Na encruzilhada da existência
In: DURANT, Will. A História da Civilização III. César e Cristo.
Campinas, São Paulo: Kírion, 2025, pp. 15-22
(ISBN 9-786551-450716).
Will Durant (1885-1981) e sua esposa Ariel (Chaya Kaufman, 1898-1981) marcaram profundamente a minha formação intelectual. Encontrei-os no início da década de oitenta do século passado, quando ingressei em minha graduação em História. Foi paixão à primeira vista, como diziam.
Isso porque eram donos de uma narrativa envolvente, ampla, total, ao mesmo tempo descritiva e analítica, com espaço suficiente para o hálito vital da Humanidade, elã que eu não encontrava na árida bibliografia indicada por meus professores universitários.
Após dois anos de estudo, infelizmente abandonei a faculdade para me dedicar à Música. Retornei após dez anos à História, dessa vez para sempre, mas nunca abandonei os Durant, pelo contrário, livre das imposições acadêmicas, li toda a sua enorme obra, a História da Civilização. Mais de uma vez.
Foi um encontro para a vida. E sempre volto a relê-la, o que faz com que a considere um clássico histórico — pois clássicas são as obras que sempre retornamos com o renovado olhar da maturidade e da senectude.1
Embora não seja obrigatoriamente necessário conhecer um bom autor para apreciar sua obra — ideal olímpico poucas vezes atingido pelos historiadores — sou obrigado, por dever de ofício, a destacar alguns interessantíssimos aspectos de sua formação e de seu perfil intelectual. Nascido em Massachussetts, de família católica franco-canadense, William James Durant estava direcionado para o sacerdócio.
Entrou para o Seminário, mas desiludiu-se com o Catolicismo institucional. Flertou com o Socialismo, o Anarquismo, apaixonou-se pela filosofia racionalista e panteísta de Baruch Spinosa (1632-1677). Formou-se em Artes e fez seu mestrado também em Artes (1907-1908) na Saint Peter’s College, Nova Jérsei, faculdade fundada em 1872 pela Companhia de Jesus — a formação em Artes significava (e ainda significa nos países anglo-saxões) Artes Liberais, com ênfase em Humanidades (Letras, Filosofia e História, costumeiramente).
Lecionou latim e francês, com vinte e sete anos casou-se em 1913 com Chaya Kaufman, filha de imigrantes judeus russos, sua ex-aluna, futura coautora da História da Civilização, e concluiu seu doutorado em Filosofia (1917) na Columbia University, Nova York — com o tema A filosofia e o problema social — sob a orientação do filósofo pragmatista (e psicólogo funcionalista) John Dewey (1859-1952). Uma instigante e rica formação cosmopolita, de sólida base católica e, do ponto de vista cultural, interreligiosa e racionalista.
Após escrever uma História da Filosofia em capítulos na série Litlle Blue Books (opúsculos populares de grande tiragem), transformada em livro que se tornou best-seller em 1926 (com um milhão de exemplares vendidos só no primeiro ano!), Durant pôde se aposentar precocemente da docência e concentrar todos os seus esforços intelectuais e existenciais para escrever a obra de sua vida, a história da civilização ocidental.
Na primeira metade do século XX, ainda vigorava no Ocidente a confiança intelectual que era possível abarcar em uma narrativa uma história geral, linear, com causas e consequências, baseada em documentos de época e ampla e diversificada bibliografia, e sobretudo que abrangesse as áreas afins à História — Antropologia, Arqueologia, Sociologia etc.
Will Durant, filho direto do final do século XIX, século criador da disciplina História, História com pretensão científica, narrada com fatos em ordem cronológica, de um ponto de vista imparcial — ou o mais imparcial que um intelectual pode ser capaz de se expressar — com clareza de ideias e opiniões apresentadas de modo racional, humanista, e com fundamentos argumentativos, é um autor que sintetiza como poucos essa tradição hoje perdida, porque conscientemente abandonada.
