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Entre a Pintura
e a Poesia: o nascimento do Amor e a elevação
da condição feminina na Idade Média
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In:
GUGLIELMI, Nilda (dir.). Apuntes
sobre familia, matrimonio y sexualidad en la Edad Media.
Colección Fuentes y Estudios Medievales 12. Mar del Plata:
GIEM (Grupo de Investigaciones y Estudios Medievales),
Universidad Nacional de Mar del Plata (UNMdP), diciembre de 2003, p. 4-28
(ISBN 987-544-029-9).
***
Figura 1

Amantes
(31 x 18). Detalhe da decoração do teto (em madeira) do
claustro da abadia de Sto. Domingo de Silos (século XV - Burgos).
Primavera, desabrochar das flores. Um jovem casal de
enamorados se encontra em um ambiente natural - lugar por excelência
das aventuras amorosas (2). Neste pequeno pedaço
de terra, nesta “ilha do amor”, eles estão cercados
de plantas, imensas, exóticas, que circundam o espaço. O
ambiente transpira paixão. O ar está vermelho, quente. Os
rostos estão colados, postura típica dos enamorados medievais;
os pés unidos do jovem sugerem que ele está sentindo intensamente
o contato físico de sua amada; as vestes têm o mesmo bordado
e a mesma cor, indicando a harmonia e a perfeição do amor
do casal, pois na Idade Média a relação entre os
personagens na pintura se baseava na alternância rítmica
das cores (3).
As mãos, elas dão o movimento e explicam os atributos dos
personagens ou o motivo pelo qual estão inseridos na cena (4).
Repare na posição das mãos do casal: a dama impede
suavemente o avanço do cavaleiro, com sua mão esquerda tocando
o peito dele; sua atitude é aparentemente contida, já que
sua mão direita o envolve. Ela quer e não quer. Dualidade
feminina. Por sua vez, o cavaleiro, apaixonadamente ousado, a abraça
com sua mão esquerda, enquanto a direita, insinuante, acaricia
carinhosamente um de seus seios.
Na parte superior da imagem, duas linhas negras, vindas da esquerda e
da direita, se entrecruzam no meio e evoluem para baixo, formando uma
figura triangular que dá a impressão de estar viva, pois
no interior de suas linhas se espremem dezenas de “copos-de-leite”
(5), planta aquática branca e em formato de um
copo semicônico, considerada erótica por possuir um talo
arredondado em torno do qual se desenvolve a flor - símbolo feminino
-, um caule amarelo no meio - representando o falo, e do qual exala uma
suave fragrância convidativa ao amor.
As linhas negras entrecruzadas ressaltam que o casal está naquela
“ilha do amor”. Para destacar isso, o artista recorreu à
chamada “arte de reforçar”, isto é, elevar o
que se encontra por trás ou ao redor e mostrá-lo por cima.
Assim, tudo o que está nele se vê de cima, como as flores.
O fato de estarem cercados de água por todos os lados assegura
a intimidade do casal: trata-se, portanto, de uma cena íntima.
As mãos no peito e as flores eróticas circundando a cena
indicam que o momento do amor se aproxima (6).
Complementando a cena, acima, à esquerda e à direita, um
arranjo laranja com as mesmas plantas, como se fosse uma extensão
natural dos pensamentos compartilhados do casal. Afinal, na Idade Média,
a concepção vigente era de que o corpo humano, formado pelos
quatro elementos, se estendia e se comunicava com toda a natureza (7).
***
Quando a vejo reconheço-me
Nos olhos, no rosto, na cor,
Pois tremo de medo como a folha ao vento
Uma criança tem mais juízo que eu
De tal modo me sinto possuído pelo amor
E de um homem vencido desta forma
Bem poderia uma dama ter grande piedade
(Bertrand de Ventadorn, c. 1150-1180) (8)
Quem nunca escreveu uma poesia de amor? Ter amado, ter
sido amado, ter sofrido, ter feito sofrer: talvez essas sejam as condições
necessárias para se escrever sobre o amor. Mas por que
tão poucos historiadores brasileiros se dedicaram a esse tema?
Por que o amor não faz parte do universo temático da História
- pelo menos da História que se escreve no Brasil? (9)
O amor é um sentimento sublime, força unificadora e harmonizadora
desde a Grécia Antiga. Para Platão, o amor é falta,
necessidade, desejo de conquistar e preservar o que se conquistou; o amor
dirige-se para a beleza, aparência do bem (O Banquete, 200a,
205e). Aristóteles, por sua vez, considerava o amor sexual,
uma afeição que conduzia à amizade, sentimento superior
(Ética a Nicômano, VIII, 3, 1156b); ninguém
seria atingido pelo amor se não fosse ferido pelo prazer da beleza
(IX, 5, 1167) (10).
Contudo, não vamos contar a história do amor através
dos filósofos. Queremos tratar do nascimento do amor cortês
no século XII, do surgimento desse tipo de conduta masculina refinada
e educada em relação ao sexo feminino, ao seu amor. Há
séculos o amor arrasta os homens. Há séculos a mulher
é cortejada. Em prosa, em verso. Diversos são os sentimentos
que afloram ainda hoje quando nos deleitamos com amores como os de Abelardo
e Heloísa (11), Dante e Beatriz (12)
e Laura e Petrarca (13). Todos ilícitos, que à
exceção do primeiro, nem chegaram a se concretizar (14).
Os poetas medievais, apaixonados, derramaram suas lágrimas e seu
sofrimento por amadas - acessíveis e inacessíveis.
O que desejamos ressaltar aqui é que esse sentimento, e o moderno
comportamento de submissão masculina em relação ao
“sexo frágil”, à vontade feminina, foram “inventados”
na Idade Média. Sim, essa mesma Idade Média execrada por
muitos, por desconhecimento, por preconceito ou simplesmente porque nunca
amaram - nem escreveram apaixonados poemas de amor.
Paradoxalmente inventado na Idade Média e recusado em nosso século,
o amor foi relegado a um segundo plano, enquanto a política vinha
à tona nas discussões sociais. O amor chegou a ser considerado
uma ideologia (15) e um mal (16). Pior
que isso, somente a proposta dos mais radicais: simplesmente eliminá-lo!
Pelo menos essa era a idéia dos comunistas de Cambridge na década
de 30. Eric Hobsbawm - não por acaso um dos historiadores mais
influentes e lidos nos cursos de História em nosso país
- conta-nos em sua autobiografia que cantava com seus camaradas
universitários uma melodia de Cole Porter com uma letra adulterada
e bastante sugestiva para o tema que nos propomos narrar aqui:
Vamos liquidar o amor / Vamos dizer daqui
em diante que toda a nossa afeição /
É somente para os trabalhadores / Vamos liquidar o amor / Até
a revolução /
Até esse momento o amor será / Uma coisa não bolchevique.
(17)
Sintomático o fato de os trabalhadores receberem
afeição dos bolcheviques, não amor. Claro,
o verdadeiro revolucionário deveria ser duro. Hobsbawm
reconhece a contradição: “Nós, que queríamos
preparar o terreno para a bondade, não podíamos ser bondosos”
(18). O amor - que une - não combinava com a Revolução
- que separa.
A partir de então, pelo menos entre os intelectuais de esquerda
dos círculos acadêmicos ingleses, as linhas traçadas
pelo Partido Comunista determinariam as vidas privadas de seus membros.
O público interferia no privado, já que sentimentalismos
individuais faziam parte do “mundo burguês”: “Se
o Partido mandasse abandonar o amante ou o cônjuge, obedecia-se
(...) Era impensável qualquer relacionamento sério com quem
não fosse membro do Partido ou estivesse pronto para ingressar
(ou reingressar)” (19).
Esse comportamento mecânico de mais de setenta anos parece-nos,
no mínimo, ridículo, doentio, mas o impressionante é
que, até hoje, ele norteia boa parte da inteligência universitária
de esquerda em nosso país (20).
Como acreditamos que, em tese, tudo o que o homem fez (e pensou) é
motivo histórico, o amor, sem dúvida, é
um tema propício para a História, pois se refere ao que
é exclusivamente humano. Além disso, através dele,
é possível fazer um estudo comparativo e temático
de tempos distintos, pois ao contrário dos nossos famigerados tempos
pós-modernos que propagaram a Revolução
em detrimento do amor, a Idade Média cultivou e enalteceu esse
sentimento, criando uma nova e revolucionária forma de
relacionamento homem/mulher que continuou durante séculos. E em
boa parte, até os dias de hoje, apesar dos brutos - ou até
pelos brutos, pois, como sabemos, os brutos também amam.
Aqueles homens do século XII, os chamados feudais, deram origem
a uma maneira sensível de expressão que foi denominada amor
cortês (21). Assim, é preciso definir
esse conceito para aprofundar a importância dessa transformação
nos costumes do Ocidente Medieval.
I. Os conceitos de Cortesia
e Amor Cortês
A cortesia medieval era uma qualidade mundana
(22), uma virtude essencialmente laica e que dizia respeito
ao comportamento social daqueles que compartilhavam a vida nas cortes
reais e principescas dos castelos que se multiplicaram no século
XII (23).
Cultura das elites, cortesia era visitar-se entre cortes (24).
Mais do que isso, era um refinamento de costumes, um controle mais rigoroso
das pulsões (25), uma polidez, uma arte de viver
(26), uma sociabilidade e, principalmente, uma fina educação
para com a mulher.
Ser amável, educado e fino. Saber expressar seu amor de forma gentil:
essa foi a primeira e principal fase na transição do homem-guerreiro
para o cortesão (27). Esse era o novo-homem
cortês do século XII, um cavaleiro que caminhava a passos
largos para se tornar um cavalheiro.
Essa revolução silenciosa e amorosa foi tão profunda
na história do ocidente que os termos que expressam hoje o nosso
amor romântico e o ambiente sedutor que definem o envolvimento
entre duas pessoas de sexos opostos surgiram na primeira metade do século
XII. Sem dúvida, trata-se de uma grande transformação
histórica que elevou a condição feminina! Até
Howard Bloch - um notável pesquisador, mas ferrenho e impiedoso
crítico do amor cortês (amor “capacho-pedestal”,
segundo ele (28) - não pôde deixar de reconhecer,
numa bela passagem, essa importante mutação cultural:
...a noção de fascinação
romântica que governa o que dizemos sobre o amor, o que dizemos
àqueles que amamos, o que esperamos que eles nos digam (...),
como agimos e esperamos que eles ajam, como negociamos nossa relação
com o social - em resumo, a higiene que governa nossa imaginação
erótica até a escolha de quem amamos ou as posições
físicas que usamos para exprimir isso - não existia na
tradição judaica, germânica, árabe ou hispânica,
na Grécia ou na Roma clássica, ou no início da
Idade Média.
O amor romântico tal como o conhecemos não surgiu até
aquilo que algumas vezes se chama a renascença do século
XII (29).
O nascimento do amor no século XII, foi um dos
melhores legados que a Idade Média deixou para os tempos vindouros.
