A Primeira parte de O Romance da Rosa (c. 1225) [1]

Guilherme de Lorris (c. 1200-1230)
Trad.: Sonia Regina Peixoto - Profa. Eliane Ventorim - Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)
Revisão e notas: Eliane Ventorim e Ricardo da Costa
Revisão gramatical: Profa. Larissa Brommonschenkel Soares

Figura 1

Primeira iluminura do manuscrito 387 do Roman de la Rose da Universidad de Valencia (final do século XIV). São duas cenas: à esquerda, a casa do poeta e seu despertar, exatamente como no texto; à direita, os primeiros passos de seu sonho, quando encontra o rio (uma alegoria do rio da vida), que o poeta segue até chegar ao jardim. Ele sente o desejo de sair porque é maio, mês da primavera no hemisfério norte, do início da vida, quando as árvores ficam verdes e os pássaros cantam melodiosamente, enfim, o momento ideal para o desabrochar do amor.

*

Alguns dizem que nos sonhos não existem senão engano e mentira, mas às vezes se podem ter sonhos que não mentem e que, com o passar do tempo, revelam-se verdadeiros. Para demonstrar isso, apresento um autor que se chamava Macróbio: ele não tomou os sonhos como brincadeiras, pelo contrário, escreveu uma obra sobre o sonho que teve o rei Cipião. [2]

Apesar de tudo, se alguém pensa ou diz que é loucura e ignorância acreditar naquilo que sonhou, quem assim considera, que me tenha por louco, pois sei que o sonho adverte o bem e o mal que acontecerá às gentes. Além disso, são muitos os que durante a noite sonham coisas obscuras, as quais depois se apresentam com clareza.

No vigésimo ano de minha vida, idade em que o amor cobra imposto aos jovens, uma noite me deitei, como de costume, e dormi profundamente. E tive um sonho formosíssimo que muito me agradou: não houve nada que depois não tenha ocorrido tal e qual o sonho me mostrara. Agora desejo contá-lo em versos para agradar aos corações [3], pois assim me pede e ordena o Amor.

Se alguém deseja saber como deve ser chamado o Livro que agora inicio, ele se chamará O Romance da Rosa, e nele estão contidas todas as artes do Amor. O assunto é bom e novo; Deus queira que o receba com gosto aquela por quem inicio essa obra: ela vale tanto e é tão digna de ser amada que deve se chamar Rosa. [4]

Parecia maio, faz cinco anos pelo menos. Sonhei que era maio, tempo de amor e de prazer, tempo em que tudo se alegra: os arbustos e as sebes [5] se cobrem de folhas nesse mês. Os bosques recobram seu verdor, pois se mantiveram secos durante o inverno; e a mesma terra sente orgulho pelo orvalho que a molha, esquecendo a pobreza em que ficara durante o inverno. A terra se torna tão vaidosa que deseja usar um vestido novo, e isso não é difícil, pois ela dispõe de cem pares de cores: a erva, as flores violetas, azuis e de muitos tons distintos – tal é o vestido que vejo que utiliza a terra para embelezar-se.

Os pássaros que haviam permanecido calados enquanto fazia frio e quando o tempo era hostil e rigoroso, com a chegada de maio, com o bom tempo, ficam tão contentes que mostram com seu canto o prazer que têm no coração, e se vêem impulsionados a cantar. Então, o rouxinol [6] se esforça com seus silvos e gorjeios e também o papagaio e a calhandra [7]. É o momento em que os jovens começam a ficar contentes e a se enamorar, graças ao suave e doce tempo. Pois aquele que em maio não ama, tem um coração muito duro, pois ouve em vão os pássaros que cantam nos ramos.

Figura 2

Existem vários tipos humanos que não podem cruzar o muro do Jardim do Amor. São figuras alegóricas das atitudes que o poeta não deve ter se deseja se apaixonar. As figuras estão pintadas do lado de fora do Jardim para que todos conheçam quais são os vícios rechaçados pelo amor: todo aquele que deseja ingressar e formar parte da milícia do amor deve esquecê-los e nunca praticá-los. Algumas dessas alegorias são oriundas de Prudêncio, outras foram elaboradas por Guilherme de Lorris, que se baseou na tradição existente sobre a poesia amorosa. Da esquerda para a direita: a Felonia (o maior crime do mundo feudal, pois rompia com todos os compromissos da vassalagem), a Malquerença (de azul) e a Vilania (alegoria de forte conteúdo moral, pois era unida à avareza, à covardia e à infidelidade), o oposto da cortesia.

Nessa época tão agradável, em que todo ser vivo se esforça para amar, certa noite sonhei que me encontrava [8]. Enquanto dormia, pareceu-me que era muito cedo. Levantei-me da cama, calcei-me e fui lavar as mãos. Depois, peguei uma agulha de prata de uma alfineteira formosa e bela, e me dispus a costurar. Então, me veio um desejo de sair da cidade para escutar os gorjeios dos pássaros que cantavam alegremente nos bosques pela chegada da nova estação. Assim, enquanto costurava o bordado, deleitava-me, escutando as avezinhas que cantavam nos jardins que começavam a florescer.

Alegre, contente e cheio de prazer, dirigi-me a um rio que ouvia próximo dali, pois não me ocorria um lugar melhor para me distrair do que as margens daquele rio. A água caía de uma colina próxima com força e ímpeto. Era clara e tão fria como a do poço ou da fonte. O rio era um pouco menor que o Sena, porém mais largo. Até então, eu nunca vira este rio tão agradável. Sentei-me para contemplar aquele lugar aprazível, refresquei-me e lavei o rosto com aquela água transparente e clara. O fundo era coberto e empedrado por pequenos cascalhos e a margem banhava um prado formoso e belo. A manhã era ensolarada, tranqüila e luminosa. Fazia um dia agradável. Através do prado, junto à margem do rio, fui descendo o curso de água.

Em pouco tempo deparei-me com um grande e alegre jardim completamente rodeado por um muro alto. A parte externa da parede tinha desenhos, esculturas e títulos ricamente pintados. Com grande prazer contemplei essas figuras e imagens, que irei contar e descrever tal como as recordo.

No centro vi a Malquerença. Ela dava a impressão de estar triste, aflita e de ser perversa; parecia evidente que desejava provocar e molestar, porém se mantendo oculta a todos. Parecia uma mulher pobre, porque não estava bem vestida. Tinha o semblante enrugado e franzido, e seu nariz era chato. Essa horrível e depreciável mulher cobria-se com um véu.

Ao seu lado esquerdo havia uma figura de aspecto diferente; li o nome que tinha na cabeça: chamava-se Felonia.

Figura 3

Para poder desfrutar da vida cortesã simbolizada pelo Jardim do Amor seriam necessárias certas qualidades morais, além de dons naturais e meios de fortuna suficientes. Esta é a razão pela qual às figuras ficam do lado de fora do Jardim. Aqui o poeta contempla a Avareza, como no texto, com uma bolsa de moedas em uma das mãos e as roupas rasgadas.

À direita, vi uma imagem que tinha o nome de Vilania: era semelhante às outras duas, tanto no aspecto quanto na forma. Como era insolente, dava a impressão de ser uma má e louca criatura, disposta a causar danos e a falar mal de todos. Eu saberia pintar e retratar muito bem o que fazia tal imagem, pois ela parecia realmente uma coisa vil, como se estivesse cheia de injúrias e fosse uma mulher pouco disposta a prestar honra a quem devia.

A seguir, estava pintada a Cobiça, aquela que incita as gentes a tomar, a não dar nada, a juntar grandes riquezas; é quem faz com que muitos emprestem com usura, pois está sempre querendo reunir e juntar bens; é quem aconselha aos ladrões e aos malfeitores para que se ponham em movimento. Ela é um grande erro e uma grande desgraça, pois através dela muitos acabam sendo enforcados. A Cobiça é quem faz tomar as coisas dos outros, roubar, usurpar e vender mal, diminuir e enganar nas contas; é a criadora dos trapaceiros, dos charlatães que, seguindo seu conselho, privam donzelas e jovens de suas justas heranças. Esta imagem tinha as mãos encurvadas e retorcidas – é lógico ser assim, pois a Cobiça sempre se esforça em tomar o bem alheio sem escutar razões, já que gosta demasiadamente do que é dos outros.