Especialmente também porque Durant constrói seu texto com uma preocupação clássica: a clareza, virtude já definida na Antiguidade por Cícero (106–43 a.C.): “A mim me bastam a clareza e a simplicidade, que são o melhor ornamento da verdade (...) falar clara e simplesmente é o que compete a um homem inteligente e douto”2 e, na contemporaneidade, pelo filósofo Giovanni Reale (1931–2014): “A honestidade de fundo de todo pensador se reconhece pela sua clareza: fugir da clareza e da transparência significa fugir da verdade (ou, se se prefere, de uma transparente busca da verdade)”.3
A interminável busca da verdade do Passado é o fundamento básico do historiador — ou pelo menos do que se preza. Durant certamente riria dos atuais relativismos e inseguranças intelectuais contemporâneas, ainda que cônscio da dificuldade da compreensão histórica, já que sua obra é calcada na constatação da fragilidade de nosso conhecimento do Passado. Por isso suas viagens ao redor do mundo para escrever sua obra. In situ.
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Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.
Ἀπόδοτε οὖν τὰ Καίσαρος Καίσαρι καὶ τὰ τοῦ Θεοῦ τῷ Θεῷ.
Matheus 22, 21.
César e Cristo. Volume III da História da Civilização. A passagem bíblica, famosíssima, é o que primeiro vem à mente ao lermos o título deste volume. Encruzilhada da vida, decisão existencial. Cristo (c. 6 a.C. - 30 d.C.) é testado pelos hipócritas (fariseus e herodianos). O mundo ou a Eternidade? Eterna questão platônica. Responde incisivamente, sem rodeios. Will Durant escolheu César e Cristo como os dois simbólicos protagonistas de seu volume III da História da Civilização, originalmente publicado nos EUA em 1944 (um consolo histórico para o turbulento século XX!).
Certamente Durant pensou na passagem bíblica, certamente selecionou os personagens por sua importância – César pela efemeridade, Cristo pela Eternidade –, certamente o fez pela importância do período, encruzilhada absolutamente crucial para a História do Ocidente: as civilizações da Península Itálica, especialmente a romana e o Cristianismo até o ano de 325, ano do Concílio de Niceia, convocado pelo imperador Constantino I (272-337), primeiro imperador a abraçar o Cristianismo, quando então a Igreja Católica estabeleceu o Credo (o Filho consubstancial ao Pai) – aliás, dogma até hoje aceito mundo afora (pela Igreja Ortodoxa, pelas igrejas ortodoxas orientais, por luteranos e anglicanos, pelas igrejas reformadas oriundas de Calvino [1509-1564], e por algumas igrejas evangélicas).
Durant afirma, sem pestanejar, que Constantino rejuvenesceu o velho Império e, com isso, legou à Europa a moldura de seu pensamento e de sua vida pelos catorze séculos vindouros. Não é coisa de pouca monta.
César e Cristo, volume dividido em cinco livros com um total de trinta capítulos, inicia com a civilização etrusca, imediatamente antecessora da romana, conteúdo que Durant poeticamente nomeia de Prelúdio.
Como sua escrita já estava mais corrente, fluente, devidamente treinada pela redação dos dois primeiros volumes, e muito bem adequada à narração da tragédia da existência no mundo, do teatro do mundo (Theatrum mundi), como os antigos (e depois os medievais, os renascentistas e os barrocos) gostavam de nomear, ela flui generosamente.4
Durant costumeiramente principia com o ambiente, com a Geografia – agradável hábito acadêmico e erudito hoje praticamente abandonado, mas então muito apreciado (a Geografia como irmã da História5) – e de quando em vez dá lugar para inesquecíveis frases como, por exemplo, “...o palco estava à espera do incomparável drama da grandeza e do declínio do paganismo desenvolvido no mundo antigo”.
Durant escreve História com sua irmã Geografia, mas também com sua ilustríssima (e belíssima) avó, a Arte, nunca nos esqueçamos de sublinhar. Pórticos, naves, cerâmicas, bronzes, pinturas, túmulos (e que frases! – “vemos homens em batalha tomados pela alegria da luta”).
Afinal, o drama do palco do mundo exige que seja narrado poeticamente. O Livro I é dedicado à República romana. Fundamental é seu capítulo IV, que prepara historicamente o leitor para a imersão temporal na cultura de Roma – seus deuses, seus festivais, sua moral.
Desde logo, o leitor constata a força e maleabilidade de Roma diante das adversas e sempre conflitivas circunstâncias históricas.
Curiosamente, o cartaginês Aníbal (247-183 a.C.) é o primeiro grande protagonista do volume, juntamente com Cipião Africano (c. 236-183 a.C.). As Guerras Púnicas (264-143 a.C.) forjaram o espírito de aço daquela cultura!
