Cluny, Jerusalém celeste encarnada (séculos X-XII)
Parte I
Ricardo da Costa (Ufes)
In: Revista Mediaevalia. Textos e Estudos 21 (2002), p. 115-137 (ISSN 0872-0991).
Publicação do Gabinete de Filosofia Medieval da Faculdade de Letras da Universidade do Porto
e da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

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Cluny III (1088-1130)

In: http://www.rzw.ch/kultur/cluny/cluny12.htm

I. O tempo de guerreiros e camponeses

Imagine um mundo com poucos homens. Pouquíssimos. E pobres. Paupérrimos. Vazios imensos entre um povoado e outro. Florestas, pântanos e brejos ainda entre um campo cultivado e outro. Nesse espaço ocidental europeu de cidades esvaziadas e penetradas pelo verde - sinal de abandono e recuo - há mil anos atrás a natureza ainda resistia: os homens mal dominavam a terra. Muitos trabalhavam o solo com suas próprias mãos. As ferramentas eram poucas, a maioria de madeira ainda. As famílias, a maioria de camponeses - mas também de escravos - viviam em choças. Trabalhavam unidas e a duras penas para retirar sua subsistência. De cada grão colhiam dois, no máximo três (DUBY, 1979: 13).

Mesmo assim, parte da colheita ia para seu protetor, seu senhor, seu amo, aquele que os protegia dos ataques, da violência, da guerra. Ele deveria conservar a paz. No entanto, ele mesmo era o senhor da guerra. Paradoxo, não? Pois tinha um cavalo, uma espada, sabia matar. Sua família tinha uma história que remontava a algum rei ancestral e viril. Era uma linhagem. Ele morava em uma fortificação, uma fortaleza de madeira - já existiam alguns castelos de pedra, mas eram raros.

Assim, cada vez mais, a partir do século XI, os camponeses viviam ao redor dessa paliçada, residência simples e sem requinte, prontos para entrar nela caso houvesse alguma agressão. Essa fortificação era um pólo de atração, como as guarnições romanas dos séculos III-IV. Cada vez mais os pobres buscavam essa proteção: o habitat concentrou-se. Esse processo foi denominado de encelulamento pelos historiadores (DUBY, 1992: 60).

O senhor tinha o direito de julgar. Vigiar e punir. Mas não sabia trabalhar os campos: dependia, portanto, daqueles miseráveis sujos que viviam em suas terras. Suas? Sim e não. A terra abundava, os homens não. Havia então uma relação de dependência: buscando uma palavra para definir essa teia social, os historiadores chamaram esse entrelaçamento nas relações entre os homens de reciprocidade. Os rurais estavam ali há muito tempo: foram fixados na terra desde o século IV, quando ainda existia o Império Romano do Ocidente. Assim, não podiam ser expulsos. A terra então era compartilhada.

Mas não pense que o senhor quisesse expulsá-los. Pelo contrário, dependia deles para sobreviver. Afinal, como saber os ciclos da natureza, os momentos de plantio e colheita, as formas de limpeza e preparo da terra? Sem eles, certamente o senhor da guerra morreria de fome. Nesse ambiente hostil, os próprios trabalhadores rurais consideravam os impostos entregues como um presente. Uma oferenda, um reconhecimento quase espontâneo dos protegidos. Compensava a segurança que o senhor oferecia (DUBY, 1999: 116). Dar e receber. Oferecer e retribuir. Em tempos de penúria, o senhor abria seus celeiros, alimentava-os. Sinal de confiança. E necessidade.

II. O tempo dos clérigos

Nessa sociedade analfabeta destacavam-se os religiosos. Especialmente os monges. Como no século VIII, os valores espirituais encontravam-se nos mosteiros, não nas catedrais, não nos bispos (DUBY, 1999: 128). Estes eram mundanos, também eram cavaleiros, participavam das guerras, estavam mesclados no mundo secular, profano. Tinham as mãos sujas. Pois o mundo religioso também enfrentava uma grave decadência, especialmente após a dissolução do Império Carolíngio e os ataques vikings no final do século IX. Abadias foram destruídas, comunidades dispersadas, a Regra de São Bento esquecida. Ermentário, um monge de Saint-Philibert de Noirmoutier, escreveu em meados do século IX:

O número de navios aumenta; a multidão inumerável de normandos não pára de crescer; de todos os lados cristãos são vítimas de massacres, pilhagens, devastações, incêndios (...) tomam todas as cidades que atravessam (...) muitas cinzas de santos são roubadas (...) quase não há localidade, nenhum mosteiro que seja respeitado, e raros são aqueles que ousam dizer: fiquem, fiquem, resistam...
(citado em D'HAENENS, 1997: 89)

Marc Bloch chegou a afirmar que a desordem resultante das tormentas vikings e magiares do século IX deixou o corpo social do ocidente medieval “coberto de feridas”; a vida intelectual sofreu muito com isso, pois o monaquismo decaiu profundamente (BLOCH, 1987: 57). O papado também sofreu: no início do século XI, estava dominado pela nobreza germânica, que elegia e depunha papas a seu bel-prazer. Por sua vez, corruptos e devassos, os papas distinguiram-se por suas orgias e subornos. Simonia e nepotismo, desejo de possuir coisas impuras: cupiditas (DUBY, 1992: 51). Pecado capital. Escândalo. João XII (955-964), por exemplo, foi acusado por seus cardeais de subornar bispos, cometer adultério com a concubina de seu pai e incesto com sua mãe; Benedito IX (1032-1044), igualmente devasso, vendeu o cargo a Gregório VI (1045-1046) por moedas de ouro, sendo deposto por isso (DUFFY, 1998: 87).

Senhores feudais também indicavam abades para os mosteiros, apropriando-se de suas rendas. Parecia que o mundo espiritual estava irrevogavelmente destruído. Fim dos tempos, apocalipse. São Eudes de Cluny (†942) disse

...alguns clérigos desconsideram tanto o Filho da Virgem que praticam a fornicação em suas próprias dependências, até mesmo nas casas construídas pela devoção dos fiéis a fim de que a castidade possa ser conservada dentro de seus recintos cercados; inundam-nas com tanta luxúria que Maria não tem lugar para deixar o Filho Jesus (citado em DURAND, s/d: 475-476)
Obs: Freqüentemente Eudes é mencionado como Odon).

III. Os mosteiros na Idade Média

E foi justamente da abadia de Cluny que um grande movimento de reforma teve início. Muitos religiosos desejavam o retorno à “idade de ouro dos apóstolos”. Os monges foram mais uma vez os responsáveis pelo reerguimento intelectual da Europa medieval. Eles tentavam se aproximar do além, recusando o século, rompendo com o mundo, aquele mundo cheio de vícios (o tema dos sete pecados capitais - e as virtudes - é recorrente na literatura medieval. Verdadeiro sistema regulador da vida moral, o estudo das virtudes e vícios era considerado necessário até para a ciência da memória [mnemotécnica]: LE GOFF, 1994: 453). Ao ser perguntado sobre o porquê de fundar mosteiros, Oto, bispo de Bamberg (1062-1139) disse

...todo este mundo é um local de exílio; e, enquanto vivermos nesta vida, somos peregrinos do Senhor. Assim sendo, necessitamos de estábulos e estalagens espirituais e locais de repouso como os monastérios podem dar-se ao luxo de acolher peregrinos. Além disso, o fim de todas as coisas está próximo e o mundo inteiro assenta-se sobre depravação; por conseguinte, é bom multiplicar os monastérios por amor daqueles que desejam fugir ao mundo e salvar suas almas (citado em JOHNSON, 2001: 212)

Os monges trabalhavam na terra, rezavam e estudavam, ocupavam o tempo em prol de Deus: ora et labora. Opus Dei. Devemos agradecer a eles: graças a esses monges sabemos algo desse tempo. Eles escreveram, escreveram e copiaram. Preservaram. Reinventaram a escrita, a caligrafia minúscula, inventaram a leitura em silêncio, a reflexão (PARKES, 1998: 103-122). Essa foi uma grande revolução silenciosa e duradoura, embora imperceptível para mentes obtusas acostumadas com a excitação da história dos acontecimentos políticos. Um alerta já antigo, historiador: há cinqüenta anos Fernand Braudel nos ensinou que as imensas e lentíssimas vagas das marés profundas dos oceanos, os movimentos quase imóveis dos processos históricos, são mais importantes para a nossa análise do que as enganadoras e apaixonantes espumas das ondas dos fatos, da política, do dia-a-dia (BRAUDEL, 1995: 25).