Ao lado da Cobiça havia outra figura, chamada Avareza: era feia, suja, magra, fraca e de má aparência, verde como um alho-poró [9], tão pálida que parecia doente e morta de fome ou que vivia somente de pão amassado com água sanitária forte e abrasadora. Além de estar fraca, vestia-se pobremente: trazia uma cota velha, destroçada e cheia de remendos, como se houvesse sido jogada aos cachorros. [10] Ao seu lado, pendurada em uma fraca presilha, estava seu manto e uma cota parda. O manto não era de boa linhagem: era de má qualidade, desgastado, de lã negra, aveludada e pesada. A cota devia ter mais de vinte anos, mas a Avareza não se preocupava com suas vestes. Ela não sentiria muito por esse traje, ou porque estava usado, ou porque já não lhe servia, já que necessitaria de um vestido novo; pois a Avareza, aquela que não gosta de gastar, prefere passar grande penúria a fazer isso.

Figura 4

A Tristeza, representada por uma jovem mulher enferma que arranhou o próprio rosto, descabelou-se e feriu os seios à mostra com as próprias unhas.

Ela havia escondido na mão uma bolsa costurada e fechada com tanta força, que se passaria um bom tempo antes de se tirar algo dela, embora isso lhe importasse pouco, pois ela não tinha a intenção de tirar nada da bolsa.

A seguir, estava pintada a Inveja, que nunca havia sorrido em toda a sua vida, e nunca havia se alegrado por nada, a não ser por ter visto ou escutado alguém contar uma grande desgraça: nada a agradava tanto quanto a dor e a calamidade. O que ela mais gosta é de ver que um grande infortúnio caiu sobre uma pessoa próxima. Então, ela alegra seu coração da mesma forma quando vê uma grande linhagem ser destruída ou insultada. Contudo, se contempla alguém que cresce em honra graças ao seu bom senso e por seus próprios méritos, isso é o que mais lhe fere, pois se entristece quando acontece algo bom.

A Inveja é tão cruel que não mantém a lealdade com seus companheiros e não admite companheirismo; ela é inimiga de todos os seus familiares, pois certamente não deseja o bem nem para o seu pai. Contudo, é certo que ela paga caro por sua maldade, pois sofre tanto e sente tanta dor quando as pessoas fazem o bem, que pouco falta para se desmanchar. Desse modo, seu coração traidor a golpeia, e então Deus e os homens podem se vingar.

A Inveja nunca deixa de falar mal dos outros: se conhecesse o mais nobre de todos que existe desse lado do mar ou do outro, ela tentaria ofendê-lo; e se fosse um homem tão íntegro que ela não conseguisse fazê-lo cair de seu mérito, nem derrubá-lo, ao menos lhe agradaria diminuir seu valor e sua honra, falando dele o menos possível.

Na pintura vi que a Inveja tinha um olhar mau, pois não olhava de frente, somente de soslaio, dissimulando; esse era um mau costume seu, não contemplar nada abertamente, pelo contrário, só fechava um olho com desprezo, desdenhando e ardendo de raiva ao ver alguém nobre, formoso ou gentil, querido e estimado por todos.

Figura 5

A Inveja, com a longa mão direita no coração para mostrar o sofrimento que sente quando se faz o bem. Repare que as imagens crescem em tamanho à medida que são apresentadas, indicativo da grandeza do mal que a Inveja provoca na Terra.

Junto à Inveja, bem próxima dela, a Tristeza estava pintada no muro: pela cor, parecia que levava luto no coração, e dava a impressão que padecia de icterícia [11]. A Avareza não a superava nem em palidez, nem em fraqueza, pois a aflição e a pena, a preocupação e os enjôos que sofria dia e noite haviam feito com que perdesse a cor e ficasse magra e pálida. Ninguém nunca teve um sofrimento e uma dor semelhantes a que ela parecia ter. Acredito que ninguém seria capaz de fazer com que ela se alegrasse; ela tampouco queria se regozijar e aliviar com nada a dor que sentia em seu coração, pois o tinha demasiadamente triste, e seu penar havia se enraizado profundamente.

Bem se via que estava aflita, pois há pouco tempo havia arranhado seu rosto, dilacerando-o em muitos lugares, como quem está triste. Tinha os cabelos despenteados e soltos sobre o colo, revolvidos pela pena e pela aflição. Estou seguro que ela chorava amargamente: quem quer que a visse, por mais duro que fosse, sentiria uma grande misericórdia por ela, que continuamente se arranhava, se golpeava e se maltratava com os punhos.

A infeliz, a pobre, mostrava bem a sua dor e não se preocupava em se alegrar, em bailar ou dançar, pois quem tem o coração aflito sabe que não tem vontade de se deleitar com a dança e com o baile. Aquele que está triste não se abranda com a alegria, pois o gozo e a aflição lhe são contrários.

Logo depois, estava retratada a Velhice, um passo atrás do lugar que deveria ocupar, pois ela mal se mantinha em pé, de tão velha e maltratada. Sua beleza havia murchado, tornara-se muito feia. Tinha a cabeça velha e branca, como se os cabelos tivessem florescido. Meu Deus, sua morte não seria uma grande perda nem uma grande desgraça, pois todo o seu corpo havia secado e se enrugado pela idade. Seu rosto, cheio de rugas, outrora fora suave e liso; agora estava repleto de cicatrizes. Suas orelhas eram cabeludas e não lhe restava nenhum dente, pois havia perdido todos. Era tão velha que parecia que não podia andar quatro passos sem a ajuda de muletas.

O tempo, que corre noite e dia sem pausa nem repouso, passa por nós tão silenciosamente que por um momento acreditamos que ele se deteve, quando na verdade nunca descansa nem deixa de correr, de forma que não se pode pensar que existe o presente; e, se perguntares a um homem douto nas letras, antes que ele tenha respondido, haverá transcorrido três tempos. O tempo, aquele que não pode ser detido e que sempre avança sem voltar, como a água que flui sem que regresse uma gota; o tempo, a quem ninguém resiste, nem o ferro, nem qualquer outro objeto duro; o tempo, que faz com que as coisas cresçam depressa, que rapidamente cria e tudo destrói e faz apodrecer; o tempo, que envelheceu nossos pais, que envelheceu prematuramente reis e imperadores, e que todos nós tornará velhos e adiantará nossa morte; o tempo, que tem o poder de envelhecer todas as coisas, a havia envelhecido tanto que, em minha opinião, fez com que ela não pudesse amparar-se sozinha, e assim, a fez retornar à infância, pois não tinha mais capacidade, nem força e juízo que um menino de um ano de idade. Embora, segundo creio, ela tivesse sido discreta e culta quando estava na idade madura, nada havia lhe restado e ficara atordoada.

Figura 6

A Velhice usa um cajado para se apoiar e tem o corpo recoberto por um longo manto azul, pois sente frio. Ela é o exato oposto do amor, que é uma paixão ardente. Portanto, a Velhice também está proibida de entrar no Jardim do Amor.

Ela trazia uma capa forrada – se não me recordo mal – com a qual se abrigava muito bem e cobria seu corpo. Devia ser um manto quente, caso contrário, teria morrido, pois os velhos sentem frio, sabei-o, tal é sua natureza.

Atrás dessa imagem havia outra representada, e que manifestava claramente sua falsidade: chamava-se Hipocrisia. É ela que, mantendo-se oculta, quando ninguém pode se defender, faz todo o tipo de dano, sem nunca se preocupar. Externamente, parece mover-se pela compaixão, tem aspecto simples e piedoso, e parece uma santa criatura; porém, sob o céu não há desgraça que em seu íntimo não tenha imaginado.