Aliás, uma das principais características da Antiguidade é a força com que seus protagonistas marcaram a História. Durant não se faz de rogado e aproveita essa peculiaridade para construir sua narrativa, de caráter em caráter, de personagem em personagem. E eles foram absolutamente fundamentais para a formação do ethos do Ocidente.
Além disso, Durant alterna em seu texto Política e Cultura: passa pelos acontecimentos e faz com que seus atores necessariamente dialoguem com os escritores. Por exemplo, o autor relaciona as revoltas agrárias com a Literatura e a Filosofia de então: de um lado Espártaco (c. 103-71 a.C.) e Pompeu (106-48 a.C.); de outro, Lucrécio (c. 99-55 a.C.)6 e Cícero (106-43 a.C.).7
Marco Túlio Cícero! Durant analisa o personagem com rigor – talvez um tanto excessivo. Logo ele, o maior de todos os estilistas da língua mãe do Ocidente, força viril que frutificou em tantas outras línguas. Mas seja como o leitor avalie as considerações durantianas sobre Cícero, clássico dos clássicos, ao fim e ao cabo Durant dá o braço a torcer: reconhece que ele foi o responsável por tornar o latim o instrumento da Filosofia e o veículo da Ciência e das Letras por dezessete séculos na Europa. Cícero é o primeiro cume de César e Cristo.
Assim, logo chegamos ao primeiro dos protagonistas do título da obra, Caio Júlio César (100-44 a.C.). Durant o classifica em subtítulos: “libertino e cônsul”, “conquistador da Gália” e “degradador da democracia”, “estadista e amante de Cleópatra (69-30 a.C.)”. O capítulo IX do Livro II é uma delícia narrativa, biografia-síntese na qual o autor conclui ter sido César, com todas essas paradoxais nuances existenciais, o homem mais completo que a Antiguidade produziu. Lástima, constato: talvez Durant tenha sido mais generoso com César do que com Cícero...
De qualquer modo, o historiador norte-americano não nos permite um instante de fôlego, pois termina seu Livro II com o alter ego de César: Marco Antônio (83-30 a.C.). Relaciona-o com outros personagens marcantes: “ele e Bruto (85-42 a.C.)”, “ele e Cleópatra”, “ele e Otávio (63-14 a.C.)” – e é impossível não recordar aqui dois momentos sublimes do Cinema: o maravilhoso personagem Marco Antônio cinematograficamente representado por Richard Burton (1925-1984) na grandiloquente película Cleópatra (1963), de Joseph L. Mankiewicz (1909-1993) – e de Elizabeth Taylor (1932-2011) como a própria personificação da rainha-sedutora de César e Antônio – e a atuação magnífica de Marlon Brando (1924-2004), no auge de seus 29 anos, como Marco Antônio em Júlio César (1953), filme também de Mankiewicz (que foi diretor e roteirista).8
Aliás, para quem conhece Cinema, a maravilhosa narrativa de César e Cristo de Will Durant traz diversas vezes à memória os clássicos da Sétima Arte. Quando o Cinema também criava clássicos.
Apesar de termos “apenas” dois protagonistas no título deste volume III da História da Civilização, ele é um rol de estrelas do teatro da Antiguidade que foi Mare Nostrum, o Mediterrâneo. Durant abre o Livro III (O Principado) com um dos criadores da Europa: o “deus” Augusto (o Otávio, sobrinho-neto de César), fundador do Império.
Mas não se detém em demasia nele, já que dedica sua pena aos que realmente merecem a glória da posteridade: os escritores da Idade de Ouro (que, com exceção de Tito Lívio, o Brasil que lê só recentemente tem descoberto – e, por isso, indico as obras aqui em notas de rodapé!): Virgílio (70-19 a.C.) e sua Eneida9, Horácio (65-8 a.C.)10 e Tito Lívio (59 a.C. - 17 d.C.).11
A seguir, nomeou de Revolta Amorosa a linda insubmissão dos poetas às restrições literárias augustanas. Tibulo (c. 55-19), Propércio (c. 50-15) e sobretudo Ovídio (43 a.C. - 18 d.C.) preenchem lindas páginas de César e Cristo. E lembram aos historiadores materialistas que desde sempre o Amor é considerado tema histórico sim – já fui muito ridicularizado no início do século XXI por pesquisar o Amor na Idade Média.12 Por revolucionários (e amargos) professores e alunos educados no ressentimento, desdenhosos da Felicidade, outro tema histórico – e sobretudo filosófico.13
Prossegue Durant com os imperadores (Cap. XIII) em um ótimo capítulo sobre a Política. Mas o que me chama a atenção do leitor que lê livros de História é como o Durant é sensível às Artes e às Letras. Pudera: Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.)14, Quintiliano (c. 35-95)15, Estácio (c. 45-96) e Marcial (c. 38-102)16 ainda ecoam no século XXI. Chega a ser um crime a História registrar esse período literário como Idade de Prata (14-117).
