A falsidade dos judeus é grande

Uma representação de judeus nas Cantigas de Santa Maria (séc. XIII)

Ricardo da COSTA
Bárbara DANTAS
Trabalho apresentado no X EIEM
Sessão de Comunicações livres 6:
História e historiografia: métodos e fontes para o estudo da sociedade medieval,
no dia 05 de julho de 2013, às 8h.

In: Atas do X Encontro Internacional de Estudos Medievais (EIEM) da
Associação Brasileira de Estudos Medievais (ABREM) – Diálogos Ibero-americanos
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Brasília: ABREM/PEM-UnB, 2013, p. 507-514
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Resumo: O objetivo do presente trabalho é analisar a iluminura da cantiga 25 das Cantigas de Santa Maria, que narra um milagre da Virgem em um empréstimo de um judeu a um cristão e a consequente e milagrosa conversão do judeu. Para isso, fizemos uma breve contextualização das relações entre judeus e cristãos na Península Ibérica Medieval, analisamos o tema no registro textual relativo à cantiga supracitada e, por fim, descrevemos sua iluminura correspondente.

Palavras-chave: Cantigas de Santa Maria − Iluminura − Judeu − Milagre.

Abstract: The objective of this study is to analyze the enluminure of song 25 of Cantigas de Santa Maria, which is narrated a miracle of the Virgin on a loan of money from a Jew to a Christian and the consequent miracle of Jew conversion. For this, we made a brief background of the relations between Jews and Christians in Medieval Iberia, we analyze the issue in textual record on the aforementioned song to, then describe its enluminure.

Keywords: Canticles of Holy Mary − Enluminure − Jew − Miracle.

I. A Reconquista (séc. VIII-XV) e os reinos de Castela e Leão (séc. XIII)

A Espanha do séc. XIII foi um espaço físico construído, fruto de um longo período de guerra entre cristãos e muçulmanos, estes, instalados na Península Ibérica a partir do séc. VIII. Dentre os reis cristãos que estiveram à frente destas lutas, alguns se destacaram, como o visigodo Pelágio (718-737) e Afonso VI (1039-1109). Após a batalha de Las Navas de Tolosa (1212), o rei Afonso VIII (1155-1214), à frente de um exército coligado (Aragão, Castela e Portugal), derrotou os mouros  (COSTA, 2004). No séc. XIII, a longa guerra da Reconquista (VIII-XV) iniciou um período propício para os cristãos (RUCQUOI, 1995). Assim, o monarca que aqui nos interessa, Afonso X (1221-1284), herdou os reinos de Castela e Leão com notáveis ampliações em seus limites territoriais.1

II. Afonso X, o Sábio

Afonso X manteve estreitas relações com as monarquias de seu tempo. Era neto de Frederico II (1194-1250), imperador do Sacro Império Romano, cunhado de Eduardo I (1239-1307) da Inglaterra, genro de Jaime I (1208-1276) de Aragão e primo de Luís IX de França (1214-1270). Além dessa rede de parentesco com os principais monarcas de seu tempo, Afonso era filho de uma das maiores figuras da Reconquista, Fernando III, o Santo (1201-1252), rei de Castela e Leão e conquistador dos reinos mouros da Andaluzia e Múrcia (CALLAGHAN, 1999: 21).

Destacou-se por sua produção intelectual. A quantidade e qualidade das produções diretamente coordenadas por ele superam a de outros monarcas de seu tempo. Em sua corte, Afonso esteve rodeado de sábios das mais diversas áreas do conhecimento de então. Além de ser um reconhecido intelectual e poeta, foi mecenas de importantes obras literárias, jurídicas, históricas e científicas (CALLAGHAN, 1999; 21).

III. As três religiões, os judeus e as Cantigas de Santa Maria

Com o avanço da Reconquista Cristã, as populações de judeus e muçulmanos em território cristão aumentaram consideravelmente. Fernando III legou a seu filho e sucessor no trono um reino no qual, apesar das batalhas do processo de Reconquista, a relação entre as três religiões (Cristianismo, Judaísmo e Islamismo) era, de modo geral, pacífica (MENOCAL, 2004). Nos domínios dos reinos de Castela e Leão, dos mais antigos aos recém tomados dos muçulmanos, os governantes cristãos protegeram e toleraram as comunidades judaicas e muçulmanas.

No entanto, integrar minorias religiosas àquela sociedade era algo complexo, especialmente devido às grandes diferenças entre as mesmas. A maior parte das comunidades judias vivia em Toledo, Sevilha, Burgos e Cuenca, em bairros urbanos chamados de Juderías e tinham governo próprio presidido por um viejo mayor (CALLAGHAN, 1999: 140). Os judeus, numericamente reduzidos, eram  muito importantes, pois embora nunca tenham tido força política ou jurídica, representavam  apoio econômico para as monarquias (COSTA, 2008).

Os serviços de judeus foram também utilizados na Medicina, em traduções de textos gregos e árabes e na compilação de códices. O mais importante destes códices foi o das Cantigas de Santa Maria, série de 420 canções realizadas com autoria/supervisão de Afonso X. Trata-se de um importante registro da língua galego-portuguesa da Baixa Idade Média. São relatos de milagres e louvores à Virgem Maria através de registros literários, notações musicais, bem como de uma rica série de iluminuras de página inteira e de letras capitulares.2

IV. Iluminuras

Uma iluminura é um tipo de fonte iconográfica (do latim illustrare = iluminar) desenhada e/ou pintada em livros por artesãos chamados de iluminadores (do latim illuminator) elas foram produzidas a partir da época paleocristã (c. séc. V). Livros profanos e religiosos foram iluminados na Idade Média, no entanto, estas obras eram associadas basicamente a cópias da Bíblia ou a livros que faziam menção a ela (Saltérios, Comentários, etc.), pois a religião cristã advém de Cristo e as Sagradas Escrituras são sua fonte primeira (WOLF, 2005: 11,15).

Por volta do séc. VIII, os livros produzidos ainda continham poucas dezenas de iluminuras. No séc. XI atingiram várias centenas, e seu auge deu-se no séc. XIII, quando milhares de figurações iconográficas poderiam constar em um único livro (BASCHET, 2006: 490). No decorrer da Idade Média, as iluminuras de livros religiosos se tornaram tão importantes quanto os textos sagrados aos quais se referiam (WOLF, 2005: 15; 15). Gradativamente, as iluminuras se tornaram mais ricas, tanto no material utilizado quanto nas técnicas (ouro e metais preciosos), além de existir uma crescente preocupação em aperfeiçoar forma e estilo.

Através da associação imagem-texto, na qual um cooperava com o outro como elo de ligação entre o terrestre e o celeste, a cultura visual na Idade Média Ocidental tornou as iluminuras uma importante expressão artística, em que pese o restrito público que podia usufruir plenamente delas: monástico, clerical ou nobre.

No séc. XIII, as iluminuras atingiram - por vezes, superaram – o espaço nos códices em comparação com os registros textuais (BASCHET, 2006: 490). Nas Cantigas de Santa Maria (1281-1284), cada página de texto ou notação musical é acompanhada de uma iluminura de página inteira dividida em seis quadros que representam em imagens o registro textual (WOLF, 2005: 188). Acrescente-se a isso as muitas letras capitulares, os fólios com registros textuais junto com os iconográficos, além das notações musicais e as pequenas imagens que as ilustram.

V. Análise temática

Boa parte das Cantigas apresenta representações imaginárias da sociedade, da cultura e de acontecimentos históricos da Península Ibérica medieval  (LEÃO, 2007: 27).

As relações entre cristãos e judeus também foram um motivo temático recorrente nos relatos de milagres das Cantigas de Santa Maria (METTMAN, 1989). Eram fundamentadas por códigos de leis (laicos e religiosos), e especificamente pelo que instituiu o IV Concílio de Latrão de 1215.3 Elas eram fundamentadas por códigos de leis (tanto laicos quanto religiosos), como o Direito Canônico e Romano (instituído a partir do IV Concílio de Latrão, em 1215). El Fuero Real e Las Siete Partidas também trataram com rigor estas questões (CALLAGHAN, 1999: 138). Essas leis abrangiam vários assuntos que envolviam judeus e muçulmanos, como percebemos nessa passagem abaixo da cantiga 25:

Enton diss' a Madre de Deus,
per como eu achei escrito:
«A falssidade dos judeus
é grand'; e tu, judeu maldito,
sabes que fuste receber
teu aver, que ren non falia, fuste a arc' asconder
so teu leito con felonia.»
(METTMAN, 1989: 122)

Objeto desse trabalho, o texto da cantiga 25 é o relato do empréstimo de um judeu a um cristão. Tanto a nobreza, quanto o campesinato cristão estavam na época cada vez mais endividados com os judeus. Isso gerou uma crescente tensão, apesar das iniciativas da nobreza e do clero da Igreja Católica para impedir divergências e violências sociais (COSTA, 2008).

A estória narrada na cantiga 25 é a seguinte: um cristão gastou todas as suas economias em boas ações. Por isso, rogou a várias pessoas que lhe concedessem um empréstimo, sem sucesso. Foi então que recorreu a um judeu, que concordou em emprestar-lhe uma soma, mas com uma garantia. O cristão ofereceu Cristo e a Virgem como Seus fiadores, e o judeu aceitou. Na presença de testemunhas, o cristão tocou na imagem sagrada e jurou que pagaria a dívida no prazo. Rezou à Virgem e pediu que ela intercedesse, caso ele não conseguisse pagar a dívida.

Com o passar do tempo, embora os negócios do cristão corressem bem, ele se esqueceu da promessa até a véspera do pagamento. Distante do local, o cristão encheu um baú com o dinheiro que devia ao judeu, jogou-o ao mar e rogou a Deus que guiasse a caixa ao seu destino. Milagrosamente o baú chegou ao porto de Bizâncio, onde servos do judeu o recolheram. O judeu pegou o baú, levou-o para casa e guardou o dinheiro. Manteve isso em segredo.

Quando o cristão conseguiu chegar e encontrar o judeu, este exigiu seu dinheiro e o ameaçou. O cristão disse que aquele dinheiro fora enviado por ele, que a Virgem o confirmaria, e propôs irem a uma igreja. Ao chegarem no recinto sagrado, o cristão suplicou à Virgem que confirmasse a história. A imagem então falou que o judeu recebeu o dinheiro no prazo estipulado. Ao presenciar esse milagre, o judeu se converteu ao Catolicismo (OXFORD, 2013).

VI. A iluminura

Quand' aquel bon ome o seu
aver ouv' assi despendudo,
non pod' achar, com' aprix eu,
d' estrãyo nen de connoçudo
quen sol ll' emprestido fazer
quisess'; e pois esto viia,
a un judeu foi sen lezer
provar se ll' alg' enprestaria.
(METTMAN, 1989: 119)

Aos mouros e judeus recaíam normas do que vestir, mas que também valiam para toda a sociedade, todos os estamentos, inclusive o rei. O vestuário era a insígnia da condição social da pessoa. Nos textos legais formulados por Afonso X e seus colaboradores, era proibido aos judeus o uso de roupas e acessórios coloridos e pedras preciosas. As judias não podiam usar vestidos de peles.

Nas iluminuras das Cantigas de Santa Maria os judeus foram representados com capas e chapéus pontiagudos, no entanto, sinais de sua condição costurados nas roupas, como foi estabelecido no IV Concílio de Latrão, não estão ali representados (CALLAGHAN, 1999: 139), o que denota uma provável concessão às normas estabelecidas juridicamente.

Imagem 2

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Cantigas de Santa Maria, rei Afonso X de Leão e Castela, séc. XIII. Biblioteca de San Lorenzo, Complexo de El Escorial, Madri – Espanha. Detalhe da cantiga 25: Como a imagen de Santa Maria falou en testimonio ontr’ o crischão e o judeu. (METTMAN, 1989, v I: 117).

Nas laterais da iluminura há duas fileiras de ornamentos florais em formato quadrilobado. Uma separa os quadros da imagem, a outra é um limite marginal da própria iluminura. Na maior parte das iluminuras de página inteira das Cantigas essa decoração das margens é largamente utilizada, com poucas variações. Na parte superior, sobre os arcos e o portal, está a representação de um ambiente urbano, sugestão do local no qual se desenrola a estória. Os arcos acima dos personagens têm o formato trilobado quebrado, pois terminam sobre um capitel decorado com ornamentos florais. Abaixo de cada um dos três capitéis estão pilares redondos, sustentados por bases formadas por toro e plinto. Símbolo da riqueza do judeu, o portal, ricamente decorado, tem duas portas e dois tipos de arcos: um trilobado e, acima, um ogival, com o centro com os tijolos assentados à mostra (TOMAN, 2000: 29-30).

Os mesmos arcos foram utilizados para separar momentos do relato: à direita, a contagem das moedas; à esquerda, a entrega do saco de dinheiro ao cristão. Há uma sincronia entre a estrutura e a disposição das figuras, para a apreensão tanto da forma quanto dos símbolos entre as partes e o todo da imagem (SCHMITT, 2006: 595).

Ensaios de perspectiva existiam em pinturas e iluminuras já no séc. XIII, devido principalmente à procura constante por novas técnicas de representação. Um exemplo disso é o formato do baú sobre o qual as moedas são separadas e contadas: perspectiva rebatida, gênese da perspectiva de profundidade e de volume da Renascença.

VII. Conclusão

A empreitada de Afonso X à frente da rica compilação de relatos de milagres e louvores à Virgem Maria é atestada tanto pela quantidade quanto pela qualidade dos registros textuais e iconográficos presentes no “códice rico” das Cantigas de Santa Maria. Os registros tratam de temas diversos e nos dão uma idéia do contexto não só dos reinos de Castela e Leão, fruto de séculos da Reconquista Ibérica, como dos principais reinos da Europa Ocidental na Idade Média, reinos estes cujos governantes tinham estreito grau de parentesco com o mecenas das Cantigas, o rei Afonso X, o Sábio.

Cada texto das Cantigas é acompanhado por uma iluminura de página inteira na qual o conteúdo textual é representado em imagens. Neste trabalho, analisamos brevemente as relações entre cristãos e judeus a partir da cantiga 25. Relação difícil, pois cheia de tensões advindas de práticas como, por exemplo, os empréstimos de dinheiro e, principalmente, das diferenças entre as duas religiões.

A análise temática da história, associada à descrição e breve análise de um dos quadros da iluminura permitiu uma abordagem na qual estes distintos objetos de estudos, texto e imagem, tornaram-se aqui sincrônicos e complementares e possibilitaram um melhor entendimento das relações − e contradições − existentes na sociedade medieval, especialmente na Península Ibérica.4

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Bibliografia

BASCHET, J. “A expansão ocidental das imagens”. In: A Civilização Feudal. São Paulo: Globo, 2006.

CANTIGAS de Santa Maria. Fotógrafos Oronoz. Imágenes del mundo em alta resolutión.

COSTA, Ricardo da. “Então os cruzados começaram a profanar em nome do pendurado”. Maio sangrento: os pogroms perpetrados em 1096 pelo conde Emich II von Leiningen (†c. 1138) contra os judeus renanos, segundo as Crônicas Hebraicas e cristãs. In: LAUAND, Jean (org.). Filosofia e Educação – Estudos 8. Edição Especial VIII Seminário Internacional CEMOrOc: Filosofia e Educação. São Paulo: Editora SEMOrOc (Centro de Estudos Medievais Oriente & Ocidente da Faculdade de Educação da USP), Factash Editora, 2008, p. 35-62.

COSTA, Ricardo da. “Amor e Crime, Castigo e Redenção na Glória da Cruzada de Reconquista: Afonso VIII de Castela nas batalhas de Alarcos (1195) e Las Navas de Tolosa (1212)”. In: OLIVEIRA, Marco A. M. de (org.). Guerras e Imigrações. Campo Grande: Editora da UFMS, 2004, p. 73-94.

DICIONÁRIO Latim-português/português-latim. Porto: Porto Editora, 2010.

KLEIN, B.: TOMAN, R. et al. O Românico: arquitetura, escultura e pintura. Colônia: Könemann, 2000.

LEÃO, A. V. As Cantigas de Santa Maria de Afonso X, O Sábio: Aspectos culturais e literários. São Paulo: Linear B, 2007.

MENOCAL, María Rosa. O Ornamento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2004.

METTMANN, W. Cantigas de Santa Maria. Vol. I, II, III e IV. Madri: Castalia, 1989.

O’CALLAGHAN, J F. El Rey Sabio. El reinado de Alfonso X de Castilla. Sevilla: Universidad de Sevilla, 1999.

RUCQUOI, Adeline. Historia Medieval da Península Ibérica. Editorial Estampa, Lisboa, 1995.

SCHMITT, J. C. “Imagens”. In: Dicionário temático do ocidente medieval. Bauru: Edusc, 2006.

The Oxford Cantigas de Santa Maria Data Base.

WALTHER, I; WOLF, N. “Introdução”. In: Obras maestras de la iluminación: Los manuscritos más bellos del mundo desde el año 400 hasta 1600. Madri: Taschen, 2005.

Notas

  • 1. Observamos que a exiguidade do texto se deve às exigências dos organizadores do X EIEM, que restringiram os trabalhos a apenas oito páginas.
  • 2. Existe um fac-símile completo do “códice T” das Cantigas na biblioteca de estudos literários da PUC-Minas. Seu original encontra-se na Biblioteca de El Escorial, Madrid – Espanha (LEÃO, 2007: 21).
  • 3. Segundo Bagby (1971) as cantigas 25, 27, 51, 85 e 312 são relatos de judeus prestamistas. The Oxford Cantigas de Santa Maria Database. Acesso em 15 fev 2013.
  • 4. Agradecemos aos amigos Rodolpho Loreto e Armando Alexandre dos Santos pelas críticas, sugestões e correções de nosso texto.

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