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O deambulatório
dos anjos: o claustro do mosteiro de Sant
Cugat del Vallès (Barcelona) e a vida cotidiana e monástica
expressa em seus capitéis (séculos XII-XIII)
In:
LAUAND, Luiz Jean (coord.). Revista
MIRANDUM, n. 17, Ano X, 2006, p. 39-58.
Co-edição CEMOrOc-USP IJI - Editora Mandruvá - Univ. do Porto (ISSN 1516-5124). * Imagem 1 I. Breve história da vida cenobítica em Sant Cugat Imagem
2 Prudêncio, poeta latino do século IV, nos informa em seu Peristephanon [2] que São Cucufate (em catalão Sant Cugat) [3] havia sido martirizado no ano 304, diante das Muralhas de Otaviano, no tempo do imperador Diocleciano (243-313). Seu companheiro Félix, por sua vez, teria sido martirizado em Girona, um pouco mais ao norte. Ambos os mártires eram missionários vindos de Cesaréia, provavelmente fugindo das perseguições africanas. [4]. Na verdade, essas Muralhas de Otaviano eram uma fortificação, um castro construído pelos romanos no tempo de Augusto (27 a. C. – 14 d. C.) para proteger o cruzamento das vias Tarragona – Narbona e Barcelona – Égara, um das linhas mais importantes da Via Augusta que, vindo de Roma, se dirigia para Tarragona. [5] Esse castro foi destruído provavelmente por francos e alamanos no século III, sendo reconstruído no século IV. Mas com a promulgação do Edito de Milão em 313 [6], pouco a pouco a função militar da fortificação romana foi dando lugar ao desenvolvimento de uma devoção religiosa ao mártir cristão. Por volta dessa mesma época, foi construída no mesmo local uma pequena construção funerária chamada martyrium, para serem depositados os restos mortais do santo. [7] Esse martyrium foi destruído por um incêndio no início do século VI, mas o local não foi abandonado, pelo contrário, pois no século VII o espaço já havia sido reaproveitado para a construção de uma pequena basílica (visigótica), onde uma pequena comunidade religiosa deve ter vivido. [8] Imagem
3 Com a invasão e o domínio muçulmano na Península Ibérica a partir de 711, essa comunidade religiosa teve curta existência. Houve uma tentativa por parte do abade de Saint-Denis de trasladar as relíquias de Sant Cugat em 778, junto à fracassada expedição de Carlos Magno a Saragossa. Por causa dessa relação do mosteiro com o ataque franco, por volta de 780 os sarracenos destruíram as construções em Sant Cugat. Mas com a conquista de Barcelona pelos francos em 801, a vida religiosa voltou a renascer no local. É desse período o primeiro testemunho documental da existência de uma vida cenobítica em Sant Cugat: uma carta de Luís, o Gago (846-879) [9] ao bispo da sé de Barcelona, Froduíno, confirmava os direitos e as posses de vários territórios, entre eles “...a casa de Sant Cugat e de Sant Félix, no lugar Otaviano, com todas as suas adjacências e pertences, tal como o abade Ostofredo teve por preceito real”. [10] Esse Ostofredo (878-895) teria sido o primeiro abade do mosteiro sancugatense. [11] Assim, ao longo dos séculos IX e X, o culto e a vida monástica em Sant Cugat prosseguiram e se afirmaram. O domus Sancti Cucuphati pertencia à catedral de Barcelona e seus monges eram clérigos diocesanos que viviam sob uma regra, mas ainda eram sujeitos ao bispo. Os documentos do século X já falam de um mosteiro, de um abade e de uma regra beneditina, grupo que formava uma comunidade clerical diocesana adaptada às necessidades de uma região pouco povoada, e somente parcialmente cristianizada. [12] A partir dessa época, lentamente a comunidade passou a adotar o beneditismo propriamente monástico, substituindo o controle episcopal por sua própria autoridade regular – tudo isso de acordo com o princípio da reforma carolíngia, que diferenciava a ordo monasticus da ordo canonicus. Nesses séculos IX-X destaca-se o abade Gotmar (944-954), a quem se atribui uma crônica dos reis francos dada de presente ao príncipe al-Hakam, filho do califa Abd al-Rahman III. [13] Gotmar foi duas vezes à corte de Luís IV [14], em Breisach (nos anos 938 e 944) para receber preceitos para os mosteiros de Ripoll, de Sant Cugat, para a catedral de Vic e para a abadia de Rodes. Ele foi o primeiro de uma série de abades de Sant Cugat que também foram bispos de Girona. Além disso, o rei Luís IV concedeu o direito de eleger livremente o abade, além de confirmar-lhe todos os bens e a imprescindível imunidade jurídica. Imagem
