A Idade da Fé, Opus maius da peregrinação histórica durantiana

Ricardo da COSTA

In: DURANT, Will. A História da Civilização IV. A Idade da Fé.
Campinas, São Paulo: Kírion, 2026, pp. __-__
(ISBN 9-786551-451843).

Will Durant (1885-1981) e sua esposa Ariel (Chaya Kaufman, 1898-1981) marcaram profundamente a minha formação intelectual. Encontrei-os no início da década de oitenta do século XX, quando ingressei em minha graduação em História na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Foi paixão à primeira vista, como diziam.

Isso porque eles eram donos de uma narrativa envolvente, ampla, total, ao mesmo tempo descritiva e analítica, com espaço suficiente para o hálito vital da Humanidade, elã que eu não encontrava na árida bibliografia indicada por meus professores universitários de então.

Após dois anos de estudo, infelizmente abandonei a faculdade para me dedicar à Música. Retornei após dez anos à História, dessa vez para sempre, mas nunca abandonei os Durant, pelo contrário, livre das imposições acadêmicas, li toda a sua enorme obra, a História da Civilização. E mais de uma vez.

Foi um encontro para a vida. E sempre volto a relê-la, o que faz com que a considere um clássico histórico – pois clássicas são as obras que, ávidos, sempre retornamos, e com o renovado olhar da maturidade e da senectude.1

Embora não seja obrigatoriamente necessário conhecer um bom autor para apreciar sua obra – ideal olímpico poucas vezes atingido pelos historiadores – sou obrigado, por dever de ofício, a destacar alguns interessantíssimos aspectos de sua formação e de seu perfil intelectual. Nascido em Massachussetts, de família católica franco-canadense, William James Durant estava direcionado para o sacerdócio. Entrou para o Seminário, mas desiludiu-se com o Catolicismo institucional. Flertou com o Socialismo, o Anarquismo, apaixonou-se pela filosofia racionalista e panteísta de Baruch Spinosa (1632-1677). Formou-se em Artes e fez seu mestrado também em Artes (1907-1908) na Saint Peter’s College, Nova Jérsei (EUA), faculdade fundada em 1872 pela Companhia de Jesus – a formação em Artes significava (e ainda significa nos países anglo-saxões) Artes Liberais, com ênfase em Humanidades (Letras, Filosofia e História, costumeiramente).

Lecionou latim e francês, com vinte e sete anos (1913) casou-se com Chaya Kaufman (1898-1981), filha de imigrantes judeus russos, sua ex-aluna, futura coautora da História da Civilização, e concluiu seu doutorado em Filosofia (1917) na Columbia University, Nova York – com o tema A filosofia e o problema social – sob a orientação do filósofo pragmatista (e psicólogo funcionalista) John Dewey (1859-1952). Uma instigante e rica formação cosmopolita, de sólida base católica e, do ponto de vista cultural, interreligiosa e racionalista.

Após escrever uma História da Filosofia em capítulos na série Litlle Blue Books (opúsculos populares de grande tiragem), transformada em livro que se tornou best-seller em 1926 (com um milhão de exemplares vendidos só no primeiro ano!), Durant pôde se aposentar precocemente da docência e concentrar todos os seus esforços intelectuais e existenciais para escrever a obra de sua vida, a História da Civilização Ocidental.

Na primeira metade do século XX, ainda vigorava no Ocidente a confiança intelectual que era possível abarcar em uma narrativa uma história geral, total, linear, com causas e consequências, baseada em documentos de época e ampla e diversificada bibliografia e, sobretudo, que abrangesse as áreas afins à História – Antropologia, Arqueologia, Sociologia etc.

Will Durant, filho direto do final do século XIX, século criador da disciplina História, História com pretensão científica, narrada com fatos em ordem cronológica, de um ponto de vista imparcial – ou o mais imparcial que um intelectual pode ser capaz de se expressar – com clareza de ideias e opiniões apresentadas de modo racional, humanista, e com fundamentos argumentativos, é um autor que sintetiza como poucos essa tradição hoje perdida, porque conscientemente abandonada.