Por outro lado, tenho que adverti-lo, caro leitor: não se iluda. Boa parte desse quadro geral da sociedade da Europa do ocidente medieval do início do século XI que descrevi nas primeiras linhas desse texto pertence à imaginação dos historiadores, à minha própria imaginação. O maior dos pesquisadores de Cluny, Georges Duby, nos disse que é inútil interrogar os documentos da época, pois seus redatores não estavam nem um pouco preocupados com as condições da vida material (DUBY, 1986: 29). Pelo contrário, os escritores de então olhavam para o além, para o céu e para o inferno. Conversavam com os mortos, tinham sonhos, viam anjos e demônios. Como disse, eram todos religiosos, educados em mosteiros. Muitos sequer saíram deles (DUBY, 1986: 26). Mas não se espante: imaginar é um exercício maravilhoso, a principal tarefa mental do historiador (DUBY, 1988: 01). Pelo menos do que se preza.

Bem, os mosteiros proliferavam desde a época merovíngia (DUBY, 1992: 23). Eram organizados, tinham disciplina; prosperavam. Outro paradoxo: apesar de voltados para o outro mundo, o da eternidade, os monges levavam uma vida bastante prática: cultivavam suas terras com seus camponeses, ajudavam-nos a dominar a natureza, a abrir matagais, a drenar pântanos, a construir moinhos (numa verdadeira política de mecanização do trabalho [GIMPEL, 1977: 15]); produziam vinhos (JOHNSON, 1999: 141) - necessários à liturgia, à prevenção sanitária e à higiene alimentar (MONTANARI, 1998: 287).

As abadias também eram centros de povoamento - vilas foram fundadas (JOHNSON, 2001: 180) -, de produção e comércio - mercados foram desenvolvidos para o excedente de sua produção. No entanto, esse comércio monástico não estava voltado para ganhar, mas para o consumo próprio (DUBY, 1990: 87). Mais: para dar (FOURQUIN, 1986: 21). Hospitalitas. Receber, alojar e alimentar o viajante, o peregrino, o que batia à porta solicitando pernoite, mas também os doentes, os errantes, as crianças, os pobres (DUBY, 1990: 87). Função do bom cristão, do civilizado.

Por fim, os monges foram desbravadores das florestas. Civilizaram. Outra revolução silenciosa, pertinaz, agrícola, levada a cabo por esses homens de negro (os historiadores, mais uma vez eles, deram a esse lento movimento de conquista da natureza realizado principalmente pelos mosteiros o nome de arroteamento) (BONNASSIE, 1985: 33-36, que, no entanto, não diz uma palavra sobre a participação dos mosteiros no processo de arroteamento! Por que? Ver, para confronto, FOURQUIN, 1986: 34).

Assim, embora também tocados pela degradação espiritual dos séculos IX-X, os mosteiros, devido à sua organização, foram os primeiros a se recuperar. Esse movimento regular de ressurgimento e retorno às origens mostra a força histórica das grandes religiões chamadas “do Livro”. Explica sua permanência na História.

IV. Cluny e a doação de Guilherme, duque da Aquitânia

O mais importante centro dessa reforma monástica foi Cluny. Raul Glaber (†1044), o melhor historiador do ano mil, também ele cluniacense, nos conta que a abadia de Cluny era um asilo de sabedoria, pois fez renascer a Regra de São Bento - embora com uma ênfase diferente, como veremos mais adiante. A raça cluniacense tornou-se, segundo suas palavras, “um exército do Senhor que se espalhou rapidamente numa grande parte da terra” (citado em DUBY, 1986: 188).

Um modelo de perfeição, um modo de vida totalmente harmonizado com os desígnios do Criador, Cluny foi um dos maiores projetos monásticos de todos os tempos. Desde sua fundação em 932, a abadia não parou de crescer. Doado em 910 (ou 909) por Guilherme, mais tarde chamado de o Piedoso, duque da Aquitânia e conde de Mâcon, o domínio (villa) encontrava-se ao sul da Borgonha, no Saône e Loire, próximo do Ródano (MARTÍNEZ, 1997: 192). Havia uma capela no local (chamada de Cluny A) - as escavações arqueológicas dataram-na entre os séculos VI e VIII (IOGNA-PRAT, 1998: 107). Chegaram seis monges, liderados por Bernon (910-924), abade de Baume e Gigny, que se propôs construir um pequeno santuário (chamado pelos especialistas de Cluny I), com 35 metros de comprimento (HEITZ, s/d: 132).