A imagem que a representava se parecia muito com ela, pois tinha um aspecto simples: estava calçada e vestida como uma mulher devota; na mão levava um saltério e, sabei-o, esforçava-se em oferecer a Deus falsas orações, invocando santos e santas. Não estava alegre, nem contente, parecia inclinada somente a fazer boas obras. Vestia um tecido áspero de lã e não era gorda, pelo contrário, dava a impressão de que estava cansada de jejuar, por causa de sua cor pálida e moribunda.

A ela e aos seus estava proibida a entrada no Paraíso, pois segundo o Evangelho, este tipo de gente afina seu rosto para ser enaltecido na cidade. Por isso, por obterem um pouco de vanglória, serão privados de Deus e de Seu reino.

Por último, estava retratada a Pobreza, que carecia de bens e que havia sido pintada desnuda como um verme, pois havia vendido seus vestidos. Se a estação fosse outra, penso que morreria de frio, pois tinha somente um saco velho forrado com pedaços de pele – tal era sua cota e seu manto – não trazia mais nada para vestir e tiritaria muito de frio. Ela se mantinha um pouco afastada das demais, como um pobre cão num canto; encolhia-se e se cobria, pois qualquer coisa miserável sempre sente vergonha e despeito, esteja onde estiver. Maldita seja a hora em que foi concebido um pobre! Ele nunca será bem alimentado, nem bem vestido e calçado, ninguém o quererá, e ele não receberá elogios!

Tal como contei, essas eram as imagens que se viam por toda a parede, pintadas de ouro e de azul. O muro era alto e tinha uma forma quadrada; dentro havia um jardim onde ninguém nunca havia entrado, nem mesmo um pastor. O lugar era magnífico. Eu ficaria muito agradecido se alguém me levasse lá para dentro mediante escadas ou escadarias, pois, em minha opinião, não se poderia encontrar um gozo ou uma alegria semelhantes às que havia naquele jardim. O lugar não estava disperso nem era tacanho para abrigar aves. Nunca houve um espaço tão rico de árvores e de pássaros cantores – ali havia três vezes mais que em todo o reino da França.

Figura 7

Ociosa é o primeiro personagem que o poeta conhece e que vive no interior do Jardim. Ela tem um espelho em uma das mãos, que pode ser associado à luxúria, já que é um atributo de Vênus, e Ociosa é sua representação, embora na tradição de André Capelão (séc. XII), a luxúria está descartada do amor cortês [12]. Quando Ociosa mostra o espelho ao poeta, está lhe ensinando o reflexo do mundo que existe dentro do Jardim, sendo, portanto, também a representação da água (o rio do início do poema). Além disso, associa-se com o mito de Narciso, que surgirá adiante no texto. Com a aparição de Ociosa, o poeta se insere na tradição da poesia amorosa, pois Ovídio diz que devemos fugir da ociosidade para evitar as flechas de Cupido [13], idéia adotada também por André Capelão.

Era muito agradável ouvir a harmonia de seus cantos, pois alegravam todo o mundo. Regozijei-me tanto que, se estivesse livre, não aceitaria cem libras para não ver a reunião dos pássaros que ali dentro cantavam danças de amor e notas agradáveis, formosas e belas, com muito gozo. Que Deus os salve!

Ao ouvir o cantar dos pássaros, comecei a pensar de que maneira ou com que astúcia eu poderia entrar no jardim. Não encontrei nenhum lugar para passar: sabeis que ignorava se havia uma entrada, um caminho ou uma trilha; não havia ninguém que pudesse me guiar, já que estava só. Encontrava-me derrotado e muito triste, até que, por fim, entendi que em um pomar tão formoso como aquele não haveria uma porta, escada ou qualquer outra forma de entrada. Então dei a volta muito depressa ao redor da construção e do muro quadrado, até que encontrei um portão pequeno e estreito que estava bem fechado. Não havia nenhum outro lugar de entrada. Parei de procurar e chamei à porta. Chamei e bati bastante; muitas vezes prestei atenção se ouvia chegar alguém.

Por fim, uma donzela nobre e formosa abriu o portão, que era de carpelo. [14] Essa donzela tinha os cabelos loiros como uma bandeja de cobre, seu rosto era mais doce que um pequeno pintinho, sua fronte brilhava, tinha as sobrancelhas arqueadas e bem separadas, amplas e bem proporcionais, seu nariz era bem-feito e seus olhos eram vivos como os de um falcão. Para dar inveja aos loucos, tinha um vigor doce e agradável, um rosto branco e escarlate, uma boca pequena e carnuda e uma pequena cova no queixo; seu colo era bem proporcional e a pele era mais suave que um velocino [15], sem cravos ou espinhas – daqui até Jerusalém não havia mulher com o colo mais charmoso, pois o dela era reluzente e muito suave ao tato; seu pescoço era tão branco que parecia como a neve recém caída sobre os galhos das árvores.

Seu corpo era elegante e esbelto: era inútil buscar em outras terras um corpo feminino mais belo. Trazia uma formosa auréola de seda e ouro. Nunca houve uma donzela tão elegante, nem que se vestisse melhor; bem a vi e a contemplei. Sobre a auréola de seda e ouro ela trazia uma guirlanda de rosas frescas [16]; tinha na mão um espelho, e na cabeça um rico fixador prendia seu cabelo trançado. Para dar maior elegância, as duas mangas de seu vestido estavam costuradas, e para evitar que suas mãos brancas se sujassem, ela usava luvas também brancas. Vestia uma cota de rico tecido verde de Gand [17], com um cordãozinho bordado em volta. Por seu aspecto, bem se via que tinha pouco o que fazer. Penteando-se, vestindo-se e preparando-se: era assim que passava o dia. Para ela, fazia sempre bom tempo e era sempre maio, pois nada a preocupava nem a inquietava, a não ser se arrumar com elegância.

Quando a donzela de corpo formoso abriu o portão, com bons modos lhe dei graças, e lhe perguntei como se chamava e quem era. Ela não se mostrou altiva nem desdenhosa ao responder:

– Sou chamada Ociosa por meus conhecidos. Sou uma mulher rica, afortunada, e levo uma vida agradável, pois com nada me ocupo senão gozar e desfrutar, pentear-me e fazer-me tranças. Sou amiga íntima de Lazer, o jovem, o agradável, dono deste formoso jardim: ele trouxe da terra de Alexandria as árvores que aqui estão plantadas. [18] Depois, quando elas cresceram, fez construir ao redor do pomar o muro que vistes e ordenou que pintassem na parte externa as imagens que há, que não são nem belas, nem agradáveis, mas dolorosas e tristes, tal como acabais de ver. Muitas vezes vêm aqui para se divertir e ficar à sombra. Lazer e seus seguidores, que vivem em contínuo gozo e alegria. Agora Lazer deve estar aqui dentro, escutando o canto dos rouxinóis, dos melros [19] e de outros pássaros; ele se entretém e se distrai nesse pomar com suas gentes. Não poderia encontrar um lugar mais belo, nem um lugar melhor para desfrutar. Sabeis que as gentes mais formosas que poderíeis ver são os companheiros de Lazer, que os traz a seu lado e os guia.

Quando Ociosa terminou de falar, eu, que escutava com atenção, disse-lhe:

– Senhora Ociosa, não me leve a mal: já que Lazer, o belo, o nobre, está aqui nesse pomar com suas gentes, gostaria, se pudesse, de estar em sua reunião nessa mesma tarde. Tenho que ir, pois penso que a visão deve ser agradável e creio que os participantes serão corteses e bem educados.

Sem dizer mais nada, entrei no pomar pela porta que Ociosa abrira. Quando estive dentro, senti-me alegre, contente e gozoso; encontrava-me como no Paraíso Terreno, estejais certo. O lugar era tão agradável que parecia coisa própria do espírito e, segundo me parecia, em nenhum paraíso se poderia estar tão bem como naquele pomar que tanto me aprazia.

