A Inveja na Arte medieval e Renascentista

Armando Alexandre dos SANTOS
Ricardo da COSTA

Trabalho apresentado no
XI Encontro de História da Arte
Da percepção à palavra: Luz e Cor na História da Arte

evento organizado pelo Programa de Pós-Graduação em História da Arte
do IFCH da UNICAMP,
entre os dias 19 e 23 de outubro de 2015
no Campus Barão Geraldo, Campinas-SP.

É evidente também por quais razões se sente inveja, contra quem e em que estado de ânimo, se é verdade que a inveja é certo pesar pelo sucesso evidente dos bens já referidos, em relação aos nossos iguais, não visando ao nosso interesse, mas por causa deles.

Tais pessoas, com efeito, sentirão inveja das que são iguais a ela ou parecem sê-lo. Chamo iguais aos semelhantes em nascimento, parentesco, idade, hábito, reputação e bens. São igualmente invejosos aqueles a quem pouco falta para possuírem tudo (por isso os que fazem grandes coisas e os felizes são invejosos), pois crêem que todos tentam arrebatar o que lhes pertence. E os que obtêm distinções especiais por alguma razão (...) É evidente também de que pessoas se tem inveja, pois isso já foi exposto conjuntamente: com efeito, inveja-se os que estão próximos pelo tempo, lugar, idade, fama [e nascimento]. Donde se disse (Ésquilo, fr. 305, Nauck 2): Porque a parentela sabe também invejar.1

Imagem 1

Inveja (1306). Giotto (c. 1266-1337). Cappela Scrovegni (ou Cappela Arena), Pádua. Afresco, 120 x 55 cm.

A Inveja é uma paixão – ou um sentimento – que, desde os mais remotos tempos, sempre exerceu notável papel na História. Encontram-se traços dela em todas as épocas, na Mitologia, na História e na Literatura de todos os povos. Seu traço comum é a tristeza pelo bem alheio que não se possui. O invejoso se atormenta porque outro tem algo que ele queria ter, ou é alguma coisa que ele queria ser. E, em consequência, ele se esforça para privar o outro daquele bem, ainda que não possa vir a possuí-lo, somente pelo gosto de não ver outro que, a algum título, seja superior a ele.

A Inveja se distingue do ciúme e da cobiça: ciúme é o desejo obsessivo de não perder algo que já se possui; cobiça é o desejo de possuir algo não possuído. A Inveja, mais do que o desejo do bem alheio, é a tristeza pelo fato de outra pessoa possuir algo que não se tem. Consiste na deformação de um sentimento que, em sua origem, é de si legítimo: o amor de cada qual por si mesmo. Esse sentimento está na origem de toda forma de progresso e aprimoramento humano, mas quando exacerbado e envenenado pelo amor próprio, transforma-se em algo perigoso.

Numa ótica religiosa – como a que prevalecia na Idade Média e no Renascimento, períodos históricos que focalizaremos aqui – a Inveja é anterior à história humana. Por ser uma paixão de natureza intelectiva, pode ser vivida e praticada por puros espíritos, sem a necessidade de intermediação dos sentidos. Assim, antes da Criação da Humanidade houve inveja entre os espíritos angélicos e, graças a ela, Lúcifer se revoltou contra Deus. A inveja do diabo em relação à obra de Deus também esteve na origem do Pecado Original, tal como afirma o Livro da Sabedoria: “Deus criou o homem imortal, e o fez à sua imagem e semelhança. Mas, por inveja do demônio, entrou no mundo a morte; e experimentam-na os que são do partido dele”.2

A serpente despertou em Eva a inveja em relação a Deus, pois lhe assegurou que, caso comesse do fruto proibido, ela e Adão seriam “como deuses” (eritis sicut dii)3. Consumado o Pecado Original e exilado o primeiro casal para a terra, desde logo manifestou-se a inveja na raiz do primeiro crime de morte, de Caim contra seu irmão Abel.4 A partir daí, a inveja sempre exerceu seu papel, em todas as sociedades humanas.

Curiosamente, ela também esteve presente no processo diametralmente oposto ao do Pecado Original: a Redenção do gênero humano, consumada na Paixão e Morte de Jesus Cristo. A Inveja levou os Príncipes dos Sacerdotes israelitas a acusarem Jesus Cristo diante do tribunal de Pôncio Pilatos, fato que não passou despercebido ao próprio governador romano, que ainda tentou salvar Jesus Cristo ao propor sua soltura (como era costume ser feito, por ocasião da solenidade da Páscoa), “porque sabia que o haviam entregado por inveja”.5 Por isso, para os teólogos medievais, a Inveja era um pecado capital que induzia à prática de outros pecados.

