O Nascimento do Ocidente

De Beowulf ao Roman de Renard

Ricardo da COSTA

In: CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental. Volume I.
Local: Editora, 2026, pp. __-__ (ISBN )
(sem as imagens).

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A Dança Macabra, última cena da película O Sétimo Selo (1957) de Ingmar Bergman (1918-2007). A morte (à esquerda) arrasta seis pessoas para seu reino. Mesmo em aclamadíssimos clássicos como O Sétimo Selo, a Idade Média é apresentada anacronicamente (por exemplo, o fenômeno da Caça às bruxas foi moderno, não medieval).

I. Idade Média, eterno conceito impreciso

Para tratar da Literatura Medieval, Carpeaux se vê diante do eterno problema da preconceituosa cronologia herdada dos renascentistas italianos: o termo Idade Média. Para ser justo, devo ser preciso: apesar de publicada no final da década de 50 do século XX, sua História da Literatura Ocidental foi escrita uma década antes, em plena II Guerra Mundial (1939-1945). O que é um assombro: a historiografia de então ainda era calcada sobremaneira nos acontecimentos políticos, na diplomacia e na economia. Por isso, sua abordagem, estética e sociológica, é originalíssima: a expressão literária, ainda que criativamente original e esteticamente pessoal, está imbricada na experiência histórica real. A aplicação dos conceitos históricos deve seguir pari passu à confrontação da experiência da vida.

A aproximação compreensiva de Carpeaux ao período histórico que deu origem à Europa necessitava portanto da estupefação filosófica com o fato de ainda precisarmos explicar um termo tão inexato como o de Idade Média.1 E ele principia com a constatação dos vários renascimentos medievais e do prolongamento das estruturas romanas pelo menos até o período carolíngio (séculos VIII-IX). Adere à famosa (e sedutora) tese de Henri Pirenne (1862-1935) de fechamento do Mediterrâneo por parte dos muçulmanos para explicar o retrocesso do período2, e termina a montagem de seu cenário histórico com a concepção fechada do mundo que a Idade Média absorveu, contextualização mutatis mutandis ainda em vigor até hoje.

Por isso Carpeaux inicia sua história com a poesia anglo-saxã, Cædmon (fl. 657-684) e Cynewulf (fl. séc. IX), e sobretudo o poema épico germânico Beowulf (c.975-1025). Passa muito rapidamente pelas obras do Renascimento Carolíngio (séculos VIII-IX) e Gregório de Tours (c.538-594)3 para então se debruçar com mais pormenor pelas sagas islandesas, textos dos séculos XIII e XIV, mas que registram acontecimentos supostamente ocorridos nos séculos IX, X e XI. Seu juízo é severo (e, para os amantes do gênero, preconceituoso): do ponto de vista cristão, embora batizadas, aquelas populações eram verdadeiramente monstruosas: inclementes, ambiciosas, egoístas e violentas. O poeta Egil Skallagrímsson (c.904-995) escapa de sua rigorosa interpretação: trata-se de um grande poeta, com uma força primitiva em seus versos. E sobretudo Saxo Grammaticus (c.1150-1220), monumento dessa rude mentalidade bárbara-cristã que Carpeaux considera o Tito Lívio (59 a.C. - 17 d.C.) de sua nação.4

Foi esse deprimente elenco humano que devastou o Ocidente a partir do século IX e apagou os últimos vestígios da vida urbana da Antiguidade. A narrativa chega então ao sombrio século X (Saeculum obscurum), tempo da pornografia papal que abrangeu os governos de Sérgio III (c.860-911) a João XII (c.930-964), mas que Carpeaux apenas cita, pois prefere destacar sua pronta reação, a abadia de Cluny5 e os hinários derivados dessa nova mentalidade!

Em uma rápida sequência, cita Rábano Mauro (c.780-856), Notker, o Gago (c.840-912), Hermano de Reichenau OSB (1013-1054) e Pedro Damião (c.1007-1072), até chegar à personalidade do século XII, Bernardo de Claraval (1090-1153).6 Em outras palavras, após séculos difíceis, que presenciaram uma lenta e frágil recuperação literária, a civilização ressurgiu sob o signo do hino litúrgico e, por isso, Carpeaux se debruça sobre esse estilo poético, musical e lírico.7