Durant é mais prudente: define-a como o zênite da Literatura romana (como também o clímax de sua Arte)! Gostaria de aqui destacar não Petrônio (c. 27-66) e seu vulgar e popularíssimo Satiricon, obra tão amada pelos literatos brasileiros17, mas Sêneca, o deslumbrante filósofo estoico par excellence, o maior filósofo romano, segundo o próprio Durant – quem, em contrapartida, não hesita em defini-lo como “o mais louvável hipócrita da História”! Nosso historiador é severo quando crê que deve sê-lo.
Para que não o acusem de só olhar para as alturas do Olimpo, Durant se volta para o mundo. Em Roma e o Trabalho minuciosamente aborda a vida prática, vida ativa, como diziam os filósofos, mas logo retorna aos deuses que compuseram, esculpiram e pintaram o deleite da existência: as Artes. Pintura, Escultura e Arquitetura, a maravilhosa tríade que sempre atenuou a miséria de nossa existência, são narradas em Roma e suas Artes (Cap. XVI), e o Teatro e a Música (com os Jogos) iluminam a Roma Epicurista (Cap. XVII). Nunca me canso de lamentar o desdém do esquecimento que os historiadores tupiniquins dedicam às Artes.
O Direito está presente no capítulo XVIII (Lei Romana – 146 a.C. - 192), a Filosofia em Os Reis Filósofos – 96-180 (Cap. XIX), e o século II é inaugurado com Tácito (c. 55-120), Juvenal (c. 55-128), Plínio, o Jovem (61-113) e o imperador Marco Aurélio (121-180) no Cap. XX (Vida e Pensamento no Século II – 96-196). Aqui infelizmente nosso historiador é parcimonioso, pois dedica poucas páginas a um dos cumes do Estoicismo, o imperador-filósofo – mal poderia imaginar ele que, em pleno século XXI, o Estoicismo seria moda nas efêmeras livrarias de shoppings centers. Seja como for, o terreno já está devidamente preparado para Durant narrar o Império.
No Livro IV, a Itália sob o Império, suas províncias (da África à Bretanha) e o conceito – hoje infelizmente estigmatizado – de civilização coloca as coisas em seus devidos lugares para os frágeis relativistas pós-modernos: sim, Roma civilizou meio-mundo!18 Oxalá Augusto e Tibério tivessem conquistado a Germânia! O limes do Império (fortalezas a cada quatorze quilômetros em meio em muralhas com quase quinhentos quilômetros de comprimento) ruiu graças à demografia, diz-nos Durant. Os bárbaros sempre assaltaram a Civilização – ou, como dizia Nelson Rodrigues (1912-1980), os idiotas, que sempre foram muitos.19
A Grécia romana (Cap. XXIII) é narrada através de Plutarco (c. 40-120), o estoico Epiteto (c. 50-135), o retórico Luciano de Samósata (c. 125-180) e o pirrônico Sexto Empírico [séc. II]. Conclui Durant que, apesar de todos os céticos, o Estoicismo preparava os homens para a teologia moral cristã: “O Oriente iria conquistar a cidadania europeia”! E conquistou. Pelo menos até a interminável crise do século XX.
Os capítulos finais do Livro IV, sobre o Oriente – de Alexandria à Judéia –, literalmente preparam o segundo protagonismo do título do volume: Cristo. Durant é categórico: nem mesmo os mais severos oponentes do novo credo, judeus ou pagãos, negaram Sua existência. Só os idiotas nelsonrodrigueanos... Trata-se, de fato, “do acontecimento mais fascinante da história do homem ocidental”, mais uma das inesquecíveis afirmações retumbantes de Will Durant.