Por exemplo, Tomás de Aquino (1225-1274), na Suma Teológica, dedicou uma questão inteira ao estudo da Inveja.6 Colocou-a entre os vícios ou pecados capitais, como contrária à caridade, ou amor ao próximo. Nesse particular, seguiu a esteira tradicional do pensamento católico medieval, já que desdobrou e sistematizou o que ensinara, no início da Idade Média, o Papa Gregório Magno (c. 540-604). Este último, ao desenvolver fragmentos de autores anteriores, formulou com clareza a doutrina dos sete pecados capitais (orgulho, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça), pecados particularmente perigosos, não porque necessariamente mortais, mas porque são cabeças (daí o nome capitais) de outros pecados que atraem consigo, à maneira de séquito. No caso da Inveja, costuma ela abrir um cortejo de “filhas” que a acompanham e constituem – ou pelo menos podem constituir – outros tantos pecados.

O cortejo de filhas da Inveja é constituído, segundo Gregório Magno e Tomás de Aquino, pela murmuração (popularmente conhecida no Brasil como “fofoca”), pela detração, pela alegria com as desgraças do próximo, pela tristeza com seus sucessos e, por fim, pelo ódio.7

Existem numerosas representações da Inveja na arte da Idade Média e do Renascimento. Todas elas exprimem, de algum modo, a doutrina dos pecados ou vícios capitais.

Na Idade Média, muitas vezes, a Inveja foi representada como um ramo da Árvore dos Vícios, à qual se opunha antiteticamente uma Árvore das Virtudes. A Árvore dos Vícios tinha como tronco o orgulho, enquanto a Árvore das Virtudes tinha como tronco o Amor, quer dizer, a Caridade.

Já na Idade Média começaram a surgir representações antropomórficas que personificavam a Inveja, ou mostravam pessoas por ela vitimadas – pessoas vivas, pessoas no Inferno, todas a padecer os tormentos especificamente reservados aos invejosos. No Renascimento, essas representações antropomórficas acentuaram-se a ponto de se terem tornado quase exclusivas.

Passemos a ver alguns exemplos de representação da Inveja, na arte dos dois períodos focalizados.

Na figura 01, a Inveja pintada por Giotto di Bondone (c. 1266-1337) na Cappela Scrovegni (ou Cappela Arena, em Pádua). Trata-se de um afresco de 120 x 55cm, datado de 1306. A Inveja é representada antropomorficamente como uma mulher velha, com o rosto tão enrugado e marcado por bexigas que parece barbado. Tem chifres, como um diabo, e imensas orelhas – o invejoso está sempre atento, pronto a ouvir tudo o que alimenta sua paixão. Uma serpente lhe sai da boca, como uma grande língua, a se voltar contra ela própria. Pica-o na testa: o invejoso é a principal vítima de si mesmo! Tem os olhos vendados, para indicar a cegueira que o impede de ver de modo objetivo a realidade das coisas e das pessoas entre as quais vive. Sua mão direita, erguida, insinua que é ativo, cheio de iniciativas, pronto a prejudicar as pessoas a quem inveja e às quais deseja o mal. Também parece estar, com a mão, em posição de quem arranha a honra e a boa reputação alheias. Sua mão esquerda, sofregamente, porta uma bolsa, o que representa a profunda ligação entre a inveja e a cobiça (dos bens materiais) e, ao mesmo tempo, como ela é intimamente relacionada com a avareza, outro pecado capital.

Por fim, está sobre uma fogueira ardente: a paixão o devora, o abrasa, transforma sua vida num inferno. É um prenúncio do castigo que lhe está reservado na Eternidade. Nesse afresco, Giotto soube retratar, com gênio, todo o horror da Inveja, vício que avilta e atormenta quem se entrega a ele.

Imagem 2

“A Árvore dos Vícios”. Liber Floridus (1120), de Lambert de Saint-Omer. Manuscrito de 1460, folio 185v, Koninklijke Bibliotheek. 

Na figura 02, a Árvore dos Vícios, de um manuscrito de 1460 que se encontra na Koninklijke Bibliotheek (Biblioteca Nacional da Holanda) e que, por sua vez, reproduz o texto e ilustra o Liber Floridus, de Lambert de Saint-Omer (séc. XII). A árvore representada é uma ficulnia (figueira) que se abre em sete galhos correspondentes aos sete vícios ou pecados capitais. Um dos galhos, situado na parte inferior da imagem e com seu fruto a ultrapassar (para baixo) a bordadura vermelha da página, representa a Inveja, com uma frase latina explicativa: Invidia homicidium perditionem fraudem inconstantiam timorem cordis generat (A Inveja gera o homicídio, a perdição, a fraude, a inconstância e o temor de coração). 