Para analisá-lo um pouco mais de perto, tomaremos como base documental
algumas passagens de poesias líricas trovadorescas - sabemos da
existência de quatrocentos e sessenta trovadores (30)-,
a obra de André Capelão (Tratado do Amor Cortês
(31), c. 1186), algumas passagens dos Lais de Maria de
França (contos em versos octossilábicos do século
XII) (32) três iluminuras do Livro de Canções
de Heidelberg (Codex Manesse, do século XIV) (33)
e uma tapeçaria alemã (c. 1320-1330) intitulada Maltererteppich.
Nas análises iconográficas, pretendemos mostrar que até
os gestos entre os sexos - as “posições físicas”,
como disse Howard Bloch - foram consideravelmente modificadas após
o nascimento do amor, propiciando à mulher nobre um novo e destacado
papel nas relações sociais.
Estamos cientes das dificuldades de se buscar a vida real tanto através
da prosa e da poesia quanto das imagens. Duas questões se colocam
diante do historiador: até que ponto elas retratam a realidade
da época? Textos literários e (imagens) podem servir de
parâmetro para o historiador que busca a existência concreta
da vida humana? Marc Bloch já vislumbrou esse delicado problema.
Dentro todos, teve a melhor resposta: embora a poesia de então
tendesse a dissociar-se do “sentimento da carne”, ela não
impediu que homens - e mulheres - continuassem a se satisfazer “assaz
brutalmente” (34). Com certeza, a literatura diz
muito sobre as atitudes e as aspirações humanas, do mesmo
modo as imagens (35).
Assim, o cultivo do amor por parte dos homens trouxe um abrandamento do
impulso sexual violento (e masculino), assumindo um caráter educativo
(36), melhorando a condição feminina (37).
Essa será a idéia básica norteadora desse trabalho.
II. Como elas eram tratadas?
A primeira pergunta que se deve fazer para melhor se
avaliar o impacto do nascimento do amor é: como os homens tratavam
as mulheres antes do século XII? Parece ser consenso entre
os historiadores que, nos círculos sociais mais elevados que se
têm notícia na documentação, a mulher não
era tratada com qualquer tipo de ternura, muito pelo contrário.
Por um lado, a Igreja tinha um discurso regularmente misógino (38),
apesar de, pelo menos desde o século IX, colocar a mulher juridicamente
em pé de igualdade com o marido (39). E não
só em pé de igualdade jurídica, mas também
de humanidade: ainda no século VIII as populações
acreditavam que as mulheres possuíam relação e influência
sobre os eclipses lunares! A Igreja lutou contra essa concepção
mágica feminina, e tentou fazer prevalecer o conceito de igualdade
entre os sexos. O Concílio de Leptines (744) destacou a noção
da mulher como um ser humano e não cósmico,
pois muitos acreditavam que a mulher dominava as forças da natureza,
que era um mistério - benéfico mas sobretudo maléfico.
Eles acreditavam que o maior poder da mulher era dominar o amor, visto
então como um sentimento negativo, o oposto da caridade. Para aplacar
essa angústia coletiva, oferecia-se aos jovens casados uma taça
de hidromel (álcool do mel fermentado), um tranqüilizante
que era considerado um antifiltro de amor, um antídoto
contra aquele impulso negativo e destruidor (por esse motivo surgiu a
expressão “lua-de-mel”). Para muitos, o amor era uma
força subversiva, um desejo devorador que deveria ser combatido
(40).
Por outro lado, vivendo em uma sociedade que enaltecia a força
viril masculina, no mundo laico seu espaço era bastante restrito.
Sua função básica era procriar. E apanhar. Ainda
no tempo de Filipe II Augusto (1180-1223), o gesto de violência
mais comum era o soco no nariz: “O rei (Filipe II) ouviu isso e
a raiva coloriu-lhe o rosto; erguendo o punho, atingiu-a no nariz com
tal força que tirou quatro gotas de sangue. E a senhora disse:
“Meus mais humildes agradecimentos. Quando lhe aprouver, pode fazer
isso novamente” (41).
Esta brutalidade do rei contradiz suas próprias palavras. Segundo
Joinville, o próprio Filipe teria dito certa vez que havia uma
grande diferença entre um homem valente e um homem-bom (prudhomme):
para o rei, o último, homem cortês, gentil e educado para
com as mulheres, era muito superior ao primeiro! Hipocrisia- Claro, mas
de qualquer modo, um sinal que, no início do século XIII,
a força bruta e a coragem já não eram suficientes
para caracterizar o perfeito cavaleiro (42).
A situação feminina era ainda pior nas camadas sociais inferiores
(burgueses e camponeses). Naturalmente, a descoberta da cortesia nas classes
altas do século XII não se difundiu rapidamente por todo
o corpo social. No século XIV um texto do direito de Aardenburgo
(cidade flamenga que seguia o costume de Bruges) é muito chocante
no que diz respeito à condição das mulheres burguesas:
“Um homem pode bater na sua mulher, cortá-la, rachá-la
de alto a baixo e aquecer os pés no seu sangue; desde que, voltando
a cosê-la, ela sobreviva; ele não comete nenhum malefício
contra o senhor.”(43)
Portanto, um homem não cometia nenhuma infração jurídica
se batesse em sua mulher, desde que não a matasse (Costume
de Namur de 1558, art. 18) (44). Ainda no século
XIV, os camponeses de Montaillou surravam suas mulheres regularmente.
Surras conjugais. Naturalmente elas tinham medo, muito medo deles. Por
exemplo, o lenhador Bernard Befyat surrava regularmente sua mulher para
proteger a mãe da violência dela. Além disso, as agressões
verbais eram freqüentes. Os textos inquisitoriais dessa aldeia são
um desfile de grosserias com o sexo feminino. Por exemplo, Guillaume d'Ascon,
católico, desconfiava que sua mulher tinha contatos ilegais com
hereges cátaros. Então disse a ela:
Grandíssima porca (...) tu e a
tua cúmplice Rixende, a mulher de Pierre Amiel de Ascou, essa
grandíssima leprosa e herética, deviam ambas ser queimadas
(...) E não me importava muito em arrancar o fígado e
os intestinos a uma porca velha como ela! (45)
Essa violência - física e verbal - contra
as mulheres perdurou modernidade adentro. Em uma de muitas histórias
sobre mulheres das camadas inferiores do século XVI narradas em
seu livro (46), a historiadora Natalie Zemon Davis contou
o drama de Marguerite, esposa de Jaquemin. Com seis filhos, ela era sempre
espancada por seu marido, chegado à embriaguez do vinho. Num sábado,
apenas oito dias após o fim do resguardo de suas duas últimas
filhas gêmeas, Jaquemin surrou-a e atirou-lhe um cálice e
um prato de cerâmica. Ferida em várias partes do corpo, Marguerite
fugiu para a casa de um casal vizinho. Desesperada, dizia a todos que
preferia morrer logo de uma machadada a viver com semelhantes tormentos.
No entanto, por amor à suas duas crianças que ainda amamentava,
ela voltou para casa três semanas depois, somente para continuar
o sofrimento. Sem forças, então pediu a ele por misericórdia
que a matasse, a machadada. Blasfemando o nome do Senhor, ele pegou o
machado e atirou nela, que conseguiu se esquivar. Transtornada, Marguerite
voltou-se, pegou o machado e desferiu o golpe mortal no marido. Ela foi
presa. Cerca de treze anos depois, em 1536, pediu a clemência do
rei. Sua carta foi registrada por um requerente para ser enviada à
Grande Chancelaria real. Ela foi perdoada.
Dessa forma, não é sem razão que quando uma mulher
falava de amor no mundo medieval (e moderno) estivesse sempre se referindo
a experiências vividas com carinhosos e solícitos amantes,
nunca com o marido (47). Na Idade Média, com o
enorme alcance desse fenômeno histórico, o amor cortês
(48), o amor e o tratamento carinhoso por parte dos homens
nasceram a princípio sob o signo da infidelidade conjugal.
Feita esta delimitação metodológica - para saber
realmente até que ponto um determinado período inova um
aspecto de sua realidade é necessário compará-lo
com o período anterior, não vê-lo em retrospectiva
com os olhos do presente - trataremos brevemente dos “inventores”
do amor cortês, de suas principais características
para, a seguir, analisar brevemente os textos e as figuras selecionadas
que retratam o gestual típico e apaixonado dos enamorados de então.
III. As mulheres tomam a iniciativa
Guilherme, duque da Aquitânia e conde de Poitiers
(1071-1126), um dos príncipes mais poderosos do reino francês,
é considerado por muitos especialistas o primeiro trovador medieval.
Em sua corte teria nascido o amor cortês. O ambiente cultural
aquitânio era bastante propício. Já a partir do século
X, os duques aquitânios, antepassados de Guilherme, viviam quase
como reis. Só faltava-lhes a sagração. Os cronistas
a serviço de sua casa usavam em seus textos epítetos do
vocabulário real e imperial (“duques piedosíssimos”,
“príncipes sereníssimos” (49).
Aqueles duques desejavam se tornar a corte ao sul do reino.
Para isso, tinham que resistir à influência cultural da corte
parisiense capetíngia. Em seu tempo, Guilherme estimulou a disseminação
da “alegria profana”. Reuniu cantores, muitos deles cavaleiros,
para celebrar o prazer proporcionado pelas mulheres e os novos valores
da cortesia. As mulheres da Aquitânia estavam em posição
histórica mais favorável para essa mudança. No sul
da França, os clérigos não exerceram tanta influência
como no norte; a Igreja sempre fora menos rica, menos culta. Seus centros
religiosos não tiveram força suficiente para impedir que
surgisse uma cultura profana, uma “moral mundana”
(50).
Somado a isso, é fato que a mulher nobre medieval, ao contrário
das lendas difundidas posteriormente, nunca viveu como uma prisioneira
em seu gineceu, pelo contrário. Muitas vezes elas defendiam militarmente
seus castelos como verdadeiros cavaleiros (51); em várias
regiões chegaram a herdar feudos (os chamados “feudos de
roca” [fiefs de fuseau][52]), governando-os
muitas vezes com dureza (53), tendo, por isso, recebido
a admiração de seus contemporâneos (que as chamavam
de viragos, mulheres-macho [54]).
Além disso, para além disso, o século XII proporcionou-lhes
a novidade de protagonizar e dirigir o salão. Muitas vezes educada
nos estudos liberais, aquelas mulheres nobres tinham o dever de cooperar
na educação do donzel, o moço que ficava entregue
aos cuidados de seu senhor (55). Dona da corte, ela tornou-se
uma cortesã - uma mulher que gentilmente recebia poetas,
cantores e artistas. Eleonor da Aquitânia é o melhor exemplo
do patrocínio feminino da poesia amorosa (56).
Cortesã, cortejada: a grande “sala das damas”
era o lugar no castelo onde os cavaleiros, agora também poetas,
tentavam mostrar seus talentos literários, todos dirigidos a ela
(57). Homens dominados, sob o poder das mulheres.
Esse contexto social aconteceu especialmente depois do retorno de Guilherme
da Primeira Cruzada. Sobrevivente da vitória turca na
batalha de Heracléia (1101), ele hospedou-se na corte de Boemundo
I, príncipe de Antioquia, e visitou Jerusalém. Dezoito meses
depois, já em casa, Guilherme passou a escrever suas canções,
provavelmente influenciado pelo verso latino dos clérigos, pela
cultura moura que conheceu em Antioquia e, talvez, pelas canções
populares goliárdicas de sacerdotes e estudantes errantes que cantavam
o amor e a natureza profana (58).
