A Roda da Fortuna nos Dictats de Ausiàs March (c. 1397-1439)

Ricardo da COSTA

Resumo: A alegoria da Roda da Fortuna é tema recorrente no pensamento medieval. Sobretudo na Filosofia e na Literatura. O tema, romano, mas herdado sobretudo da Consolação da Filosofia, de Boécio (c.477-524), chegou à Poesia de Ausiàs March (c.1397-1459), poeta que viveu no período de expansão da Coroa de Aragão no reinado de Afonso, o Magnânimo (1396-1458). A proposta do trabalho é abordar essa imagem em seus Dictats, e como o poeta desenvolveu literariamente o tema da instabilidade da Roda.

Abstract: The allegory of the Wheel of Fortune is a recurring theme in medieval thought, particularly in Philosophy and Literature. This topic, Roman, but inherited above all from Consolation of Philosophy, by Boethius (c.477-524), influenced the Poetry of Ausiàs March (c.1397-1459), a poet who lived in the period of expansion of the Crown of Aragon during the reign of Alfonso the Magnanimous (1396-1458). Our aim is to analyze this image in his Dictats and how the poet dealt in his work with the topic of the instability of the Wheel of Fortune.

Palavras-chave: Ausiàs March – Roda da Fortuna – Literatura.

Keywords: Ausiàs March – Wheel of Fortune – Literature.

Imagem 1

Altar pintado (sécs. I-III). Provavelmente de uso privado (imagens típicas dos larari [templos de casas particulares]). São uma mensagem de boa sorte, conforme a linguagem simbólica da era augustana. Lado A: a deusa Tellus (Terra) ou Ceres, com orelhas de trigo (símbolo da fertilidade e da abundância); abaixo, em mármore preto, uma cabeça de Dionísio/Baco; Lado B: a Fortuna-Abundantia, com cornucópia e leme descansando em uma roda, símbolos das reviravoltas do destino; Lado C: Hércules com uma clava, pele de leão e uma taça na mão; Lado D: uma Vitória alada, nua, com um ramo de palma na mão esquerda e uma coroa vegetal na direita, gesto de coroação do vencedor. Civico Museo Archeologico di Milano, inventário A 0.9.1070. Fotos: José Luiz Bernardes Ribeiro (esquerda) e ArchaiOptix (direita).

I. Antecedentes

A deusa é antiga. Já os gregos adoravam Tique (Τəχη), divindade tutelar que governava os destinos de uma cidade (seu atributo era uma coroa amuralhada1). Como Fortuna (Fors), seu culto foi ampliado em Roma por Sérvio Túlio (r. 578-535 a. C.), lendário sexto rei etrusco.2 Passou a designar o acaso, ou seja, a própria vida. Temível! Fortuna Virilis era ritualmente invocada pelos homens e Fortuna Muliebris pelas mulheres.3

Muito cedo os romanos consagraram um templo à Fortuna Muliebris (pela intervenção das romanas quando do cerco de Coriolano [séc. V a. C.] à cidade).4Fortuna era adorada pela plebe e cultuada em um festival dedicado a ela, em junho, às margens do rio Tibre.5

À medida que sua devoção se ampliava, crescia também a crença de sua influência em todas as esferas da vida. Havia muitas fortunas que recebiam súplicas, libações, oferendas. Fortuna Belli (boa sorte na guerra), Fortuna Redux (para que voltassem sãs e salvos de quaisquer jornadas6Fortuna Annonaria (sorte na colheita), Fortuna Primigenia (para o primeiro filho), Fortuna Virgo (para a virgem)...

Por isso, a profusão de imagens: além de esculturas e decorações pintadas em paredes e em túmulos (imagem 1), chegaram até nós gemas esculpidas, altares (imagem 2) e amuletos.

