O papel do amor cortês e dos jograis na Educação da Idade Média

Guilherme da Aquitânia (1071-1127) e Ramon Llull (1232-1316)

Est enim amicitia nihil aliud nisi omnium diuinarum humanarumque rerum cum beneuolentia et caritate consensio; qua quidem haud scio an, excepta sapientia, nihil melius homini sit a dis immortalibus datum. Cícero, DE AMICITIA, 20, VI.

A amizade não é senão uma harmonia entre todas as coisas, tanto divinas quanto humanas, acompanhada pela benevolência e a estima; creio que, realmente, à exceção da sabedoria, não há nada melhor que ela, das coisas outorgadas pelos deuses imortais ao gênero humano.

Uma civilização não se alicerça em uma cultura somente com a educação formal, das escolas. Para que o papel das instituições se concretize, é necessário que, antes, haja um fermento, uma ebulição cultural, baseada primordialmente naquele desejo pessoal e íntimo de melhorar, de se melhorar. Sem essa alavanca, não há esforço bem sucedido; sem esse élan, sem esse gérmen, sem esse preparo do terreno, não há semeadura que brote, que desabroche e que frutifique a partir da terra.

A Idade Média viu florescer esses dois movimentos que se fundiram na Educação. De um lado, na raiz, o persistente trabalho institucional dos clérigos e monges da Igreja Católica preservou o conhecimento antigo e a tradição educacional das sete artes liberais, remodeladas na caritas cristã, nos mosteiros e escolas, e, posteriormente, no original fruto dessa bela árvore, as universidades.

De outro, a iniciativa secular, visível aos historiadores nos movimentos culturais, que podem ser percebidos, principalmente, a partir do fim do Império Carolíngio, com o fracionamento do poder naquilo que costumamos chamar de feudalismo, e a difusão das cortes principescas, pólos de poder, mas, sobretudo, de cultura profana.

E uma das manifestações seculares mais visíveis e determinantes para o processo civilizador medieval foi a do movimento trovadoresco, difundido no Ocidente a partir do sul da França, mais particularmente desde os poemas de Guilherme IX da Aquitânia (1071-1127), poderosíssimo duque daquela parte romanizada do território francês (além de conde de Poitiers).

Naquele mosaico de senhorios de todos os tipos e tamanhos que compunham o sul da França, floresceu uma poderosa vida social em torno das cortes e ao redor das damas castelãs e das outras senhoras de uma maneira geral, um refinado lirismo antes desconhecido.

De uma rudeza vulgar expressa em seus versos dos primeiros tempos, aqueles homens, até então educados unicamente para demonstrar seus dotes mais viris na violência da guerra e dos torneios, logo passaram a exaltar poeticamente o gozo fugaz, a submissão à dama, a fidelidade amorosa, a melancolia da paixão ardente, e a natureza como suma mestra da vida.

Em outras palavras: o amor manifestado no lirismo das poesias que gradativamente aqueles homens violentos expressaram às mulheres ajudou, lentamente, a moldar, a refinar, enfim, a construir o depositório educacional europeu no qual as instituições cristãs solidificaram.

As cortes se tornaram centros de patrocínio literário. Prestígio. Artistas deambulavam de um castelo a outro. As pulsões se tornaram mais controladas – afinal, a presença da castelã, da domina, impunha formas mais pacíficas e suaves de conduta, de sociabilidade. Pois não era ela para que convergiam os olhares e desejos?

Mas qual o peso da moderação das paixões e a sublimação dos instintos na construção de uma educação mais sólida e profunda? Sem dúvida, enorme. Essa lentíssima evolução em direção a uma sociedade refinada e educada pode ser percebida de muitas formas. Mostrarei apenas dois casos. O primeiro, o gradativo refinamento do próprio Guilherme da Aquitânia. Depois, desejo indicar o quanto a descoberta do amor por parte dos homens – e todas as conseqüências sociais disso (como o adultério, por exemplo) – revoltaram os moralistas, os ascéticos, os desejosos de purificação espiritual.

