Um encontro para a vida
In: DURANT, Will. A História da Civilização I. Nossa Herança Oriental.
Campinas, São Paulo: Kírion, 2025, pp. 25-29
(ISBN 9-788594-090775).
Will Durant (1885-1981) e sua esposa Ariel (Chaya Kaufman, 1898-1981) marcaram profundamente a minha formação intelectual. Encontrei-os no início da década de oitenta do século passado, quando ingressei em minha graduação em História.
Foi paixão à primeira vista, como diziam. Isso porque eram donos de uma narrativa envolvente, ampla, total, ao mesmo tempo descritiva e analítica, com espaço suficiente para o hálito vital da Humanidade, elã que eu não encontrava na árida bibliografia indicada por meus professores universitários.
Após dois anos de estudo, infelizmente abandonei a faculdade para me dedicar à Música. Retornei após dez anos à História, dessa vez para sempre, mas nunca abandonei os Durant, pelo contrário, livre das imposições acadêmicas, li toda a sua enorme obra, a História da Civilização. Mais de uma vez. Foi um encontro para a vida. E sempre volto a relê-la, o que faz com que a considere um clássico histórico — pois clássicas são as obras que sempre retornamos com o renovado olhar da maturidade e da senectude.1
Embora não seja obrigatoriamente necessário conhecer um bom autor para apreciar sua obra — ideal olímpico poucas vezes atingido pelos historiadores — sou obrigado, por dever de ofício, a destacar alguns interessantíssimos aspectos de sua formação e de seu perfil intelectual. Nascido em Massachussetts, de família católica franco-canadense, William James Durant estava direcionado para o sacerdócio. Entrou para o Seminário, mas desiludiu-se com o Catolicismo institucional.
Flertou com o Socialismo, o Anarquismo, apaixonou-se pela filosofia racionalista e panteísta de Baruch Spinosa (1632-1677). Formou-se em Artes e fez seu mestrado também em Artes (1907-1908) na Saint Peter’s College, Nova Jérsei, faculdade fundada em 1872 pela Companhia de Jesus — a formação em Artes significava (e ainda significa nos países anglo-saxões) Artes Liberais, com ênfase em Humanidades (Letras, Filosofia e História, costumeiramente).
Lecionou latim e francês, com vinte e sete anos casou-se em 1913 com Chaya Kaufman, filha de imigrantes judeus russos, sua ex-aluna, futura coautora da História da Civilização, e concluiu seu doutorado em Filosofia (1917) na Columbia University, Nova York — com o tema A filosofia e o problema social — sob a orientação do filósofo pragmatista (e psicólogo funcionalista) John Dewey (1859-1952). Uma instigante e rica formação cosmopolita, de sólida base católica e, do ponto de vista cultural, interreligiosa e racionalista.
Após escrever uma História da Filosofia em capítulos na série Little Blue Books (opúsculos populares de grande tiragem), transformada em livro que se tornou best-seller em 1926 (com um milhão de exemplares vendidos só no primeiro ano!), Durant pôde se aposentar precocemente da docência e concentrar todos os seus esforços intelectuais e existenciais para escrever a obra de sua vida, a história da civilização ocidental.
Na primeira metade do século xx, ainda vigorava no Ocidente a confiança intelectual de que era possível abarcar em uma narrativa uma história geral, linear, com causas e consequências, baseada em documentos de época e ampla e diversificada bibliografia, e sobretudo que abrangesse as áreas afins à História — Antropologia, Arqueologia, Sociologia, etc.
Will Durant, filho direto do final do século xix, século criador da disciplina História, História com pretensão científica, narrada com fatos em ordem cronológica, de um ponto de vista imparcial — ou o mais imparcial que um intelectual pode ser capaz de se expressar — com clareza de ideias e opiniões apresentadas de modo racional, humanista, e com fundamentos argumentativos, é um autor que sintetiza como poucos essa tradição hoje perdida, porque conscientemente abandonada.
