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Ricardo
da Costa (Ufes) e
Nayhara Sepulcri (CNPq
- Ufes)
In: Anais do II Simpósio Internacional de Teologia e Ciências da Religião Belo Horizonte, ISTA/PUC Minas, 2007 (ISSN 1981-285x - cd-rom).
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1 I. O conhecimento do bem e do mal
O mal está associado ao sofrimento – físico ou moral. Assim, o homem vive a dualidade do sofrer e do agir. Na Idade Média o sofrer o mal e o erro (ação) estavam fortemente associados. Para os medievais, o pecado estabeleceu a dinâmica das relações externas (com a sociedade, com Deus, etc.) e internas (entre a alma e o corpo). A instituição de práticas rituais, a vida e o entendimento de mundo do homem medieval giravam em torno do pecado (CASAGRANDE e VECCHIO, 2002: 337). O problema do mal na teologia cristã centralizou-se na tensão entre um bem-transcendente, de um Deus revelado, e um mal, avatar humano de uma criação boa, revelado no pecado original. Na filosofia cristã, o mal se identifica com o não-ser, diante do ser, que é o bem. De acordo com Santo Agostinho (354-430), “uma natureza jamais é um mal e esta palavra não mais designa que uma privação de bem”. (A Cidade de Deus, XI, 22). O mal não advém de Deus nem de Sua obra, pois a seguir de cada obra sua, a Escritura Sagrada repete: “E Deus viu que era bom” (Gn. 1, 4-10-12-18-21-25-30). Ainda sobre a concepção metafísica do mal, ele é uma dualidade do ser, como uma dissensão ou ainda um conflito entre dois princípios (ABBAGNANO, 2000: 638-639). No entanto, não nos ateremos ao dualismo. Pontuamos apenas sua influência, sentida pela igreja cristã, que se esforçou por se distinguir, firmada na essencial idéia de que o princípio do mal não foi criado por Deus e é totalmente independente Dele. Na Alta Idade Média, a Igreja ocidental foi afetada pelo dualismo na esfera da sensibilidade popular. As atribulações da época agravaram nas consciências o papel do Diabo, onipresente e comandante de um exército de demônios que habitavam entre os homens. O mundo (terrestre e cósmico) de então era concebido como o palco de um estrondoso confronto entre Deus e Satanás, no qual estava em jogo a própria salvação da humanidade. Para os teólogos, a ação do Maligno se daria apenas com o consentimento de Deus, e também como punição pelo pecado original. No entanto, muitos cristãos não atentaram a tais minúcias, pois as admoestações dos clérigos muitas vezes não encontraram eco nas sensibilidades coletivas. Para os cristãos, o Diabo encarnava tudo que a consciência não podia reconhecer como emanado dela própria (e nem de Deus), tudo que ela julgava negativo, hostil, e que deveria ser rejeitado, expulso. Atribuía-se a Satanás um inimigo exterior ao homem: a maldade (BASCHET, 2002: 328). O nascimento do Diabo se deu com a queda dos anjos (Is 14, 12-15). Tal acontecimento marcou o início do mal no universo. Desse modo, os demônios foram criados bons e tornaram-se maus por vontade, não por natureza (A Cidade de Deus, XI, 17). No cristianismo, a escolha é, portanto, um ponto fulcral, como disse Santo Agostinho (354-430):
Para Agostinho a alma é dotada de livre-arbítrio, cabendo ao homem escolher, segundo sua vontade e julgamento, o que deve ou não praticar. De acordo com o texto bíblico, o mal se tornou presente na vida do homem no momento em que ele comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal, e seus olhos se abriram (Gn 3, 7). Tal conhecimento era um privilégio de Deus e foi usurpado pelo pecado. No entanto, não se trata da onisciência (que o homem decaído não possui), tampouco do discernimento moral, que o homem inocente já possuía – pois Deus não poderia recusá-lo à sua criatura racional, e sim à capacidade de decidir por si mesmo o que é bem e o que é mal, principalmente à reivindicação de autonomia moral através da qual o homem nega ser criatura. Assim, o primeiro pecado foi uma afronta à soberania de Deus, rebelião expressa na transgressão de um preceito estabelecido pelo Criador e representado sob a imagem do fruto proibido. II. São Bernardo de Claraval (1090-1153): amor, diligência e combate
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2 O abade de Claraval destacou-se no século XII como uma persuasiva voz que guerreou contra os inimigos da fé cristã. Ele tinha amor ao trabalhar para Deus, e isso o destacou em seu tempo. Místico, Bernardo foi um grande mestre da introspecção e um atento perscrutador dos segredos ocultos no coração do homem, de suas paixões, bem como de suas potencialidades divinas e diabólicas (BOEHNER e GILSON, 1985: 284). Sua obra está fundamentada especialmente em Agostinho e nos padres gregos. Seus escritos testemunham sua generosidade e diligência, tão particulares e ao mesmo tempo tão pertinentes ao serviço de Deus. Bernardo escreveu exortações e ensinamentos ao mundo. Dirigiu-se a reis, papas, bispos, abades, monges, teólogos, nobres e amigos. Escreveu também aos pósteros. Para isso, ele foi assessorado por uma equipe de secretários que classificava, copiava e difundia suas cartas (DUBY, 1990: 6). Ao compor, o abade de Cister seguiu o procedimento estilístico da literatura de então, praticando a tão recomendada emendatio. Suas palavras, cuidadosamente escolhidas, nunca são vãs. Como fios muitíssimo bem entrelaçados, elas fazem parte de um todo harmonioso. Bernardo foi um erudito da literatura monástica. Sua profunda reflexão sobre a revelação cristã o distingue dos teólogos de seu século, pois as Escrituras lhe são fonte de águas vivas, às quais constantemente recorre (PASCUAL, 1993: 135). Bem disposto, atendia generosamente às mais diversas questões: discernir vocações monásticas, orientar vidas cristãs, aconselhar e corrigir bispos e abades, intervir pela paz social, política e religiosa, ditar suas obras doutrinais, etc. (ARANGUREN, 1994: 5). A essência que o levava a redigir está bem definida em uma carta ao bispo Eustáquio (a quem Inocêncio II depôs em 1135): “Talvez outro interprete de maneira diferente; eu, movido pela autêntica caridade, decidi fazer o que posso, e advertir a um homem tão nobre com essas linhas a respeito de tua salvação, despertá-lo do sonho, fazer voltá-lo a seu coração e estimulá-lo à graça” (Carta 185, 1). Por isso, o mal não lhe é um tema recorrente. Em sua vasta obra, identificamos somente cinco extratos de textos que mencionam o assunto: dois Sermões, duas Cartas e uma Sentença, que intitula nosso trabalho. III. O mal reside no coração: Sobre o Cantar dos Cantares, Sermão 32 A palavra sermão designa um discurso religioso no qual se explica a palavra de Deus. Nele, estimula-se a prática da virtude através de admoestações que tocam a sensibilidade dos ouvintes. Nos tempos medievais, destinava-se menos a transmitir novos ensinamentos do que a rememorar as verdades já conhecidas. Os fragmentos de sermões que apresentaremos têm seu fundamento nas Sagradas Escrituras e trazem considerações para alimentar a alma e a conduta moral dos fiéis. Em uma passagem de seu Sermão 32, Bernardo afirma não desejar saber de onde vem o mal: o importante é saber que ele existe, e que não consintamos com ele. O abade defende-se com Mateus (26, 41), os Salmos (18, 13), e roga que seja absolvido daquilo lhe foi ocultado, pois assim não poderá dar o que não recebeu (1Cor 15, 3). Ele não quer saber. Sabe que o mal reside no coração, mas não nasce do coração. Está convicto que existe nele, mas não tem a mesma certeza em atribuir uma coisa ao coração e outra àquele que lhe é hostil (BERNARDO DE CLARAVAL, 1987: 473). A questão da origem do mal na visão bernardiana tem tamanha importância que não se deve falar dele, escrever sobre ele, dizer dele. Deve-se estar atento ao mal, pois o que realmente importa é saber que ele existe. E é muito importante que o crente lute com suas verdadeiras armas: a vigília e a oração (“Velemos e oremos”). Só assim o homem não se achará em falta por não discernir os próprios erros. IV. Satanás e a inspiração à prática do mal: Sermão 71 Para os medievais, o mal materializa-se na figura do diabo. A importância do Maligno pareceu fortalecer-se ao longo da Idade Média, especialmente a partir do ano mil (BASCHET, 2002: 319). Nesse riquíssimo extrato textual há, simultaneamente, a influência maligna de Satanás, que leva o homem à iniqüidade, e a compreensão de Bernardo sobre a escolha de resistir ao Diabo e seguir os caminhos de Deus:
O faraó tipifica o adversário das almas. O barro personifica as obras humanas, que pouco valem. O Diabo é o administrador da palha, assim como faraó o era no Egito. A palha alude aos desejos frívolos que rapidamente passam pelas nossas mentes, com o nosso consentimento. Os maus pensamentos são alimentados pelo prazer em tê-los e, ao consumarem-se através do ato pecaminoso, cristalizam-se no hábito, na prática constante. Assim, devido à inércia do hábito, encontra-se “doçura no que dantes era amargo”, e passa-se a não querer o bem. V. O mal e o livre-arbítrio: Da Consideração Dentre as mais de 500 cartas do abade cisterciense que nos chegaram, nesse trabalho, destacamos duas que nos permitem compreender o mal sob o olhar de Bernardo: Da Consideração, ao Papa Eugênio, e a Carta 231, aos bispos de Óstia, Frascati e Palestina, em defesa do abade de Lagny. Na Idade Média, as cartas eram textos redigidos segundo a preceptiva epistolar da época – a ars dictaminis, como denominavam os medievais. As normas de escrita estabeleciam como deveria ser a saudação, o exortium, a disposição e a conclusão da carta. Assim, a prosa não era livre. Ela deveria reproduzir certos ritmos vocálicos (cursus). Compostas para brilhar em reuniões literárias ou como exemplos de bela escrita para estudantes iniciantes nas artes liberais (COSTA, 2006), as