Foram conservadas onze canções suas, com uma cronologia
que ainda é objeto de discussão (59). Elas
foram ordenadas no século XIX pelo erudito Alfred Jeanroy, que
separou as canções eróticas e “obscenas”
das que tratam do amor cortês e da proximidade da morte,
teoricamente evoluindo de um estilo grosseiro para outro, refinado e sensível.
A partir de então, muitos especialistas dividiram sua produção
nessas duas fases. Não discutiremos isso aqui. Para mostrar a proximidade
da poesia com a realidade, escolhemos um dos poemas mais famosos de Guilherme,
sua canção n. 5, a
do “gato vermelho” (60), possivelmente dessa
primeira fase de sua poesia, a “mais sexualmente explícita
em qualquer língua que existia antes do século XX”
(61).
A estória é a seguinte: um jovem - o próprio Guilherme
- narra que, andando pela Auvergne disfarçado de peregrino, parou
em um castelo e ali encontrou duas damas, irmãs, Agnes e Ermessen.
Elas estavam sozinhas. Seus maridos, Guari e Bernart, estavam ausentes.
Ele decidiu passar por mudo, e conversar com elas por sinais. Por hospitalidade,
elas ofereceram uma refeição ao viajante e, após
alimentá-lo, decidiram testar sua mudez. Se ele fosse mudo mesmo,
elas disseram, “o que fizermos nunca será contado por ele”.
Então elas deixaram-no despido, pegaram um gato vermelho e selvagem,
com longos bigodes e afiadas garras e arranharam suas costas. Masoquismo!
Ele ficou bastante ferido pelos arranhões, mas, pálido,
conseguiu manter o silêncio. “Irmã, ele é mudo
de verdade! Acho que podemos nos preparar para a diversão e brincar”
(62). Elas então prepararam um banho quente para
o hóspede silencioso. Os três passaram oito dias na cama.
Exausto pelo esforço sexual, o peregrino-mudo contou:
Tanto as fodi, tal como ouvireis / Tant
las fotei com auziretz
Cento e oitenta e oito vezes, / cent et quatre-vinz et ueit vetz,
Por pouco não rompi minhas correias / que a pauc no'i rompei
mos corretz
E meu arnês / e mos arnes;
E não vos posso dizer o mal-estar / e no'us puesc dir los
malavegz,
Tão grande que me tomou / tan gran m'en pres (XIV)
(63)
Este poema mostra bem o grau de tensão erótica
presente no amor cavaleiresco das cortes medievais (64).
Outro bom exemplo é a obra Parzifal (c. 1200-1210) (65),
romance da tradição do Graal de autoria de Wolfram
von Eschenbach (c. 1170-1220). Em uma passagem há uma cena bastante
sensual:
No castelo Gahmuret viu-se rodeado por
muitas damas. A rainha em pessoa, com sua escura mão, retirou-lhe
a armadura. A seguir ele foi conduzido a uma alcova magnífica,
toda guarnecida de pele de zibelina. Com isso ela procurou demonstrar
a elevada consideração de que ele seria alvo na intimidade.
As donzelas deixaram o recinto e fecharam a porta. Ali apenas a rainha
permaneceu. Embora a cor da pele de ambos fosse diferente, ela e seu
querido Gahmuret entregaram-se despreocupadamente ao prazer inebriante
de uma genuína paixão. (65)
De nascimento nobre, Wolfram von Eschenbach
era, no entanto, pobre, possivelmente por não ter sido o primogênito
da família. Possuiu apenas uma pequena propriedade em Wildenberg,
perto de Ansbach (hoje Wehlenberg). Na corte do conde Hermann da Turíngia,
Wolfram compôs seu Parzival (67).
Figura 2
Wolfram von Eschenbach. Cod.
Pal. germ. 848. Große Heidelberger Liederhandschrift (Codex Manesse).
Zürich (1305-1340). 149v. Detalhe. Wolfram von Eschenbach
nasceu por volta do ano 1170 na Francônia, mas considerava-se um
bávaro. Entre uma estadia e outra na corte do conde Hermann V von
Thuringen (Turíngia) - amante das artes - provavelmente encontrou-se
com Walther von der Vogelweide (c. 1170-1230).
Nesta obra, Wolfram diz-nos explicitamente que não
sabia ler nem escrever, fato comum entre os poetas, que então ditavam
seus poemas. Parzifal possui quase 25.000 versos e baseia-se
no Conto do Graal de Chrétien de Troyes (68),
mas especialmente em um poeta provençal chamado Kyot (Guiot)
(69).
Bem, o que estas duas passagens selecionadas possuem em comum? A iniciativa
das mulheres. No poema de Guilherme da Aquitânia, o homem é
um objeto a serviço dos prazeres femininos: as duas irmãs
seduzem o viajante em um variado ménage à trois
com um toque de sadomasoquismo quase pós-moderno - é
por esse e outros motivos que Guilherme escandalizou os ambientes nobres
do século XII, suscitando a imaginação de seus contemporâneos,
que o consideravam um bufão (70), um devasso,
um libertino diabólico que inclusive mantinha um harém em
forma de um convento de freiras (71).
Por sua vez, no trecho de Parzifal, a rainha
assume o papel de protagonista e conduz a cena: ela retira pessoalmente
a armadura de seu amado, rebaixando-se de sua condição superior
para demonstrar publicamente sua afeição por ele - e o que
o aguardava na intimidade de seu recinto, ricamente decorado para essa
ocasião.
Qual a relação desses textos com a realidade? Na verdade,
nunca saberemos inteiramente. Podemos imaginar, conjeturar. Em nossa opinião,
é muito improvável que eles não traduzam pelo menos
uma parcela razoável do que acontecia na vida real (72).
Caso contrário, os ouvintes rejeitariam-nos - e sabemos do imenso
sucesso, nos círculos nobiliárquicos, tanto dos chamados
“contos arturianos”, contos que enalteciam o “cavaleiro
perfeito”, “fiel e enamorado” (73),
quanto dos poemas sobre o amor cortês, escritos por homens
- e por mulheres (74).
IV. Características do
amor cortês
A mais intrigante característica desse amor medieval
é a submissão absoluta do homem à dama. E mais: ele
é solteiro, jovem; ela, casada, mais velha! Naquele jogo, onde
a mulher era quem sempre vencia, a capacidade do homem em se prostrar,
mesmo sendo fisicamente mais forte, é notória (75).
Por amor, ela se tornou a senhora, a dama, e ele o vassalo, o submisso,
aquele que prestava juras de fidelidade absoluta e agia sempre com moderação
para não corromper a reputação da mulher amada, já
que era uma mulher casada. Nos textos, o amor da dama é inacessível,
intocável, distante. Claro, o segredo era a arma poderosa contra
os fofoqueiros que existiam na vida cotidiana das cortes. Porém,
a beleza da mulher era exaltada, pois os trovadores usavam recursos para
resguardar o nome de sua amada, como pseudônimos, mensageiros alados
ou confidentes de alcova (76). Esse “silêncio”
a respeito das façanhas de amor foi bem contado por Guilherme da
Aquitânia:
Obediência deve professar / Obediensa
deu portar
A quem muitas gentes deseja amar / a maintas gens, qui vol amar;
E convém saber fazer / e cove li que sapcha far
Feitos corteses / faitz avinens
E se guardar de na corte falar / e que's gart en cort de parlar
Coisas vis / vilanamens. (77)
André Capelão, uma “testemunha autêntica
do seu mundo” (o mundo da corte de Filipe II Augusto) (78),
diz:
Quem desejar manter o amor intacto por
muito tempo deverá cuidar, antes de tudo, para que ele não
seja divulgado e mantê-lo oculto dos olhos de todos. Pois, assim
que várias pessoas começam a conhecê-lo, ele deixa
de desenvolver-se naturalmente e entra em declínio.” (79)
Na poesia medieval, quem amava também tinha medo
e angustiava-se pensando na hipótese de perder esse amor ou não
poder reconquistá-lo. Os homens amavam os romances sofríveis
porque eram esses que tinham uma bela história, eram esses que
faziam com que eles fugissem da realidade que os cercava a fim de alcançar
a “beatitude do amor” (80). Na verdade, o
que eles queriam era a sensação de estarem completos, unidos
ao seu amor, como Tristão e Isolda depois da poção
milagrosa ou quando juntos no Além (81).
Cantando poemas rimados e acompanhados por instrumentos de som agradável,
os homens das cortes medievais estabeleciam contatos, sem, contudo, desobedecer
às normas do código de amor cortês que eles
mesmos criaram para estar perto da amada (82). Ser poeta
estava além de uma virtude, era uma condição
para o amor, pois até um pobre poderia conquistar uma bela dama
e substituir os presentes que essa mais gostaria de ter, se soubesse construir
belas frases (83).
Os defeitos femininos deveriam ser apagados, esquecidos e suas virtudes
glorificadas, exaltadas, e supervalorizadas até o ponto em que
o objeto daquele amor fosse tão sublime quanto a aurora ou o próprio
amor. A idealização da mulher amada muitas vezes fazia com
que o poeta a afastasse da realidade e isso transformava o “morrer-de-amor”
numa constante em versos (84).
Para Maria de França (século XII), quanto maiores a nobreza,
a prudência, a beleza e a cortesia da dama, maiores seriam os motivos
para a angústia e submissão do amante complacente, que se
jogaria ao chão com juras de amor eterno (85).
Esse amor deveria ser alimentado com a presença constante, mesmo
que fortuita, pois se acreditava que o hábito também
desenvolveria o amor: como afirma Ovídio - autor muito prezado
pelos medievais - estando sempre próximos de quem pretendemos conquistar,
essa empreitada se tornaria mais simples a cada dia que passassem nas
mediações (86).
Para obter as recompensas do amor também era preciso estar na idade
certa. Segundo André Capelão, com menos de dezoito
os meninos são inconstantes e com os maiores de sessenta o amor
não pode ser engendrado; da mesma maneira, as meninas antes dos
doze ou depois dos cinqüenta (87). Até Eros,
o porta-voz do ideal cortês, era representado num corpo
adulto: coberto de flores, possuía uma coroa de rosas e seu arco
e flechas mais bonitas representavam as qualidades da mulher que amava.
Ferido por essas virtudes, o cavaleiro convertia-se num fiel vassalo-amante
que trancaria com uma chave seu coração para qualquer outra
que porventura o quisesse adentrar (88). Homem e
mulher se completavam naturalmente, e o que não fosse natural não
poderia engendrar o amor:
É preciso deixar bem claro que
o amor só pode existir entre pessoas do sexo oposto. Não
pode surgir entre dois homens ou duas mulheres: duas pessoas do mesmo
sexo não são absolutamente feitas para se propiciarem
mutuamente os prazeres do amor ou para realizar os atos naturais que
lhe são próprios. E o amor envergonha-se de aceitar o
que a natureza veda. (89)
Mas isso não impedia que houvesse uma perturbação
dos sentidos quando o amor se iniciasse, mesmo que de acordo com a natureza.