Figura 8

Ociosa, coroada, segura o poeta pelo pulso e assim ele entra no Jardim do Amor (na cena, a figura do poeta se repete para demonstrar os dois momentos). Nesse segundo momento (à direita), ele ingressa no mundo cortês, já que o Jardim é a representação ideal de um microcosmos: tanto a vegetação quanto os pássaros são manifestações do amor, e o Jardim é o locus amoenus da literatura medieval, reflexo imperfeito do Paraíso, natureza domesticada e refúgio do mundo nobiliárquico. A tradição literária do ocidente registra a estória desse tema, desde a Bíblia até André Capelão, passando por Guilherme de Lorris (Altercatio Phyllidis et Florae).

Havia numerosos pássaros cantores reunidos por todo o jardim: em um lugar havia rouxinóis, em outro, gaios [20] e estorninhos [21]; e, em outros lugares, havia bandos de pombas-rolas e estrelinhas-de-poupa [22], de pintassilgos [23], de andorinhas, de cotovias e de chapins. [24] Mais adiante, havia muitas cotovias que já estavam cansadas de competir no canto e, com elas, havia melros e tordos [25] que tentavam superar os outros pássaros com seus silvos. Em outro lugar, havia papagaios e muitas aves que, nos jardins e bosques que habitavam, deleitavam-se com seu belo canto. [26]

Os pássaros de que estou falando faziam um bom trabalho, pois cantavam como se fossem anjos espiritualizados e, ao ouvi-los, eu me alegrava, pois nenhum homem vivo ouviu antes uma melodia tão doce. Era um canto tão agradável e formoso que não parecia de pássaros, e sim com o canto das sereias do mar, chamadas assim por suas vozes puras e doces.

Os passarinhos estavam atentos ao canto, pois esteja seguro de que não eram nem aprendizes nem ignorantes. Ao ouvi-los e ao ver o verdor do lugar, fiquei muito alegre, mais do que havia ficado até então; e, pela amenidade do jardim, me enchi de gozo a tal ponto que me convenci de que Ociosa me havia servido bem, proporcionando-me tal bem-estar. Eu devia tê-la como amiga, já que me abriu a porta daquele bosque cheio de árvores.

E agora, conforme meus conhecimentos contar-vos-ei tudo o que aconteceu. Mas antes de tudo, dir-vos-ei o que Lazer estava fazendo e quem eram seus acompanhantes, mas sem me estender em demasia. Depois, descrever-vos-ei o bosque sem ocultar nada. Não posso fazê-lo todo de uma vez e, por isso, vou contar ordenadamente, para que não possam me censurar nada.

Os pássaros cumpriam seu dever doce e agradável, cantando lais de amor e canções corteses, uns com voz alta, outros em tom baixo. [27] O canto não era nada depreciável, e a melodia conseguiu que a doçura voltasse a brotar em meu coração. Depois de escutar um pouco os pássaros, não pude resistir aos meus desejos de estar diante de Lazer para ver seu aspecto e contemplar sua pessoa. Sem deter-me, fui à direita, por uma pequena trilha cheia de erva-doce e de menta, e não demorei em encontrar o Lazer, pois estava no bosquezinho em que me meti. Ali estava se distraindo com pessoas de tanta beleza que, ao vê-las, perguntei-me de onde poderiam ter vindo, pois eram como anjos com asas: nunca vi jovens mais belos. Puseram-se a bailar ao coro e ao som das canções que lhes cantava uma dama chamada Alegria.

Figura 9

Nesta cena há alguns dos personagens que vivem no Jardim do Amor. Todos estão dançando (como o grupo à esquerda, liderado pelo Deus do Amor, ou a dupla acima, também à esquerda) ou tocando um instrumento. A música representa a luxúria, assim como o macaco acorrentado aos pés do jogral (as correntes podem significar que a luxúria está controlada pelos padrões sociais do amor cortês). A luxúria também se manifesta - e mais claramente - nas sensuais carícias e beijos trocados entre duas damas (uma de azul, outra de vermelho).

Alegria cantava bem e de forma muito agradável; ninguém entoaria os estribilhos melhor nem com mais elegância; ela cantava extraordinariamente bem, com voz clara e pura; e, além disso, movia-se com habilidade, lançava os pés de forma educada e surgia no momento oportuno: estava acostumada a cantar sempre a primeira – e esse era o trabalho que fazia com mais gosto.

Ali vós os veríeis dar voltas, dançando com graça em belos círculos sobre a grama fresca. Ali, vários flautistas, menestréis e jograis cantavam ritornelos [28] e canções de Lorena, pois, de todos os reinos, é em Lorena onde se fazem as mais belas canções. Havia inúmeras mulheres que tocavam as castanholas e o pandeiro com habilidade, que não paravam de lançar o pandeiro ao ar e o pegarem sem nunca errar. Lazer fazia com que as moças, muito formosas, dançassem no meio da roda. Elas vestiam somente a cota e tinham seus cabelos presos com uma trança. Não é necessário cantar a elegância com que dançavam: uma se aproximava da outra e, quando estavam juntas, aproximavam suas bocas parecendo que se beijariam no rosto. Sabiam se mover muito bem.

Não sei mais o que vos dizer; por mim, nunca sairia dali enquanto aquelas gentes continuassem com seus bailados e danças.

De pé, contemplei a roda até que veio a mim uma alegre dama: era Cortesia, apreciável e afável. Que Deus a livre de todo o mal!

Docemente ela se dirigiu a mim:

– Bom amigo, que vós fazeis aqui? Venhais e tomais parte na dança conosco, se assim quiserdes.

Sem tardança nem demora juntei-me à roda, contente por Cortesia ter suplicado e pedido que bailasse, pois estava desejoso e com vontade de dançar, embora não me atrevesse a fazê-lo. Assim, contemplei os corpos, as formas, os rostos, o aspecto e as maneiras dos que estavam dançando – e vou descrevê-los.

Lazer era belo, alto, esguio: não encontrareis homem mais formoso. Seu rosto era como uma maçã, rosado e branco em volta; era elegante e de boa aparência; tinha os olhos verdes, a boca formosa, o nariz bem feito, reto; seus cabelos eram louros, encaracolados; tinha os ombros largos e a cintura estreita: parecia uma pintura, de tão formoso e elegante que era e por ter os membros bem formados. Em seus movimentos era hábil e ágil; não conhecerás ninguém mais ligeiro; não tinha barba nem bigode, mas um buço incipiente, pois era um jovem rapaz. Trazia seu corpo vestido com um tecido de seda bordado com pássaros, todo lustrado de ouro; seu traje tinha muitos adornos, pois estava elegantemente alisado e cortado em vários lugares. Estava calçado com grande perfeição, com sapatos de cadarço, feitos sob medida. Por amor e como uma forma de agradecimento, sua amiga lhe havia feito uma coroa de rosas que lhe caía muito bem. [29] Sabeis quem era sua amiga? Era Alegria, que não odiava ninguém, sempre estava contente e cantava muito bem; desde que tinha somente sete anos ela lhe havia declarado seu amor.

Lazer a segurava pelos dedos no meio da roda e ela também o segurava. Faziam um bonito par, pois ele era formoso e ela também. Pela cor de sua delicada pele, que se poderia ferir com um pequeno espinho, ela parecia uma jovem rosa. Tinha a fronte formosa e ampla, sem rugas; sobrancelhas morenas e arqueadas; olhos alegres e tão vivos que sempre começavam a sorrir antes de sua pequena boca. Não sei o que dizer de seu nariz: não se poderia fazer um melhor com cera. Tinha a boca pequenina e sempre disposta a beijar seu amigo; sua cabeça era loura e reluzente. Que mais vos posso dizer? Ela era bela e elegante; enfeitava-se com um fio de ouro, e trazia um chapéu novo, de seda e de ouro. Eu, que tenho visto muitos penteados, nunca vi um tão bem feito. Vestia seu corpo e o cobria com um tecido de seda dourado: sentia-se orgulhosa por seu amigo usar um tecido igual.

