Codex Manesse: três iluminuras do Grande Livro de Canções manuscritas de Heidelberg (século XIII)

Análise iconográfica. Terceira parte

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Conde Heinrich von Anhalt

Provavelmente o cantor desta iluminura é Henrique I, conde de Alsácia e príncipe de Anhalt (c.1170-1252). Assim, o manuscrito titula-o erradamente como duque. Com Henrique I começou a história de Anhalt como principado independente. Henrique era sobrinho de Henrique III de Meißen. Suas 2 trovas mostram vestígios do baixo dialeto alemão, embora o conde tivesse se esforçado para redigir em alto alemão, a “língua oficial” de então.

Frenqüentemente o iluminista serve-se de 2 tipos diferentes de quadros para representar uma cena de batalha com o trovador como protagonista. Por esse motivo, o elmo e o escudo de armas do trovador não estão representados acima da cena, como vemos normalmente. Eles são colocados na armadura. A parte superior do quadro fica então livre.

O iluminista desenha linhas vermelhas e azuis na moldura, que é decorada com losangos dourados. No meio do quadro, duas linhas douradas, colocadas abaixo das muralhas do castelo. Elas dividem a iluminura em duas cenas, propiciando um jogo visual com uma relação de subordinação: a parte superior da cena serve como espaço coadjuvante para a parte inferior, onde se encontra o protagonista, no centro, que é o trovador-guerreiro. As duas linhas douradas também caracterizam o espaço pertencente ao castelo, que, na cena, é posto como uma espécie de tribuna, onde as damas apreciam a batalha.

Por detrás das muralhas do castelo, o iluminista colocou quatro mulheres: elas atuam como espectadoras da cena principal e guardam uma relação bastante amistosa com o que ocorre abaixo, no plano inferior do quadro. O traço prateado que divide a cena em 2 quadros desempenha igualmente duas funções. A partir dele, o iluminista pode utilizar figuras com tamanhos diferentes, e que não devem ser interpretadas separadamente. O espectador da cena os têm como sinal indicativo da posição social dos personagens.

A reação das mulheres reflete, ao mesmo tempo, o acontecimento na cena abaixo e, através de suas bonitas e coloridas manifestações gestuais, expressa a idéia da guerra como ofício trovadoresco. Repare a gesticulação das damas com as mãos: como já vimos, uma mão aberta e outra com o dedo indicativo são gestos que mostram um diálogo em forma de ensinamento. Assim, todas as damas conversam animadamente a respeito da batalha.

Na segunda cena, abaixo, a iluminura mostra 3 pares de cavaleiros com escudos de armas em suas roupas durante um Buhurt – jogo de guerra praticado durante o intervalo das campanhas militares. Nele, grupos de cavaleiros lutam entre si, para manter a forma e também exercitar os reflexos. O quadro mostra a luta decisiva, travada às portas do castelo, e que levará à vitória neste simulacro de batalha.

O duque, localizado no meio do quadro, e seus dois companheiros de luta, seguram debaixo de seus braços esquerdos as cabeças de seus respectivos inimigos e pegam suas espadas para o golpe, o que mostra a extrema violência destes exercícios cavaleirescos –daí a crítica da Igreja para com os torneios (LE GOFF, 1994: 267-282). Dois capacetes dos vencidos já encontram-se no chão. Os trajes do duque repetem-se, com pequenas variações, em seus dois companheiros de luta, à esquerda e à direita.

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Duque Johann von Brabant.

O cantor desta iluminura de batalha, no centro, com o cavalo vermelho, é Johann von Brabant (1252-1294). Ele é um dos mais importantes príncipes de seu tempo. Através da vitória na batalha de Worringen (1288), o duque Johann pôde anexar Luxemburgo ao Brabante. O duque ficou famoso por seu fino comportamento em sua corte. No século XIII, a glória do príncipe já não derivava somente de sua bravura em combate. Era igualmente importante que sua corte tivesse brilho, que fosse rodeada de poetas. Ele também deveria ser o responsável pela educação dos que o rodeavam (DUBY, 2001: 117).

Poeta e guerreiro como os príncipes de seu tempo, Johann von Brabant morreu em 1294, devido a um ferimento de guerra. Ele é o único trovador que redigiu suas canções em outra língua, o holandês. Elas foram traduzidas para o alto alemão, mas mesmo assim reconhece-se certas expressões do dialeto alemão holandês. Na sequência original do Codex, seguem-se aos imperadores e aos reis os duques de Anhalt e de Brabant. Para ambos, foram escolhidas cenas de guerra: no caso do Brabant, a cena de guerra é de vida ou morte, talvez a decisão na própria batalha de Worringen.