Era então que a voz ficava embargada, perdia-se o apetite, o sono
e a vontade de viver. Num sentimento de masoquismo, aquele ferido pelo
amor queria até mesmo que a dor da humilhação se
prolongasse para ficar mais próximo dela:
Sinto prazer quando enlouqueço
E me faz em vão esperar tanto
Acho belo também quando ela me escarnece
Ou me engana, diante de mim ou pelas costas
Pois tão logo do mal me virá bem
Se lhe aprouver. (Cercamon, c. 1135-1147) (90)
Mas como o “ato de amar merece, com o tempo, mais
alegria e prazer do que aflição” (91),
esse amor romântico, platônico e fiel foi, aos poucos, dando
lugar ao amor carnal, insaciável e repleto de deslealdade (92).
O belo físico e a facilidade de elocução eram dois
dos três grandes trunfos do homem (93), que não
mais precisaria de uma excelente moralidade para conquistar sua dama.
O amor se concretizava e a moral aí nada tinha a ver com isso.
O calor que norteava a alma, queimava o corpo e o beijo era apenas a fagulha
de infinitas demonstrações de desfrutes ardorosos, como
afirma Maria de França em um de seus contos (94).
V. Os tribunais femininos
Mas a maior prova da elevação feminina
com o surgimento do amor cortês, não vem da pintura
nem da poesia, e sim das maravilhosas descrições que André
Capelão faz dos tribunais femininos. O incrível
cenário era esse: dezenas de damas reuniam-se em uma corte de uma
condessa ou baronesa e formavam uma assembléia feminina, espécie
de “tribunal do amor”, para ouvir queixas e julgar delitos
cometidos por amantes, delitos que infringiam as “leis” do
amor cortês, o código de conduta aceito por todos.
Em outras palavras: tratavam-se de reuniões femininas “a
portas fechadas” para fofocas e intrigas palacianas sobre mulheres
adúlteras e amantes fogosos! (95) E tudo isso
sem o conhecimento dos maridos traídos!
André Capelão comenta vinte e uma sentenças
proferidas por damas: sete emitidas pela condessa Maria de Champagne,
cinco pela viscondessa Ermengarda de Narbonne, três por Eleonor
de Aquitânia (mãe de Maria de Champagne), três por
Adélia de Champagne (96), duas pela condessa de
Flandres, Elizabeth de Vermandois (sobrinha de Eleonor) e uma pela assembléia
das damas da Gasconha (97). Nessa última, há
uma sentença interessante para a questão do silêncio
das fontes (problema recorrente para os historiadores):
Um cavaleiro divulgou desavergonhadamente
os segredos de seu amor e seus casos sentimentais íntimos. Todos
os que servem na cavalaria do amor pedem que tal delito seja severamente
punido, para que, não deixando impune esse exemplo de traição,
não seja dada aos outros ocasião de imitá-lo.
Foi então reunida uma corte de damas na Gasconha, onde se decidiu
por unanimidade, em disposição de validade permanente,
que esse indivíduo passaria a ser privado de qualquer esperança
de amor e considerado indigno e desprezível por todos, em qualquer
corte de damas ou cavaleiros. E se alguma dama fosse suficientemente
audaciosa para violar a disposição tomada naquela assembléia,
concedendo-lhe amor, por exemplo, também será submetida
para sempre à mesma pena e passaria a ser alvo da inimizade de
todas as mulheres de bem. (98)
Além de se preocuparem com o que as fontes dizem
(como, para que, para quem, por que) os historiadores devem sempre atentar
para os silêncios do texto, o que ele oculta, o que não
diz, porque não diz, etc. Ora, esta passagem mostra bem o problema
do tema do amor: trata-se de investigar a intimidade das pessoas! Portanto,
é bastante natural que os textos medievais não digam tudo,
ainda mais porque se referem a amores ilícitos. O tribunal feminino
de Gasconha expõe aos leitores de André Capelão
o silêncio dos amantes: eles nunca devem contar o que fazem.
Como não perceber essa nova e elevada condição feminina
nos séculos XII-XIII? Erroneamente, muitos historiadores centram
sua análise sobre a condição feminina medieval no
discurso misógino clerical - o próprio André Capelão,
no fim de sua carta, repete a ladainha contra as mulheres (99)
- ampliando a opinião dos clérigos para toda a sociedade,
como se todos pensassem assim.
Ora, isso é distorcer a realidade. As sentenças dos tribunais
são muito esclarecedoras da nova condição feminina.
Senão vejamos: as mulheres deveriam amar homens pobres para socorrê-los
em caso de necessidade; uma dama usufruía todas as carícias
de seu amante sem dar-lhe o mesmo em troca; uma mulher grávida
tinha um amante, outra deixou seu amante para se casar mas foi censurada
por isso; as mulheres tinham sempre preferência por amantes jovens
(“serão causas físicas que poderão explicar
melhor esse fenômeno”, diz a juíza do amor (100)),
e por aí vai.
Gostaríamos de destacar apenas mais uma sentença dos tribunais
femininos para mostrar que definitivamente o amor cortês não
era platônico, como muitos equivocadamente afirmam. Um cavaleiro
padecia de amor por uma dama e não tinha oportunidade de falar-lhe.
Com o consentimento dela, recorreu a um confidente, que levava as mensagens
amorosas para os dois. Com o passar do tempo,
O confidente que aceitara o papel de
intermediário, rompeu o voto de fidelidade que devia aos dois
e começou a obrar em favor próprio. A dama teve a indelicadeza
de consentir em suas perfídias e finalmente entregou-se a ele,
atendendo a todos os seus desejos. (101)
O “amante traído” denunciou o caso
à condessa de Champagne, pedindo sua arbitragem. A condessa, após
consultar sua corte de damas - sessenta! - proferiu a seguinte (e furiosa)
sentença:
Esse amante trapaceiro, que encontrou
uma mulher digna de seus méritos, pois que não hesitou
em consentir com tão grave delito, deve comprazer-se, caso assim
queira, nesse amor fraudulento, e a ela caberá ficar com o amante
de que é digna. Mas os dois deverão permanecer para sempre
privados do amor de qualquer outra pessoa; que nem um nem outro sejam
mais convidados para as assembléias de damas ou para competições
de cavaleiros; pois ele pecou contra a fé da cavalaria, e ela
agiu vergonhosamente e atentou contra o pudor das damas, ao aceitar
o amor de um confidente (102).
Ou seja, a dama, mulher mais velha e casada, tem um
amante mais jovem, solteiro e que lhe é fiel, trai o marido com
um amante, depois o amante com outro amante, e o tribunal feminino julga
a segunda traição. E o marido- Provavelmente nunca soube
do que aconteceu, nem do chifre, nem da curiosa sentença do tribunal
feminino...
VII. Duas iluminuras do Codex
Manesse (1305-1340)
Após essa breve análise dos textos da
época, passamos agora a um maior detalhamento das iluminuras selecionadas.
Da poesia para a pintura.
O Codex Manesse é um livro de canções de
trovadores alemães do século XIII preservadas num corpus
do século XIV por dois irmãos chamados Rüdiger (†1304)
e Johannes (†1298), senhores de Manesse (em Zurique). No Codex,
ao lado de cada letra de canção, há a imagem do poeta
autor da trova. As iluminuras foram pintadas por quatro artistas; o primeiro,
por volta dos anos 1300-1315 e os outros três, que completaram o
trabalho iniciado pelo primeiro, por volta de 1330. Selecionamos apenas
duas cenas para abordar o tema do amor (103).
O cantor no detalhe dessa primeira miniatura chama-se Conrado de Altstetten.
Era um conde. Suas canções pertencem ao período tardio
dos Minnesangers (final do século XIII). A iluminura mostra
uma dama abraçando seu cavaleiro de uma maneira muito envolvente.
O abraço amoroso é um tema comum nas pinturas dos
cantores alemães. Sentado a seus pés, reclinado, fascinado
por sua beleza e pelo contato físico de seu amor, o cavaleiro se
entrega passivamente aos seus carinhos, com seus olhos nos olhos dela.
Para aumentar a sensação de ternura da pintura, o iluminista
colocou a dama debruçada suavemente sobre seu amado, com seu rosto
tocando o dele. Repare, sua atitude é a de quem está tomando
a iniciativa, especialmente pela posição de seu braço
esquerdo, envolvendo Conrado.
Figura 3

Konrad von Altstetten. Cod.
Pal. germ. 848. Große Heidelberger Liederhandschrift (Codex Manesse).
Zürich (1305-1340). 249v. Detalhe. A linhagem dos von Altstetten,
documentada desde 1166, tinha sua residência em Oberrheintal, no
Vale do Alto Reno. Estavam a serviço do abade de Saint Gallen.
Por sua vez, o cavaleiro está com seu corpo estendido
como se estivesse em um divã. Essa postura é semelhante
ao amante romano, embora invertida: em Roma, a atitude emblemática
do amante é rolar sobre sua serva “como sobre um divã”
(104); aqui, pelo contrário, o homem está
inerte, embevecido, ele é o divã, ela é quem o envolve.
Sinal dos novos tempos de elevação da condição
feminina. Enquanto recebe as carícias de sua amada, Conrado protege
sua mão esquerda com uma luva branca para acolher um falcão,
o que confere à cena um equilíbrio harmonioso. Ele a apóia
sobre sua perna esquerda para melhor suportar o peso da ave.
Símbolo de sua nobre coragem e de seu prestígio
(105), o falcão parece também estar envolvido
pelo ambiente amoroso, pois bica suavemente algo que se assemelha a uma
pequena fruta na mão do cavaleiro, que tem dois longos e finos
caules também vermelhos - nas imagens medievais, como nos Bestiários,
muitas vezes os animais são retratados incorporando os sentimentos
de seus donos, como se fossem uma extensão natural deles.
O ambiente que cerca o casal apaixonado está ornamentado com um
roseiral - a rosa simboliza o Minne e sua amada (frouwe)
(106). Um jardim de rosas: este é o locus
típico dos amantes, pois o roseiral também pode simbolizar
os pensamentos carinhosos que os dois compartilham no momento - um cenário
muito semelhante à iluminura do Conde Rudolf von Neuenburg, embora
nesta última o cantor esteja sozinho escrevendo uma canção
e pensando em sua amada (107).
Por fim, esta miniatura pode ser uma ilustração da última
canção de Conrado: “Seu beijo seria um penhor que
eu aceitaria na hora por mil marcos. Um abraço destes braços
brancos é o que deseja este cantor de rimas” (108).
A iluminura seguinte retrata Hugo de Werbenwag (1258-1279). Hugo pertenceu
a uma linhagem suábia que residia no Alto Danúbio, a sudeste
de Sigmaringen. A família estava a serviço do Conde de Hohenberg-Haigerloch.
Provavelmente no final de sua vida ingressou no mosteiro de Salem, pois
em 1292, um monge do mesmo nome aparece como testemunha em um documento
(109). Suas canções também datam
do século XIII.
Esta imagem é uma das mais famosas pinturas do Codex com
o tema do abraço amoroso. No entanto, o cenário
é distinto da iluminura do conde Conrado de Altstetten. Trata-se
de um interior: os dois amantes sentam-se à beira de uma
grande cama, provavelmente em um aposento íntimo de um castelo.
A cama é ricamente ornada com uma coberta colorida e forrada com
peles.