Imagem 3

“O Orgulho e a Inveja”. British Library MS Yates Thompson 3, c. 1440-1450.

Outra representação antropomórfica da Inveja é a da figura 03, do manuscrito quatrocentista The Dunois Hours (Paris, c. 1440-1450, British Library, Yates Thompson 3, fol. 159r). Nele, a Inveja é apresentada como uma dama vestida de azul, sentada sobre um lobo e com uma espada na mão. Seu aspecto é discreto. Não porta joias nem adornos. A seu lado, também antropomorficamente, o Orgulho. É um rei sentado sobre um leão, também com uma espada na mão. Suas vestes, de púrpura (cor imperial), são pomposas. Está coroado, e com um colar cheio de pedrarias. Os dois animais simbolizam, cada qual a seu modo, a ferocidade, e as espadas que os dois personagens brandem também remetem às ideias da violência e da crueldade.

A posição do pescoço do rei indica o desprezo profundo que o orgulhoso sente pelos outros; os trajes discretos e a aparência recatada da figura feminina parecem sugerir a falsa modéstia e a hipocrisia que, muitas vezes, são atributos dos invejosos. É de notar que o invejoso não olha de frente, mas de soslaio, característica de seu olhar maldoso e mal-intencionado.

Imagem 4

Os sete pecados capitais (c. 1475-80), de Hieronymus Bosch (1450-1516). Óleo sobre madeira, 120 x 150 cm, Museu do Prado, Madri.

Por fim, outra representação iconográfica da Inveja, não mais antropomorficamente, mas como prática da vida quotidiana. O artista flamengo Hieronymus Bosch (1450-1516) pintou Os sete pecados capitais (figura 04) entre 1475 e 1480, no início de sua carreira, fase que se poderia chamar, um tanto impropriamente, mais “realista”, menos “surrealista”. É uma obra que ganhou fama porque o rei Filipe II (1527-1598), da Espanha, a adquiriu e a quis colocar nos aposentos reais de seu palácio, el Escorial (El Real Sítio de San Lorenzo de El Escorial), para tê-la continuamente diante dos olhos, como objeto de meditação. Possui 120 x 150cm e está, atualmente, no Museu do Prado, em Madri.

É constituída por cinco medalhões. O central (e maior) representa o olho de Deus, que tudo vê. Tem a inscrição latina CAVE CAVE DOMINUS VIDET (Presta muita atenção, pois o Senhor te vê). Em torno da pupila, na íris, estão distribuídos, em quadros menores, os sete pecados capitais. Nos medalhões dos quatro ângulos, figuram os quatro Novíssimos, as últimas coisas que certamente estão na passagem de cada homem pela terra: a Morte, o Juízo, o Inferno e o Paraíso. Duas faixas, uma no alto, outra embaixo, reproduzem (no latim da Vulgata), textos bíblicos do Deuteronômio e alusivos aos Novíssimos: Gens absque consilio est et sine prudentia. Utinam saperent et intellegerent haec ac novissima sua providerent! (São pessoas desprovidas de discernimento e sem prudência. Oxalá tivessem sabedoria e entendessem o fim que os espera, Deut. 32, 28-29) e Abscondam faciem meam ab eis et considerabo novissima eorum (Esconderei deles a minha face e considerarei o fim que terão, Deut. 32, 20).

Imagem 5

Concentremo-nos na figura 05, dedicada à Inveja e na qual se vê em detalhe uma das representações que cercam o olho central. No lado esquerdo, há um jovem que oferece uma flor a uma donzela, em uma janela. Em vez de olhar para o presente que lhe está sendo oferecido (ou mirar quem o oferecia), ela parece ter os olhos fixados na bolsa de dinheiro que o ofertante leva à cintura. Na janela ao lado, mais ao centro da cena, um homem, aparentemente um rico burguês, invejosamente contempla um elegante nobre, cavaleiro reconhecível por suas esporas, que leva consigo uma ave de caça e junto ao qual um plebeu, ao seu serviço, carrega um pesado fardo. Ao lado do burguês, sua esposa olha para fora com um olhar enviesado e, aparentemente, troca comentários malevolentes com o marido sobre a vida alheia: talvez esteja a criticar o nobre, talvez a falar sobre o jovem que, na janela ao lado, corteja a filha do casal.