Os três ciclos literários – gestas – são o tema seguinte da narrativa analítica de Carpeaux: 1) de Carlos Magno (Matéria da França), 2) da Bretanha (sobre o Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda) e 3) da Matéria de Roma (mitologia greco-romana e a Guerra de Troia). Considera ele que, apesar de seu interesse histórico, são obras de valor literário reduzido, pois inexistem sentimentos mais delicados textualmente expressos, já que não há traços psicológicos em seus personagens. Por exemplo, a Canção de Rolando (século XI), do ciclo francês, é um monumento poético tão distante de nós que mal enxergamos os seus contornos – de fato, apesar de várias passagens de batalhas, sua leitura é densa, já que o ritmo do texto é recitativo e calcado em uma variabilidade métrica.8

Mais simpática é sua percepção de outras duas importantes gestas, uma hispânica, outra germânica: o Cantar de Mio Cid e a Canção dos Nibelungos, ambas redigidas por volta de 1200. A primeira, dura e sólida, sóbria e realista; a segunda, canto de cisne do paganismo germânico, única obra do período em que se pode perceber ecos distantes do espírito trágico grego. O que todas propiciaram literariamente foi a introdução do gérmen da dissolução linguística no universalismo medieval.

Assim Carpeaux conclui o primeiro capítulo da Parte II do primeiro volume de sua História da Literatura Ocidental: a composição de um multifacetado mosaico híbrido formado por vários troncos culturais que darão origem aos sentimentos nacionais posteriores, todos ainda fragilmente amalgamados sob a égide cristã a lhes civilizar os espíritos bravios.

II. A Christianitas, universalismo cristão medieval

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As felizes multidões dos casadosLes Visions du chevalier Tondal (1475), Ms. 30 (87.MN.141), Getty Museum. As Visões do Cavaleiro Tondal contam a história de um cavaleiro irlandês rico e errante, cuja alma parte em uma jornada pelo Inferno e Paraíso com um anjo como guia. Como resultado de sua experiência, Tondal é espiritualmente transformado e promete levar uma vida mais piedosa. Antes da Divina Comédia, a história de Tondal era uma das mais populares de uma longa tradição de literatura visionária e moralizadora. Originalmente escrita em latim no século XII por Marcus, monge irlandês em Regensburg, a história foi posteriormente traduzida para quinze línguas vernáculas.

Em comparação com o anterior, o capítulo II é bem mais enxuto, quase uma preparação para o seguinte, pois aborda um momento muito importante no desenvolvimento das sensibilidades literárias do período medieval. Como no capítulo anterior em que destaca a tese de Pirenne, Carpeaux igualmente adere à notável analogia criada por Erwin Panofsky (1892-1968) entre o pensamento escolástico e a arquitetura gótica.9 É quando então toca no ponto nevrálgico para se entender a mentalidade literária medieval: seu pensamento analógico.10 A importantíssima Escola de Chartres é recordada11 para, a seguir, tratar dos enciclopedistas Alexander Neckam (1157-1217) e Vicente de Beauvais (c.1184-1264) além de Jacopo de Varazze (1228-1298) e sua famosíssima hagiografia Legenda Áurea (c. 1253-1270).12

Carpeaux se permite certa liberdade cronológica em sua narrativa, pois após os enciclopedistas recua no tempo para tratar dos devaneios da literatura visionária. Ela merece espaço pois é precursora da Divina Comédia de Dante Aliguieri (1265-1321). São as famosas Viagens ao Além – especialmente ao Purgatório (mas também a lugares paradisíacos): Visio Wettini (824), Tractatus de Purgatorio Sancti Patricii (c.1180-1184), Visio Tungdali (1150) (imagem 2)13, Navigatio Sancti Brendani (c.900).14 Tudo isso para concluir que a Idade Média não distinguia as realidades materiais das imaginárias. Ambas tinham a mesma significação alegórica e sugeriam interpretações morais para a vida terrena, provisória, entendida como uma peregrinação para a futura, eterna.15

A sátira – violenta e vulgar na pena daqueles espíritos rudes – tem seu lugar: os fabliaux.16 Mas também o amor: André Capelão (fl. c.1185) e Pedro Abelardo (1079-1142), quando então Carpeaux se detém em João de Salisbury (1110-1180), glória humanista de seu tempo, precursor de Thomas Morus (1478-1535) e prova viva da notável assimilação do pensamento clássico pelos medievais.