Como adorno decorativo, dois travesseiros com círculos dourados,
nas mesmas cores dos mantos do casal (azul e vermelho), o que indica que
a cama é regularmente compartilhada pelos dois. Será a cama
dele ou a dela? As cores da coberta, vermelho e verde, as mesmas da vestimenta
da frouwe, sugerem que o quarto é seu, que ela é quem trouxe
seu amado para seu aposento.
Por fim, completando o cenário, uma cortina amarela franzida emoldura
o ambiente íntimo e propício àquela troca de carícias.
Abaixo, à direita e à esquerda, dois tipos diferentes de
rosáceas enfeitam a lateral da cama onde eles estão sentados.
Pelas coroas e pelo tipo de tecido que guarnecem o leito e com o qual
estão vestidos, podemos facilmente perceber a fina flor da realeza
os cobrindo.
Figura 4

Hugo von Werbenwag (1258-1279).
Cod. Pal. germ. 848. Große Heidelberger Liederhandschrift (Codex
Manesse). Zürich (1305-1340). 252r. Detalhe.
A postura dos personagens é ainda mais envolvente
que a iluminura de Conrado de Altstetten, pois enquanto naquele retrato
somente a mulher toma a iniciativa da investida amorosa envolvendo o conde
em seus braços, neste os dois apaixonados tocam-se com as mãos;
os longos dedos percorrem seus pescoços enquanto os rostos se encostam
suavemente.
As mãos - como já dissemos, nas iluminuras medievais as
mãos sempre sugerem o movimento e explicam o motivo da cena e,
no caso, o movimento carinhoso - são de uma delicadeza incomparável.
Os pés da dama nem chegam a aparecer, provavelmente como sinal
de respeito à privacidade da jovem, apesar de tudo indicar que
se trata de um prelúdio para uma noite de amor. Como retoque final,
um leve sorriso adorna o rosto da dama.
A mulher, nos dois casos, participa, nunca é passiva. Retribui
os carinhos que recebe, toma a iniciativa. Uma imagem muito diferente
daquela difundida pelos clérigos. Nesta cultura profana, cultura
do amor, ela é a senhora, ela é a dama, ela domina
(110).
VII. Anna e o poder
das mulheres
Figura 5
Maltererteppich (1320/1330) Augustinermuseum,
Freiburg im Breisgau, Alemanha. Detalhe.
Além do Codex Manesse, selecionamos
parte de uma tapeçaria, também alemã, chamada Maltererteppich,
datada do início do século XIV (111). Nela
há uma narrativa imagética fantástica, com
duas histórias em seqüência, aparentemente desconexas,
após a apresentação de um brasão nobre feminino
no centro do nome Anna.
Nesta tapeçaria, as imagens devem ser “lidas” da esquerda
para a direita (cortamos a seqüência por motivos de espaço).
Assim, a imagem 6 é a continuação da 5. Nesta primeira,
há a apresentação do brasão de Ana, um belo
escudo inclinado para a esquerda, de tipo francês pela sua forma.
Seu campo é cortado, em chefe de azul com duas vieiras (conchas)
de ouro, e em campanha com asnas (ou chaveirão, bandas em ângulo
no escudo) em 4 peças alternadas de prata e goles (esmalte vermelho).
O elmo é de cavaleiro, com lambrequins como o
desenho do campo do escudo (lambrequim era o pano que cobria o elmo e
protegia o cavaleiro do sol nas batalhas); um crucifixo ornamenta o metal
que circunda o queixo do cavaleiro, detalhe que mostra a preciosa arte
do ferreiro; completando o cenário, no timbre, plumas de avestruz
de prata - o timbre era qualquer insígnia apensa exterior ao escudo
e que designava a nobreza do proprietário -, sem nenhuma coroa
correspondente a um título (112).
Antes de passarmos à análise dos quatro octógonos
posteriores, detenhamo-nos um pouco mais no brasão de Anna. Três
coisas chamaram nossa atenção e que dizem respeito ao amor
e ao poder feminino: as duas vieiras (conchas), as penas de avestruz acima
do elmo e o chaveirão.
Na heráldica, a concha é um símbolo muito recorrente.
Ela representa a peregrinação (113), pois
os cavaleiros viajantes ao longo do litoral bebiam água nela.
Assim, é possível que algum antepassado da linhagem de Anna
tenha ido à cruzada na Terra Santa. Mas a concha também
representa a fertilidade (e o mar). Sua forma e profundidade lembram o
órgão sexual feminino, tendo, portanto, um duplo aspecto
simbólico, erótico e fecundante (114).
Isso interessa sobremaneira à nossa análise: as duas conchas
no brasão de Anna podem simbolizar as duas cenas com as mulheres
de Sansão e de Aristóteles que analisaremos a seguir. Caso
tenha sido essa a intenção do artista que bordou a tapeçaria,
as vieiras marcariam no brasão o erotismo sedutor e subversivo
das mulheres da linhagem do tapete...
Figura 6
Maltererteppich (1320/1330) Augustinermuseum,
Freiburg im Breisgau, Alemanha. Detalhe.
Da mesma forma, o chaveirão que aparece na parte
inferior do escudo, lembra a primeira letra do alfabeto, a. A de amor
(amore), A de Anna, letra iniciadora de toda escrita. O chaveirão
também representa o movimento alternado das águas, água
que fecunda a terra, e o vaivém constante das marés e das
ondas, o vaivém do amor.
Por fim, as plumas de avestruz que ornamentam o elmo. Na heráldica
medieval, o avestruz é um animal muito comum nos timbres de escudos
(115). Em um bestiário do século XII (De
bestiis et aliis rebus) encontramos uma interessante analogia entre
as plumas do avestruz e o hipócrita:
A pluma do avestruz é semelhante
à pluma da garça e do gavião. Quem ignora que a
garça e o gavião têm vantagem sobre todas as aves
na rapidez de seu vôo- Contudo, o avestruz, que tem o mesmo tipo
de plumas, não tem idêntica rapidez de vôo, nem sequer
pode alçar-se do solo, e embora em aparência levante as
asas como se estivesse preparado para voar, jamais pode sustentar-se
no ar.
Assim fazem todos os hipócritas que, simulando viver como os
justos, imitam sua santa conversação, mas não suas
santas ações (...) Quando o Senhor reprova a hipocrisia
dos fariseus, é como se fossem a pluma do avestruz, que mostra
uma coisa por sua cor e outra pelo que faz. (De bestiis, 212-214)
(116)
Ora, para os moralistas medievais, as mulheres são
hipócritas, pois têm um sentimento no coração
e outras palavras na língua! (117) Elas estão
constantemente a fazer artimanhas (118), são como
o avestruz, que mostra uma coisa com suas belas plumas e faz outra, pois
não sabe voar. Assim, parece que existe uma teia de intenções
na concepção do artista em relação à
linhagem de Anna expressa em seu brasão: o erotismo
e a sexualidade nas vieiras e a alternância
e a fecundidade das linhas cortadas do chaveirão.
Completando a simbologia do brasão, a mentirosa hipocrisia
das plumas douradas do avestruz.
Feita esta apresentação, o artista passa então para
duas narrativas, que são paralelas mas ao mesmo tempo se completam.
São quatro cenas entrelaçadas no interior de octógonos
amarelos e que simbolizam o poder de Anna, o poder feminino -
na Idade Média a cor amarela simbolizava a presença do mal,
era a cor por excelência da falsidade e dos personagens maldosos
(119), aqui, no caso, a mulher.
Nas duas primeiras, a famosa história de Sansão: o herói
doma o leão (Jz 14, 5-6) e depois é domado por Dalila, que
corta seus cabelos (Jz 16, 19). Observe que a atitude de Sansão
é completamente subserviente, pois ele chega a apoiar seu rosto
com a mão esquerda - curiosamente, não foi Dalila quem cortou
as sete tranças da cabeleira de Sansão, como mostra a iluminura,
e sim um homem (120). Além disso, ele não
está dormindo, como conta a passagem bíblica, pelo contrário,
parece satisfeito e sorridente com o corte de sua cabeleira.
Nas duas últimas cenas, o artista da tapeçaria relaciona
e complementa os dois octógonos da passagem bíblica de Sansão
e Dalila com uma famosa história medieval, a Queda de Aristóteles
(Lai de Aristóteles, c. 1223), poema composto pelo clérigo
e trovador normando Henri de Andeli (c. 1220-1240) (121).
Nele, o filósofo é seduzido pelo amor, abandonando seus
estudos e a filosofia.
A primeira iluminura se refere a uma versão elaborada entre 1229
e 1240 por Jacques de Vitry (†1240) - bispo de Acre e orador de
grande reputação em seu tempo. Em uma pregação
feita entre 1229 e 1240, ele relaciona aquela história com uma
passagem de Coríntios (1Cor 6) (122):
“Não é digno o vosso motivo de vanglória! Não
sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? (123)”
E continua:
O que foi comprovado (que o fermento
leveda a massa), como se diz, por Aristóteles. Ao instruir Alexandre
(o Grande), ainda adolescente, aconselhou-o, entre outras coisas, a
não procurar sua mulher em demasia, já que a amava muito,
pois era muito bonita. Então, quando Alexandre passou a recusar
seus freqüentes abraços, ela começou a investigar
com afinco e com dor, a origem de uma mudança tão grande
e de forma tão repentina em seu marido.
Quando compreendeu com certeza que foi seu mestre Aristóteles
que propôs isso, depois de muito pensar e com ansiedade em seu
coração, ela concebeu um caminho e uma maneira de se vingar
de Aristóteles. Assim, perambulando pelo jardim, ela começou
a olhar com freqüência para ele; e olhando pela janela do
seu quarto de estudos, ela desfilava sorrindo diante dele, pronunciando
palavras lascivas e desnudando seus tornozelos.
Desta forma, ela induziu de tal maneira a já nervosa mente de
Aristóteles ao amor e à concupiscência que ele começou
a suplicar à rainha que consentisse com sua vontade. Então
ela lhe respondeu: “- Creio que queres me tentar e seduzir. Mas
não posso acreditar que um homem de tanta sabedoria queira tentar
tais coisas.” (124)
Esta primeira iluminura complementa a história,
pois mostra Aristóteles, já seduzido e desviando sua atenção
dos estudos, acariciando com sua mão esquerda o queixo da rainha,
esposa de Alexandre, o Grande. Por sua vez, generosa, ela estende
as duas mãos em direção a ele, demonstrando explicitamente
que corresponde àquelas carícias.
Na segunda e última iluminura, encontra-se por fim a famosa imagem
da Queda de Aristóteles: o filósofo está
de quatro, como um cavalo (repare na sela dourada e no freio): ele é
escravo daquela mulher - na estória, ela é uma das concubinas
de Alexandre. Ela então o chicoteia, satisfeita (125).
Qual a moral da Queda de Aristóteles? Na Idade Média,
Henri de Andeli e Jacques de Vitry tiveram opiniões diferentes.
Para o primeiro, a história mostrava a onipotência do amor;
para o segundo, pregador e moralista, a história era um alerta
contra a imoralidade (126).
E o que a Queda de Aristóteles têm em comum com
a história de Sansão para estarem na narrativa da linhagem
de Anna da tapeçaria? A moral parece clara: todos os homens estão
sempre sujeitos aos encantos femininos, mesmo os mais fortes e sábios,
como Sansão e Aristóteles.