Especialmente também porque Durant constrói seu texto com uma preocupação clássica: a clareza, virtude já definida na Antiguidade por Cícero (106-43 a.C.): “A mim me bastam a clareza e a simplicidade, que são o melhor ornamento da verdade (...) falar clara e simplesmente é o que compete a um homem inteligente e douto”2 e, na contemporaneidade, pelo filósofo Giovanni Reale (1931-2014): “A honestidade de fundo de todo pensador se reconhece pela sua clareza: fugir da clareza e da transparência significa fugir da verdade (ou, se se prefere, de uma transparente busca da verdade)”.3
A interminável busca da verdade do Passado é o fundamento básico do historiador — ou pelo menos do que se preza. Durant certamente riria dos atuais relativismos e inseguranças intelectuais contemporâneas, ainda que cônscio da dificuldade da compreensão histórica, já que sua obra é calcada na constatação da fragilidade de nosso conhecimento do Passado. Por isso suas viagens ao redor do mundo para escrever sua obra. In situ. Já nesse primeiro volume que tenho a honra de prefaciar, Nossa Herança Oriental (publicado originalmente em 1935), o casal se dirigiu ao Oriente e, além disso, levou vinte anos desde sua concepção de escrever uma história total — de todos os aspectos das civilizações — até sua publicação (1915-1935). Vinte anos de estudos preparatórios!
Os cinco primeiros capítulos de Nossa Herança Oriental tratam das condições para a existência da civilização — e atentem o caráter humanista de nosso autor já no título: nossa herança oriental, a civilização, isto é, a Humanidade como um todo. Essa generosa amplitude de seu olhar é a responsável pela concepção totalizante de sua abordagem. Pois bem, são capítulos teóricos, mas com exemplos reais, o que torna sua leitura muito palpável, viva. Economia (caça, pesca, fogo, organização social), política (leis, governo, família), moral (sexualidade, casamento, virtudes e vícios, religião) e o que muito originalmente designou como elementos mentais (linguagem, ciências, arte) são as áreas criadoras da civilização.
Para considerá-las, Durant se valeu das concepções antropológicas então vigentes para torná-las orgânicas com exemplos retirados de tribos da Polinésia, Austrália, Bornéu, Madagascar, Taiti, Libéria, Ceilão, Sumatra, Nova Zelândia, Ilhas Salomão, Filipinas, Mongólia, Rodésia (atual Zimbábue). Quais foram seus fundamentos teóricos que embasaram essa avalanche de informações antropológicas? Especialmente o historicismo antropológico de Franz Boas (1858-1942), a antropologia social de James George Frazier (1854-1941) e a abordagem sociológica de Émile Durkheim (1858-1917), o que havia de mais moderno e atualizado para a época.
Após um breve capítulo dedicado à Pré-História — ou melhor, às origens pré-históricas que fizeram a civilização —, quando apresenta as primeiras descobertas arqueológicas do séc. XIX e início do XX, além de escalas geológicas de tempo, nosso autor inicia sua aventura pela Suméria e, a seguir, Egito, Babilônia, Assíria, Judeia e Pérsia. Uma grande originalidade para a época é, além das costumeiras citações de fontes (Heródoto [484-425 a.C.], Diodoro Sículo [séc. I a.C,], papiros egípcios, tabuinhas sumerianas, textos de Assurbanipal), a análise de poemas — a Epopeia de Gilgamesh (c. 2100-1200 a.C.), normas legislativas (o Código de Hamurabi [c. 1754 a.C.]) e sobretudo arte.
Demoraria algumas décadas para a historiografia incorporar cultura imagética aos estudos históricos! Um ponto alto dessa primeira parte dedicada ao Oriente Próximo é sua análise da cultura judaica e o código (hoje quase universal) dos Dez Mandamentos, esmiuçado um a um em toda a sua complexidade e avanço para a civilização.