Imagem 2

Esquerda: I(uppiter) O(ptimo) M(aximo) /CALP(urnius?). La Coruña, séc. I-II; centro: Ara à Fortuna FORT/ VNAE/ IVLIVS PLATO EX VO(to); direita: RI [...] /RO SIG(nifero)/ C(ohortis) I C(eltiberorum)/ L(ibens) A(nimo). La Coruña, séc. II. Os romanos prometiam aras (altares) a seus deuses, caso seus pedidos fossem cumpridos. Por isso a fórmula EX VOTO (“por uma promessa”) ou V(otum) S(olvit) L(ibens) M(erito) (“cumpriu seu voto de livre-vontade”). As aras costumam ter aberturas no topo para serem depositadas oferendas (perfumes, alimentos, líquidos, etc.). Aos deuses dos viajantes: Netuno (para proteger os navegantes), os Lares (deuses dos caminhos) e a Fortuna (para se ter sorte em qualquer empresa). Júpiter (I.O.M., Júpiter Ótimo Máximo) representa a obediência ao poder imperial. Autoria: Álvaro Pérez VilariñoMuseo Arqueológico Castillo de San Antón.

Para ser inequívoca e imediatamente reconhecida, seus atributos estavam sempre presentes em suas imagens. Eram basicamente três: 1) um leme (gubernaculum), 2) uma cornucópia (κάρας Ἀμαλθείας7) e 3) uma roda.8 Eles são alegorias imagéticas do rumo da vida, da prosperidade e da instabilidade, respectivamente.9

Por tudo isso, no início do Império (séc. I) já estava bem assentada no imaginário coletivo romano a ideia de que a Fortuna era a principal divindade responsável pelas inconstâncias da existência.

Por exemplo, assim se expressou o filósofo Sêneca (4 a. C. - 65 d. C.) em sua tragédia Agamemnon10:

Ó Fortuna, que com mão zombeteira concede a elevada dádiva do trono, em estado perigoso e duvidoso pões muitos exaltados. Nunca os cetros obtiveram paz calma ou posse certa; as preocupações os sobrecarregam, e sempre novas tempestades atormentam suas almas.11

II. Os cristãos e a Fortuna: Santo Agostinho e Boécio

II.1. Agostinho (354-430)

Ainda no âmbito cultural romano, mas já com o Império em processo de cristianização12, Santo Agostinho (354-430) dedicou dois capítulos de A Cidade de Deus (426) à Fortuna (um maligno demônio).

Em seu Livro II, o bispo de Hipona decidiu esclarecer que os falsos deuses greco-romanos eram

[...] espíritos imundíssimos, os mais maléficos e os mais enganadores demônios que chegaram a comprazer-se com seus crimes reais ou fictícios, e quiseram que os representassem solenemente nas suas festas para que a fraqueza humana não deixasse de cometer atos condenáveis quando uma pretensa autoridade divina os oferecia à sua imitação.13

A respeito da Fortuna, retoricamente perguntou: como ela pode ser boa ou má?

[...] como pode ser boa a que, sem discernimento, favorece bons e maus? Para que venerar então a que é de tal modo cega que cai ao acaso sobre qualquer um – preterindo o mais das vezes os seus adoradores e favorecendo os que a desprezam? [...] Se ela é, na verdade, fortuna – não interessa adorá-la. Mas se discerne os seus adoradores para os favorecer, então já não é fortuna [...].14

Apesar de tratar de um tema teológico de uma forma retórica, a argumentação de Santo Agostinho é lógica. Mostra a incongruência da pretensa influência da deusa na vida humana. Além da força intrínseca da pregação cristã – baseada em uma moral universalista com um sentimento novo e o desejo da igualdade de todos diante de sua Lei15 –, graças a esse tipo de abordagem, argumentativa, filosófica, os pensadores cristãos contribuíram muito para o deslocamento da Fortuna do campo da religião (pagã) para o da Literatura (cristã). E para a Filosofia.

II.2. Boécio (c. 477-524)

Imagem 3

Boécio (à direita) e Símaco (à esquerda), seu sogro. De institutione arithmetica. Iluminura (c. 845), Msc. Class. 5, folio 2v. Staatsbibliothek Bamberg.