Em seu testamento, o duque Guilherme diz:

Para aqueles que consideram as coisas com bom senso é evidente que a Divina Providência aconselha os ricos a utilizar devidamente os bens que possuem de maneira transitória, se desejam recompensa eterna (...) Por esta razão , eu, Guilherme, pela Graça de Deus conde e duque, tendo ponderado estas coisas e desejando, enquanto é tempo, tomar medidas para a minha salvação, achei justo e mesmo necessário dispor, para proveito da minha alma, de algumas das possessões temporais que me foram concedidas (...)

Portanto, a todos aqueles que vivem na unidade da fé e que imploram a misericórdia de Cristo, a todos os que lhes sucederem e viverem até à consumação dos séculos, faço saber que por amor de Deus e do nosso Salvador Jesus Cristo, dou e entrego aos santos apóstolos Pedro e Paulo a vila de Cluny, que fica sobre o rio chamado Grosne, com as suas terras e reserva senhorial, a capela dedicada em honra de Santa Maria Mãe de Deus e de São Pedro Príncipe dos Apóstolos, com todas as coisas que pertencem a essa vila: capelas, servos dos dois sexos, vinhas, campos, prados, florestas, águas e cursos de água, moinhos, colheitas e rendas, terras lavradas e por lavrar, sem restrições (...)

Dou com a condição de que seja construído em Cluny um mosteiro regular, em honra dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo; que aí formem uma congregação de monges vivendo sob a regra de São Bento; que a possuam para sempre, detenham e governem, de tal maneira que este venerável domicílio esteja incessantemente cheio de votos e preces; que todos procurem nela, com o vivo desejo e um fervor íntimo, a doçura da comunicação com o Céu e que as preces e súplicas sejam sem cessar daí dirigidas para Deus, tanto por mim como por aquelas pessoas acima lembradas (...)

Foi de nosso agrado registar neste testamento que de este dia em diante os monges unidos na congregação de Cluny fiquem por completo libertos do nosso poder, do dos nossos parentes e da jurisdição da real grandeza, e nunca se submetam ao jugo de qualquer poder terreno, nem ao de nenhum príncipe secular, conde ou bispo, nem ao do pontífice da sé Romana, mas apenas a Deus... (citado em ESPINOSA, 1981: 284-285)

Sem rodeios ou interpretações dúbias, aqui estão as palavras de um medieval. Um testamento, por natureza, expressa o desejo mais íntimo de alguém, sua vontade mais recôndita, ainda mais se for redigido em vida do doador, como foi o caso. Temente a Deus e preocupado com a salvação de sua alma, pois acredita que recebeu dos céus como graça a nobreza de sua posição social, Guilherme dá um pouco do que tem. Reparte. Deve ser generoso: não reter nada nas mãos é o ideal cavaleiresco que aos poucos se difunde por entre a nobreza: largueza é o termo que define esse gesto. Os cavaleiros deveriam ser largos, generosos.

Mas o que quero ressaltar aqui são duas de suas condições - sua dádiva tem preço, pois ele parece conhecer a degradação humana: os monges que ali vivessem deveriam se comprometer a cumprir estritamente as normas beneditinas e eleger livremente seu abade. Assim, ninguém poderia interferir na vida da comunidade e, o que acho mais importante, neste testamento, Guilherme dá o tom da crença da época: Cluny, ou melhor, o mosteiro que eles deveriam construir em Cluny, seria um portal de comunicação com o céu! Um elo de ligação cheio de doçura. Cluny seria a Jerusalém celeste encarnada, o paraíso novamente concretizado. Como um ponto de luz na escuridão, um foco de bondade em meio à turbulência do século, as preces e súplicas dos monges seriam a causa de sua reunião. É por esse motivo que o duque os liberta das indesejáveis intromissões de nobres e bispos: os monges deveriam ser livres para melhor obrar junto a Deus! Eram intermediários, intercessores entre “a ordem imutável do universo celeste e a perturbação, a miséria e o medo deste mundo” (DUBY, 1988: 03).