A seu lado estava o Deus do Amor, que a seu desejo distribui paixões. É ele quem faz justiça com os enamorados, é ele quem abate o orgulho das gentes, fazendo do senhor, servidor, e das damas, criadas – quando as encontra demasiado soberbas.

Por seu aspecto, o Deus do Amor não parecia um rapaz vulgar, e era apreciado por sua beleza. Para contar como estava vestido, eu temo estar em dificuldades, pois não trazia traje de seda, mas de florzinhas, feitas por delicados amores. Era um vestido de xadrez adornado por todas as partes com losângulos, aves, leões, leopardos e outras classes de animais; para maior abundância de cores, tinha muitos tipos de flores, que haviam sido colocadas ali com grande arte.

Não havia flor que nascesse no verão e que não estivesse ali: giesta [30] e violeta, flores brancas e negras, amarelas, azuis e verdes; todas estavam ali, tal era sua variedade. Em algumas partes estavam misturadas pétalas de rosas grandes e cheias. Na cabeça trazia uma grinalda de rosas, mas os rouxinóis que voavam ao redor faziam cair as pétalas.

Ele mesmo estava rodeado de pássaros, oriolídeos [31], rouxinóis, calhandras e chapins-reais [32]: parecia um anjo que acabara de cair do céu. Ao seu lado havia um jovenzinho que mantinha perto de si e que se chamava Doce Olhar.

Esse rapaz contemplava a dança guardando para o Deus do Amor dois arcos turcos [33]: um era feito com a madeira de uma árvore cujos frutos são amargos e estava cheio de nós e protuberâncias por todas as partes; ainda, era mais negro que a amora. O outro era feito de uma madeira delicada e flexível; era largo e com uma bela forma; estava bem talhado e moldado, e tinha abundantes adornos: nele havia pinturas que representavam damas de todas as categorias e jovens alegres e elegantes.

Tais eram os arcos que carregava Doce Olhar. Além disso, ele não parecia um rapaz vulgar, já que guardava dez flechas de seu senhor e tinha cinco delas na mão direita. Essas estavam pintadas de cor ouro, tinham penas bem feitas e talhes perfeitos, pontas fortes, cortantes e agudas que podiam cravar-se sem dificuldade, mas não eram de ferro nem de aço, pois não havia nada nessas flechas que não fosse de ouro, com exceção das penas e da haste, que haviam sido colocadas em pontas cortantes com filetes.

Figura 10

Aqui estão representados todos os personagens que fazem parte da corte do
Deus do Amor (isto é, Cupido). Eles são antônimos dos que se encontram no muro, no exterior do Jardim. Assim, o primeiro é o próprio Cupido, filho de Vênus e Marte. No entanto, ao invés de ser representado como uma criança (que era a maneira tradicional de representá-lo), Cupido surge alado, como um cavaleiro medieval, e com uma guirlanda de rosas na cabeça (as flores dedicadas a Vênus) – na iluminura ele está na parte superior da roda, à esquerda, segurando a mão esquerda de Ociosa. A seguir, as alegorias: Beleza, Riqueza, Generosidade, Franqueza, Lazer (o rei e dono do Jardim), Cortesia, Ociosa e Juventude, todas acompanhadas por jovens (essas virtudes também são citadas em Ovídio e em André Capelão). O servidor do Deus do Amor (Doce Olhar), isto é, essa alegoria, foi assim chamada porque tanto no mundo clássico quanto no medieval se pensava que o amor penetrava no coração através dos olhos. Doce Olhar está à esquerda, fora da roda, e porta os dois arcos turcos, de acordo com o texto (mas aqui representados com o talhe do arco inglês, o que nos sugere que o iluminista desconhecia o arco turco). As flechas de Doce Olhar são descritas no texto.

A melhor e mais rápida dessas flechas, a mais formosa, a que trazia a melhor pluma, chamava-se Beleza. Uma das que feria com maior facilidade recebera o nome de Simplicidade, segundo creio. Havia outra chamada Franqueza, que tinha uma pluma feita com valor e cortesia. A quarta flecha era muito pesada e não podia ir muito longe: chamava-se Companhia; se utilizada em distâncias curtas, poderia causar graves danos. A quinta se chamava Boa Face; era a mais ligeira e produzia grandes feridas; é digno de compaixão aquele que é alcançado por essa flecha, pois antes que se passe muito tempo verá sua saúde afetada com uma dor nada pequena.

Havia cinco flechas de outro tipo, que eram muito feias. As hastes e pontas eram mais negras que o diabo do Inferno. A primeira se chamava Orgulho; outra, que não era melhor, Vilania, que estava carregada com o veneno da traição; a terceira recebia o nome de Vergonha, e a quarta, de Desespero. A última sem dúvida se chamava Mudança no Pensamento. Essas cinco flechas eram todas iguais em suas formas e parecidas entre si. Caía-lhes muito bem um dos arcos, o que era feio, cheio de nós e de saliências: esse devia disparar tais flechas. Seguramente tinham propriedades contrárias às outras, mas não vou dizer agora suas qualidades, nem seus poderes: contar-vos-ei toda a verdade, não esquecendo o significado de cada uma delas – pois isso é importante – e revelar-vos-ei antes de finalizar meu relato. Agora, voltarei ao que estava dizendo.

Vou contar o aspecto, os modos e o comportamento das nobres gentes que estavam dançando. O Deus do Amor havia se aproximado muito de uma dama de elevada condição. Tinha escolhido bem sua companhia: essa dama se chamava Beleza, como uma das cinco flechas. Tinha todas as boas qualidades: não era de pele escura, nem demasiado morena, mas brilhava como a Lua, aquela frente a qual as estrelas parecem tímidas velas. Tinha a carne frágil como o orvalho, era cheia de pudor como uma recém casada e branca como o lírio; seu rosto era suave e liso, estava um pouco delgada, era ágil e não havia se maquiado nem se pintado, pois não tinha necessidade de se arrumar nem de se enfeitar [34].

Tinha os cabelos lourinhos e longos até os calcanhares, um nariz bem feito, como os olhos e a boca. Em meu coração entra uma grande doçura – que Deus me ajude! – quando me lembro do aspecto de cada um de seus membros, pois não houve ainda mulher mais formosa no mundo. Para ser breve, direi que ela era muito jovem e loura, agradável, afável, cortês e elegante, bem proporcionada e um pouco magra, gentil e alegre.

Ao lado da Beleza estava a Riqueza, dama de elevada posição, de grande valor e de reconhecido mérito. Aquele que se atrevesse a causar-lhe dano ou aos seus por meio de ações ou palavras, teria que ser muito valente e ousado, pois ela poderia prejudicá-lo ou beneficiá-lo muito: não é de hoje nem de ontem que os ricos têm um grande poder para ajudar ou para prejudicar.

Todos – grandes e pequenos – tributavam honras à Riqueza; todos se esforçavam em servi-la para merecer mais suas recompensas; cada um a chamava de “sua dama”, pois todos a temiam; o mundo inteiro estava sob seu domínio. Em sua corte há muitos aduladores, muitos traidores e muitos invejosos: são os que buscam o desprezo e a afronta para os amantes. Os aduladores elogiam as gentes quando estão em sua presença e subornam todo mundo com palavras, mas logo cravam pelas costas suas mentiras até o fim, até os ossos: esses aduladores têm obrigado muitos a fugir, fazendo com que se mantenham longe da corte muitos que deveriam ser conselheiros particulares. Que sobrevenham abundantes males a esses fofoqueiros cheios de inveja! Nenhum homem nobre ama sua vida.