O nobre, por sua vez, parece olhar para o jovem namorado. Inveja-lhe a juventude? Ou seu charme em atrair a donzela? O rosto do plebeu também está voltado para trás. Aparentemente inveja a melhor condição das pessoas pelas quais passou. Mas a representação mais curiosa da cena é a dos dois cães: cada qual têm um osso à sua frente, à sua disposição, mas, em vez de se contentarem ambos com o que lhes pertence, preferem invejosamente olhar o outro osso que não lhes pertence e que está na mão do burguês. É bem essa a característica do invejoso, se atormentar por não ter um bem alheio e se tornar incapaz de fruir o bem ao seu alcance. Terá significado o fato de o burguês ter na mão um osso? Significará que se trata de um agiota, acostumado a roer os infelizes que explora até os ossos? Parece ter sido a intenção do pintor mostrar como a Inveja permeia todas as relações sociais, como abrange homens e mulheres, de todas as condições, até mesmo os animais.

Vejamos agora, à guisa de conclusão, dois exemplos de representações literárias da Inveja, uma do período medieval, outra dos albores do Renascimento.

Ao descrever os vícios humanos expulsos do Jardim do Amor no Romance da Rosa (c. 1225), o poeta francês Guilherme de Lorris (c. 1200-1230) refere-se à Inveja e alude à representação que costumavam fazer os artistas desse vício capital, com o característico olhar enviesado:

A Inveja nunca deixa de falar mal dos outros: se conhecesse o mais nobre de todos que existe desse lado do mar ou do outro, ela tentaria ofendê-lo; e se fosse um homem tão íntegro que ela não conseguisse fazê-lo cair de seu mérito, nem derrubá-lo, ao menos lhe agradaria diminuir seu valor e sua honra, falando dele o menos possível. Na pintura vi que a Inveja tinha um olhar mau, pois não olhava de frente, somente de soslaio, dissimulando; esse era um mau costume seu, não contemplar nada abertamente, pelo contrário, só fechava um olho com desprezo, desdenhando e ardendo de raiva ao ver alguém nobre, formoso ou gentil, querido e estimado por todos. (“Primeira parte” de O Romance da Rosa)

Na novela de cavalaria Curial e Guelfa, obra-prima da literatura catalã da segunda metade do século XV, de autor anônimo, a Inveja é também representada antropomorficamente de modo repelente, como:

...uma velha muito alta e esquelética, barbuda, com longos fios de cabelo nas sobrancelhas, os olhos forrados por uma espécie de entretela, ambos de cor vermelha, lacrimosos e com remelas, toda enrugada e pálida, tão seca e magra que seu pescoço parecia o de um violão, sem carne alguma entre a pele e os ossos; usava uma roupa de lã negra e fosca, grossa, muito velha e desbotada, rasgada e muito despedaçada; descalça, com os pés cheios de bolhas e em algumas ranhuras vertia um sangue purulento... Tremia-lhe a cabeça, o queixo e as mãos, e sua boca não tinha dentes nem molares; escorria-lhe a saliva da boca, e água do nariz; suas orelhas pareciam pêssegos secos ou passas, e seus dedos e juntas eram como sarmento de dois ou três anos podados da cepa; a pele de seu corpo aos pedaços caía, e não lhe parecia senão cepa ou parreira que cai com o corte; e finalmente, nem a macacas velhas e com sarnas nem a qualquer outra coisa, por mais vil e desprezível que fosse, ela podia ser comparada.

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Fontes

ARISTÓTELES. Retórica das Paixões (introd., notas e tradução do grego: Isis Borges B. da Fonseca). São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Bibliorum Sacrorum Iuxta Vulgatam Clementinam. Cidade do Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis. 1946.

ANÔNIMO. Curial e Guelfa. (Primeira tradução para o português e notas: Ricardo da Costa – Revisão: Armando Alexandre dos Santos. Estudo introdutório e edição de base: Antoni Ferrando). Santa Barbara (CA): eHumanista, 2011.

AQUINO, São Tomás de. Suma Teologica. Madri: Biblioteca de Autores Cristianos, 1959, vol. VII.

GREGÓRIO MAGNO. Libros Morales/1 (I-V). Madrid: Editorial Ciudad Nueva, 1998.

LORRIS, Guilherme de. A Primeira parte de O Romance da Rosa (c. 1225) (trad. de Sonia Regina Peixoto, Eliane Ventorim e Ricardo da Costa).

Notas

  • 1. ARISTÓTELES. Retórica das Paixões (introd., notas e tradução do grego: Isis Borges B. da Fonseca). São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 68-69.
  • 2. Sab., 2, 23-25.
  • 3. Gen, 3, 5
  • 4. Gen, 4, 1-16.
  • 5. Mt, 27, 18.
  • 6. II-IIae, q. 36.
  • 7. Suma Teológica, II-IIae, q. 36, a.4.

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