Guilherme confiou essa missão a Bernon por sua fama: o abade era conhecido por ter restaurado a disciplina monástica em vários mosteiros (PACAUT, 1996: 393-394). Essa iniciativa estava bem de acordo com a época. Relação dialética: os seculares, os mais corrompidos, se interessavam pela renovação; os clérigos, igualmente corrompidos, aceitaram renovar. Um movimento social que partiu das consciências, uma mutação das consciências baseada na crença em um além, em uma salvação. De todas as partes do corpo social brotou um desejo de mudança. Próximo da morte, o homem medieval tentava se redimir de sua vida pecaminosa.

V. A expansão cluniacense

Até 926 Bernon aclimatou os irmãos no espaço, na pequena capela existente. Preparou-os para sua missão. Edificou a primeira igreja (Cluny I). Não se sabe nada nem da capela (Cluny A) nem da igreja (IOGNA-PRAT, 1998: 107).

Nesse mesmo ano de 926 Bernon legou Cluny a seu discípulo Eudes (927-942), já citado. Durante seu abaciado, Cluny recebeu um importante privilégio: o papa João XI (931-936) outorgou-lhe em 931 um direito de reforma: a partir de então, qualquer mosteiro que solicitasse ao abade cluniacense uma reforma monástica seria incorporado à casa mãe. O mesmo se daria com qualquer monge que desejasse ser acolhido (IOGNA-PRAT, 1998: 101). Este fato possibilitou a Cluny criar uma rede de mosteiros, um corpo monástico, um exército, como disse Raul Glaber, a ecclesia cluniacensis.

Eudes anda contribuiu de forma decisiva para a formação da espiritualidade cluniacense. Seguindo o modelo apostólico, Eudes traçou um paralelo da vida monástica com o mundo angélico: os monges deveriam ascender sete etapas sucessivas em busca da felicidade angélica para alcançar o Cristo. Em sua obra Occupatio, ele afirma que a Páscoa era celebrada todos os dias pelos cluniacenses em uma igreja que era a “Jerusalém descida dos Céus” (HEITZ, s/d: 132).

Aymard (942-954), Mayeul (954-994) e Odilon (994-1049) prosseguiram o trabalho dos dois primeiros abades com tal afinco que, já no final do século X, Cluny agrupava uma vasta congregação de abadias pelo território francês (PACAUT, 1996: 394). Um ponto importante: com essa expansão, os cluniacenses tornam-se senhores, como castelões e eclesiásticos, pois se apropriaram das antigas prerrogativas do poder real ausente, especialmente a justiça (IOGNA-PRAT, 1998: 102). Naturalmente isso aconteceu por outras vias, pois a defesa de sua liberdade, isto é, de sua emancipação frente aos poderes instituídos, deu-se através de armas espirituais, especialmente sua participação nos movimentos da Paz de Deus e Trégua de Deus (COSTA, 2001) e, um pouco depois, na divulgação da Primeira Cruzada para reconquistar Jerusalém.

Os monges vinham de todas as partes. Em pouco tempo o número se multiplicou: dos seis do tempo de Bernon (910) para 132 no tempo de Mayeul (948). Era necessário ampliar a igreja. Cluny II foi construída nos anos 955-991, seguindo os moldes da planta do convento de Saint-Gall. Tinha 63 metros de comprimento. Consagrada em 981, a partir de 986 temos notícia do primeiro tribunal provado, um claro indício da feudalização dos poderes (DUBY, 1990: 143-179). Os monges tornavam-se senhores.

Saint-Gall

In: http://mp3.swissinfo.org/es/inside/actuel/es_musica.html

VI. A alimentação em Cluny e o enriquecimento da região. Cluny III

E senhores com fausto. A batina dos monges, tecida de boa lã, era renovada todos os anos; os tecidos eram comprados de fora, pois a criação de carneiro era pouco desenvolvida na senhoria cluniacense (DUBY, 1990: 110). Um luxo para a época. Graças ao monge Ulrico de Zell, secretário de São Hugo (1049-1109), abade, sabemos um pouco mais da vida no mosteiro. Ele redigiu por volta de 1080 as Très Anciennes Coutumes, descrevendo sua vida cotidiana, sua vida material. Dados preciosos.

