Tréplica final do Prof. Ricardo da Costa (censurada pelos editores da Revista NECULT)

Ricardo da COSTA

Um asno ensinando (Troyes, séc. XIV, Médiathèque de l'Agglomération, Ms. 898, folio 97. Internet). Na iluminura, um maravilhoso exemplo do humor dos medievais: um professor, que é um asno, apoiado em um livro, dá uma aula, do alto de sua cátedra e com sua toga de doutor (e o rabo, comprido, se insinua por trás do manto catedralício). Contudo, ele não sabe nada. Por isso é um asno (ou, filosoficamente, não tem Sabedoria)! À sua direita, um aluno, representado alegoricamente por um distraído gatinho que, inteligente, percebeu as asneiras ditas pelo professor e deu as costas à aula, pois é muito mais interessante capturar e comer o pássaro que está pousando, à direita, que ficar escutando asneiras. Por fim, um animal fantástico (à esquerda) contempla, atônito, a cena (deve estar se perguntando: “Não é que tem de tudo nesse mundo? Até professor burro?”). Os medievais sabiam reconhecer à distância os estultos - e fazer galhofa, troça, ridicularizá-los, pois tinham excelente humor. Uma caligrafia escrita a posteriori pode ser lida embaixo: O bom governo dos loucos, por frei Gilles Fom..., Tratado de Boécio, da Consolação. Ah, consolemos-nos, pois, com Boécio, com a Filosofia, pois cada vez mais estamos à mercê dos loucos e dos estultos, que se multiplicam a rodo...

“Existem poucos que se dignam serem imitadores dos acadêmicos [isto é, dos filósofos da Academia grega], já que cada um escolhe aquilo que vai seguir mais por gosto que pela razão.”

“Uns se distraem com suas próprias opiniões, outros com as dos doutores, e outros com o trato da multidão. Quem duvida que aquele que jura pela palavra de seu mestre não concorda com o que se diz, mas com quem diz?”

Aquele que foi cativado pela opinião de um doutor, ladra qualquer coisa com força, e acredita que saiu das ocultas intimidades da Filosofia o que, na verdade, é apenas uma prova de infantilidade.”

Esse está disposto a disputar qualquer idiotice, acreditando que é inconcebível o que soa desconhecido aos seus ouvidos, e não concorda com a razão apenas porque pensa que o que disse seu mestre é autêntico e sacrossanto!”
João de Salisbury (c. 1115-1180), Policraticus (1159), Livro VII, cap. 9 (os grifos são meus).

O ideal mesmo de minha parte seria o silêncio, pois o homem prudente não fala ao ouvido do insensato, principalmente se for um viking de toga. Ademais, não se deve responder ao insensato conforme sua estultícia.

Contudo, desde Sócrates (c. 470-399 a. C.), o papel do professor não é só transmitir conhecimento, mas domesticar, cultivar o espírito. Nesse sentido, silenciar face à defesa pública da imbecilidade é prestar um imenso desserviço à Educação. E, por isso, eu não posso me calar (e confesso que nunca poderia imaginar que seria obrigado a defender publicamente nossa soberana capacidade de juízo).

Pois bem. Completamente despojado das citações de autoridades, o Prof. Langer se revela, se desnuda. E o que resta? Uma pessoa completamente atônita, que faz oito perguntas e não responde nenhuma – nem mesmo se a queima de hereges nas fogueiras da Inquisição foi uma coisa ruim. E o mais interessante é que seu texto tem o título de “Respostas ao Prof. Ricardo”!

Mas avançamos um pouco: finalmente, e a muito custo, além de reconhecer que o argumento da autoridade é o mais fraco em um debate (e por isso o abandono das dezenas de citações), Langer concorda que, tanto na escolha do tema, quanto das fontes, da Bibliografia e do método, o historiador julga. Ufa! Contudo, no momento mais importante, quando o historiador se faz presente, o da interpretação, Langer recua, e insiste uma vez mais na defesa da falta de juízo. Que falta de juízo, Johnni!

Não há espaço nesse curioso debate para responder a todas aquelas angustiadas perguntas que o atônito Prof. Langer faz e não responde – apenas diz que é muito perigoso julgar. Embora ele não as faça diretamente a mim, seria muito interessante respondê-las. Mas registro: são perguntas capciosas, pois as respostas estão sub-repticiamente postas, pois ele induz seu leitor.

Ater-me-ei uma vez mais ao tema do Julgamento em História nesse debate aberto pela Revista NECULT, já que Langer sequer contra-argumentou as idéias que apresentei, limitando-se, como disse, a fazer perguntas capciosas.

O problema de sua argumentação reside na falta de conhecimentos filosóficos, ou seja, em sua falta de argumentação! Em uma seqüência textual inacreditavelmente confusa, Johnni confunde “ausência de juízo” com “neutralidade” (sic), “razão” com “forma de intelectualidade” (sic), e a única argumentação que tem para enaltecer a cultura viking é a qualidade nórdica na construção náutica. Caro Johnni, além dos sacrifícios humanos e a empalação infantil, foi essa a grande contribuição viking à civilização ocidental?