E chegamos ao epílogo de César e Cristo, o tão esperado Livro V – A Juventude do Cristianismo – 4 a.C. - 325 d.C. Para abordar Jesus, Durant esmiuça os evangelistas com justiça: sua narrativa é isenta de efusões de fé. Por exemplo, inicia com uma rigorosa descrição dos eruditos protagonistas da Alta Crítica da Bíblia (século XVIII), para depois elencar as referências pagãs a Cristo (desde Flávio Josefo e Plínio, o Moço) e finalmente as provas cristãs.
Conclui que seria um verdadeiro milagre que homens simples e rudes, pescadores, simplesmente inventassem uma personalidade tão marcante (e inatacável, acrescento – nem o anticristão Nietzsche se atreveu a atacá-Lo20) como a de Jesus Cristo, e que após tantos séculos de impiedosa e feroz hipercrítica, Seu caráter e ensinamentos constituem o acontecimento mais fascinante da história do homem ocidental. Não existe melhor frasista na historiografia ocidental que Will Durant!
A vida de Jesus recebe o mesmo tratamento descritivo-analítico rigoroso, mas isento de malícia. Sobre Maria, a mais comovente figura do drama, é algo supremo na literatura, porque as relações entre pais e filhos envolvem mais dramaticidade que o amor sexual.
Ao destacar a dificuldade de ver Jesus de modo objetivo, Durant é mais que objetivo: analisa Sua personalidade e posições, todas baseadas na Bíblia, evidentemente, com uma frieza que o qualifica quase como um historiador laico – supremo elogio que se pode fazer a um historiador. Merece destaque o tema do Inferno, pois já no início da década de 40 Durant informa seu leitor que o que é ensinado sobre Cristo destoa do que Ele afirma nos Evangelhos – o duro tema do Inferno logo seria amenizado para os espíritos sensíveis das gerações pós-Concílio Vaticano II (1962-1965).
Sua morte e transfiguração são narradas com precisão. Após Sua crucificação, diz-nos Durant, a maioria dos discípulos se convenceu de que tinha estado com Ele em carne. Pode um historiador ser mais imparcial?
Nosso historiador aprofunda sua análise descritiva do Cristianismo em Paulo (c. 5-65) – como no capítulo sobre César, classifica o missionário com adjetivos (“o perseguidor”, “o missionário”, “o teólogo”, “o mártir”) – mais do que em João (c. 6-100). O crescimento da Igreja é narrado com base em Galeno (129-216), Tertuliano (160-240), Márcion de Sinope (c. 85-160), Orígenes (c. 185-253) e todos os que fizeram seus registros daqueles tempos tão cruciais para a Civilização Ocidental.
E aqui se encontra sua maior qualidade, além da literária: Durant caminha pari passu com as fontes de cada época que se debruça. É por isso que sua obra permanece atual em pleno século XXI. Pode-se discordar de suas interpretações, mas raramente da precisão de sua narrativa histórica.
Chega no neoplatônico Plotino (c. 205-270), o derradeiro grande filósofo pagão, um “cristão sem Cristo”, como Epiteto e Marco Aurélio. Após narrar o colapso do Império e o crepúsculo do paganismo, Durant se depara finalmente com Constantino, o último grande protagonista de César e Cristo. O momento é decisivo para a História. Sua conversão foi minuciosamente criticada. Trata de Lactâncio (c. 250-325) e Eusébio (c. 260-339), escritores fundamentais para essa virada decisiva rumo à Idade Média. Conclui que seu cristianismo, principado como recurso político, parece ter sinceramente se consumado. Com isso, não só rejuvenesceu o Império, mas deu-lhe vigorosa organização e sadia moralidade.
No Epílogo dessa obra crucial de sua História da Civilização, Will Durant abordou um dos grandes problemas da História: Por que Roma caiu? Mesclou descrição e análise, e ponderou que há alguma verdade na afirmação de Edward Gibbon (1737-1794) que a vitória de Cristo equivaleu à derrota de Roma. As causas? Econômicas, políticas, demográficas. Mas conclui seu quadro de modo otimista, como os historiadores antes da crise da História concluíam suas narrativas: com as realizações romanas.