Nesse tempo já viviam cerca de 300 monges em Cluny - chegariam a 450 no tempo de Pedro, o Venerável (1122-1155). Uma grande expansão. Proibida a carne de quadrúpedes - exceto para os fracos e doentes - a dieta dos monges era rica e variada. Os cluniacenses foram favorecidos pela multiplicação de trabalhadores nas zonas rurais e a abundância de matérias orgânicas nos séculos XII-XIII: os rendimentos da terra melhoravam, passando de dois para um do período carolíngio a quatro para um em Cluny (RIERA-MELIS, 1998: 390).

Segundo Ulrico, de primeiro de outubro até a Quaresma - dias curtos e frios, a comunidade se reunia no refeitório apenas uma vez por dia nas jornadas de trabalho e duas nos dias de festa. A dieta era a seguinte:

1) Almoço (na sexta hora, por volta do meio-dia): dois pratos quentes (sopa de legumes e guisado de legumes). Como sobremesa, frutas e legumes;

2) Às terças, quintas, sábados e domingos: o “geral” (quatro ovos, uma ração de queijo cru ou cozido) e

3) Aos domingos e quintas: peixe (quando obtido a preço razoável nas feiras locais)

Todos esses pratos eram acompanhados de pão branco e uma taça grande de vinho. Isso no inverno. No verão (da Páscoa a setembro) eles tinham duas refeições diárias, uma ao meio-dia outra nas vésperas - as horas eram divididas de acordo com as horas das orações: matinas (meia-noite), laudes (três da manhã), primas (primeiras horas do dia, ao nascer do Sol, cerca de seis da manhã), vésperas (seis da tarde) e completas (na hora de dormir) (TUCHMANN, 1990: 56)

O jantar das vésperas era frugal: restos de pão, de vinho e frutas da refeição. No fim do dia os monges poderiam ainda tomar um cálice de vinho antes de se recolherem (RIERA-MELIS, 1998: 398-399).

Além disso, a abadia sustentava uma considerável multidão. Os novos recursos que entravam na economia cluniacense - oriundos dos dízimos das abadias satélites, doações inglesas (especialmente Henrique I [1100-1135], que ajuda a construir Cluny III [IOGNA-PRAT, 1998: 103]) e das mil peças de ouro anuais doadas pelos castelhanos (DUBY, 1990: 113) - enriqueceram-na. A abadia virou um imenso canteiro de obras. Cluny III foi construída para tornar-se uma “pequena Roma” (IOGNA-PRAT, 1998: 114).

Cluny III (1088-1130)

In: http://www.rzw.ch/kultur/cluny/cluny12.htm

A igreja tinha mais de 187 metros de comprimento. Naturalmente, esta grandiosa obra arquitetônica pareceu aos contemporâneos a “Jerusalém celeste” (HEITZ, s/d: 134). Tudo em Cluny sugeria o além, as sagradas coisas divinas, os anjos. Os próprios monges eram considerados anjos. Como intermediários perfeitos entre o mundo terrestre e o celeste, a origem da concepção da nova igreja não poderia deixar de ser um milagre. Hildebert de Lavardin, bispo de Mans e de Tours (1055-1133) descreveu em sua obra La Vîe de l'Abbé Hugues a maravilha: São Pedro apareceu ao monge Gauzon em sonho e ordenou-lhe que procurasse seu abade Hugo e o convencesse a construir Cluny III. Semi-paralítico, Gauzon ouviu do santo que, tomando essa iniciativa junto ao abade, ele seria curado e ganharia ainda mais sete anos de vida. No sonho, o monge chegou a ver São Pedro medir o comprimento e a largura da nova igreja abacial, determinando, calculando, precisando o espaço (HEITZ, s/d: 134).

Presentes na tradição bíblica, pelo menos desde Agostinho os sonhos fazem parte do imaginário medieval (LE GOFF, 1994: 283-333). Como o século XII é considerada pelos especialistas do mundo onírico a época de reconquista do sonho pela cultura medieval (LE GOFF, 2002: 511-529), o sonho de Gauzon com São Pedro ordenando e medindo a abadia monumental legitimou Cluny como centro de peregrinação, de devoção, de luz. Espiritualizou o surto agrícola e comercial da região cujo principal responsável foi o mosteiro. Mostra-nos também que o mundo clerical recebeu, a princípio, a reforma cluniacense de braços abertos. Daí sua rápida expansão.

- Fim da Primeira Parte -

OBS.: A Bibliografia encontra-se no final da Segunda parte