Especialmente também porque Durant constrói seu texto com uma preocupação clássica: a clareza, virtude já definida na Antiguidade por Cícero (106-43 a.C.): “A mim me bastam a clareza e a simplicidade, que são o melhor ornamento da verdade (...) falar clara e simplesmente é o que compete a um homem inteligente e douto”2 e, na contemporaneidade, pelo filósofo Giovanni Reale (1931-2014): “A honestidade de fundo de todo pensador se reconhece pela sua clareza: fugir da clareza e da transparência significa fugir da verdade (ou, se se prefere, de uma transparente busca da verdade)”.3

A interminável busca da verdade do Passado é o fundamento básico do historiador – ou pelo menos do que se preza como tal. Durant certamente riria dos atuais relativismos e inseguranças intelectuais contemporâneas, ainda que cônscio da dificuldade da compreensão histórica, já que sua obra é calcada na constatação da fragilidade de nosso conhecimento do Passado. Por isso suas viagens ao redor do mundo para escrever sua obra. In situ.

***

A Idade da Fé. Assim Durant nomeou o quarto volume de sua jornada histórica, verdadeira peregrinação temporal em busca da história da Civilização Ocidental, da confluência de nossas raízes mais bem fincadas no solo histórico. Opus maius de sua História da Civilização – o maior volume, inclusive na abrangência geográfica! – por isso, é seu projeto mais ambicioso. Afinal, abarcar as civilizações bizantina, islâmica, judaica e cristã de um só golpe é empreitada ambiciosíssima!

E ele advertiu seu leitor logo no Prefácio: é seu relato mais abrangente – tanto conforme o espaço editorial então permitido quanto seus preconceitos (ele confessa)! Pré-conceitos. Sim, já no final da década de 40 do século XX (o livro foi concluído em 1949), o Ocidente já apresentava suas primeiras fraturas intelectuais, seus primeiros desencantos em relação ao seu próprio Passado.

A II Guerra Mundial (1939-1945) tinha terminado e o mundo constatara com horror os (mais de mil) campos de concentração nazistas, o Holocausto4 – e, a seguir, verificado que uma Cortina de Ferro descera sobre o continente europeu e a Guerra Fria (1947-1991) iniciara.5 Às portas da década do American Dream nos EUA, todas as ilusões do século XIX em relação ao progresso tecnológico tinham se dissipado. Pouco a pouco, na estonteante vertigem dos tempos modernos6, tudo se evaporou.7

Mas a História também serve para isso: entender os processos civilizacionais, suas crises e alternâncias, transformações e permanências.8 E Durant não se fez de rogado: construiu uma sólida e extensa narrativa calcada em uma miríade de personagens e culturas que se superpõem em uma densa cronologia dos acontecimentos somada às características dos protagonistas e seus entornos civilizacionais.

Durant inicia sua narrativa com Constantinopla e seu complexo mosaico humano para, a seguir, tratar de Juliano, o Apóstata (361-360). E com um maravilhoso elenco de fontes primárias para calcar sua narrativa: Sócrates de Constantinopla (c. 380-439) (qual historiador hoje cita sua História?), Máximo de Tiro (fl. séc. II), Amiano Marcelino (c.330-400), além do próprio Juliano (uma refutação de Cirilo de Alexandria [c.376-444] à sua obra – perdida – Contra os Galileus). Um de seus alicerces que resistem ao tempo é certamente sua capacidade de dialogar com as fontes primárias. Trata-se de uma excelente e ágil abertura para seu quarto volume e que prepara o leitor para a chegada dos bárbaros ao palco da História!

A Idade da Fé está dividida em cinco livros, desiguais tanto no tamanho quanto no recorte cronológico: I. O Zênite de Bizâncio (325-565), II. A Civilização Islâmica (569-1258), III. A Civilização Judaica (135-1300). IV. A Idade das Trevas (566-1095), V. O Clímax do Cristianismo (1095-1300).

O Livro I foi dividido em seis capítulos. Após iniciar com Juliano, o Apóstata, Durant prossegue com O Triunfo dos Bárbaros, espécie de resumo atualizado (porque com mais fontes) do monumental clássico (seis volumes) de Edward Gibbon (1737-1794), Declínio e Queda do Império Romano (1776-1788).9 Com O Progresso do Cristianismo (cap. III), nosso autor se debruça sobre dois gigantes do pensamento: São Jerônimo (c. 342-420) e Santo Agostinho (354-430). Conclui com as primeiras grandes contribuições da Igreja naqueles séculos (IV-V) – moral, sexo, família, caridade social – e suas fraquezas – escravidão, ausência na Educação pública (com o consequente declínio da Literatura), em uma boa síntese crítica que encerra o Livro I e abre ao leitor o palco do novo teatro da existência.

