caso da História da Civilização de Will Durant).
  • 21. Costa, Ricardo da; Fernandes Jr., Alfredo da Cruz. “Flechas de ouro o Amor todas lançou! Ausiàs March (c.1397-1439) e as vítimas do Amor”. In: Correia, André; Renan, Ray; Rennyer, Wesley (orgs.). Filosofia & literatura: entre o alvorecer antigo e o crepúsculo moderno. Cachoeirinha: Fi, 2023, p. 107.
  • 22. A obra sobre Da Vinci que se aproxima desse objetivo de divulgação histórica da História da Civilização de Durant é Isaacson, Walter. Leonardo da Vinci. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.
  • 23. Longui, Roberto. Piero della Francesca. São Paulo: Cosac Naify, 2007 – Longui (1890-1970) é simplesmente um dos maiores historiadores da arte do século XX!
  • 24. Burckhardt, Jacob. A Civilização do Renascimento na Itália, op. cit., pp. 39-42.
  • 25. História de gênero hoje em moda (ver King, Margaret L. “A mulher renascentista”. In: Garin, Eugenio (dir.). O homem renascentista. Lisboa: Editorial Presença, 1991, pp. 191-227), mas já manifestada no século XIX em Burckhardt, Jacob. A Civilização do Renascimento na Itália. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, pp. 283-286 (capítulo: A posição da mulher).
  • 26. Ludovico Ariosto. Orlando Furioso (introd., trad. e notas: Pedro Garcez Guirardi). Cotia, São Paulo: Editora da UNICAMP/Ateliê Editorial, 02 volumes, 202-2023.
  • 27. Castiglione, Baldassare. O cortesão (trad.: Carlos Nelson Moulin Louzada). São Paulo: Martins Fontes, 1997; Burke, Peter. As fortunas d'O Cortesão. São Paulo: Editora da UNESP, 2001.
  • 28. Tive o privilégio de abordar a estupenda arte da corte napolitana em uma investigação a seis mãos: Costa, Ricardo da; Neves, Alexandre Emerick; Ribeiro, Antonio Celso. “Na Alvorada da Modernidade. Música e Pintura no tempo de Afonso V (1396-1458), o Magnânimo”. In: Ricardo da Costa; Nicolás Martínez Sáez (orgs.). In: Mirabilia Journal 37 (2023/2), p. 496-570.
  • 29. Dante Alighieri. A Divina Comédia (trad. e notas de Eugenio Mauro). São Paulo: Ed. 34, 1998, p. 38-39 (Inferno, Canto III, 51).
  • 30. “...fui “disciplinado” a não ler de maneira nenhuma a obra Casa Grande & Senzala, já que Gilberto Freire (1900-1987) havia defendido a ditadura militar e teria dito no livro que não havia racismo no Brasil. Eu deveria ler Florestan Fernandes (1920-1995) – o máximo que consegui foi ler, com muito custo, A função social da guerra na sociedade tupinambá! Claro que como bom rebelde “pós-aborrescente”, a primeira coisa que fiz foi devorar secretamente Casa Grande & Senzala. E eu simplesmente adorei o livro (e ainda hoje o considero um dos grandes livros sobre a formação do Brasil). Apesar de seu autor ter apoiado a ditadura, eu percebi que a propaganda contra o livro era mentirosa.” – Costa, Ricardo da. “Para que serve a História? Para nada...”. In: Costa, Ricardo da. Visões da História. Santo André: Armada, 2019, p. 61.

Aprenda mais