Além disso, todas as mulheres, astutamente, através do poder
de seu erotismo e sexualidade, sempre desejam dominar seus homens, mesmo
que não o digam, como as sedutoras plumas douradas do avestruz.
Assim, como não atribuir aos artistas e poetas do século
XIII a criação dessa nova e elevada condição
feminina, se há espaço para se imaginar Aristóteles,
na Idade Média, o filósofo, de quatro e sendo montado por
uma mulher?
Finalizando a análise da tapeçaria, desejamos ressaltar
um último detalhe a respeito da cor amarela, cor das vieiras: os
octógonos (amarelos) entrelaçados estão, por sua
vez, inseridos em duas faixas (também amarelas), preenchidas por
margaridas (que têm seu miolo amarelo). A jovem rainha que seduziu
o filósofo, no momento de sua conquista, trajava um recatado vestido
branco, cor da pureza; já a concubina de Alexandre que “cavalga”
Aristóteles, usa um vestido decotado de um ambíguo azul-acizentado,
cor indefinida, mostrando sua verdadeira face. Contudo, ambas têm
sempre uma touca amarela, duplo sinal: em primeiro lugar, elas não
são solteiras (127); em segundo, são falsas
- como dissemos, para os moralistas medievais, o amarelo simbolizava a
falsidade, sendo a cor das (poderosas) mulheres!
Conclusão
Georges Duby já disse que, apesar de a “literatura
de evasão” sobre o amor cortês deformar a
realidade e o imaginário desempenhar ali um importante papel, aqueles
textos não poderiam se afastar muito da realidade (128).
Bem dito. Por isso, Jacques Lacan se enganou: o amor cortês
não foi uma “escolástica do amor infeliz” (129),
pelo contrário, preencheu o espaço da literatura de então
com um tema que colocou a mulher em uma posição superior.
Apesar disso, boa parte dos historiadores medievalistas consultados, inclusive
Georges Duby, parece ter a mesma opinião: a mulher não foi
elevada com o surgimento do amor, pois a distância dos homens permaneceu
a mesma, pois ele também foi elevado (130).
Seguindo a mesma linha de Duby, o medievalista brasileiro Rivair Macedo
ainda afirma que não houve valorização feminina basicamente
por dois motivos: porque esta suposta “elevação”
atingiu apenas um grupo específico (a nobreza) e porque a evocação
enfatizava a imagem e não a mulher em si (131).
Naturalmente, nossa pretensão foi provar exatamente o contrário
desses notáveis medievalistas. Ao mesclarmos poesia e pintura,
oferecendo as iluminuras como uma espécie de espelho, um pouco
distorcido mas sempre próximo das reais atitudes humanas (132),
quisemos oferecer um painel mais amplo, e sobretudo laico. A intenção
foi mostrar que, com o gradativo surgimento da literatura cortês,
um espectro social maior pôde ser observado pelo historiador. E
nele, a monocórdia imagem misógina da mulher feita pelos
clérigos medievais contrasta com a vivacidade e liberalidade do
mundo leigo, do mundo das cortes e dos nobres dos séculos XII-XIII.
E mesmo que essa elevação da condição feminina
tenha ocorrido numa parcela ínfima do corpo social - e definitivamente
o foi, como afirma Rivair Macedo - não medimos a importância
de um evento por seu alcance e sim por sua profundidade, até porque
ele pode ocorrer gradativamente - e parece ter sido este o caso em questão.
Não devemos confundir o discurso dos moralizantes como Jacques
de Vitry e outros, com o restante da sociedade medieval. Em outras palavras:
é um grave erro de interpretação estender a misoginia
clerical a todo o corpo social! Pelo contrário, se os moralistas
estavam o tempo todo discursando contra o poder das mulheres, contra sua
tagarelice, contra a falsidade expressa através de seus cosméticos
e pinturas (133), é porque acontecia exatamente
o contrário disso na vida real: as mulheres falavam, se
pintavam e tinham poder, especialmente o poder do amor! Isso fica muito
evidente nesses séculos XII-XIV, quando a literatura laica começou
a mostrar sua própria identidade, muitas vezes libertina e anticlerical,
como vimos nos textos e imagens aqui apresentados sucintamente.
Entre a pintura e a poesia, as mulheres nobres feudais conseguiram um
importante destaque na sociedade de corte. Graças à revolução
amorosa, os homens refinaram-se, poliram-se, tornaram-se um pouco mais
civilizados, corteses, aprendendo a cortejar a dama até onde ela
o permitisse. Elas então passaram a dar a palavra final. Hoje,
graças a isso, sem o sim feminino, sem o seu consentimento,
não há amor, não há romance, não há
paixão. Poder dizer sim, poder não: esse foi a mais notável
contribuição medieval aos tempos vindouros. E se hoje, no
mundo ocidental, elas ainda estão galgando posições
em busca de igualdade de condições, devemos precisar o primeiro
passo em direção à essa emancipação:
o amor cortês, carinhoso e gentil, criado pelos medievais.
***
Notas
1. Prof. Adjunto de História
Medieval da Ufes. Os trabalhos não são possíveis
sem o (às vezes luxuoso) auxílio dos amigos. Assim, agradecemos
à Simone Valim Druffner pelas traduções
do alemão do Codex Manesse, aos professores Francisco
José Pereira das Neves Vieira, pela descrição
heráldica do brasão de Anna e sugestões interpretativas,
Alexander Fidora (J. W. Goethe-Universität, Frankfurt
am Main, Alemanha) e Pedro Paulo Funari (UNICAMP), pelas
leituras críticas, Ian Gerard Joseph Ter Reegen
(Universidade Estadual do Ceará), que gentilmente ajudou-nos a
desvendar o “mistério” da “Queda de Aristóteles”,
à Profa. Eni de Mesquita Samara (USP) pelas indicações
bibliográficas, e à Profa. Patricia Grau-Dieckmann
(Universidad de Buenos Aires), querida amiga e uma das maiores especialistas
em análise de imagens medievais, pela leitura atenta e principalmente
pela revisão de nossas interpretações iconográficas.
2. GURIÉVICH, Arón. Las categorias
de la cultura medieval. Madrid: Taurus Humanidades, 1990, p. 89.
3. GURIÉVICH, Arón. Las categorias
de la cultura medieval, op. cit., p. 110.
4. LE GOFF, Jacques. A civilização
do Ocidente Medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1984, vol. II, p.
123.
5. Zantedeschia aethiopica,
da família das Aráceas. Nomes populares: Copo-de-leite;
Calas-brancas; Lírio-do-nilo. Ver Fotos
Zante.
6. Agradecemos à Profa. Da. Patricia Grau-Dieckmann
(Universidad de Buenos Aires) sua preciosa observação das
flores, do cenário e sua relação com os personagens
da cena.
7. Todas as análises das iluminuras medievais
tal qual estão expostas neste trabalho tiveram como base metodológica
a “descrição pré-iconográfica de uma
obra de arte”, sendo consideradas temas primários ou naturais,
dentro da proposição de análise feita pelo crítico
de arte Erwin Panofsky (“...identificação das formas
puras e suas relações mútuas [...] o mundo das formas
puras assim reconhecidas como portadoras de significados primários
ou naturais pode ser chamado de mundo dos motivos artísticos”).
O equipamento para nossa interpretação, de acordo com a
teoria de Panofsky, é a experiência prática das condições
históricas relativas ao momento da criação artística,
compreendendo também a forma que o objeto analisado foi expresso
pelas formas do estilo então em voga. Ver PANOFSKY, Erwin. Significado
nas Artes Visuais. São Paulo: Editora Perspectiva, 1991, p.
50 e 64-65. Por fim, sempre que possível, relacionamos as imagens
com os textos da época. Para a questão da importância
da análise de imagens em História, ver FUNARI, Pedro Paulo
& ZARANKIN, André. “Algunas consideraciones arqueológicas
sobre la vivienda en Pompeya”. In: Gerión 19
(2001). Revista
de Historia Antigua de la Universidad Complutense de Madrid, p. 493-512.
8. SPINA, Segismundo. A Lírica Trovadoresca.
São Paulo: Edusp, 1996, p. 148.
9. No Brasil, o amor é um tema
preferencial de literatos e psicanalistas (ver, por exemplo, NOVAES, Adauto
[coord.]. Os Sentidos da Paixão. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, e JABLONSKI, Bernardo. “Amor na Contemporaneidade”.
In: Revista
Eletrônica Polêmica n.º 8, além, é
claro, dos medievalistas (que serão citados ao longo desse trabalho).
Os historiadores brasileiros, pelo contrário, têm optado
pela questão da sexualidade - tradição desde Gilberto
Freyre e seu Casa Grande & Senzala (Rio de Janeiro, Editora
Record, 1999). Ver, por exemplo, os artigos de Ronaldo Vainfas e Luiz
Mott em NOVAIS, Fernando A. (dir.). História da Vida Privada
no Brasil 1. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Até
o momento, os trabalhos sobre o amor que tivemos notícia foram:
VAINFAS, Ronaldo, Casamento, amor e desejo no ocidente cristão
(São Paulo: Editora Ática, 1986), um interessante capítulo
sobre o amor no Brasil colônia na obra de Pedro Calmon - História
Social do Brasil - Volume 1 - Espírito da Sociedade Colonial
(São Paulo: Martins Fontes, 2002, “Criminalidade e amor”,
p. 85-93), os artigos de Maria Helena Bueno Trigo (“Amor e casamento
no Século XX”) e Ivete Ribeiro (“O amor dos cônjuges:
uma análise do discurso católico [século XX]), ambos
publicados em D'INCAO, Maria Angela (org.). Amor e família
no Brasil. São Paulo: Contexto, 1991, p. 88-94 e 129-150,
respectivamente, e dois livros de SAMARA, Eni de Mesquita (A Família
Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1986 (Coleção
Tudo é História) e As Mulheres, o Poder e a
Família. São Paulo, Século XIX. São Paulo:
Secretaria de Estado da Cultura, 1989) - agradecemos a atenção
dispensada pela Profa. Eni de Mesquita Samara.
10. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia.
São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 38-40.
11. “Não esperava sem casamento nem vantagens
materiais, não pensava nem em meu prazer nem nas minhas vontades;
buscava apenas, bem o sabes, satisfazer teus desejos. O nome de esposa
parece mais sagrado e mais forte, entretanto o de amiga sempre me pareceu
mais doce. Teria apreciado, permiti-me dizê-lo, o de concubina ou
de mulher de vida fácil, tanto me parecia que, em me humilhando
ainda mais, aumentaria meus títulos a teu reconhecimento e menos
prejudicaria a glória de teu gênio.” - “Carta
de Heloísa a Abelardo”. In: Correspondência
de Abelardo e Heloísa. São Paulo: Martins Fontes, 1989,
p. 95.
12. “Vi-a, pois, quando eu quase acabava os nove
anos de idade (...) Tremendo, disse estas palavras: 'Eis um deus mais
forte do que eu que vem para me dominar' (...) Desde então, o Amor
assenhoreou-se, de facto, da minha alma, que logo a ele se uniu”
- DANTE ALIGUIERI. Vida Nova. Lisboa: Guimarães Editores,
1993, II, p. 07-08.