4 Outro abade importante foi Odo (986-1010), pois conseguiu reconstruir o mosteiro após a invasão e destruição de 985 de Almançor (938-1002), ataque que matou o abade João (974-985) e muitos monges. [15] Odo também viajou a corte do rei Lotário (954-986), em Compiègne, formando parte de uma embaixada do conde Ramon Borrell (992-1017) enviada para prometer fidelidade ao rei e pedir-lhe ajuda financeira e militar. Participou ainda de uma expedição militar a Córdoba (1010), quando foi gravemente ferido e morto na batalha de Guadeira (ou durante seu regresso) – observem que nesse mundo violento que era o mundo feudal, assim como senhores feudais, os abades também participavam (e ativamente) de batalhas. [16] De acordo com o cartulário de Sant Cugat [17], do século X ao XIII o mosteiro acumulou extensos territórios, desde o condado de Barcelona até a marca de Penedès e Osona. Possuía direitos de senhorio sobre sete castelos, cinco torres nas zonas de marca distribuídas pelas comarcas de Baix Llobregat (castro de Castelldefels, 970-1179), Anoia (castelos de Masquefa, 998-1193, e Clariana, 1012-1114), Alt Penedès e Baix Penedès. Sant Cugat também tinha o senhorio do castelo de Montgat, fora da marca. Imagem
5 Durante todo esse período de expansão das posses do mosteiro, colonização e repovoamento da região (quando teve um importante papel na Reconquista, ocupando terras fronteiriças em Penedès) [18], ocorreram muitas desavenças entre o abade de Sant Cugat e o bispo de Barcelona, pois este desejava ter a tutela sobre o mosteiro, apesar de uma bula papal ter ratificado suas posses. [19] Em 1089 estalou um grave conflito entre o bispo de Barcelona, o abade de Sant Ponç de Tomeres (em Provença) e abadia de Sant Cugat: graças a uma concessão de Berenguer Ramon, o Fratricida [20], o abade de Tomeres conseguiu ocupar o cenóbio e expulsar os monges. Somente dois anos depois, após um julgamento em Sant Gil (também em Provença) é que o abade de Tomeres foi obrigado a restituir Sant Cugat aos monges expulsos. Essas desavenças só se resolveram definitivamente em 1251, quando o papa Inocêncio IV (1243-1254) decidiu submeter Sant Cugat aos bispos de Barcelona. [21] Imagem
6 Além disso, alguns poderes laicos também desejavam se apoderar desses bens. Por exemplo, em 1013 o conde Ramon Borrell I [22], sua esposa e o bispo de Barcelona resgataram de Sant Cugat as igrejas de Sant Llorenç e Sant Esteve de Munt, cedidas anteriormente por Borrell II ao mosteiro. [23] Em contrapartida, o rei Jaime I, o Conquistador (1213-1276) favoreceu muito o mosteiro, eximindo-o de muitos tributos e confirmando suas posses, com o objetivo de enfraquecer o bispo de Barcelona. Sant Cugat ainda sofreria um duro golpe: em 1114 o mosteiro foi atacado e parcialmente destruído pelos almorávidas. [24] Somente cerca de trinta anos depois é que conseguiu se refazer dessa destruição, quando então teve início a construção da (nova) igreja românica (1145). Durante essa expansão territorial, o mosteiro sofreu reformas administrativas e foram colocados em prática os decretos do IV Concílio de Latrão (1215), que determinou reformas beneditinas, e assim, Sant Cugat passou a integrar a Congregação Claustral Benetidina Tarraconense. A partir do início do século XIV começou a lenta decadência do mosteiro, e em 1351 aconteceu a última eleição direta do abade por parte dos monges, e o escolhido foi Pere Busquets (1351-1385). Após esse abaciado, com a construção das muralhas que ainda hoje cercam em parte o espaço religioso, a eleição do abade passou a ser feita pela cúria romana, dando início à crise da vida comunitária. Mas isso já é outra história. Imagem
7 II. O claustro de Sant Cugat Imagem
8 Considerado o conjunto mais homogêneo de esculturas românicas catalãs do século XII [25] – provavelmente por não ter tido muitas interrupções em sua construção [26] – o claustro de Sant Cugat está localizado à esquerda da igreja, em seu lado setentrional. Atualmente, o acesso a ele se dá através de um pórtico, construído em 1573-89, pela galeria oeste. Sua planta é quadrada, quase regular. Seu espaço possui cerca de 30 metros de largura, e cada lado cerca de quatro metros. Há uma ligeira variedade cromática no ambiente devido ao material utilizado: pedras de Girona (para as colunas), de Montjuïc (para os capitéis e arcos), e da própria região (para o restante da obra). [27] No claustro há 144 capitéis, distribuídos em 72 pares de colunas (18 pares de colunas em cada galeria). Seguindo a classificação proposta por Joan Tortosa, os capitéis estão organizados em dez temas: 1) Ornamentais, 2) Coríntios, 3) Aves, 4) Animais diversos, 5) Motivos profanos, 6) Cenas do Antigo Testamento, 7) Cenas do Novo Testamento, 8) Monstros, 9) Seres mitológicos e 10) Cenas monásticas. Imagem
9 A construção do claustro era parte de um ambicioso projeto resultante do crescimento do poder senhorial monástico. Um dos primeiros textos que se refere a isso tem o título de Fedancius, architetus et magister edorum (1010). [28] Fedancius foi o mestre de obras que dirigiu a remodelação do conjunto monacal (igreja, campanário e claustro). [29] No que se refere ao claustro, há um documento muito importante considerado o ponto de referência para o início das obras: um testamento do nobre Guilherme de Claramunt, de 1190, para o mosteiro. Os especialistas concordam que nessa data as obras já haviam sido iniciadas. Abaixo, a distribuição dos capitéis nas galerias, bem como sua posição (no interior ou no exterior das galerias)[30]:
III. A vida cotidiana e monástica em Sant Cugat: os capitéis 6, 8, 19 e 45 Imagem
10 A construção de um claustro na Idade Média obedecia a certas regras práticas gerais: o espaço deveria ser amplo, cômodo e bem distribuído e, acima de tudo, provido das coisas necessárias à vida coletiva [31], de maneira que os monges não tivessem que sair, como afirma a Regra de São Bento:
De todas as partes do mosteiro, o claustro, “oficina da arte espiritual”, era o local por excelência para se praticar “os instrumentos das boas obras”. Espaço de quietude e do recolhimento preparatório para o reino celestial, no claustro as almas tinham que não satisfazer os desejos da carne, “’não abraçar as delícias” e “odiar a própria vontade” (Regra de São Bento, 4, 12 e 59-60). Só assim o monge poderia meditar em silêncio os bens celestiais. Mas, para isso, era importante que o claustro fosse construído à semelhança da Jerusalém celeste, da Jerusalém futura do Apocalipse de São João. Por esse motivo, o claustro de Sant Cugat foi projetado na forma quadrangular: “A cidade é quadrangular: seu comprimento é igual à largura” (Ap 21, 16). Também por esse motivo, o claustro tem 144 capitéis, quadrado de 12, número sagrado para o cristianismo. [32] Assim, aproximando-se mesmo que imperfeitamente da Jerusalém celeste, o claustro preparava os espíritos para a outra vida. Por isso, em Sant Cugat a virtude da humildade é a primeira que se apreende ao observar a maioria de seus capitéis, a humildade “do temor a Deus” e o “medo do inferno”, a humildade da “não realização das vontades”, da “obediência e da paciência”, da “constante confissão dos pecados”, da “alegria com o que há de mais vil”, da “crença de ser o mais inferior de todos” e da “economia do riso” (Regra de São Bento, 7, 10-66): “enquanto meditavam ou relaxavam dando voltas pelo claustro, os monges aprendiam a grande lição de humildade presente nos capitéis, com cenas bem determinadas”. [33] As imagens esculpidas nos capitéis e consideradas mais importantes para a reflexão e meditação se encontram no lado voltado para o interior, nas galerias, isto é, no lado que os monges caminhavam. Do tema que