Riqueza trazia um vestido de púrpura: não considereis exagero se vos digo e afirmo que jamais houve outro assim tão belo, rico e elegante em todo o mundo. Estava cheio de adornos de passamanaria [35] e tinha desenhadas estórias de duques e reis com fios de ouro; trazia no colo uma fita de ouro e de esmaltes enriquecida com abundantes pedras preciosas que irradiavam uma grande claridade. Riqueza trazia um cinturão muito elegante: nenhuma dama alguma havia colocado um tão rico. Seu broche era feito de uma pedra que tinha propriedades e virtudes extraordinárias, pois quem a levasse consigo não precisava temer nenhum veneno, nem ser envenenado com nada.

Ela fazia bem estimar tal pedra, que valia para qualquer rico mais que todo o ouro de Roma. A fivela era de outro tipo de pedra, que curava a dor de dentes com a virtude de que quem a contemplasse, por mais jovem que fosse, ficaria salvo o resto da vida. Os detalhes no tecido dourado eram de ouro puro: grossos e pesados, o valor de cada um deles era, no mínimo, de um besante. [36]

Sobre as tranças louras ela trazia um diadema de ouro: até então nunca vira um tão formoso, em minha opinião. Era de ouro retorcido. Seria muito hábil na descrição aquele que fosse capaz de vos contar ou descrever as gemas que havia nele: seria impossível calcular o valor das pedras que estavam engastadas no ouro. Ali havia rubis, safiras, jacintos e mais de duas onças de esmeraldas [37]; o diadema tinha por toda a parte da frente um rubi engastado com grande habilidade: esse emitia tanta luz que quando anoitecia podia ser visto a uma légua de distância, e saía tal claridade da pedra que Riqueza tinha seu rosto e sua face resplandecida, e ao seu redor tudo ficava iluminado.

Ela estava de mãos dadas com um rapaz extraordinariamente belo, que era seu verdadeiro amigo. Era um homem que prazerosamente se entretinha em cuidar bem de seus pertences: calçava-se e se vestia com esmero, tinha valiosos cavalos, pois preferia ser acusado de assassinato ou latrocínio que ter rocinantes ruins em seu estábulo. [38] Por isso, estimava muito a elegância e a benevolência de Riqueza, pois estava sempre pensando em ter grandes gastos: ela os mantinha e o sustentava, dando-lhe tantos bens como se os tirasse de um celeiro.

A seguir vinha a Generosidade, que era bem educada, sabia agradar as gentes e gastar muito. Era da linhagem de Alexandre [39], e nada lhe causava maior prazer que dizer “toma”. Avareza, a pobre, não estava tão disposta a receber como Generosidade a dar. Deus fazia crescer suas riquezas, de modo que quanto mais dava, mais tinha. Grandes eram os méritos e a fama de Generosidade: ela tinha à sua disposição tanto sábios quanto loucos, pois a todos havia conquistado com seus dons. E se houvesse alguém que a odiasse, com seus muitos favores ela conseguiria ganhá-lo como amigo. Por isso, os ricos e os pobres a amavam.

Muito louco está o homem de elevada condição que é tacanho, já que esse é o pior vício que se pode ter: o avaro não conquistará nunca nem senhorios, nem grandes terras, porque não tem amigos o suficiente para cumprir seus desejos. Aquele que quiser ter amigos, não deve apreciar muito seus bens, já que ganhará amigos com bons presentes, pois do mesmo modo que o ímã atrai o ferro com facilidade, o ouro e a prata atraem o coração das gentes que se presenteia.

Generosidade trazia um vestido novo, de púrpura sarracena. Seu rosto era formoso e bem feito; trazia o colo à mostra, pois acabara de presentear seu broche ali mesmo a uma dama. Mas não lhe ficava mal ter seu colo descoberto, pois deixando a garganta à vista, por debaixo da camisa sua pele suave ficava às claras. Generosidade, a apreciada, a prudente, estava acompanhada por um cavaleiro da linhagem do bom rei Artur da Bretanha. [40] Esse cavaleiro sustentava um estandarte de valor e uma bandeira; e tinha tal fama que suas histórias eram e continuam sendo cantadas diante de reis e de condes. O cavaleiro acabava de regressar de um torneio em que havia realizado grandes proezas e numerosos combates por sua amiga; destruíra muitos elmos verdes, tinha atravessado inumeráveis escudos com seu brocal e derrubado muitos cavaleiros, vencendo-os graças à sua força e ao seu valor. [41]

A seguir estava a Franqueza, que não era nem morena, nem de cor amarelada, era mais branca que a neve. Não tinha o nariz chato como os de Orléans, pelo contrário, possuía um nariz longo e reto; seus olhos eram verde-claros, alegres, com sobrancelhas arqueadas, cabelos louros e longos; era mais singela do que uma pomba. Tinha um coração doce e cheio de amabilidade: não se atrevia a dizer ou fazer nada indevido contra ninguém. Se conhecesse um homem que se sentisse atormentado e desejoso de tê-la como amiga, penso que não tardaria em se compadecer dele, pois seu coração era tão misericordioso, tão doce e tão amável, que se alguém sofresse por ela sem que ela lhe prestasse ajuda, pensaria estar cometendo uma grande vilania.

Trazia um vestido que não era nada rústico: não havia outro tão rico até Arras [42]; estava tão bem cortado e costurado que não havia uma só ponta que não estivesse em seu lugar certo. Muito bem vestida estava Franqueza, pois não havia vestido melhor para as donzelas do que o que ela usava: a mulher fica mais elegante e atraente com um vestido com cota como aquele. O vestido, que era branco, indicava que a pessoa que o vestia era doce e sincera.

Atrás dele estava Cortesia, que era muito estimada por todos, pois não era nem orgulhosa nem louca. Foi ela quem me chamou para dançar quando chegara ali, e eu a agradeço por isso. Ela não era ingênua nem sombria, era prudente e discreta, sem insolência, de boas respostas e palavras agradáveis; ninguém a contrariava e com ninguém se zangava. Tinha cabelos castanhos. Era gentil, formosa e elegante – não conheço outra de aspecto mais agradável; por sua beleza era digna de ser imperatriz ou rainha. Estava acompanhada por um cavalheiro de maneira afetuosa, palavras amenas e que honrava as pessoas como devia. Eram um cavalheiro belo e de nobre presença, hábil com as armas e amado por sua dama.

Depois vinha a bela Ociosa, que se mantinha ao meu lado. Já lhes disse, sem ocultar nada, qual era seu aspecto e sua imagem: não vos contarei nada mais. Ela foi a primeira a me tratar com bondade, ao abrir a porta do jardim, e lhe sou grato.

Ao seu lado estava, se não me equivoco, Juventude, de rosto claro e alegre e que me parecia ter pouco mais de doze anos. Era um pouco simples, não pensava em nenhum mal, nem em perfídia alguma, pelo contrário, estava alegre e contente, pois a jovem não se preocupava em nada mais do que brincar, como bem sabeis. Seu amigo era tão íntimo que a beijava sempre que quisesse na frente de todos que estavam dançando. Ainda que alguém lhes houvesse dito duas palavras, não teriam se envergonhado, pois estavam se beijando como dois pombos. O rapaz era jovem e belo, devia ter a mesma idade que sua amiga e sentia a mesma coisa que ela.

Assim bailavam aquelas pessoas, acompanhadas por outras de sua corte. Todas eram nobres, educadas e de bom comportamento. Depois de ver a aparência dos que dirigiam as danças, eu comecei a sentir um desejo de contemplar e percorrer o jardim e detive meu olhar nos formosos loureiros [43], pinheiros [44], aveleiras [45] e nogueiras [46].

O baile estava acabando, pois a maioria se retirava com suas amigas para a sombra das árvores a fim de cortejá-las. Deus, que boa vida levam! Louco é quem não sente inveja! Aquele que pudesse se permitir uma vida semelhante suportaria com gosto a falta de outros bens menores, pois não há paraíso maior que estar à vontade com sua amiga.

- Fim do Arquivo 1 -

Notas

[1] Essa primeira parte do Roman de la Rose é um poema de 3.975 versos escritos por volta de 1225. Nossa tradução em prosa foi feita a partir da excelente edição GUILLAUME DE LORRIS, JEAN DE MEUNG. El Libro de la Rosa (introd. de Carlos Alvar, trad. de Carlos Alvar y Julián Muela, lectura iconográfica de Alfred Serrano i Donet). Barcelona: Ediciones Siruela, 2003.

[2] Macróbio, Ambrósio Teodósio (c. 400) – Juntamente com Caio Mário Vitorino, foi um dos chamados “cristãos neoplatônicos”. Macróbio exerceu considerável influência na Idade Média pela transmissão e elaboração de uma parte da tradição filosófica grega. A ele se deve uma compilação chamada Saturnalia (Saturnaliorum libri VII) e um comentário intitulado In Somnium Scipionis do célebre Sonho de Cipião, de Cícero. Nesse comentário, Macróbio tomou como base a visão do cosmos e a doutrina da imortalidade da alma apresentada por Cícero para elaborar idéias procedentes de Platão, Plotino e Porfírio.

A tríade neoplatônica – o Uno, a Inteligência e a Alma do mundo – foi apresentada por Macróbio na seguinte forma: o Bem, a Inteligência e a Alma. O Bem é o princípio e a fonte da Inteligência; esta, o princípio e fonte da Alma. A Inteligência contém as idéias e os nomes; a Alma as almas individuais. Em um sentido semelhante às religiões de mistérios e aos Oráculos caldeus, Macróbio também concebeu as almas individuais como espíritos caídos das esferas superiores para a matéria, e que ao passarem pelas esferas adquiriram suas faculdades, desde a razão até o impulso da nutrição. Estes espíritos estão ligados em sua parte superior às esferas celestes, que constituem sua pátria e para a qual ascendem após terem sido liberadas da prisão do corpo – FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia.

[3] Recorde-se sempre que o texto original foi escrito em versos rimados.

[4] A Rosa simboliza o dom do amor e sua pureza. “A rosa tornou-se um símbolo do amor e mais ainda do dom do amor, do amor puro (...) a do Romance da Rosa, de Guillaume de Lorris e Jean de Meung transformaram no misterioso tabernáculo do Jardim de Amor da Cavalaria, rosa mística das litanias da Virgem, rosas de ouro que os papas oferecerão às princesas dignas, enfim a imensa flor simbólica que Beatriz mostra a seu fiel amante, quando este chega ao último círculo do Paraíso, rosa e rosácea ao mesmo tempo.” – CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1995, p. 789.

[5] Sebe (do latim sepe), cerca de arbustos, ramos, estacas ou ripas entrelaçadas, para vedar os terrenos.

[6] O rouxinol é um pássaro de cor marrom quase vermelha, tímido e muito apreciado por seu canto. “Ambrósio, em seu Hexaemeron, já deduzia seu nome latino luscinia de lucinia, que significa ‘a luz do dia’ (...) Os bestiários não aludem às origens mitológicas do rouxinol, constando do outro apelido latino, philomela, que em grego significa “amiga da música”: tratava-se de uma princesa grega, exímia cantora metamorfoseada em ave cantora. Conforme Plínio, os rouxinóis às vezes desafiam um ao outro para produzir o canto mais bonito: aquele que perde, vendo-se desonrado, cai morto do galho.” – VAN WOENSEL, Maurice. Simbolismo animal na Idade Média: os bestiários: um safári literário à procura de animais fabulosos. João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB, 2001, p. 216.

Para os poetas, o rouxinol é o pássaro símbolo do amor e dos sentimentos, mas apresenta um íntimo laço entre o amor e a morte. Um bom exemplo se encontra na cena 5 do 3º ato da obra de William Shakespeare, Romeu e Julieta, em que os amantes na noite que finda ouvem o canto de um pássaro que, caso seja a cotovia, anuncia a separação deles e que continuarão vivos; porém, se for o canto do rouxinol, eles ficarão juntos e morrerão por esse amor. Ver CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos, op. cit., p. 791. Para nós, brasileiros, é importante ressaltar a bela canção de Gilberto Gil (letra de Jorge Mautner), "O Rouxinol" (de 1974): "Joguei no céu o meu anzol / Pra pescar o Sol / Mas tudo que eu pesquei / Foi um rouxinol / Foi um rouxinol / Levei-o para casa / Tratei da sua asa / Ele ficou bom / Fez até um som / Ling, ling, leng / Ling, ling, leng ling / Cantando um rock com um toque diferente / Dizendo que era um rock do Oriente pra mim / Depois foi embora / Na boca da aurora / Pássaro de seda / Com cheiro de jasmim / Cheiro de jasmim." In: Gilberto Gil. Todas as letras. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 151. O Pássaro de seda com cheiro de jasmim é, mesmo que sem que os compositores o soubessem, uma alusão, uma reminiscência da idéia medieval que associava o rouxinol ao mundo onírico do amor cortês.

[7] A calhandra (do grego kalandra, pelo latim calandra) pássaro de costas escuras com manchas claras, ventre quase branco, resto do corpo cinza e bico grande e grosso, é uma espécie de cotovia, de sabiá do campo.

[8] “...sonhei que me encontrava”, no sentido de ver ou descobrir algo que já se buscava.

[9] O alho-poró é uma planta parecida com a cebola, que tem talo cilíndrico, flores rosadas e uma parte das folhas comestíveis. Em sentido figurado, representa uma pessoa torpe, tonta, um pateta.

[10] A cota a que o texto se refere era uma vestimenta que os cavaleiros usavam e que cobria o peito e o abdome. Podia ser feita de placas de metal ou de pequenas argolas metálicas entrelaçadas.

[11] A icterícia é uma síndrome caracterizada pelo excesso de bilirrubina no sangue e pela deposição do pigmento biliar na pele e nas membranas mucosas, o que resulta na coloração amarela apresentada pelo paciente.

[12] ANDRÉ CAPELÃO. Tratado do Amor Cortês. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

[13] OVÍDIO. A arte de amar. Porto Alegre: L&PM, 2001.

[14] Carpelo – folha transformada que entra na constituição do gineceu (habitação destinada às mulheres).

[15] Velocino – Pele de carneiro, ovelha ou cordeiro, com lã. Aqui certamente há uma referência ao mitológico Velocino de Ouro de Jasão e os Argonautas, carneiro da mitologia grega.

[16] A guirlanda (ornamento de flores) decorando os cabelos era um sinal indicativo da nobreza da donzela que o utilizava.

[17] Gand (ou Gent, Ghent) era uma importante cidade comercial na Idade Média, atualmente na Bélgica. Portanto, a passagem sugere que o tecido da dama era muito fino.

[18] “Árvores da terra de Alexandria” – A planificação da cidade de Alexandria, segundo a tradição, é atribuída ao arquiteto Dinócrates de Rodes (322 a.C.) que, no tempo de Alexandre Magno, projetou a reconstrução do Artemísio de Éfeso. Sua artéria principal, a Canópica, era rodeada por árvores. Assim, Guilherme de Lorris busca na tradição antiga uma referência para as bases fundacionais do Jardim de Lazer, associando o prazer e o deleite de estar no espaço do amor à tradição cultural da Antigüidade.

[19] Melros – Designação comum às aves passeriformes da família dos turdídeos, especialmente o Turdus merula L., cujo macho é preto, com bico amarelo-alaranjado, e cuja fêmea tem dorso preto, ventre pardo-escuro malhado de pardo-claro, e a garganta e a parte superior do peito pardas com malhas esbranquiçadas.

[20] Gaio – Trata-se do Jay Europeu (Garrulus glandarius), pássaro da ordem das Passeriformes, também chamado no Brasil de Pega-azul. Abundante na Europa, habita nos bosques espessos e se alimenta principalmente de frutos de diversas árvores.