A formação da Europa (cap. IV) provavelmente é hoje seu capítulo mais “datado”. Mas não por fraqueza histórica, já que se baseia nas mesmas fontes que os historiadores da Alta Idade Média hoje estudam, mas por uma diferença de perspectiva analítica que atualmente provoca um juízo histórico distinto. Os bárbaros na Britânia, na Irlanda, na Espanha visigoda, mas sobretudo na Gália merovíngia alteraram profundamente o cenário ocidental.

Nos últimos anos, a historiografia fez uma valorização dessas culturas, sobretudo a merovíngia – em minha consideração, um olhar generoso demais para com a rudeza daqueles povos. Ainda que a única fonte seja o bispo Gregório de Tours (c. 538-594), hoje visto com um pouco de desconfiança (como todos os cronistas católicos), sua narrativa da brutalidade merovíngia é seguida quase in totum por Durant.10 Já a Itália ostrogoda oferece à História o vislumbre de uma das tragédias daqueles tempos: a condenação de Boécio (c. 480-534), o último dos romanos e o primeiro dos medievais, um dos transmissores da cultura antiga à Idade Média.11

Durant retorna a Bizâncio no capítulo V, pois a imperatriz Teodora (c.490-548), Justiniano I (482-565) e seu Código (Corpus Iuris Civilis, 529-534) são por demais importantes – além, é claro da arte bizantina (nunca posso deixar de destacar a sensibilidade do historiador que não narra “apenas” Política, Economia e Cultura, mas também dedica às Artes um papel preponderante).

E Durant se volta para a Música (!), além da Arquitetura (Santa Sofia ainda está de pé para nos recordar a força de Bizâncio). Os Sassânidas (224-651) encerram o Livro I e obrigam Durant a chegar até o atual Irã. A narrativa de sua sociedade, política e arte (palácios em ruínas, estátuas, tecidos, louças, pratarias), com fontes e rica bibliografia, não deixa margem a dúvidas: nosso historiador é um generoso erudito que se volta para o quadro geral de uma época e relaciona civilizações coetâneas com uma elegância narrativa poucas vezes igualada na historiografia ocidental.

E chega ao Islã. A saga de Maomé (c. 570-632) abre o Livro III, sobre a civilização islâmica (569-1258). Geografia e teologia – forma, credo e ética do Alcorão! – guerra (a Espada do Islã), política (os Omíadas e os Abássidas), Harum al-Raschid (هارون الرشيد‎, c.763-809). Após discorrer sobre praticamente todo o ambiente de surgimento do Islã, Durant chega à Armênia e, no capítulo XI, ainda aprofunda o quadro da fé dessa parte do mundo que não para de crescer, ainda no século XXI. Governo, moral, sexualidade e higiene; as cidades, o pensamento (Ciência, Medicina e Educação), a Arte, a Filosofia e a Literatura. E aqui um parêntese: só quem já abordou uma fração do pensamento islâmico sabe o quanto é difícil a ambientação nessa cultura, próxima e simultaneamente tão distante da ocidental.12 Após abordar a Poesia, nas Artes, Durant trata da Arquitetura – na Idade Média, ela era senhora – mosaicos e azulejos, relevos decorativos louças, caligrafia (muitíssimo importante, como as do Extremo Oriente) e a Música.

Retorna então o historiador à narrativa política, pêndulo narrativo dos mais agradáveis. A conquista da África, a presença islâmica no Mediterrâneo e, por fim, o Islamismo na Hispânia. Narradas as cruezas da guerra, Durant se volta novamente para o Oriente (capítulo XIV), e novamente olha a Arte. Como é reconfortante um historiador com sensibilidade nos olhos! Omar Khayyam (غیاث الدین ابو الفتح عمر بن ابراهیم خیام نیشاپوری, c.1048-1131) e As Mil e Uma Noites, al-Ghazali (محمد غزالی, c.1058-1111) e ele, Averróis (أبو الوليد محمد بن أحمد بن محمد بن رشد , 1126-1198)! Infelizmente é obrigado a narrar a chegada dos mongóis (1219-1258) e o temível Temujim, mundialmente conhecido como Gengis Khan (ᠴᠢᠩᠭᠢᠰ ᠬᠠᠭᠠᠨ, c.1162-1127). São as necessárias páginas cruentas, vermelhas de sangue, pois recordam o leitor que, no fundo, somos bárbaros que sempre precisamos controlar a besta que ruge em nós.