Nesse último caso, basear-me-ei no alerta do filósofo Ramon Llull (1232-1316) contra a lascívia dos jograis, do canto, da música. Entre um e outro, a distância de um século e meio. Nesse tempo, a Idade Média viu nascer a educação dos homens com as mulheres, a aceitação da submissão do fisicamente mais forte à vontade do mais fraco, enfim, a civilização.

I. Meu nome é mestre certeiro: Guilherme da Aquitânia (1071-1127)

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Guilherme da Aquitânia. Bibliothèque Nationale, MS cod. fr. 12473 (séc. XIII).

Em sua História Eclesiástica, o monge Orderico Vital (1075-1142) nos diz que o duque Guilherme foi “...audaz e probo, sobretudo jucundo, inclusive superando, com suas múltiplas graças, aos histriões mais graciosos” (hic audax fuit et probus, nimiumque jocundus, facetos etiam histriones facetiis superans multiplicibus).

Por sua vez, o historiador inglês Guilherme de Malmesbury (c. 1080-1145), em sua De gestis regum Anglorum, nos conta:

Vivia então Guilherme, conde de Poitou, homem fútil e velhaco que, após deixar Jerusalém (...), retornou à indolência no lodaçal de todos os vícios (...) Além disso, revestindo suas tolices com um certo encanto superficial, fazia-as passar por agudezas, distendendo com risos os maxilares de suas audiências (...) Proclamava insensatamente que iria estabelecer esta ou aquela moça, de quem dizia o nome, todas de bordéis famosos, como sua abadessa, sua prioresa, e outros cargos oficiais seus.

Malmesbury ainda nos diz que esse conde, estúpido e lascivo (fatuus et lubricus), conquistou a esposa de um visconde, “uma rameira”, gravou sua imagem em seu escudo, e inúmeras vezes afirmou que a sustentaria nas batalhas, da mesma forma como ela fazia com ele na cama (sabemos hoje que se tratava de Aenor Dangereuse, a Perigosa, esposa do malfadado Aimerico I de Rochefoucauld, visconde de Châtellerault).

Godofredo, abade de Vigeois (1170-1184), em sua Crônica, tampouco é indulgente com Guilherme: “ele nunca se conformou ao nome cristão, pois foi um ardente amante de mulheres e, por isso, foi inconstante em todas as suas atividades (verumtamen nomini christiano nihil contulit; era nempe vehemens amator feminarum; idcirco in operibus suis inconstans extitit), e Godofredo, o Gordo, em sua Vida do beato Bernardo, fundador da congregação de Tirônio, na Gália (1251), acusa Guilherme de totalmente inimigo da pudicícia e da castidade (totius pudicitiae ac sanctitatis inimicus).

Com todas essas considerações deixadas pelos medievais aos pósteros, sabemos que Guilherme IX da Aquitânia foi um homem que viveu uma vida dedicada aos prazeres carnais. Às mulheres. Para a nossa sorte, ele canalizou parte dessa energia pulsante para as letras, e escreveu, e cantou. Restaram onze canções de sua autoria, nas quais podemos vislumbrar um mundo fascinado pela descoberta do amor, e indeciso entre a luxúria desordenada e sua sublimação no amor cortês.

Assim, em uma de suas canções, duas mulheres são como cavalos prestes a serem selados (I, 3); em outra, duas fogosas senhoras participam de um ménage à trois com nosso poeta, que tem cento e oitenta e oito (!) relações sexuais com elas (V, 14).

Contudo, pouco a pouco – ou paralelamente, pois a datação das canções é motivo de controvérsia – seu lirismo pornográfico caminha ao lado de uma poesia mais elevada, refinada, de amor à natureza, submissão à amada, louvor à alegria do prazer, ao entusiasmo do gozo e à felicidade de viver o amor (joi).