O duque, no centro da cena com um elmo dourado em forma de dragão, ataca de assalto dois inimigos. Ele lidera um grupo de três homens armados com escudo, espada e capacete. Eles são representados do lado direito da moldura do quadro, atravessando uma linha imaginária que divide o quadro ao meio, na perseguição a 2 inimigos que subitamente viram-se contra seus adversários durante a fuga; o de trás está com a espada erguida para o alto. A seu encontro vem o duque. Ele atingiu o capacete do adversário de tal maneira que o sangue espirrou. O companheiro de luta que está ao seu lado não pôde impedir isso. Os animais fantásticos que adornam os elmos do duque e de um de seus cavaleiros (um dragão dourado voador cuspindo fogo e a cabeça de um lobo verde no carregador da bandeira) além das espadas sendo brandidas ao alto aumentam ainda mais o efeito teatral da iluminura como um ataque cavaleiresco ousado e arrojado.

Para suas cenas de guerra e campanhas militares o iluminista baseou-se no estilo artístico das iluminuras de seu tempo. A forma inclinada à esquerda dos cavaleiros dessa cena é um exemplo do estilo vigente para uma iluminura que retratava uma cena de batalha. Além disso, a disposição das espadas, que saltam para fora do quadro, deixa claro que a moldura só foi pintada depois do quadro. No primeiro e quarto quadrado da bandeira, numa superfície dourada, são mostrados o leão vermelho de Limburgo, e no segundo e terceiro quadrado (superfície preta), o leão dourado de Brabant. Os motivos da bandeira repetem-se sobre a manta do cavalo do duque e sobre seu escudo.

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Conde Rudolf von Neuenburg.

O conde Rodolfo de Neuenburg é o primeiro cantor originário da cidade na qual o Codex Manesse foi ordenado, a Suíça. A polêmica a respeito dessa iluminura é se o trovador em questão é Rodolfo II de Neuenburg (1158-1192) ou seu sobrinho, Rodolfo I (1201-1258), o fundador da dinastia Nidau. Qualquer que seja o Rodolfo retratado, suas canções, em boa parte cópias de canções de trovadores provincianos, têm como tema central a dama graciosa inatingível. A miniatura certamente quis estimular a atmosfera triste e o retorno dos pensamentos do poeta ao mundo natural. Nela encontra-se pela primeira vez a representação do poeta-trovador, sentado sozinho, meditativo, uma cena típica utilizada desde a Antigüidade para retratar o poeta-escritor.

A composição do quadro possui semelhanças com as iluminuras de Heinrich von Veldecke e Walther von der Vogelweide. Todos estes três trovadores são representados com um rolo de manuscrito, atributo de seus ofícios de poetas, e seus brasões relembram suas condições cavaleirescas. Através de cautelosas variações da postura do corpo, o gesto das mãos, os braços, e, especialmente, a ordenação dos atributos - conforme sua posição na hierarquia cavaleiresca - o iluminista alcança outra acentuação artística no conteúdo do quadro.

Rodolfo está vestido de verde e vermelho, num trono, colocado em cima de uma espécie de pedestal. A postura do trovador expressa tranqüilidade e um espírito pensativo. Ele apóia o braço esquerdo no joelho, elevado pelo degrau do pedestal. De sua mão, “salta” um imenso rolo de manuscrito, que ordena-o em sua posição de poeta. A cabeça inclinada indica um momento de introspecção, realçado pela mão direita do poeta, com os dois dedos unidos, e o olhar sonhador, demonstrado pelas grandes pupilas, que reforçam a expressão de um espírito contemplativo.

Como demonstração desse mundo interior no qual o poeta está mergulhado, o iluminista espalhou rosas vermelhas no fundo do pergaminho, como se fosse um tapete imaginário envolvendo-o e a seu escudo de armas. Elas são as folhas de sua postura encantadora e, ao mesmo tempo, o símbolo de sua canção de amor. Por esse motivo, a roseira sai de seu corpo: ela indica esse momento de meditação e contemplação. O poeta pensa em sua amada para escrever sua trova e, nessa imaginação, as rosas brotam de sua mente. Para realçar o espírito poético do trovador, o iluminista renunciou à ordem cavaleiresca do conde, abandonando os atributos da espada e do capacete em troca dessa decoração com as rosas. Apenas o escudo de armas acima do conde explica a qual ordem ele pertence. Em ouro, duas estacas vermelhas, cada uma com três caibros brancos.

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Fonte

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