Ao chegar à Pérsia, Durant se debruça sobre o Zoroastrismo e sua moral (as religiões serão pontos fulcrais para suas considerações a respeito das transformações culturais pelas quais as civilizações sofreram mutação e desenvolvimento). Como quando aborda o Egito (VIII.9), há um subcapítulo sobre a arte que deixa a narrativa muito imaginativa, capítulo esse emendado com o avanço de Alexandre Magno (356-323 a.C.) até Gaugamela (331 a.C.).
No entanto, considero o ponto alto do livro o capítulo sobre a Índia — talvez mais ainda do que os posteriores, sobre a China e o Japão. Buda (c. 563-483 a.C.) é o grande personagem desse primeiro volume de A história da civilização. A análise de Durant do Budismo — com as quatro nobres verdades — e sua narrativa com a continuação do avanço militar de Alexandre Magno são magistrais.
Há um interessantíssimo capítulo sobre a vida do povo indiano (que antecipa em décadas a history from below [a história vista de baixo] britânica e marxista),4 com destaque para a inacreditável condição feminina no Hinduísmo, quando, ao chegar a seu fim, o leitor ocidental poderá intimamente agradecer ao Cristianismo o fato de termos hoje uma cultura com tamanha liberdade para a mulher (se comparada às tradições orientais).
A rica e complexa história da Índia possibilita que Durant narre todo o drama de suas invasões, especialmente a islâmica, que ele chega a afirmar que lhe traz enorme desânimo para dissertar, pois percebe a enorme fragilidade da civilização e como ela pode ser facilmente destruída pelos bárbaros externos (ou internos). São páginas que reli com horror, e que me fizeram recordar a ferocidade da espada de Alá... Por sorte, a seguir, o historiador descreve o reinado de Akbar (1542-1605) e seu legado para a civilização indiana. A cultura ameniza o drama da existência.
A decisão metodológica de criar uma história total obriga Durant, prazerosamente, diga-se de passagem, a considerar a vida intelectual e a Literatura. A língua, sua gramática e as obras clássicas das civilizações. No caso da Índia, o Mahabharata (séc. IV a.C.), o Bhagavad Gita (séc. I a.C.), o Mṛcchakatika (séc. V a.C.) e seus poemas.
É então que sua inigualável erudição desponta — e brilha quando segue com a arte indiana (pintura, escultura, música, arquitetura). Durant avança até o século XX — decisão de ampliamento cronológico tomada apenas para esse primeiro volume de sua obra — quando termina sua narrativa com Mahatma Gandhi (1869-1948), isto é, até sua libertação da prisão (1924).
O capítulo central sobre a Índia ressalta ao leitor o grande paradoxo das civilizações: sua fiel narrativa política segue a cronologia, importantíssimo fio condutor para que se adquira a noção histórica primordial de causa e consequência, do antes e do depois (que influencia sobremaneira a melhor avaliação dos fatos).
É um método que costumeiramente surpreende o leitor, porque constatamos a regular brutalidade humana que segue pari passu à beleza dos aspectos culturais das civilizações (Literatura, Pintura, Música, etc.), o que aumenta ainda mais nossa perplexidade por sermos capazes de criar coisas tão belas ao mesmo tempo não conseguirmos nos desvencilhar de nossa agressividade, especialmente quando lidamos com outras civilizações no tempo.
Após o clímax indiano, a obra prossegue com o mesmo método total rumo ao Oriente — China e Japão. Novamente Durant brilha com sua análise sobre a filosofia, a religião, a poesia e a arte chinesas, além de suas reflexões sobre a vida do povo chinês. Juntamente com o capítulo sobre a Índia, é outro ponto alto do livro — e uma excelente e erudita introdução para quem deseja se aprofundar nessas culturas orientais. Aliás, essa será a principal característica de toda a sua obra: incitar o leitor a estudar mais.
Quanto ao Japão, pelas próprias características (mais incisivas) de sua civilização, o conteúdo é mais impositivo: os imperadores, os xoguns, os samurais... Uma vez mais, chama a atenção a tremenda capacidade do historiador de narrar política e cultura, história, antropologia e psicologia, uma delicada análise artística recheada de reflexões de filosofia prática. E mais uma vez, os capítulos sobre a cultura do Japão imediatamente após sua narrativa política são muito instigantes. Prosa e poesia, arquitetura e metalurgia, cerâmica e pintura: qual historiador hoje é capaz de abarcar tantos aspectos de uma cultura?
Quando sua narrativa chega ao século XIX, cresce a tensão histórica com as revoluções nipônicas (industrial, cultural), e nosso autor apresenta um surpreendente desfecho sociológico, já que prevê a guerra que se avizinha — o texto foi escrito em 1934 — de um modo pessimista porque realista e que muito lembra a narrativa e as conclusões de outra premiada historiadora norte-americana, Barbara W. Tuchman (1912-1989), já que baseia sua previsão (algo costumeiramente indesejado pelos historiadores) com um conhecimento histórico aprofundado e erudito.5 Quem conhece a História pode ser capaz de prever seus desdobramentos com razoável acerto.
***
Na segunda metade do século xx, a historiografia ocidental perdeu sua confiança em narrativas globais, com descrição fidedigna dos fatos, e capacidade de abarcar todos os aspectos das sociedades abordadas. Sobrevieram teorias frustrantes, porque criticavam a objetividade histórica, relativizavam o conceito de verdade e defendiam micro-histórias (ainda que brilhantes) e estudos de caso bem específicos que costumeiramente desaconselhavam narrativas globais. A queda do Muro de Berlim (1989) e o definitivo descrédito do sucesso dos socialismos reais, especialmente o modelo paradigmático da União Soviética (1922-1991) deixaram os historiadores (em sua imensa maioria simpáticos ao marxismo, pela sua simplicidade esquemática) à deriva.
Por outro lado, chegou-se inclusive a ser decretado o fim da História e a vitória do sistema capitalista.6 Chegamos ao fim do século xx sem um único historiador de renome capaz de uma história total.
Neste início de século XXI, ainda vivemos nesta crise. Qual a solução? Retomar a bela escrita histórica, o conceito de verdade e a erudição.7 Por isso, ler (e reler) Will Durant, autor com essas três capacidades, nos proporciona um renovado fôlego existencial e intelectual, já que sua escrita é suavíssima, sua segurança histórica é extremamente reconfortante e sua erudição é de tirar o fôlego, ainda hoje, noventa e um anos após seu primeiro lançamento nos EUA.
Confesso: nunca encontrei historiador tão agradável de ser lido — e, por todos esses motivos, também nunca entendi inteiramente o rechaço e a má vontade com que a universidade brasileira o recebeu. Assim, é com imensa alegria que presencio seu relançamento no Brasil, feito da Editora Kírion que deve ser louvado e comemorado. É um banho de cultura histórica oferecido a você, leitor. Desfrute!
Notas
- 1. BLOOM, Harold. Como e por que ler. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
- 2. MARCO TÚLIO CÍCERO. Do sumo bem e do sumo mal [De finibus bonorum et malorum] (trad.: Carlos Ancêde Nougué). São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 97 , l. iii, v.
- 3. REALE, Giovanni. “Advertência”. In: ARISTÓTELES. Metafísica (trad.: Marcelo Perine; ensaio introdutório, texto grego com tradução e comentário de Giovanni Reale). Volume III. Sumários e comentário. São Paulo: Edições Loyola, 2002, p. xiii.
- 4. Termo cunhado em 1966 pelo historiador britânico (e socialista) Edward Palmer Thompson. Ver THOMPSON, E. P. “History From Below”. In: The Times Literary Supplement, April 7, 1966.
- 5. TUCHMAN, Barbara W. A marcha da insensatez. De Tróia ao Vietnã. São Paulo: José Olympio Editora, 1989.
- 6. FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
- 7. COSTA, Ricardo da. “Os novos desafios do Fim da História”. In: COSTA, Ricardo da. Delírios da Idade Média. Santo André, SP: Armada, 2020, p. 83-94.