Por exemplo, a Canção VII assim inicia:

Pos vezem de novel florir

Pois vemos novamente florir

pratz, e vergiers reverdezir,

os prados, e os vergéis reverdejarem,

rius e fontanas esclarzir,

os rios e as fontes clarearem

auras e vens

auras e ventos,

ben deu chascus lo joi jauzir

bem deve cada um gozar o gozo

don es jauzens.

do qual está gozoso.1

Embora sua fanfarronice permaneça e ele se jacte de sua performance

Qu’ieu ai nom maistre certa:

Meu nome é “mestre certeiro”:

ja m’amigu’ anueg no m’aura

jamais minha amiga me terá uma noite

que no’m vueill’ aver l’endema;

sem me desejar ter no dia seguinte;

qu’ieu soi be d’est mester, so’m va,

pois sou bom neste ofício, e sou envaidecido

tant ensenhatz

e tão habilidoso,

que be’n sai gazanhar mon pa

que bem sei ganhar meu pão

en totz mercatz.

em qualquer mercado. (VI, 6)

Guilherme ao mesmo tempo inaugura a delicada prostração masculina ao “sexo frágil”:

Ja no sera nuils hom bem fis

Ninguém será bem feito

contr’amor, si non l’es aclis,

no amor, se não se inclinar a ele,

et als estranhs et als vezis

nem se com estranhos e vizinhos

non es consens,

não for aquiescente

et a totz sels d’aicels aizis

e a todos os seus

obediens

obediente. (VII, 6)

 

 

Qu’ans mi rent a lieis e’m liure,

Pelo contrário, me submeto e me entrego a ela:

qu’en as carta’m pot escriure.

pode inscrever-me em sua lista

E no m’en tenguatz per iure,

e não me tenhas por ébrio

s’ieu ma bona dompna am;

se amo a minha boa senhora,

quar senes lieis non puesc viure,

pois sem ela não posso viver

tant ai pres de s’amor gran fam.

tamanha fome tenho de seu amor. (VIII, 2)

Na profunda transformação que o amor causa no coração e no comportamento dos homens, o poeta louva o poder da amada e enaltece sua beleza:

Per son joi pot malaus sanar,

Através de seu gozo, pode o doente sarar,

e per sa ira sas morir,

e por sua ira, o são morrer,

e savis hom enfolezir,

o sábio enlouquecer,

e belhs hom sa beutat mudar,

o belo, sua beleza mudar,

e’l plus cortes vilaneiar,

o mais cortês, rusticar,

e’l totz vilas encortezir.

e o mais vil, cortejar. (IX, 5)

 

 

Que plus ez blanca qu’evori,

Ela é mais branca que o marfim,

per qu’ieu autra non azori,

por isso, outra não adoro.

Si’m breu no’n ai aiutori,

E se rapidamente não tiver a ajuda

cum ma bona dompna m’am,

do amor de minha boa senhora,

morrai, pel cap Sahn Gregori,

morrerei, pela cabeça de São Gregório,

si no’m baiz’ en cambr’ o sotz ram.

se ela não me beijar, no quarto ou sob o ramo. (VIII, 3)

Na Canção X, o amor conjuga-se na Primavera, pois ela é o lugar do amor, tempo propício porque doce:

Ab la dolchor del temps novel

Com a doçura do novo tempo

foillo li bosc, e li aucel

os bosques se cobrem de folhas, e as aves

segon lo vers del novel chan:

segundo o verso do novo canto.

adonc esta be c’om s’aisi

Então está bem que cada um se torne

d’acho dont hom a plus talan.

aquilo que mais deseja.

 

 

De lai don plus m’es bon e bel

Do melhor e mais belo lugar

non vei mesager ni sagel,

não vejo mensageiro nem carta.

per que mos cors non dorm ni ri

Por isso, meu corpo não dorme, nem ri

ni no m’aus traire adenan,

nem me atrevo a seguir adiante

tro qu’eu sacha ben de la fi,

até que saiba bem se o final

s’el’es aissi com eu deman.

será assim como desejo.

La nostr’amor va enaissi

Com o nosso amor ocorre o mesmo

com la brancha de l’albespi,

que à rama do espinho branco

qu’esta sobre l’arbr’ en creman,

que treme sob a árvore

la nuoit, ab la ploi’ ez al gel,

à noite com a chuva gelada

ro l’endeman, que l sols s’espan

até o dia seguinte, quando o Sol se estende

per la fueilla vert el ramel.

pelas verdes folhas e ramos.