selecionamos para nossa análise – a vida cotidiana monacal – há quatro capitéis, três deles voltados para as galerias, o que demonstra sua importância para a meditação deambulatória. Seguindo a numeração proposta por Joan Tortosa, iniciamos com o capitel número 6, que está voltado para o interior da galeria, o último da primeira seqüência da galeria norte, a mais antiga construída no claustro. Trata-se, portanto, do capitel mais antigo de Sant Cugat com o tema iconográfico monacal. A cena monástica ocorre em um emaranhado de elementos vegetais, cintas com pérolas que nascem dos dois ângulos superiores, se mesclam e dão frutos acima das cabeças dos monges. Essa rica profusão vegetal que adentra pela cena cotidiana representa a maravilhosa natureza criada por Deus. [34] A cena do capitel mostra três monges. Ao centro, sentado, um deles inclina sua cabeça, apoiando as mãos nos joelhos. À sua direita, outro irmão se inclina até ele, enquanto um terceiro, atrás, coloca sua mão direita na cabeça. Entre os dois, no chão, um vaso de barro (alguidar). Como as cabeças dos monges estão mutiladas, é bastante difícil definir com precisão a cena, que parece ser a representação de uma tonsura: o monge ao centro estaria sendo tonsurado pelo primeiro, enquanto o irmão com a mão na cabeça pode estar se lavando (esta cena também está representada no claustro de Girona). [35] A tonsura (ou cercilho) era o símbolo da coroa religiosa, do exercício dos ofícios divinos. O noviço tinha a parte superior da cabeça raspada quando era introduzido no estamento eclesiástico e recebia a primeira ordem do clericato. [36] Inicialmente a tonsura era feita cerca de sete vezes por ano, em vigílias de festividades importantes. No século XIII, os estatutos de cada mosteiro regulamentaram um número de vezes maior para essa atividade simbólica e higiênica. [37] Imagens
11 e 12 No entanto, há pelo menos duas possíveis interpretações para essa cena do capitel 6. Primeiro, ela pode representar o ingresso do noviço na vida monástica e o abandono do mundo, representado pela tonsura, como disse antes. Mas também poderia simplesmente relembrar aos monges que caminhavam nas galerias que circundam o claustro essa atividade regular e anual, feita no mosteiro, sem ter uma relação direta com o ingresso monástico. Segundo, pode haver uma seqüência progressiva, pois se o primeiro monge (imagem 11) com a mão na cabeça pode estar se lavando, como acredita Joan Tortosa, também pode representar o monge do centro momentos antes, se preparando para a tonsura. A vida monástica prossegue no capitel 8, um dos mais interessantes do claustro. Ao contrário do capitel 6, que parece progredir seqüencialmente, como dissemos, o capitel 8 desenvolve sua cena de uma maneira perfeitamente circular. Uma procissão de oito monges, alguns com o capuz do hábito, envolve e circunda todos os lados do capitel e se dirige na direção leste-oeste para retornar à igreja, representada pelo portão (imagem 13, à esquerda). Os monges parecem seguir o chamado do abade que, no meio do fórnice, faz soar o sino, chamando todos para a oração (imagem 13). O abade que faz soar a campana está encimado por uma auréola que se repete em cada lado da procissão, dividindo harmoniosa e geometricamente os espaços acima das figuras humanas. Mas a procissão não é somente um ato meditativo de caminhar: parece mais a representação de um momento de leitura, pois dois dos monges caminham com um livro nas mãos – repare que o monge à direita na imagem 15 caminha folheando com um livro aberto. Dois deles ainda portam um pergaminho enrolado, outros dois levam objetos de difícil precisão e dois não têm nada nas mãos. Imagens