O Livro III, sobre a civilização judaica (135-1300), é cronologicamente mais extenso mas, paradoxalmente, a metade do dedicado ao Islã. Por quê? Será que Durant antecipa o interesse que o Ocidente acadêmico dedicaria ao mundo islâmico a partir da década de 60? Ou o fato de a cultura judaica ser mais hermética a torna mais sintética ao gosto goyim? O fato é que sua explicação sobre o Talmude – Teologia, Ética e ritual – apesar de sintética, é densa, e demonstra mais uma vez sua erudição (e riqueza metodológica). O capítulo XVI (Os Judeus Medievais, 565-1300) é historicamente preciso no drama judaico na Idade Média.13 Finaliza com as Letras, a Ciência, a Cabala e a Filosofia. E com Maimônides (משה בן מימון‎, 1135-1204). Conclui com o consolo da fé diante da adversidade: os judeus sabiam que embora o indivíduo morresse, Israel continuaria. E continua até hoje.

Esses três primeiros livros – Bizâncio, Islã e Israel – culturalmente amplos e historicamente ricos, preparam o leitor para o definitivo ingresso espiritual no coração do tema: a Idade das Trevas (566-1095). Naturalmente o autor não utiliza o termo como pejorativamente (ainda) é hoje utilizado pelos historiadores beócios, mas como a historiografia anglo-saxã se refere à Alta Idade Média (ou Antiguidade Tardia), sua primeira metade cronológica em que a produção escrita recuou tremendamente. Pudera: as culturas bárbaras que chegaram na parte ocidental do Império Romano que se esfacelou eram basicamente ágrafas.

Uma vez mais Durant inicia sua narrativa com Bizâncio – Heráclio (Ἡράκλειος, c. 575-641) imperador romano do Oriente e o movimento iconoclasta bizantino (717-802). A vida bizantina é descortinada para nós, ocidentais, em especial, seu renascimento artístico, estimulante transmissão hierática da herança grega. Durant oferece uma sucessão de personagens, hoje só conhecidos por especialistas, e desfila Arte: mosaicos, cerâmicas, marfins, esmaltes. Nenhuma arte foi tão preponderantemente religiosa como a bizantina. E o mundo a copiou, cada cultura à sua maneira. Antes de retornar ao instável Ocidente, Durant peregrina dos Balcãs à Rússia para, mesmo que brevemente, pincelar o nascimento dessa potência do outro lado do mundo.

Nosso historiador finalmente chega ao declínio do Ocidente (capítulo XIX). A Itália lombarda, a Espanha cristã (Santiago de Compostela, El Cid [Rodrigo Díaz de Vivar, c.1048-1099)]), os Carolíngios – Carlos Magno (742-814), Alcuíno de York (740-804) e Leão III (750-816) e o Renascimento carolíngio (séculos VIII-IX), com destaque para a figura de João Escoto Erígena (815-877). Momento crucial para a História e um dos pontos altos da obra! Termina com o esfacelamento do Império e o erguimento dos poderes locais, os duques. Nascia então verdadeiramente a Idade Média!

Tratou-se de uma reorientação civilizacional: do Mediterrâneo, palco da Antiguidade, para o norte europeu. Pirenne (1862-1935) estava certo: muda o palco da História, mudam as ênfases, os contrastes culturais!14 Por isso, segue Durant a rota nórdica (capítulo XX): as ilhas britânicas, Alfredo de Wessex, o Grande (Ælfrǣd, 848-899) e suas regiões (País de Gales, Irlanda e Escócia). Descreve rapidamente as culturas viking e germânica e finalmente assenta sua pena no papel (fundamental) da Igreja Católica (capítulo XXI).

Deste capítulo, destaco “apenas” dois personagens, cruciais para a nossa História, dois papas, dois gregórios: Gregório I, Magno (c.540-604), o do canto gregoriano e das lágrimas como compunção de amor (fundamental para tornar a fragilidade masculina uma virtude, não uma fraqueza!), e Gregório VII (c. 1015-1085), pai da Reforma Gregoriana e protagonista da Querela das Investiduras e da marcante Penitência de Canossa (1077) com o imperador Henrique IV (1050-1106). Infelizmente é um capítulo mais curto em relação aos outros – como o sobre o Judaísmo – mas denso e absolutamente fundamental para a compreensão dos capítulos seguintes. E da História!