Em sua última canção (XI), Guilherme, já próximo do fim de sua luxuriosa vida, considera a morte, melancolicamente se despede das vaidades do mundo e pede a Deus que o aceite em Sua Glória:

De proeza e de joi fui,

Pertenci à proeza e à alegria,

mais ara partem ambedui;

mas agora parto de ambas

et iei irai m’en a Cellui

e me dirijo Àquele

on tut peccador troban fin.

no qual todo pecador encontra fim.

 

 

Mout ai estat cuendes e gais,

Muito jovial e alegre tenho sido

mas Nostre Seigner no’l vol mais:

mas Nosso Senhor não o quer mais.

ar non puesc plus soffrir lo fais,

Agora não posso mais suportar o peso,

tant soi aprochatz de la fi.

tão próximo estou do fim.

 

 

Tot ai guerpit cant amar sueill:

Abandonei tudo o que costumava amar,

cavalaria et orgueill;

cavalaria e orgulho,

e pos Dieu platz, tot o acueill,

e como a Deus agrada, tudo aceito

e prec Li que’m reteng’ am Si.

e Lhe rogo que me retenha Consigo.

 

 

Toz mos amics prec a la mort,

Na morte, peço a todos os meus amigos

que’i vengan tut e m’onren fort;

que venham e me honrem fortemente

qu’ieu ai agut joi e deport

pois mantive a alegria e a diversão

loing e pres et e mon aizi.

distante e próximo de minha casa.

e vair e gris e sembeli.

e às peles de arminho, de esquilo cinza e de zibelina. (Canção XI, 7-11)

Ao navegar entre a vulgaridade e o sublime, o primeiro trovador nos mostra o impacto do amor entre aqueles homens rudes, até então acostumados somente com a rispidez do exercício da violência. Será que podemos imaginar o quanto as estruturas educacionais foram favorecidas por esses novos homens que aprenderam a sofrer, a considerar, a se angustiar e devanear com aquele novo e profundo sentimento que transborda nessas poucas linhas que o tempo nos legou?

Não devemos, pois, subestimar o papel do amor cortês no processo civilizacional cristão. Até porque, mesmo entre os clérigos, na educação formal, não se deixava de considerar a importância do amor: segundo Tomás de Aquino (1225-1274), para aprender verdadeiramente, o homem deveria ter solicitude e afeto por aquilo que queria recordar, pois, onde não houvesse interesse e amor, não se fixariam as impressões na alma. Saber de cor era saber com o coração, isto é, com amor.

II. Como se proteger do que fazem os jograis: Ramon Llull (1232-1316)

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Iluminura V do Breuiculum (c. 1325, St. Peter perg. 92, folio 5r). Baden Memorial Library. Karlsruhe, Alemanha. Foto: Prisma/UIG via Getty Images (public domain).

O efeito dessa descoberta foi devastador: nunca mais as relações sociais entre homens e mulheres foi a mesma. Contudo, só podemos supor que a Educação passou a se difundir a partir das escolas e universidades sob um novo fundo social, no qual novas regras mais delicadas, de conduta e comportamento, muito lentamente foram estabelecidas.

Além disso, as conseqüências do ponto de vista moral foram igualmente avassaladoras. Sim, porque o amor, para os medievais, só poderia nascer da livre escolha, fora do casamento, e entre uma mulher mais velha, casada, portanto, com experiência de vida, e um jovem, solteiro, que, apaixonado, juraria fidelidade e segredo a essa senhora.

Nosso segundo personagem dista século e meio de Guilherme. Ramon Llull cresceu em meio ao ambiente cortês de Jaime II de Maiorca (1243-1311). Quando jovem, já casado, ele mesmo nos conta, em sua autobiografia, que se dedicava a compor vãs cantilenas ou canções, “...assim como a outras lascívias desse século”:

Quan Ramon era senescal de la taula del Rei de Mallorca, era encara jove i es dedicava massa a la composició de vanes cantilenes o cançons així com a altres lascívies del segle. Una nit estava assegut al costat del seu llit, dispost a compondre i escriure en la seva llegua vulgar una cantilena sobre certa dona que llavors amava amb una amor fada.