[21] Estorninho – Pequeno pássaro conirrostro (Sturnus vulgaris), de plumagem negra, lustrosa, malhado de branco com reflexos verdes e purpúreos.

[22] Estrelinha-de-poupa (Regulus regulus) – Pássaro comum na Europa, de nove a dez centímetros de comprimento, com asas curtas e arredondadas e plumagem vistosa pela variedade de suas cores.

[23] Pintassilgo (Spimus magellanicus ictericus) – Ave passeriforme, fringilídea, de dorso oliváceo, cabeça, garganta, asas e cauda pretas, espelho, base da cauda e lado inferior amarelos.

[24] Chapim (Parus) – Tipo de canário-da-terra, ave que canta regularmente.

[25] Tordo europeu (Turdus philomelos) – Pássaro da família dos turdídeos semelhante ao sabiá.

[26] Repare que o autor selecionou propositalmente pássaros que possuem cantos muito melodiosos, envolvendo o locus amoenus com uma bela e harmoniosa música natural criada por Deus. Os medievais tinham especial predileção pela idéia que o universo emitia notas musicais, especialmente o movimento das estrelas. Em sua obra De Imagine mundi (séc. XII), o escritor Honório de Autun (provavelmente um monge que viveu nas proximidades de Regensburg) escreveu que “a revolução das sete esferas dá origem a sons maviosíssimos, cuja harmoniosa consonância produz a mais admirável das melodias. Contudo, esta harmonia das esferas não chega aos nossos ouvidos, por originar-se para além do ar, que é o único meio em que nós percebemos os sons. Ademais, ela é demasiado forte para ser perceptível ao ouvido humano.” Citado em BOEHNER, Philotheus e GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. Petrópolis: Editora Vozes, 2000, p. 278. Por esse motivo, Guilherme de Lorris incorpora uma verdadeira revoada melódica de pássaros para dar um toque ainda mais poético ao ambiente harmonioso e amoroso do locus amoenus.

[27] Os Lais eram contos em versos octossilábicos do século XII. Ver Lais de Maria de França (trad. e introd. de Antonio L. Furtado). Petrópolis: Vozes, 2001.

[28] Ritornelo – No francês antigo rotouange, correspondente ao francês moderno ritournelle (e em espanhol estribillo), o ritornelo era uma composição em verso para ser cantada com um estribilho que se repetia depois de cada estrofe. Agradecemos à eterna amabilidade do Prof. Dr. Fernando Domínguez Reboiras, que sempre interrompe seu trabalho no Raimundus-Lullus-Institut (Freiburg im Breisgau, Alemanha) para responder às minhas eternas dúvidas sobre os temas e a linguagem dos homens do passado.

[29] A amiga a que o texto se refere significa a amante de Lazer, isto é, a Alegria.

[30] Giesta (Genista tinctoria) – subarbusto de até 1,5 metros de altura, muito ramoso, dotado de folhas unifolioladas, oblongas, ciliadas, vernicosa e glabras, ou pouco pubescentes, e flores amarelas.

[31] Oriolídeios – Família de aves passeriformes do Velho Mundo, caracterizadas pela cor brilhante, amarelo-preta, dos machos.

[32] Chapim-realParus major.

[33] Arcos turcos – Provavelmente oriundo do arco assírio, o arco turco era um arco composto, mais vergado e feito com diferentes materiais, tudo isso com a finalidade de dar maior potência à flecha. Por isso, eles eram superiores ao arco inglês, já muito potente (ambos foram utilizados nas cruzadas). No entanto, curiosamente o iluminista do manuscrito 387 do Roman de la Rose da Universidad de Valencia parece não ter conhecido o arco turco, pois na imagem 10 ele retrata o Deus do Amor com um arco inglês (ver figura 10)!

[34] Normalmente nos textos medievais a pintura feminina é associada à prostituição, especialmente nas pregações dos moralistas (o que, de fato, destaca ainda mais o fato de as mulheres medievais se pintarem, contrariando o discurso eclesiástico). Neste caso, Guilherme de Lorris literalmente subverte o sentido tradicional, pois destaca que Beleza não se pintava porque era naturalmente bela, o que ressalta ainda mais o caráter profano do texto e sua relação com a natureza, nova descoberta dos medievais dos séculos XII-XIII. Para o primeiro caso (da pintura e da prostituição feminina), ver MACEDO, José Rivair. “A face das filhas de Eva: os cuidados com a aparência num manual de beleza do século XIII”, In: História. São Paulo: Unesp, 17/18, 1998/1999, p. 293-313.

[35] Passamanaria – Designação comum a certos tipos de tecido trabalhado ou entrançado com um fio grosso, em geral de seda (passamanes, galões, franjas, borlas, etc.), e destinado ao acabamento ou adorno de roupas. Havia ainda um ofício de costureiro específico para esse tipo de trabalho: o passamaneiro (e sua loja, também chamada de passamanaria).

[36] Besante – Antiga moeda bizantina de ouro e prata.

[37] “...mais de duas onças de esmeraldas” – A onça era uma unidade de peso, equivalente a cerca de 28,691 g; entre os romanos, equivalia à décima-segunda parte da libra.

[38] Rocinante – cavalo muito manso e obediente.

[39] Nessa passagem Guilherme se refere a Alexandre, o Grande.

[40] Artur, rei lendário da Bretanha que aparece num círculo de romances medievais como o soberano dos cavaleiros da Távola Redonda. É mencionado na Historia Regum Britanniae de Geoffrey de Monmouth (1136-1138), obra posteriormente ampliada por Chrétien de Troyes (c. 1135-1138).

[41] O louvor à bravura demonstrada pelo cavaleiro nos torneios mostra uma vez mais o explícito caráter laico do texto, pois os clérigos medievais sempre se opunham a essas competições. Ver LE GOFF, Jacques. "Realidades sociais e códigos ideológicos no início do século XIII: um exemplum de Jacques de Vitry sobre os torneios". In: LE GOFF, Jacques. O imaginário medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1994, p. 267-279.

[42] Como na nota 17, o texto indica outra importante cidade na Idade Média, Arras, localizada atualmente na região de Norte-pas-de-Calais, no norte da França, entre Lille e Amiens. Na Idade Média, além de ser um conhecido centro literário, Arras era conhecida por ser um importante centro comercial e financeiro. O século XIII é conhecido como o século de ouro de Arras. A cidade também era famosa pela qualidade de seus tecidos (a tapeçaria em Arras era muito estimada). Por esse motivo, na passagem do Romance da Rosa, o vestido da Franqueza era tão rico como os de Arras (ver seu site oficial).

[43] Os loureiros representam a imortalidade, pois simbolizam todas as plantas que permanecem verdes durante o inverno. Ver CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos, op. cit., p. 561.

[44] O pinheiro, assim como o loureiro, também representa a imortalidade. Era dedicado a Cibele, deusa da fecundidade. Em Roma, no culto a essa deusa, um pinheiro era abatido e transportado para o templo do Palatino pela confraria dos dendróforos (carregadores de árvores). Esse pinheiro simbolizava Átis morto – esposo de Cibele. O pinheiro, dessa forma, representava a alternância das estações. CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos, op. cit., p. 719.

[45] As aveleiras têm uma importante simbologia entre germânicos e nórdicos. Iduna, deusa da vida e da fertilidade é libertada por Loki, transformado em falcão, que a leva sob a forma de uma avelã. Num conto da Islândia, uma duquesa passeia por um bosque de aveleiras para consultar os deuses que a tornam fecunda. Pouco a pouco essa árvore se torna símbolo da incontinência e da luxuria e, por fim, do diabo. CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos, op. cit., p. 103.

[46] As nogueiras entre os gregos eram associadas ao dom da profecia. Um culto era prestado a Ártemis Cariátide, que foi amada por Dionísio, dotada de clarividência e transformada em uma nogueira de frutos fecundos. CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos, op. cit., p. 639.