Mais do que Agostinho, foi Boécio (c. 477-524) quem transmitiu à posteridade a imagem da Roda da Fortuna.16 Acusado de alta traição juntamente com o Senado durante o reinado ostrogodo de Teodorico I, o Grande (c.454-†526), enquanto aguardava o desfecho de seu processo, na prisão, o filósofo (e magister officiorum17) escreveu A Consolação da Filosofia.18

No cárcere, Boécio considerava sua triste condição. Como as coisas tomaram outro rumo. E lamentava sua sorte. Escrevia, com lacrimoso queixume. Foi então que surgiu, acima de sua cabeça,

[...] uma mulher de rosto venerando, olhos cintilantes e perspicazes mais do que a normal capacidade humana, de cor vívida e um vigor inexaurível, embora fosse tão carregada de anos que de modo algum se pensaria que fosse da nossa geração, com uma estatura difícil de definir. Na verdade, ora se reduzia ao tamanho normal dos homens, ora parecia tocar o céu com o cimo da cabeça [...].19

Uma visão! Era a própria Filosofia! Ao ver as Musas em volta de seu leito, inspirando-o (galderiazecas de teatro, vituperou), ela se exasperou com Boécio.20 E considerou tratá-lo com seus remédios. Claro: a Filosofia não era  então considerada a Medicina da Alma?21

Após algumas perguntas preliminares – a primeira e mais importante de todas, “Tu achas que este mundo é conduzido por azares fortuitos e ocasionais ou crês que existe nele algum governo racional?”22 –, a Filosofia expôs a Boécio as causas de seu sofrimento.

E ela recordou o que Boécio esquecera: a Fortuna é um monstro de multiformes e falaciosas aparências! Aparenta suavíssima afabilidade aos que deseja iludir, mas depois inesperadamente os abandona, e com intolerável dor. Sua natureza própria e constante é sua mutabilidade. Por isso, a tristeza que ela proporciona deveria ser causa de serenidade, já que é felicidade efêmera. Não se deveria recear suas ameaças, nem desejar seus favores!23

Nessa passagem é que então surge a imagem da roda, impiedosa:

Entregaste-te à Fortuna para que ela te governasse, tens de te conformar com a forma de agir da tua senhora. Mas tu tentas, pelo contrário, parar o ímpeto da roda que gira? Mas, ó, mais estúpido dos mortais, no momento em que se detivesse, deixaria de ser a Fortuna! (o grifo é meu)24

Imagem 4

Guillaume de Machaut (c. 1300-1377). Poésies: Jugement du roi de Bohème (c. 1350-1355). Remède de Fortune (23-58v). Bibliothèque nationale de France. Département des Manuscrits, iluminura, detalhe do folio 30v.

A seguir, a Filosofia confronta Boécio com as palavras da própria Fortuna:

Porque é que tu, homem, me acusas com queixas constantes? Que ofensa te fiz eu? [...] Não cometemos contra ti nenhuma violência: riquezas, honrarias e coisas quejandas caem sob a minha alçada.

[...] a insaciada cupidez dos homens há-de prender-me a uma constância que não está nos meus hábitos? É esta a minha força, é este o jogo que continuamente jogo: faço girar a roda com o seu volúvel círculo, divirto-me a passar para cima o que está em baixo e para baixo o que está em cima. Sobe, se te apraz, mas com a condição de depois não considerares injusto que as regras do meu jogo te façam descer. Ou será que ignoras os meus costumes?

[...] De que te queixas tu, se esta mesma mutabilidade que me é própria é para ti justa causa de ter esperança em coisas melhores? (os grifos são meus)25

A força alegórica dessa passagem de A Consolação da Filosofia em que, pela primeira vez, é descrita a ação da Roda da Fortuna como um atributo de um ato intrínseco da deusa26, é considerada a principal fonte literária para a profusão de seu modelo iconográfico.27

III. O Romance da Rosa

 

 

 

 

 

 

 

– Continua –

 

 

 

 

IV. Ausiàs March

 

 

Poema XXIV

Ausiàs March (c. 1397-1459)

Trad. e notas: Prof. Dr. Ricardo da Costa

Supervisão: Prof. Dr. Dr. Vicent Martines Peres

 

I.

No sec lo temps mon pensament immoble,

Meu pensamento permanece imóvel com o tempo,

 

car no és trespost de ésser en altre;

pois não se traslada de um ser a outro.

 

fortuna vol son torn variat perdre,

A Fortuna deseja abandonar a instabilidade de sua roda,

 

sí que amistat ab fermetat acapta:

pois a amizade se adquire com a estabilidade.

 

quan m’ha sentit al pus jus de son centre,

Quando me sentiu na parte mais baixa de seu centro,

05

aspres ha fets los corrons de sa roda

asperamente deteve os aros de sua roda,

 

perquè, allissant, en altre torn no munte

para que, deslizando, em outro aro não montasse

 

a seure lla on és lo gran desordre.

e estivesse onde é grande a desordem.

 

 

II.

Com l’envejós qui soberg dan vol rebre

Como o invejoso que, soberbo, dano deseja receber

 

perquè major dan son desamic senta,

para que maior dano seu inimigo sinta,

10

e pren delit del mal que veu soferre,

e se deleita com o mal que o vê sofrer

 

tant que no sent lo mal qui l’és proïsme,

a ponto de não sentir o mal que lhe está próximo,

 

tal semblant cas fortuna ab mi pratica:

tal semelhante caso a Fortuna comigo pratica,

 

faent procés, a son delit denul·le,

ao proceder com a anulação de seu deleite,

 

muda lo nom que pren d’ésser no ferma;

alterando o nome de inconstante que seu ser recebeu,

15

perd son plaer, que és no dar temps al vogi.

e perdendo seu prazer, que é o de não dar tempo à roda.

 

 

III.

Sí com aquell que adorm ab artifici

Assim como aquele que artificiosamente adormece

 

son cos perquè la dolor no soferte,

seu corpo para a dor não sofrer,

 

volgra adormir los pensaments qui·m porten

desejaria eu adormecer os pensamentos que me trazem

 

coses a què ma voluntat s’enclina,

coisas com as quais minha vontade se inclina,

20

causant en mi cobejança terrible,

causando em mim terrível cobiça,

 

passionant l’arma, qui és ajunta

apaixonando minh’alma que é unida

 

en sofertar aquest turment tan aspre

em sofrer este tormento tão áspero

 

ab lo meu cos, qui en tal cas l’acompanya.

ao meu corpo que, em tal caso, a acompanha.

 

 

IV.

Sí col castor caçat, per mort estorçre,

Assim como o castor que, caçado pela morte, se livra

25

tirant ab dents, part de son cos arranca

tirando com os dentes e arrancando partes de seu corpo

 

(per gran instint que natura li dóna

(pelo grande instinto que a Natureza lhe deu,

 

sent que la mort li porten aquells membres),

sente que a morte lhe é trazida por aqueles membros),

 

per ma raó volgra haver coneixença,

por minha razão desejaria ter conhecimento

 

posant menyspreu als desigs qui·m turmenten,

e colocar o menosprezo nos desejos que me atormentam,

30

matant lo cos, empecadant-me l’arma,

matam o corpo e inundam de pecados a alma.

 

sí que jaquir-los me cové per viure.

Claro que deixá-los me conviria para viver.

 

 

V.

En aquell punt que·l cobejar me sobta

Naquele ponto em que a cobiça me assalta

 

volgra ser foll, ab la pensa tan vana

desejaria ser louco, com meu pensamento tão vão

 

que no pensàs pus aventurat home

que não imaginaria mais aventurado homem

35

Fortuna hagués prosperat de béns mobles.

que a Fortuna tenha prosperado com bens móveis.

 

En gran calor lo fred tot hom desija,

Em grande calor o frio todo homem deseja,

 

ne creure pot que jamés l’hivern torne;

nem crer pode que jamais o inverno retorne.

 

així me’n pren com dolors me congoixen:

Assim me vejo quando as dores me angustiam:

 

creure no pusc que en part de content baste.

crer não posso que parcialmente satisfeito possa estar.

40

 

VI.

Llir entre cards, si lo comun enginy

Lírio entre cardos, se o comum engenho

 

és tan grosser que no us basta comprendre,

é tão grosseiro que não vos basta para compreender,

 

vullau ab Déu fer que, si fe los basta,

desejai que Deus faça com que, se a fé vos basta,

 

sia remés lo pecat d’amor folla.

seja remediado o pecado do louco amor.

 

 

 

 

 

***

Fontes

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Bibliografia citada

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CHILVERS, Ian (ed.). Dicionário Oxford de Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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VILLALBA I VARNEDA, Pere. Roma a través dels historiadors clàssics. Bellaterra: Universitat Autònoma de Barcelona, 1996.