Quando Ramon era senescal da mesa do rei de Maiorca, era ainda jovem e se dedicava muito à composição de vãs cantilenas ou canções, assim como a outras lascívias desse século. Uma noite, estava sentado na cabeceira de seu leito e disposto a compor e escrever em sua língua vulgar uma cantilena sobre certa senhora que então amava com um amor feiticeiro. (Vida Coetânia, I, 2)

Essa é a única informação do passado trovadoresco de nosso autor em suas memórias antes de sua conversão a Cristo. Trinta anos em poucas linhas! Mas isso é fácil de explicar: como todas as estórias contadas na Idade Média deveriam servir de exemplo para seus ouvintes, não é de se admirar que uma vida desregrada em uma biografia merecesse um espaço tão exíguo.

Contudo, encontramos algumas lamentações de nosso autor a respeito de seu passado cortês em outra monumental obra sua, o Livro da Contemplação (c. 1275):

Ah misericordiós Senyor, ple de misericòrdia e de pietat! La mia subtilea és estada en moltes malvades obres, car jo m’assubtilava, Sènyer, en fer engans e falsies e en cantars e en trobars e en moltes altres coses qui re no vallien, e en los defalliments ni en les errades que jo faïa no m’assubtilava a conèixer aquelles errades ni aquells falliments.

Ah, Senhor misericordioso, cheio de misericórdia e de piedade! Minha sensibilidade tem estado em muitas obras más, pois eu me sensibilizava, Senhor, em cometer enganos, falsidades, cantares, trovas, e em muitas outras coisas que não valiam nada. Além disso, nas faltas e erros que cometia, eu não me sensibilizava em entender aqueles erros nem aquelas faltas. (CCVIII, 19)

Assim, ninguém melhor que um ex-jogral para expor as mazelas do ofício. E o alerta do filósofo é extremamente realista e contundente: ele não conhece outra arte tão vil como a dos jograis (art de joglaria), pois apesar de o trovador ter seu entendimento, memória e vontade concentrados nas palavras, no som e nas canções que deseja compor (cançó que vol atrobar), ele só o faz para exaltar as luxúrias e vaidades desse mundo, soando instrumentos e cantando putarias (sonen los estruments e qui canten de putaria) (CXVIII, 3).

Os jograis são amados, queridos e instados por todos, mas louvam somente os homens luxuriosos, gastadores, cheios de vícios e pecados (CXVIII, 11) – aqui não podemos deixar de lembrar-nos da imagem paradigmática de nosso primeiro trovador, Guilherme da Aquitânia. E pior: os jograis causam uma terrível desordem social, especialmente na moral, pois (à maneira de Guilherme) corrompem as mulheres, casadas ou não:

Eternal Senyor en lo qual són acabades totes les glòries e totes noblees e totes vertuts; nós veem que per ço que.ls joglars fan e dien, que són contençons e guerres e baralles enfre.ls prínceps el.s cavallers e.ls pobles. E per los joglars són dones desmaridades, e poncelles corrompudes e ensutzades; e per los joglars són hòmens altius e ergulloses, e desconeixents e deslleials.

Eterno Senhor, no qual são finitas todas as glórias, nobrezas e virtudes. Nós vemos que, por causa do que os jograis fazem e dizem, existem disputas, guerras e batalhas entre os príncipes, os cavaleiros e os povos. Por causa dos jograis, as senhoras perdem seus maridos e as donzelas são corrompidas e maculadas, e, por causa dos jograis, os homens se tornam altivos, orgulhosos, mal-agradecidos e desleais. (CXVIII, 7)

Os jograis soam seus instrumentos à noite, pelas praças e ruas, e movem os corações das mulheres à putaria (moven lo coratge de les fembres a puteria). Por isso, aliciadas, elas cometem falsidades e traições a seus maridos (facen falsia e traïció a lurs marits, CXVIII, 8).

O filósofo sonha em ver jograis que digam a verdade, e tratem dos cinco sentidos corporais e espirituais, e que não somente “..cantem, dancem, e soem instrumentos diante dos homens para dar alegria e prazer em seus cantares” (CXVIII, 22), para assim ganharem de seus senhores “...cavalos, palafréns, copos de prata, nobres vestimentas, dinheiros de ouro e prata, e outros ricos dons” (CXVIII, 26). Existe melhor retrato social de uma época do que as denúncias dos moralistas?