***
César e Cristo é um volume denso e sintético face aos personagens e o período, fundamental de nossa História. Imaginaria ele que em pleno início de século XXI seria reeditado? Que seria lido por uma geração que passou por tantas crises, dilemas, hesitações, indecisões? Teria ficado surpreso com a força de sua pena, impressionado com os desdobramentos do Ocidente, decadente, com sucessivas gerações de historiadores incapazes de construírem narrativas totalizantes e gerais, dedicados que foram às associações teóricas com a Literatura e métodos que desconstruíram a História e a jogaram em um redemoinho de fragilidades metodológicas.
Reler Will Durant nos enche de orgulho. Nós, historiadores, éramos cônscios de nosso ofício. Difícil erudição, complexa narração que englobava todos os âmbitos da existência da época que decidíamos abordar. Mas nos aventurávamos, cheios de ilusão com nossas capacidades intelectuais. César e Cristo é um fruto maduro dessas certezas. Reli-o com enorme prazer, pois foi obra inescapável de minha formação.
Feliz constatação tive ao relê-lo: o quadro pintado por Durant, em 2025, ainda se sustenta. E reforça o que aprendi: um historiador digno desse nome se ancora nos documentos de época. Analisa-os, compara-os, sintetiza-os com toda a capacidade intelectual que aprendeu a cultivar após anos de preparação. Confie, leia e desfrute a obra. Certamente fruirá a maturidade de um escritor de mão cheia, formado na melhor época para um historiador ser formado.
Notas
- 1. BLOOM, Harold. Como e por que ler. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
- 2. MARCO TÚLIO CÍCERO. Do sumo bem e do sumo mal [De finibus bonorum et malorum] (trad.: Carlos Ancêde Nougué). São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 97 (Livro III, V).
- 3. REALE, Giovanni. “Advertência”. In: ARISTÓTELES. Metafísica (trad.: Marcelo Perine; ensaio introdutório, texto grego com tradução e comentário de Giovanni Reale). Volume III. Sumários e comentário. São Paulo: Edições Loyola, 2002, p. xiii.
- 4. O mundo como um teatro é uma alegoria mundialmente conhecida graças a Shakespeare (1564-1616), por sua peça As you like it, de 1599 (gênero Comédia Pastoral, Ato II, Cena VII, Linha 139), mas já belissimamente anunciada na Idade Média por João de Salisbury (1115-1180): “Diz a Escritura que a vida do homem sobre a terra é uma milícia. Mas se um espírito profético concebesse nossa época, diria melhor que é uma comédia a vida do homem sobre a terra, onde cada um, esquecendo-se de si, representa papel alheio.” – JUAN DE SALISBURY. Policraticus (edición preparada por Miguel Angel Ladero). Madrid: Editorial Nacional, 1984, p. 265 (Livro III, 8).
- 5. Além de imediatamente lembrar da formação de Georges Duby (1919-1996), um dos maiores medievalistas de todos os tempos (era historiador e geógrafo), bibliograficamente, o fruto mais conhecido dessa íntima relação é o primeiro volume do clássico de Fernand Braudel (1902-1985): BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo na época de Filipe II. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995.
- 6. LUCRÉCIO. Sobre a natureza das coisas (trad., notas e paratextos: Rodrigo Tadeu Gonçalves). Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2022.
- 7. MARCO TÚLIO CÍCERO. Do sumo bem e do sumo mal (DE FINIBUS BONORUM ET MALORUM) (trad.: Carlos Ancêde Nougué). São Paulo: Martins Fontes, 2005; MARCOS TÚLIO CÍCERO. Discussões Tusculanas (trad.: Bruno Fregni Bassetto). Uberlândia: EDUFU, 2014; CÍCERO. Sobre a República (trad., apres. e notas: Isadora Prévide Bernardo). São Paulo: Editora Unesp, 2024.
- 8. GRANT, Michael “Júlio César”. In: CARNES, Mark (org.). Passado Imperfeito. A História no Cinema. Rio de Janeiro: Record, 1997, pp. 44-47.
- 9. VIRGÍLIO. Eneida (trad.: Carlos Alberto Nunes; org., apres. e notas: João Angelo Oliva Neto). São Paulo: Editora 34, 2016.
- 10. HORÁCIO. Odes (trad., introd. e notas: Pedro Braga Falcão). São Paulo: Editora 34, 2021.
- 11. TITO LÍVIO. História de Roma (introd., trad. e notas: Paulo Matos Peixoto). São Paulo: Editora Paumape S. A., 06 volumes, 1989-1990.
- 12. COUTINHO, Priscilla Lauret; COSTA, Ricardo da. “Entre a Pintura e a Poesia. O nascimento do Amor e a elevação da Condição Feminina na Idade Média”. In: GUGLIELMI, Nilda (dir.). Apuntes sobre familia, matrimonio y sexualidad en la Edad Media. Colección Fuentes y Estudios Medievales 12. Mar del Plata: GIEM (Grupo de Investigaciones y Estudios Medievales), Universidad Nacional de Mar del Plata (UNMdP), diciembre de 2003, pp. 4-28; COSTA, Ricardo da. “O papel do amor cortês e dos jograis na Educação da Idade Média. Guilherme IX da Aquitânia (1071-1127) e Ramon Llull (1232-1316)”. In: CASTRO, Roberto C. G. (org.). O Intérprete do Logos. Textos em homenagem a Jean Lauand. São Paulo: Factash Editora/ESDC, 2009, pp. 231-244; COSTA, Ricardo da; GABY, André; HARTMANN, Ernesto; RIBEIRO, Antônio Celso; SILVA, Matheus Corassa da. “Um tributo à arte de ouvir. O amor cortês nas cançons de Berenguer de Palou (c. 1160-1209)”. In: In: eHumanista/IVITRA 15 (2019), p. 396-455; COSTA, Ricardo da; FERNANDES JR., Alfredo da Cruz. “Flechas de ouro o Amor todas lançou! Ausiàs March (c. 1397-1439) e as vítimas do Amor”. In: CORREIA, André; RENAN, Ray; RENNYER, Wesley (orgs.). Filosofia & literatura: entre o alvorecer antigo e o crepúsculo moderno. Cachoeirinha: Fi, 2023, pp. 88-116.
- 13. McMAHON, Darrin M. Felicidade. Uma história. São Paulo: Globo, 2006.
- 14. SÊNECA. Sobre a ira. Sobre a tranquilidade da alma (trad., introd. e notas: José Eduardo S. Lohner). São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014 e, sobretudo, LÚCIO ANEU SÉNECA. Cartas a Lucílio. (trad., prefácio e notas de J. A. Segurado e Campos). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.
- 15. QUINTILIANO. Instituição Oratória (trad., apres. e notas de Bruno Fregni Basseto). Campinas: Editora da Unicamp, 2015-206, 4 volumes.
- 16. MARCO VALÉRIO MARCIAL. Epigramas (trad., notas e posfácio: Rodrigo Garcia Lopes). Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2019.
- 17. Que João de Salisbury equivocadamente considerou obra com um latim gracioso. Publicada várias vezes no Brasil. Uma das melhores edições é PETRÔNIO. Satyricon libri (Satyricon) (trad. e posfácio: Sandra Braga Bianchet). Belo Horizonte: Crisálida, 2004.
- 18. “Em seu sentido original, a civilĭtas dizia respeito às melhores qualidades de quem vivia na cidade, não no campo. Em sua raiz, civilis, era tudo relacionado ao cidadão romano: sociabilidade, urbanidade, polidez no trato cotidiano (entre romanos, naturalmente). Do ponto de vista da Filosofia tradicional (greco-romana e medieval), o conceito de civilização designava a forma mais elevada da vida de um povo – especialmente a Religião, a Arte e a Ciência – e a mais elevada civilização da história humana era considerada a ocidental pois, à exceção de períodos relativamente breves, foi a única em que a Religião, a Arte e o saber desinteressado da Ciência gozaram de maior favorecimento (a ideia do conhecimento desinteressado, da arte pela arte, da Música como expressão sublime do espírito, é ocidental [greco-romana-judaico-cristã]).” – COSTA, Ricardo da; GABY, André; HARTMANN, Ernesto; RIBEIRO, Antônio Celso; SILVA, Matheus Corassa da. “Um tributo à arte de ouvir. O amor cortês nas cançons de Berenguer de Palou (c. 1160-1209)”. In: eHumanista/IVITRA 15 (2019), p. 399.
- 19. “Deve-se a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. E, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gravata, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas.” – RODRIGUES, Nelson. Flor de obsessão. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 86.
- 20. NIETZSCHE. O Anticristo (trad.: Artur Morão). Covilhã, 1997.