Notas

  • 1. Atributos – objetos habitualmente associados a uma personagem (real ou imaginária), por meio dos quais ela pode ser identificada quando representada em forma artística [...].” – CHILVERS, Ian (ed.). Dicionário Oxford de Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 34.
  • 2. “[...] os templos da Fortuna são muito antigos e esplêndidos, adornados com todos os tipos de honras e espalhados entre as mais famosas partes e lugares de Roma. O templo da Fortuna Viril foi construído por Anco Márcio, o quarto rei, cujo nome lhe foi dado porque a Fortuna contribui muito para o valor de sua vitória. O templo da Fortuna Feminina foi consagrado pelas matronas que expulsaram Márcio Coriolano à frente de um exército que marchava contra Roma, como todos sabem. Além disso, Sérvio Túlio, que acima de todos os reis foi quem mais ampliou o poder do povo e adornou a República [...] mesmo ele se lançou sobre a Fortuna [...] ele ergueu dois templos para a Fortuna [...] Infinitas são as honras e títulos da Fortuna, a maior parte das quais foram instituídas por Sérvio, que sabia que ‘A Fortuna é de grande peso, é tudo, em todos os assuntos humanos’[...].” – PLUTARCH. De fortuna Romanorum 10. In: Plutarch’s Morals. Translated from the Greek by several hands. Corrected and revised by William W. Goodwin, PH. D. Boston. Little, Brown, and Company. Cambridge. Press Of John Wilson and son. 1874. 4.
  • 3. Mas também poderia ocorrer o inverso (mulheres rogando os favores da Fortuna Virilis). Por exemplo, Ovídio (43 a.C.-17 d.C.) afirmou que Fortuna Virilis tinha o poder de ocultar os defeitos da pele das mulheres aos olhos dos homens. Bastava um pouco de incenso em sua honra (Fastos [Fasti] 4, 145-150).
  • 4. TITO LÍVIO. História de Roma. AB URBE CONDITA LIBRI. Primeiro volume (introd., trad. e notas de Paulo Matos Peixoto). São Paulo: Editora Paumape, 1989, p. 161 (Livro II, 40).
                “El paper, doncs, de les dones en els afers públics a Roma fou sempre molt destacada [...].” – VILLALBA I VARNEDA, Pere. Roma a través dels historiadors clàssics. Bellaterra: Universitat Autònoma de Barcelona, 1996, p. 117.
  • 5. OVID. Fastos [Fasti] 6, 771.
  • 6. Após o retorno de Augusto (63 a. C. - 14 d. C.) de uma campanha na Ásia Menor, em 19 a. C., o culto à Fortuna Redux foi muito difundido, a ponto de, posteriormente, ser erguido um altar em sua homenagem, o Ara Fortunae Reducis, enaltecido pelo poeta Marcial (c. 40-104) em um de seus Epigramas (VIII, 65), pelo retorno de Domiciano (51-96) em 93 da Germania. Ver VALERIUS MARTIALIS. Epigrammaton, Libri XII (Imperatori Domitiano Caesari Augusto Germanico Dacico), Liber VIII, LXV. In: BIBLIOTHECA AUGUSTANA.
  • 7. Na Mitologia, Amalteia era a cabra de cujo leite o menino Zeus foi alimentado. De um de seus chifres fluía ambrosia e, do outro, néctar. Segundo outros, Amalteia era uma ninfa que dona da cabra que amamentou o deus. Alguns diziam que, em agradecimento por ter sido alimentado com o leite do animal, Zeus fez uma constelação da cabra e deu um de seus chifres às ninfas que o criaram, simultaneamente ordenando que o chifre produzisse o que elas pedissem.
                “E chegando a Cálidon (Καλυδών), Hércules cortejou Dejanira, filha de Eneu. Ele lutou pela mão dela com Aqueloo, que assumiu a aparência de um touro, mas Hércules quebrou um de seus chifres. Assim, Hércules se casou com Dejanira, mas Aqueloo recuperou seu chifre e deu o chifre de Amalteia em seu lugar. Ora, Amalteia era filha de Hemônio, e tinha um chifre de touro que, segundo Ferécides, tinha o poder de fornecer carne, bebida em abundância, ou o que se desejasse.” – APOLLODORUS. Biblioteca. Livro II, cap. 7, seção 5 (english translation by Sir James George Frazer, F.B.A., F.R.S. in 2 Volumes. Cambridge, MA, Harvard University Press; London, William Heinemann Ltd. 1921. Includes Frazer’s notes). The Annenberg CPB/Project provided support for entering this text.