E Ramon conclui:

Com jo vostre servidor e.l vostre sotsmès haja estat, Sènyer, ça enrera fals loador e mintent maldeïdor, pus que vós l’havets esguardat ab los vostres ulls piadosos plens de misericòrdia, d’aquí avant proposa, Sènyer, que sia vertader joglar, en donar laor vertadera de son senyor Déu.

Como eu, vosso servidor e súdito, Senhor, há tempos tenho sido um louvador falso e desprezível, além de um mentiroso amaldiçoador, e como Vós haveis olhado [para mim] como os Vossos olhos piedosos e cheios de misericórdia, daqui em diante eu proponho, Senhor, ser um verdadeiro jogral, e dar o verdadeiro louvor de meu Senhor Deus. (CXVIII, 30)

A partir de então, como expresso acima, Ramon decide ser um trovador da fé de Cristo, um jogral de Deus (joculator Dei), proposta de cariz franciscano típica da pregação urbana do século XIII.

Somada a isso, suas invectivas contra os jograis mundanos nos mostram o quanto a “arte da jograria” era estimada pela sociedade medieval, e o quanto a descoberta da cortesia e do amor cortês refinaram as sociabilidades e alteraram as sensibilidades da época, proporcionando condições muito mais propícias para a educação e o ensino de um modo geral.

Conclusão

Immanuel Kant (1724-1804) nos ensinou o valor do conceito de Humanidade, aquilo que é comum a todos os seres humanos, em todos os tempos (ou deveria sê-lo). No caso do filósofo alemão, a trágica e orgulhosa consciência humana de princípios auto-impostos e aprovados, e a convicção da dignidade do homem baseada em valores, mas também na serena aceitação de nossas limitações.

Essa consciência que o Ocidente tem (ou tinha) de si mesmo foi laboriosamente construída durante a Antiguidade e a Idade Média, especialmente com base na educação clássica, moldada por séculos de cultura cristã. Não é à toa que a mulher ocidental possui características notadamente distintas da mulher oriental, particularmente no que diz respeito à posição que ocupa – ou pode ocupar – na sociedade.

A educação ocidental difundiu-se com base no conceito de amor. Seu terreno expandiu-se generosamente no período que esse pequeno trabalho se debruçou. Nosso olhar para trás pretendeu redimensionar a história de nossa cultura, e tentou compreender os fios que a teceram. Amorosamente.

***

Este opúsculo é dedicado ao querido mestre Jean Lauand,
que soube, com seus maravilhosos textos,
mostrar o valor do conhecimento como escada para a Sabedoria.

Fontes

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Guillermo IX. Duque de Aquitania y Jaufré Rudel. Canciones completas (edición bilingue preparada por Luis Alberto de Cuenca y Miguel Angel Elvira). Madrid: Editora Nacional, 1978.

SPINA, Segismundo. A Lírica Trovadoresca. São Paulo: Edusp, 1996.

RAMON LLULL. Obres Essencials (OE). Barcelona: Editorial Selecta, 1960.

Bibliografia

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DUBY, Georges. A Idade Média na França (987-1460). De Hugo Capeto a Joana D'Arc. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.

DUBY, Georges. “O modelo cortês”. In: DUBY, Georges e PERROT, Michele (dir.). História das Mulheres no Ocidente. Volume 2 - A Idade Média. Porto: Edições Afrontamento / São Paulo: Ebradil, s/d, p. 330-351.

MEADE, Marion. Eleonor de Aquitânia. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.

OLIVEIRA, Terezinha. “O feudalismo e a educação nos castelos medievais”. In: OLIVEIRA, Terezinha (org.). II Ciclo de Estudos Medievais: Saber e Poder na Idade Média. Anais Completos. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2000, p. 148-155.

PANOFSKY, Erwin. Significado nas Artes Visuais. São Paulo: Editora Perspectiva, 1991.

PERNOUD, Régine. A Mulher nos tempos das cruzadas. Campinas: Papirus, 1993.

Notas

  • 1. Todas as traduções são nossas.

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