A seguir, os goliardos (clérigos vagabundos) merecem destaque (talvez excessivo) e, logo depois, inesperadamente, nosso autor comenta o filósofo do diálogo: Ramon Llull (1232-1316), para ele, um gênio confuso – na ocasião, o maiorquino era pouco conhecido, o que mostra a erudição de Carpeaux e a abrangência de seu olhar. De suas duzentas e oitenta obras (!), cita Blaquerna (1276-1283), o Livro das Maravilhas (1288-1289)17 e o Livro dos Mil Provérbios (1302)18 para concluir que seu legado é essencialmente poético!19 Termina o capítulo com as efusões extáticas (e eróticas) das místicas femininas: Santa Gertrudes de Helfta (1256-1302), Matilde de Magdeburg (c.1207-1294), Matilde de Hackeborn (1240-1298) e a marcante Hildegarda de Bingen (c.1098-1179).20

III. Castelos, damas e trovadores

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Inicial iluminada com o trovador Perdigon (fl. 1190-1220)Coletânea dos poemas dos trovadores com suas vidas (1201-1300), BnF ms. 854, folio 49r.

O lirismo medieval é o grande tema do capítulo III. Carpeaux se debruça pelo eterno problema de suas origens, incertas, e considera suas diversas ramificações (peninsular, escandinava, inglesa, alemã). E não se faz de rogado: trata-se de um fenômeno cultural estupendo!21 Dos mais de quatrocentos autores (inclusive trovadoras!), ele cita mais detidamente apenas os mais conhecidos: o “excepcional” Bernard de Ventadorn (c.1130-1200); o “formal” Arnau Daniel (fl. 1180-1200) – eternizado por Dante no Purgatório22 –; Giraut de Borneil (c.1138-1215), “o maior dos provençais”; o “furioso e diabólico” Bertran de Born (c.1140-1215) – Dante o colocou no Inferno23 –, e Peire d’Auvergne (n. c.1130).

Também não pode deixar de comentar o trovadorismo alemão (Minnesang) e seu poeta mais famoso, Walter von der Vogelweide (c.1170-1230).24 E conclui belissimamente: a poesia profana provençal imprimiu no espírito europeu uma nova e inédita atitude, positiva, diante da vida. Acrescento eu: com ela o amor (cortês) heterossexual e a sujeição masculina às vontades delas.25

Depois do amor cortês e dos trovadores, do prazer da vida e da música, tudo parece opaco. Mas como o fôlego da literatura medieval é pulsante, Carpeaux prossegue, e chega ao Roman Courtois, gênero literário definido como uma forma épica (narrativa) da poesia cortês, primeiro em verso (octossilábico), depois em prosa. Seu mais brilhante autor é Chrétien de Troyes (fl. c.1160-1191), primeiro autor a narrar de modo “moderno”.26 O mundo cavaleiresco, em decadência, foi idealizado, sublimado, e os temas amorosos ficaram textualmente livres para exaltações adúlteras e enaltecimento do amor livre. Carpeaux faz uma analogia: esses textos, consumidos pelo público feminino nobiliárquico, ocuparam, mutatis mutandis, o mesmo espaço ocupado pelo romance moderno no século XIX. Além do autor francês, outros merecem sua lembrança: Gottfried von Strassburg (†1210) e o maior dos poetas germânicos, Wolfram von Eschenbach (c.1160-1220) e seu clássico Parzifal.27

O elenco de obras apresentado por Carpeaux e que foram lidas com tanta avidez pelo público aristocrático europeu serve de lamento: são o canto de cisne de um marcante segmento da História da Literatura que jaz hoje abandonado no melancólico cemitério da Literatura Universal. Foram obras que marcaram solidamente a nascente coesão cultural do continente europeu. Mas, se posso consolá-lo post mortem, ouso afirmar que é nossa missão não deixar que elas morram para as próximas gerações. Nesse sentido, a reedição de sua obra preserva e finca uma chama acesa no fim do tenebroso túnel neste início do século XXI, acinzentado tempo em que todos os gatos são pardos.28

IV. Entre o Roman de Renart e São Francisco de Assis (c. 1181-1226), o fim do universalismo medieval

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Roman de Renart (1301-1350), BnF, Département des Manuscrits. Français 12584, folio 25r (detalhe). O Roman de Renart, mais que uma sátira socia ácidaé um épico da cultura ocidental. Ao incorporar elementos do folclore popular e tradições de fábulas e bestiários, a obra parodiou gêneros e tradições literárias nobiliárquicas como as chansons de geste, os romances cortesãos e a poesia lírica.29

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas