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Ricardo da Costa (Ufes) e Eliane
Ventorim
In: Estudos de Religião 23. Revista Semestral de Estudos e Pesquisas em Religião. São Bernardo do Campo: UMESP, 2002, Ano XVI, n. 23, dezembro de 2002 (ISSN 0103-801X). * Figura 1
A idéia do apocalipse (apokalypsis - revelação. 1Cor 1,7) cristalizou as esperanças e os medos das populações durante toda a Idade Média (LE GOFF, 1984, vol. II: 256), especialmente as angústias dos círculos letrados. Esse sentimento está muito bem expresso no grande número de cópias e iluminuras de um Comentário ao Apocalipse de São João escrito em 776 por um monge asturiano chamado Beato de Liébana (COSTA). Sob esse prisma, o tempo medieval, uma revolução na concepção humana de História (ORCÁSTEGUI y SARASA, 1991), foi o tempo da expectativa (BOEHNER e WILSON, 2000: 21-22), um tempo escatológico, um tempo que sai do nada e se dirige a seu fim (LE GOFF, 2002: 535). Esse é o motivo pelo qual a idéia do Juízo Final provocou tantos anseios e expectativas nas mentes dos cronistas da época. O Apocalipse seria a grande abertura do drama final, o do fim do tempo. Leitura obrigatória e regular dentre os textos bíblicos, o texto joanino provocava tanto medo quanto felicidade, pois como afirma logo em seu início “Feliz o ouvinte das palavras dessa profecia” (Ap. 1-3). E quem ecoaria as palavras apocalípticas de Deus e de Jesus Cristo? Seu Anjo (Ap. 1-1). Grande protagonista do epílogo da humanidade, o anjo representa a própria Idade Média: ele marca o início do tempo medieval e também seu fim. A Idade Média inicia quando se começa a falar dos anjos e termina quando a filosofia relega-os a um segundo plano. Além disso, os medievos imaginaram ter vivido sob os constantes olhares dos anjos. Compartilhavam o espaço sensível, um espaço preenchido tanto pela presença angélica quanto diabólica. Assim, estudar as percepções angélicas medievais é, sobretudo, compreender as articulações mentais e os sistemas de representação dos de outrora (FAURE, 2002: 69.), especialmente seus prolongamentos apocalípticos, idéia presente ainda hoje em nossa sociedade ocidental. Dessa forma, pretendemos abordar neste ensaio um importante representante da tradição angélica medieval: Ramon Llull (1232-1316). Este beato-filósofo do século XIII foi tomado por um amor aos anjos desde que recebeu a visita de um. Ele nos conta, em sua Vida Coetânia (1311), que, logo após ter tido uma iluminação no monte Randa, por volta de 1274, quando “Deus ilustrou sua mente, dando-lhe a forma e a maneira de fazer um livro contra os erros dos infiéis” (III, 14), mandou construir um eremitério ao pé daquela montanha, em sua propriedade (entre os eremitas e ascetas que viviam nos desertos havia grande devoção aos anjos, que recorriam aos céus para afugentar as tentações dos demônios. Ver JOHNSON, 2001). Ali permaneceu durante quatro meses, “...dia e noite suplicando a Deus que, pela Sua misericórdia, dirigisse pelos caminhos da prosperidade tanto ele quanto sua Arte, que Deus lhe dera para Sua honra e para o proveito de Sua Igreja.” (Vida Coetânia, III, 14) Llull tinha então cerca de quarenta anos. Enquanto ali meditava,
Ramon Llull era um místico, isto é, acreditava na possibilidade de comunicação direta entre Deus e o homem (ABBAGNANO, 1998: 671-672). De natureza religiosa - ou religiosa-filosófica - essa experiência é considerada uma forma superior de existência, que se desenrola normalmente num plano transracional — não aquém, mas além da razão. Por outro lado, ela mobiliza poderosas energias psíquicas do indivíduo, elevando o ser humano a uma alta forma de conhecimento e de amor (VAZ, 2000: 9). Tais visões não são fins em si, mas meios para uma experiência religiosa, por sua vez condicionada pela própria tradição religiosa do místico (ARMSTRONG, 1999: 220). Na Vida Coetânia, Llull descreve duas importantes experiências místicas, duas iluminações: a primeira, quando esteve no monte Randa e recebeu diretamente de Deus a Arte; a segunda, quando, naquele mesmo lugar, teve um encontro com o pastor angélico. Esta segunda iluminação de Ramon, a