cartas expressavam opiniões pessoais dirigidas não apenas para o receptor, mas para todos, pois o autor possuía a consciência de que seriam lidas em voz alta e circulariam livremente em ambientes diversos, e que poderiam inclusive serem publicadas. Em 1125, o próprio Bernardo ponderou sobre o alcance e difusão de seus escritos: “Embora tenha me dirigido especialmente a ti, não escrevi esta carta tão extensa por ti, mas por aqueles que dela necessitarão, segundo os planos de Deus” (7, 20) (BERNARDO DE CLARAVAL, 1990: 121). Bernardo redigiu a carta intitulada Da Consideração talvez motivado pelo malogro da segunda cruzada (1147-1149) da qual foi seu principal pregador, apoiado pelo papa Eugênio III e pelo rei francês Luís VII (COSTA, 2006b). O abade comenta, no prefácio da carta, que o próprio pontífice lhe pedira um escrito para sua meditação. Eugênio fora discípulo de Bernardo em Cister. Da consideração rememora em tom cordial os deveres do papa, convidando-o a um exame de consciência sobre suas responsabilidades. Com sua notável habilidade retórica, o abade propõe que o primeiro a ser objeto de consideração do papa seja sua própria pessoa (GARCIA-VILLOSLADA, 2003: 438). As fadigas cotidianas envolviam o papa. Contra elas Bernardo escreve:
Desde Gregório VII (1073-1085), os principais papas eram advogados. A corte pontifícia tornara-se uma organização notadamente jurídica. Os pontífices de então, inclusive o próprio Eugênio, viviam imersos em questões legais (JOHNSON, 2001: 245). Rodeado por advogados e litigantes, o papa perdia-se em meio a tais ocupações seculares, faltando lhe tempo para “respirar a bondade”, para mesclar trabalho e descanso. Bernardo define tal ambiente perverso: nele, os iníquos (advogados) narram suas fabulações, não seguindo a lei de Deus – a verdade (COSTA, 2006b). Eugênio é exortado a não suportar que o escravizem. O papa deve resistir à maldade destas estultas ocupações através do clamor sincero a Deus. Bernardo o impele a reagir, pois a força do costume leva à despreocupação, e conseqüentemente à dureza de coração, ao pecado. Deve-se querer rechaçar o mal, fazê-lo retroceder, opondo-lhe tenazmente força contrária. Em ambiente tão nefasto, destaca-se a exortação de Bernardo à resistência. Nesse cenário, compreendemos o significado para o abade de Claraval do livre-arbítrio: ser coagido pela iniqüidade é menos miserável do que deixar-se dominar por ela. O permitir pressupõe escolha. E, mais do que isso, escolha consciente. Isso porque a decisão da vontade deve ser precedida de uma reflexão sobre se algo deve ser feito ou não, na ponderação dos motivos; a decisão final procede de um ato livre da vontade. Assim, o livre-arbítrio não é meramente autodeterminação, mas também auto-julgamento. VI. O mal e a Sabedoria Bernardo colore seus textos de analogias, como num sagrado mosaico, a exemplo do fragmento abaixo:
Este segundo extrato epistolar refere-se à defesa de Bernardo em favor do abade de Lagny aos bispos de Óstia, Frascati e Palestrina. Nesse texto, Bernardo insurge-se contra as acusações imputadas ao abade. Inicialmente, de maneira gradativa, exorta os bispos a atentarem para o que têm falado, pois isso denuncia a maldade oculta em seus corações. O mau desígnio do coração dos bispos levou Bernardo a levantar-se em favor do abade. Diante da maldade dos homens, o próprio Deus também se afligiu, arrependendo-se de tê-los criado. Bernardo constatou uma assombrosa contradição: a Bíblia relata o triunfo da Sabedoria, enquanto sua experiência pessoal mostrou-lhe o triunfo do mal. O abade de Claraval fundamentou tal preceito em sua experiência contemplativa. Ao perceber que, espantosamente, a maldade era exaltada, seus pés por pouco não deslizaram. A injustiça poderia sobrepor-se, pois o desvelo pela justiça esmaecia e todos se calavam diante do mal. VII. Conclusão Em Bernardo encontra-se a essência do pensamento medieval sobre o problema do mal: é necessário, através da vontade, resistir a ele, não importando de onde venha. Em sua obra, Bernardo elaborou uma “psicologia da vontade”, fundamentada no livre-arbítrio, numa vontade incompatível ao constrangimento, que consiste no poder de consentir ou dissentir – a liberdade – e em um arbítrio que envolve conhecimento e julgamento (BOEHNER e GILSON, 1985: 286). Assim, finalizamos este pequeno trabalho sobre um dos mais brilhantes espíritos dos tempos medievais com suas próprias palavras acerca da viva relação de arbítrio entre homem e Deus, nesses séculos tão envolvidos pelas ligações entre o terreno e o espiritual:
* Fontes SAN BERNARDO DE CLARAVAL. Obras completas de San Bernardo. v. 5. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), 1987. SAN BERNARDO DE CLARAVAL. Obras completas
de San Bernardo. v. 7. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (BAC),
1990.
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