13. “Se não é amor, o que é
isso que sinto- / Mas se é amor, por Deus, que coisa é tal
qual- / Se é bom, por que é áspero e mortal- / Se
é mau, por que é doce seu tormento- / Se ardo por gosto,
por que me lamento / Se a meu pesar que vale tal pranto- / Oh, viva a
morte, ou o deleitoso mal / Por que podes em mim se não o consinto-
/ E se consinto, é erro queixar-me / Entre contrários ventos
vai minha nave / Que em alto-mar me encontro sem governo / Tão
leve de saber, tão grave de erro / Que não sei o que quero
aconselhar-me / E se temo o verão ardo no inverno.” - PETRARCA.
“Se
não é amor, o que é isso que sinto”. (acesso
em 01/05/2003)
14. NIEVES, Luis López. “Amor medieval”.
Publicado em Punto
y Coma. San Juan, Vol. 2, 1 y 2, 1990, p. 165-166. (acesso em 24/04/2003).
15. Ver MACFARLANE, Alan. A Cultura do Capitalismo.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989, p. 158-179.
16. “Como afirmou, cinicamente, André Maurois
(1885-1967), devemos à Idade Média duas das piores invenções
da Humanidade: a pólvora e a idéia do amor romântico.”
- JABLONSKI, Bernardo. “Amor
na Contemporaneidade”. In: Revista Eletrônica
Polêmica n.º 8. Definitivamente, consideramos esta afirmação
completamente absurda!
17. HOBSBAWM, Eric. Tempos Interessantes. Uma vida
no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002,
p. 140-141.
18. HOBSBAWM, Eric. Tempos Interessantes. Uma vida
no século XX, op. cit., p. 161.
19. HOBSBAWM, Eric. Tempos Interessantes. Uma vida
no século XX, op. cit., p. 157.
20. Há pouco tempo, um dos redatores deste artigo
teve a oportunidade de escutar, com estupefação, um colega
afirmar que nunca teria um relacionamento íntimo com alguém
que pertencesse ao PFL... Ou seja, para muitos, as opções
ideológicas ainda determinam suas vidas íntimas, exatamente
como a linha de conduta pessoal traçada e determinada pelo Partido
Comunista há mais de sessenta anos! Esse comportamento autômato
explica boa parte da reação espantosa de vários alunos
da UFES, graduandos de História: quando souberam que estava sendo
redigido um artigo sobre o nascimento do amor na Idade Média, muitos
disseram, rindo, que isso não era um tema histórico! Uma
última história: ao apresentar uma palestra sobre as diferenças
entre o príncipe maquiavélico e os Espelhos de príncipes
medievais através da relação amor/temor, uma aluna
disse que não acreditava que o amor existisse, que nunca tinha
amado ninguém e que nunca foi amada! Para ela, portanto, os textos
sobre o amor (de qualquer época) tratavam de uma invenção
literária! Maus tempos os nossos...
21. Ao contrário do que se costuma pensar, Gaston
Paris não foi o criador do conceito (em seu artigo datado de 1883
sobre Chrétien de Troyes [“Etudes sur les romans de la table
ronde: Lancelot du Lac”, Romania 12, 1883, p. 459-534]).
Segundo Raúl César Gouveia Fernandes (“Amor
e Cortesia na Literatura Medieval”. In: LAUAND, Jean
(coord.). NOTANDUM 7. Editora Mandruvá, p. 02, o trovador
Peire d’Alvernh já empregava a expressão cortez amors
em seus poemas.
22. BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal. Lisboa:
Edições 70, 1987, p. 319.
23. ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador. Volume
II. Formação do Estado e Civilização.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994, p. 111.
24. DE CANDÉ, Roland. História Universal
da Música - volume 1. São Paulo: Martins Fontes, 1994,
p. 257.
25. ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador. Volume
II. Formação do Estado e Civilização, op.
cit., p. 74. São pulsões como aquelas de que nos fala
Freud quando se refere ao amor e a outras pulsões internas, inevitáveis
e permanentes. Ver SANTOS, Taisa Barboza. “Os (des)caminhos do amor:
um enfoque pulsional”. In: LEMOS, Paulo (dir.). Insight.
São Paulo: Lemos Editorial, n. 117, maio de 2001, p. 09, e HANNS,
Luiz. Verbete “Pulsão, Instinto: Trieb”. In:
Dicionário Comentado do Alemão de Freud. Rio de
Janeiro: Imago, 1996, p. 338-354.
26. RÉGNIER-BOHLER, Danielle. “Amor cortesão”.
In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude (coord.). Dicionário
Temático do Ocidente Medieval I. São Paulo: EDUSC /
Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 48.
27. ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador. Volume
II. Formação do Estado e Civilização, op.
cit., p. 284, nota 72.
28. A tática do “capacho-pedestal”
- tese de Gisèle Halimi que Bloch assina embaixo - busca “enaltecer
a mulher para rebaixá-la.” - BLOCH, R. Howard. Misoginia
Medieval e a invenção do amor romântico ocidental.
Rio de Janeiro: Editora 34, 1995, p. 238.
29. BLOCH, R. Howard. Misoginia Medieval e a invenção
do amor romântico ocidental, op. cit., p. 16.
30. BONNASSIE, Pierre. “Amor cortês”.
In: Dicionário de História Medieval. Lisboa:
Publicações Dom Quixote, 1985, p. 32.
31. ANDRÉ CAPELÃO. Tratado do Amor
Cortês. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
32. Lais de Maria de França (trad. e
introd. de Antonio L. Furtado). Petrópolis: Vozes, 2001.
33. Cod.
Pal. germ. 848. Große Heidelberger Liederhandschrift (Codex Manesse).
Zürich (1305-1340). Digitalisiert nach: Codex Manesse - die große
Heidelberger Liederhandschrift. Vollständiges Faksimile des Codex
Palatinus Germanicus 848 der Universitätsbibliothek Heidelberg. Frankfurt
a. M., 1975-1981. Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg. E-mail:
ub@uni-hd.de
34. BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal, op. cit.,
p. 323.
35. “Mas a literatura também tem as suas
ciladas: a ficção pode, evidentemente, enganar, e tem sido
feita grande propaganda contra ela por aqueles que buscam factos. Acho
que isso é inoportuno: como todas as provas desse campo fascinante
e traiçoeiro, tem de ser manejada com cuidado; e quando nos servem
estatísticas deliciosamente cozinhadas, é prudente polvilhá-las
com as ervas e os temperos da literatura de ficção muito
bem picados e peneirados.” - BROOKE, Christopher. O casamento
na Idade Média. Lisboa: Publicações Europa-América,
s/d, p. 32.
36. “O sentimento amoroso assume, portanto, um
caráter educativo, segundo o qual o amante se aperfeiçoa
moralmente através da paciente e humilde servidão em que
se vê posto, pois somente o amor pode conduzir o homem à
plenitude e à perfeição.” - FERNANDES, Raúl
Cesar Gouveia. “Amor
e Cortesia na Literatura Medieval”, op. cit., p. 07.
37. O rapto e o estupro
eram muito comuns (além da violência do marido para com a
esposa, como veremos adiante.
38. Ver especialmente DUBY, Georges. Eva e os padres.
Damas do século XII. São Paulo: Companhia das Letras,
2002.
39. “...os bispos carolíngios do século
IX tentaram regulamentar o casamento cristão, redigindo uma série
de tratados (espelhos). Neles, o casamento era valorizado, a mulher reconhecida
como pessoa com pleno direito familiar e em pé de igualdade com
o marido e a violência sexual denunciada como crime grave e do âmbito
da justiça pública.” - COSTA, Ricardo da. “A
Educação Infantil na Idade Média”. In:
LAUAND, Luiz Jean (coord.). Revista VIDETUR 17. Porto: Editora
Mandruvá / Faculdade de Educação da USP, 2002, p.
19.
40. ROUCHE, Michel. “Alta Idade Média Ocidental”.
In: ARIÈS, Philippe e DUBY, Georges (dir.). História
da vida privada I. Do Império Romano ao ano mil. São
Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 464-465.
41. ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador. Volume
II. Formação do Estado e Civilização, op.
cit., p. 76.
42. BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal, op. cit.,
p. 319.
43. GILISSEN, John. Introdução Histórica
ao Direito. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001,
p. 607.
44. GILISSEN, John. Introdução Histórica
ao Direito, op. cit., p. 604.
45. LE ROY LADURIE, Emmanuel. Montaillou. Cátaros
e Católicos numa aldeia francesa (1294-1324). Lisboa: Edições
70, s/d, p. 247.
46. ZEMON DAVIS, Natalie. Histórias de perdão
e seus narradores na França do século XVI. São
Paulo: Companhia das Letras, 2001.
47. LE ROY LADURIE, Emmanuel. Montaillou. Cátaros
e Católicos numa aldeia francesa (1294-1324), op. cit., p.
242.
48. BONNASSIE, Pierre. “Amor cortês”.
In: Dicionário de História Medieval, op. cit.,
p. 29.
49. DUBY, Georges. A Idade Média na França
(987-1460). De Hugo Capeto a Joana D'Arc. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1992, p. 46.
50. BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal, op. cit.,
p. 324.
51. PERNOUD, Régine. A Mulher nos tempos das
cruzadas. Campinas: Papirus, 1993, p. 156, imagem 20. Esta miniatura,
que mostra mulheres defendendo seu feudo, pertence ao manuscrito De
Nobilitatibus sapientiis et prudentiis regum (Inglaterra, v. 1326,
Oxford, Christ Church College, ms Ch Ch 92, t. 4).
52. “Assim, o condado de Hainaut foi enfeudado,
em 1071, à condessa Richilde. Numerosas foram, desde então,
as mulheres que detiveram grandes feudos e exerceram o poder político
que daí decorre; citemos as condessas de Flandres, Joana e Margarida
de Constantinopla (1205-1244 e 1244-1280), a duquesa de Brabante, Joana
(1355-1406), Margarida da Baviera, em Hainaut (1345-1356), Maria de Borgonha
para o conjunto dos pays de par deçà (1477-1482). Em França
e Alemanha mesmo os maiores feudos transmitem-se às mulheres que,
então, desempenham em pessoa os seus serviços feudais, salvo
a hoste.” - GILISSEN, John. Introdução Histórica
ao Direito, op. cit., p. 602.
53. BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal, op. cit.,
p. 320.
54. Por exemplo, “...(Inês de Amboise) é
uma dessas raras mulheres de brio que os homens da época respeitavam,
quando, apeadas da sua feminilidade, se haviam tornado como que suas iguais.”
- DUBY, Georges. O cavaleiro, a mulher e o padre. Lisboa: Publicações
Dom Quixote, 1988, p. 165.
55. DUBY, Georges. O cavaleiro, a mulher e o padre,
op. cit., p. 156 e 183.
56. NUNES, Rui. “Da
Alegria de Amor ao Deus de Amor”. In: LAUAND, Jean
(coord.). Revista Internacional d'Humanitats 1 - revista anual binacional.
Editora Mandruvá, 1998, p. 03. Ver também MEADE, Marion.
Eleonor de Aquitânia. São Paulo: Editora Brasiliense,
1991.