visita angélica, é muito semelhante à de Joaquim de Fiore (c. 1132-1202) (SALA-MOLINS, 1967), abade, místico e personagem de grande influência entre os espirituais franciscanos do século XIV (DELUMEAU, 1997: 40-49; FALBEL, 1995: 49-77). Por outro lado, já foi sugerido um paralelismo desta cena com a tradição profética islâmica (TRIAS MERCANT, 1978: 25), especialmente a Surata 18 do Corão. A quarta iluminura do Breviculum - uma versão menor de uma antologia de obras de Llull chamada Electorium feita por Thomas le Myésier (†1336), seu discípulo, doutor em medicina e cônego de Arras (3) - descreve a iluminação de Ramon no monte Randa e seu encontro com o pastor angélico (o Breviculum possui 12 iluminuras, todas criadas com base na Vida Coetânia). A revelação transmitida não é usual na tradição cristã, tampouco muçulmana. Esse pastor angélico que apareceu a Ramon Llull pode ter uma relação com a tradição judaica (especialmente Elias [2 Rs 2, 11-13]). Essa experiência serviria para embasar um ensinamento não acessível à maioria dos crentes (HAMES, 1994: 93-102). Por sua vez, as palavras proféticas do pastor sugerem que Llull entendeu sua missão evangélica, tendo pensado sua Arte especialmente como um instrumento de propagação da fé católica, uma cruzada espiritual. De qualquer modo, a visita angélica – as lágrimas do pastor e suas bênçãos proféticas - confirmou a Llull o profundo significado religioso de sua Arte. Figura 2 O fato é que, a partir do contato com esse pastor angelical, a produção intelectual de Ramon nos mostra o quanto ele foi tomado por uma profunda e sincera devoção aos anjos. Ele escreveu muito a esse respeito, desde a existência dos anjos, seus trabalhos, da alegria que têm em Deus, como conversam - entre si e com os homens - da glória dos anjos bons e da pena dos anjos maus. Sem dúvida, este era um de seus temas prediletos, e aqui trataremos brevemente de alguns aspectos da tradição angélica luliana, utilizando cinco obras onde ele trata do tema: o Livro da Contemplação, a Doutrina para Crianças, o Livro das Maravilhas, a Árvore da Ciência e o Livro dos Anjos. I. O tema angélico em
textos lulianos No Livro da Contemplação (1273-1274?), Ramon dedicou aos anjos o capítulo 37. Ali destaca a escolha feita pelos anjos no instante seguinte à criação:
Nessa passagem do Livro da Contemplação Llull interpreta o instante da criação dos anjos. Embora a base de sua teologia seja a Bíblia, em Gênesis não consta o momento da criação angélica. Essa ausência textual foi bastante discutida, desde a tradição patrística. Agostinho afirma que, apesar de não constarem textualmente no texto bíblico, os anjos não foram omitidos na Criação, pois estão representados alegoricamente através das palavras Céu, Luz e Dia, sendo partícipes da luz eterna “que é a sabedoria imutável do próprio Deus” (SANTO AGOSTINHO. A Cidade de Deus, Livro XI, cap. IX). Assim, os anjos são seres imortais, mais perfeitos que o homem e todas as demais criaturas e, portanto, mais próximos de Deus. Ocultos em Gênesis, muitas vezes na Bíblia estão associados a seres corpóreos, até antropomórficos (Ez 1, 4-14), e sempre em aparições aos homens. A escolha que fizeram entre o bem ou o mal por toda a eternidade não pode ser mudada, apesar de o tempo angélico ser distinto do tempo humano. Por sua vez, Tomás de Aquino afirma que os anjos não estão submetidos ao movimento dos corpos celestes, que influenciam os homens e são a primeira medida do tempo. O tempo angelical é uma sucessão de operações intelectuais e afetivas. O primeiro instante nos anjos, isto é, o primeiro momento em que eles se reconheceram como seres criados, corresponde ao momento bíblico que o Aquinate denomina “conhecimento vespertino”: Deus disse: Que exista a luz! E a luz começou a existir. Deus viu que a luz era boa. E Deus separou a luz das trevas: à luz Deus chamou “dia”, e às trevas chamou “noite”. Houve uma tarde e uma manhã: foi o primeiro dia”. (Gn, 1) A consciência angélica e sua noção de tempo principiaram na primeira tarde do primeiro dia criado por Deus, que foi bom. Na primeira manhã aconteceu o segundo instante, distinto do primeiro em essência, quando os bons separaram-se dos maus que, cheios de soberba, caíram (TOMÁS DE AQUINO. Suma de Teologia, Tratado de los Angeles, C. 63, Articulo 6, R. 4). Para Llull, por sua vez, essa escolha demonstra o caráter escatológico da lembrança angélica, pois os anjos e os demônios representam para os homens a lembrança do Juízo Final, onde seremos julgados e receberemos nossa sentença por toda a eternidade. I.2. A Doutrina para crianças Em outra obra, Doutrina para Crianças (1274-1276?), Llull indicou o lugar preciso da existência angélica:
Na Idade Média, a cosmologia distinguia
duas regiões em todo o universo com características distintas:
a esfera sublunar, que continha as substâncias
sujeitas à corrupção devido à contradição
existente naturalmente entre os quatro elementos constitutivos dos corpos
(fogo, ar, terra e água) e suas qualidades (quente, seco, frio
e úmido), e a esfera supralunar (ou celeste),
povoada pelos astros, pelos santos que estão na Glória Eterna,
os anjos e Deus (BOEHNER e WILSON, 2000: 276-282). Acreditava-se que o
mundo supralunar emitia fluidos, o que Llull na passagem acima chama de
luminosidade, luz divina que era transmitida a todos os seres
a partir dos anjos. I.3. O Livro das Maravilhas No Livro das Maravilhas (1288-1289) há um pequeno capítulo dedicado exclusivamente aos anjos (OS, vol. II: 19-393). Desenvolvendo o tema em forma de exemplos (exempla [4]), Llull destaca especialmente as três propriedades angélicas (memória, entendimento e vontade), enfatizando o caráter contemplativo da ação dos anjos em relação a Deus. Numa bela passagem, o eremita diz a Félix:
Para Llull, existe nos anjos uma tríade de faculdades espirituais (memória, entendimento e vontade), enquanto o homem está dividido entre o corporal e o espiritual. O corpo forma-se por quatro propriedades: imaginativa, sensitiva, vegetativa e elementativa, e o espírito é chamado alma racional, parte semelhante a Deus, como as hierarquias angélicas. Porém, o homem só conhece as coisas através dos sentidos, as potências corporais, o que o assemelha às coisas sensíveis. Nesse sentido, o homem é inferior ao espírito puro do anjo, que não possui impedimento material ao seu entendimento já que não tem natureza corpórea e possui as duas essências, sensível e psíquica. O homem é um microcosmo do universo, enquanto a substância angélica é só espírito (LLINÀS, 2000: 303). Por isso, o anjo supera as potências humanas, pois enquanto os homens não conhecem nada que antes não tenha passado por seus sentidos, os anjos ascendem com facilidade até as coisas supra-sensíveis sem passar pelos sentidos. O anjo entende através da graça o que não viu corporalmente, da mesma forma que o homem imagina o que não vê mais. Para Llull, assim como Deus ordenou a visão e a imaginação no homem, o fez melhor ainda no entendimento e na vontade dos anjos. I.4. A Árvore da Ciência Na Árvore da Ciência (1295-1296) (OE, vol. I), Llull dedica aos anjos a décima parte, a Árvore Angelical, que trata da natureza, das obras e da ajuda que os anjos prestam aos homens (CARRERAS Y ARTAU, 1939: 405). Aqui destacaremos uma das folhas desta árvore – Da quantidade:
Llull aceitava a divisão dos anjos em três hierarquias e nove ordens utilizada pelo Pseudo-Dionísio no século V e posteriormente adotada por toda a tradição patrística ocidental (5). Assim, a idéia corrente era que os anjos seriam dotados de corporeidade etérea e distribuídos em nove coros angélicos — mas sem a divisão em tríades. Dionísio considerou os anjos seres imateriais e ensinou que das tríades angélicas, a mais elevada servia somente a Deus, sem nenhuma relação com os homens (ALTANER e STUIBER, op. cit.: 500). A hierarquia celeste seria constituída por nove ordens de anjos agrupadas em disposições ternárias (ABBAGNANO, op. cit.: 61): 1) Serafins Dionísio explica estas ordens:
Assim, é bastante provável que Llull tenha
se baseado na longa tradição angelical do Pseudo-Dionísio
para conceber sua hierarquia celeste. Todavia, foi no Livro dos Anjos
(c. 1274-1283) que a angelologia luliana tomou sua forma básica.
Foi ali que ele mais se estendeu sobre esses entes espirituais.
Por fim, analisaremos brevemente a forma com que Ramon Llull abordou a
questão angélica em seu Livro dos Anjos —
tema tão caro aos filósofos medievais. O Livro dos anjos foi escrito provavelmente entre 1274 e 1283, durante o primeiro ciclo da Arte abreviada de encontrar a verdade (ca. 1274-1283), da chamada Etapa quaternária (1274-1289) (6). Como vimos, em 1274 teria sido revelada a Llull a Arte, justamente o ano em que ele teria iniciado o Livro dos anjos, em Maiorca. O Livro dos anjos é uma obra teológico-apologética, um texto filosófico-metafísico com argumentos exclusivamente racionais onde o autor não usa em nenhum momento de qualquer tipo de argumento baseado em autoridade religiosa. Seguindo a tradição medieval de autocomiseração – para se opor à tentação da soberba – logo nas primeiras linhas Llull se reconhece “um pobre homem pecador” e pede a graça e a ajuda de Deus para escrever um livro com o qual possa amá-Lo e conhecê-Lo através da prova da existência dos anjos. No Prólogo, antes de enumerar as partes do Livro, Llull evoca uma das funções do anjos benignos – a louvação divina – exemplo que deve ser seguido pelos homens. A obra é dividida em seis partes. Na Primeira, Llull prova a necessidade e conveniência da existência dos anjos através das Dignidades de Deus, que são: Bondade, Grandeza, Poder, Sabedoria, Amor, Justiça, Perfeição. No final dessa parte, Llull repete a primeira Dignidade, a Bondade, para afirmar que a concordância da divina bondade com a grandeza do poder propicia aos anjos receberem a influência das dignidades divinas. A Segunda parte é dividida em cinco: 1) Essência, que se divide nas três propriedades pessoais dos anjos (inteligência, vontade e conveniência), 2) Ente angelical, formado pelo nome que é a unidade das três faculdades em um só ser (matéria e a forma), 3) Substância, relacionada à doutrina dos correlativos, enfocando a virtude, as potências e os atos angélicos, 4) Propriedades dos anjos, sete, isto é, as Dignidades Divinas e 5) Condições dos anjos, onde Llull analisa quatro (a imortalidade, o lugar, o tempo e o movimento). A Terceira parte trata da fruição que os anjos têm em Deus e como, através daquelas sete propriedades, os anjos contemplam e fruem as sete Dignidades de Deus. A Quarta parte é sobre a locução dos anjos: como os anjos conversam, com os outros anjos e com os homens; a Quinta parte fala da glória dos anjos através da primeira e da segunda intenção (7) e a Sexta parte é da pena dos demônios através da primeira e da segunda intenção (RAMON LLULL. Livro dos anjos). No Livro dos anjos o beato, ao tratar das propriedades pessoais, indica a necessidade de uma máxima conveniência entre as duas faculdades, a inteligência e a vontade, e entre elas e o seu objeto, isto é, as dignidades divinas. É maximamente conveniente, pela infinita perfeição de Deus, que os anjos conheçam, estimem e tenham por objeto de seu entendimento e vontade o Ser mais perfeito; que o entendimento angélico conheça o limite de sua possibilidade naquilo que é mais estimado, Deus, e que a vontade angélica estime até ao extremo o que é mais cognoscível, Deus (LLINÀS, 2000: 304). III. Conclusão Na perspectiva da tradição apocalíptica angélica medieval, a obra de Ramon Llull situa-se a meio caminho para a modernidade. Por um lado, o maiorquino antecipa a devoção angélica quinhentista quando destaca a importância do anjo da guarda – na Doutrina para Crianças há uma interessante passagem que indica a necessidade de louvá-lo:
O anjo da guarda luliano, inserido na emergência do indivíduo do século XII, de certa forma prepara o homem para o dia do Juízo Final, pois valoriza o papel angélico na salvação da alma. Por outro lado, quando racionaliza a compreensão da figura angélica, Llull relaciona seu pensamento à tradição angélica monástica, representada especialmente nas figuras de São Bernardo e Hildegarda de Bingen (FAURE, 2002: 74). Essa tendência racionalizante também possui base alegórica: em muitas passagens do Livro dos Anjos – especialmente em suas últimas partes – Llull relaciona a glória dos anjos à natureza criada por Deus, como, por exemplo, nessa passagem:
Ou nessa passagem, quando salienta a queda dos anjos malignos com a gravidade terrestre:
Em resumo, a angelologia luliana representa a própria mutação do ideal angélico e das articulações mentais medievais. Suas idéias oscilam, de um lado, entre o ideal monástico-contemplativo e o desejo de retorno aos tempos apostólicos, concepções que pertencem ao século XII - tempo ao qual o pensamento de Llull está fortemente ligado - e também à necessidade de compreensão ativa e racional da essência divina e angélica – Suas Dignidades - quando se esforça intelectualmente para compreender a ação ad intra e ad extra de Deus. Assim, sua pregação é, de uma certa forma, o canto de cisne medieval e também o anúncio da boa nova: o mundo é uma imensa teofania bíblica; a natureza é um livro que deve ser lido contemplativamente, e compartilhar o mundo com os anjos antecipa e prepara o Apocalipse. Llull sugere novas formas de pensar a relação dos homens com Deus, quando destaca as atividades intelectuais angélicas em seu Livro dos Anjos. Se o Apocalipse joanino proclama a atualidade dos desígnios de Deus e nosso compromisso com Ele, a vida e a obra de Ramon Llull também podem ser entendidas como uma pregação profética apocalíptica: seus livros se preocupam sempre em “conhecer e amar Nosso Senhor Deus” e também desejam o despertar espiritual e a necessidade premente da opção pela Santíssima Trindade. * Notas (1) Conferência proferida
no dia 23 de agosto de 2002 no IV Seminário de Apocalíptica "Experiência
Visionária, Expectativas Messiânicas e História da Recepção" - UMESP
- Universidade Metodista de São Paulo (São Bernardo do Campo), evento
organizado pelo curso de Pós-graduação
em Ciências da Religião (2) O ato de persignar alguém é fazer com o polegar da mão direita três cruzes, uma na testa, outra na boca e outra no peito, pronunciando a fórmula litúrgica: “Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos”. (3) Na Idade Média, um cônego (canonicu) era um padre secular que pertencia a um cabido - corporação de cônegos pertencentes a uma catedral - e devia cumprir uma série de obrigações religiosas. (4) “Embora o exemplum luliano esteja inserido na pregação urbana característica do século XIII, ele não se enquadra exatamente na definição do exemplum clássico medieval - um relato breve e verídico para ser inserido num sermão ou discurso de fundo teológico com o objetivo de convencer uma platéia através de uma lição moral. Oriundo da retórica antiga - a partir de Aristóteles (exemplum – paradeigma) - o exemplum medieval possuía uma estrutura literária bastante rígida e repetitiva, pois era normalmente destinado a um auditório iletrado. Por sua vez, o exemplum luliano nunca é realista e não pretende ter um valor de documento histórico. Embora o objetivo seja o mesmo, o de converter ou reformar através de histórias moralizantes, Ramon busca sempre uma atemporalidade e uma utopicidade aplicáveis universalmente. Esta tendência de Llull de transformar exempla em parábolas fantásticas também se explica na forma escolhida de transmissão (a palavra escrita em prosa), e pela vontade explícita de entreter o ouvinte/leitor. Por esse motivo, a forma do desenvolvimento do exemplum luliano possui um dinamismo e um entrelaçamento textual que o distingue bastante do exemplum clássico trecentista definido acima.” — COSTA, Ricardo da. A Árvore Imperial - um Espelho de Príncipes na obra de Ramon Llull (1232-1316). Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2000. (5) A primeira autora a tratar da relação entre João Escoto Erígena e Ramon Llull foi Frances Yates (“Ramon Llull i Joan Escot Eriúgena”. In: Assaigs sobre Ramon Llull. Barcelona: Empúries, 1985, p. 121-188). Por sua vez, Carles Llinàs sugere que Llull possa ter tido contato com a teoria do Pseudo-Dionísio através do comentário de Hugo de São Vítor (PL 175). Ver LLINÀS, Charles. Ars Angelica. La Gnoseologia de Ramon Llull, op. cit., p. 319. (6) Ver o Catálogo cronológico das obras de Ramon Llull elaborado por Anthony Bonner, que se encontra nas páginas finais do segundo volume do OS (ver a bibliografia geral). (7) “A primeira intenção é Deus, e Ele está em contínua atividade, uma atividade ad intra. Esta atividade é a própria Santíssima Trindade. O pai (criação), através do Espírito Santo produz o Filho (o criado, o objeto). A segunda intenção é uma atividade peregrina (ad extra), que é a própria atividade de Deus, e tem como conseqüência o mundo criado. Esta criação será reflexo (imago) de Deus, quer dizer, reflexo da Santíssima Trindade, portanto atividade pura.” - COSTA, Ricardo da. A Árvore Imperial — um Espelho de Príncipes na obra de Ramon Llull (1232?-1316?), op. cit. Bibliografia ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998. ALTANER, Berthold e STUIBER, Alfred. Patrologia. Vida, Obras e Doutrina dos Padres da Igreja. ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus: Quatro Milênios de busca do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. BOEHNER, Philotheus e WILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã – Desde as origens até Nicolau de Cusa. Petrópolis: Editora Vozes, 2000. CARRERAS Y ARTAU. Historia de la Filosofia Española. Filosofia cristiana de los siglos XIII al XV. Tomo I, Madrid: Real Academia de Ciencias Exactas, Físicas y Naturales, 1939. COSTA, Ricardo da. Beato de Liébana (730-785) e uma iluminura dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse de São João - análise iconográfica. Trabalho apresentado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC) na Semana de História 98 - História e Imagem, evento ocorrido nos dias 17 e 18 de setembro de 1998. COSTA, Ricardo da. A Árvore Imperial - um Espelho de Príncipes na obra de Ramon Llull (1232-1316). Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2000. COSTA, Ricardo da. Olhando para as estrelas – a fronteira imaginária final. Astrologia e Astronomia na Idade Média e a visão medieval do Cosmo. DELUMEAU, Jean. Mil Anos de Felicidade. Uma História do Paraíso. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. FALBEL, Nachman. Os espirituais franciscanos. São Paulo: Perspectiva, 1995. FAURE, Philippe. “Anjos”. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude (coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval I. Bauru: EDUSC / São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 69-81. HAMES, Harvey. “Elijah and a Shepherd: the Authority of Revelation”. In: Studia Lulliana 34 (1994), 93-102. JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 2001. LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1984, vol. II. LE GOFF, Jacques. “Tempo”. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude (coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval II. Bauru: EDUSC / São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 531-541. LLINÀS, Charles. Ars Angelica. La Gnoseologia de Ramon Llull. Barcelona: Institut d’Estudis Catalans, 2000. ORCÁSTEGUI, Carmen y SARASA, Esteban. La Historia en la Edad Media. Historiografía e historiadores en Europa Occidental: siglos V-XIII. Madrid: Cátedra, 1991. SALA-MOLINS, L. Choix. Paris, 1967. TRIAS MERCANT, S. “La ideologia luliana de Miramar”. In: EL, 1978. VAZ, Henrique C. de L. Experiência mística e filosófica na tradição ocidental. 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