Chegamos à metade do Opus maius. Durant se encontra agora em pleno coração conceitual da Idade Média: o feudalismo e a cavalaria (capítulo XXII). Perscruta seus protagonistas em modelos (alusão ao tipo ideal [Idealtypus] weberiano?15) – o escravo, o servo, a comunidade feudal, o senhor, a Igreja feudal, o rei (absolutamente essencial é a parte sobre o Direito e a guerra feudais) – para chegar à cavalaria e ao amor cortês e aos trovadores, um dos meus temas favoritos de estudo.16

E adverte: não podemos, não devemos olhar com soberbo desprezo para a Idade Média pois, ao estudarmos profundamente o período, nos maravilhamos ao constatar como a Europa conseguiu se restabelecer (e surgir) a partir dos sucessivos golpes de godos, hunos, vikings & Cia., e impor ordem ao caos, com paciência monástica para restaurar as Letras, a Arquitetura, a Poesia, de modo análogo ao que ocorreu na Península Itálica da Antiguidade com (o lendário) Rômulo e (o sabino) Numa Pompílio (c. 753-672 a. C.).

Ao contrário dos volumes anteriores, a pena do historiador flui cada vez mais suavemente para o clímax do volume não em seu miolo, mas a caminho do fim. Para seu longo Livro V (O Clímax do Cristianismo), cronologicamente curto (1095-1300), mas generosamente amplo. São dezessete capítulos (!) com alguns temas que já tive a oportunidade de me deter (e que indico nas notas de rodapé seguintes17): das Cruzadas (1095-1291) à Divina Comédia (c. 1308-1321); do Proto-renascimento italiano de Frederico II Hohenstaufen (1194-1250) e Mântua, Veneza, Florença e Gênova, ao famoso amor de Abelardo (1079-1142) e Heloísa (1101-1164); dos primórdios da Inquisição (1000-1300)18 com a heresia albigense, aos primeiros estilos artísticos “internacionais”, o Românico e o Gótico, com suas deslumbrantes catedrais (o capítulo sobre o Gótico é impecável!)19; das escolas monásticas e catedralícias que fundamentaram as universidades e a Escolástica de Santo Tomás de Aquino (1225-1274) a São Bernardo de Claraval (1090-1153)20, a São Francisco de Assis (c.1181-1226) e a São Domingos de Gusmão (1170-1221) – pais fundadores das duas conhecidíssimas ordens de pregadores que impulsionaram a vida citadina, franciscanos e dominicanos21; enfim, a primeira manifestação lírica europeia, o movimento trovadoresco (séculos XII-XIV).22

Ainda há espaço para personagens não tão conhecidos para quem não é medievalista, mas importantíssimos para o desenrolar dos acontecimentos e para a formação da Europa. Cito três: 1) Alfredo, o Grande (c.849-899), grande promotor da Educação e do estado de Direito, 2) Thomas Becket (1119-1170) – sua querela com Henrique II (1133-1189) ficou mundialmente conhecida graças à película Becket, o favorito do rei (1964), com os inesquecíveis Richard Burton (1925-1984) e Peter O’Toole (1932-2013)23 – e 3) o personalíssimo imperador Frederico II (1194-1250), stupor mundi. Para todos estes personagens históricos, marcantes, Durant brilha sobretudo por sua concisão, uma das qualidades mais difíceis de se conquistar pelo escritor – e só quem escreve sabe o quão difícil é contar uma história de modo simples e conciso!

Todos estes acontecimentos e personagens fazem parte das raízes de nossa História Ocidental, de nosso imaginário, de nossa Cultura, no sentido mais amplo e generoso que se pode conceber. Pois mesmo quem não conhece História, ao ler o volume A Idade da Fé reconhecerá em seu conteúdo histórico muitos de seus horizontes imaginativos, de seus anseios e receios, de suas pretensões existenciais e de suas realizações culturais.