13 e 14 Em cada ângulo dos lados, acima da cabeça de cada monge, há uma sintética representação do templo. Os corpos estão muito bem proporcionados, e tanto as vestes quanto as expressões dos rostos que ainda se conservam denotam uma bela serenidade (imagem 14). Esse capitel, portanto, além de mostrar o deambulatório dos anjos, ressalta a leitura que também ocorria nas galerias do claustro, uma atividade espiritual e ascética realizada no claustro durante o verão. [38] A Regra de São Bento já previa a prática da leitura espiritual durante os intervalos do trabalho físico ou do ofício divino (Regra de São Bento, 48), e a leitura silenciosa era uma prática comum nos mosteiros medievais, além dos trabalhos no campo, no scriptorium, ou nas dependências do claustro. [39] A leitura mais praticada era a da lectio divina, isto é, a leitura da Bíblia. O papa Gregório I, conhecido como Gregório Magno (c. 540-604), um dos mais influentes da tradição espiritual beneditina [40], já havia afirmado a unidade da leitura e da existência: ler a palavra de Deus era interiorizá-la, pois “a leitura progride com os que a lêem” (Moralia in Job, 20, 1, 1). [41] O que hoje chamaríamos de “atitude metodológica de leitura” era uma abertura de corpo e alma para o estudo, para com o texto, seguindo sempre uma trilogia de receptividade: 1) uma pureza no coração para compreender, 2) uma pureza de intenção para aproveitar o que leu, e 3) uma disposição sincera e firme para obedecer aos preceitos lidos, pois “a verdadeira lectio divina não é assunto de inteligência, mas de retidão de coração”. [42] Imagens
15 e 16 Monges caminhando pelo claustro com livros abertos, monges trazendo e levando papiros para o scriptorium do mosteiro. A vida intelectual prosseguia na Idade Média feudal dos guerreiros e camponeses. Unidos na fé e na leitura, no silêncio e no trabalho, os monges de Sant Cugat ajudaram assim a manter viva a chama do estudo. Ao contemplarmos todos os ângulos do capitel 8 – e após caminharmos tranqüilamente algumas vezes pelas galerias do claustro – podemos imaginar quão sereno deveria ser esse momento de ócio para os monges, a leitura de um livro sob uma brilhante tarde de primavera, e a meditação sob as pilastras do jardim do claustro. Prosseguindo nossa análise dos capitéis da vida cotidiana monástica, os capitéis seguintes que expressam o mundo do claustro são os de números 17 e 18. Nessas interessantes e realistas cenas, o escultor Arnau Cadell está representado (imagem à esquerda) sentado em um tamborete e burilado um capitel coríntio, uma raríssima cena na Idade Média de auto-retrato de um artista. À frente do escultor (imagem à direita), um monge lhe oferece uma tigela (com água ou comida), provavelmente durante uma pausa do trabalho. Isso indica que tanto Arnau quanto sua equipe podem ter sido hospedados no claustro enquanto executavam o trabalho. Vigorosamente, o escultor lapida um capitel preso em um praticado; suas pernas sustentam a força de seu golpe – infelizmente o rosto do artista também foi destruído. Repare no cajado estirado ao longo da perna esquerda do escultor: ele indica sua condição de artesão, além do hábito semelhante a uma túnica. Imagens
17 e 18 A cena do artista esculpindo um capitel e recebendo uma tigela de um monge é complementada por uma inscrição na parede ao lado, em latim: “HEC EST ARNALLI SCULTORIS FORMA CATELLI QUI CLAUSTRUM TALE CONSTRUXIT PERPETUALE”, cuja tradução é: “Esta é a imagem do escultor Arnau Cadell, que construiu tal claustro para a perpetuidade”. Esse é um caso muito raro em que um escultor românico deixou sua assinatura! Imagem
19 O último capitel que retrata uma cena cotidiana do mosteiro é o de número 45, sempre seguindo a ordenação proposta por Joan Tortosa. Em sua parte superior, os motivos ornamentais e vegetais – cintas com pérolas originadas dos ângulos superiores – se desenvolvem de uma maneira muito mais rica e generosa que no capitel 6. São palmas e frutas que, sinuosamente, envolvem dois monges sentados em bancos, chamados de setial (nome do banco adornado das igrejas). A cena mostra monges-leitores: eles estão lendo livros que estão abertos e apoiados em estantes inclinadas (chamadas de atril, ou facistol). Um deles folheia o livro (imagem 21), o outro escreve (imagem 20). A cena, portanto, representa diretamente o laborioso trabalho de leitura de obras religiosas e clássicas que ocorria nos mosteiros medievais. No caso de Sant Cugat, seu mosteiro era muito conhecido por seus copistas e tradutores. [43] Imagens
20 e 21 Mas indiretamente a cena também relembra o difícil trabalho dos monges-copistas, esses homens que poucas vezes são lembrados e que em silêncio preservaram os textos antigos. Cassiodoro (c. 485-580) já havia destacado a beleza do propósito do copista: “...pregar aos homens com a mão, abrir línguas com os dedos, dar em silêncio salvação aos mortais e – com a cana e a tinta – lutar contra as ilícitas insinuações do diabo”. [44] Sem qualquer ambição, sem nenhum desejo de glória, com imenso esforço corporal eles foram chamados de livreiros, porque se consagraram à libra (balança) da justiça de Deus! [45] Por isso, embora o capitel 45 mostre somente uma cena de leitura, ele sugere todo o esforço que estava por trás desse simples e belo gesto de ler as páginas de um livro. Ademais, a invasão da natureza na cena dos monges-leitores também insinua a tranqüilidade do momento de meditação após a leitura de alguma passagem bíblica, seguindo a trilogia de receptividade ordenada pelo papa Gregório Magno, como vimos anteriormente. Assim, o capitel 45 nada mais é que uma homenagem a essa dedicação à cultura letrada por parte dos monges. Para se ter uma idéia, segundo a Regra de São Bento, à leitura deveriam ser dedicadas mil e quinhentas horas anuais! Esse trabalhoso e desgastante ofício é também representado na cena pela postura curvada dos dois monges. Conclusão Imagem 22 Contemplar as cenas dos capitéis no claustro de Sant Cugat era, para os monges medievais, retornar ao estado original do homem no Paraíso, pois “o homem foi originalmente criado para a contemplação” (Moralia in Job, 8, 34). [46] Ao perder o Paraíso, Adão perdeu a contemplação de Deus. Portanto, construir o claustro seguindo os parâmetros bíblicos, a concepção mística dos números e da proporção, moldar os capitéis para a recordação necessária à meditação da leitura e, por fim, se dedicar de corpo e alma à leitura e à meditação, tudo isso fazia parte da idéia de criar uma semelhança terrena do Paraíso perdido. Graças a essa vida contemplativa monástica medieval, graças a esse laborioso trabalho dos copistas, graças enfim, ao hábito de ler cultivado pelos monges medievais, a civilização manteve acesa a chama do estudo e da leitura, transmitindo aos pósteros a sabedoria e o conhecimento adquiridos e herdados da Antiguidade e desenvolvidos na Idade Média. De nossa parte, ter desfrutado da hospitalidade de Sant Cugat e, especialmente, ter caminhado algumas vezes na paz do mosteiro medieval santcugatense para contemplar as cenas esculpidas nos capitéis pelo artista Arnau Cadell com a ajuda dos olhos sensíveis e apurados de Joan Tortosa, foi uma experiência única de retorno a um distante momento cultural de um passado que tantas vezes li e estudei. * - Agradeço a Joan Tortosa as horas agradáveis em que passamos no claustro do mosteiro. Ali pude aprender como um artista olha para a obra de outro artista! - – Este trabalho é dedicado
à senhora Nuria Tomas Roset, a Cristina
Cullell i March, e aos professores Pere Villalba
e Tomàs Gimeno Fabregat (ambos da Universitat
Autònoma de Barcelona). À primeira, por me acolher em
sua casa (e me ensinar os dias da semana em catalão!), à
segunda, pela generosidade de ter fotografado os capitéis em um
agitado sábado (em que ocorria uma apresentação gratuita
de música clássica no jardim interno do mosteiro –
com a presença do prefeito de Sant Cugat): ambas são orgulhosas
santcugatenses de nascimento; a Pere Villalba e Tomàs,
pelos agradáveis encontros com diálogos platônicos,
sempre regados a vinho e com petiscos catalães; ambos são
orgulhosos santcugatenses, mas de coração! – Notas (37) G. GONZALVO
I BOU, La vida privada de la Comunitat de Poblet a l’Edat Mitjana
i Moderna, Barcelona, Publicacions de l’Abadia de Poblet, 1999,
p. 47.
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