  • 8. Embora menos recorrente no rol de imagens da deusa, também o globo é um atributo da Fortuna (alegoria do acaso e da noção de tempo como imprevisível alternância da vida). Por exemplo, em uma pintura holandesa do séc. XVI, de autor anônimo (atualmente no Museu de Belas-Artes de Estrasburgo, ref. 00190021178), a Fortuna é representada nua, em cima de um globo e com uma esfera de cristal encimada por uma cruz.
  • 9. Para o papel da Alegoria (ἀλληγορία) como recurso literário, filosófico e estético na tradição cultural ocidental, ver SILVA, Matheus Corassa da; COSTA, Ricardo da. “A Alegoria. Do Mundo Clássico ao Barroco”. In: OSWALDO IBARRA, César; LÉRTORA MENDONZA, Celina (coords.).  XVIII Congreso Latinoamericano de Filosofía Medieval – Respondiendo a los Retos del Siglo XXI desde la Filosofía Medieval. Actas. Buenos Aires: Ediciones RLFM, 2021, p. 87-96.
  • 10. LÚCIO ANEU SÊNECA. Agamêmnon (trad., introd. e notas de José Eduardo dos Santos Lohner). São Paulo: Editora Globo, 2009.
  • 11. SENECA. Agamemnon (translated by Frank Justus Miller). Loeb Classical Library Volumes. Cambridge, MA, Harvard University Press; London, William Heinemann Ltd., 1917. In: Classical Texts Library (Chorus, 57).
  • 12. VEYNE, Paul. Quando o nosso mundo se tornou cristão [312-394]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
  • 13. SANTO AGOSTINHO. A Cidade de Deus (trad., prefácio, nota biográfica e transcrições de J. Dias Pereira). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1991, vol. I, p. 375 (Livro IV, cap. I).
  • 14. SANTO AGOSTINHO. A Cidade de Deus (trad., prefácio, nota biográfica e transcrições de J. Dias Pereira), op. cit., vol. I, p. 415-416 (Livro IV, caps. XVIII e XIX).
  • 15. “Enquanto os filósofos estoicos não se preocuparam com as massas, os mestres cristãos propagaram a boa nova a todos; apresentaram o cristianismo como uma moral realmente universalista, arraigada num sentimento novo e na igualdade de todos diante de sua lei. Foi a mais profunda revolução do período clássico tardio. Cresceu com a prédica e a especulação cristãs para formar um profundo sedimento de noções morais difundidas entre milhares de pessoas humildes.” – BROWN, Peter. “Antiguidade Tardia”. In: ARIÈS, Philippe e DUBY, Georges. História da Vida Privada 1. Do Império Romano ao Ano Mil. São Paulo: Cia. das Letras, 1991, p. 239-241.
  • 16. É maravilhosa a síntese de Robert S. López (1910-1986) sobre Teodorico: “Mas que pretendia ele afinal? As pomposas cartas de Cassiodoro, a história compilada pelo godo Jordanes, a lenda romana que nos pinta um Teodorico diabólico, engolido por um vulcão em castigo dos seus pecados, a lenda germânica que dele faz um herói sem mácula, devolvem-nos quatro imagens bem diferentes. Concordam apenas em sublinhar-lhe a grandeza. O seu reinado assinala-se à posteridade pelos mosaicos bizantinos e pelo túmulo bárbaro de Ravenna, e pelas obras filosóficas de Boécio, o último dos Romanos antigos, o primeiro dos escritores medievais. Mas Boécio, depois de longamente servir Teodorico, foi acusado de ter conspirado com o imperador de Constantinopla, e executado. O reino sobreviveu alguns anos a Teodorico mas a verdade é que os seus dias estavam contados.” – LOPEZ, Robert. O nascimento da Europa. Lisboa: Edições Cosmos, 1965, p. 29.
             Para uma fonte primária sobre Teodorico, ver JORDANES. Origen y gestas de los godos (ed. Y trad.: José María Sánchez Martin). Madrid: Ediciones Cátedra, 2001, p. 217-230 (caps. LIII-LIX, 280-306).
  • 17. O Magister officiorum era um elevado cargo da administração do Império: comandava a guarda de elite do palácio imperial (Scholae Palatinae) e as secretarias palatinas. Ver PIEPOLI, Giovanni. Il magister officiorum e le altre dignitates nell’amministrazione del tardo impero romano. Verlag, 2017.