Langer pergunta se é possível aplicar o “critério de Costa” (sic) a qualquer época – e, inacreditavelmente, coloca os macabros sacrifícios humanos entre aspas. É, eu já vi de tudo nessa vida.

Bem, previno-os novamente, leitores de NECULT, do perigo de adotarem o Criterius Johnni (“julgar torna-se muito perigoso”), pois se não julgarem, tornar-se-ão estultos.

Não. Não façam isso. Não abdiquem de nossa suprema capacidade. Analisem, compreendam e julguem. Comparem diferentes culturas de uma mesma época, seus distintos ritmos civilizacionais, onde e como cada cultura coetânea contribuiu efetivamente para a forja da civilização, da humanidade.

Farei novamente o mesmo agora. Mas ao invés de um filósofo muçulmano (Al-Farabi [c. 872-951], como fiz em meu direito de resposta) dessa vez seguirei a filosofia de Santo Tomás de Aquino (1225-1274), teólogo católico não muito distante temporalmente dos vikings, mas a anos-luz de distância sapiencial.

Tomás afirma que, no mundo, há um número infinito de estultos, conforme dizia a Vulgata (“Stultorum infinitus est numerus”, Ecl 1, 15), e de vários tipos (idiotasasnos, imbecisestúpidosobtusos, etc.).

Por exemplo, para Tomás, o insipiente é como o jumento, pois ABDICA DA RAZÃO; o estúpido é aquele que, paralisado pelo estupor, não decide nada; o fátuo é quem NÃO TEM NENHUM JUÍZO, e pensa que é bom o que não é; os estultos por excelência SÃO OS CELTAS – e aqui ele concorda com Aristóteles (!); o imbecil é o que demora a compreender as coisas, além de outros (são mais de vinte tipos de burros).

Não obstante, o estimado Prof. Jean Lauand (USP), autor desse fantástico artigo no qual me baseio (“Tolos e Tolices - o Besteirol na Análise de Tomás de Aquino”), está certíssimo: em outro texto seu, ele afirma que a educação brasileira está cheia de ostrogodos (LAUAND, 1998: 3). Acrescento eu: ostrogodos e vikings!

E qual o remédio contra essa eterna e persistente avalanche imbecilizante que insiste em sempre retornar ao mundo? Do distante século XIII, Tomás de Aquino afirma que há três obras de misericórdia para isso. Nós, educadores, devemos:

1) Aturar os chatos;
2) Ensinar a quem não sabe, e
3) Dar bom conselho a quem dele precisa.

Como já faço a primeira delas (pois aturo um viking chatíssimo, ughz!), deixo o Johnni Langer para lá e dirijo-me a vocês, leitores de NECULT: não abdiquem da razão, julguem sempre, tudo – e bem. Só assim não serão estultos.

E mais: busquem a Sabedoria, pois os néscios são sábios para fazer o mal e não sabem fazer o bem, e palavras calmas de sábios são mais ouvidas do que gritos de quem comanda insensatos.

“Se não se tem por bons àqueles que proporcionam o bem ao mundo, de nada valeria o quanto de bom acontece no mundo. Todo aquele que não interprete como bem-intencionado o que um homem bom faz com a melhor das intenções para o bem do mundo, age de maneira equivocada (...)”

“Respeito e valorizo os homens que acertam avaliar o bem e o mal, e que são capazes de calibrá-los em mim e em qualquer outro, de acordo com nosso verdadeiro valor (...)”

“Hoje em dia há muitos que têm por mau o bem, enquanto dão por bom o que carece de valor. Tais pessoas não ajudam: são um obstáculo.”

“Os dotes artísticos e a inteligência aguda se harmonizam facilmente, mas se intervém a inveja, a arte e a inteligência se apagam. Ah, Perfeição! Quão estreitos são os atalhos que até a ti conduzem, e quão árduos são! Afortunado aquele que pisa em teus atalhos e caminhos e por eles transita!”

“Se passar sem proveito o tempo que me foi concedido para viver, não ocuparei neste mundo o lugar que me foi designado.”

Gottfried von Strassburg, Tristão e Isolda (c. 1210), Prólogo (o grifo é meu).

***

Bibliografia

GOTTFRIED VON STRASSBURG. Tristán e Isolda (edición de Victor Millet). Madrid: Ediciones Siruela, 2001.

JUAN DE SALISBURY. Policraticus (edición preparada por Miguel Angel Ladero, Matias Garcia y Tomas Zamarriego). Madrid: Editorial Nacional, 1984.

LAUAND, Jean. Cultura e Educação na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

LAUAND, Jean. “Tolos e Tolices - o Besteirol na Análise de Tomás de Aquino”. InMirandum Plus 2 (ISSN 1516-5124).