57. O surgimento e a propagação dos castelos,
a partir do século XI-XII, certamente influíram no desenvolvimento
do processo civilizador e da valorização feminina. Ver OLIVEIRA,
Terezinha. “O feudalismo e a educação nos castelos
medievais”. In: OLIVEIRA, Terezinha (org.). II Ciclo
de Estudos Medievais: Saber e Poder na Idade Média. Anais Completos.
Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2000, p. 148-155.
58. MEADE, Marion. Eleonor de Aquitânia, op.
cit., p. 26.
59. BLOCH, R. Howard. Misoginia Medieval e a invenção
do amor romântico ocidental, op. cit., p. 195-196.
60. O texto completo é esse: “Farai un vers,
pos mi somelh / e.m vauc e m'estauc al solelh. / Domnas i a de mal conselh,
/ e sai dir cals: / cellas c'amor de cavalier / tornon a mals. / Domna
fai gran pechat mortal / qe no ama cavalier leal; / mas si es monge o
clergal, / non a raizo: / per dreg la deuri'hom cremar / ab un tezo. /
En Alvernhe, part Lemozi, / m'en aniey totz sols a tapi: / trobei la moller
d'en Guari / e d'en Bernart; / saluderon mi simplamentz / per sant Launart.
/ La una.m diz en son latin: / "E Dieus vos salf, don pelerin; /
mout mi semblatz de belh aizin, / mon escient; / mas trop vezem anar pel
mon / de folla gent." / Ar auzires qu'ai respondut; / anc no li diz
ni bat ni but, / ni fer ni fust no ai mentaugut, / mas sol aitan: / "Babariol,
babariol, / babarian." / So diz n'Agnes a n'Ermessen: / "Trobat
avem que anam queren. / Sor, per amor Deu, l'alberguem, / qe ben es mutz,
/ e ja per lui nostre conselh / non er saubutz." / La una.m pres
sotz son mantel, / e mes m'en sa cambra, al fornel. / Sapchatz qu'a mi
fo bon e bel, / e.l focs fo bos, / et eu calfei me volontiers / als gros
carbos. / A manjar mi deron capos, / e sapchatz agui mais de dos, / e
no.i ac cog ni cogastros, / mas sol nos tres, / e.l pans fo blancs e.l
vin fo bos / e.l pebr' espes. / "Sor, aquest hom es enginhos, / e
laissa lo parlar per nos: / non aportem nostre gat ros / de mantenent,
/ qe.l fara parlar az estros, / si de re.nz ment." / N'Agnes anet
per l'enujos, / e fo granz et ac loncz guinhos: / e eu, can lo vi entre
nos, / aig n'espavent, / q'a pauc non perdei la valor / e l'ardiment.
/ Qant aguem begut e manjat, / eu mi despoillei a lor grat. / Detras m'aporteron
lo gat / mal e felon: / la una.l tira del costat / tro al tallon. / Per
la coa de mantenen / tira.l gat et el escoissen: / plajas mi feron mais
de cen / aquella ves; / mas eu no.m mogra ges enguers, / qui m'ausizes.
/ "Sor," diz n'Agnes a n'Ermessen, / "mutz es, qe ben es
conoissen; / sor, del banh nos apareillem / e del sojorn." / Ueit
jorns ez encar mais estei / en aquel forn. / Tant les fotei com auzirets:
/ cen e quatre vint et ueit vetz, / q'a pauc no.i rompei mos coretz /
e mos arnes; / e no.us puesc dir lo malaveg, / tan gran m'en pres. / Ges
no.us sai dir lo malaveg, / tan gran m'en pres.” Publicado na Internet
(traduzido para o inglês por Leonard Cottrell) (acesso no dia 25.01.2003).
61. NICHOLAS, David. A Evolução do
Mundo Medieval. Sociedade, Governo e Pensamento na Europa: 312-1500.
Lisboa: Publicações Europa-América, 1999, p. 365.
62. A estória do poema encontra-se muito bem narrada
em MEADE, Marion. Eleonor de Aquitânia, op. cit., p. 32.
63. Guillermo IX Duque de Aquitania y Jaufré
Rudel. Canciones Completas (edición bilingue preparada por
Luis Alberto de Cuenca y Miguel Angel Elvira). Madrid, Editora Nacional,
1978, p. 48-49.
64. HAUSER, Arnold. História Social da Literatura
e da Arte. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1982, vol. I, p.
297.
65. Publicada integralmente na Bibliotheca
Augustana (acesso no dia 24.04.2003)
66. WOLFRAM VON ESCHENBACH. Parsifal (trad.
de A S. Schmidt Patier). São Paulo: Antroposófica, 1995,
Livro I, p. 52.
67. Um bom resumo e análise de Parzifal pode ser
encontrado em BROOKE, Christopher. O casamento na Idade Média,
op. cit., p. 162-174.
68. El Cuento del grial de Chrétien de Troyes
y sus Continuaciones (introd. y trad. de Martín de Riquer).
Madrid: Ediciones Siruela, 2000.
69. A edição principal de trabalhos de
Wolfram é a de K. Lachmann (Berlim, 1833; edição,
1891); uma edição com introdução e comentários
é a de K. Bartsch, de “Und Titurel Parzifal” de “Des
Mittelalters Deutsche Klassiker”, IX-XI, 3 partes (Leipzig, 1875-77);
editado também por Paul Piper Deutsche de Kürschner em “Nacional-Litteratur”,
V, e por E. Martin, “U. Titurel Parzival” (Halle, 1900-03),
comentada. Ver REMY, ARTHUR F. J. “Wolfram von Eschenbach”.
In: The
Catholic Encyclopedia, Volume XV, Online Edition (acesso no dia 24.04.2003).
70. Guilherme IX, duque da Aquitânia, para escândalo
de Orderic Vital, “...ultrapassava mesmo em bufonaria os histriões
mais bufões (facetos etiam histriones facetiis superans).”
- ZUMTHOR, Paul. A Letra e a Voz. A “Literatura” Medieval.
São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 59.
71. DUBY, Georges. Heloísa, Isolda e outras
damas do século XII. São Paulo: Companhia das Letras,
1995, p. 16.
72. “As aventuras cavalheirescas dos romances corteses
situam-se num mundo de fantasia (...) Todavia, não podemos fugir
ao poder dos sentimentos que expressam, ou imaginar que eles eram totalmente
destituídos de influência. A vida real está cheia
de paradoxos; os romances revelam alguns dos paradoxos da sociedade medieval,
com bastante força.” - BROOKE, Christopher. O casamento
na Idade Média, op. cit., p. 157.
73. DE RIQUER, Martin. “Introducción”.
In: El Cuento del grial de Chrétien de Troyes y sus
Continuaciones, op. cit., p. 23.
74. Um bom exemplo do olhar feminino a respeito do amor
são os contos em versos octossilábicos de Maria de França.
Ver Lais de Maria de França (trad. e introd. de Antonio
L. Furtado). Petrópolis: Vozes, 2001.
75. Georges Duby, em seu livro Idade Média,
Idade do Homens: do amor e outros ensaios (São Paulo: Companhia
das Letras, 1989, p. 63-65), fala-nos do amor cortês, que ele chama
de “amor delicado”, justificando sua existência nas
cortes como forma de contenção da cavalaria. No entanto,
Duby afirma que a dama era a peça menos importante no jogo, pois
o verdadeiro objetivo do jovem cavaleiro seria chegar até seu senhor,
prestando-lhe as mais sinceras homenagens através de sua esposa.
Sua opinião a respeito é a que vigora atualmente em boa
parte dos medievalistas, opinião que naturalmente não compartilhamos.
76. SPINA, Segismundo. A Lírica Trovadoresca.
São Paulo: EDUSP, 1990, p. 24-25.
77. Guillermo IX Duque de Aquitania y Jaufré
Rudel. Canciones Completas (edición bilingue preparada por
Luis Alberto de Cuenca y Miguel Angel Elvira), op. cit., 58-59.
78. BROOKE, Christopher. O casamento na Idade Média,
op. cit., p. 159.
79. ANDRÉ CAPELÃO. Tratado do Amor
Cortês, op. cit., p. 211.
80. ROUGEMONT, Denis de. O Amor e o Ocidente.
Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988, p. 18. Para a questão
da beatitude do amor, ver especialmente DANTE ALIGUIERI. Vida Nova.
Lisboa: Guimarães Editores, 1993.
81. JOHNSON, Robert A. We: a chave da psicologia
do Amor Romântico. São Paulo: Ed. Mercúryo, 1987,
p. 78-79.
82. PAZ, Octavio. A dupla chama: amor e erotismo.
São Paulo: Siciliano, 1994, p. 70-71. Para a questão do
instrumental medieval, ver DE CANDÉ, Roland. História
Universal da Música - volume 1. São Paulo: Martins
Fontes, 1994, p. 222-233, e a excelente Home-page do grupo (brasileiro)
de música medieval ATEMPO,
onde há um link para cada instrumento medieval (e seu som).
83. OVÍDIO. A Arte de Amar. Porto Alegre:
L&PM, 2001, p. 58-63.
84. FERREIRA, Nadiá Paulo. “Do Amor Cortês
ao Amor sob o Signo da Paixão”. In: MALEVAL, Maria
do Amparo Tavares (org.). Atualizações da Idade Média.
Rio de Janeiro: Ed. Ágora da Ilha, 2000, p. 297-299.
85. Lais de Maria de França (trad. e
introd. de Antonio L. Furtado). Petrópolis: Vozes, 2001, p. 44-49.
86. OVÍDIO. A Arte de Amar, op. cit.,
2001, p. 66. “...seu livro A Arte de Amar, é considerado
matéria de Ética (...) fora das escolas clericais e monásticas,
a obra podia ser lida em traduções como a do poeta Chrétien
de Troyes, versão hoje perdida.” - NUNES, Rui. “Da
Alegria de Amor ao Deus de Amor”, op. cit., p. 02.
87. ANDRÉ CAPELÃO. Tratado do Amor Cortês,
op. cit., p. 14-15.
88. LÉVY, Ann-Deborah. “Eros”. In:
BRUNEL, Pierre. Dicionário de Mitos Literários. Rio de Janeiro:
José Olympio, 1998, p. 322-323.
89. ANDRÉ CAPELÃO. Tratado do Amor Cortês,
op. cit., p. 9.
90. Bel m'es quant ilh m'enfolhetis / e.m fai badar e.n
vau muzan; / de leis m'es bel si m'escarnis / on gaba dereir'o denan,
/ qu'apres lo mal me venra bes / be leu, s'a lieys vem a plazer.”
- SPINA, Segismundo. A Lírica Trovadoresca, op. cit., p. 113.
91. GIOVANNI BOCCACCIO. Decamerão. São
Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 361.
92. MACEDO, José Rivair. “Transgressão
Conjugal e Mutilação Ritual nos Fabliaux (séc. XIII)”.
In: MALEVAL, Maria do Amparo Tavares (org.). Atualizações
da Idade Média. Rio de Janeiro: Ed. Ágora da Ilha, 2000,
p. 187-190; NUNES, Rui. “Da
Alegria de Amor ao Deus de Amor”, op. cit., p. 03.
93. ANDRÉ CAPELÃO. Tratado do Amor
Cortês, op. cit., p. 16.
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