  • 18. Um tribunal composto por cinco senadores (Iudicium Quinquevirale) condenou-o à morte. Para o tema, ver COSTER, Charles Henry Coster. The Iudicium quinquevirale. Cambridge, Massachusetts, The Mediaeval academy of America, 1935.
  • 19. BOÉCIO. Consolação da Filosofia (trad.: Luís M. G. Cerqueira). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011, p. 18 (I, 1-2).
  • 20. BOÉCIO. Consolação da Filosofia (trad.: Luís M. G. Cerqueira), op. cit., p. 19 (I, Prosa 1, 8).
                As Musas (μοῦσαι) habitavam o monte Helicão. Ali estavam sob a dependência do deus Apolo, que dirigia seus cantos junto à Fonte de Hipocrene. Eram representadas como virgens de comprovada castidade. São elas: Calíope (musa da eloquência e da poesia épica. A ela os poetas se dirigiam à procura de inspiração), Clio (“a que celebra”. Cantava a glória dos guerreiros e as conquistas de um povo. Patrona da História), Euterpe (“a doadora de prazeres”, presidia a Música e era considerada a inventora da flauta e de outros instrumentos de sopro), Tália (presidia a Comédia e a Poesia), Melpômene (musa da Tragédia, mas também do Canto e da Harmonia musical), Polímnia (“A de muitos hinos”, musa da Oratória e do Ditirambo [canto coral ao deus Dioniso]), Erato (“A amável”, musa da Poesia lírica), Terpsícore (da Dança e dos Coros dramáticos) e Urânia (quem presidia a Astronomia e as Ciências Exatas).
                APOLLODORUS. Biblioteca. Livro I, cap. 3 (english translation by Sir James George Frazer, F.B.A., F.R.S. in 2 Volumes. Cambridge, MA, Harvard University Press; London, William Heinemann Ltd. 1921. Includes Frazer’s notes). The Annenberg CPB/Project provided support for entering this text.
  • 21. “[...] Não consigo imaginar qual possa ser a causa, Bruto, pela qual, sendo nós formados de alma e de corpo, se inventou uma arte com a finalidade de curar e de velar pela saúde do corpo, e até se atribuiu aos deuses imortais a descoberta de uma prática tão útil, ao passo que a medicina da alma, não só não se lhe sentia a falta antes de ter sido inventada, como não tem sido muito praticada desde a sua descoberta, e, além de não merecer a gratidão e a aprovação da maioria, ainda por cima incorre na má vontade e na suspeição de muitos! Será porque nos damos conta do mal-estar e das dores do corpo por meio da mente, ao passo que as doenças da mente não as sentimos no corpo? [...] Existe, de certeza, uma medicina para a mente: a filosofia, cuja ajuda não tem de vir de fora, como sucede com as doenças do corpo, pelo contrário, devemos recorrer a todas as nossas forças para sermos capazes de nos curarmos a nós mesmos.” (os grifos são meus) – MARCO TÚLIO CÍCERO. Textos filosóficos II. Diálogos em Túsculo (trad. do latim, introd. e notas: J. A. Segurado e Campos). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2014, p. 147 e 151 (Livro III, I.1 e III.6).
  • 22. BOÉCIO. Consolação da Filosofia (trad.: Luís M. G. Cerqueira), op. cit., p. 40 (I, Prosa 6, 3).
  • 23. BOÉCIO. Consolação da Filosofia (trad.: Luís M. G. Cerqueira), op. cit., p. 46 (II, 15).
  • 24. BOÉCIO. Consolação da Filosofia (trad.: Luís M. G. Cerqueira), op. cit., p. 47 (Livro II, Prosa 1, 18-19).
  • 25. BOÉCIO. Consolação da Filosofia (trad.: Luís M. G. Cerqueira), op. cit., p. 48-49 (Livro II, Prosa 2, 1-11).
  • 26. LUCÍA GÓMEZ-CHACÓN, Diana. “La Rueda de la Fortuna”. In: Base de datos digital de Iconografía Medieval. Universidad Complutense de Madrid, 2018.
  • 27. SÁNCHEZ MÁRQUEZ, Carles. “Fortuna velut luna’: iconografía de la Rueda de la Fortuna en la Edad Media y el Renacimiento”. In: eHumanista, vol. 17, 2011, p. 232.

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