A caminho do desenlace da Idade da Fé, Durant se detém na Ciência da Idade Média (cap. XXXVII), tema infelizmente ainda desconhecido para muitos historiadores, e se debruça sobre o papel de dois importantes protagonistas: o Doctor Universalis Alberto Magno (c.1200-1280) – quem lançou as bases para o aristotelismo medieval – e Roger Bacon (c.1220-1292), franciscano e filósofo natural inglês, um dos primeiros defensores do método empírico (ou seja, dos fundamentos da Ciência). E, antes de seu gran finale – Dante Aliguieri (1265-1321)! –, nosso historiador trata do Romance (poemas, sagas, sátiras) e dos trovadores.

Essa grande narrativa, transversal, multidisciplinar e eruditíssima, iniciada com Juliano, o Apóstata (361-360), um político, é encerrada com um poeta, o poeta, um dos maiores de todos os tempos: Dante.24 Seu amor platônico por Beatriz (1266-1290), suas desventuras políticas e, finalmente, sua Comédia. Divina. Ouso afirmar que se trata de uma das melhores explicações introdutórias sobre esse monumento à poesia universal. Durant caminha pari passu na dramática peregrinação do poeta no Além. Afirma que sua leitura, densa, intensa, é uma experiência que nenhum leitor minucioso esquecerá. Eu não esqueci, não esqueço, nunca esquecerei, sempre a revivo, a revisito, a imagino.

Conclui relativizando os rigores da Cronologia: a Idade Média termina no Ocidente com Colombo (c.1451-1506) mas, na Rússia, somente com o czar Pedro I, o Grande (1672-1725). Explica a herança intelectual medieval, seu modesto legado científico, sua contribuição literária – que compara com a romana – e seus desdobramentos culturais: o Renascimento italiano (sécs. XIV-XVI) não é senão o brilhante coroamento de todos os renascimentos medievais!

É um longo arco existencial que exige do leitor paciência (e Durant ao fim agradece!), generosidade interpretativa e rigor acadêmico, para que seja devidamente avaliado. De minha parte, foi meu livro de cabeceira por décadas. Isso porque nunca aceitei os preconceitos acadêmicos brasileiros que o colocaram (e ainda colocam) no limbo da Bibliografia sobre a Idade Média (e como me indispus por rechaçar esses preconceitos!). É uma excelente obra para se ter uma visão de conjunto bem fundamentada sobre esse longo período ainda mal compreendido nos trópicos.

Armado com essa agradabilíssima narrativa que os historiadores brasileiros ainda não aprenderam a narrar, o leitor pode sopesar com uma excelente base historiográfica todas as dezenas de obras lançadas após 1950 sobre o período medieval. Como medievalista, não titubeio: sempre que fiz comparações da Idade da Fé de Will Durant com os “manuais” dos grandes medievalistas que tive acesso e li com reiterado interesse (sou literalmente um devorador de manuais, pois eles são o fruto maduro do historiador) e que foram escritos a posteriori (a partir da década de 50) – de Robert Lopez (1910-1986)25, Pierre Riché (1921-2019)26, Bernard Guillemain (1923-2012)27, Jacques Le Goff (1924-2014)28, Jacques Heers (1924-2013)29, Norman Cantor (1929-2004)30, David Nicholas (1939-2020)31, Jérôme Baschet (1960-)32, Georges Minois (1946-)33, – concluí que, se Durant perde para alguns desses “papas” em análise, ganha em narrativa descritiva e comparativa; se não ainda tinha no final da década de 40 o arcabouço conceitual para manusear temas e construções sociológicas – como o feudalismo, por exemplo – encanta o leitor com a forma com que se vale da multidisciplinaridade para relacionar áreas de conhecimento (e culturas) tão variadas.34 Talvez o único historiador que rivalize com a envolvente narrativa de Will Durant seja o jesuíta Ricardo García-Villoslada (1900-1991): seu texto, eruditíssimo, é igualmente suavíssimo!35

Em suma: pouquíssimas são as obras que resistem ao tempo quando o assunto é História. E só conseguem derrotar Chronos por duas facetas: leveza narrativa e erudição. Durant tem ambas: sua obra impõe-se exemplarmente sobre os arrivistas anunciadores da boa nova historiográfica que surgem a cada década.

Por isso, considero A Idade da Fé seu Opus maius. Reli-a com muito prazer para escrever esse Prefácio. E senti enorme reconforto por tê-lo academicamente defendido – solitariamente, confesso – contra medievalistas tupiniquins. Ave, Durant: os que sofreram o limbo por ti te saúdam!

Notas